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Observando o Lago Selvagem
Numa tarde infinitamente próxima, guardei minhas vontades para roubar lembranças do lago. Eu e meus aparatos tocamos a sinfonia da alma ao capturar feixes selvagens de luz que acidentalmente adentravam o receptor foto-sensível das minhas invenções.
Era uma tarde diferente. Não havia mais ninguém para atormentar as ondas eletromagnéticas, não havia ninguém para me fazer tremer antes de apertar o obturador, não havia ninguém para incomodar a música ambiente das águas calmas do lago fechado. Pude perceber cada peixe que saltava, mesmo que em minhas visões periféricas. Pude reparar em cada folha fractal de cada árvore, e em como a natureza é sublime – tão sublime que nos convidou, certa vez, a fazer parte dela, e mesmo assim apenas a contemplamos como algo alheio, e não como algo de que somos efetivamente parte.
Cada galho que cai, cada pássaro que não consegue voar, cada peixe engraçado que bate a cabeça contra o barco de madeira, cada acerto e cada falha, mesmo que longe de nossa percepção, são partes de nós mesmos. Tudo o que vemos, tudo o que roubamos, tudo o que pensamos e todas as palavras que não conseguimos dizer são tão sublimes quanto as euforias. As mentiras, as verdades, tudo converge para a existência eterna e incompreensível de nossa própria casa que tentamos compreender como vida.
Um pedaço do lago parece se ocultar dentre árvores, e lá talvez durmam – com olhos abertos – mais peixes, provavelmente os mais introspectivos, isto é, os que não batem a cabeça contra os barcos, mas sim contra as árvores e contra os outros peixes.
Minha máquina artificial também é parte da natureza. É uma mistura alquímica bem elaborada e genialmente encaixada em si mesma com o intuito de fazer o tempo durar mais segundos num pedaço perdido de papel que haverei de olhar, numa outra tarde, ao crepúsculo da existência, sentindo nostalgia por ter andado nessas tardes amarelas e silenciosas, e, ao mesmo tempo, com o pesar de não ter conseguido mostrá-las em toda perfeição pra mais alguém que não os galhos das árvores e o barco de madeira.
Mas, obviamente, até mesmo o pesar e a nostalgia não devem se anular ou entrar em conflito. Tanto quis o silêncio que acabei por apagar qualquer outro barulho… Talvez as músicas ruins sejam tão importantes quanto as boas… Talvez as mensagens simples sejam tão valiosas quanto as complexas…
Num pequeno momento de tempo, enquanto a infinidade do mesmo se mostrava no papel de minhas mãos fotográficas, não me importava com a dualidade das coisas todas, ou com o céu, ou com os peixes engraçados do lago. O que me fazia buscar as sombras nas fotografias era a necessidade de mostrar a mais alguém todo o universo que vive em pedaços tão pequenos de tudo, e, ao mesmo tempo, tão infinitos quanto esferas.
Dentro dos ecos da sala e da lareira que já quase encontra sua última chama, consigo ouvir a voz adocicada da guardiã.
O Manifesto Silicone – Texto de Abertura do CXXXVI Salão de Venora
Os mourões de concreto amarelo anunciam a chegada dos deuses de nosso tempo, em suas naves conversíveis e vermelhas, com seus olhos negros que a face ocupam e o infinito vêem protegendo-se da nociva radiação ultravioleta da razão. Vêm eles todos para, ao final das madrugadas, hospedarem-se nos melhores condomínios habitacionais que este continente jamais pôde receber em suas tatuagens de asfalto.
Pelas trombetas do futuro vêm eles desde o raso horizontal dos mares tecnológicos, em gala disfarçada, com janelas sem vidros e cheirando a gasolina e a combustão, os heróis da humanidade da nova era.
Que comecem os disjuntores a dançar com as antenas; que comecem os cabeçotes de Manaus a trilhar cada pedaço magnético de vida que se esconde dentro de arcas plásticas cinzas ou esverdeadas. Que os fogos sejam nossos hologramas, e que os vinte minutos de cada pedaço da História da humanidade seja recordado dentro de nossos rios memoriais, de nossos corações centrípetos e nossos videodiscos.
Não venho, amigos, para roubar suas fitas cassete. Não sou César e nem sou imperador. Sou um irmão dos transistores, dos polígonos e da realidade construída em sete ponto quinze polegadas. Viajo por mares verdes onde o vento é medido em pacotes de oito dígitos. Trago as boas novas em disquetes; nossa verdade se mostra inteligível por todas as culturas de todos os povos unidos, não por braços ou mãos ou lábios, mas sim por telúrio, cerâmica e criptografias eletrônicas.
Dos arquitetos da nova Sicília os restaurantes abrem as portas a todos que sentem fome pela boa comida antes do começo das noites quentes da décima primeira autoestrada.Os polígonos voam ao horizonte com seus cantos e seus vértices vetoriais às dez da noite. O corredor do raio laser é uma doce incógnita que abraçamos, todos, unidos por idéias e arquedutos de corrente alternada.
Que as portas de nossa cidade se abram e bem recebam os cavaleiros do novo mundo. Que cada nariz possa contemplar o cheiro da gasolina aditivada e do silício plantado em tão proeminentes e proficientes florestas.
Que os discos rígidos girem para a Verdade de nossa Mentira!
- Augustus Rockefeller, Mestre de Cerimônias – MC, Venora 1987
Sob as Águas de Selene, pt. II
Se a caminhada até os portões do inferno me mostrar que durante todo o tempo acreditei numa natureza justa que não nos esconde a verdade, em vez de decaídos disfarçados de santos, medrosos e renegados, então eu vou apreciar cada espinho que me for colocado, cada fogo que me gotejar enquanto, cego, rastejo procurando o meu apocalipse.
