O Gordão

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O gordão vinha andando pela rua, cômico. Era gigantesco perto de sua mala, a qual vinha sendo arrastada, suja, rasgada, velha, desengonçada; gambiarra. O gordão engraçado tinha um semblante pesado, cansado, afoito, e o cabo da mala quase se desintegrava em suas mãos inchadas.

Não há fita isolante poderosa suficiente para agüentar algo fadado a se despedaçar ao meio da avenida.

Noite anterior – muita gordura e muito sal pra pouco sangue. Dor o tempo todo, calor sufocante; gigantesco de gordo, mas a fome não ia embora. Queria comer, mas não tinha nada de gostoso no armário dos fermentos. Era tudo amargo, e de salgado só havia sal.

Gemia, retorcia com todo seu suor animalesco na cama. Dores latejantes; ele só queria comer, mesmo com toda aquela barriga. Era uma barriga enorme, mas parecia ser povoada apenas por vermes invisíveis.

Não eram vermes. Era gordura.

Num ato desesperado, o gordão foi à cozinha e começou a comer pó de café, sem nada mais. Era café puro, sem água, sem dignidade. O pó puro do desespero, torrado nas fornalhas da decepção. Negro como seus pesadelos, amargo como seus sonhos.

Após três colheradas generosas, o gordão se jogou ao chão cheio de rastros de baratas e outros insetos mais sujos, com todas as suas dores insuportáveis, que agora já tomavam o corpo todo como fosse uma possessão demoníaca. Continuava com fome.

As criaturas que moram embaixo dos eletrodomésticos acompanhavam ansiosas. Seria hoje o dia delas se alimentarem de tão grandioso cadáver?

Nem sua maleta tão estimada e tão antiga, pela qual tinha tanto sentimento, a qual ganhara de seus últimos entes queridos vivos, já o conseguia acompanhar. Estava ela despedaçada dentro de algum lugar escondido da casa, inútil, cadavérica, vazia.

Tudo parecia estar morto além dele, mesmo o mundo que sequer tinha vida.

Ali estava ele, sozinho, jogado na cozinha suja. Suado, cheio de fermento, pó de café e lágrimas incontroláveis. Gritos por piedade, mas não havia ninguém o fazendo mal. Fome, mas cheio de gordura por dentro.

A maior das solidões não parecia estar perto de ser preenchida. O gordão desmaia, em vão, sentindo o cheiro de seu veneno.

Hoje não tem janta.

Sobre jguilherme

Tem quem leia os parágrafos. Eu escrevo os versos.

Publicado em 3 de outubro de 2011, em Vômito e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. “Num ato desesperado, o gordão foi à cozinha e começou a comer pó de café, sem nada mais. Era café puro, sem água, sem dignidade. O pó puro do desespero, torrado nas fornalhas da decepção. Negro como seus pesadelos, amargo como seus sonhos.” Poesia em meio a uma crônica que me lembra as do Veríssimo.
    Texto apreciável, meu caro

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