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3/3 Unexpected Dançarina Turnpike
Ela aparece toda noite rastejando pelas paredes do lugar comum, mas não tenho culpa. Sempre acabo escrevendo sobre o mesmo pronome, é maior que meu controle. Posso estar tão errado sendo tão recursivo?
O fato é que toda noite ela aparece de novo embaixo d’outra roupa; cada vez menos. Vejo-a em músicas que nunca fiz questão de conhecer, mas que admiro pela genialidade de cada movimento, enquanto ela dança bem à minha direita, como se eu soubesse que tudo é um jogo, e como se ela gostasse de saber de minha ciência de tanta decepção programada matematicamente.
Ela sabe, eu sei, todos sabem; tudo é de todos, tudo é tudo, é todo, deixo por um compasso ou dois meu egoísmo numa quina de gesso, maluca, de conceitos rabiscados; ela ri, enquanto eu também continuo rindo, satisfeito por caminhar de novo contra o abismo da imaginação e de tudo o que acho louvável e concreto. A carta zero me foi mostrada por uma fração de segundo – uma fração suficientemente pequena.
Dei a ela um pedaço criptografado de mim, que não pode ser lido por olhos que dominam a linguagem, nem podem ser ouvidos por orelhas que dominam a música. Avesso ao plano coordenado do comportamento. Sincero na ciência do erro. Algo que não consigo encontrar em outro lugar senão em mim mesmo. Um erro minuciosamente planejado.
Um erro matematicamente coerente.
E toda vez ela rasteja outra vez e me aparece, perto do espelho, dizendo de minhas virtudes e de meus fracassos, sadicamente, e eu não posso fazer nada, senão contemplar e ficar cada vez mais bêbado dom a realidade, mesmo sentindo as bordas ásperas e gostando de ser arranhado pelos muros ao tentar enxergar o que há por cima do concreto.
Converso com fantasmas, sem notar que a conversa é comigo mesmo e que as imagens são criadas por detrás dos olhos enquanto as ramificações se espalham e se encontram com o vírus da garganta.
As letras ficam cada vez mais embaraçadas e as músicas mais descompassadas, mas ainda adoro vê-la dançando tão perto de mim mesmo que eu não possa escolher as músicas de todos os dias como sempre escrevi nas linhas das mãos de areia da ilusionista do caos.
…Ela se contorce sozinha e eu não faço nada, não por não querer, mas por ter o pensamento. O pensamento pesa numa inclinação íngreme bem polida, assim como as dificuldades de escrever palavras simples. Estou bêbado enquanto ela dança. Converso, e não é com ela.
Não me lembrarei das conversas, mesmo sabendo que a amnésia é iminente.
Tudo que fazemos é esquecido no outro dia, e disso minha memória também haverá de me lembrar, por cima das curvas e a contração do espaço, assim como o cheiro, as formas e os sons e o tempo e o eco.
Estou bêbado, e ela é fantástica enquanto dança tão perto.
- Mr. Young T. Fawkes; Castela Hills, 2112
O Manifesto Silicone – Texto de Abertura do CXXXVI Salão de Venora
Os mourões de concreto amarelo anunciam a chegada dos deuses de nosso tempo, em suas naves conversíveis e vermelhas, com seus olhos negros que a face ocupam e o infinito vêem protegendo-se da nociva radiação ultravioleta da razão. Vêm eles todos para, ao final das madrugadas, hospedarem-se nos melhores condomínios habitacionais que este continente jamais pôde receber em suas tatuagens de asfalto.
Pelas trombetas do futuro vêm eles desde o raso horizontal dos mares tecnológicos, em gala disfarçada, com janelas sem vidros e cheirando a gasolina e a combustão, os heróis da humanidade da nova era.
Que comecem os disjuntores a dançar com as antenas; que comecem os cabeçotes de Manaus a trilhar cada pedaço magnético de vida que se esconde dentro de arcas plásticas cinzas ou esverdeadas. Que os fogos sejam nossos hologramas, e que os vinte minutos de cada pedaço da História da humanidade seja recordado dentro de nossos rios memoriais, de nossos corações centrípetos e nossos videodiscos.
