Longilineon Outside; Moi XV

Ontem me lembrei de você! O tempo tava fechado, o vento tava gelado. Quente tava o meu café, bastante amargo. Uma vez você me disse que meu gosto também era amargo; amargo, esverdeado, entorpecente… Apesar de você, ainda prefiro ficar acordado. A amargura é doce, depois da chuva.

Hoje veio o Sol. Com o céu azul e a claridade, chegou também a revolução. Você tinha que ver! São placas por todos os lados, as ruas estão menos movimentadas que o comum, alguns até saíram da cidade! Perto da praça dos aniversários, estão se aglomerando pessoas para discutir as políticas em assembléia. Ontem mesmo um grupo entrou no laboratório, sem proteção alguma, sem óculos contra radiação ultravioleta, e me chamou para ir. Não é por nada, eu até fui a algumas dessas reuniões, mas tudo que vi não foram pessoas e argumentos. Foram jogadores de times falidos, brigas contra o vento para se demonstrar que o outro time, que também não existe, é o mais fraco.

Aqui do lado de fora do laboratório ainda tem muito vento. Ainda é gelado, então ainda me lembro de você – não pela sua frigidez costumeira, nem por sua falta de respostas por tanto e tanto tempo, mas por causa das ventanias gélidas que estavam soprando através da janela de alumínio naquela noite em que tremíamos de frio… Parece que foi ontem que acordei às três da manhã agarrando seu corpo com todas as forças e buscando calor mesmo com os cobertores todos, não?

O silêncio do horizonte azul e ensolarado e vazio só é quebrado pelas conversas das cozinheiras, não muito longe daqui, e também não muito intensamente, posto que sejam apenas duas e o almoço ainda ta longe, e pelo grafite da lapiseira. É interessante ouvir essas conversas perdidas, porque não parecem ser palavras concretas – são apenas sons preenchendo o fluido da vida e da morte, são interações distantes. Só há palavras quando prestamos atenção nelas, assim como todo o resto. Ninguém nos provou que a cor do céu é azul. Todas as definições, nomenclaturas, tudo foi postulado por conveniência, afinal. É tolice ingênua acreditar que isso tudo que existe deve ser assim sob todos os pontos de vista. Mal entendemos algumas palavras quando nos são dirigidas, por que impor que devemos compreender até aquelas que nunca foram ditas?

Ali à frente uma das cientistas acabou de pegar um café. Acho digno esse lugar manter tradições tão seculares… Aqui sequer há máquinas automáticas para servir café, são só duas senhoras. Talvez já haja falta demais de sensações humanas, não há por que tirarem de nós até o gosto imperfeito do café.

Ela colocou um punhado pequeno de açúcar, e daqui da mesa pude sentir que foi o suficiente – nem muito amargo, nem muito doce. Hoje o dia é dos ciclos de Carnot, não precisa dos extremos. Eles sempre chegam, de qualquer forma. É um teorema.

Depois ela enfiou uma colher de plástico no copo, para misturar o líquido e o sólido, e foi como se ela estivesse cutucando meu cérebro solenóide… Sempre me esqueço sobre como são sedutores os movimentos impensados do cotidiano…

Longe vai o trem. Nem tão perto para incomodar, nem tão longe para não existir. Longe o suficiente para fazer um agradável barulho que, tal qual colher de plástico, mistura a fumaça de mil e oitocentos e a fusão fria de dois mil e setenta. Vê; esses trens que por aqui passam não precisam de carvão e fumaça, mas os usam mesmo assim. Talvez seja aquilo que ali em cima escrevi; talvez precisemos dessas lembranças menores para que o futuro não seja tão amedrontador. Num segundo adiante de todas essas letras, qualquer previsão é tola. A realidade pode ser rasgada por qualquer coisa desconhecida, tudo pode ruir, o horizonte azul tão pacato pode colapsar, e ninguém pode saber como é, por que é, ou se mesmo poderá ser. É tolo prever, e tudo o que se diz sobre o futuro são apenas reinterpretações do passado, afinal.

E foi aqui que me lembrei de você. Ontem por causa do céu fechado, do frio e da amargura do café; hoje, por causa da mistura entre o passado e o futuro. Não vou mentir, ainda tenho mais estima por cafeína que por sua presença real. Lembrar de você é muito mais agradável e reconfortante que passar sequer meia centelha de segundo ao seu lado.

Não chore, entretanto. Eu não preciso de você, assim como as dores não precisam de gente e os trens não precisam de fumaça. Apesar de tudo, ainda gosto de como você me engana em tantas previsões sem sentido… Ainda me inspira sua tolice. Ainda me inspira sua imperfeição.

Sobre jguilherme

Tem quem leia os parágrafos. Eu escrevo os versos.

Publicado em 20 de novembro de 2011, em Bebei! e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 Comentário.

  1. Nada como uma lembrança auto-suficiente.

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