Joker

•2 02UTC Novembro 02UTC 2009 • Deixe um comentário

Meu amigo Joker. Palhaço, comediante, satírico. Você consegue se lembrar exatamente a sensação de medo mórbido? Você consegue se lembrar de como é pensar que algo pode atingir sua cabeça na próxima esquina?

Eu estava sendo carregado, e era quase meia-noite. Eu queria – o que eu mais queria na minha vida naquele momento – era pisar em casa, entrar no meu quarto e acordar cedo no outro dia. Era quase meia-noite e tinha gente me esperando em casa. Não tinha para onde correr, não tinha para onde andar, era quase o outro lado do mundo (cidade). Bem que vontade não faltou de saltar do veículo.

Por toda rua e toda avenida o vento contava-me histórias de terror. Talvez uma bala perdida. De fato, eu imaginava como era: um barulho, um impacto, dois ou três segundos você vê todo o sangue escurecido pela noite vazando pela carroceria. E acaba. E chega o portão.

No meio de um monte de gente, poderiam me seqüestrar a qualquer momento. Nunca tinha visto ninguém dali. Resolvi permanecer quieto, era o melhor que poderia fazer, por mim, por minha vida e por quem mais que eu gostasse no universo. Antes de falar, pense. Antes de pensar, não fale.

Mas o que de fato me fazia ficar calado não era ideologia, não era racionalidade, não era teoria: eu estava com medo. Medo de não ver mais minha casa. Quando o vento conta as histórias de terror, percebemos quão infantis somos todos nós ao tentarmos meter medo em alguém. Ínfimos, bastardos, pequenos grãos de mostarda pisados na praia. Derretidos, sucumbidos. E mesmo assim queremos todos ser gigantes. Gigante era o ônibus que vinha atrás da carruagem. Gigante, vermelho e vazio, luz oscilante por dentro. Motorista, cobrador e só. E cheiro de fumaça.

A cadeira dura do mesmo quarto supracitado parece almofadada depois de se passar alguns longos e longos minutos trepidando sobre lataria e ferrugem, sem ter ao menos certeza do destino. O vento sabe fazer o terror. Ah ele sabe.

O que seria um mundo sem os erros de programação, sem os insetos? Talvez fosse um mundo qualquer habitado por outra espécie qualquer, não por essa. É interessante, de fato, como quanto mais próximas as pessoas são, e quanto mais se tenta não tropeçar, mais facilmente aparece uma pedra no caminho e a gente rala o joelho todo.

A pedra não apareceu por alguma obra demoníaca que visava só avacalhar a vida, apareceu porque o mundo tá cheio de pedras e elas rolam dos barrancos de vez em quando. E com o costume de se olhar sempre à frente, esquece-se de olhar para o chão e perceber que o pé está pisando na pedra. Só se percebe quando a cabeça bate na terra.

O jogo sempre traz cartas aleatórias, hora se sai com uma boa mão e bolsos cheios, noutro momento o bolso está vazio e a mão não ajuda. Não há um jogador que sempre ganhe, nem outro que sempre perca. O que perde tenta ganhar na próxima rodada, o que ganha não quer perder. Assim como as interações eletromagnéticas são um quadro impressionista, bem visto de longe, amontoado de borrões quando próximo.

Que dizer quando as interações quebram? Fica um momento de silêncio, exatamente da mesma forma que quando a caixa de som queima no meio de um show. O vocalista tem suas escolhas: pode cooperar com o silêncio e ouvir os murmúrios críticos da platéia, ou então cantar à capela qualquer música já conhecida que não consta no repertório, esperando apoio do público para matar a falta de notas.

Humanos todos somos suscetíveis a erros ingênuos e imbecis, principalmente quando manchamos a parede de alguém que nos fornece abrigo num domingo abafado. O hélio pode ter sua fissão e se transformar em dois hidrogênios. Ou não.

A Competição do Novo Século

•1 01UTC Novembro 01UTC 2009 • Deixe um comentário

Na época das pinturas nas paredes, acreditávamos que, ao desenhar a caça, esta se realizaria. Contornávamos nossas mãos para chegar ainda mais perto da conquista, da carne. Para que todos os trovões fizessem fogo a nosso favor, e não contra. A fome selecionava, a fome selecionou. O mais forte aniquilava os mais fracos e, dessa forma, perpetuaria a espécie.

