Arquivos Mensais:dezembro 2011
O Conto do Milênio – Capítulo 9: Novos Métodos Matemáticos para a Determinação de Raízes Reais e Complexas no Plano de Lagrange-Gauss-Euler utilizando o Teorema da Braquistócrona (L.G.E)
O que são saudades? – Perguntou-me um dos três. Sem muito raciocinar, respondi que é aquilo cujo pai é o amanhã, o filho é o presente e a namorada é o passado.
A música começou a explodir tão violentamente o canibalismo das sinusoidais interiores que comecei a sentir o som ecoando dentre as paredes do gigantesco salão. As paredes tremiam, junto com os móveis, junto com os papéis, junto com os psicopatas.
A natureza, vista por olhos humanos: É como um bicho de estimação – Não sabemos o que pensa, ou por que age da forma que age. Jogamos um pedaço de biscoito, mesmo sem saber se será tão adocicado quanto para nós. Brincamos, afagamos, criamos nomes. No final, ainda ficamos sem saber se tal sistema complexo ainda percebe nossa existência; mesmo assim sempre ficamos com um sorriso inocentemente engraçado quando nossos agrados são recebidos.
Vi o arco que as sensações de minha imaginação descreviam, como tal ciclóide de infortúnios… Tão cíclicos…
O tempo parou numa rachadura da angústia; os terços ficariam aproximadamente bem definidos. Ali eu estava, com os mesmos pensamentos de outrora.
Ali estava minha vida, parametrizada pelo tempo do arco ciclóide.
Voa num crescendo de Sepulveda
Cego dos olhos, anacrônico,
Busca o épico não escrito dos contos;
O final inacabado do ferreiro nórdico.
Explode na revelação ao fim da bateria.
k = ||r’ x r’’|| / ||r’||³ = ||dT/ds||
L = int(a->b)||r’(t)||dt
O Conto do Milênio – Capítulo 7: Corrida de Pedalinho
Hoje eu acordei com uma vontade sem igual,
que corria junto com a chave do meu carro.
Acordei com vontade de matar um inocente,
partir o corpo ao meio, por cima deixar o catarro.Queria ser o mais cruel de todos,
só pra sentir o que é a verdadeira culpa.
Livrar-me da burocracia moral imposta,
saber de fato como é ser mais podre que bosta.Ultrapassá-lo na contramão da avenida sete
e escolher com calma qual seria o local da morte.
Destruir todo o livre arbítrio da locomoção,
destronar o rei da mentira à minha sorte.Não conheço outras sensações parecidas,
todo o resto foi imposto até tal tenra idade;
ser maníaco não é buscar qualquer glória,
mas sim apenas a mais divina das sinceridades.Senti até o gosto da coluna no vidro,
crianças gritando na rua quando interrompi a brincadeira;
jogando carne moída de alguém honesto pelas calçadas,
esperando a viatura, as pedradas e as lesmas de cadeira;Tanta agressividade nunca será necessária,
um ser humano digno jamais deve pensar tais besteiras.
Podemos um dia ter em segredo prazer nas animalias:
Quem nunca acordou com vontade de abraçar uma britadeira?Colocar o cimento nos olhos, enquanto tritura o pé.
acompanhar os gritos horrorizados dos amigos,
colegas, parentes, políticos, secretários;
vendedores, artistas, escritores, estelionatários…Justiça, venha até mim;
condene-me dentro das leis, tranque-me nos cernes.
Acordei com vontade de matar qualquer transeunte,
declaro-me culpado, o mais sujo dentre os vermes.Tão constrangedor para alguém tão cidadão,
vontade besta e irrealizável para o bem comum;
Ah se as paredes do necrotério fossem de pedaços de gente,
quão doce seria o sonho de assassinar um inocente…
O Conto do Milênio – Capítulo 5: A Cortina dos Continentes
Abri a cortina dos continentes, e ela se estendeu com seu vestido cinza; caminhou pela ponte dos mundos e entrou ao meu quarto.
Estava frio. Ainda se parecia bastante com o vento que fazia na praça do tempo, há muito tempo, mas era menos aconchegante. Havia uma sublime nuance de sobrevivência, que pulsava, e buscava em forma de mãos e lábios e respirações afoitas.
