Ciclos Radioativos

•15 15UTC Dezembro 15UTC 2009 • Deixe um comentário

Saudações! Viajantes, hoje deparei-me com uma dúvida: onde começa a noite? É quando o Sol se põe completamente? É depois que a Lua fica ortogonal à terra? É quando fechamos os olhos? Quando apagamos a luz? Quando dormimos? Quando o relógio diz que é? Onde começa, afinal?

Uma noite talvez não comece num momento exato, talvez a linha que separa dia e noite seja tão tênue… talvez sequer exista uma linha que divida dia e noite. É como o calendário, é uma questão de não se perder…
Tão incerto é o começo da noite, como incertos são todos os caminhos que as portas das estrelas abrem a cada madrugada. Uma xícara ou duas de café, uma garrafa de vinho, talvez um banco numa praça silenciosa, com ninguém a exceção dos fantasmas que correm por labirintos…

Era verde a árvore, ao menos parecia toda vez que olhava para cima. Estava na sombra da sombra, procurando onde dormir. Queria uma casa, qualquer casa. Um abrigo para poder ficar nos dias de Sol ou de chuva. Queria a cidade como casa. Queria ser parte da cidade. Ser parte de cada pilar, cada luz de cada poste, cada entulho.

Doze minutos, contando agora. Doze minutos é o que resta de bateria para este comunicador. Preciso recarregá-lo… Por tão admirável sorte hoje está bem ensolarado, dadas as devidas proporções do que é um dia ensolarado aqui por essas terras. Preciso ser sucinto. Também não há como detalhar muita coisa.

É mais difícil colocar uma roupa ou tira-la no meio da madrugada, embriagado? Olhar para os olhos de sua musa mentirosa, sentir-se enfeitiçado, como num passe de mágica, rasgar a própria camisa e atirar-se rumo ao nada?

Metalingüística pode até parecer engraçada: escrever sobre escrever… respirar inspirado no próprio respirar… festejar rumado pelo ato de festejar… soltar fogos feitos de fogos… tirar fotos feitas de luz…

Caindo, caindo outra vez nos mesmos acordes dos mesmos instrumentos, iludindo-me com as mesmas palhaçadas e truques de ilusionismo de sempre. Por um lado até que parece bom, ao menos tenho com o que alimentar minha vã imaginação, deixando um pouco de lado toda essa parte de documentário frio envolvendo acidentes nucleares… Tudo tem sua pergunta singela.

Heart as a Cup of Wine

Dear lady who live on the walls,
Inside my neck, within the breath;
Why can’t you melt this air we inspire,
Instead of humming wet songs in my ear…?


Dear lady who stand on the corner,
Floating at the photovoltaic bottles,
Writing foreign symbols in the wood;
Such hot invisible curves,
Such strawberry-smell infinite hair,
Which insists to follow this fool heart
Anywhere.


For an uncertain lady I close my eyes,
Then I dive in the glasses.

- Brnöke Lastläkke

Vá ao Circo, Palhaço!

•4 04UTC Dezembro 04UTC 2009 • Deixe um comentário

O disco pulando, e a máquina do tempo girando. O circo instalou-se ao lado do laboratório, tudo parece meio caótico com essas musicas circenses maníacas. Uma ranhura na máquina do tempo (coitada), e tento observar por dentro, como as partículas interagem, como o ferro se oxida, como as barbas crescem, como a poeira aparece.

Meu reflexo nos espelhos de fora, o toca-discos também já parece um tanto danificado devido a tanto magnetismo estrangeiro. Coisas que vêm de fora, do lado de fora da casa. Bem onde andam os palhaços da madrugada. Observando, mimetizando, gargalhando e esbravejando, bêbados, vomitando pelas ruas. Uma terra de ninguém, isso é o que parece a cidade desde que o circo chegou.

