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Roda Gigante – 1935 do Outro Lado
Alguns poucos ali parecem dormir em seus caminhos. Daqui a pouco o movimento haverá de começar, bem depois de o horizonte ganhar explosões que tocam o azulado do oceano. Estrelas, poucas nuvens, brisa marítima e som de pedras. A madrugada parece correr de encontro aos pesares, enquanto lentamente saio da hipnose auto-induzida a que me submeti ao contemplar a vida perto do mar e das rodas gigantes.
Não sei se há terra depois de tanta água, mas é provável que haja. Também é provável que o Sol não fique maior lá adiante. É provável que as cores sejam ilusões ópticas, e que os ângulos sejam o que são apenas porque devam ser o que exatamente são. Contento-me em olhar o infinito buscando um traço diferente a cada maré nova que bate numa pedra – talvez as marés sejam guiadas mesmo por vontades lunares gradientes. Tento encontrar relíquias na forma de espirais e conchas indestrutíveis habitadas por tão somente uma criatura que saiba muito mais do mundo que meu cérebro jamais haverá de se enganar acreditando.
Hora ou outra alguém perde um relógio em meio às areias e aos castelos desmanchados, e outro alguém acaba por encontrar e tomar como tesouro para si próprio. Faz certo tempo que não acho nada senão espirais quebradas, conchas frágeis e pedaços ordinários de metal decomposto.
O horizonte parece incomodamente horizontal, sem qualquer traço diferente que me faça pensar em mudar a concepção de universo… O parque se ilumina na hora exata, com as mesmas cores avermelhadas. Até os visitantes parecem sempre ser os mesmos, com as mesmas roupas e mesmos costumes. Vão aos mesmos brinquedos, comem a mesma comida tóxica e gastam o mesmo dinheiro sujo.
Nenhuma alma perdida pedindo por um guia – ou por uma piada, que seja. Nenhum risco, nenhum cometa, nenhum novo fascínio, nenhum novo brilho nos olhos acostumados a saber que cor haverá de aparecer em determinados horários. Nada de novo, e nada me resta senão contemplar.
Há quem diga sobre tudo mudar apenas quando a visão própria muda a respeito do que há do lado de fora da janela. Todos os dias tento me convencer de que uma lâmpada vermelha não é da mesma cor vermelha que fora ontem, mas, ao fundo da inocência, sei que é igual, e que quando mudar será trocada para continuar tão próxima do igual o quanto deveria ser.
As águas também não deveriam parecer as mesmas. Há um mundo todo de mistura e de tormentas. Talvez não muito longe desses céus limpos e calmos haja uma tempestade, e piratas lutando bravamente contra si mesmos e contra os deuses dos mares para conseguir alcançar qualquer nova ilha que guarde fortunas antigas… Mas não vejo barcos, mesmo insistindo em procurá-los aos horizontes, até que meus olhos ardam…
A curvatura da Terra me esconde de mim mesmo. Do outro lado, em algum lugar, em alguma outra noite, o mar também parece igual.
E em toda manhã o mesmo dia volta a acontecer.
Law of / Leap of Faith
Era uma tarde de inverno, mas não qualquer tarde ordinária, como sempre havia de ser. Havia cheiro de alguma folha seca voando entre os pilares de madeira. Algum cheiro de tabaco, misturado com algum cheiro de temperos alquímicos exóticos… Talvez ar eterno misturado com hortelã e alho, não se sabe. Enquanto isso, à sombra do próprio telhado de palha, ele afiava a ponta do compasso.
Um compasso único. Feito com a madeira da árvore que ele mais estimava. Com o melhor ferro que poderia ter moldado em toda a sua sabedoria pela Mãe de todas as Mães, e com um carvão tão resistente quanto as pirâmides de diamante. Já havia se passado infinitas luas desde aquela noite em que ele finalmente o criou, e ainda continuava inteiro, como se tivesse sido moldado à noite anterior.
Ao lado, também com a madeira que mais estimava, o esquadro. O esquadro que nunca revelava sequer meia imperfeição. Onde as medidas eram milimetricamente precisas e os ângulos justamente como deveriam ser. Havia inscrito, a fogo, um pentagrama e um Ouroboros.