Não venho, amigos, para roubar suas fitas cassete. Não sou César e nem sou imperador. Sou um irmão dos transistores, dos polígonos e da realidade construída em sete ponto quinze polegadas. Viajo por mares verdes onde o vento é medido em pacotes de oito dígitos. Trago as boas novas em disquetes; nossa verdade se mostra inteligível por todas as culturas de todos os povos unidos, não por braços ou mãos ou lábios, mas sim por telúrio, cerâmica e criptografias eletrônicas.
Dos arquitetos da nova Sicília os restaurantes abrem as portas a todos que sentem fome pela boa comida antes do começo das noites quentes da décima primeira autoestrada.Os polígonos voam ao horizonte com seus cantos e seus vértices vetoriais às dez da noite. O corredor do raio laser é uma doce incógnita que abraçamos, todos, unidos por idéias e arquedutos de corrente alternada.
Que as portas de nossa cidade se abram e bem recebam os cavaleiros do novo mundo. Que cada nariz possa contemplar o cheiro da gasolina aditivada e do silício plantado em tão proeminentes e proficientes florestas.
Que os discos rígidos girem para a Verdade de nossa Mentira!
- Augustus Rockefeller, Mestre de Cerimônias – MC, Venora 1987
Sob as Águas de Selene, pt. II
Se a caminhada até os portões do inferno me mostrar que durante todo o tempo acreditei numa natureza justa que não nos esconde a verdade, em vez de decaídos disfarçados de santos, medrosos e renegados, então eu vou apreciar cada espinho que me for colocado, cada fogo que me gotejar enquanto, cego, rastejo procurando o meu apocalipse.
- Galileu de William G.; Cena do Julgamento, ato III.
Eu sou um fantasma do lado de fora da casa de assombrações. Um voyeur da minha própria vida, um espectador chocado por minha própria atuação.
Sonne – Acordar, dormir e comer, em dados referenciais, passam a ser somente meras formalidades, meros caprichos matemáticos para explicar razoavelmente um ciclo espiral.
A luz trespassa, temerosa, as linhas que contorno dentro das ruas do calendário. Os dias olham com medo, e atravessam a rua.
O que eu procurava, de verdade, tinha nome, mas não tinha hora; tinha local, mas não tinha lua, e eu achei no meio de todas as improbabilidades – uma flutuação qualquer no espaço me fez ficar desafinado para sempre no tecido do tempo.
- Prelúdio do Tempo, por J. Moose; Teak Aquaria, ensaio XVIII.
Não havia mais ruídos. Eu estava paralisado e além de todas as sensações que me lembrava de existir. Lógica, senso e racionalidade dissolviam-se em frente aos meus olhos que tão acostumados eram a calcular grãos de areia numa ampulheta, sem dar por conta que cada um que fosse, jamais voltaria, embora ainda me iludisse tornando o vidro infinitamente até que escurecesse o Sol…
Minhas mãos doem – os pedaços de tinta são duros e cada letra carrega a dor de se estar contemplando um universo imerso em tudo o que sinto falta e que não acontecerá pelas próximas décadas – uma antecipação finita, mas interminável, onde eu vejo a anti-temporalidade dos meus próprios desejos.
E quem era aquela que bateu à porta, senão essa mesma, que mora furtiva dentro das matrizes inatas de rotação?
Quem girava era eu, embora parado, contemplativo, espectador, especular, voyeur das minhas sentenças.
Eis os que andam apressados à rua da frente, temerosos, alertas por todas as orquestras de temor que vasculham a individualidade do próprio pão. Do lado de dentro do quarto, no entanto, não há mais nada. Ela e eu somos três, mesmo que haja eu mesmo sendo mais um do lado de fora do lado de dentro.
E ela também percebe a si mesma e toma a se juntar no que eu já estava bêbado há muito, e posso sentir suas mãos procurando, síncronas, tanto ela quanto eu mesmo. Inclusive num compartilhamento, o egocentrismo lascivo desperta inspiração.
