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Longilineon Outside; Moi XV

Ontem me lembrei de você! O tempo tava fechado, o vento tava gelado. Quente tava o meu café, bastante amargo. Uma vez você me disse que meu gosto também era amargo; amargo, esverdeado, entorpecente… Apesar de você, ainda prefiro ficar acordado. A amargura é doce, depois da chuva.

Hoje veio o Sol. Com o céu azul e a claridade, chegou também a revolução. Você tinha que ver! São placas por todos os lados, as ruas estão menos movimentadas que o comum, alguns até saíram da cidade! Perto da praça dos aniversários, estão se aglomerando pessoas para discutir as políticas em assembléia. Ontem mesmo um grupo entrou no laboratório, sem proteção alguma, sem óculos contra radiação ultravioleta, e me chamou para ir. Não é por nada, eu até fui a algumas dessas reuniões, mas tudo que vi não foram pessoas e argumentos. Foram jogadores de times falidos, brigas contra o vento para se demonstrar que o outro time, que também não existe, é o mais fraco.

Aqui do lado de fora do laboratório ainda tem muito vento. Ainda é gelado, então ainda me lembro de você – não pela sua frigidez costumeira, nem por sua falta de respostas por tanto e tanto tempo, mas por causa das ventanias gélidas que estavam soprando através da janela de alumínio naquela noite em que tremíamos de frio… Parece que foi ontem que acordei às três da manhã agarrando seu corpo com todas as forças e buscando calor mesmo com os cobertores todos, não?

O silêncio do horizonte azul e ensolarado e vazio só é quebrado pelas conversas das cozinheiras, não muito longe daqui, e também não muito intensamente, posto que sejam apenas duas e o almoço ainda ta longe, e pelo grafite da lapiseira. É interessante ouvir essas conversas perdidas, porque não parecem ser palavras concretas – são apenas sons preenchendo o fluido da vida e da morte, são interações distantes. Só há palavras quando prestamos atenção nelas, assim como todo o resto. Ninguém nos provou que a cor do céu é azul. Todas as definições, nomenclaturas, tudo foi postulado por conveniência, afinal. É tolice ingênua acreditar que isso tudo que existe deve ser assim sob todos os pontos de vista. Mal entendemos algumas palavras quando nos são dirigidas, por que impor que devemos compreender até aquelas que nunca foram ditas?

Ali à frente uma das cientistas acabou de pegar um café. Acho digno esse lugar manter tradições tão seculares… Aqui sequer há máquinas automáticas para servir café, são só duas senhoras. Talvez já haja falta demais de sensações humanas, não há por que tirarem de nós até o gosto imperfeito do café.

Ela colocou um punhado pequeno de açúcar, e daqui da mesa pude sentir que foi o suficiente – nem muito amargo, nem muito doce. Hoje o dia é dos ciclos de Carnot, não precisa dos extremos. Eles sempre chegam, de qualquer forma. É um teorema.

Depois ela enfiou uma colher de plástico no copo, para misturar o líquido e o sólido, e foi como se ela estivesse cutucando meu cérebro solenóide… Sempre me esqueço sobre como são sedutores os movimentos impensados do cotidiano…

Longe vai o trem. Nem tão perto para incomodar, nem tão longe para não existir. Longe o suficiente para fazer um agradável barulho que, tal qual colher de plástico, mistura a fumaça de mil e oitocentos e a fusão fria de dois mil e setenta. Vê; esses trens que por aqui passam não precisam de carvão e fumaça, mas os usam mesmo assim. Talvez seja aquilo que ali em cima escrevi; talvez precisemos dessas lembranças menores para que o futuro não seja tão amedrontador. Num segundo adiante de todas essas letras, qualquer previsão é tola. A realidade pode ser rasgada por qualquer coisa desconhecida, tudo pode ruir, o horizonte azul tão pacato pode colapsar, e ninguém pode saber como é, por que é, ou se mesmo poderá ser. É tolo prever, e tudo o que se diz sobre o futuro são apenas reinterpretações do passado, afinal.

E foi aqui que me lembrei de você. Ontem por causa do céu fechado, do frio e da amargura do café; hoje, por causa da mistura entre o passado e o futuro. Não vou mentir, ainda tenho mais estima por cafeína que por sua presença real. Lembrar de você é muito mais agradável e reconfortante que passar sequer meia centelha de segundo ao seu lado.

Não chore, entretanto. Eu não preciso de você, assim como as dores não precisam de gente e os trens não precisam de fumaça. Apesar de tudo, ainda gosto de como você me engana em tantas previsões sem sentido… Ainda me inspira sua tolice. Ainda me inspira sua imperfeição.

Página Dezenove

Eis que procurei dentre meus livros e não achei; ainda não posso olhar diretamente para as folhas em que faço as traduções. Não são palavras só minhas, e são, ao mesmo tempo, as mais sinceras que me saem. De qualquer forma, sei que ao escrever não sou só eu. É mais gente, e mais gente, e mais…

E tanta gente se manifesta agora na forma de uma só outra. Meu rosto arde, mesmo que seja só eu e o papel e a Lua que se esconde por trás do concreto e das grades de aço.

Eu que rastejo ainda não consigo fixar meus olhos por muito tempo em belos outros sem sentir a lareira se aconchegando cada vez mais quente.

O céu me prende em sua ilusão real; eu, ébrio, apenas escrevo.

Das páginas, separei uma.

Não havia contas, nem enunciados. Não havia algo matematicamente coerente, mas era a página que devia ser. Nela um texto que sequer conseguia passar da metade. Muito, perto de minha imaginação tempestuosa, que mal consegue escrever uma frase completa quando pensa demais em quão fantástico são os contos que aparecem por acaso numa praça abandonada por onde ainda insisto em criar formas e octaedros e cores com minha incerteza.

Faz quanto tempo? Um mês? Mais? Menos? Tanto faz o tempo, afinal.

Olho para o relógio, uma vez, contra minha vontade, e descubro que há poucos ciclos de radiação pra tanta tarde. Uma tarde onde o céu é extremamente azul – e mesmo o céu cinza é mais vívido que o nublado comum; o vento é agradável – mesmo o mais árido; e as outras cores, e as formas desfocadas, e tudo.

Sempre há muita tarde pra pouco tempo.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Bebi a bebida das décadas e descobri ser das mais alucinógenas. Era como café, tinha cheiro de café, tinha gosto de café… Até cheguei a acreditar que poderia ter sido café, mas então pensei melhor e postulei que de fato era algo muito mais transcendental. Havia bebido tantas vezes e ficado acordado tantas noites… Por onde havia eu me esquecido de adentrar à porta?

Em poucos segundos vi o vento arrastando os prédios e me colocando num deserto gigantesco, dentre velhas casas, a contemplar, bem onde a linha do abismo encontra o céu, um gigantesco castelo, cheio de passagens secretas, e livros, e bibliotecas, e tecnologias não desvendadas, e túneis, e salões…

Começou a chover.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Ao ler as memórias daquele que precisava ser transcrito, percebi o cheiro sendo entoado pelo caos. Era chuva, e era da mais pura que há eras não adentrava o edifício que tomei por base nos últimos meses. Do lado de fora não havia mais Sol, nem Lua. O céu era uma gigantesca nuvem escura. Cá dentro apenas meus transmissores, minhas válvulas, minha eletricidade que emergiu do éter como fosse conduzida numa sinfonia. A natureza é os instrumentos. Apesar dos bulbos, acendi uma vela.

Tentei, num segundo de delírio e inocência, encostar meus lábios nos da chuva que repentinamente se formara na cidadela, mas ela era mais sinusoidal que meus artifícios, e fingia fugir mesmo já estando tão cheia de poeira minha como eu estava d’água dela.

