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Chama Florestal

Foi horrível. Montamos nosso acampamento ali perto da floresta; tava ficando escuro, não ia dar pra continuar a caminhada até a outra manhã. Tava tudo normal, tínhamos até o que comer, o que beber, como dormir…

Aí então o Dirmac, arqueiro, viu o que parecia a silhueta de uma estátua feminina, bem lá no meio das árvores. Conversamos pra ir ver o que era aquilo, mas de repente não havia mais nada. Sumiu, como uma lágrima na chuva.

No meio da noite, senti uma mudança na luz ambiente, e, ao abrir os olhos, percebi a estátua no meio do acampamento, sem expressão, sem nada, tão estátua quanto qualquer outra. O espadachim Mirnas tentou investir contra aquela coisa, mas, ao atingir a pedra cinza com a espada curta, o braço do Mirnas começou a sangrar violentamente. Quando todos nós desviamos a atenção, pra estancar o machucado, percebemos que não havia mais estátua.

Num outro segundo, eu encontrei uma escadaria ali no meio da floresta, próximo a onde estávamos. Ia pra baixo, e cada vez mais pra baixo, mas eu desci, sozinho, sendo a única luz um pouco de magia que ainda emanava da minha coragem de mago versado em todos os segredos dos druidas. Danú estava comigo, havia luz… Mas a luz era cada vez mais fraca, e meu medo aumentava.

Depois do terceiro setor de escadarias de madeira, bem abaixo da terra, um grande poço quadrado. Não se via o que tinha para o fundo; não sei se era raso.

Um grande cuspe de fogo, uma cabeça gigantesca, flamejante, raivosa. Eu tentava me esconder entre os pilares, tentava investir contra as extensões que saíam dos ouvidos, dos olhos, mas nada adiantava. Meus socos eram em vão, minha pele começou a lentamente se desprender do meu corpo. Era muito quente.

Minhas investidas mais em mim doíam que no monstro que aparecera sob a terra, vindo das profundezas. Não tenho dúvidas de que fosse algum dos mais poderosos demônios. O cerne das minhas dúvidas é tão somente o que ele queria comigo. Por que logo eu tive de encará-lo naquele lugar imerso em penumbra.

Não sinto, no entanto, que minhas dúvidas haverão de ser respondidas tão breve quanto o som de um trovão.

Os gritos de angústia ecoariam por toda a floresta, se houvesse floresta lá em cima.

Alguém, na madrugada, brincou com a realidade do nosso tempo. O Sol mudou de lugar três vezes. Ficamos mais próximos do reino da insanidade.

Na madrugada em que desci as escadarias, descobri não ser certo que tudo o que acredito realmente exista.

- Dimas, o Mago – Crëstring, 1127.

A Raposa e o Risco – Fábula a Dorian G. L. Maison

Era uma vez uma raposa muito esperta. Sua reputação percorria todas as florestas, até além de onde a vista consegue alcançar. Suas peripécias eram admiradas, comentadas, adoradas, detestadas, reinventadas por toda sorte de criatura, desde a mais astuta das abelhas até a mais lenta das tartarugas.

Certa vez, uma árvore nova cresceu em meio a floresta onde morava a raposa. Foi do dia para a noite, como num passe de mágica. Os frutos, tão verdes, pareciam saborosos; todos, no entanto, tinham receio de que fossem venenosos. Em pouco tempo, as criaturas todas, cada uma em seu grupo, começaram a arquitetar como descobrir se os frutos novos eram ou não perigosos; além disso, começou-se a pensar, em todo arbusto que havia, como escalar tal árvore – havia espinhos, embora bem camuflados, como descobriu o Sr. Coiote numa de suas inspiradas tardes.

Mas a nossa amiga raposa não tinha grupo. Suas idéias, seus métodos, eram mal compreendidos entre a população da floresta. Ninguém gostava de se manter muito tempo ao seu lado, devido a sua aparente loucura. Ela, portanto, tentava sozinha desvendar o grande mistério dos frutos verdes.

Eram manhãs e mais manhãs – a raposa largava seus compromissos para se dedicar ao pensamento. Tardes e mais tardes – e deixava de comer as outras frutas da floresta, que a alimentavam de forma tão fácil até então. Eram noites e mais noites – e se expunha a todos os tipos de predadores invisíveis que pudessem habitar até os mais sinistros dos pesadelos. Eram madrugadas e mais madrugadas – e se privava de um bom sono, e não se importava com o cansaço extremo, nem com as doenças que a falta de descanso traziam, nem com nada assim.