- Galileu de William G.; Cena do Julgamento, ato III.
Eu sou um fantasma do lado de fora da casa de assombrações. Um voyeur da minha própria vida, um espectador chocado por minha própria atuação.
Sonne – Acordar, dormir e comer, em dados referenciais, passam a ser somente meras formalidades, meros caprichos matemáticos para explicar razoavelmente um ciclo espiral.
A luz trespassa, temerosa, as linhas que contorno dentro das ruas do calendário. Os dias olham com medo, e atravessam a rua.
O que eu procurava, de verdade, tinha nome, mas não tinha hora; tinha local, mas não tinha lua, e eu achei no meio de todas as improbabilidades – uma flutuação qualquer no espaço me fez ficar desafinado para sempre no tecido do tempo.
- Prelúdio do Tempo, por J. Moose; Teak Aquaria, ensaio XVIII.
Não havia mais ruídos. Eu estava paralisado e além de todas as sensações que me lembrava de existir. Lógica, senso e racionalidade dissolviam-se em frente aos meus olhos que tão acostumados eram a calcular grãos de areia numa ampulheta, sem dar por conta que cada um que fosse, jamais voltaria, embora ainda me iludisse tornando o vidro infinitamente até que escurecesse o Sol…
Minhas mãos doem – os pedaços de tinta são duros e cada letra carrega a dor de se estar contemplando um universo imerso em tudo o que sinto falta e que não acontecerá pelas próximas décadas – uma antecipação finita, mas interminável, onde eu vejo a anti-temporalidade dos meus próprios desejos.
E quem era aquela que bateu à porta, senão essa mesma, que mora furtiva dentro das matrizes inatas de rotação?
Quem girava era eu, embora parado, contemplativo, espectador, especular, voyeur das minhas sentenças.
Eis os que andam apressados à rua da frente, temerosos, alertas por todas as orquestras de temor que vasculham a individualidade do próprio pão. Do lado de dentro do quarto, no entanto, não há mais nada. Ela e eu somos três, mesmo que haja eu mesmo sendo mais um do lado de fora do lado de dentro.
E ela também percebe a si mesma e toma a se juntar no que eu já estava bêbado há muito, e posso sentir suas mãos procurando, síncronas, tanto ela quanto eu mesmo. Inclusive num compartilhamento, o egocentrismo lascivo desperta inspiração.
Mesmo com os olhos semi-abertos e iluminações mínimas das velas, eu entendia perfeitamente sem precisar ver tudo com os olhos.
As línguas encontravam as mãos, que tocavam os lábios, que circundavam os pescoços, as orelhas, e dançavam misticamente com as pernas perdidas num monte de roupas rasgadas e amassadas dentro de um universo novo de uma natureza infinita.
Passou-se o tempo, e as sensações animalescas não se pareciam com aquelas antigas – eram cerebróides; além de intensas, sabiam o quanto eram intensas, sabiam quantas dimensões tiveram de ser trespassadas até que a ampulheta irradiasse os próprios grãos de areia para fora do vidro.
É possível que tenhamos tido milhares de ápices, e nenhum deles nos podia parar – era além do anseio físico e concreto, era transgressor dos próprios limites da dor que me foram apresentados até então, era único, mesmo que num tempo esquisito que girava em círculos imaginários dentro da grande espiral.
O cheiro que ela exalava sem saber me fazia rasgar, além de suas roupas, também os sete vestidos que cobriam a verdadeira imagem da realidade. Forjava-me, com a menor das temperaturas, todos os ensinamentos, e depois os apagava todos, como livros que foram escritos por cima de areias numa lua cheia.
Todos os sentidos se confundiam; eu estava desnorteado. Não conseguia nem eu nem eu mesmo parar de admirá-la, tão perfeitamente errada e tão silenciosamente entregue a mim, afinal.
Pudera, colocaria as areias de todos os mares numa só ampulheta para sentir o cheiro, o gosto e a textura por mais tempo.
Servia a ela, sem conseguir pensar nas dualidades que permeiam poemas místicos da antiguidade que se perdera no meio.
Começara a imagem a esmaecer, as tintas a derreterem, e, aos poucos, me via voltando em passos cambaleantes e randômicos até o telhado da velha casa do passado. Uma garrafa quase vazia ao meu lado, penas tinteiras secas do outro, uma lua gigantesca e constelações e céu bem azul escurecido por cima das poucas e fracas luzes das portinholas daqueles que tinham medo do escuro na cidade. Um ou outro andarilho, ou qualquer vendedor com seu cavalo, e uma sensação única de afeto pela própria concepção de existência.
A certeza, por mais absurda, é um calmante para os flagelos das bordas ásperas que ficam além dos muros. Naquela noite eu vira uma certeza, seja lá por que fosse – eu vira.
A cada passo para baixo nos degraus, uma sensação gélida por dentro de onde eu costumava me aquecer com os tonéis; queria vê-la ali, sentada, ainda, à lareira.
De fato, ali estava ela. Do mesmo jeito, mesma posição, como se não tivessem transcorrido sequer metades de ampulhetas. Olhos abertos olhando o fogo que queimava e aquecia… Por algum motivo, parece que ela também sabia de tudo, e aguardava tão ansiosamente quanto eu por aquele dia.