Percebi não ser uma fuga, afinal – era uma dança. A chuva ali estava, com suas formas abstratas e sedutoras, me chamando para a dança das décadas… E fazia um bom tempo que eu procurava tão digna companhia.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

Minhas imagens sempre são dos pássaros por cima do âmbar, contornando, riscando, como fossem arranha-céus em outras dimensões que não as horizonte-verticais. Um modo novo de descrever tudo, enquanto repousam; fossem notas musicais numa partitura de entrelaces elétricos, ao arrastar das vozes criptografadas. Quando entrei no cheiro da chuva, entretanto, não eram os pássaros que fluíam com os elétrons. Quem voava era eu.

As gotas persistiam, curvilíneas. O céu, mesmo cinza, continuava mais cheio de cores que o comum – parecia que, desta vez, não era só um cinza por cima de outro, mas um cinza pintado sobre o azul radiante do universo, com a mesma intensidade do Sol que marcava os pontos de encontro das civilizações passadas. O sistema solar, inteiro. E tudo parecia pouco perto da existência e da dança e da música.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

É muito além de uma página. O horizonte é como se estivesse cheio de segredos prontos para serem descobertos ao se despir lentamente a realidade. O tecido fino e suave, pronto pra ser rasgado sutilmente, num momento inesperado.

Antes que eu pudesse escrever qualquer esboço de palavra, os rios elétricos que vinham do céu fizeram os círculos e marcaram com anagramas todos os blocos de pedra e todos os casebres.

Depois que as décadas se amontoaram e se mostraram e se escorreram, vi uma silhueta emergindo em meio à chuva, e tentei agarrá-la.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. III, excerto.

Todas as décadas colidem dentro da garrafa das improbabilidades – a bebida mais forte; um mar de infinitos, série tão complexa e não-linear que as próprias bases da matemática se renderiam e se curvariam perante a dança das folhas.

O fogo, agora azulado, se curva por dentro de um dos pedaços de titânio, e marca o tempo da madrugada.

Um respingo atinge meu braço.

3/3 Unexpected Dançarina Turnpike

Ela aparece toda noite rastejando pelas paredes do lugar comum, mas não tenho culpa. Sempre acabo escrevendo sobre o mesmo pronome, é maior que meu controle. Posso estar tão errado sendo tão recursivo?

O fato é que toda noite ela aparece de novo embaixo d’outra roupa; cada vez menos. Vejo-a em músicas que nunca fiz questão de conhecer, mas que admiro pela genialidade de cada movimento, enquanto ela dança bem à minha direita, como se eu soubesse que tudo é um jogo, e como se ela gostasse de saber de minha ciência de tanta decepção programada matematicamente.

Ela sabe, eu sei, todos sabem; tudo é de todos, tudo é tudo, é todo, deixo por um compasso ou dois meu egoísmo numa quina de gesso, maluca, de conceitos rabiscados; ela ri, enquanto eu também continuo rindo, satisfeito por caminhar de novo contra o abismo da imaginação e de tudo o que acho louvável e concreto. A carta zero me foi mostrada por uma fração de segundo – uma fração suficientemente pequena.

Dei a ela um pedaço criptografado de mim, que não pode ser lido por olhos que dominam a linguagem, nem podem ser ouvidos por orelhas que dominam a música. Avesso ao plano coordenado do comportamento. Sincero na ciência do erro. Algo que não consigo encontrar em outro lugar senão em mim mesmo. Um erro minuciosamente planejado.

Um erro matematicamente coerente.

E toda vez ela rasteja outra vez e me aparece, perto do espelho, dizendo de minhas virtudes e de meus fracassos, sadicamente, e eu não posso fazer nada, senão contemplar e ficar cada vez mais bêbado dom a realidade, mesmo sentindo as bordas ásperas e gostando de ser arranhado pelos muros ao tentar enxergar o que há por cima do concreto.

Converso com fantasmas, sem notar que a conversa é comigo mesmo e que as imagens são criadas por detrás dos olhos enquanto as ramificações se espalham e se encontram com o vírus da garganta.

As letras ficam cada vez mais embaraçadas e as músicas mais descompassadas, mas ainda adoro vê-la dançando tão perto de mim mesmo que eu não possa escolher as músicas de todos os dias como sempre escrevi nas linhas das mãos de areia da ilusionista do caos.

…Ela se contorce sozinha e eu não faço nada, não por não querer, mas por ter o pensamento. O pensamento pesa numa inclinação íngreme bem polida, assim como as dificuldades de escrever palavras simples. Estou bêbado enquanto ela dança. Converso, e não é com ela.

Não me lembrarei das conversas, mesmo sabendo que a amnésia é iminente.

Tudo que fazemos é esquecido no outro dia, e disso minha memória também haverá de me lembrar, por cima das curvas e a contração do espaço, assim como o cheiro, as formas e os sons e o tempo e o eco.

Estou bêbado, e ela é fantástica enquanto dança tão perto.

- Mr. Young T. Fawkes; Castela Hills, 2112

Sobre o Céu que Toca o Mar em Três Pontos de Uísque

Uma casa aparentemente no mesmo tempo de todas as outras, mas, em meio ao cheiro comum de radiação e às tonalidades cinzentas do concreto abandonado, encontrei alguns barris de madeira que ainda conservavam alguma cor, e, creio, já abrigaram quantidades de bebidas mágicas que transcendem nossos sistemas numéricos valvulados ou transistorizados.

Também, além do cinza e do resto de cor que emanava da madeira velha, vi um pedaço azulado na parede. Não eram fotos, nem quadros, mas uma tonalidade que não parecia ser dali. Era como se um pedaço do céu tivesse sido roubado – ou adotado – e morasse naquele cativeiro.

Havia também algum resto de cheiro de álcool – talvez o uísque mais abençoado de todos os uísques – perambulando entre minhas sinapses enquanto buscava um documento novo.

Não foi o que achei; não achei um documento necessariamente novo. Encontrei, no entanto, uma velha conversa. Uma pergunta não respondida, e que, de tão fascinante, também não pode ser respondida por um mero tradutor.

Conversa Prima com Edwin, o Ébrio das Highlands

Eu não tenho dúvidas – disse-me o escocês naquela noite do início das guerras, enquanto bebíamos especiarias irlandesas com os demais músicos – de que aqueles do condado estão certos. O céu toca o mar, os dois se fundem como fosse um só fluido pelo qual as embarcações, desde os drakkares até as caravelas, encontram os ventos. Até o outro lado deste mundo ou o outro lado da lua de qualquer outro, não importa.

Mas há algo – continuou Edwin – que ainda não parece ter sido muito pensado por nobres pescadores do ultimo dos condados. Você já deve ter ouvido, é claro que ouviu, sobre os lagos escondidos por dentro dos rochedos sagrados. Aqueles que vieram antes de nossa escrita já conheciam cada atalho das cavernas, mas tudo, com exceção das paredes desenhadas, permanece como sempre foi – e como sempre lutaremos para ser, mesmo que não seja o mesmo daqui a pouco.

As águas que moram nos reservatórios que encontram um pouco de Sol: elas são as mais transparentes que já vi, e as mais limpas. Parece que sequer os peixes que lá flutuam deixam algum resíduo. Talvez sejam tão escondidas que nem mesmo a fuligem da existência consiga invadi-las.