Às vezes, emergem das paredes globos oculares gigantescos, cheios de veias saltadas e coágulos. Íris verdes; tenta me sugar e ao mesmo tempo fundir-se aos meus tecidos, ler meus livros. Era uma branca e áspera parede, agora é quase um organismo. Primeiro o globo ocular, depois os capilares, pulsando junto à casa, no mesmo compasso habitual. Olhos emergem de onde era observado.

Como a parede sabe que está sendo observada? Que números fantásticos realizam naquele circo, afinal?

Como um cão, num ápice de insanidade, um deles tenta apanhar o próprio cabelo, rasgá-lo, arrancá-lo do couro cabeludo, comer o próprio cabelo, seu lanche da madrugada. O palhaço, pintado, escondendo-se não se sabe de que, exatamente. Mas se esconde, talvez nem desfaça a própria maquiagem, a fim de acreditar ser o que finge ser todos os dias.

Um dia desses mesmo um cavalo escapou do circo. Relinchou alto, cavalgou por toda a extensão da rua. Parou em casas, destruiu jardins; senhoras saíram em prantos, ao ver as orquídeas todas pisoteadas. Um garoto tentou atingi-lo com um estilingue, sem sucesso. O velho da mercearia ameaçou matá-lo com sua carabina enferrujada. O coveiro, sempre sujo e barbado, atirou, num frenesi, suas poucas moedas, seus poucos réis. Uma delas acertou o olho do cavalo, mas não foi tão forte assim. O coveiro tinha sono, afinal, assim como todos nós.

Não consigo recordar ao certo quando foi a ultima vez que o circo veio, antes disso. Creio que já é marca de sessenta anos. Muito tempo, na verdade. Aberrações, pessoas sem membros rastejando pelas ruas, como dizia meu pai. Pareciam verdadeiros vermes. Rastejavam, lambiam o asfalto, riam da própria bizarrice. Palhaços com insetos nas mãos, divertindo todas as crianças, distribuindo balas, brinquedos, o circo sempre trouxe muita alegria aos capuchos.

Oh, que lona majestosa ergueu-se desde essa semana. Quantas cores no meio da noite iluminada por tão precários postes. O cheiro exaustivo dos quitutes lá servidos e do óleo velho queimado. Que outra época do ano, que outro acontecimento faz vermos seres dançando tango no meio-fio; quando mais podemos ver gente comendo gente no meio-fio; quando mais vemos uma sodomia tão grotesca envolvendo fios de cobre e sarjetas?!

As crianças parecem não se incomodar com tantas cenas grotescas, elas ainda ganham seus doces das mesmas mãos sujas daqueles animais. Querem porque querem entrar no circo, ver o que é lá dentro, se é mais suburbano que o subúrbio daqui de fora, se há um portal mágico, se o ilusionista cria coelhos na cartola, se serra as dançarinas e estas saem ilesas.

Há algum tempo não chove. A chuva deixaria o chão escorregadio, daria margem a novos números, a grama mais verde, apesar de não poder ser vista.

E aquilo ali, agora… Uma bicicleta! Bom, não é uma bicicleta. Tem uns quarenta acentos, mas lembra muito uma centopéia, passando tão graciosa pela rua. A velha ainda está chorando as orquídeas, as crianças, ao perceberem tal movimento, já pularam da cama e também estão se esfregando pelas calçadas e gritando em busca de doces duvidosos.

O coveiro deve ter desistido de resistir: agora dança num dos postes de iluminação, com seus dentes tortos num largo sorriso, sua pá brandindo enquanto este bate nas portas de metal das vendas fechadas.

O tilintar dos sinos, agora também percebo que há cães na rua. Algumas cadelas no cio, uivando, copulando, sangrando. Gatos miando pelos telhados, toca-discos enferrujado, circo e seu êxtase na sessão da madrugada (não faço questão alguma de saber por que raios existe uma sessão de madrugada, o máximo que vi foi uns senhores de cartola e umas senhoras com pouca roupa entrando no local).

Tempo, tempo, tempo. A máquina do tempo ainda gira arranhada, e apesar do barulho lá fora e aqui dentro, ainda tento olhar por dentro. Quanta besteira, eu mesmo construí minha máquina do tempo, o mínimo que se espera é que eu saiba como foi feita.