Obviamente, não precisava ele de óculos.
Sua observação havia começado há décadas. Talvez séculos, mas isso ele nunca poderia saber com certeza até que soubesse. Toda noite, enquanto os sacerdotes realizavam seus rituais em todo o esplendor de Roma, ele ficava cada vez mais próximo do que realmente se buscava além das montanhas e dos céus. Toda noite ele ficava perto da máxima glória divina. Ele não precisava rasgar o próprio rosto em forma de arrependimento – não era o único que errava, e sabia disso. Tinha a consciência de que, feito um ato, não se pode mudar o passado. E, por isso, sem ter a certeza que tanto buscavam os fiéis, contentava-se em contemplar a Grande Obra e as notas musicais isomórficas beijando os diapasões.
Havia chá, ervas, frutas secas e as areias celestes, que, noite após noite, pareciam formar novos desenhos e juntar-se a novos oceanos cósmicos. Um azul profundo… E só poderia ser água.
Enquanto o céu se movimentava, com suas engrenagens invisíveis, ele movimentava o compasso e o esquadro, em sintonia com a música. Rabiscava o carvão e, da fibra, surgiam as formas e as espirais. O céu, afinal, traduzia o que havia por dentro das constelações de seu próprio pensamento.
Um dia, há muito tempo, daqui a muitos anos, exatamente nessa tarde de inverno, ele juntou as linhas. Enquanto as semanas estavam passeando com frio, ele entendeu o funcionamento daquilo que via, como via. Entendeu o que era o rodamoinho, e porque algumas das poeiras cósmicas não pareciam se movimentar, enquanto outras eram levadas pelas luas ao menor sopro do éter.
Ali, à sua frente, encarando-o, num tom intrigante. O fogo que havia na ponta do carvão e do ferro desenhara algo além das espirais, além dos pentagramas, além de seu próprio entendimento.
Ela ficava intensamente distante. Intensamente. Mesmo que pudesse ir até o outro lado do mundo e voltar por trinta vezes, não seria o suficiente para percorrer toda a distância. E ela caía, infinitamente, sem chegar sequer um grão de mostarda mais próxima. Era distante, e toda noite refletia os cabelos das ninfas do lago… Exceto quando queria se esconder.
Como fosse centróides de elipses, sua precessão era queimada por velas vermelhas, dia após dia, como se pudesse mudar o curso dos rios. Ele não podia (e, de certa forma, sabia disso).
Naquela tarde, ele percebeu como juntar as linhas e desatar os nós. A maçã caía entre as folhas, mesmo que já mordida. A mesma força que deixa a maçã mais próxima de sua cabeça, acaba por estreitar o caminho até as distantes areias lácteas do oceano infinito.
Mas ela, Serena, jamais sentia vontade de ficar mais próxima.
Degradação de Ordem Três
Um dia na cidade. Não era um lugar abandonado, mas fingíamos a atmosfera, só para que tudo ficasse mais obscuro. Era divertido criar um clima obscuro urbanoide, afinal.
Outdoors velhos, refrigerantes que não mais existem, chão retalhado; noite fria e fogueira com latões tóxicos. Fios de cobre como nervos entrelaçados com as raízes das árvores que cresciam onde um dia foi um templo. Um dia, há muitos séculos… Talvez estivéssemos ficando já bêbados sobre algum tipo de altar magistral de alguma era perdida, quem pode saber…
Toxina – Urânio. Pessoas esparsas. Cada uma com dois ou três andando e falando sobre a chuva de meteoros que rasgava a constelação do oeste. Pisando no chão pisado, remoendo cacos de vidros e cruzes e portais e óleo diesel, respirando e soltando fumaça orgânica pelos ouvidos.
Frio, e o delta estava seco (mas não parecia tão venenoso agora).
Li um folheto jogado qualquer – anunciava-se a apresentação de alguma banda perdida na cidade. Alguma banda coadjuvante, que nunca fiz questão de ouvir, mas que, por algum motivo, talvez pela atmosfera do folheto, me despertou estranha curiosidade. Eu precisava ouvir. Decidi, portanto, ir.