Mas, caro companheiro de músicas, barris e competições rochosas, você também sabe o quanto mais azulada fica a água conforme mais profundo é o reservatório. Seja o mesmo sagrado e eterno Sol para nós todos e para as águas: aquela que seguramos em nossas mãos e escorre como nossas falácias sempre é a mais transparente e cristalina de todas. Se o lago secreto não for tão fundo, podemos ver até os detalhes mais fascinantes dos peixes miúdos que moram entre as pedras brancas do chão virgem da Terra. Chegamos a um lugar mais profundo, onde nem os pés do guerreiro mais gigantesco podem alcançar, e já não vemos muito bem sequer se as pedras são mesmo brancas ou se há algum peixe – miúdo, pequeno ou gigantesco – afinal.

Num lago secreto, límpido e posto sob o mesmo Sol agradável eu nos alimenta quando não há javalis ou música, durante as manhãs que antecedem as mais difíceis contendas, sendo este lago o mais profundo de todos os lagos, não tenho dúvidas de que, num ponto muito abaixo de nossos calcanhares, mora n’água um pedaço que não é transparente nem completamente negro, mas sim um lugar que é do mesmo azul do céu das manhãs das terras altas.

Minha pergunta, caro arqueiro das pedras arredondadas e dos templos ocultos das florestas, não é se o céu toca o mar em mais de um ponto azul, mas sim onde.

Quão fundo devemos descer para reencontrar o céu?

O Manifesto Silicone – Texto de Abertura do CXXXVI Salão de Venora

Os mourões de concreto amarelo anunciam a chegada dos deuses de nosso tempo, em suas naves conversíveis e vermelhas, com seus olhos negros que a face ocupam e o infinito vêem protegendo-se da nociva radiação ultravioleta da razão. Vêm eles todos para, ao final das madrugadas, hospedarem-se nos melhores condomínios habitacionais que este continente jamais pôde receber em suas tatuagens de asfalto.

Pelas trombetas do futuro vêm eles desde o raso horizontal dos mares tecnológicos, em gala disfarçada, com janelas sem vidros e cheirando a gasolina e a combustão, os heróis da humanidade da nova era.

Que comecem os disjuntores a dançar com as antenas; que comecem os cabeçotes de Manaus a trilhar cada pedaço magnético de vida que se esconde dentro de arcas plásticas cinzas ou esverdeadas. Que os fogos sejam nossos hologramas, e que os vinte minutos de cada pedaço da História da humanidade seja recordado dentro de nossos rios memoriais, de nossos corações centrípetos e nossos videodiscos.

Não venho, amigos, para roubar suas fitas cassete. Não sou César e nem sou imperador. Sou um irmão dos transistores, dos polígonos e da realidade construída em sete ponto quinze polegadas. Viajo por mares verdes onde o vento é medido em pacotes de oito dígitos. Trago as boas novas em disquetes; nossa verdade se mostra inteligível por todas as culturas de todos os povos unidos, não por braços ou mãos ou lábios, mas sim por telúrio, cerâmica e criptografias eletrônicas.

Dos arquitetos da nova Sicília os restaurantes abrem as portas a todos que sentem fome pela boa comida antes do começo das noites quentes da décima primeira autoestrada.Os polígonos voam ao horizonte com seus cantos e seus vértices vetoriais às dez da noite. O corredor do raio laser é uma doce incógnita que abraçamos, todos, unidos por idéias e arquedutos de corrente alternada.

Que as portas de nossa cidade se abram e bem recebam os cavaleiros do novo mundo. Que cada nariz possa contemplar o cheiro da gasolina aditivada e do silício plantado em tão proeminentes e proficientes florestas.

Que os discos rígidos girem para a Verdade de nossa Mentira!

- Augustus Rockefeller, Mestre de Cerimônias – MC, Venora 1987

Bathsheba V

À terceira noite do Império dos quinze anciãos houve uma festa, para se comemorar alguma coisa que provavelmente era de demasiada importância.

Pude ver, entre as duas constelações do sul, formas geométricas que, embora estáticas, traziam todos os triângulos, quadrados, pentagramas e todas as formas que transcendem. Havia ali toda geometria, e indicava para onde deveríamos caminhar.

A noite era sombria, e não havia luzes nem fogareiros. Éramos eu, Selene e toda a geometria do universo andando pelo gramado úmido e acidentado em busca de algo que, qual festa, não sabíamos de que se tratava.

Conversava, mas ninguém respondia. Não havia quem pudesse responder com palavras numa caminhada de silêncio quebrado apenas por corujas imaginárias e demônios virtuais. Mas a geometria se vestia majestosamente, e não havia por que temer meros errantes circenses.

Rastejando como inseto bípede, passei por um campo infinito, que, ao que soube, fora comprado por um mercador afetado por pães embolorados que comera na antevéspera da páscoa. Segundo os andarilhos, vendera ele tudo: roupas, barracas e frutas, para comprar um terreno lamacento, afastado, desprovido sequer de grama que servisse de pasto. Dizia ter um motivo maior que todos os motivos, e, dando as moedas, não se discutiu as razões de tal compra.

É verdade que, algumas noites, víamos, ao longe, silhuetas caminhando por tal quadrilátero, procurando algum mar em meio ao deserto de salvações.

Na noite sombria não havia sequer silhueta. A festa já perdera a música e as lamparinas há algumas areias de distância, e não nos fazia falta, apesar de sermos apenas um que caminhava, posto que só um que falava – Selene sequer andava, embora estivesse bem vestida. Também não ficava estática – flutuava além dos solos sujos que escondiam tesouros. Ela não precisava de tesouros, posto que já morasse na imensidão de si mesma.

No alto do silêncio das terras, vi-me no alto também de uma notória colina. Percebi que era colina, graças a pouca luz que era apenas suficiente para me manter vivo – não existe vida na ausência completa de iluminação – e me alertar sobre meus palmos na frente da face e sobre as pedras na frente dos pés.

Ao mais longo, mas nem tanto, da minha horizontal visão de mundo, deitava-se noutra colina um moinho. Procurei por cavaleiros errantes caçando criaturas gigantescas, mas, como esperado, não os encontrara. Continuei descendo o hiperbolóide, tomando cuidado com alguns dos buracos, enquanto, à frente, as geometrias pairavam sobre o moinho, por algum motivo que haveria de encontrar ao adentrar o fazedor de ventos.

Pensei, por um instante, ter visto uma mulher com seu filho, caminhando entre as moitas, mas fora senão outra ilusão – a escuridão faz linhas parecerem sempre curvas, polígonos parecerem sempre irregulares, tempos parecerem sempre discretos.

Ouvia, mesmo sabendo ser tão fruto de meus pães mentais quanto aquelas esferas doces avermelhadas são frutos das moitas mesmo no mais profundo breu, um lamento instrumental proferido pelo caçador que procurei no alto da colina. Apesar de estar de frente com as criaturas, seu cavalo não descia colinas hiperbólicas. Tendo apego a seu fiel e astuto companheiro, não o abandonaria para caçar seres que só ele se interessava em atravessar com a lança de madeira tosca incandescente. Antes de partir em direção contrária, depois de tão perto do que procurara por noites de fome, lamentava para todos os ecos, para todos os errantes, para todas as criaturas.

E o único que conseguia ouvir, naquela noite, era senão eu mesmo.

Apesar de ouvir, continuava eu andando, agora por um vale que me dizia sobre equilíbrios e eu ignorava completamente. Não quero equilíbrio e, mesmo que quisesse, ainda ficaria tropeçando de um lado a outro do vale, procurando por algo que, mesmo que não existisse, ainda valeria a dor em meus pés.

A subida é sempre mais dolorosa e escorregadia, mas com certo cuidado e certa sorte, cheguei aos últimos patamares antes do moinho. Já sequer podia ver a festa do outro lado, as luzes vãs sumiram como a terra madre que se distancia quando se parte numa busca em direção a novos mundos e novos livros.