Mas eu estava bêbado.

- Manuscrito (mal)traduzido, achado num vasto campo de entulho, próximo à Estátua.

O Pergaminho de Vuskaränia

•17 17UTC Novembro 17UTC 2009 • Deixe um comentário

O sol se punha e o pão fermentava,
Depois de algumas horas de vigília
A espera nunca é desperdiçada…
Era como a taça, o cálice, dizia ele.
Tinha a medida certa para a boca,
Sem mais, nem menos.
Vinho, dessa vez.
C
A
L
E
-
S
E
!
A base de todos os dias,
Para ele, sempre seria o pão e o vinho.

Reveille-2

•10 10UTC Novembro 10UTC 2009 • Deixe um comentário

Na virada do dia, caros viajantes. Muito sono assolando minhas circunferências, mas ainda assim senti que devia continuar transcrevendo.

Mensagens que capturei perto de outra esquina dizem sobre o final. Um dia, quando as trombetas gritarem pelos céus, e quando seres alados descerem esparramando seus cálices, dividindo o ético do asqueroso, a lâmpada elétrica do pedaço de tocha incandescente. Por entre essas mesmas construções, será derramado, gota a gota, cada pedaço do tempo: um irmão matando outro por comida, um pai furando os olhos de um filho para poupá-lo ou traí-lo. Traição e misericórdia andariam cada vez mais juntas. Mais e mais.

Vinte anos do muro, também diz o pergaminho. E muros derrubados sendo substituídos por mais muros. Muros visíveis e muros invisíveis.

Era outro dia de sol, e era por volta das sete da manhã, horário ímpar. Paramos todos com os carros, era um dia de rotina. Esperamos na frente do portão e, logo, chegou a chave. Barba, bigode, o mestre abriu o portão e passou a destrancar a porta azul de dentro. Vá – abriu-se a porta empoeirada de madeira. Entramos, rotineiramente.

Uma mesa ao centro, uma pia de barro, quadros, inscrições. Fechou-se a porta e acendeu-se um candelabro. Velas, cheiro de gente morta. Ainda certo breu, embora a luz que penetrasse pela fresta da janela. Os vultos passavam em volta, mas eu já sabia de tudo.

Deitei na mesa, consenti quando prenderam minhas pernas e punhos com correntes de ferro. Meu coração batendo, de certo, causou-me certa aflição, mas já ia passar. Tomei um comprimido para relaxar.

O mestre abriu o livro dos contos da Toscana e leu. O rito começara. Respire fundo, ouvi no meu ouvido direito. Não abra os olhos, não pense em cruzar as pernas ou qualquer coisa, o ciclo está quase fechado. A mesa começou a girar, então, e tudo parecia calmo enquanto sentia meus braços passando pelo meio das correntes.

Até o momento que subi ao teto e olhei para baixo. E vi o inferno.

Seres bizarros, perturbadores, eu quero sair, eu gritava. Entraram um de cada vez no que antes era minha casa, no que antes era o mundo em que eu vivia. Destroçando meus restos, alimentando-se de minhas tripas, meus olhos, minhas vísceras, único elemento que restou foi o cérebro. Coração; construí um mecânico. Que ainda me causa aflição quando bate.

Quando o relógio bateu, estava eu preso novamente. E só eu e a chave e a fechadura. Juntei minha mochila, saí dali e tranquei a porta. Como não mais achei o mestre, joguei a chave fora, no primeiro lago, próximo ao grande vegetal extra genético. Quanto aos outros, também nunca mais atenderam às ligações.

- Rssl Nöyridgjik V. Sch. Lakopinezze

As mesmas palavras são ditas, mas em outros termos. O mesmo significado, melhor dizendo. Sempre é um ciclo, o que muda é a forma que se interpreta o que existe, usando-se sempre de tudo o que não existe até o dia em que, de fato, podemos ver como são as portas e as estrelas de perto. É uma questão interpretativa, e se há medo de se seguir a evolução, não se segue. E maioria não segue, por ventura. Porque parece muito mais difícil que aproveitar. Trabalhar cansa; vadiar também. Mas, vadiando-se, tem-se os prazeres da flor barroca.