Mesmo tão diferente, eu contemplava as curvas que se escondiam por baixo dos panos e da capa, e sabia tudo o que iria arquitetar ao mundo real vindo de dentro daqueles olhos e das marcas daqueles lábios.
Eu sabia, e queria fazê-la acreditar que viajaria todos os universos outra vez para reencontrá-la num tempo que haveria de chegar.
A Sétima Vida – 735
Os demônios outra vez se postavam fora das janelas. Por dentro eram quatro ou cinco almas perdidas, ofuscadas, lânguidas dentro da escuridão e do casulo de proteção que havia dentro das paredes. Um ritual pagão, um culto às sensações carnais, a primeira das três noites.
Não havia culpa – ali estavam as cinco almas lascivas e perdidas dentro do casulo.
Havia, de fato, mais que um casulo. Havia o que protegia dos demônios, do lado de fora, e havia o que aquecia, por dentro, por entre os corpos, entre as gotas, entre os sussurros, e havia outro.
Quando se faz uma infusão de ervas, não se deve bebê-la logo que a água quente é despejada. Deve se esperar até que a erva cozinhe – embora cozer não seja o termo mais adequado -, solte todos os cheiros e todas as cores e todos os sabores. Algumas horas antes, logicamente, beberam todas as infusões possíveis, e agora se entorpeciam com sangue. Não eram dos mais puros dos sangues, mas satisfaziam a sede de todos. Eram quatro feiticeiras e um mago perdido às ruas da inocência desconhecida. Era a isca para todas elas; era o que nascera dentro da tempestade, das nuvens, era o esperado há tanto tempo. E lá estava ele com todas as que previram os eclipses que haveriam de chegar enfim.
Uma ou duas eram mais novas que o novato, mas, ao mesmo tempo, aparentavam ser mais velhas. Pareciam ter ali esperado, por vidas e vidas, até aquele momento. Vestiram as melhores roupas e se usaram dos melhores perfumes. Arrumaram-se todas, tanto, esperando a queda da noite para que fossem violadas, desarrumadas, rasgadas, invadidas pelos trovões da quintessência.
A porta estava trancada por todas as chaves, e talvez seja esta uma alusão a todo aquele sangue que jorrava e cheirava e era bebido por todos ao mesmo tempo. A porta para o fim do mundo, a poção mágica, as bebidas servidas em taças e cristais e cuias, não importava. O batimento dos pulsos e dos relógios das catedrais, as linhas nas areias, o movimento dos grãos, a quebra das ondas. Tudo era a grande ópera que tinha, àquela noite, seu ato triunfal.
Parecia fantasioso, mas, afinal, era a realidade também uma fantasia. Num momento a linha entre sonhos, alucinações e verdades despertas esmaecia pelas diluições das músicas que tocam e reverberam nos rios vermelhos.
Em noites confusas, a imagem das quatro sempre aparecia no espelho, enquanto ele olhava para o breu do quarto, e não conseguia dizer quem fossem, ou por que apareciam. Elas estavam aguardando por ele há tantos séculos, e ele mal sabia o motivo.
E chegava cada vez mais próximo, e ficava cada vez mais confuso, e cada vez mais cego… Era o que devia fazer, era o que queria fazer. Era o que precisava fazer mais que tudo. Mais que respirar. Mais que pensar. Mais que andar.
Mais que viver.
Entre a casa e a catedral havia infinitas estradas a serem desbravadas por moedas velhas que ainda haviam de valer alguma coisa. Era escuro e cheio de florestas.
A Lua iluminava atrás das nuvens, mas o brilho não era igual em todo canto. Os dias da semana se confundiam; os cafés, as águas dos poços, os ninhos das corujas. Havia um brilho maior apontando a direção, como fosse estrela que guiava os reis antigos na cadência da História. Os pés doíam, mas ele caminhava e ficava cada vez mais próximo de si mesmo e delas quatro.
E então havia a cidade, por fim. Ruas quadradas, raízes, penumbra, postes, violência, avenidas numerosas e numeradas. A distância era menor depois de andar dentro do infinito de vales e árvores compridas e estreitas. Agora já se podia sentir melhor como era áspera a reluzência das tubas da orquestra de bronze que fazia todo o som do vento.
Num violão recortado, cheio de pontas, as cordas vibravam e faziam as ruas ressoarem com o caminho que deveria ser percorrido. Ele fechava os olhos e sabia exatamente por onde devia ir, que pontes tomar, que becos evitar, e as feiticeiras aguardavam numa casa cheia de demônios domados. Esperavam a meia-noite, esperavam e esperavam. O tempo não era mais tão impiedoso com elas… Já se foram tantas vidas, que são poucas horas perto de seis inteiras existências de cada uma?
Enquanto isso, se entorpeciam com vinhos guardados há invernos. Cantavam músicas depressivas e, ao mesmo tempo, tão animadas que se podia dançar em volta das fogueiras que ali se encontravam. A madeira queimava, a brasa era consumida, mas não havia carne alguma assando. A carne era banhada em sangue, e não havia sido cortada por homem algum. Nenhum outro animal deveria sofrer aquilo tudo.
Do outro lado do rio, ele sentia que era mais um mistério a ser resolvido, embora nunca tenha resolvido crimes ou sido um verdadeiro descobridor. Sentia-se como um, embora não soubesse como fosse a sensação. Apenas sabia que era assim, mesmo que ser algum tivesse contado. Os números e as datas faziam sentido, e o quarto de hotel, e os uivos solitários à Lua, e tudo.