Mesmo com os olhos semi-abertos e iluminações mínimas das velas, eu entendia perfeitamente sem precisar ver tudo com os olhos.
As línguas encontravam as mãos, que tocavam os lábios, que circundavam os pescoços, as orelhas, e dançavam misticamente com as pernas perdidas num monte de roupas rasgadas e amassadas dentro de um universo novo de uma natureza infinita.
Passou-se o tempo, e as sensações animalescas não se pareciam com aquelas antigas – eram cerebróides; além de intensas, sabiam o quanto eram intensas, sabiam quantas dimensões tiveram de ser trespassadas até que a ampulheta irradiasse os próprios grãos de areia para fora do vidro.
É possível que tenhamos tido milhares de ápices, e nenhum deles nos podia parar – era além do anseio físico e concreto, era transgressor dos próprios limites da dor que me foram apresentados até então, era único, mesmo que num tempo esquisito que girava em círculos imaginários dentro da grande espiral.
O cheiro que ela exalava sem saber me fazia rasgar, além de suas roupas, também os sete vestidos que cobriam a verdadeira imagem da realidade. Forjava-me, com a menor das temperaturas, todos os ensinamentos, e depois os apagava todos, como livros que foram escritos por cima de areias numa lua cheia.
Todos os sentidos se confundiam; eu estava desnorteado. Não conseguia nem eu nem eu mesmo parar de admirá-la, tão perfeitamente errada e tão silenciosamente entregue a mim, afinal.
Pudera, colocaria as areias de todos os mares numa só ampulheta para sentir o cheiro, o gosto e a textura por mais tempo.
Servia a ela, sem conseguir pensar nas dualidades que permeiam poemas místicos da antiguidade que se perdera no meio.
Começara a imagem a esmaecer, as tintas a derreterem, e, aos poucos, me via voltando em passos cambaleantes e randômicos até o telhado da velha casa do passado. Uma garrafa quase vazia ao meu lado, penas tinteiras secas do outro, uma lua gigantesca e constelações e céu bem azul escurecido por cima das poucas e fracas luzes das portinholas daqueles que tinham medo do escuro na cidade. Um ou outro andarilho, ou qualquer vendedor com seu cavalo, e uma sensação única de afeto pela própria concepção de existência.
A certeza, por mais absurda, é um calmante para os flagelos das bordas ásperas que ficam além dos muros. Naquela noite eu vira uma certeza, seja lá por que fosse – eu vira.
A cada passo para baixo nos degraus, uma sensação gélida por dentro de onde eu costumava me aquecer com os tonéis; queria vê-la ali, sentada, ainda, à lareira.
De fato, ali estava ela. Do mesmo jeito, mesma posição, como se não tivessem transcorrido sequer metades de ampulhetas. Olhos abertos olhando o fogo que queimava e aquecia… Por algum motivo, parece que ela também sabia de tudo, e aguardava tão ansiosamente quanto eu por aquele dia.
Mesmo tão diferente, eu contemplava as curvas que se escondiam por baixo dos panos e da capa, e sabia tudo o que iria arquitetar ao mundo real vindo de dentro daqueles olhos e das marcas daqueles lábios.
Eu sabia, e queria fazê-la acreditar que viajaria todos os universos outra vez para reencontrá-la num tempo que haveria de chegar.
A Sétima Vida – 735
Os demônios outra vez se postavam fora das janelas. Por dentro eram quatro ou cinco almas perdidas, ofuscadas, lânguidas dentro da escuridão e do casulo de proteção que havia dentro das paredes. Um ritual pagão, um culto às sensações carnais, a primeira das três noites.
Não havia culpa – ali estavam as cinco almas lascivas e perdidas dentro do casulo.
Havia, de fato, mais que um casulo. Havia o que protegia dos demônios, do lado de fora, e havia o que aquecia, por dentro, por entre os corpos, entre as gotas, entre os sussurros, e havia outro.