Mais uma página, meus caros, e fico orgulhoso de quem ainda continua a ler o que consigo transcrever. As palavras são, ainda, muito estranhas, letras e caracteres retorcidos, má caligrafia, e umas palavras que não consegui traduzir de verdade por não achar significado. Minhas mãos batem na tecla e, em poucos segundos, todos estamos com antenas emitindo e recebendo sinais. Uma maravilha tecnológica das cenas de horror que compartilho.

Eu também, por mais incrível que possa parecer: eu também.

Joker

•2 02UTC Novembro 02UTC 2009 • Deixe um comentário

Meu amigo Joker. Palhaço, comediante, satírico. Você consegue se lembrar exatamente a sensação de medo mórbido? Você consegue se lembrar de como é pensar que algo pode atingir sua cabeça na próxima esquina?

Eu estava sendo carregado, e era quase meia-noite. Eu queria – o que eu mais queria na minha vida naquele momento – era pisar em casa, entrar no meu quarto e acordar cedo no outro dia. Era quase meia-noite e tinha gente me esperando em casa. Não tinha para onde correr, não tinha para onde andar, era quase o outro lado do mundo (cidade). Bem que vontade não faltou de saltar do veículo.

Por toda rua e toda avenida o vento contava-me histórias de terror. Talvez uma bala perdida. De fato, eu imaginava como era: um barulho, um impacto, dois ou três segundos você vê todo o sangue escurecido pela noite vazando pela carroceria. E acaba. E chega o portão.

No meio de um monte de gente, poderiam me seqüestrar a qualquer momento. Nunca tinha visto ninguém dali. Resolvi permanecer quieto, era o melhor que poderia fazer, por mim, por minha vida e por quem mais que eu gostasse no universo. Antes de falar, pense. Antes de pensar, não fale.

Mas o que de fato me fazia ficar calado não era ideologia, não era racionalidade, não era teoria: eu estava com medo. Medo de não ver mais minha casa. Quando o vento conta as histórias de terror, percebemos quão infantis somos todos nós ao tentarmos meter medo em alguém. Ínfimos, bastardos, pequenos grãos de mostarda pisados na praia. Derretidos, sucumbidos. E mesmo assim queremos todos ser gigantes. Gigante era o ônibus que vinha atrás da carruagem. Gigante, vermelho e vazio, luz oscilante por dentro. Motorista, cobrador e só. E cheiro de fumaça.

A cadeira dura do mesmo quarto supracitado parece almofadada depois de se passar alguns longos e longos minutos trepidando sobre lataria e ferrugem, sem ter ao menos certeza do destino. O vento sabe fazer o terror. Ah ele sabe.

O que seria um mundo sem os erros de programação, sem os insetos? Talvez fosse um mundo qualquer habitado por outra espécie qualquer, não por essa. É interessante, de fato, como quanto mais próximas as pessoas são, e quanto mais se tenta não tropeçar, mais facilmente aparece uma pedra no caminho e a gente rala o joelho todo.

A pedra não apareceu por alguma obra demoníaca que visava só avacalhar a vida, apareceu porque o mundo tá cheio de pedras e elas rolam dos barrancos de vez em quando. E com o costume de se olhar sempre à frente, esquece-se de olhar para o chão e perceber que o pé está pisando na pedra. Só se percebe quando a cabeça bate na terra.

O jogo sempre traz cartas aleatórias, hora se sai com uma boa mão e bolsos cheios, noutro momento o bolso está vazio e a mão não ajuda. Não há um jogador que sempre ganhe, nem outro que sempre perca. O que perde tenta ganhar na próxima rodada, o que ganha não quer perder. Assim como as interações eletromagnéticas são um quadro impressionista, bem visto de longe, amontoado de borrões quando próximo.