A primeira delas era alta. Possuía pernas longilíneas, tatuagens cheias de significados, marcas singelas no rosto – constelações graciosas -, cabelos pretos e longos, se escondia em areias e mares de lugares distantes. Gostava de se entregar e entrelaçar com aquelas outras três, gostava de sentir a saliva, os lábios, os cheiros, a textura macia e lisa, o gosto do vinho diluído e das vestimentas apertadas implorando por fugirem dali.
A segunda era ruiva, nova, e disfarçava a própria essência por trás de campos franceses e contos de pureza. Sabia, por dentro, tudo que pulsava, e todas as vontades que deveriam despertar com os uivos daquela noite. Sabia que perderia o controle e encontraria lugares que tanto havia procurado por seis vidas e dezesseis anos de ardência. Olhava as outras e sabia tudo. Olhava as outras e fantasiava, e não conseguia conter a tremulação e o suor dentro das vestimentas pretas com asas.
A terceira não era a mais nova, mas era a menor de todas. Era quase anoréxica, mas, por algum motivo, também era bastante atraente. Alguns dos ossos se mostravam através da pele extremamente branca e intocada; qualquer movimento brusco poderia quebrá-la inteira… E, talvez, fosse isso mesmo que ela queria aquela noite.
A derradeira era carnosa. Possuía todas as curvas e era a mais velha. Havia lido os livros e havia conhecido os templos. A mestra das quatro. Havia procurado e havia ficado sem dormir, e lá estava. Embora soubesse como era a sensação, mostrava-se apreensiva. Todo dia era um Sol novo, uma Lua nova. Uma folha nova que caía da árvore e se enterrava ao chão virgem dos poços e dos rios.
E ele, errante, não se guardava às descrições. Mal se lembrava de como podia ser o próprio rosto. Bebia, mas não tanto. Não era forte, não era alto. Possuía cabelo e um pouco de imaginação, nada que pudesse alimentar o estômago. Era a quintessência que o ciclo das feiticeiras procurava desde a época da inquisição e das proibições e dos postulados hexagonais. Fora motivo de fogueiras, sofrimento, lágrimas, preces, juras, e lá estava. Havia o portão em frente aos seus olhos, era o inquisidor da noite, o redentor dos pecados, a salvação.
O portão abria-se lentamente, e ele não sabia como havia chegado até ali. Barulho, ferrugem; é verdade que se parecia muito com um portão de cemitério, e talvez fosse mesmo um cemitério.
As quatro silhuetas surgiram em meio à névoa do frio, supremas e certas. Ele continuava confuso, mas sabia de tudo.
Os pés queriam cair, o cérebro queria continuar em pé. Os toques de cada uma das mãos o desprendia das tensões e das ruas e dos quilômetros. Os demônios estavam presos, não havia o que pudesse encerrar abruptamente aquela noite rigorosa e nebulosa de inverno.
Por muito tempo, aprendera que os portões do céu seriam igualmente celestiais, como deveriam ser. Que o céu seria azul, sem nuvens; que anjos viriam ao seu encontro. Aprendera que o inferno era um lugar escuro, sombrio, coberto por um rio de sombra e pedras de sofrimento. Com aquilo tudo o que aprendera, não sabia se estava num céu ou num inferno. Talvez fosse a síntese de tudo, talvez fosse aquilo que ele mesmo era e não sabia. A quintessência, a junção de todos os capítulos de todos os livros, o despertar das coisas que não se pode imaginar com imaginação terrena. Era além da moral, além da verdade, além da lei. Era o céu e o inferno – os demônios estavam presos e os anjos estavam dormindo e não precisavam se preocupar.
Os pés venceram o cérebro, e ele desfaleceu, ainda acordado. Olhos e consciência continuavam ativos, mas as sensações já não eram as mesmas. As mãos das quatro passavam por seu corpo e seu cabelo com tal agrado e afeição que jamais havia sentido. Apesar da sensação corporal ser meramente carnal, havia algo além, inexplicável.
O mundo exterior estava em chamas. O apocalipse havia começado naquela madrugada. Através dos portões, sentia ele que se aconchegava no primeiro dos casulos. Via o apocalipse lá fora, e nada poderia atingir. Nenhuma pedra, nenhum meteoro, nenhum fim de nenhum mundo.
Aos poucos, começara a se acostumar com a sensação. Movimentava as mãos, e percebia que tudo havia ficado mais leve. Não era feito de matéria, não era material. Era um fluido adimensional, até que soubesse em que dimensão estava. A orquestra das ruas ficava distorcida e cada vez mais agradável.
Embora fosse tudo tão fluido, podia tocar tudo, podia tocá-las, e elas podiam sentir e tocar de volta. E ele só tinha duas mãos, mas conseguia passar por todas elas, ao mesmo tempo, e conseguia desviar-se das roupas e alcançar o que havia além de todas. E sentia pernas e braços e coxas arrepiadas, e ouvia os murmúrios, e olhava cada uma e sabia o que cada uma queria.
Ventava uma brisa gélida e agradável.
A primeira também fora a primeira. Pôde degustar a saliva e os lábios e sentir como sua roupa apertada era desabotoada, rasgada, e dava lugar a um alívio supremo de estar exposta aos predadores e aos monstros que queriam entrar em seu universo com dedos, línguas e gritos.
A segunda não conseguia se portar de paciência, e começou por si a arrancar aqueles vestidos satânicos, camada após camada, e dançava sem mesmo perceber. Eram roupas difíceis de serem arrancadas, por isso se contorcia àquela dança enigmática e sedutora. Também se contorcia pela tremulação e por todas aquelas vontades que escorriam entre suas pernas tão aparentemente puras.