Antes que eu pudesse pensar em que vodka comprar para o dia, fui surpreendido por uma figura aleatória. À minha frente, como quem apenas tivesse aparecido de onde nada antes havia, tinha cabelos longos, escuros e encaracolados. Era pouco menor que eu, magra e muito branca. Usava óculos sem muitos detalhes, minimalista, com lentes levemente ovais. E um sorriso enigmático e sincero. Um colar vermelho escuro. Tipo de roupa não muito anormal, mas que, dada minha ignorância, não consigo descrever. Não possuía nada de muito avantajado, mas era bem proporcional ao seu corpo. E as roupas realçavam essa característica tão matematicamente apreciável. Se muito não me engano, a calça era de algum tipo de couro sintético, e havia correntes relativamente delicadas em sua cintura.
De qualquer forma, estava muito escuro e muito frio para poder prestar atenção em algo minuciosamente. Ela começou a perguntar sobre o mundo – mais especificamente, se eu era eu. E se era eu, sendo eu, o mesmo eu que tinha um alguém importante que me completava, mesmo sabendo que eu já era completo assim como todos somos enquanto somos um cada um. Na verdade, ela usou um termo obscuro; soou estranho mesmo que tenha sido nessa cidade nesse dia. Talvez quem tenha usado esse termo fosse minha própria imaginação, traduzindo qualquer perturbação de partículas no ar frio como tais formalidades sonoras.
De qualquer forma, confirmei que esse eu era mesmo o eu que ela pensava que eu fosse. E que esse eu tinha essa Ela e que meus olhos ainda continuavam brilhando quando me referia àquela pessoa tão magistral. E ela entendeu. E perguntou sobre Ela. E eu fui respondendo cada pergunta, e a noite ia ficando cada vez menos fria, embora a temperatura ambiente tivesse abaixado ainda mais. Pelos meus cálculos, sentíamos dois graus abaixo do zero.
Perguntou-me esse ser enigmático perguntas cada vez mais tendenciosas, cada vez mais indiscretas, cada vez mais interessantes e intrigantes. Depois pediu nosso endereço; eu, obviamente, passei cada dado.
Não é que ela fosse algum tipo de numeróloga ou pensasse em conceitos muito complexos… Mas ela queria três. O três, a sete. A Três.
II – A Sala
As paredes eram prateadas; parecia algum tipo de metal. Quase alumínio, mas era algo nobre. Perfeitas, sem qualquer tipo de impureza ou qualquer coisa assim. Uma escada prateada, ao meu lado esquerdo; um vidro em minha frente, e do outro lado outra sala.
Surge, então, do outro lado do vidro, uma das supremas. Era loira, muito loira. Cabelos muito longos, e pele quase que brilhante de tão branca. Olhar sem muita expressão; parecia estar analisando algo em mim. Talvez meu comportamento… E eu me sentia tão humano… Ela tinha todas as formas muito bem definidas, seios fartos e bem formados, com auréolas extremamente rosadas. Observava os controles, e eu só conseguia contemplar tudo aquilo.
O primeiro fluxo; um fluido azul claro, era da cor do céu nos dias mais ensolarados e frios do planeta Terra, inundava o ambiente de baixo para cima, e era translúcido. Eu não queria me afogar, então prendia a respiração. Foi assim por duas vezes, subi a escadaria.
Logicamente, eu também estava desprovido de qualquer tipo de roupa ou adorno. Era eu e meu cabelo e minhas imperfeições terrenas. E só.
Olho outra vez pelo vidro, e, junto a ela, apareceu o complemento, talvez o comandante daquilo tudo. Também com cabelo loiro, o qual tinha forma de capacete. Também um semblante sério e analítico. Eu era cobaia de algo, pelo que entendi. Não sei exatamente de que, mas era uma experiência interessante. Não era nada forçado.
O comandante se comunicava com a suprema sem nada dizer, eu não via bocas se mexendo. Só via sinais com mãos e olhos, serenos.
No terceiro fluxo, decidi que ia manter em meus pulmões (pelo menos o que deveria sê-los) o máximo de ar possível. E prendi bem a respiração. Mas o fluido celestial inundou toda a sala, até acima das escadas mais altas. Quis respirar. E respirei.
E continuei respirando.