Que dizer quando as interações quebram? Fica um momento de silêncio, exatamente da mesma forma que quando a caixa de som queima no meio de um show. O vocalista tem suas escolhas: pode cooperar com o silêncio e ouvir os murmúrios críticos da platéia, ou então cantar à capela qualquer música já conhecida que não consta no repertório, esperando apoio do público para matar a falta de notas.

Humanos todos somos suscetíveis a erros ingênuos e imbecis, principalmente quando manchamos a parede de alguém que nos fornece abrigo num domingo abafado. O hélio pode ter sua fissão e se transformar em dois hidrogênios. Ou não.

A Competição do Novo Século

•1 01UTC Novembro 01UTC 2009 • Deixe um comentário

Na época das pinturas nas paredes, acreditávamos que, ao desenhar a caça, esta se realizaria. Contornávamos nossas mãos para chegar ainda mais perto da conquista, da carne. Para que todos os trovões fizessem fogo a nosso favor, e não contra. A fome selecionava, a fome selecionou. O mais forte aniquilava os mais fracos e, dessa forma, perpetuaria a espécie.

A entrada do século traz inovações tecnológicas, traz menos fios, mais programas, mais programadores, mais cérebros, e alguns resquícios do que um dia foi o instinto.

O Bom Selvagem analisa sua caça, saliva alguns instantes, e lança seu veneno. Certeiro na jugular, para depois salivar pelo bulbo, pelo lóbulo, pelo tímpano. Orelha entra, orelha sai, olhos viram; a caça quase dormente tenta resistir, cada vez mais em vão. A luta não acontece entre porretes, e sim entre estradas. Pontes infinitas separam o dia da noite, o certo do errado; cortam éticas pela metade, e cada um vai para um lado.

Mãos entreabertas, venosas, arteriosas; apertam, massageiam, deslizam e esmurram. A caça, já sem consciência de sua própria consciência, esboça reação, ri. Mas não consegue. Ri. Não um riso cômico, mas um riso libidinoso. O veneno penetrava cada vez mais fundo por todas as ramificações. De longe Caesar observava e via como o caçador, apesar de perspicaz, não conseguira a caça do dia.

Existe o certo? Ou o errado? Diferentes seres seguem diferentes conjuntos de normas vitais, o que talvez seja a ética de cada um, e suprimir não é mais uma alternativa viável. O que, de fato, devemos analisar, é que há um paralelo milenar: pré-história, o ser humano mal caminhava, precisava conquistar cada vez mais, marchar, procriar, lutar, gritar. Assim conseguia sua fêmea, como qualquer outro animal. O que diferenciou o ser humano com o passar dos anos foi sua capacidade além-animal, ou seja, o único animal na superfície do planeta capaz de raciocinar soluções e prever resultados, ainda que não exatos.

Dessa forma, parece incoerente pensar que, mesmo depois de ter aprendido a aprender (i.e, Homo sapiens sapiens), tal espécie ainda deva perpetuar-se de acordo com a força física e astúcia da trapaça. Para um parasita macroscópico tão empenhado em seguir a outros sistemas galácticos e interagir com novas espécies, talvez não seja o caminho mais adequado. Talvez. Em caso de hostilidade, por ventura, seria mais fácil imobilizar o inimigo com algum aparato, que arriscar o próprio pescoço numa luta braçal.

Os conflitos acontecem quando o modo de vida de um ser interfere o de outro. Aí estão os conflitos.

Nos tempos atuais, por sua vez, há como se fossem órgãos resticiais ideológico-instintivos. Há algo que procura a procriação e perpetuação da espécie, e muitas vezes esse objetivo tenta ser alcançado alheio à evolução intelectual. Pisa-se na cabeça de um, fura-se os olhos de outro. Cego por cego numa terra de webcams, sapato por sapato – um pisoteando outro – esmagando e suando dentro das máquinas vaporelétricas - que por sua vez combustam toda a atmosfera; o trem passa junto ao carro, os dois colidem, não sobra nada do carro. Estilhaços por toda a rodovia e tripas moídas. Pré-história do século vinte e um.