Agora havia algo diferente por cima de minha cabeça. Era um pedaço do vestido, que ela mesma tratou de arrancar e transformar n’algum tipo de boina. Protegia-me do frio quando eu precisasse, mas não estava certo. O frio era ali, naquele momento, e ainda não me concretizava por dentro da mente sobre por que é mais fácil dizer como se proteger de uma ventania que sequer veio à realidade, nem nos mais longos futuros, em vez de apenas se encolher por baixo de uma coberta no frio que existe e bate ao rosto com a força do arrependimento.
Desprezei o que não haveria de acontecer e joguei os cobertores por cima dela. Estava cinza e estava frio, e ela sabia, e eu sabia, e tudo o que precisávamos dizer seria infundado, assim como todo o resto da noite. Todas as descrições, todos os atos, todas as culpas, e tudo era, é, e sempre haverá de ser infundado.
Eu não acreditava, mas minhas crenças – por um breve momento de existência – também se desprenderam de todo o resto, e à madrugada procurei o vestido cinza em minhas mãos e lá estava, e por baixo estava a pele pálida, mesmo que eu não pudesse ver, e calorosa, mesmo morta.
As pernas, sem qualquer tipo de imperfeição causada pela longa viagem. Arrepiadas, talvez pelo frio, talvez por serem apreciadas lentamente, talvez por tudo. Coxas, e curvas invisíveis guiadas magnificamente pela lanterna falha da imaginação. Todos os compassos, todos os círculos e todas as portas tímidas guiadas pela sinfonia das duas noites que se fizeram na forma de uma apenas.
Minhas mãos descobriam novos olhos para ver o passado e o futuro. Tudo o que eu não podia ver era o presente – ele era demasiadamente doce, e demasiadamente inconstante. Antes de alcançar a cintura, vi a noite que haveria de acontecer dois dias antes.
O vagão que se recusa a chegar. Já são sete e quinze, e o trem não é de atrasar tanto. Também há tanta gente neste que aqui parou, e talvez ela já esteja dentro da estação, apenas perdida, implorando em silêncio para que eu a busque.
Não minto, a sensação dos pulsos estarem apressados, inquietos, é das sensações dolorosas e angustiantes mais sublimes do tecido da espera.
Qualquer silhueta me enganava; não era por confusão, mas por ansiedade. Eu sabia que as silhuetas não eram dela, mas algo dentro de meus circuitos – que, por sinal, ela mesma fora a projetista – forçava uma realidade por dentro de outra que não se conectava com as conjecturas dos sonhos.
Haveria de lutar para sempre nos próximos quinze minutos, mas não foi necessário. Lá estava ela, embora não parecesse agoniada com a perda. Corri – por algum motivo, consegui trespassar todos os figurantes sem derramar cálices no caminho – e a ergui conforme minhas forças deixaram.
Sem muitas malas, sem muitos adornos, andamos. Subimos os montes, buscamos as bebidas e caçamos algo para comer nas florestas de titânio. Meu braço metálico entrelaçava-se com o dela, tão precisamente quanto uma definição matemática haveria de desejar.
Estranhamente, parecia que essa noite seria criada tempos depois, quando o tempo saísse de sintonia… Apenas uma ocasião esquisita dentro dos pensamentos, nada que pudesse fazer real sentido.
Ao desfoque da falta de visão continuei acariciando a cintura, e a barriga, e as costas – era tudo só pra mim enquanto ela era desfalecida. O máximo que ela podia fazer em retribuição era ficar completamente arrepiada, trêmula, enquanto murmurava qualquer conjunto aleatório de sílabas e sonhava os sonhos mais despudorados por minha culpa.
A caminhada da noite era longa, e talvez houvesse algum monstro ao caminho. Meu rosto, protegido pelos guardiões do Altar, entretanto, espantava todos eles, e minhas mãos não tremiam, e ela estava ao meu lado, perto do rio que corria com tudo o que conhecíamos até então. Não lembro das nuvens, nem da chuva, mas dos trovões.
Os trovões iluminavam as estradas perigosas, e nos fazia sentir pontas aconchegantes de proteção. Se os raios caíam tão perto, não havia monstro algum que pudesse chegar perto, não importa o tempo nem o vento.