A cidade continuava com a sensação das cinco da manhã. O fim da fogueira, o fim da música, restos de garrafas e altares e túmulos e mesas de sacrifício. Portas de metal fechadas, cheiro de fumaça virtual industrializada, pontos de ônibus desativados…
Sem carros – parecia uma zona de guerra. Mas não havia guerra, era um lugar calmo e sereno no meio do caos em que estávamos todos emergidos.
A cidade era mais viva quando a maioria dormia.
TSH-1619
The Nanny Words – Eng Mec / N. Santos Neto 7D, 7C, 7D 04:00 A.M -> XTR
Rio x
Cuba v Race-Z
A ampulheta se contorce, o delírio começa. A linha fica cada vez menos difusa, a luz faz uma curva cada vez mais definida. Lá vamos nós.
Nós somos muitos.
Num primeiro momento, além do café, há um céu escuro, azul bem escuro, de trás pra frente. E frio, muito frio, no meio das montanhas distantes. Um cristalino por dentro de novos olhos, uma nova visão. E frio, e pouca gente. Gente o suficiente.
Outra vez o objetivo era alcançar o grande castelo. Dessa vez, por graças ao Sir Wallace, não era uma jornada solitária. No acampamento, discutíamos sobre dobras de calças e zíperes. Sem qualquer maldade, apesar de ser tentador. Devemos controlar nossas tentações, de vez em quando. Não é um ato instintivo, mas é para a evolução.
Entrei pelo túnel e vi o grande campo dos orbitais. Tais todos. Menores porções de matéria ou energia, um grande gênio dividido em quatro pedaços eletromagnéticos repulsivos e atraídos gravitacionalmente ao mesmo tempo. Havia um método para juntá-los todos, mas o máximo que se conseguia era juntar dois dos pedaços. A repulsão eletromagnética era extremamente mais intensa que a atração forçada das forças esquisitas. Mas havia um jeito. Tudo corria à velocidade da luz, e tinha as cores primárias e não consigo descrever de outra forma, era uma máquina, era um gênio, e isso estava longe, muito longe de ser a resposta definitiva para qualquer coisa.
Era só a porta de muitas outras perguntas.
Mr. Tesla, como posso sentir, ri de toda essa corrida de ratos. Estivesse ele aqui entre nós fisicamente, já teria escrito documentos e mais documentos, e nesse momento estaríamos voando livremente pelos céus nublados.
Mas não à velocidade da luz, obviamente.
Toda uma divergência, e, pelo que parece, minha nave microscópica ultraluminífera não é o suficiente para entender de fato mais essa jogada do grande jogo de xadrez do livro vermelho. Duas das partes, mas não todas. Dessa vez.
A nave era prateada, pequena, triangular. Deveria estacionar-se ao meio dos quatro pedaços do gênio ao mesmo tempo. Precisamente ao mesmo tempo entre todos os tempos.
Num pseudodespertar, há a televisão à minha frente. Um ser gordo, de terno, com voz de mulher. Não era a voz dele, eu sei. Sua fala estava sendo dublada. Não sei por que, não sei se era algum tipo de censura, só parecia muito estranho.
De volta ao acampamento, uma das discípulas que vestia calças azuis apertadas apontou ao poste. Não eram pássaros, eram enigmas. Como cordas entrelaçadas entre os elétrons, infinitos nós e quase-letras formadas; blocos, tetris. Não consigo recordar quantos e nem como. Podiam ser reajustados, realinhados. Eram blocos, era um grande enigma. Eram cordas entrelaçadas, eram infinitas possibilidades.
Talvez até houvesse uma clave de fá.
O juiz fora preso, disse-me o médico professor. Careca, barba branca e jaleco. Eu não era um aluno dele, mas convidou-me a assistir especialmente àquela aula. Não sei qual a disciplina, mas havia um lugar vago, e apenas um. A cadeira era branca, e não havia mesas. Parecia-se mais com a configuração de uma palestra-aula. Qualquer coisa assim. O médico tinha sotaque indiano, embora não me tivesse dirigido palavras que me lembre perfeitamente do significado. Eu entendia sem saber nada.
SFH-1619 v=c
O café ficou um pouco menos forte que o preferível. Mas serviu para me deixar acordado. Estive pensando sobre as escadas, tanto nos macrocosmos quanto nos microcosmos.