Via o Sol nascendo, e não se importava de já estar acordada há tanto. Era como um matemático grego, obcecado por encontrar sua resposta, mesmo que tal tarefa parecesse, aos olhos comuns, tão exagerada.

A floresta era repleta de frutos, ervas e água pura. A raposa, no entanto, tinha uma fome descomunal por sua própria dúvida.

Num belo dia, correu entre todos os arbustos e todos os formigueiros a triste notícia para a raposa, que duvidou – como sempre – até o último segundo, antes de ver com seus próprios olhos: a árvore não era mais desconhecida, tão pouco o gosto dos seus frutos verdes.

Numa tarde comum e entediada, o jovem guaxinim e o velho coiote encontraram um caminho à raiz da grande árvore, e conseguiram apanhar alguns de seus frutos, e dividiram irmanamente, e disseram que era doce como a folha de hortelã, mágico como a erva do absinto.

Era o fim da linha para a pobre raposa. A floresta e todas as criaturas encontrariam qualquer outro mistério para comentar, depois disso.

Nossa perspicaz amiga, no entanto, se recusava a acreditar que a árvore era só aquilo. Não podia ser. Depois de noites e noites de lamento, lágrimas, pesadelos, ela decidiu continuar sua busca. Pouco importava o que o guaxinim e o coiote diziam ou haveriam de dizer. Os olhos da raposa eram só dela, e assim também eram suas vontades. Ela continuou se privando de qualquer descanso. Não pararia até comprovar por si mesma como era o gosto dos frutos verdes da árvore das árvores.

Num natal, a floresta era permeada por comemorações. Todas as criaturas trocavam presentes, abraçavam-se, cumprimentavam-se, pouco percebiam a falta da raposa.

Ao centro da floresta, lá estava ela, tão explícita e isolada, junto com a árvore. Havia preparado uma bugiganga com os restos de cipó que encontrara perto da sua cama, e trouxera presentes – à sua maneira – para a árvore.

Não tinha muitas coisas a raposa além de sua imaginação: um cacho de uvas bem doces de uma torre negra distante, uma rosa cheia de espinhos e um pedaço de barro endurecido que trazia uma marca de sua pata, que fizera e guardara com tanta estima quando era mais jovem e tinha mais brilho nos olhos.

Perto da noite armou suas gambiarras, e começou a subir. Depois de quase cair sete vezes, e, com muito esforço, retomar o equilíbrio, uma grande chuva caiu sobre a floresta. Não se sabia de onde haviam chegado as nuvens e os raios e tanto frio. As árvores mais fracas caíam umas sobre as outras, destruíam ninhos, esconderijos, despedaçavam-se.

Num momento sublime, a árvore das árvores, como estivesse abraçando a raposa, lançou um de seus galhos e criou um tipo de ninho para nossa astuta aventureira. Lá estava a raposa, abraçada com a árvore, surpresa, na noite de natal, enquanto o mundo do lado de fora ficava mais e mais imerso na tempestade.

Dentro do abrigo, o clima era perfeito.

Enquanto o guaxinim, o coiote e talvez até outras criaturas mais curiosas devoravam os frutos mais próximos da raíz da árvore, a raposa ficou em seu abrigo improvisado por muitos meses, provando por si mesma os frutos verdes que cresciam lá no alto, e se convencendo de que, se fossem venenosos, valeriam as futuras doenças.

Para a raposa, os frutos verdes eram muito doces para serem venenosos.

Depois do décimo segundo mês, a raposa e a árvore eram como uma só criatura. A raposa brincava com as folhas, os galhos, os frutos e as sombras; a árvore ria, em silêncio, como se as peripécias da raposa fizessem cócegas em seus troncos.

Quando chovia – e tempestades não faltaram naquela floresta – a raposa sabia que podia se aconchegar em seu abrigo entre os galhos. Quando fazia frio – e os frios eram daqueles que nos fazem ranger os dentes e nos trazem vontades incontroláveis de beber chocolate quente – a árvore tinha a certeza do calor da raposa.

Num segundo, tudo pareceu mudar.

De repente, a raposa começou a sentir espinhos que antes pareciam não existir. Conforme andava por galhos que pensava conhecer, machucava-se, torcia as patas ao tentar desviar, sentia calafrios estranhos – parecia que a altura, que nunca a havia incomodado, agora causava vertigem.