Penso ter visto o próprio Deus do Trovão emergindo por entre o céu desfigurado, e arremessando o martelo naquelas vias próximas de nosso caminho. Era o espetáculo da tempestade que arrastava tudo e se encontrava com aquele rio pelo qual passamos tão próximos. A tempestade, os raios, os trovões, a claridade momentânea…
Tudo parecia derreter na eletricidade estática.
Acariciava, arranhava levemente, mas não realizava movimentos bruscos. Não era para ser selvagem, apenas poético, apenas calmo. A calma me faltava durante a maior parte de tudo, e estas horas valeriam minha falta de sono. Valeriam a dor em meus braços, a sensação de culpa, as músicas, as palavras, as mentiras, e todo o resto. Era, pra mim, a visão mais poética de todas, e sequer havia luz para me alimentar os olhos. Explorava, nas melhores das intenções, o corpo todo desfalecido tão próximo, tão cheio de calor, tão cheio de curvas.
Antes que pudesse sentir com minhas mãos o rio avermelhado que corria por dentro do vale da perdição, tive outro cheiro que me trouxe um pedaço do bolo de nozes que adoçava aquelas três noites fusas.
Num momento estava eu gritando, mas não era nem de dor nem de prazer. Era algum tipo de canção, que definitivamente também não era romântica.
Falava de guerras, de destruição em massa, de reis, imperadores e soldados. Com minha voz saía rabiscos de pólvora e de um exército infinito marchando das cidades aos desertos. Veículos tão grandes que escapavam das vistas de minha compreensão explodiam e espalhavam seu fogo como dragões até os confins do mundo conhecido.
Também ali em frente havia um posto de onde podíamos ver a cidade toda durante o meio da tarde. Antes do céu, a mesma que parecia ter dormido perto de mim na última noite, e que talvez também o fizesse na que viesse depois desse meio de tarde.
Ela ouvia, antes do céu, sobre a decadência da espécie… E achava lindo.
Brincando com as pontas de meus dedos e com os lábios que não podiam responder, cheguei minha respiração próxima do ouvido esquerdo. Disse, tão lento quanto em baixo volume, uma série de frases estrangeiras que havia estudado durante alguns dias, esperando apenas por este momento.
É claro que eu também arquitetava até as sensações que não fossem minhas – ela ouviria, dentro de um sonho, minhas frases, e sentiria meu toque. Acordaria, n’outro dia, sem saber muito bem o que havia se passado, mas tendo apenas uma sensação confortável depois de um sonho bom.
Minhas frases, meus toques, e isso tudo ela não poderia saber, faziam sentido apenas por dentro da terceira hora da madrugada.
O Conto do Milênio – Capítulo 4: Porta da Meia-Tarde / Suco de Tangerina
À noite das noites, observei atentamente a porta, e comecei a sentir o doce escorrer por dentro de minha garganta. Era da cor do pôr-do-sol, sobre a colina, a mesma colina de todas as outras vezes em que contemplei a porta fechada.
Já não havia tantos monstros ao lado de fora da janela, e ao pensar nisso percebi que até mesmo os mais sedentos por carne escondem um pouco de bondade dentro de si… Mesmo que a bondade seja apenas tão transiente quanto uma lágrima de quem sente falta de uma existência que se esvaiu com o veneno e o vidro.
O quarto, amarelado e escurecido, e a colina, dentro da porta, além da fechadura, com o Sol poente agradável das terras quadriculadas da malha férrea. Trens, multidões e conversas passavam antes do palco, e nele eu via a dispersão do tempo.
Procurei pela maçaneta, e encontrei um pássaro. Olhei para o pássaro, enquanto ele voava por cima do terceiro farol, que, ao que tudo indicava, antes que eu observasse sequer podia existir. Por cima do terceiro farol pousou o pássaro alaranjado, e então percebi todos os fios e toda a eletricidade que emanava do vento. Luzes, lâmpadas, lanternas, qualquer coisa que pudesse me esconder da escuridão iria se acender num piscar de olhos, sem precisar de interruptores.
Testei o bulbo e vi a luz crescendo por minhas veias, meus cabelos, e o pássaro, num instante, alçou vôo e sublimou junto à colina e à porta que já havia ficado para trás, numa dobradiça qualquer da casa da madrugada ensolarada.
Sentindo ainda o cheiro de ferro, pude me lembrar das revoluções e dos povos e das armas e das flores. Fotografias cinzas tomavam o suco solar e cintilavam em todas as cores das décadas. Eram imagens, meras imagens. A realidade, entretanto, parecia ser também apenas meras imagens, no final do dia.