Ali estava, defronte a mim, muito mais alto que antes, o moinho. Do outro lado do vale, pensei ter visto o cavaleiro indo embora com seu cavalo, sua lança e sua angústia. Erro tolo, eu sabia que não havia ninguém.

Numa olhada acima de minha cabeça, vi as luzes boreais da geometria fundamental. Era como uma entidade sobrenatural, talvez um anjo, que mostrava o caminho em meio às trevas para os insatisfeitos com as respostas sem final e com os palpites deseducados. Eu parecia bem insatisfeito, concordo. A luz quase invisível das formas geométricas mostrava cada contorno do moinho, cada falha nas paredes – as falhas fazem parte da perfeição de todas as coisas, inclusive das perfeitas – e cada nuance. O vento era criado a alguns palmos de meu cabelo, e se ia através do mar e alcançava todos os mundos em alguns dias, junto com as caravelas da incerteza. É sempre prudente lembrar as incertezas sobre as laranjas e sobre o sal.

Eu podia ouvir a respiração da terra, e isso me era bastante agradável.

Sem precisar de chave – parecia até que eu havia sido convidado por alguém dos comuns – entrei na estrutura dos ventos, lentamente. Dentro havia mais luz, como sempre há depois de um passeio longo nas longas noites, grãos, cereais, uma mesa simples, mas organizada, motores de madeira e uma escada. Procurando por mais alguém além de mim subi, também cauteloso.

A subida, embora agradável, precisa sempre ser cautelosa.

Mais pedaços de madeira, mais cereais e mais luzes. Um súbito barulho, e pensei ter ouvido alguém a se banhar em águas que não sei como foram trazidas.

Por algum tempo, imaginei que Selene finalmente tinha vindo em minha direção, nos chãos fracos e sujos, para que eu pudesse tocá-la. Outro tolo erro – às vezes esqueço que sou a primeira e última carta das ciganas, animado andando em direção ao barranco dos cegos – mas desta vez não era tão ilusório.

Não era Selene, mas uma mulher se banhava. Ela provavelmente sabia de minha existência, então não me senti desrespeitoso ao adentrar mais uma sala.

Era algo tão supremo que não me conseguia despertar apenas vontades lascivas. Era uma figura deveras atraente, mas havia algo além das curvas e da falta de roupas. Havia também em seus olhos despreocupados uma sensação acolhedora. O mundo seguia seu caminho, as luzes boreais da geometria fundamental protegiam todos os ventos, não havia por que perder a serenidade dos olhos durante um banho visto por tal desconhecido.

Pensei em dizer qualquer coisa, mas esperei mais algumas areias. Era muito transcendental para simplesmente interromper com minha realidade. Tinha luz suficiente.

Sorrateiramente, cheguei-me por trás de seus cabelos longos e escuros, e os apalpei com minhas mãos sujas. Ela também não parece ter se importado com minha sujeira, de fato, então continuei apreciando a gama de sensações. Todos os sentidos estavam sendo saciados, e ainda nem havia me aproveitado da mesa organizada no andar de baixo.

Postou-se ela a recitar versos amáveis sobre como estávamos errados em tudo o que fazíamos. Eu ouvia, entendia, e não sabia se deveria prestar atenção na beleza dos versos e da voz que os recitava ou em como saber de tudo aquilo me fazia um pecador.

Mas era eu um pecador?

Perguntei, sem me segurar em minha própria vestimenta mascarada, e ela respondera que não. Como não podia ser, se era justo o que ela dizia que estava acontecendo? Como poderia ela mesma se contradizer parecendo tão perfeita?

Subitamente me lembrei do Sol e meus questionamentos foram respondidos com resposta tão concreta quanto as perguntas.

Não era um rei de lugar algum; pudera eu ser tão sábio a tal ponto de olhar por cima as terras e dizer que se satisfazem com minhas cavalarias. Mas tenho consciência de minha incapacidade nesse aspecto. Por um momento, entretanto, sentia-me como alguém que deveria ser lembrado – não por ser sujo, posto que todos o somos, mas por ter tido a permissão de toda a geometria do universo para ser sujo.

A culpa perseguia como igual verme por trás de uma casca deixada ao relento, mas não podia pensar nela tanto tempo diante de tão maravilhosas visões e sensações.

Convidou-me para acompanhá-la, aquela mulher, visto que, como dito, estava eu muito sujo. Antes que pudesse responder educadamente sobre os paradigmas do bom senso, ela se levantou e me ajudou a tirar, além das vestimentas mascaradas, as de veludo e as que cobriam e protegiam do frio das montanhas. Sem reação, apenas continuei a fazer o que ela queria que eu fizesse.

A culpa rodeava os vales, mas ela continuava serena e lascivamente inocente, apesar de todos os atos que se deram durante aquelas areias que se passavam e eu sentia como mãos que percorriam minha brutalidade com a leveza de plumas geometricamente fundamentais para o bem estar de todas as criaturas.

O que fazemos, enquanto nossas regras, não precisa fazer sentido para as luzes que habitam os mares de todos os continentes. A culpa por não seguir regras que inventamos não precisa ser refletida como um rosto no oceano da verdade infinita. As culpas valem para nossas regras, e nossas regras podem estar bem erradas.

Existem livros de genialidade atemporal que possuem erros de grafia. São sagrados, mas não imutáveis, e assim se parece a verdade parcial que se apega como poeira lunar em nossas narinas e nossos pulmões.

O moinho de vento existe, as criaturas existem. Falta quem procure por tais nuances da realidade, mesmo que saiba da angustia que existe ao se estar tão perto e não poder cruzar o vale.

Sob as Águas de Selene, pt. II

Se a caminhada até os portões do inferno me mostrar que durante todo o tempo acreditei numa natureza justa que não nos esconde a verdade, em vez de decaídos disfarçados de santos, medrosos e renegados, então eu vou apreciar cada espinho que me for colocado, cada fogo que me gotejar enquanto, cego, rastejo procurando o meu apocalipse.

- Galileu de William G.; Cena do Julgamento, ato III.

Eu sou um fantasma do lado de fora da casa de assombrações. Um voyeur da minha própria vida, um espectador chocado por minha própria atuação.

Sonne – Acordar, dormir e comer, em dados referenciais, passam a ser somente meras formalidades, meros caprichos matemáticos para explicar razoavelmente um ciclo espiral.

A luz trespassa, temerosa, as linhas que contorno dentro das ruas do calendário. Os dias olham com medo, e atravessam a rua.

O que eu procurava, de verdade, tinha nome, mas não tinha hora; tinha local, mas não tinha lua, e eu achei no meio de todas as improbabilidades – uma flutuação qualquer no espaço me fez ficar desafinado para sempre no tecido do tempo.

- Prelúdio do Tempo, por J. Moose; Teak Aquaria, ensaio XVIII.

Não havia mais ruídos. Eu estava paralisado e além de todas as sensações que me lembrava de existir. Lógica, senso e racionalidade dissolviam-se em frente aos meus olhos que tão acostumados eram a calcular grãos de areia numa ampulheta, sem dar por conta que cada um que fosse, jamais voltaria, embora ainda me iludisse tornando o vidro infinitamente até que escurecesse o Sol…

Minhas mãos doem – os pedaços de tinta são duros e cada letra carrega a dor de se estar contemplando um universo imerso em tudo o que sinto falta e que não acontecerá pelas próximas décadas – uma antecipação finita, mas interminável, onde eu vejo a anti-temporalidade dos meus próprios desejos.

E quem era aquela que bateu à porta, senão essa mesma, que mora furtiva dentro das matrizes inatas de rotação?

Quem girava era eu, embora parado, contemplativo, espectador, especular, voyeur das minhas sentenças.