Um dia, teoricamente, a espécie dominadora do ambiente conseguirá aliar a eficiência física com a capacidade intelectual: nesse dia os conflitos continuarão existindo, mas provavelmente serão cada vez menos idiotas e passarão a ser mais e mais construtivos em prol não de apenas uma perpetuação de espécie, mas sim do motivo dessa espécie ser merecedora de uma perpetuação. Evolução.

Iminência de Cair

•25 25UTC Outubro 25UTC 2009 • Deixe um comentário

Eu queria voltar àquela casa e chutar a porta. Trancá-la dentro do quarto junto comigo. Como um ser alado no alto do penhasco vendo os demônios todos passando pelo lado de fora, tendo-a em meus braços, alheio ao inferno.

Quando se anda sozinho por uma cidade dessas, qualquer ilusão é nostálgica; qualquer sombra é um evento mágico, qualquer gole d’água. Aprende-se a aproveitar cada dor no pé.

As janelas de vidro, cyberdemônios grunhindo por trás das cortinas; funciona como uma sala hermética. Apenas eu, apenas ela; fora do mundo, fora da realidade, para nos esquecermos de tudo no outro dia.

Agora nem envelopes acho aqui por perto, sinto que terei de confeccionar algum. Ou então devo contar com a sorte do vento trazer algum pedaço radioativo e muito tóxico.

Cateter

•20 20UTC Outubro 20UTC 2009 • Deixe um comentário

Dentro do Sarcófago,
Na cidade sem pulso,
Usina sem luz,
A cidade onde o Sol não existe.

Rios envenenados,
Lagos secos,
Árvores cancerígenas.

Deitado no miolo dos vasos,
O metal do juízo penetrando os capilares,
As veias,
As artérias,
Um coração de concreto e chumbo.

Pirâmide computadorizada,
Sumariamente desenhada,
Construída por aranhas gigantes.

Gota por gota,
Despeja amostras de restos,
Lixo tóxico posto para dentro do miocárdio,
Bulbo freneticamente desconfigurado,
Excesso de água numa substância ácida.
Excesso de amarelos devido aos verdes.

Três núcleos de processadores,
Subterra e mais subterra,
A mesma linha hexadecimal em loop.

Cento e dez ou duzentos e vinte;
Quão parnasiano é dissertar sobre um pedaço complexo
De carne?

Percebi uma anomalia gráfica. A fase sincronizava com mais intensidade, alguma modificação psicológica ocorre e não consigo descrever como é olhar um corpo em sua armadura, analisar toda a síntese e os pensamentos num oscilador. Ela seria a única, e ali se deitava recoberta em roupas de polydiesel e respirando sem ar. Poucos do lado de fora poderiam compreender o funcionamento, eu mal consigo. Apenas aciono controles e observo, angustiado.

Não consigo descrever tais dados como sendo algum tipo de sentimento, seria ir longe demais à estupidez da teimosia de querer ser mais do que realmente se é. São dados binários, gráficos, química; não é vida que passa no osciloscópio, não pode ser vida.

- Gstv Goyän, 1910

Capital e Carpete [texto desnaturado]

•20 20UTC Outubro 20UTC 2009 • Deixe um comentário

Aconselho, antes de começar a ler, uma xícara, ou um copo de café. Como alguns quilos d’água podem dissertar em versos sobre as escrituras do futuro, a tradução do terceiro eixo tem consistência de tijolo sulfurado, o mármore todo corroído, as estátuas caindo uma por uma.

Análise Dissertativa sobre a Terceira Interpretação: Não há Capital.

Um mundo dividido em dois, o velho e o novo; que as tragédias começassem pelo fim, e que pudéssemos todos acreditar que esses esferóides nucleares não fossem dizimar-nos todos em qualquer dia de Sol. Olho para o céu, e além dos círculos de fogo parece haver guerreiros de Odin em conflito com os santos todos de Jerusalém. Um exército de milhares, um exército solitário.

