O Conto do Milênio – Capítulo 11: O Covarde das Três

Não recomendado a pessoas sensíveis.

Não era a morte, não se vestia de sombra. A luz amarelada do poste mostrava bem todas as cores da face enquanto eu arremessava contra a porta do carro e via se espalhando escurecida pela sarjeta. O gosto da vingança, sem que tenha havido algo para ser vingado.

Um sentimento espiralado dentro de palavras que se separavam do significado real, assim como a própria constituição de tudo se desprendia do formato do mundo, assim como as leis se desprendiam do comportamento humano. Minha testa encontrava o nariz do inimigo, e mal sabia por que afinal eu o estava apresentando à dor.

Se há um poste, e do poste há luz, é tolo querer outra mais além desta. Pior seria a cegueira; enquanto amarelada, porém, a noturna helicoidal da ira fazia até o sangue não ser vermelho. Nada era como devia ser, e meus punhos não paravam de investir contra a face distorcida. Acertava os dentes, a lataria do carro, a parede, o asfalto, tudo. O tempo se recusava a passar. Era entre uma batida e outra, numa valsa horrenda e sem sentido.

Por dentro da luz que me chegava aos olhos eu podia contemplar pedaços perdidos, avulsos, de um mundo diferente. Dentro da sépia havia todas as outras cores, mas eu estava preso. Ali estava minha sina, sendo cumprida; ali estava o décimo primeiro demônio do livro dos covardes, gritando, babando em cima de minhas mãos sedentas por psicose. Não éramos seres humanos… Ou o éramos ao nível extremo.

O que meus olhos viam, no intervalo entre a sépia e o mundo concreto, porém, não era um homem. Era um animal que precisava ser esvaziado, reformulado, arremessado contra minha raiva até que tomasse forma tão cadavérica – mais que já fosse – que pudesse sentir vergonha da própria existência.

Eu já não tenho a hora,
Eu já não tenho a música,
Eu já não tenho um ritual,
Eu já não tenho um copo,
Eu já não tenho mais nada. 

O papel é rasgado e não posso escrever.
Sobra-me o grito, imerso em desespero,
Mas de tão seca a garganta já não posso gritar.

Quando a vergonha não vem por si própria, há dores menos elegantes para nos apresentá-la.

Do outro lado da calçada viam mulheres, viam crianças, viam velhos. Viam todos o espetáculo, sem conseguir comentar a cena. Era tão podre que chegava a ser bonito. Os insetos do canto afastado da cidade pararam para apreciar. Sujeira. Cheiro de carne estragada. Assim interpretava meu cérebro, enquanto não se concentrava apenas em despertar o sofrimento no esboço de gente que tentava se equilibrar em frente a mim.

Ele tentava dizer sobre justiça, e sobre razão, e sobre qualquer outra tolice parecida. Os olhos avermelhados, as marcas na testa e na mão esquerda, o tom alterado de voz. Houve um tempo onde o exorcismo se atingia por meio de uma prece repleta de fé.

Nos tempos do capítulo décimo primeiro eu rezei por noites e noites. O maior dos rosários começou, porém, quando cerrei meus punhos, fixei meu olhar no que se esquecera de morrer e enterrei a ira por dentro dos olhos desprevenidos da covardia.

Esboço de gente. Sai daqui, vândalo. Sai.

Sobre jguilherme

Tem quem leia os parágrafos. Eu escrevo os versos.

Publicado em 30 30UTC dezembro 30UTC 2011, em O Conto do Milênio e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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