Eis os que andam apressados à rua da frente, temerosos, alertas por todas as orquestras de temor que vasculham a individualidade do próprio pão. Do lado de dentro do quarto, no entanto, não há mais nada. Ela e eu somos três, mesmo que haja eu mesmo sendo mais um do lado de fora do lado de dentro.

E ela também percebe a si mesma e toma a se juntar no que eu já estava bêbado há muito, e posso sentir suas mãos procurando, síncronas, tanto ela quanto eu mesmo. Inclusive num compartilhamento, o egocentrismo lascivo desperta inspiração.

Mesmo com os olhos semi-abertos e iluminações mínimas das velas, eu entendia perfeitamente sem precisar ver tudo com os olhos.

As línguas encontravam as mãos, que tocavam os lábios, que circundavam os pescoços, as orelhas, e dançavam misticamente com as pernas perdidas num monte de roupas rasgadas e amassadas dentro de um universo novo de uma natureza infinita.

Passou-se o tempo, e as sensações animalescas não se pareciam com aquelas antigas – eram cerebróides; além de intensas, sabiam o quanto eram intensas, sabiam quantas dimensões tiveram de ser trespassadas até que a ampulheta irradiasse os próprios grãos de areia para fora do vidro.

É possível que tenhamos tido milhares de ápices, e nenhum deles nos podia parar – era além do anseio físico e concreto, era transgressor dos próprios limites da dor que me foram apresentados até então, era único, mesmo que num tempo esquisito que girava em círculos imaginários dentro da grande espiral.

O cheiro que ela exalava sem saber me fazia rasgar, além de suas roupas, também os sete vestidos que cobriam a verdadeira imagem da realidade. Forjava-me, com a menor das temperaturas, todos os ensinamentos, e depois os apagava todos, como livros que foram escritos por cima de areias numa lua cheia.

Todos os sentidos se confundiam; eu estava desnorteado. Não conseguia nem eu nem eu mesmo parar de admirá-la, tão perfeitamente errada e tão silenciosamente entregue a mim, afinal.

Pudera, colocaria as areias de todos os mares numa só ampulheta para sentir o cheiro, o gosto e a textura por mais tempo.

Servia a ela, sem conseguir pensar nas dualidades que permeiam poemas místicos da antiguidade que se perdera no meio.

Começara a imagem a esmaecer, as tintas a derreterem, e, aos poucos, me via voltando em passos cambaleantes e randômicos até o telhado da velha casa do passado. Uma garrafa quase vazia ao meu lado, penas tinteiras secas do outro, uma lua gigantesca e constelações e céu bem azul escurecido por cima das poucas e fracas luzes das portinholas daqueles que tinham medo do escuro na cidade. Um ou outro andarilho, ou qualquer vendedor com seu cavalo, e uma sensação única de afeto pela própria concepção de existência.

A certeza, por mais absurda, é um calmante para os flagelos das bordas ásperas que ficam além dos muros. Naquela noite eu vira uma certeza, seja lá por que fosse – eu vira.

A cada passo para baixo nos degraus, uma sensação gélida por dentro de onde eu costumava me aquecer com os tonéis; queria vê-la ali, sentada, ainda, à lareira.

De fato, ali estava ela. Do mesmo jeito, mesma posição, como se não tivessem transcorrido sequer metades de ampulhetas. Olhos abertos olhando o fogo que queimava e aquecia… Por algum motivo, parece que ela também sabia de tudo, e aguardava tão ansiosamente quanto eu por aquele dia.

Mesmo tão diferente, eu contemplava as curvas que se escondiam por baixo dos panos e da capa, e sabia tudo o que iria arquitetar ao mundo real vindo de dentro daqueles olhos e das marcas daqueles lábios.

Eu sabia, e queria fazê-la acreditar que viajaria todos os universos outra vez para reencontrá-la num tempo que haveria de chegar.

A Torre do Sol

Um fluído rosado começa a esguichar pelas paredes enquanto eu me abstraio dos horários e das contas a pagar, e me concentro no último dos ensinamentos com minha garrafa esverdeada e densa. Aconteceu com um amigo meu, muito próximo, e que, mesmo assim, não consigo saber de quem se trata…

Era uma tarde comum, ele acha; podia ser uma manhã ou uma noite, também, tanto faz. Era uma família tranqüila e realizada, com vinho e pão para se beber todos os dias e algo bom para se acreditar todas as madrugadas de sono. As montanhas se carregavam ao horizonte.

Vozes distorcidas saíam da boca de sua mãe, enquanto ele tentava entender, em vão, a última peça que vira no grande anfiteatro semicircular. Peça, atores, gladiadores, humanos, malabaristas…

A peça era sobre um grego. A peça girava em torno de um grego… O que no mundo não era culpa dos gregos? Acreditava, ele, que havia algo depois do Mar, e que lá tudo também era culpa dos gregos. Dos egípcios, talvez. Dos dois, provavelmente. A peça era de um grego. A idéia também. Mas havia vinho para se bebericar enquanto pensava, e pão, e tudo isso era agradável.

As estátuas pareciam ter vida, embora fossem de pedra. Era como se alguém tivesse sido preso dentro delas… Para se preso, é provável que fosse muito injusto, muito herege, talvez algo até pior. Mas lá estava a estátua, com seu corpo, sua cabeça e seus olhos, olhando, desde os sóis até as escuridões que passavam pelos ecos do tempo quando este se curvava por notas tortas de uma métrica sem sentido.

Quando os músicos que se apresentavam eram realmente dignos, até as conversas sobre ajustes de tons e sobre tecnicidades pareciam, e se confundiam, com as músicas. Era uma obra completa, que não nos deixava perceber as trocas entre ficção e realidade… A realidade era o mundo que existia em cada segundo em que ecoavam os sons que vinham do Sol e de Saturno com suas azeitonas gigantescas em copos igualmente monumentais de éter. Ele podia beber, mas não se lembrava do gosto, enquanto as paredes da casa derretiam em fungos e cores e formas que se desalinhavam do senso comum cada vez que o fogo se apagava da lâmpada e o cheiro de azeite queimado ofuscava os sentidos e produzia sonhos tão belos ou tão horrendos… A vida ocorria no azeite queimado, e era sublime.

E todo o resto da casa se configurava, e, como raiz de plantas celestiais, impregnava nas ruas, nos templos, no anfiteatro, nas montanhas pálidas, nos músicos que dormiam, em tudo.

Enquanto os olhos se fechavam, com sono, misturados num grande caldeirão de improbabilidades sobre o que explica todas as ciências e as sensações, ela aparecia, sempre que ele quisesse. As visões daqueles que passavam do lado de fora se confundiam com as dele, e do lado de fora ele o via próprio do lado de dentro, obscuro, com todos os seus medos em volta, como fossem correntes invisíveis a olhos cobertos pelas palmas da ignorância. A vida o testava, e em muitos testes a falha era inevitável, e a vida continuava, apesar dos erros.

Tinha um gosto azedo, a falha. Gosto de vinho estragado, misturado por concreto, onde os gritos de desespero não podiam ser emitidos por sequer um ser humano, nem o mais arrependido das causas impossíveis, e, portanto, era guardado e cravado nas correntes. Algo que não se grita fica guardado para todos os tempos, até que se resolva olhar bem de perto e sentir o gosto azedo.

Admirava aqueles que pintavam quadros do mais absoluto caos, e faziam as igrejas parecerem tão belas que todos poderiam acreditar na salvação, além de desejá-la. Querer e acreditar são conceitos irmãos, e nem sempre estão juntos na mesma curva de conceitos…

Junto com as correntes dos medos, havia também as correntes das culpas e das vergonhas, e não existia diferença alguma entre elas. As fiandeiras, como ele gostava de ver, eram nada senão correntes. Aquelas que escreviam determinismos para a vida e para as vontades limitavam a existência. Pensar no tempo e contá-lo anulava completamente a infinidade de cada respiração.