Aceitei o pôr-do-sol, a colina, o pássaro e a luz alaranjada da madrugada dos monstros como a verdade que entrava por meu nariz e tinha gosto adocicado.
Olhando a cidade da raiz quadrada por cima, busquei no tempo a luminária de fogo. Entrei numa outra casa, ora gigantesca, ora estreita, e vi não mais que duas ou três pessoas. Havia música desconhecida, champanhe, um piano e um violoncelo. Entrei, invisível, pela sala. Eu não tinha nada em mãos nem em mente. Era um desconhecido formal, mas, por algum outro motivo, me era tão confortável como todas as estradas acidentadas que calejaram meus pés até então.
Observava, atônito, ainda invisível, sem saber ao certo o que falar, o que fazer, como me desculpar. Éramos eu, a sala, o piano, o violoncelo e as mãos. Elas raspavam as cordas, e arrancava as músicas mais ensolaradas da madeira, e o ar se transformava em fogo com a luminária, e todas as sensações acabavam por se confundir numa dose serena da bebida cheia de borbulhas vertiginosas.
Encontrei a brecha do tempo e andei até as horas, e abracei o círculo dos eclipses. A porta da casa era o portão que me havia aparecido certa vez. Dentro havia todas as feiticeiras, mas apenas uma delas trazia o Sol e as colinas e as revoluções.
Corri até o momento em que ela agradecia minha presença, mesmo eu não levando sequer um presente para o ritual. Lembro-me dela ter fechado a porta e, antes que a cena se repetisse, chutei bem ao lado de onde a mão dela tentava alcançar, e a porta se bateu enquanto ela, assustada, olhava para meu rosto, e ficávamos presos no quarto do farol.
Finalmente encontrei o tempo que havia perdido procurando a chave para uma porta que não tem travas. O Sol respingou à janela de vidro pela última vez antes do céu se tornar completamente roxo escuro. Num entrelace de mãos, o fogo fluiu da luminária para dentro de nossos olhos, e era o suficiente para iluminar as trevas.
A porta fechou, os monstros se foram. Por cima da colina dos campos de tangerina, misturamo-nos como sangue de uma terra que sempre teve um gosto inexplicavelmente doce.
O Conto do Milênio – Capítulo 3: Lectures on Deconstruction
E isso tudo que vi, continuou o mestre, não me disse sobre o funcionamento do Universo, como fosse uma entidade alheia – disse tão somente como funciona o próprio ser humano. Você, eu, qualquer um daqui, de qualquer partido político, que siga qualquer das tolices, concorda que um mais um é igual a dois. Do princípio básico da construção do pensamento, emergiu isso tudo que vocês anotam nos cadernos.
E o que é uma álgebra? O que significa a álgebra? Algum de vocês, docentes de matemática que me ouvem, sabe me dizer o que significa os nomes disso tudo que ensinam? E o que é a matemática, afinal? O que significa matemática? E essas convergências todas? Como podem tantas leis alcançarem o que parecem ser as mesmas águas, mesmo uma não tendo a ver sequer com o escopo de existência da outra?
Desde que a era antiga acabou e a nova começou, há quem pergunte. Há quem esteja simplesmente satisfeito, também, e são pessoas com igual honra e competência. Não trata, caros, a ciência, hoje, em se compreender as coisas. Trata de construir, cuspir uma idéia antes de todo mundo, idéia que possa ser aplicada também antes de todas as outras, e gere alimento – seja pão, seja sal, seja um número. Há quem não note diferença, com todo respeito, entre um pedaço de pão e um número escrito em papel.
A construção dos padrões e das definições: é essa a chave. Todas as teorias que aprendemos foram definidas segundo conceitos bem fechados e bem compreendidos, e não há outra escapatória para um conhecimento tão cíclico – as pontas acabam se encontrando n’algum ponto da corrente do rio. Pode demorar, pode ser muito rápido. Pode ser mera coincidência, pode unir os Universos. O que pensa demora, e é possível que sequer chegue a algum lugar na selva dos conceitos. Não é viável para todos, percebam.
É mais viável dizer qualquer besteira convincente, em vez de convencer a si mesmo de que tudo está errado e precisa ser recomeçado.