A entrada do século traz inovações tecnológicas, traz menos fios, mais programas, mais programadores, mais cérebros, e alguns resquícios do que um dia foi o instinto.

O Bom Selvagem analisa sua caça, saliva alguns instantes, e lança seu veneno. Certeiro na jugular, para depois salivar pelo bulbo, pelo lóbulo, pelo tímpano. Orelha entra, orelha sai, olhos viram; a caça quase dormente tenta resistir, cada vez mais em vão. A luta não acontece entre porretes, e sim entre estradas. Pontes infinitas separam o dia da noite, o certo do errado; cortam éticas pela metade, e cada um vai para um lado.

Mãos entreabertas, venosas, arteriosas; apertam, massageiam, deslizam e esmurram. A caça, já sem consciência de sua própria consciência, esboça reação, ri. Mas não consegue. Ri. Não um riso cômico, mas um riso libidinoso. O veneno penetrava cada vez mais fundo por todas as ramificações. De longe Caesar observava e via como o caçador, apesar de perspicaz, não conseguira a caça do dia.

Existe o certo? Ou o errado? Diferentes seres seguem diferentes conjuntos de normas vitais, o que talvez seja a ética de cada um, e suprimir não é mais uma alternativa viável. O que, de fato, devemos analisar, é que há um paralelo milenar: pré-história, o ser humano mal caminhava, precisava conquistar cada vez mais, marchar, procriar, lutar, gritar. Assim conseguia sua fêmea, como qualquer outro animal. O que diferenciou o ser humano com o passar dos anos foi sua capacidade além-animal, ou seja, o único animal na superfície do planeta capaz de raciocinar soluções e prever resultados, ainda que não exatos.

Dessa forma, parece incoerente pensar que, mesmo depois de ter aprendido a aprender (i.e, Homo sapiens sapiens), tal espécie ainda deva perpetuar-se de acordo com a força física e astúcia da trapaça. Para um parasita macroscópico tão empenhado em seguir a outros sistemas galácticos e interagir com novas espécies, talvez não seja o caminho mais adequado. Talvez. Em caso de hostilidade, por ventura, seria mais fácil imobilizar o inimigo com algum aparato, que arriscar o próprio pescoço numa luta braçal.

Os conflitos acontecem quando o modo de vida de um ser interfere o de outro. Aí estão os conflitos.

Nos tempos atuais, por sua vez, há como se fossem órgãos resticiais ideológico-instintivos. Há algo que procura a procriação e perpetuação da espécie, e muitas vezes esse objetivo tenta ser alcançado alheio à evolução intelectual. Pisa-se na cabeça de um, fura-se os olhos de outro. Cego por cego numa terra de webcams, sapato por sapato – um pisoteando outro – esmagando e suando dentro das máquinas vaporelétricas - que por sua vez combustam toda a atmosfera; o trem passa junto ao carro, os dois colidem, não sobra nada do carro. Estilhaços por toda a rodovia e tripas moídas. Pré-história do século vinte e um.

Um dia, teoricamente, a espécie dominadora do ambiente conseguirá aliar a eficiência física com a capacidade intelectual: nesse dia os conflitos continuarão existindo, mas provavelmente serão cada vez menos idiotas e passarão a ser mais e mais construtivos em prol não de apenas uma perpetuação de espécie, mas sim do motivo dessa espécie ser merecedora de uma perpetuação. Evolução.

Iminência de Cair

•25 25UTC Outubro 25UTC 2009 • Deixe um comentário

Eu queria voltar àquela casa e chutar a porta. Trancá-la dentro do quarto junto comigo. Como um ser alado no alto do penhasco vendo os demônios todos passando pelo lado de fora, tendo-a em meus braços, alheio ao inferno.

Quando se anda sozinho por uma cidade dessas, qualquer ilusão é nostálgica; qualquer sombra é um evento mágico, qualquer gole d’água. Aprende-se a aproveitar cada dor no pé.