E continuavam a comemorar os nascimentos, sem saber que tantas comemorações eram o que causava mais dor quando se aproximava das roupas sombrias da morte.

Naquele dia em questão um barulho incomodava. Parecia um trovão, mas não necessariamente chovia. A montanha tinha um brilho, talvez o Sol indo embora, mas não fazia sentido. O Sol não precisava ir embora por ali, e, se fosse, devia fazê-lo logo depois do fim da tarde, não agora… Mas o brilho aumentava mais, e, como havia gente que não podia conceber a idéia de navios antes de vê-los, ele não podia conceber o inferno sem passar por ele.

Nem sempre o inferno é apresentado às pessoas de mau comportamento. Os bons e os justos são obrigados a conhecer aquilo tudo para onde nunca mais vão querer voltar. Os mais justos ainda compreendem, e apreciam cada gole do cálice da dor.

O fogo descia, lentamente, como que buscando aqueles que se alimentariam dele. E esquentava cada vez mais. Era o mesmo medo que tinha da chuva quando criança, mas os medos eram apenas escrituras interiores. Aquilo era real, assustadoramente real, e descia pela montanha em busca de sua alma.

Era uma guerra curta como um relâmpago, mas que não passava para o lado de fora dos olhos, abertos, espantados, sem lágrimas, sem sensações explicáveis. Apenas viam o que já tinha destino certo, e continuava a descer.

Nenhuma palavra, nenhuma prece, era tudo ali, naquele momento. Podia dizer o que viesse em mente para quem quisesse – nada seria lembrado por aqueles quartos. E a verdade vinha cada vez mais sedenta, cada vez mais verdadeira.

A rua toca, então, o rosto das próprias luxúrias. A verdade toma a rua. Em pouco tempo, bate à porta, por mero aviso, uma vez que já adentrava. E a verdade era rubra, mas não tinha vergonha. Tinha ira, e a ira era ilusão de todos aqueles que, subitamente, curavam-se do vinho e sentiam o vinagre. O inferno entrelaçado com as distorções da verdade. Emaranhados, chegam próximos aos seus pés, e queimam.

Não havia para onde correr, era como se as pedras se tornassem líquidas e o centro do universo mostrasse sua vingança a todos aqueles que o pisavam diariamente. As estátuas tinham vida, e esse pensamento foi o último que se concretizou à cabeça dele. As estátuas, elas tinham vida… E elas viviam a angústia de se tornarem eternas num lugar fadado à repetição.

Todos os versos, todos os músicos, todos os gregos e os egípcios, todos os vinhos, todos os templos, tudo seria condenado a viver para o resto do sempre, ali, contemplativos, esperando por alguém a observar, alguém que viesse do mais alto das montanhas, menos quente que a verdade que naquele dia se fez em rio pelas ruas e mostrou aos bons e aos justos como era o inferno…

Haveria de chegar gente para se contemplar. Enquanto isso, o céu parecia mais bonito todos os dias, e existia muito mais que uma massa azul uniforme. Os discos, as fases da lua, até as escuridões eram diferentes, e ninguém podia saber…

As estátuas respiravam o éter e o fogo, e, espantadas dentro dos próprios pensamentos, passaram a mostrar a toda a História da humanidade quais eram as viagens universais, que era a verdade, que era o inferno, que era o paraíso…

Tudo tinha seu único lugar, e os seres que respiravam, apesar de terem vontade, chegaram muito perto do centro do universo, e foram congelados para sempre numa massa flamejante.

Sob as Águas de Selene, Pt. I

Sentia estar perdendo algumas palavras depois de cada página que tornava nos livros amarelados. Não sentia falta, e a história sequer perdia sentido, mas deixá-las escaparem por folhas velhas incomodava.

Existe uma piscina infinita de um líquido viscoso e azulado – definitivamente não é água.

Antes que eu mergulhasse dentro do copo de minha própria embriaguez, alguém bateu à porta – o que era inesperado, posto que todas as pessoas de bem já se dormiam e sonhavam com a salvação do fim dos tempos…

Porta tão velha quanto o livro e o calendário; eu sequer podia saber que época do ano era. Chovia, esquentava, esfriava, plantas cresciam num dia e apodreciam noutro, as folhas não ficavam verdes por mais de uma semana…

Abri e a encontrei embaixo de uma capa velha, ou pelo menos muito surrada, úmida – não sei se por chuva, lágrimas, ou as duas coisas; depois de relutar e respirar olhou-me nos olhos, e eu fui imediatamente curado de toda a sobriedade que me faltava. Era ela, e eu não conseguia imaginar o que isso significava.

Eu não sabia sequer quem era.

Parecia, de fato, que já nos conhecíamos de muito tempo – de uma feira que haveria de ocorrer daqui seiscentos anos, talvez. O que importa é que toda aquela luminosidade sombria que era jogada em meus olhos a partir de baixo da capa me parecia familiar, e tinha notável gosto de vinho.

Coloquei-a próxima ao fogo, e ofereci um copo de bebida – seria melhor um chá, mas a erva havia acabado há tempos… Ela não parecia ansiosa por continuar inebria, afinal, tão pouco eu, que mal começara a escrever sobre as raízes das árvores do inferno.

Não queria forçá-la a falar, me preocupava apenas se a temperatura e a casa eram agradáveis a ela. Sentia por tal desconhecida algo esquisito e inclusive vergonhoso, por isso deveria fornecer os melhores dos meus serviços de bom senso e bons modos.

Era alta madrugada. Ela nada falava. Respirava, bebia, olhava para o fogo, mas nada falava. Sequer uma palavra, ironia, pedido ou oração.

Subi-me ao topo frágil da casa – e qual casa tem um topo resistente? -, com meu cálice prateado, minhas penas tinteiras e minhas veias avermelhadas por causa do fogo. A lua estava no periélio, gigantesca, brilhante, sedutora. Não podiam ser manchas, não podiam ser defeitos…

As memórias me começaram a vir lentamente, como se minha consciência tivesse flutuado até o final dos tempos e voltado para me contar do passado que eu haveria de viver. As imagens começaram a surgir em minha frente.

Era ela, mas parecia diferente. Nem se parecia, na verdade, com aquela que batera à porta, pelo menos não fisicamente; eu sabia, no entanto, que só podia ser.

Usava, ela, uma roupa inteira azulada, sem adereços, sem alarde; deitava à minha direita numa cama pequena, porém bem arrumada. Algo nos era mostrado, com luzes baixas – um tipo de espetáculo teatral com raios e tempestades e cores absurdas, acompanhado sublimemente por um grupo de bardos invisíveis que moravam além dos olhos que mostravam o que os nossos tentavam entender.

Não podia eu controlar, apenas assistia à minha vida daquele passado tão à frente na linha das civilizações; é provável que eu tivesse algum tipo de motivo para aquilo tudo, mas, ao mesmo tempo, era blasfemo, errado, e eu não podia parar.

Embaixo da capa, num lugar onde nem a mais digna consciência haveria de enxergar, vi minha mão direita acariciar suas pernas, lentamente, com mais afeto que lascívia, e o afeto e a lascívia se confundiam conforme eu a arranhava delicadamente e explorava com interesse cada pedaço de terra nova a ser descoberta por tal navegador errante… Havia certa tremulação em meus punhos, aquilo parecia ser a cada instante mais e mais errado…

…E ela, apesar disso, não se sentia nem um pouco incomodada participando de tal pecado mutuo, e eu continuava, sem poder me ajudar.

