O Conto do Milênio – Capítulo 6: O Marquês de Sorocaba

O fim é um bom lugar para se mostrar o que ainda não veio.

Anotação Pessoal: Caso I – Marquês de Sorocaba

(…) Registrado aos quinze de setembro do ano corrente, à qüinquagésima oitava repartição de Justiça da Capital.

O Marquês, homem conhecido às redondezas por sua inviolável honestidade e generosidade, conheceu aquela que seria sua dama numa festa pagã, à mesma cidade. Adentrou-se ele nos problemas que aquela trazia. Era a mais nova de toda uma linhagem, a única mulher, e também a única da família que era forçada a trabalhar massivamente para garantir o sustento dos irmãos e da debilitada tutora.

Após meses de planejamento, realizado em segredo por trás de uma das igrejas, durante as madrugadas, a fuga gloriosa. A dama deixou um bilhete junto com maior parte de seus pertences e suas memórias, a fim de buscar sua salvação no casarão do Marquês.

Consumato est, diziam os empregados na noite do casamento. Um casal promissor, perdoado de todos os pecados por preces do próprio Padre. Nada faria cálidas aquelas noites. O Marquês havia alcançado aquela que tanto procurou com o passar dos anos, e a agora Marquesa se livrara de todo o trabalho forçado – trabalharia agora somente em troca do prazer em ser útil.

Veio a maré dos tempos e das obrigações, porém. O ciclo de deveres ficava cada vez mais massivo. Não era pra ser assim, todos sabiam, mas assim o era. Não havia mais brilho nos olhos, mas o Marquês, mostrando-se generoso, ofereceu abrigo à dama, mesmo que esta não mais quisesse compartilhar os aposentos com ele.

Segundo relatos de empregados e vizinhos, o que se ouvia nas noites agora eram gritos, ofensas e maldizeres. Não se parecia de fato com um casal – ou se parecia demais. A dama, ciente de sua liberdade, passou a trazer alguns empregados para ajudá-la em serviços mais pessoais e particulares. As sessões perduravam durante madrugadas intermináveis no quarto ao lado daquele do Marquês. O mesmo não conseguia dormir.

Em parte por causa do barulho que emanava – eram sussurros, gemidos, gritos. D’outro lado, havia toda a cena despertada antes dos olhos por causa dos sons. Assim como uma flauta representa um pássaro, um gemido representa o suor escorrendo do pescoço de um e caindo aos ombros de outro.

Numa noite qualquer, o Marquês resolveu polir alguns de seus artefatos. Gritos emanavam do outro quarto, mas ele, bem vestido, apenas polia no alto de sua concentração aqueles artefatos. Cessaram os gritos por volta das duas da madrugada. Ele caminhou lentamente, para não estragar o momento daqueles que lá estavam.

Bateu três vezes à porta, sem resposta. Sabia que não havia trancas, então resolveu entrar, com os artefatos em mãos.

A cena que vira o marcaria para o resto da eternidade. Era sujo, tanto na aparência quanto nos porquês. Era a cena mais suja que jamais havia visto. Com os olhos desfigurados e descompassados, sem conseguir piscar, rasgou a pele dos dois. Ver um banho de sangue seria mais limpo, e os gritos de dor verdadeira seriam mais justos.

Mergulhado no instinto, ele bateu repetidamente no rosto da dama com o artefato, impulsivo, sem que ninguém mais aparecesse para ajudá-la. O sangue era espalhado conforme a mão fosse levantada. O artefato respingava a chuva vermelha nas paredes.

Ali estava a Marquesa em sua forma mais agradecida. Desfigurada, rasgada, surpresa, pouco depois de um orgasmo sincero. (…)

- Escrito por Wm. ; Excerto de T.S.L/Proto || A ser confirmado.

Sobre jguilherme

Tem quem leia os parágrafos. Eu escrevo os versos.

Publicado em 17 de dezembro de 2011, em O Conto do Milênio e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 Comentário.

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