As janelas de vidro, cyberdemônios grunhindo por trás das cortinas; funciona como uma sala hermética. Apenas eu, apenas ela; fora do mundo, fora da realidade, para nos esquecermos de tudo no outro dia.

Agora nem envelopes acho aqui por perto, sinto que terei de confeccionar algum. Ou então devo contar com a sorte do vento trazer algum pedaço radioativo e muito tóxico.

Cateter

•20 20UTC Outubro 20UTC 2009 • Deixe um comentário

Dentro do Sarcófago,
Na cidade sem pulso,
Usina sem luz,
A cidade onde o Sol não existe.

Rios envenenados,
Lagos secos,
Árvores cancerígenas.

Deitado no miolo dos vasos,
O metal do juízo penetrando os capilares,
As veias,
As artérias,
Um coração de concreto e chumbo.

Pirâmide computadorizada,
Sumariamente desenhada,
Construída por aranhas gigantes.

Gota por gota,
Despeja amostras de restos,
Lixo tóxico posto para dentro do miocárdio,
Bulbo freneticamente desconfigurado,
Excesso de água numa substância ácida.
Excesso de amarelos devido aos verdes.

Três núcleos de processadores,
Subterra e mais subterra,
A mesma linha hexadecimal em loop.

Cento e dez ou duzentos e vinte;
Quão parnasiano é dissertar sobre um pedaço complexo
De carne?

Percebi uma anomalia gráfica. A fase sincronizava com mais intensidade, alguma modificação psicológica ocorre e não consigo descrever como é olhar um corpo em sua armadura, analisar toda a síntese e os pensamentos num oscilador. Ela seria a única, e ali se deitava recoberta em roupas de polydiesel e respirando sem ar. Poucos do lado de fora poderiam compreender o funcionamento, eu mal consigo. Apenas aciono controles e observo, angustiado.

Não consigo descrever tais dados como sendo algum tipo de sentimento, seria ir longe demais à estupidez da teimosia de querer ser mais do que realmente se é. São dados binários, gráficos, química; não é vida que passa no osciloscópio, não pode ser vida.

- Gstv Goyän, 1910

Capital e Carpete [texto desnaturado]

•20 20UTC Outubro 20UTC 2009 • Deixe um comentário

Aconselho, antes de começar a ler, uma xícara, ou um copo de café. Como alguns quilos d’água podem dissertar em versos sobre as escrituras do futuro, a tradução do terceiro eixo tem consistência de tijolo sulfurado, o mármore todo corroído, as estátuas caindo uma por uma.

Análise Dissertativa sobre a Terceira Interpretação: Não há Capital.

Um mundo dividido em dois, o velho e o novo; que as tragédias começassem pelo fim, e que pudéssemos todos acreditar que esses esferóides nucleares não fossem dizimar-nos todos em qualquer dia de Sol. Olho para o céu, e além dos círculos de fogo parece haver guerreiros de Odin em conflito com os santos todos de Jerusalém. Um exército de milhares, um exército solitário.

Pode ser que haja ainda mais personagens dentro do livro, atuando coadjuvantes com as já conhecidas e não menos imaginárias. Para alguém que tenha como esporte o devaneio, alguém que recebeu por recado o Universo, bem capaz seria de teatrizar uma tragédia do que se via traduzido do lado de fora da janela. Morria um cão qualquer na esquina, logo o cão era dele, a tristeza era dele, a dúvida era dele, o pesar era todo dele, terníssimo pesar. Alguém sempre sobra para contar história. Se não houvesse cão morto, este seria criado.

A história dentro da História – O velho vivo, chefe de família, numa poltrona assistindo, ouvindo as últimas notícias e os códigos do Sputnik, as crianças brincando no carpete empoeirado. Num instante, o velho, seu semblante calmo, mal percebe os vermes que começam a brotar nos poros do braço. Como alguma lepra, o velho começa a se transformar todo num verme gigante, pegajoso, úmido, com cheiro de carne podre, cheio de formigas mastigando o próprio cérebro e construindo formigueiros dentro do que antes eram artérias e agora é barro.