O tecido era confortável – a textura de pele, lisa, limpa e da cor de Selene, era mais ainda, e a interface era como um lembrete de quão culpado eu era ao afastar o tecido e deslizar sob as roupas. E eu desviava por baixo de cada interface, com uma vontade latente e flamejante que continuava a aumentar.

Ela sabia, e sempre soube, o que eu estava querendo. Qualquer um provido de mínima imaginação entenderia lendo qualquer relato mínimo que houvesse… Eu rastejava, e as teias nas quais fui preso não me incomodavam, e o perigo era como azeite sendo derramado numa brasa incandescente que cuspia suas faíscas a cada gota; eu entrava cada vez mais fundo nas trevas do futuro da civilização, só para ter um pouco mais de luz das velas e menos dos inquisidores.

O que antes era singelo ficava a cada grão de areia mais intenso, mais ávido, e as pontas perdidas dos meus dedos que deslizavam agora eram minhas mãos inteiras apertando cada momento daquelas pernas e daquelas interfaces lisas e misteriosas. Eu queria rasgá-la completamente, livrá-la daquela carapaça moral azulada, praticar todo tipo de perversões naquele mundo tão sombrio que se aproximava do apocalipse cinzento.

Já havia me esquecido das peças, dos bardos e dos atores e do tempo; olhava atenciosamente para sua face em perfil, pouco iluminada, a fim de ver algum tipo de reação, qualquer uma que fosse, qualquer uma…

…Mas ela continuava a jogar comigo muito além de onde eu conhecia as regras, e quem estava trancafiado era eu, dentro do meu próprio resto de instinto.

Uma leve angústia se pairava dentro das minhas ciências – eu queria saber do desfecho, qualquer que fosse, e a história parecia presa num loop, embora quem estivesse em loop fosse eu, somente eu. Eu sabia disso, também.

Os lábios tinham marcas – não sei dizer se era ela quem os mordia quando eu não estava olhando, ou se era eu mesmo enquanto me distraía com minha consciência.

Fosse o segundo caso, ficaria ainda mais angustiado por não conseguir lembrar que gosto ela tinha. E queria prová-la sem distrações, sem ruídos que não os nossos, sem luzes demais, sem medo do juízo final cinza e sem temer os erros máximos – fosse o tempo que fosse, não éramos mais que humanos.

A Sétima Vida – 735

Os demônios outra vez se postavam fora das janelas. Por dentro eram quatro ou cinco almas perdidas, ofuscadas, lânguidas dentro da escuridão e do casulo de proteção que havia dentro das paredes. Um ritual pagão, um culto às sensações carnais, a primeira das três noites.

Não havia culpa – ali estavam as cinco almas lascivas e perdidas dentro do casulo.

Havia, de fato, mais que um casulo. Havia o que protegia dos demônios, do lado de fora, e havia o que aquecia, por dentro, por entre os corpos, entre as gotas, entre os sussurros, e havia outro.

Quando se faz uma infusão de ervas, não se deve bebê-la logo que a água quente é despejada. Deve se esperar até que a erva cozinhe – embora cozer não seja o termo mais adequado -, solte todos os cheiros e todas as cores e todos os sabores. Algumas horas antes, logicamente, beberam todas as infusões possíveis, e agora se entorpeciam com sangue. Não eram dos mais puros dos sangues, mas satisfaziam a sede de todos. Eram quatro feiticeiras e um mago perdido às ruas da inocência desconhecida. Era a isca para todas elas; era o que nascera dentro da tempestade, das nuvens, era o esperado há tanto tempo. E lá estava ele com todas as que previram os eclipses que haveriam de chegar enfim.

Uma ou duas eram mais novas que o novato, mas, ao mesmo tempo, aparentavam ser mais velhas. Pareciam ter ali esperado, por vidas e vidas, até aquele momento. Vestiram as melhores roupas e se usaram dos melhores perfumes. Arrumaram-se todas, tanto, esperando a queda da noite para que fossem violadas, desarrumadas, rasgadas, invadidas pelos trovões da quintessência.

A porta estava trancada por todas as chaves, e talvez seja esta uma alusão a todo aquele sangue que jorrava e cheirava e era bebido por todos ao mesmo tempo. A porta para o fim do mundo, a poção mágica, as bebidas servidas em taças e cristais e cuias, não importava. O batimento dos pulsos e dos relógios das catedrais, as linhas nas areias, o movimento dos grãos, a quebra das ondas. Tudo era a grande ópera que tinha, àquela noite, seu ato triunfal.

Parecia fantasioso, mas, afinal, era a realidade também uma fantasia. Num momento a linha entre sonhos, alucinações e verdades despertas esmaecia pelas diluições das músicas que tocam e reverberam nos rios vermelhos.

Em noites confusas, a imagem das quatro sempre aparecia no espelho, enquanto ele olhava para o breu do quarto, e não conseguia dizer quem fossem, ou por que apareciam. Elas estavam aguardando por ele há tantos séculos, e ele mal sabia o motivo.

E chegava cada vez mais próximo, e ficava cada vez mais confuso, e cada vez mais cego… Era o que devia fazer, era o que queria fazer. Era o que precisava fazer mais que tudo. Mais que respirar. Mais que pensar. Mais que andar.

Mais que viver.

Entre a casa e a catedral havia infinitas estradas a serem desbravadas por moedas velhas que ainda haviam de valer alguma coisa. Era escuro e cheio de florestas.

A Lua iluminava atrás das nuvens, mas o brilho não era igual em todo canto. Os dias da semana se confundiam; os cafés, as águas dos poços, os ninhos das corujas. Havia um brilho maior apontando a direção, como fosse estrela que guiava os reis antigos na cadência da História. Os pés doíam, mas ele caminhava e ficava cada vez mais próximo de si mesmo e delas quatro.

E então havia a cidade, por fim. Ruas quadradas, raízes, penumbra, postes, violência, avenidas numerosas e numeradas. A distância era menor depois de andar dentro do infinito de vales e árvores compridas e estreitas. Agora já se podia sentir melhor como era áspera a reluzência das tubas da orquestra de bronze que fazia todo o som do vento.

Num violão recortado, cheio de pontas, as cordas vibravam e faziam as ruas ressoarem com o caminho que deveria ser percorrido. Ele fechava os olhos e sabia exatamente por onde devia ir, que pontes tomar, que becos evitar, e as feiticeiras aguardavam numa casa cheia de demônios domados. Esperavam a meia-noite, esperavam e esperavam. O tempo não era mais tão impiedoso com elas… Já se foram tantas vidas, que são poucas horas perto de seis inteiras existências de cada uma?

Enquanto isso, se entorpeciam com vinhos guardados há invernos. Cantavam músicas depressivas e, ao mesmo tempo, tão animadas que se podia dançar em volta das fogueiras que ali se encontravam. A madeira queimava, a brasa era consumida, mas não havia carne alguma assando. A carne era banhada em sangue, e não havia sido cortada por homem algum. Nenhum outro animal deveria sofrer aquilo tudo.

Do outro lado do rio, ele sentia que era mais um mistério a ser resolvido, embora nunca tenha resolvido crimes ou sido um verdadeiro descobridor. Sentia-se como um, embora não soubesse como fosse a sensação. Apenas sabia que era assim, mesmo que ser algum tivesse contado. Os números e as datas faziam sentido, e o quarto de hotel, e os uivos solitários à Lua, e tudo.