Uma escadaria, não sei para onde (não farei relações com dirigíveis de chumbo aqui, embora já tenha feito indiretamente), e um ponto notório:
Quando se sobe um degrau, deixa-se de existir no degrau passado, e passa-se a existir no degrau de cima.
Não sei as aplicações futuras disso, mas haverá de aparecer em tempo.
Uma das últimas cenas, e talvez por alguma interpretação Jungiana possa ser dramática. Havia um submarino emergido. Eu por cima dele. Deslizei após chegar à máxima resolução do problema da nave prateada. Escorreguei pela esquerda, e caí de costas n’água, no meio do oceano.
E a água me puxava cada vez mais para o fundo; eu não podia respirar.
entropic clouds of evolution
Dinâmica – como as coisas mudam com o tempo. Para um problema, mil ratos; para cada mil problemas, um rato.
Correndo, observando, buscando a saída do círculo fechado… Engaiolados e rindo da ignorância do que há do lado de fora da jaula.
A verdade está dentro da jaula?
2^40 = 10^a ↔ a = log2^40 ↔ a = 40log2 ↔ 10^12
Todos somos o grande vírus do experimento. Um tempo estranho, algo empuxa-nos o cérebro, como se este carregasse toda a informação que temos, resumida, carnal. Revela-nos como tudo o que aprendíamos em anatomia era mentira: o cérebro não é maciço; mas, sim, sin, fios enrolados condensados como uma nuvem de incógnitas.
E daí vem todas as chuvas… Embora todos demorem ainda um bom tempo até terem matemática suficiente para comprovar.
Não basta acreditar, deve-se provar tudo por si mesmo. O mundo de verdade. O mundo que existe. Além da fé, além da crença, além da vontade: Não há vontade na ciência. A ciência move o mundo. A ciência enrola os fios para dentro, numa grande espiral.
A ironia é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos. Na Literatura, a ironia é a arte de gozar com alguém ou de alguma coisa, com vista a obter uma reacção do leitor, ouvinte ou interlocutor.
Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo. Para tal, o locutor descreve a realidade com termos aparentemente valorizantes, mas com a finalidade de desvalorizar. A ironia convida o leitor ou o ouvinte, a ser activo durante a leitura, para refletir sobre o tema e escolher uma determinada posição. O termo Ironia Socrática, levantado por Aristóteles, refere-se ao método socrático. Neste caso, não se trata de ironia no sentido moderno da palavra.
- Enciclopaedia Clichecyclyca, W.
O gargalo estocástico – como num estupro de camelos neurônicos – a garrafa está meio cheia? Meio vazia? Insuficiente? O bastante para embebedar?
Enquanto flutuávamos pelo oceano primordial hipotético, éramos senão vírus, apenas. Nossa informação devidamente guardada, o grande segredo universal por trás da compreensão da carga e das correntes e dos padrões; aminoácidos, talvez, devidamente combinados. Ribozimas, afinal.
Encontrei, enfim, algum tipo de padrão na realidade que tanto desprezo. Não é cabível de reclamação mera de minha parte ser rondado por tamanhos indivíduos. É de conhecimento geral, à minoria, como são desprezíveis. São como ratos, mas não de estimação; como se ratos de esgoto fossem usados em termos decorativos, correndo em loop, atrás de um fim invisível e impossível.
MIRANDA, C. Et al; Replicação da Idiotice da Sociedade Explicada pelo Método de Spiegelman, p. 166.
Não há progresso na evolução. O que há é adaptação. Muitas vezes os seres mais adaptados não são os que mais sobrevivem, uma vez que podem, assim como em grande parte das estimativas estão, existir em menor número.
Desde o oceano primordial, pouco importa a destreza intelectual. Ou se é mais forte ou se está em maior grupo. Os caras legais são facilmente extintos.
Chuva de fundo, radiação de fundo, background. Protocolo de transferência serial em Gargalo. Condições antimutagênicas. Crescimento pareado.
“Em ambientes variáveis, que mudam com o tempo, não faz sentido dizer que um indivíduo é mais apto que outro. Fratura exposta no chamado orgulho.”