Num dia, a raposa desceu até as raízes, enquanto toda a floresta dormia. Queria ver como as coisas estavam, queria encontrar de novo todos os motivos que a fizeram trespassar tantas madrugadas até chegar em seu abrigo na árvore. Queria sentir o cheiro e o gosto do mundo de fora, para se lembrar do porquê preferira viver no mundo de dentro.

…Mas o rumo das coisas nem sempre é uma linha reta. Quando numa noite, cansada, a raposa quis voltar ao seu abrigo, por algum motivo sentiu medo. Olhou para as raízes da árvore das árvores, e elas causaram medo. Olhou para cima, e os galhos pareciam labirintos cheios de espinhos e criaturas invisíveis. Os sons pareciam querer afugentá-la, os cheiros pareciam querer espantá-la, as frutas verdes mais baixas eram tão azedas…

A raposa, imersa em seu medo, correu, correu para bem longe, e sabia que a floresta não sentiria sua falta. A raposa correu, e correndo a tristeza passou a fluir com cada gole de água que bebia no meio do caminho, cada pedacinho de fruta que roubava das outras árvores. Nada mais parecia fazer sentido, para onde quer que olhasse.

Depois de um longo inverno em que a raposa jogou toda sorte de jogos de azar com a própria fome, os raios do começo da primavera colidiram contra a árvore, e a mostraram em sombra na parede da toca da raposa.

Numa manhã, o desenho inconfundível na parede de pedra devolveu um pouco do brilho dos olhos da raposa, e ela, numa estranha certeza, estava decidida – iria caçar a sombra, o que quer que custasse.

Caçar sombras, no entanto, é muito mais difícil que caçar borboletas.

A primavera irradiava cores e mais cores pelas florestas. Seguindo a sombra e o instinto, a raposa se deparou com a árvore das árvores, ainda mais alta, ainda mais esbelta, ainda mais imponente.

Querendo ver como estava seu abrigo, nossa amiga tentou num pulo alcançar um galho mais alto. Estranhamente, o galho parece ter desviado – e a raposa caiu ao chão.

Sem conseguir pensar em desistir, a engenhosa raposa armou uma das suas típicas bugigangas para escalar a árvore. O equipamento, no entanto, não conseguia se prender. Ora quebrava um galho velho, ora escorregava num galho novo e derrubava a raposa.

A raposa, toda vez que caía, observava um detalhe novo na árvore das árvores, uma nova cor, um novo caminho, mas nada podia fazer. As lágrimas pensavam em se ajuntar nos olhos, mas tinham muito medo. Tinham muito orgulho para simplesmente transbordarem assim.

Sem maiores alternativas, nossa adorável errante construiu um abrigo à sombra da árvore. Era o mais próximo que conseguiria ficar. Um dia teria a idéia genial para voltar ao seu velho abrigo; enquanto isso, via outros muitos animais devorando as frutas verdes que nunca se acabavam, mas não importava. Ainda as frutas teriam outro gosto nos dentes da raposa.

Numa tarde, um estrondo acordou com um susto a raposa. Não era trovão, mas era como se fosse. Um trovão num dia sem nuvens.

Espreitando o lado de fora, a raposa viu uma máquina. Dentro da máquina, uma criatura esquisita, incompreensível, cheia de fumaça, ferro e roupas laranjas. Num manusear eficaz e mecânico, começou a cortar a árvore das árvores.

Conforme a serra entrava, conforme o pó de madeira voava para todos os lados, a raposa ficava mais e mais desesperada. Enquanto a floresta apenas contemplava, solene, acuada, a raposa tentava escalar pela última vez a grande árvore, provar pela última vez um dos frutos lá do alto, ver pela última vez seu abrigo, despedir-se, mostrar a ela que ali estava… Mas tudo foi inútil.

Numa das trovoadas, a árvore das árvores despencou, violentamente, contra o chão da floresta. Um dos galhos, que, como reconheceu a raposa, eram do seu abrigo, caiu sobre sua testa confusa, deixando uma marca branca. Um risco entre os olhos, uma lembrança de suas memórias.

A árvore das árvores não parecia triste, sequer melancólica. Seria transformada agora em lápis e papéis, que haveriam de contar novos contos, escrever novas cartas. Conheceria o mundo, sentiria ares de todos os lugares. Não importava que poderia ser qualquer coisa desde que não pudesse ser árvore. Assim era para acontecer, assim aconteceria.

A raposa, por outro lado, não queria se conformar. Haveria de roubar papéis e lápis de todos os lugares do universo para reconstruir seu abrigo, antes de perceber que era uma missão sem sentido algum. A raposa não sabia escrever, não sabia fazer dobraduras, não sabia esquecer.