A primeira delas era alta. Possuía pernas longilíneas, tatuagens cheias de significados, marcas singelas no rosto – constelações graciosas -, cabelos pretos e longos, se escondia em areias e mares de lugares distantes. Gostava de se entregar e entrelaçar com aquelas outras três, gostava de sentir a saliva, os lábios, os cheiros, a textura macia e lisa, o gosto do vinho diluído e das vestimentas apertadas implorando por fugirem dali.

A segunda era ruiva, nova, e disfarçava a própria essência por trás de campos franceses e contos de pureza. Sabia, por dentro, tudo que pulsava, e todas as vontades que deveriam despertar com os uivos daquela noite. Sabia que perderia o controle e encontraria lugares que tanto havia procurado por seis vidas e dezesseis anos de ardência. Olhava as outras e sabia tudo. Olhava as outras e fantasiava, e não conseguia conter a tremulação e o suor dentro das vestimentas pretas com asas.

A terceira não era a mais nova, mas era a menor de todas. Era quase anoréxica, mas, por algum motivo, também era bastante atraente. Alguns dos ossos se mostravam através da pele extremamente branca e intocada; qualquer movimento brusco poderia quebrá-la inteira… E, talvez, fosse isso mesmo que ela queria aquela noite.

A derradeira era carnosa. Possuía todas as curvas e era a mais velha. Havia lido os livros e havia conhecido os templos. A mestra das quatro. Havia procurado e havia ficado sem dormir, e lá estava. Embora soubesse como era a sensação, mostrava-se apreensiva. Todo dia era um Sol novo, uma Lua nova. Uma folha nova que caía da árvore e se enterrava ao chão virgem dos poços e dos rios.

E ele, errante, não se guardava às descrições. Mal se lembrava de como podia ser o próprio rosto. Bebia, mas não tanto. Não era forte, não era alto. Possuía cabelo e um pouco de imaginação, nada que pudesse alimentar o estômago. Era a quintessência que o ciclo das feiticeiras procurava desde a época da inquisição e das proibições e dos postulados hexagonais. Fora motivo de fogueiras, sofrimento, lágrimas, preces, juras, e lá estava. Havia o portão em frente aos seus olhos, era o inquisidor da noite, o redentor dos pecados, a salvação.

O portão abria-se lentamente, e ele não sabia como havia chegado até ali. Barulho, ferrugem; é verdade que se parecia muito com um portão de cemitério, e talvez fosse mesmo um cemitério.

As quatro silhuetas surgiram em meio à névoa do frio, supremas e certas. Ele continuava confuso, mas sabia de tudo.

Os pés queriam cair, o cérebro queria continuar em pé. Os toques de cada uma das mãos o desprendia das tensões e das ruas e dos quilômetros. Os demônios estavam presos, não havia o que pudesse encerrar abruptamente aquela noite rigorosa e nebulosa de inverno.

Por muito tempo, aprendera que os portões do céu seriam igualmente celestiais, como deveriam ser. Que o céu seria azul, sem nuvens; que anjos viriam ao seu encontro. Aprendera que o inferno era um lugar escuro, sombrio, coberto por um rio de sombra e pedras de sofrimento. Com aquilo tudo o que aprendera, não sabia se estava num céu ou num inferno. Talvez fosse a síntese de tudo, talvez fosse aquilo que ele mesmo era e não sabia. A quintessência, a junção de todos os capítulos de todos os livros, o despertar das coisas que não se pode imaginar com imaginação terrena. Era além da moral, além da verdade, além da lei. Era o céu e o inferno – os demônios estavam presos e os anjos estavam dormindo e não precisavam se preocupar.

Os pés venceram o cérebro, e ele desfaleceu, ainda acordado. Olhos e consciência continuavam ativos, mas as sensações já não eram as mesmas. As mãos das quatro passavam por seu corpo e seu cabelo com tal agrado e afeição que jamais havia sentido. Apesar da sensação corporal ser meramente carnal, havia algo além, inexplicável.

O mundo exterior estava em chamas. O apocalipse havia começado naquela madrugada. Através dos portões, sentia ele que se aconchegava no primeiro dos casulos. Via o apocalipse lá fora, e nada poderia atingir. Nenhuma pedra, nenhum meteoro, nenhum fim de nenhum mundo.

Aos poucos, começara a se acostumar com a sensação. Movimentava as mãos, e percebia que tudo havia ficado mais leve. Não era feito de matéria, não era material. Era um fluido adimensional, até que soubesse em que dimensão estava. A orquestra das ruas ficava distorcida e cada vez mais agradável.

Embora fosse tudo tão fluido, podia tocar tudo, podia tocá-las, e elas podiam sentir e tocar de volta. E ele só tinha duas mãos, mas conseguia passar por todas elas, ao mesmo tempo, e conseguia desviar-se das roupas e alcançar o que havia além de todas. E sentia pernas e braços e coxas arrepiadas, e ouvia os murmúrios, e olhava cada uma e sabia o que cada uma queria.

Ventava uma brisa gélida e agradável.

A primeira também fora a primeira. Pôde degustar a saliva e os lábios e sentir como sua roupa apertada era desabotoada, rasgada, e dava lugar a um alívio supremo de estar exposta aos predadores e aos monstros que queriam entrar em seu universo com dedos, línguas e gritos.

A segunda não conseguia se portar de paciência, e começou por si a arrancar aqueles vestidos satânicos, camada após camada, e dançava sem mesmo perceber. Eram roupas difíceis de serem arrancadas, por isso se contorcia àquela dança enigmática e sedutora. Também se contorcia pela tremulação e por todas aquelas vontades que escorriam entre suas pernas tão aparentemente puras.

A terceira se amarrava aos braços não tão fortes. Perto dela qualquer braço era forte, de fato. E torcia os quadris, e era como se estivesse possuída por alguma entidade lasciva. Não estava possuída por coisa alguma senão ela mesma; esta já era suficientemente lasciva. Perdia-se nos movimentos das mãos e de todas as outras partes, e parecia querer ser apenas quebrada em milhares de pedaços, como fosse um copo de cristal fino que caía de um relógio infinitamente alto e se espalhava ao chão molhado da cidade da perdição. Seu sangue era bebido por todos, e sentia como se duas galáxias titânicas se chocassem, embora uma fosse tão pequena e frágil e outra fosse tão grande e massiva.

A quarta não tremia. Não se mostrava surpresa; sabia o que queria aproveitar, e como faria. Tinha todos os dons, e era paciente, e esperava, e sabia, e olhava. Estava gostando tanto quanto as outras todas, mas controlava os impulsos da debutância. Eram seis vidas e muito mais que quinze anos. Era forte, por dentro e por fora.

A salvação que havia sido escrita nas escrituras sagradas se mostrava tão diferente e tão prazerosa. Passaram-se três noites de luxúria e cultos e sangrias e músicas e fogo, e os dias mal eram notados. A cena não era observada por outras criaturas. Não havia demônio ou anjo que pudesse enxergar aquilo tudo, ou talvez não quisessem, ou talvez não fizesse diferença se houvessem anjos e demônios além deles cinco. As roupas todas estavam rasgadas, surradas, jogadas aos cantos, e algumas peças foram acidentalmente queimadas nas brasas. Ninguém precisava daquilo. Ninguém queria aquilo. O que queriam era essa outra coisa que vagava e entrava pelas narinas e por entre os lábios e escorria entre as pernas e pulsava e fluía sem parecer ter fim. Vidas e vidas estavam alcançando a redenção em três noites inacabáveis, onde sequer textos e letras conseguem alcançar.

As três noites não eram as únicas, e nunca acabariam. As três noites eram infinitas. O fim do mundo era só do lado de fora. O tempo só existia do lado de fora.

Do lado de dentro, todos os casulos protegiam a fantasia da ríspida realidade. Não havia fim.

A brisa seria sempre gélida e agradável.

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