Pode ser que haja ainda mais personagens dentro do livro, atuando coadjuvantes com as já conhecidas e não menos imaginárias. Para alguém que tenha como esporte o devaneio, alguém que recebeu por recado o Universo, bem capaz seria de teatrizar uma tragédia do que se via traduzido do lado de fora da janela. Morria um cão qualquer na esquina, logo o cão era dele, a tristeza era dele, a dúvida era dele, o pesar era todo dele, terníssimo pesar. Alguém sempre sobra para contar história. Se não houvesse cão morto, este seria criado.

A história dentro da História – O velho vivo, chefe de família, numa poltrona assistindo, ouvindo as últimas notícias e os códigos do Sputnik, as crianças brincando no carpete empoeirado. Num instante, o velho, seu semblante calmo, mal percebe os vermes que começam a brotar nos poros do braço. Como alguma lepra, o velho começa a se transformar todo num verme gigante, pegajoso, úmido, com cheiro de carne podre, cheio de formigas mastigando o próprio cérebro e construindo formigueiros dentro do que antes eram artérias e agora é barro.

As crianças do carpete, por sua vez, pegam os vermes menores e pensam se tratar de mais um brinquedo. Modelam, jogam pelas paredes, pisam, comem; o tipo mais insólito de antropofagia que pude ter relato até então. Aos poucos não sobrava quase nada de gente no velho, de longe ele parecia um conjunto de vísceras vivas se movendo conforme o calor. É provável que, em pouco tempo, e com a falta de alimento, os vermes começassem a comer o carpete empoeirado, mofado, temperado com os filhos bastardos e as bandeiras e o rádio e a televisão e o Sputnik.

Volta – uma nova personagem emergiu dentro do barulho de quem não sabia assoviar, uma nova personagem que alegorizava a desordem e a incerteza, e por cima desta foi feita a reforma da casa; por cima desta nova personagem criou-se um conto que rotacionava e transladava, mas na verdade nada saía do lugar. Posto que fosse animação suspensa, não houve uma personagem real, o que houve foi apenas um buraco negro. Sem carne de verdade, mas o cheiro podre ainda existia. A dor de cabeça ainda existia. Podia muito bem ser uma invenção, mas de fato não era uma mentira.

A Gramática sempre me pareceu, de todo, inútil. Sem senso.

Tanta gente ri, gargalha, elogia e ri um pouco mais, mesmo sem ter entendido a piada. Na verdade, pouquíssimos foram os que interromperam o próprio discurso para ouvir, dá muito trabalho abrir os ouvidos, não é mais fácil que abrir os olhos: a diferença elementar é que os olhos podem fechar-se; os ouvidos são mais fáceis de serem estuprados.

A cada novo retrato, o rosto do filho do homem modelava a satisfazer a bipolaridade, os atos capitais eram criados para que houvesse certa coerência. Cada parte, cada fração do relato encaixa-se sublimemente.

Aposto recapitulativo – olhando para toda a linha da vida até então, o escritor expôs o conceito de como era seu solo, e como criara uma ópera com duetos, tercetos, quartetos, todos com a mesma voz dele, mas em tons diferentes. Não há um modo mais simples de explicar, a menos que houvesse hoje tecnologia tal que um poderia ser todos os instrumentos e vocalistas da ópera e do concerto. Talvez daqui cem, cento e cinqüenta anos.

Mastiblioteca Paramétrica (em Parâmetros)

•15 15UTC Outubro 15UTC 2009 • Deixe um comentário

Mastigando… Mastigando…
Um lençol enrolado à porta trancada,
Janela fechada
Vista ofuscada,
Os grãos de areia depositados no parapeito.

Enquanto um dia mais torna um menos,
Enquanto o sinal dos rojões converte as guerras cívicas
Em feriados religiosos.