Quando se faz uma infusão de ervas, não se deve bebê-la logo que a água quente é despejada. Deve se esperar até que a erva cozinhe – embora cozer não seja o termo mais adequado -, solte todos os cheiros e todas as cores e todos os sabores. Algumas horas antes, logicamente, beberam todas as infusões possíveis, e agora se entorpeciam com sangue. Não eram dos mais puros dos sangues, mas satisfaziam a sede de todos. Eram quatro feiticeiras e um mago perdido às ruas da inocência desconhecida. Era a isca para todas elas; era o que nascera dentro da tempestade, das nuvens, era o esperado há tanto tempo. E lá estava ele com todas as que previram os eclipses que haveriam de chegar enfim.
Uma ou duas eram mais novas que o novato, mas, ao mesmo tempo, aparentavam ser mais velhas. Pareciam ter ali esperado, por vidas e vidas, até aquele momento. Vestiram as melhores roupas e se usaram dos melhores perfumes. Arrumaram-se todas, tanto, esperando a queda da noite para que fossem violadas, desarrumadas, rasgadas, invadidas pelos trovões da quintessência.
A porta estava trancada por todas as chaves, e talvez seja esta uma alusão a todo aquele sangue que jorrava e cheirava e era bebido por todos ao mesmo tempo. A porta para o fim do mundo, a poção mágica, as bebidas servidas em taças e cristais e cuias, não importava. O batimento dos pulsos e dos relógios das catedrais, as linhas nas areias, o movimento dos grãos, a quebra das ondas. Tudo era a grande ópera que tinha, àquela noite, seu ato triunfal.
Parecia fantasioso, mas, afinal, era a realidade também uma fantasia. Num momento a linha entre sonhos, alucinações e verdades despertas esmaecia pelas diluições das músicas que tocam e reverberam nos rios vermelhos.
Em noites confusas, a imagem das quatro sempre aparecia no espelho, enquanto ele olhava para o breu do quarto, e não conseguia dizer quem fossem, ou por que apareciam. Elas estavam aguardando por ele há tantos séculos, e ele mal sabia o motivo.
E chegava cada vez mais próximo, e ficava cada vez mais confuso, e cada vez mais cego… Era o que devia fazer, era o que queria fazer. Era o que precisava fazer mais que tudo. Mais que respirar. Mais que pensar. Mais que andar.
Mais que viver.
Entre a casa e a catedral havia infinitas estradas a serem desbravadas por moedas velhas que ainda haviam de valer alguma coisa. Era escuro e cheio de florestas.
A Lua iluminava atrás das nuvens, mas o brilho não era igual em todo canto. Os dias da semana se confundiam; os cafés, as águas dos poços, os ninhos das corujas. Havia um brilho maior apontando a direção, como fosse estrela que guiava os reis antigos na cadência da História. Os pés doíam, mas ele caminhava e ficava cada vez mais próximo de si mesmo e delas quatro.
E então havia a cidade, por fim. Ruas quadradas, raízes, penumbra, postes, violência, avenidas numerosas e numeradas. A distância era menor depois de andar dentro do infinito de vales e árvores compridas e estreitas. Agora já se podia sentir melhor como era áspera a reluzência das tubas da orquestra de bronze que fazia todo o som do vento.
Num violão recortado, cheio de pontas, as cordas vibravam e faziam as ruas ressoarem com o caminho que deveria ser percorrido. Ele fechava os olhos e sabia exatamente por onde devia ir, que pontes tomar, que becos evitar, e as feiticeiras aguardavam numa casa cheia de demônios domados. Esperavam a meia-noite, esperavam e esperavam. O tempo não era mais tão impiedoso com elas… Já se foram tantas vidas, que são poucas horas perto de seis inteiras existências de cada uma?
Enquanto isso, se entorpeciam com vinhos guardados há invernos. Cantavam músicas depressivas e, ao mesmo tempo, tão animadas que se podia dançar em volta das fogueiras que ali se encontravam. A madeira queimava, a brasa era consumida, mas não havia carne alguma assando. A carne era banhada em sangue, e não havia sido cortada por homem algum. Nenhum outro animal deveria sofrer aquilo tudo.