E o que aprendemos desde a antevéspera do recomeço? Aprendemos que há uma doença. Mas custa caro tratar de tamanho tumor, então deixamos apenas crescer, e que as entidades divinas digam a hora em que tudo deverá ruir e escurecer. É o que fizemos, e aqui estamos, já no vigésimo terceiro ano do novo milênio, contemplando o caos.
Olhem ao redor. Depois do contorno da esquina, a Rua 32, com seus bares e seus casebres envelhecidos pelos impostos. A avenida principal, cheia de carros em plena tarde de domingo. A silhueta das boas senhoras, cheirando o pó da realização. A noite encontrando a poeira, e tudo.
Logo ali, naquela estrutura cúbica, livros vermelhos. Mais e mais livros vermelhos. Pessoas, bebidas, cigarros, e muito barulho. Diz-se o que se quer dizer, pregam-se os métodos mais inadequados, e depois se reclama da falta de liberdade para expressar tamanhas tolices. As tolices, ao contrário do que se pensa, e ao contrário do que se quer acreditar, são as que mais encontram liberdade de expansão. Dados experimentais, os quais serão distribuídos entre vocês ao final da aula, mostram que é proporcional à quarta potência do raio da esfera livre de fricção. Confrontos, batalhas, sangue e revolta por livros que sequer foram revistos, sequer foram lidos… Mas servem como boas armas quando atirados contra uma cabeça, afinal. Sugiro que consultem o exercício sessenta e oito do capítulo passado, e verão um jeito de calcular o impacto semelhante a um desses livros vermelhos e cheios de cabelo sujo.
Pouco afastado da fumaça, aviões. Mas eles não voam, porque são feitos de plástico e de mentira. Não que a matemática seja verdadeira, mas a mentira que escorre pelas asas de cera dos aeromodelos cheira a restos em decomposição. A vontade de construir, pulsando antes dos cálculos, e se tornando um bolo de resultados falsificados, arquitetados para senão arrecadarem mais e mais pão, mais e mais tempo hábil, mais e mais documentos, mais e mais enganações.
Ouvi dizer que o que houve ali foi um corte de gastos. Foi necessário muito café para poucas noites, e tanto dinheiro para comprar o sono teve de ser descontado, infelizmente, do material das asas. Cera de vela; é isso que se usa hoje em dia.
Metal é caro.
Aqui, logo ao nosso redor, e, talvez, incluindo até nós mesmos, um castelo. Não são laboratórios, são castelos. Cinzentos, imponentes, repletos de masmorras, túneis, fossos, torres cheias de arqueiros e com feiticeiros pelos subterrâneos, como fossem formigas, desvendando a tessitura da realidade; sábios, onipotentes, quase deuses.
Alguns, em verdade, acreditam ser inclusive maiores que os deuses de nosso tempo.
É engraçado notar que nem mesmo tão poderosos construtores de tamanha arca feudal notaram que a pedra afunda ao ser colocada sobre a areia – ou até notaram, não duvido também. Duvido de muita coisa, mas não da potência cerebral dos sábios. O que acontece é que tudo ficou tão grande quanto se queria que ficasse, e não como o senso das próprias teorias adotadas mostrava que seria possível. Nenhum cálculo é necessário para se perceber que a areia voa com o vento, e que construir tamanhas edificações à beira do mar é uma simples mostra de fascínio pelo preenchimento dos espaços vazios não com alguma técnica, não com alguma álgebra, sequer com alguma ciência ou matemática, mas com tão somente imposição de algo que parece bastante concreto por um intervalo curto de tempo.
E os arqueiros, antes que me perguntem, atiram flechas tortas. Vez ou outra acabam por acertar o alvo em cheio, bem ao meio do peito… Mas não gostam de acreditar que foi por sorte. Não existe sorte no mundo do castelo sobre a areia, meus caros. Não existe.
Há também quem esteja se questionando sobre os feiticeiros, e tudo o que posso dizer é que as novas armas de guerra são simulacros do que se conhece fora do castelo como talheres de mesa… E nada mais. Reinventar algo que já existe do lado de fora desperta prazer, impõe medo com novas palavras, mesmo sendo de conhecidos significados por todos. Existe o medo de pensar que pode não ser nada, existe a necessidade de se forçar acreditar sobre pouco ser tudo. Um garfo e uma faca, por exemplo, podem ser usados para se degustar um belo queijo mal-cheiroso francês, mas, ao invés de tão sensato uso, o que os feiticeiros fazem é tentar convencer os generais de guerra sobre como melhorar os armamentos do exército do mundo baseado em algo que é perfeito para se comer queijo fora do castelo.