Interferência construtiva/destrutiva é linear. Quem ganha a briga não é quem se reproduz mais rapidamente, em alguns casos. Nem sempre replicador mais rápido é o mais apto. O advento das quase espécies. Vulgo Homo sapiens. Usando o telefone aqui da quitanda e ligando; aquele senhor de camisa amarela na seção de lataria, pegando o telefone. Esse senhor pediu para usar o telefone, e ligou para a casa dela, para atormentar.
10^130 > 10^80
Se uma molécula é muito grande, ela está fadada ao fracasso.
Teoria – O ser humano é mais interessado em entender o funcionamento do que vê ou imagina que vê. Eu concordo com o que você quiser. Whvl6CikDxA
Vai chover? Quando? Borboletas? Tornados? Zeta?
Alfa?
Paradigma da regularidade[]
Atratores estranhos…? @~@
Espelho I-II
Viajantes; no último dia, na última semana, ou na última tarde, que seja, deparei-me com espelhos perdidos. Jogados pelo tempo, abandonados à estação, sabe-se lá desde quando. Espelhos. Numa sala trancafiada, na qual entrei sem chave.
Andei pelos monotrilhos obscuros, com o mesmo cheiro de poeira e as mensagens subliminares e todas as frases que escrevo de olhos fechados, imaginando, torturando meu próprio cérebro, divagando sobre o que há escondido embaixo de cada trilho de trem onde já não passa mais nada desde há muito tempo…
Olhos fechados, talvez esse seja um bom método, uma boa metáfora e uma boa síntese. Muitas vezes alguns segredos só são confessáveis, mesmo que acompanhado da pessoa mais confiável do mundo, sob uma neblina feita de escuridão. Seja ao fim de uma festa, ou antes de dormir, com as luzes do quarto apagadas.
Às vezes saem erros nas palavras, distorções, mas o conceito fica bem mais claro quando está tudo escuro.
E, dessa forma, continuei a caminhar, espreitando cada vazio enferrujado para tentar achar alguma porta perdida, alguma entryway station inside the train station. Pois bem, achei duas delas, uma em frente à outra.
Entrei à primeira.
Era um lugar sujo. Insetos podres já mortos. Metal podre. Líquido podre. Cheiro de podre. Tudo exatamente podre. Ao meio da sala, como algum tipo de ídolo exposto às orações, jazia um espelho velho. Mais velho que a própria existência da estação, creio. Mais velho que as eras todas da humanidade, creio. Mais velho que a consciência.
Nele, algumas manchas, mas elas não pareciam estar lá devido ao tempo. Parecia que o espelho já possuía essas manchas desde que fora fabricado. E elas ofuscavam a própria imagem que via ao tentar olhar meus próprios olhos.
Elas me indagavam, também. O que eu tentava ver? Por que tentava ver uma imagem sem manchas? Por que precisava ver a mim mesmo para ter certeza de minha existência? E se alguém apalpasse meu reflexo no espelho, por dentro? Eu sentiria afeto? E se as manchas fossem minhas de verdade, eu saberia limpá-las? Por que limpá-las? Por que eu queria ser limpo? Eu precisava ser limpo? Eu precisava de reflexo? Por que eu precisava tanto de tanta coisa? Por que eu me perguntava? Por que eu tinha consciência? Por que algo me despertava sentimentos mesmo sendo um reflexo de mim mesmo? Eu sentia raiva?
Pois foi o que vi. Um espelho manchado, e, dentro dele, alguém, algum vulto afagava meus cabelos secos. Segurava minhas mãos, brincava com qualquer coisa inocente que estivesse ao alcance. Alguém brincava com meu reflexo por dentro do espelho. Do lado de fora, ainda parecia tudo frio na estação de trem abandonada.
Admirei uns segundos, até que quase fui puxado para o mundo de dentro. Não parecia o lugar mais aconchegante do mundo, então vesti meus sapatos (achei muito desrespeitoso continuar de sapatos num templo, seja ele qualquer fosse), e pus-me a retirar do local. Sem um último olhar para o espelho. Não gostei de minha face manchada. Ela não era minha.
Ela não podia ser minha.
