Meu amigo Joker. Palhaço, comediante, satírico. Você consegue se lembrar exatamente a sensação de medo mórbido? Você consegue se lembrar de como é pensar que algo pode atingir sua cabeça na próxima esquina?
Eu estava sendo carregado, e era quase meia-noite. Eu queria – o que eu mais queria na minha vida naquele momento – era pisar em casa, entrar no meu quarto e acordar cedo no outro dia. Era quase meia-noite e tinha gente me esperando em casa. Não tinha para onde correr, não tinha para onde andar, era quase o outro lado do mundo (cidade). Bem que vontade não faltou de saltar do veículo.
Por toda rua e toda avenida o vento contava-me histórias de terror. Talvez uma bala perdida. De fato, eu imaginava como era: um barulho, um impacto, dois ou três segundos você vê todo o sangue escurecido pela noite vazando pela carroceria. E acaba. E chega o portão.
No meio de um monte de gente, poderiam me seqüestrar a qualquer momento. Nunca tinha visto ninguém dali. Resolvi permanecer quieto, era o melhor que poderia fazer, por mim, por minha vida e por quem mais que eu gostasse no universo. Antes de falar, pense. Antes de pensar, não fale.
Mas o que de fato me fazia ficar calado não era ideologia, não era racionalidade, não era teoria: eu estava com medo. Medo de não ver mais minha casa. Quando o vento conta as histórias de terror, percebemos quão infantis somos todos nós ao tentarmos meter medo em alguém. Ínfimos, bastardos, pequenos grãos de mostarda pisados na praia. Derretidos, sucumbidos. E mesmo assim queremos todos ser gigantes. Gigante era o ônibus que vinha atrás da carruagem. Gigante, vermelho e vazio, luz oscilante por dentro. Motorista, cobrador e só. E cheiro de fumaça.
A cadeira dura do mesmo quarto supracitado parece almofadada depois de se passar alguns longos e longos minutos trepidando sobre lataria e ferrugem, sem ter ao menos certeza do destino. O vento sabe fazer o terror. Ah ele sabe.
O que seria um mundo sem os erros de programação, sem os insetos? Talvez fosse um mundo qualquer habitado por outra espécie qualquer, não por essa. É interessante, de fato, como quanto mais próximas as pessoas são, e quanto mais se tenta não tropeçar, mais facilmente aparece uma pedra no caminho e a gente rala o joelho todo.
A pedra não apareceu por alguma obra demoníaca que visava só avacalhar a vida, apareceu porque o mundo tá cheio de pedras e elas rolam dos barrancos de vez em quando. E com o costume de se olhar sempre à frente, esquece-se de olhar para o chão e perceber que o pé está pisando na pedra. Só se percebe quando a cabeça bate na terra.
O jogo sempre traz cartas aleatórias, hora se sai com uma boa mão e bolsos cheios, noutro momento o bolso está vazio e a mão não ajuda. Não há um jogador que sempre ganhe, nem outro que sempre perca. O que perde tenta ganhar na próxima rodada, o que ganha não quer perder. Assim como as interações eletromagnéticas são um quadro impressionista, bem visto de longe, amontoado de borrões quando próximo.
Que dizer quando as interações quebram? Fica um momento de silêncio, exatamente da mesma forma que quando a caixa de som queima no meio de um show. O vocalista tem suas escolhas: pode cooperar com o silêncio e ouvir os murmúrios críticos da platéia, ou então cantar à capela qualquer música já conhecida que não consta no repertório, esperando apoio do público para matar a falta de notas.
Humanos todos somos suscetíveis a erros ingênuos e imbecis, principalmente quando manchamos a parede de alguém que nos fornece abrigo num domingo abafado. O hélio pode ter sua fissão e se transformar em dois hidrogênios. Ou não.


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