Arquivos Mensais:fevereiro 2012
Prólogo Voynich – Hospital
A medida mais precisa é também a que mais angustia. O tempo corre entre os prédios e distorce até o mais sólido dos contornos, enquanto os giros amortecem a sensação do corpo consciente que questiona o porquê dos túneis tão velhos ainda existirem.
Levanta-se, das grades de um pesadelo, a escadaria para o lado avesso da parede desconstruída. Uma janela onde antes havia tijolo – um mundo inteiro afinado em outros tons.
Tentei olhar ao lado de fora, mas não havia mais o que olhar. A cidade toda desapareceu, em poucas horas. Os que conversam comigo nada são senão mortos. Todos nós estamos dizimados a derreter, a nos vermos em formas podres, caindo aos pedaços pelos chãos, arrastando-nos entre as grades… Não há o que fazer. Respiramos o ar venenoso da fissão dos átomos.
Estamos mortos.
Antes que minha face se desprenda de meu crânio, quero me lembrar de como sou. Quero me lembrar de como é cada fio de cabelo, quero me lembrar de cada arranhão e cada dor, antes que todas elas se juntem numa somatória do purgatório. Um pouco antes do fim, quero conseguir ler – se ainda meus olhos estiverem em suas órbitas – sobre um pouco desse tempo de ontem. Eu mesmo amanhã não vou ser nada senão uma massa em decomposição acelerada. Um monstro.
Os pacientes, todos, também estão mortos. Alguns foram poupados de saber. Outros já tem a certeza – mesmo que nada lhes tivesse sido dito.
Há, neste complexo, cerca de cento e trinta leitos, divididos em sete quartos. É uma matemática absurda, mas os quartos são suficientemente grandes. Há mais de um mês o cheiro de vômito ficou impregnado até nos salões mais limpos. Talvez o vômito tenha entrado em mim, de alguma forma. Talvez os insetos sejam uma alucinação do meu asco. Talvez as paredes grossas que se esfarelam há tanto sejam apenas uma metáfora das minhas vistas…
Os pacientes são como iscas de eletrodos. As máquinas, as bobinas, os motores passam por pescoços, e por pés, e por fluidos, e por infecções e por ninhos de baratas, e entram nas paredes, e saem pelas janelas… O cheiro do metal enferrujado se mistura com o cheiro da doença, com o cheiro do câncer, com o cheiro da ferida que não cicatriza, com o cheiro das tripas que se enojaram do corpo que habitavam e foram expulsas por si próprias em frente a todos os outros em meio a uma tarde ensolarada quando ainda havia Sol…
Um giz, ataduras, álcool, óleo e um pouco de luz carbônica tentam, em vão, distrair-me nessa longa noite que se aproxima, mesmo que ainda sejam três da tarde.
Não há luz além da lamparina. Uma nuvem se estendeu pouco depois de todos fugirem. Uma sirene gritou por metade de um dia, antes de ser jogada apenas aos ecos. É como se tudo houvesse se transformado de repente – uma parte de mim viu o que aconteceu; outra parte tem certeza que tudo foi uma alegoria.
Rádios não funcionam. Diálogos não se encaixam. Há apenas nós, mortos, e os insetos que haverão de sair das tocas quando todos dormirmos distorcidos, derretidos.
Antes que eu me cegue, quero me lembrar de como eu era ontem.
- L. Grlnd; PRYPIAT, 9-13/Sh
Uma nova paleta se estende quando a luz lapida o mundo. Cada espaço conhecido se torna um fractal novo. Tudo – um grito.