A terceira se amarrava aos braços não tão fortes. Perto dela qualquer braço era forte, de fato. E torcia os quadris, e era como se estivesse possuída por alguma entidade lasciva. Não estava possuída por coisa alguma senão ela mesma; esta já era suficientemente lasciva. Perdia-se nos movimentos das mãos e de todas as outras partes, e parecia querer ser apenas quebrada em milhares de pedaços, como fosse um copo de cristal fino que caía de um relógio infinitamente alto e se espalhava ao chão molhado da cidade da perdição. Seu sangue era bebido por todos, e sentia como se duas galáxias titânicas se chocassem, embora uma fosse tão pequena e frágil e outra fosse tão grande e massiva.
A quarta não tremia. Não se mostrava surpresa; sabia o que queria aproveitar, e como faria. Tinha todos os dons, e era paciente, e esperava, e sabia, e olhava. Estava gostando tanto quanto as outras todas, mas controlava os impulsos da debutância. Eram seis vidas e muito mais que quinze anos. Era forte, por dentro e por fora.
A salvação que havia sido escrita nas escrituras sagradas se mostrava tão diferente e tão prazerosa. Passaram-se três noites de luxúria e cultos e sangrias e músicas e fogo, e os dias mal eram notados. A cena não era observada por outras criaturas. Não havia demônio ou anjo que pudesse enxergar aquilo tudo, ou talvez não quisessem, ou talvez não fizesse diferença se houvessem anjos e demônios além deles cinco. As roupas todas estavam rasgadas, surradas, jogadas aos cantos, e algumas peças foram acidentalmente queimadas nas brasas. Ninguém precisava daquilo. Ninguém queria aquilo. O que queriam era essa outra coisa que vagava e entrava pelas narinas e por entre os lábios e escorria entre as pernas e pulsava e fluía sem parecer ter fim. Vidas e vidas estavam alcançando a redenção em três noites inacabáveis, onde sequer textos e letras conseguem alcançar.
As três noites não eram as únicas, e nunca acabariam. As três noites eram infinitas. O fim do mundo era só do lado de fora. O tempo só existia do lado de fora.
Do lado de dentro, todos os casulos protegiam a fantasia da ríspida realidade. Não havia fim.
A brisa seria sempre gélida e agradável.
Caesar X
Era quente como o inferno, mas Caesar gostava da sensação gelada das tigelas nórdicas de água. Havia apenas uma forma de ficar acordado, e era dentro do profundo escuro; ninguém mais podia ver, nem ouvir, nem pensar. Lá estava ele, outra vez, no mesmo lugar… Embora fosse um lugar completamente diferente.
A fumaça havia voltado, depois de vários reinados transparecidos como a estatueta blasfema de uma santa. Porém o cheiro não era sólido como atomicidades cinzentas e sujas. Era um cheiro doce e inexplicável. Era de extremo bom gosto, e lembrava Caesar sobre várias noites embaixo de coqueiros artificiais das praias do futuro. Era de coloração roxa e odor doce.
Antes de ficar escuro, havia músicos. Eram diferentes dos bardos costumeiros. Estes traziam maquinarias a vapor, engrenagens, cristais, bastões mágicos, vidros de poções alquimistas, trovões enclausurados… Sentia Caesar que eram virtuosos, e traziam consigo mais cordas que um instrumento poderia conceber. As cordas vibravam distorcidas e ressonantes com a mudança do Universo e dos tempos.
Os tempos eram bastante diferentes.
Ainda antes de escurecer, chegou-se um velho conhecido. Parecia um traidor, mas não o era. Fosse, seria não mais que o próprio Caesar. Não havemos de tentar entender os entrelaces que ocorrem entre os seres antientrópicos. Havemos apenas de viver o que quer que seja, o que quer que seja para acontecer. E assim acontecia.
Ele parecia ter um bom coração, afinal. Ofertou, junto com sua dama, uma bebida a Caesar. Sentou-se este para conversar com eles.
Então o Sol se foi atrás das montanhas, e provavelmente fora apenas a primeira das magias de um dos virtuosos. Não havia lá relógios confiáveis, e notas musicais eram meramente relativas.
Depois de uma voz oraculosa conversar conosco em pensamento sobre o que de fato somos, começou-se a contar um conto. Era um conto longo, sobre um pesadelo. Um pesadelo que jamais deveria ser esquecido.
Então isso é o teatro dos sonhos, ela pensou. Parecia um lugar sujo, de verdade. Um lugar pobre, caindo aos pedaços, com tochas fracas e mal-cheirosas. Não havia por que se estar ali. Não havia. Mas ela precisava saber o que havia; já se passaram inúmeras estações, não era mais sensato se esconder por baixo de cobertas.
Havia algo a ser visto, e ela precisava ver o que precisava ver.
O cavalheiro perdido contou a Caesar que já se passara um ano. Caesar consentiu. Passara-se um ano a ele também… Era lamento, no entanto, que sua inspiração estivesse tão longe dali. Mas estava perto, como sempre, e ele sabia.
Depois de outro jarro de cevada, assentou-se à mesa o que usava chapéu. Estava sem chapéu ali, é verdade, mas suas retratações desenhadas jamais seriam diferentes. Aos doze anos, já lecionava em seu clã – era alguém devidamente notável, e gostava de conversar com Caesar. Parecia, de fato, que conhecia entranhas do pensamento, e sabia exatamente que caminhos fraseados tomar.
Conversar é como uma música a se tocar. Naquela noite, os músicos eram virtuosos, e assim pareciam as companhias.