As crianças do carpete, por sua vez, pegam os vermes menores e pensam se tratar de mais um brinquedo. Modelam, jogam pelas paredes, pisam, comem; o tipo mais insólito de antropofagia que pude ter relato até então. Aos poucos não sobrava quase nada de gente no velho, de longe ele parecia um conjunto de vísceras vivas se movendo conforme o calor. É provável que, em pouco tempo, e com a falta de alimento, os vermes começassem a comer o carpete empoeirado, mofado, temperado com os filhos bastardos e as bandeiras e o rádio e a televisão e o Sputnik.

Volta – uma nova personagem emergiu dentro do barulho de quem não sabia assoviar, uma nova personagem que alegorizava a desordem e a incerteza, e por cima desta foi feita a reforma da casa; por cima desta nova personagem criou-se um conto que rotacionava e transladava, mas na verdade nada saía do lugar. Posto que fosse animação suspensa, não houve uma personagem real, o que houve foi apenas um buraco negro. Sem carne de verdade, mas o cheiro podre ainda existia. A dor de cabeça ainda existia. Podia muito bem ser uma invenção, mas de fato não era uma mentira.

A Gramática sempre me pareceu, de todo, inútil. Sem senso.

Tanta gente ri, gargalha, elogia e ri um pouco mais, mesmo sem ter entendido a piada. Na verdade, pouquíssimos foram os que interromperam o próprio discurso para ouvir, dá muito trabalho abrir os ouvidos, não é mais fácil que abrir os olhos: a diferença elementar é que os olhos podem fechar-se; os ouvidos são mais fáceis de serem estuprados.

A cada novo retrato, o rosto do filho do homem modelava a satisfazer a bipolaridade, os atos capitais eram criados para que houvesse certa coerência. Cada parte, cada fração do relato encaixa-se sublimemente.

Aposto recapitulativo – olhando para toda a linha da vida até então, o escritor expôs o conceito de como era seu solo, e como criara uma ópera com duetos, tercetos, quartetos, todos com a mesma voz dele, mas em tons diferentes. Não há um modo mais simples de explicar, a menos que houvesse hoje tecnologia tal que um poderia ser todos os instrumentos e vocalistas da ópera e do concerto. Talvez daqui cem, cento e cinqüenta anos.

Mastiblioteca Paramétrica (em Parâmetros)

•15 15UTC Outubro 15UTC 2009 • Deixe um comentário

Mastigando… Mastigando…
Um lençol enrolado à porta trancada,
Janela fechada
Vista ofuscada,
Os grãos de areia depositados no parapeito.

Enquanto um dia mais torna um menos,
Enquanto o sinal dos rojões converte as guerras cívicas
Em feriados religiosos.

Todo texto tem uma antítese, segundo novos manuscritos falantes encontrados. Dessa vez, encontrei também dados geográficos, históricos, terras distantes ou nem tanto (com ou sem maiúscula). Enquanto tentava traduzir, percebi que dentro de um país há outros, várias facetas e vários horários: o relógio do sul não marca a hora do norte, e numa folha de papel as linhas parecem mais longas e os textos mais extensos.

Aproveito este propício momento, viajante nameless, para um mea culpa: senti que, há alguns textos, tenho devido devidas revisões. Há por demais repetições e exageros exagerados. Tentarei algumas recomposições, traduzi tudo muito rápido.

BIBLIOTECA – Um grato tesouro encontrado por estas terras sem palmeiras. Estudos, pesquisas, tecnologias mirabolantes, jornais! E jornais escrevendo sobre jornais. Milhares de anos e as descobertas pareceram parar apenas quando todos evacuaram. Não posso deixar que tal construção se torne outra alexandrina em chamas.

Parece muito presunçoso, mas hei de revisar. Não interprete erroneamente… Sei que você também zela por seus livros, suas fotos e seus baús.

Codex 289

Uma árvore cresceu certa vez, próxima à colina do nordeste. Era a única arvore num longo hiato, todos nós contemplávamos. Não era muito grande, mas já era como uma grande escultura de Gaia. Fomos presenteados com a sombra e com o conhecimento. Na árvore isolada, um pássaro chegou a construir seu ninho. O primeiro pássaro, sem ainda gênero. De seu ninho novos pássaros brotaram, e aos poucos a arvore ficou pequena para as vidas voadoras.