Questão fiz, é verdade, de esquecer muito sobre aquela sala podre cheia de coisas podres. Estive muito ansioso pela outra. Seria tão angustiante? Ou uma compensação por tamanho desagrado? Antes de pensar, entrei.
Fiquei atônito, em princípio, ao perceber que não parecia fazer parte da própria estação. Parecia outro mundo, outra realidade, outro tempo; ou aquele pedaço parara no tempo, ou eu viajei no mesmo. Ou era uma outra alucinação. Ou. Ou. Ou! Ou!
Como é doce depender de parafernalhas que nunca funcionam. Na verdade funcionam muito bem, mas travam em horas inapropriadas. Estive relatando, caros viajantes, sobre espelhos e tudo mais, a Segunda Porta, quando as máquinas começaram a ruir; senti o velho cheiro de silício derretido feito aquele queijo delicioso numa fogueira, ou até então marshmallow com gosto de eletricidade.
De qualquer forma, houve um pequeno lapso desde então, estou alarmado quanto às funcionalidades, mas prossigamos.
Estive à segunda sala, reaceso após qualquer tipo de queda ao obscuro. Tudo brilhava mais que o normal, tudo, na verdade, parecia mais anormal que o normal. Não parecia sequer parte da estação. Parecia outro lugar.
Talvez fosse outro lugar.
Ao olhar com atenção ao espelho, realizei que era, de fato, outro lugar. Estava eu do outro lado. O espelho era cristalino, e por ele vi-me achegando, cada vez mais próximo; cada vez mais próximo… Cada vez mais…
Num susto, senti uma mão em meu ombro esquerdo, suavemente, devo acrescentar. Não queria olhar de prontidão quem era ou o que era. Decidi experimentar minhas próprias alucinações. Não fiz questão de olhar. Apenas deixei que fluísse.
Era uma mão feminina. E parecia amigável. Mais que isso, tanto libidinosa. Num momento, entretanto, tive de virar e me deparar com algum tipo de mulher muito exótica, inexplicavelmente bela, com veias bioluminescentes, cabelo comprido e muito liso… E, ao chão embaixo dela se fazia um pentagrama vermelho, e toda a sala parecia branca. Branca e limpa, de fato. Paredes brancas que se assemelhavam a látex, chão branco e liso, e o pentagrama vermelho, e o espelho. Cristalino.
Ela queria me beijar, mas eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Não era eu de verdade, era apenas meu reflexo. Mas dessa vez eu controlava cada ação de meu reflexo. Olhei para o espelho, vi-me do lado de fora, com as mãos perdidas, olhos perdidos, procurando alguma saída de dentro de mim mesmo, gritando em silêncio, debatendo contra o vidro (que talvez fosse manchado se visto daquele ângulo), angustiado.
Eu não podia deixá-la me beijar ali.
Acenei negativamente, uma vez que não podia falar (onde já se viu um reflexo falante…), e ela pareceu compreender, e esboçou um estranho sorriso.
Afastou-se um pouco, e depois se aproximou do espelho. Vi-me chegando cada vez mais próximo, e ela chegando cada vez mais próxima de mim mesmo do lado de fora. As bocas, vagarosamente, na iminência de se tocarem, já podiam sentir a temperatura uma da outra. Era exatamente o que eu queria.
Ali, então, ela e eu pusemos-nos a nos beijar, mas ela não estava beijando meu reflexo. Era eu de verdade. Talvez se voltasse à outra sala nesse momento a sensação fosse diferente. Fosse menos absurda, pois conseguira atravessar até a outra parte do mesmo livro e rearranjar todas as estrofes e todos os parágrafos dos textos que sequer consigo ler.
A realidade não é estática.
E um espelho pode despertar inúmeros fetiches.
E, Senhor dos pesos e etiquetas, o Senhor não se enforcou.
Downward
…otinif oatne ,otnop oriemirp o uo ,arvalap ariemirp á setracsed
satnop [sa] es-marbod osrevinu od
seõçop / saus e sateforp etes
siós, satenalp áh
ós – zirtareg
im, ér
só¿
lá, si
matriz – dó
saturnos, mongóis
máquinas de fumaça / invenções
ou foram as ideias que [espaço] derreteram?
leva ao segundo ponto, segunda curva, segunda coordenada infinita…