Atrasado, chegou outro dos imperadores da Terra Nova. O último deles, e o mais louvável.
Escadarias, mas não levavam a um castelo. Era bem diferente de um castelo. Não ficava num lugar que pudesse um dia ser um castelo. Era tolice, essas fantasias são igualmente tolas. Os castelos dos livros não são como os castelos de verdade que se vê através da janela toda manhã.
Não havia porque uma mulher usar armadura. Ela não era uma mulher. Era quase, mas ainda não era. Resolveu se cobrir, apesar do calor.
Castelos de livros não existem.
Depois de contar sobre o pesadelo, o cozinheiro das dimensões tirou de sua capa um tipo de metal refletor. Faiscava, emanava raios verdes que se estendiam às paredes e emitiam barulhos incompreensíveis, caóticos e, ao mesmo tempo, de beleza inconcebível. As peças pareciam cair como acontecia nas terras distantes e geladas dos hunos, e caíam exatamente por dentro da cabeça de Caesar, uma a uma, buscando uma ordem, enquanto obedeciam as regras do desequilíbrio.
As peças podem ficar em ordem de alguma forma. Enquanto caem, porém, seguem senão o caos. Não é um sistema caótico, é apenas um sistema em caos.
Números emergiam, e Caesar compreendia o que disse o velho grego. Não era que toda a natureza fosse resumida em contas e cálculos e pedras. Era que tudo podia ser escrito em números, como fosse uma linguagem que transcendia.
Os virtuosos sabiam inclusive conversar por números.
Havia sido apenas um ou dois goles, mas já se sentia um pouco distorcida. Caminhava entre as pessoas, procurando o que devia ver, sem conseguir imaginar o que seria. Estava derretendo, mas precisava parecer comportada.
Do outro lado daquelas terras perdidas e desoladas, luzes riscavam o céu. Devia ser algum tipo de teste dos malucos chineses, mas não parecia tão agradável. Era bonito, visto de longe, assim como bonita parecia a Lua, tão redonda vista da torre da taverna.
Eram mais bonitas as luzes de dentro.
Caesar, depois de outra sinfonia acabada, subiu à mesa. Levantou o cálice de cevada e contou sobre como o espaço e o tempo eram um só, e isso de maneira extravagante. Contou que havia uma grande entidade que era o espaço e o tempo, e esta era um tipo de mulher, uma dançarina. Usava-se de um chapéu ornamentado por frutas, talvez falsas, e dançava músicas simples e, ao mesmo tempo, intrigantes. O espaço-tempo era uma dançarina, e ela parecia muito familiar.
Os virtuosos entenderam, como haviam de entender tudo o que seria dito aquela noite. O imperador da Terra Nova estava longe, mas havia também entendido. Ele tinha tarefas mais relevantes, como jogar.
O último imperador da Terra Nova gostava de jogar, e era um senhor deveras engraçado, porém bastante sábio ao mesmo tempo. E um tanto assustador, quando contava piadas. Disse sobre um quadrado que havia inventado, que emitia sons conforme o desenho formado. Ou emitia desenhos, conforme o som gritado. Tanto faz, era reversível.
Reversível também era a música que ecoava dos alquimistas. Era um druida, um cozinheiro, um ritmista de terras distantes, um canônico e um inventor de máquinas voadoras. O druida contava, embora dessa vez sem sua flauta, sobre as linguagens faladas. O cozinheiro usava seus utensílios transdimensionais para gritar sons imersos em caos organizados. O ritmista viera do continente do sul, e parecia ser um octopus em seus latões e peles de carneiro. O canônico não ria, não olhava e não dizia, apenas tocava suas cordas infinitas, cuidadosamente, precisamente, exatamente. O inventor de máquinas voadoras inventava máquinas voadoras que só fariam algum sentido depois de alguns séculos de hiato – os códigos do que futuramente seriam chamados aeroportos já haviam sido todos catalogados; pontos, traços, traços, pontos, música.
Andando entre a gente toda, ela pensou ter visto algo diferente. Era uma mesa, e nela conversavam quatro seres. Eram três homens de aparência respeitável, e uma moça. Todos pareciam muito mais velhos, apesar disso não ser tão difícil. O que acontecia, de verdade, é que a nova era ela. Talvez mais do que queria ser, talvez mais do que podia ser…
Mas não eram os três nem a moça que a despertara curiosidade. Era um dos três. Um que apontava e bebia e falava sobre universos distantes e cordas que vibravam e soavam como uma grande música do que é chamado de realidade. Era um tipo de conversa complicada, mas ela estava lá, ela deveria entender. Ela não estava lá aleatoriamente, e, por algum motivo, ela sabia disso.
O rapaz perdido e sua dama foram embora. Despediram-se. Caesar achou melhor ficar sozinho à mesa por alguns instantes, contemplando a introspecção. Desenhava, parado, linhas nas areias de um deserto que havia por dentro da consciência. Entrava dentro da própria carne, via tudo, como poucas vezes pôde ver. Talvez fosse a fumaça roxa, talvez as luzes, talvez as bebidas, talvez os alquimistas, talvez tudo. Mas tudo parecia fazer sentido por um momento bastante pequeno de tempo, e essa sensação era agradável a Caesar, apesar de ele saber que tudo seria esquecido na próxima manhã.
O que importava de verdade não era se o conhecimento seria guardado num lugar bem seguro, mas sim se esse conhecimento de fato existia. Naquele momento cheio de carne humana, Caesar percebeu que existia mesmo. Percebeu que o que sabia era certo, e que não estava perdendo a linha.