Todo texto tem uma antítese, segundo novos manuscritos falantes encontrados. Dessa vez, encontrei também dados geográficos, históricos, terras distantes ou nem tanto (com ou sem maiúscula). Enquanto tentava traduzir, percebi que dentro de um país há outros, várias facetas e vários horários: o relógio do sul não marca a hora do norte, e numa folha de papel as linhas parecem mais longas e os textos mais extensos.

Aproveito este propício momento, viajante nameless, para um mea culpa: senti que, há alguns textos, tenho devido devidas revisões. Há por demais repetições e exageros exagerados. Tentarei algumas recomposições, traduzi tudo muito rápido.

BIBLIOTECA – Um grato tesouro encontrado por estas terras sem palmeiras. Estudos, pesquisas, tecnologias mirabolantes, jornais! E jornais escrevendo sobre jornais. Milhares de anos e as descobertas pareceram parar apenas quando todos evacuaram. Não posso deixar que tal construção se torne outra alexandrina em chamas.

Parece muito presunçoso, mas hei de revisar. Não interprete erroneamente… Sei que você também zela por seus livros, suas fotos e seus baús.

Codex 289

Uma árvore cresceu certa vez, próxima à colina do nordeste. Era a única arvore num longo hiato, todos nós contemplávamos. Não era muito grande, mas já era como uma grande escultura de Gaia. Fomos presenteados com a sombra e com o conhecimento. Na árvore isolada, um pássaro chegou a construir seu ninho. O primeiro pássaro, sem ainda gênero. De seu ninho novos pássaros brotaram, e aos poucos a arvore ficou pequena para as vidas voadoras.

Gaia, por sua vez, semeou na boca dos pássaros novas sementes; estes voavam e espalhavam os brotos, e em meses outras raízes passaram a refibrar o solo – suponho que em mais algumas semanas germinaria uma floresta onde antes era uma solitária colina.

Os animais trazem a floresta, ou as florestas trazem os animais? O dicionário faz as palavras, ou as palavras fazem o dicionário?

- in: Codex Gaia; p. 289; Prypiat.

Codex 510

Quanto ao futuro… Foi Sartre. A existência vista como um estado de passageiros pixels de (…), um heterônimo escrevendo sobre um espelho que reflete dentro do homônimo. Sartre apenas catalogou algo percebido pelos jagunços, à maneira de saga. Utilizando-se de métodos comparativos, vê-se Odisseu e os ciclopes: duvida-se do demônio, nunca se sabe se o pacto fora concretizado; talvez fosse o diabo, o amigo pode ser uma personificação, dizia ele.

Tiros randômicos disparados a esmo, bem mirados numa sala aberta. Um cego guiando outro para o abismo; nações caindo enquanto revelam-se as verdadeiras identidades assassinas, mortas riscando o final dos contos naturais épicos; enquanto isso, as torres implodem.

Ser grande, ser grande, ser grande sertão. Discordo quanto ao que diz sobre multitarefas. Há a possibilidade, não-rara, de se realizar diversas ramificações sem que, necessariamente, nenhuma fique aceitável. As percepções sensoriais de um não são singulares; a sinestesia, embora subliminar, percorre os negativos decibéis juntamente com o fi do fluxo dentro da cabeça.

Então não é absurda uma tradução em vários remakes e demakes, uma vez que, apesar das ligações e semelhanças, há notabilíssimas diferenças de abordagem.

Escolher o léxico, por sua vez, é também parte integrante da estrutura metalingüística da tela escrita. Um profeta fala, um aluno ouve com atenção sobre quem descobriu as Américas e não quis crédito. Ele nem sabia que estava pisando num mundo novo. Outro recurso intrigante é a troca de sufixos, de forma que palavras diferentes semelhantes se encaixem, a formar tubos nanométricos de semântica nova (também subjetiva, mas assim se formam os tubos: cheios de incoerências).

- in: Codex Krng; p. 510; Prypiat.

Post scriptum: a carta será enviada em breve, não sei ao certo sobre quando ela chegará de fato. Mas um dia ela chega, embora seja provável que ela, de outra vez, perca-se ao longo do caminho. É o sistema.