Gaia, por sua vez, semeou na boca dos pássaros novas sementes; estes voavam e espalhavam os brotos, e em meses outras raízes passaram a refibrar o solo – suponho que em mais algumas semanas germinaria uma floresta onde antes era uma solitária colina.

Os animais trazem a floresta, ou as florestas trazem os animais? O dicionário faz as palavras, ou as palavras fazem o dicionário?

- in: Codex Gaia; p. 289; Prypiat.

Codex 510

Quanto ao futuro… Foi Sartre. A existência vista como um estado de passageiros pixels de (…), um heterônimo escrevendo sobre um espelho que reflete dentro do homônimo. Sartre apenas catalogou algo percebido pelos jagunços, à maneira de saga. Utilizando-se de métodos comparativos, vê-se Odisseu e os ciclopes: duvida-se do demônio, nunca se sabe se o pacto fora concretizado; talvez fosse o diabo, o amigo pode ser uma personificação, dizia ele.

Tiros randômicos disparados a esmo, bem mirados numa sala aberta. Um cego guiando outro para o abismo; nações caindo enquanto revelam-se as verdadeiras identidades assassinas, mortas riscando o final dos contos naturais épicos; enquanto isso, as torres implodem.

Ser grande, ser grande, ser grande sertão. Discordo quanto ao que diz sobre multitarefas. Há a possibilidade, não-rara, de se realizar diversas ramificações sem que, necessariamente, nenhuma fique aceitável. As percepções sensoriais de um não são singulares; a sinestesia, embora subliminar, percorre os negativos decibéis juntamente com o fi do fluxo dentro da cabeça.

Então não é absurda uma tradução em vários remakes e demakes, uma vez que, apesar das ligações e semelhanças, há notabilíssimas diferenças de abordagem.

Escolher o léxico, por sua vez, é também parte integrante da estrutura metalingüística da tela escrita. Um profeta fala, um aluno ouve com atenção sobre quem descobriu as Américas e não quis crédito. Ele nem sabia que estava pisando num mundo novo. Outro recurso intrigante é a troca de sufixos, de forma que palavras diferentes semelhantes se encaixem, a formar tubos nanométricos de semântica nova (também subjetiva, mas assim se formam os tubos: cheios de incoerências).

- in: Codex Krng; p. 510; Prypiat.

Post scriptum: a carta será enviada em breve, não sei ao certo sobre quando ela chegará de fato. Mas um dia ela chega, embora seja provável que ela, de outra vez, perca-se ao longo do caminho. É o sistema.

O Relógio Parado da Praça

•12 12UTC Outubro 12UTC 2009 • Deixe um comentário

Erguido por antigas civilizações, num tempo onde o Sol não nascia no mesmo lugar e não se punha, pedra sobre pedra e o mundo girando a marcar. Um pêndulo, também, hoje não funcional, logicamente, hipnotizava as folhas e as calçadas.

Contemple como as cachoeiras tornam-se fontes,
Como os templos tornam-se Igrejas.

Chegou, então, um novo tempo onde todos tinham o próprio tempo no bolso. Corrente de ouro, prata, cobre ou ferro ou titânio ou até plasma, não importava. O relógio erguido há tempos, já desajustado, servia como figurante; atuava nas cenas de fundo, subliminar às ações corriqueiras dos grandes filmes vividos. Várias câmeras fixas, sensores, elevadores, bem como o que levava ao apartamento de Spencer (ou o que prensava uma banda inteira em qualquer filmografia da época pós-moderna). Era como um grande prédio horizontal. Os vizinhos, em maioria, pareciam, no fundo do coração, odiar uns aos outros.

Vez ou outra, algum bêbado pode ter parado e dormido nas pedras, acordado assustado ao perceber que às três da manhã o sol queimava sua testa e a Lua havia fugido. E notou-se, então, como era engraçado: a garrafa esvazia-se em tão pouco tempo com tantos poucos goles, o dia amanhece, passa, pragueja todo o deserto por cima do travesseiro, e parece ter passados apenas minutos!