É provado através do tempo. E o tempo, como sabemos, é uma dançarina.
E agora ele parecia sozinho. Mas não estava de fato sozinho. Parecia na verdade que estava bem acompanhado, e tinha gente bastante interessante para conversar. Não seria ela uma perturbadora daquela paz que via no meio das músicas dentro dos olhos do tecedor das cordas da realidade.
Continuou andando, ela, entre a gente do local. Mas dessa vez ela sabia o que queria ver, e via. E continuava a ver, e não se importava se alguém percebesse que estava vendo. Era o que ela queria ver, e via. E via.
E ele não parecia perceber que estava sendo visto.
Percebia. Caesar percebia que estava ficando tarde e as músicas ficavam cada vez mais longas, e isso não era necessariamente ruim. Juntou-se à mesa de jogo do imperador e tentou caçar a conversa jogada ao esmo. Conseguiu, como de costume, e se entrosou nas bebidas que não existiam.
Era um remédio. Conversar com virtuosos sobre coisas novas e terras distantes era um remédio para a alma. Não havia atrito – era como uma grande mesa de bolas rolantes, perfeitamente lisa e polida e agramada. Perto ali deles, não propriamente junto com eles, havia outra moça. Parecia um tanto deslocada, não falava muito e era razoavelmente atraente.
Deixe ser, ela disse. E foi a única coisa que disse a noite toda. Misteriosamente, disse bem quando Caesar se aproximou.
Era, para ela, parecido com aquelas imagens que via todo dia no templo da montanha. Era bem parecido, na verdade. Conseguia imaginá-lo sem aquelas vestes nobres. Conseguia imaginá-lo quase sem veste alguma, sangrando, com flechas fincadas perto do peito, mantendo um semblante calmo e pacífico, segurando um livro e querendo dizer algo perto de uma árvore.
O calor parecia se intensificar conforme os pensamentos dela se desenrolavam por tudo aquilo. Era sinal de algo? Mas ela era tão nova!
Lembrou também que, tão longe quanto os malucos chineses, outro senhor dizia suas histórias à cidade. Eram histórias sujas, promíscuas, proibidas. Queria saber das histórias, era curiosa. Mas não precisava – ali estava ela, criando sua própria história suja, promíscua e proibida.
Endeusava o tecedor das ondas, e fantasiava com uma imagem endeusada. Era uma blasfema. Mas sequer tinha idade para ser blasfema. Quase não tinha idade para pecar, então por que sentia tantos turbilhões apenas ao olhar para alguém qualquer que jogava bolas rolantes com um imperador cômico e um professor de cereais?
Deixe ser, Caesar pensou, em silêncio. Bastante gente conhecida estava com pinturas de guerra e sinais na pele. Não entendeu muito bem, mas provavelmente sequer deveria entender aquilo. Deixe ser, estava escrito no ombro da moça calada.
Enquanto isso, ali à frente das mesas, o cozinheiro contou brevemente sobre suas musas. Caesar se lembrou de sua Musa Suprema, e sentiu que faltava algo na noite, e não era por causa da luminosidade da cidade que ofuscava o céu.
A musa da qual falava o cozinheiro era diferente. Ela parecia rastejar pelos compassos, e gritar por socorro, subliminarmente, em algum tipo de segredo.
O druida, enquanto falava o cozinheiro, bebia algum tipo de bebida amarga e forte, e realizava semblantes engraçados. O inventor de máquinas voadoras havia sumido, mas seu som continuava. Testes alquimistas de invisibilidade também faziam parte do espetáculo, afinal…
Era majestoso, ao contrário. E tão majestoso quanto a ordem correta. É inexplicável, mas tente imaginar uma sinfonia épica sendo apresentada em ordem reversa. Se a sinfonia for de fato transcendental, não importa a ordem, a velocidade ou até a nota. As grandes sinfonias sequer precisariam de notas.
Estava tarde. Precisava partir. Iria embora sem saber quem era aquele, sem saber seu nome, e levaria consigo por todo o resto da eternidade apenas um conjunto de fantasias que a faziam suspirar. Lembraria dele em todos os rapazes que conheceria em sua vida, e antes dela, e depois dela. Ela vira o que deveria ter visto. Queria ver mais, mas não podia. Queria apenas falar com ele, mas não podia.
Tinha de ir embora, e já estava sendo quase arrastada por seus protetores gigantes e brutos e cheios de martelos e armaduras. Andou à saída, e quase tropeçou em seus próprios pés. Continuou a olhar aquele ser das ondas e das cordas da realidade, e continuou a suspirar. Ele não parecia notar, de fato. Os olhos dela brilharam, e ela desceu as escadas.
As noites comuns também se faziam presentes naquelas músicas que ecoavam pelo salão. Era uma sensação única. A mesma sensação refletida por aquelas noites agradavelmente geladas e azuladas e estreladas, onde o céu se misturava harmoniosamente com os prédios e as luzes artificiais, tudo visto de cima do castelo de verdade.
Havia, afinal, três tipos de castelos – o dos livros, o da realidade crua, e o de verdade. Ela gostava de subir até o alto do terceiro tipo e ficar contemplando a cidade.
Um dia perceberia que está mais próxima do tecedor da realidade do que poderia imaginar. Um dia olharia ao redor quando estivesse ao alto do castelo, e realizaria que está acompanhada por todas as suas fantasias.
Na última nota do piano do cozinheiro ela foi embora.