Do outro lado do rio, ele sentia que era mais um mistério a ser resolvido, embora nunca tenha resolvido crimes ou sido um verdadeiro descobridor. Sentia-se como um, embora não soubesse como fosse a sensação. Apenas sabia que era assim, mesmo que ser algum tivesse contado. Os números e as datas faziam sentido, e o quarto de hotel, e os uivos solitários à Lua, e tudo.
A primeira delas era alta. Possuía pernas longilíneas, tatuagens cheias de significados, marcas singelas no rosto – constelações graciosas -, cabelos pretos e longos, se escondia em areias e mares de lugares distantes. Gostava de se entregar e entrelaçar com aquelas outras três, gostava de sentir a saliva, os lábios, os cheiros, a textura macia e lisa, o gosto do vinho diluído e das vestimentas apertadas implorando por fugirem dali.
A segunda era ruiva, nova, e disfarçava a própria essência por trás de campos franceses e contos de pureza. Sabia, por dentro, tudo que pulsava, e todas as vontades que deveriam despertar com os uivos daquela noite. Sabia que perderia o controle e encontraria lugares que tanto havia procurado por seis vidas e dezesseis anos de ardência. Olhava as outras e sabia tudo. Olhava as outras e fantasiava, e não conseguia conter a tremulação e o suor dentro das vestimentas pretas com asas.
A terceira não era a mais nova, mas era a menor de todas. Era quase anoréxica, mas, por algum motivo, também era bastante atraente. Alguns dos ossos se mostravam através da pele extremamente branca e intocada; qualquer movimento brusco poderia quebrá-la inteira… E, talvez, fosse isso mesmo que ela queria aquela noite.
A derradeira era carnosa. Possuía todas as curvas e era a mais velha. Havia lido os livros e havia conhecido os templos. A mestra das quatro. Havia procurado e havia ficado sem dormir, e lá estava. Embora soubesse como era a sensação, mostrava-se apreensiva. Todo dia era um Sol novo, uma Lua nova. Uma folha nova que caía da árvore e se enterrava ao chão virgem dos poços e dos rios.
E ele, errante, não se guardava às descrições. Mal se lembrava de como podia ser o próprio rosto. Bebia, mas não tanto. Não era forte, não era alto. Possuía cabelo e um pouco de imaginação, nada que pudesse alimentar o estômago. Era a quintessência que o ciclo das feiticeiras procurava desde a época da inquisição e das proibições e dos postulados hexagonais. Fora motivo de fogueiras, sofrimento, lágrimas, preces, juras, e lá estava. Havia o portão em frente aos seus olhos, era o inquisidor da noite, o redentor dos pecados, a salvação.
O portão abria-se lentamente, e ele não sabia como havia chegado até ali. Barulho, ferrugem; é verdade que se parecia muito com um portão de cemitério, e talvez fosse mesmo um cemitério.
As quatro silhuetas surgiram em meio à névoa do frio, supremas e certas. Ele continuava confuso, mas sabia de tudo.
Os pés queriam cair, o cérebro queria continuar em pé. Os toques de cada uma das mãos o desprendia das tensões e das ruas e dos quilômetros. Os demônios estavam presos, não havia o que pudesse encerrar abruptamente aquela noite rigorosa e nebulosa de inverno.
Por muito tempo, aprendera que os portões do céu seriam igualmente celestiais, como deveriam ser. Que o céu seria azul, sem nuvens; que anjos viriam ao seu encontro. Aprendera que o inferno era um lugar escuro, sombrio, coberto por um rio de sombra e pedras de sofrimento. Com aquilo tudo o que aprendera, não sabia se estava num céu ou num inferno. Talvez fosse a síntese de tudo, talvez fosse aquilo que ele mesmo era e não sabia. A quintessência, a junção de todos os capítulos de todos os livros, o despertar das coisas que não se pode imaginar com imaginação terrena. Era além da moral, além da verdade, além da lei. Era o céu e o inferno – os demônios estavam presos e os anjos estavam dormindo e não precisavam se preocupar.
Os pés venceram o cérebro, e ele desfaleceu, ainda acordado. Olhos e consciência continuavam ativos, mas as sensações já não eram as mesmas. As mãos das quatro passavam por seu corpo e seu cabelo com tal agrado e afeição que jamais havia sentido. Apesar da sensação corporal ser meramente carnal, havia algo além, inexplicável.