Os séculos vão-se embora, e o mesmo bêbado acorda outra vez, olha para o relógio que marcava três da manhã, e se pergunta que humanidade seria tola o suficiente para confiar o tempo a algo que não se move. Nos olhos dele, o relógio era o mesmo sempre, os mesmos ponteiros parados, pêndulo rígido. Certo que os contextos eram desprezados, que contextos haveria de pensar o pensador se sua garrafa já estava vazia desde duzentos anos atrás? O contexto era comprar uma garrafa nova, daqui outros centos, por mais centavos achados em qualquer moita anoitecida.

Deparei-me com um ser, outro ser. Era humanóide, como todo o resto, e estava encarando, admirando os galhos da árvore, olhando para cima, sentado sobre o banco. Olhar serenóide; algumas poucas nuvens no azul clareado, círculos brancos e a grande hipérbole dupla continuava ali. Diferentemente daquela noite dos logaritmos, onde, pasmem, era noite!

Bares esquecidos, garrafas fechadas e lacradas, cofres, dinheiro podre pelo chão e portinholas de madeira (às vezes, nem isso). Dentro dos buracos de bueiro, algum tempo perdido, provavelmente, possivelmente. Depois desse tempo todo, nem os buracos parecem ter o mesmo fedor. O esgoto todo deve ter secado desde que todo mundo fugiu daqui.

Ou só o líquido fétido. Alguns pedaços sólidos e alguns baús devem descansar nas galerias subterrâneas do destino das descargas. É um bom projeto de caminhada, por ventura. Penso se algum dia, quando havia mais gente, alguém pensou em andar pelo bueiro. Sentir a podridão molhando as solas dos pés, o cheiro macabro entrando pelas fossas, baratas e formigas e lagartos andando freneticamente pelas canelas, braços, pescoço; antenas e patas roçando a boca, fagulhas de papel higiênico, restos industriais, todo o suco subúrbio num frenesi de sensações alheias a qualquer civilidade. Era a anti-moral, anti-ser, alimentação reversa: alguém um dia sentiria vontade de pegar um pedaço do lodo temperado por vermes e mastigá-lo. Sentir a consistência, o gosto, nem que fosse para vomitá-la toda em seguida.

Consis(c)tência.

Pessoa Verbal Shift

•4 04UTC Outubro 04UTC 2009 • 1 Comentário

Logo pela manhã o tempo muito úmido, alguns papéis molhados em outras calçadas… Mal consegui fechar os olhos, o telhado acima de mim trepidava, iminente queda. E lá fora o tempo continuava voando amarelo-cinzento até as altitudes mais montanhosas. Num relâmpago percebi que não estava mais chovendo.

Ainda procurava restos de ervas, passavam os dias e eu entrava mais e mais na crise de gripe. Tudo bem, apenas uma semana, mas num fim de mundo de concreto até sete dias parecem muito mais do que são. Mal consigo pensar na possibilidade de as ervas também serem nocivas, mutantes. Matando o bacteriófago, tanto faz.

Há algum tipo de modo ortográfico, este implica na inscrição clara e fechada de idéias. Métodos discursivos batidos, copiados, anos e anos da mesma coisa, as mesmas gratificantes palavras e a mesma métrica e não sei ainda o exato motivo por quê.

Num método avaliativo, linear, um ser senta em sua cadeira logo pela manhã. Pega o chumaço de textos, dá nota a eles, separa alguns e joga no lixo outros (mais árvores). Calendários e pastas a corrigir, milhões de saletas insolúveis n’água. Diga-se de passagem: reação de dupla troca. Num momento estimado próximo ao infinito, um olho passa pela prova e atinge a caneta, a caneta entra no olho com sua tinta e muda a cor da retina.