A música cessaria logo, disse o imperador. Caesar também consentiu, já estava ficando com sono. Por surpresa, os alquimistas ofereceram a todos da mesa do imperador aquela última sinfonia. Ela dizia que cada respirar deixava a morte cada vez mais próxima.
Caesar sabia disso, e talvez todos ali também soubessem. No entanto, o modo como os alquimistas diziam era poderoso e introspectivo. É estranho algo ser introspectivo quando falado por uma terceira pessoa, mas costumava funcionar.
Era uma introspecção conjunta, e talvez por isso ninguém se sentisse sozinho.
As linhas na areia continuavam a se desenhar, e Caesar precisava partir. Acordou seus criados e partiu, sem conseguir se despedir honrosamente do imperador e do professor.
No caminho de volta, uma sensação estranha pairava. Era uma mistura de bastante coisa. Eram cenas que vinham desde a preparação do ritual, desde os trovões guarnecidos, desde as bebidas, desde o pseudo-traidor, até os errantes que se amontoavam para ver o rosto de Caesar. Não sabia o que tinha de tão ímpar, mas atraía aquela gente. Eles não pediam dinheiro, só queriam apertar-lhe a mão.
Mas a sensação ia além disso tudo. Caesar sentia que havia alguém com ele, pacificamente. Alguém que o observava, de alguma forma, em algum lugar, talvez dentro de alguma das construções que se faziam ao horizonte.
O conhecimento provavelmente se diluiria com o fluido etéreo da Estrela da Manhã após algum sono, mas era pra ser assim.
Havia uma natureza que se desprendia em escalas que não podem ser vistas. Os números, os pentagramas. Tudo seguia uma ordem de beleza embriagante.
Houve algo notável aquela noite, e Caesar haveria, um dia, de descobrir o que tinha sido.
Law of / Leap of Faith
Era uma tarde de inverno, mas não qualquer tarde ordinária, como sempre havia de ser. Havia cheiro de alguma folha seca voando entre os pilares de madeira. Algum cheiro de tabaco, misturado com algum cheiro de temperos alquímicos exóticos… Talvez ar eterno misturado com hortelã e alho, não se sabe. Enquanto isso, à sombra do próprio telhado de palha, ele afiava a ponta do compasso.
Um compasso único. Feito com a madeira da árvore que ele mais estimava. Com o melhor ferro que poderia ter moldado em toda a sua sabedoria pela Mãe de todas as Mães, e com um carvão tão resistente quanto as pirâmides de diamante. Já havia se passado infinitas luas desde aquela noite em que ele finalmente o criou, e ainda continuava inteiro, como se tivesse sido moldado à noite anterior.
Ao lado, também com a madeira que mais estimava, o esquadro. O esquadro que nunca revelava sequer meia imperfeição. Onde as medidas eram milimetricamente precisas e os ângulos justamente como deveriam ser. Havia inscrito, a fogo, um pentagrama e um Ouroboros.
Obviamente, não precisava ele de óculos.
Sua observação havia começado há décadas. Talvez séculos, mas isso ele nunca poderia saber com certeza até que soubesse. Toda noite, enquanto os sacerdotes realizavam seus rituais em todo o esplendor de Roma, ele ficava cada vez mais próximo do que realmente se buscava além das montanhas e dos céus. Toda noite ele ficava perto da máxima glória divina. Ele não precisava rasgar o próprio rosto em forma de arrependimento – não era o único que errava, e sabia disso. Tinha a consciência de que, feito um ato, não se pode mudar o passado. E, por isso, sem ter a certeza que tanto buscavam os fiéis, contentava-se em contemplar a Grande Obra e as notas musicais isomórficas beijando os diapasões.
Havia chá, ervas, frutas secas e as areias celestes, que, noite após noite, pareciam formar novos desenhos e juntar-se a novos oceanos cósmicos. Um azul profundo… E só poderia ser água.
Enquanto o céu se movimentava, com suas engrenagens invisíveis, ele movimentava o compasso e o esquadro, em sintonia com a música. Rabiscava o carvão e, da fibra, surgiam as formas e as espirais. O céu, afinal, traduzia o que havia por dentro das constelações de seu próprio pensamento.
Um dia, há muito tempo, daqui a muitos anos, exatamente nessa tarde de inverno, ele juntou as linhas. Enquanto as semanas estavam passeando com frio, ele entendeu o funcionamento daquilo que via, como via. Entendeu o que era o rodamoinho, e porque algumas das poeiras cósmicas não pareciam se movimentar, enquanto outras eram levadas pelas luas ao menor sopro do éter.
Ali, à sua frente, encarando-o, num tom intrigante. O fogo que havia na ponta do carvão e do ferro desenhara algo além das espirais, além dos pentagramas, além de seu próprio entendimento.
Ela ficava intensamente distante. Intensamente. Mesmo que pudesse ir até o outro lado do mundo e voltar por trinta vezes, não seria o suficiente para percorrer toda a distância. E ela caía, infinitamente, sem chegar sequer um grão de mostarda mais próxima. Era distante, e toda noite refletia os cabelos das ninfas do lago… Exceto quando queria se esconder.
Como fosse centróides de elipses, sua precessão era queimada por velas vermelhas, dia após dia, como se pudesse mudar o curso dos rios. Ele não podia (e, de certa forma, sabia disso).
Naquela tarde, ele percebeu como juntar as linhas e desatar os nós. A maçã caía entre as folhas, mesmo que já mordida. A mesma força que deixa a maçã mais próxima de sua cabeça, acaba por estreitar o caminho até as distantes areias lácteas do oceano infinito.
Mas ela, Serena, jamais sentia vontade de ficar mais próxima.