O mundo exterior estava em chamas. O apocalipse havia começado naquela madrugada. Através dos portões, sentia ele que se aconchegava no primeiro dos casulos. Via o apocalipse lá fora, e nada poderia atingir. Nenhuma pedra, nenhum meteoro, nenhum fim de nenhum mundo.
Aos poucos, começara a se acostumar com a sensação. Movimentava as mãos, e percebia que tudo havia ficado mais leve. Não era feito de matéria, não era material. Era um fluido adimensional, até que soubesse em que dimensão estava. A orquestra das ruas ficava distorcida e cada vez mais agradável.
Embora fosse tudo tão fluido, podia tocar tudo, podia tocá-las, e elas podiam sentir e tocar de volta. E ele só tinha duas mãos, mas conseguia passar por todas elas, ao mesmo tempo, e conseguia desviar-se das roupas e alcançar o que havia além de todas. E sentia pernas e braços e coxas arrepiadas, e ouvia os murmúrios, e olhava cada uma e sabia o que cada uma queria.
Ventava uma brisa gélida e agradável.
A primeira também fora a primeira. Pôde degustar a saliva e os lábios e sentir como sua roupa apertada era desabotoada, rasgada, e dava lugar a um alívio supremo de estar exposta aos predadores e aos monstros que queriam entrar em seu universo com dedos, línguas e gritos.
A segunda não conseguia se portar de paciência, e começou por si a arrancar aqueles vestidos satânicos, camada após camada, e dançava sem mesmo perceber. Eram roupas difíceis de serem arrancadas, por isso se contorcia àquela dança enigmática e sedutora. Também se contorcia pela tremulação e por todas aquelas vontades que escorriam entre suas pernas tão aparentemente puras.
A terceira se amarrava aos braços não tão fortes. Perto dela qualquer braço era forte, de fato. E torcia os quadris, e era como se estivesse possuída por alguma entidade lasciva. Não estava possuída por coisa alguma senão ela mesma; esta já era suficientemente lasciva. Perdia-se nos movimentos das mãos e de todas as outras partes, e parecia querer ser apenas quebrada em milhares de pedaços, como fosse um copo de cristal fino que caía de um relógio infinitamente alto e se espalhava ao chão molhado da cidade da perdição. Seu sangue era bebido por todos, e sentia como se duas galáxias titânicas se chocassem, embora uma fosse tão pequena e frágil e outra fosse tão grande e massiva.
A quarta não tremia. Não se mostrava surpresa; sabia o que queria aproveitar, e como faria. Tinha todos os dons, e era paciente, e esperava, e sabia, e olhava. Estava gostando tanto quanto as outras todas, mas controlava os impulsos da debutância. Eram seis vidas e muito mais que quinze anos. Era forte, por dentro e por fora.
A salvação que havia sido escrita nas escrituras sagradas se mostrava tão diferente e tão prazerosa. Passaram-se três noites de luxúria e cultos e sangrias e músicas e fogo, e os dias mal eram notados. A cena não era observada por outras criaturas. Não havia demônio ou anjo que pudesse enxergar aquilo tudo, ou talvez não quisessem, ou talvez não fizesse diferença se houvessem anjos e demônios além deles cinco. As roupas todas estavam rasgadas, surradas, jogadas aos cantos, e algumas peças foram acidentalmente queimadas nas brasas. Ninguém precisava daquilo. Ninguém queria aquilo. O que queriam era essa outra coisa que vagava e entrava pelas narinas e por entre os lábios e escorria entre as pernas e pulsava e fluía sem parecer ter fim. Vidas e vidas estavam alcançando a redenção em três noites inacabáveis, onde sequer textos e letras conseguem alcançar.
As três noites não eram as únicas, e nunca acabariam. As três noites eram infinitas. O fim do mundo era só do lado de fora. O tempo só existia do lado de fora.
Do lado de dentro, todos os casulos protegiam a fantasia da ríspida realidade. Não havia fim.
A brisa seria sempre gélida e agradável.