Arquivos Mensais:outubro 2011

Terrae Laceranda

Quando alguém te desejava boa viagem, antes daqui, não era exatamente assim que você pensava que seria… Certo?

Era um lugar que não conhecia o Sol. Era noite o tempo todo. Um grande rio escuro e profundo, por onde placas de gelo flutuavam. O condutor do barco tosco me levava por entre o caos, como se houvesse um lugar certo para me despachar. Dei a ele, antes, uma moeda, porque era assim que funcionava, e eu já sabia que era assim, mesmo sem saber de mais nada naquele ponto.

Ao longe, montanhas de agulha; algumas luzes incertas – não consigo pensar em que tipo de civilização poderia viver por lá… Talvez criaturas minúsculas, talvez homúnculos, talvez gnomos d’alguma sorte, talvez demônios… Mas não parecia o inferno. Era mais próximo de um purgatório.

Deixou-me o condutor sobre uma placa de gelo, muito fina, que não suportava meu peso. Comecei a afundar, e o primeiro teste do purgatório envolvia escolher que caminho seguir. Procurei a próxima placa de gelo, a que estava à minha direita, e por tal caminho rastejei com meus pés.

As placas derretiam antes mesmo d’eu pisá-las. Não havia tempo para pensar nas escolhas. Eu só queria algum chão firme, onde quer que fosse, por que quer que fosse. O que quer que fosse um chão firme naquele lugar… Eu só queria um chão firme para desfalecer.

Desmaiado, vi-me saindo de mim mesmo num punhado de terra. Dentro do caminho que escolhi sem saber, havia uma trilha. Segui-a, com a dor que me crescia às pernas. Era uma estrada tortuosa e cheia de pedras pontiagudas até um ponto mais alto de alguma das montanhas.

Conforme minha visão ia se clareando, iam escurecendo os contrastes do mundo. Havia por lá, às encostas, árvores secas. Galhos e mais galhos, que se desdobravam, retos, em fractais. Mandelbrot, Julia, Sierpinsky, todos pareciam ter construído cada folha que não existia. Eram obras matematicamente belas, mas que não inspiravam qualquer tipo de vida.

Havia vida, porém.

Ao alto de uma das montanhas de agulha, pus-me a contemplar o horizonte acinzentado. Alguém conversava comigo. Uma criatura sem cara, sem corpo, e provavelmente sem voz – uma vez que as palavras que me vinham eram pronunciadas no que sempre conheci como sendo meu próprio som.

Mostrou-me a criatura o que havia abaixo de mim. Entre cada ponta das montanhas, nas pedras concretas, alguns buracos. Nos buracos, alguns tipos de pássaros que não saíam de suas tocas. Não vi sequer um deles voando, mas havia muitos ninhos. Era o único tipo de vida daquela região, além da civilização que lá se instalou.

Mesmo o modo de vida adaptado ao purgatório da matemática se recusava a sair de seu buraco para encontrar o céu.

Era difícil mesmo se curvar para ver alguma outra coisa. As árvores secas se estendiam por todos os cantos, e cutucavam os olhos num movimento descuidado. Era como uma rede de espinhos, mas não eram espinhos. Eram árvores, afinal. Secas, sem folhas, escuras, mórbidas… Mas árvores, enfim.

Desci a estrada de terra, sem ajuda, contemplei as luzes que se acendiam às paredes do horizonte conforme ia escurecendo. Não era como um ciclo natural de claro/escuro. O mundo ficava escuro conforme eu descia, e claro conforme eu subia. As luzes se acendiam e se apagavam por minha culpa, e era esquisito. Não vi as criaturas, mas as luzes.

Entrei ao rio, e descobri que não havia temperatura. Não era quente, nem frio. Não tinha densidade. Não era, na verdade, sequer profundo ou raso. Era como se as árvores secas houvessem derretido e se transformado naquele fluido. Remei até outro bloco de gelo, que ao me ver também começou a se desintegrar, antes mesmo que eu pudesse tocá-lo.

Subi ao primeiro bloco e escolhi outro dos caminhos, e corri, desesperadamente, para não me afogar no fluido que sequer oferecia perigo. Era mais triste, afinal, afogar-se num lugar sem perigo que ser cutucado nos olhos por árvores num outro universo muito mais perigoso.

Eu queria o perigo, porque nele é que moravam os pássaros. E eu queria ver os pássaros, ao menos um que fosse, voando por entre Mandelbrot, Julia e Sierpinsky.

As paredes começaram a se concretizar enquanto eu corria. Ladrilhos, camas, janelas, tudo parecia se formar enquanto eu corria por cima das placas de gelo antes que elas pudessem me levar. Ao final lá estava eu, numa cama de hotel, com uma janela à esquerda e receoso sobre a realidade daquela realidade.

No último momento, contemplei o que havia do lado de fora.

O Gordão

Kernel = Null Space ; Range -> Imagem ; Rank -> Posto

O gordão vinha andando pela rua, cômico. Era gigantesco perto de sua mala, a qual vinha sendo arrastada, suja, rasgada, velha, desengonçada; gambiarra. O gordão engraçado tinha um semblante pesado, cansado, afoito, e o cabo da mala quase se desintegrava em suas mãos inchadas.

Não há fita isolante poderosa suficiente para agüentar algo fadado a se despedaçar ao meio da avenida.

Noite anterior – muita gordura e muito sal pra pouco sangue. Dor o tempo todo, calor sufocante; gigantesco de gordo, mas a fome não ia embora. Queria comer, mas não tinha nada de gostoso no armário dos fermentos. Era tudo amargo, e de salgado só havia sal.

Gemia, retorcia com todo seu suor animalesco na cama. Dores latejantes; ele só queria comer, mesmo com toda aquela barriga. Era uma barriga enorme, mas parecia ser povoada apenas por vermes invisíveis.

Não eram vermes. Era gordura.

Num ato desesperado, o gordão foi à cozinha e começou a comer pó de café, sem nada mais. Era café puro, sem água, sem dignidade. O pó puro do desespero, torrado nas fornalhas da decepção. Negro como seus pesadelos, amargo como seus sonhos.

Após três colheradas generosas, o gordão se jogou ao chão cheio de rastros de baratas e outros insetos mais sujos, com todas as suas dores insuportáveis, que agora já tomavam o corpo todo como fosse uma possessão demoníaca. Continuava com fome.

As criaturas que moram embaixo dos eletrodomésticos acompanhavam ansiosas. Seria hoje o dia delas se alimentarem de tão grandioso cadáver?

Nem sua maleta tão estimada e tão antiga, pela qual tinha tanto sentimento, a qual ganhara de seus últimos entes queridos vivos, já o conseguia acompanhar. Estava ela despedaçada dentro de algum lugar escondido da casa, inútil, cadavérica, vazia.

Tudo parecia estar morto além dele, mesmo o mundo que sequer tinha vida.

Ali estava ele, sozinho, jogado na cozinha suja. Suado, cheio de fermento, pó de café e lágrimas incontroláveis. Gritos por piedade, mas não havia ninguém o fazendo mal. Fome, mas cheio de gordura por dentro.

A maior das solidões não parecia estar perto de ser preenchida. O gordão desmaia, em vão, sentindo o cheiro de seu veneno.

Hoje não tem janta.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.