Terrae Laceranda

Quando alguém te desejava boa viagem, antes daqui, não era exatamente assim que você pensava que seria… Certo?

Era um lugar que não conhecia o Sol. Era noite o tempo todo. Um grande rio escuro e profundo, por onde placas de gelo flutuavam. O condutor do barco tosco me levava por entre o caos, como se houvesse um lugar certo para me despachar. Dei a ele, antes, uma moeda, porque era assim que funcionava, e eu já sabia que era assim, mesmo sem saber de mais nada naquele ponto.

Ao longe, montanhas de agulha; algumas luzes incertas – não consigo pensar em que tipo de civilização poderia viver por lá… Talvez criaturas minúsculas, talvez homúnculos, talvez gnomos d’alguma sorte, talvez demônios… Mas não parecia o inferno. Era mais próximo de um purgatório.

Deixou-me o condutor sobre uma placa de gelo, muito fina, que não suportava meu peso. Comecei a afundar, e o primeiro teste do purgatório envolvia escolher que caminho seguir. Procurei a próxima placa de gelo, a que estava à minha direita, e por tal caminho rastejei com meus pés.

As placas derretiam antes mesmo d’eu pisá-las. Não havia tempo para pensar nas escolhas. Eu só queria algum chão firme, onde quer que fosse, por que quer que fosse. O que quer que fosse um chão firme naquele lugar… Eu só queria um chão firme para desfalecer.

Desmaiado, vi-me saindo de mim mesmo num punhado de terra. Dentro do caminho que escolhi sem saber, havia uma trilha. Segui-a, com a dor que me crescia às pernas. Era uma estrada tortuosa e cheia de pedras pontiagudas até um ponto mais alto de alguma das montanhas.

Conforme minha visão ia se clareando, iam escurecendo os contrastes do mundo. Havia por lá, às encostas, árvores secas. Galhos e mais galhos, que se desdobravam, retos, em fractais. Mandelbrot, Julia, Sierpinsky, todos pareciam ter construído cada folha que não existia. Eram obras matematicamente belas, mas que não inspiravam qualquer tipo de vida.

Havia vida, porém.

Ao alto de uma das montanhas de agulha, pus-me a contemplar o horizonte acinzentado. Alguém conversava comigo. Uma criatura sem cara, sem corpo, e provavelmente sem voz – uma vez que as palavras que me vinham eram pronunciadas no que sempre conheci como sendo meu próprio som.

Mostrou-me a criatura o que havia abaixo de mim. Entre cada ponta das montanhas, nas pedras concretas, alguns buracos. Nos buracos, alguns tipos de pássaros que não saíam de suas tocas. Não vi sequer um deles voando, mas havia muitos ninhos. Era o único tipo de vida daquela região, além da civilização que lá se instalou.

Mesmo o modo de vida adaptado ao purgatório da matemática se recusava a sair de seu buraco para encontrar o céu.

Era difícil mesmo se curvar para ver alguma outra coisa. As árvores secas se estendiam por todos os cantos, e cutucavam os olhos num movimento descuidado. Era como uma rede de espinhos, mas não eram espinhos. Eram árvores, afinal. Secas, sem folhas, escuras, mórbidas… Mas árvores, enfim.

Desci a estrada de terra, sem ajuda, contemplei as luzes que se acendiam às paredes do horizonte conforme ia escurecendo. Não era como um ciclo natural de claro/escuro. O mundo ficava escuro conforme eu descia, e claro conforme eu subia. As luzes se acendiam e se apagavam por minha culpa, e era esquisito. Não vi as criaturas, mas as luzes.

Entrei ao rio, e descobri que não havia temperatura. Não era quente, nem frio. Não tinha densidade. Não era, na verdade, sequer profundo ou raso. Era como se as árvores secas houvessem derretido e se transformado naquele fluido. Remei até outro bloco de gelo, que ao me ver também começou a se desintegrar, antes mesmo que eu pudesse tocá-lo.

Subi ao primeiro bloco e escolhi outro dos caminhos, e corri, desesperadamente, para não me afogar no fluido que sequer oferecia perigo. Era mais triste, afinal, afogar-se num lugar sem perigo que ser cutucado nos olhos por árvores num outro universo muito mais perigoso.

Eu queria o perigo, porque nele é que moravam os pássaros. E eu queria ver os pássaros, ao menos um que fosse, voando por entre Mandelbrot, Julia e Sierpinsky.

As paredes começaram a se concretizar enquanto eu corria. Ladrilhos, camas, janelas, tudo parecia se formar enquanto eu corria por cima das placas de gelo antes que elas pudessem me levar. Ao final lá estava eu, numa cama de hotel, com uma janela à esquerda e receoso sobre a realidade daquela realidade.

No último momento, contemplei o que havia do lado de fora.

Sobre jguilherme

Tem quem leia os parágrafos. Eu escrevo os versos.

Publicado em 31 de outubro de 2011, em Estômago e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 Comentário.

  1. Esse texto daria um bom filme! Perfeito

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