D’outro lado desse maravilhoso parque que se estende até a floresta, existe também o prédio dos contadores de mentira. Não são, exatamente, desonestos. É, afinal, o trabalho deles: construir mentiras cada vez mais sólidas que possam servir como índice léxico, de maneira bem abstrata, para escrever desde o porquê das coisas caírem até idéias novas sobre como fazer as coisas não caírem mais.
Não se assustem ao tropeçar no vazio. Pode ser apenas um experimento sendo tocado, tal qual música, em um compasso completamente diferente. Um bêbado é apenas um bêbado, caído nas árvores depois de uma noite cheia de festividades antes de uma prova importante. Um bêbado que vive n’outro compasso, mas na nossa mesma realidade, porém, é um espetáculo. Um fantasma. E é fascinante toda vez que se tropeça num acidente da estrutura da existência.
E depois, ali nas estátuas retorcidas, há também quem saiba muito mais que todos nós outros sobre como deve ser construída uma sala, como deve ser um quarto, e como um banheiro não tem importância alguma para uma casa. A última das preocupações num lugar feito para humanos é sobre como o humano haverá de aproveitar. Temos, todos, imaginação suficiente para viver sem banheiros, não é mesmo?
Claro que não. Mas eles não sabem. Eles sabem, dentre outras coisas, que não é muito viável construir salas sobre a areia, mas não sabem sobre banheiros. Notem que todos nós, de todos os edifícios, temos muito medo de contar esses espaços uns aos outros. Tornaria tudo mais fácil, mas quem ouve não fala, e quem fala não quer ouvir. Permaneçamos sem banheiros e sem queijo, por fim. Ou com banheiros, mas proibidos de usar talheres para comer queijo. Ou obrigados a comer queijo num banheiro, ou querer comer tudo e não poder ter um banheiro depois, tanto faz.
Não quero falar de todos eles, mas há os curandeiros. Magnificência; viajei desde tão longe, e por tanto tempo, para chegar e me deparar com isso. É um ofício dos mais dignos – tão digno quanto construir máquinas voadoras a partir do nada, tão digno quanto montar uma sinfonia desde o silêncio, tão digno quanto escrever o conjunto das letras que compõem o alfabeto de todas as civilizações, tão digno quanto pegar a gramática deste alfabeto e subvertê-la para fazer as coisas pararem de cair, tão digno quanto desprezar banheiros.
É o ofício de entrar por dentro de outro, mesmo que não se use as mãos; abraçar um câncer, e arrancá-lo, impiedosamente, trazendo o cálice – grosseiro – da cura para alguém angustiado, e derramar no apocalipse do milagre.
É um ofício digno, mas, como podemos ver segundo a figura CXXXVI/L, tem se tornado tão ineficiente quanto os aviões de cera, quanto o castelo sobre a areia, os talheres de guerra… Não se pode, e que isso fique bem claro, curar uma pessoa quando está, o curandeiro, doente da própria identidade. Não digo sobre bactérias, nem sobre algum vírus robótico. Digo apenas de não querer. Quando não se quer curar alguém, não existe técnica que permita a cura. Assim também acontece com a música: quando não se quer ouvir a própria voz, saber a História das composições pouco sentido há de fazer.
Quando não se quer compreender o mundo, do jeito que nós, inclusive eu que pareço tão diferente, observamos – e não do jeito último que todo e qualquer ser haverá de concordar -, também pouco importa quanta matemática rebuscada seja empregada. Pouco importa quanto pão haverá de trazer as noites de insônia, pouco importam os aluguéis, e os livros, e as teorias consolidadas. Pouco importa tudo.
Descrever a realidade é como interpretar uma música complexa já feita há tempos. Quando se tem vergonha de cantarolar para si próprio, a realidade morre e, ao contrário deste que vos fala, uma idéia sufocada, depois de completamente enterrada no cemitério do conforto, não volta.
Idéias sufocadas não dão aulas.