As questões mais simples lacradas pelos nós; dias anteriores a caneta está separada do olho, mas mesmo assim perfura, mancha o papel de tinta preta e depois avermelha. Nisso, o corretor pondera, o café poderia estar mais forte, o parágrafo mais claro, as palavras mais concisas, poder-se-ia usar mais citações, mais dados, mais infográficos, mais tecnopolos, mais silício, mais tinta, menos tinta, mais letra menos letra e todas as contas rabiscadas desconsideradas no canto da folha em branco rapidamente quando os minutos começam a acabar o pobre ou podre coitado grita internamente não há mais tempo escreve logo o gabarito o fim está próximo entrega e percebe o erro.

Das mãos do escrivão às mãos do bebedor de café. A máxima aproximação que dois seres viventes do mesmo casebre terão será a caneta dentro do olho, a retina com outra cor, os apontamentos de onde o texto poderia ser mais bem acentuado, mais coerente ou coeso. Uma dissertação em vão, uma rima: uma aprovação.

Colômbia

•29 29UTC Setembro 29UTC 2009 • Deixe um comentário

Foram três horas intermináveis de excitação à espera que a noite acabasse. Não era apenas a escuridão entre um crepúsculo e uma aurora que se diluía no céu: terminava uma noite de cem mil anos, durante a qual milhões de homens ignoraram que no mesmo globo existiam outros milhões de homens, e que um continente enorme jazia entre dois oceanos igualmente desconhecidos. Uns e outros, inconscientemente, se esperavam. Os europeus, guiados por Colombo, haviam chegado para descobrir a América. Mas o que dizer daqueles que estavam do outro lado do oceano, todos os povos do mundo chamado novo, que viviam há milênios como protagonistas da sua solidão, intatos e sem impaciência?

- GRANZOTTO, Gianni. Cristovão Colombo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985, p. 149.

Shal

•28 28UTC Setembro 28UTC 2009 • Deixe um comentário

Rodas, molinetes. O concreto não tinha o mesmo cheiro sem sangue, gota a gota, agulha após agulha. Toda noite reservava seu banho, sua piscina, sua banheira. O mundo estava muito cheio, e poucos mereciam a pureza de viver e andar pra lá e pra cá. Poucos mereciam ou mereceriam.

Um corpo fechado, as bactérias chegavam a temer entrar na corrente sanguínea do dono das agulhas e aquele que decidia como e quando derramar as hemoglobinas pelos asfaltos e calçadas. Os desmerecedores jamais teriam o prazer de morrer instantaneamente, deveriam agonizar, implorar, ver a vida toda passando, delirar, derreter, gritar sem poder.

A pupila dilatada e o braço arrepiado, o cérebro ejaculando seus hormônios e sua ira sobre as narinas cheias de pó. Paulada na cabeça, traumatismo, fratura exposta. No crânio.

Além do terror real, havia também os contos. Frases, cartas, ruas cruzadas. Shal andava com sua arma emadeirada pelos semáforos, esperando a cada esquina uma nova presa para o divertimento, apagar era o grande entretenimento. Eco, cimento, monumento.

Iria a qualquer casa, ia deslizando pela pista sobre quatro rodas pequenas. Sua namorada, então, jamais pensaria em despertar qualquer ponto de dúvida. Aquele que olhasse um centímetro abaixo nada mais veria pelo resto da vida. Era como resolvia José às meias-noites há muito, muito tempo. O médico havia de se lembrar, e o médico despertaria dentro de cada olho vazado.

Estava ela presa às quatro rodas deslizantes, estava ela presa ao asfalto e ao cheiro férrico. E tinha de contemplar, admirando cada grito, e depois cedendo às brutalidades. Toma, mata. Toma, espanca. Toma, enfia. Toma, aperta. Toma, estrangula. Toma, chupa. Dá pra mim, vaca. Você é minha. Vadia. Minha vadia, e só minha. Eu bebo seu sangue, se assim quiser. Eu tiro seu sangue, se assim convir. Se eu quiser te estuprar morta, eu posso. Eu sou a raça pura. Você é um animal como qualquer outro, puta.

Uma mancha atravessa a rua, fantasmas obscuros. Já seco há eras, o suco vermelho ainda penumbra. Alguns visíveis, outros moram pelos ares. Gostaria de pedir desculpas àquele dos manifestos, não segui as instruções. :(