Estômago [IV]
Da velocidade.
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Cinza profundo, penetrando naquilo tudo o que existia antes, enterrando como cadáveres qualquer sinal de luz, qualquer sinal de cor.
Muito monocromático, ao menos para mim. Mas eu tenho que gostar, não há outra escolha, nenhuma delas. Tudo se resume a não aproveitar as noites, ver os dias passarem, prazos imundos, papéis, obrigações. Olhei certa vez para um atlas geográfico. Há certos borrões ainda por lá, a gravidade mancha os livros também. Não foi algo que pude resistir, embora tentasse. E tentei muito, na verdade.
Dos infernos agora procuro o mais confortável deles, a idéia de “paraíso” não parece fazer muito sentido com tudo o que vi aqui. Aquilo que de mim cobravam, pouco a pouco começou a corroer. Não a carne, esta ainda está em perfeitas condições. Corrói o resto, aquilo tudo que eu fujo todos os dias, mas sei que está lá. Fugir, aprendi aqui a fugir. Um dos grandes ensinamentos que forçaram tanto tempo para dentro de mim foi este, afinal. Fugir salva.
Mas nunca se sabe por quanto tempo…
Então o que estou prestes a fazer não é fugir, pelo menos não vejo como fuga. Para algum lugar talvez eu vá. Já é tarde, as ruas estão um tanto sombrias por agora, sinto calafrios na espinha, o vento gélido sopra sem piedade. Vento.
Há vários cruzamentos, não sei onde termina essa ou aquela rua, e não posso saber como terminam todas elas. Ponho-me agora a observar atentamente cada uma, e é inexplicavelmente estranha a sensação de que terei de esquecer a maioria delas. Para sempre, e nunca mais poderei pisar nos asfaltos que agora vejo. Claustrofobia. Estou, na verdade, cedendo. O interior pode se livrar e voar quanto mais sou apertado por todos os lados do lado de fora da janela. Mas é insano. Só posso pensar assim uma vez que assim estou aqui. Pelo menos que eu lembre. Há quem saiba muito mais que eu, mas alguma razão, no mínimo estranha, faz-me ainda não estar preparado. Manipulado por si mesmo. Os professores do futuro adorarão ou odiarão tal termo, os alunos do presente vão apenas achar mais um clichê. Digo àqueles que se esforçarem para ler até aqui. A maioria não passa nem perto. Você não passa nem perto. Porque você fede tanto quanto essas palavras. Assim como eu fujo tanto das escadas, você foge dessas palavras.


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