Em nada o gosto de um papel iria se assemelhar ao da fruta verde de outrora.

O risco em sua testa a lembraria de tudo, e a lembraria sobre como são desenhadas as nuances da realidade. Apesar do mundo continuar, a raposa bem sabia que ali no meio da floresta, em seus sonhos mais nostálgicos, haveria um abrigo. Um abrigo no topo de uma árvore que não mais existia.

Num capricho do acaso, num momento inesperado, a alguns pés de altura, numa noite clara de lua cheia e sem nuvens, uma coruja desastrada deixa cair de seu bico uma semente.

Dia 12 – 238U

Um televisor ligado em qualquer coisa – sinal algum vem pra cá, de qualquer forma. Uma conversa automática, estática, sobre qualquer coisa – conversar com enfermos não é um diodo terápico.

A dança sai do país, ou não sei, ou é sobre o rio, ou é doze anos mais velha, ou é quem se pensou que fosse, ou é italiana, ou quem nunca tenha sido na estação de tratamento d’água.

Um velho novo. Um curto-circuito. Vai pra todas as direções, não se joga, não se dissolve.

Em três atos, o juiz sela o acordo. Um seguro, um enforcado – e não era eu.

Monopolo, passei do outro lado da esquina. Contemplei pela última vez, por final, quase indo embora, mesmo sem que as pernas nem os braços soubessem. Só eu sabia naquela esquina.

A questão não é se a bomba atômica irá explodir, mas quando. Quando irá explodir? Quando tudo partirá sobre si próprio – o tudo – em pedaços? Quando tudo será esmirilhado? Qual será o próximo prédio?

Os rios já são sujos. O ar já é contaminado pelas chaminés que disfarçam mas não evitam. Todos já tem suas doenças instaladas, mesmo que não se manifestem tão já.

Um jornal se mostra aberto num gráfico que não vale mais. Por que haveria de haver? Não preciso das novidades do mundo. Não haverá mundo em muito pouco tempo, e o que restou do antigo somos nós todos trancafiados em quartos infectados, sem conseguir fugir, sem conseguir olhar pra fora porque há apenas gelo e usinas prestes a explodirem.

Ataduras cheias de pus ardendo contra o chão para limparem vômito. É tudo da mesma matéria, é tudo podre, é tudo sem volta. Sai das feridas, sai dos corpos, sai das torneiras, vaza do chão, do teto, das camas, o encanamento não funciona, nada é nada.

No ritual da mesa redonda, todos eles voltam e me abrem os olhos. Há muito que se ver, mesmo que me custe a respiração. As portas se fecham e depois caem. As visões não se apagam. As letras abstratas são atemporais – são agulhas de uma injeção necessária.

Meus delírios tem ficado menos frequentes. A raíz quadrada, a marionete, não sei o que é pesadelo, o que é verdade, eu não tenho minha arma.

Quando uma bomba atômica explode, não há muito o que fazer. Não há o que ler, não há o que pensar. A gente só corre.

A gente só corre e não olha. A gente não quer ficar cego.

Nosso corpo se desprende em cada pedaço indivisível. Tudo se vai, toda a realidade, e algo deve ser construído quando o mundo continua.

Não sei por qual porta correr. Todas estão trancadas, todas estão travadas.

Estamos todos presos.

A bomba não tardará a explodir.

Terrae Laceranda

Quando alguém te desejava boa viagem, antes daqui, não era exatamente assim que você pensava que seria… Certo?

Era um lugar que não conhecia o Sol. Era noite o tempo todo. Um grande rio escuro e profundo, por onde placas de gelo flutuavam. O condutor do barco tosco me levava por entre o caos, como se houvesse um lugar certo para me despachar. Dei a ele, antes, uma moeda, porque era assim que funcionava, e eu já sabia que era assim, mesmo sem saber de mais nada naquele ponto.

Ao longe, montanhas de agulha; algumas luzes incertas – não consigo pensar em que tipo de civilização poderia viver por lá… Talvez criaturas minúsculas, talvez homúnculos, talvez gnomos d’alguma sorte, talvez demônios… Mas não parecia o inferno. Era mais próximo de um purgatório.

Deixou-me o condutor sobre uma placa de gelo, muito fina, que não suportava meu peso. Comecei a afundar, e o primeiro teste do purgatório envolvia escolher que caminho seguir. Procurei a próxima placa de gelo, a que estava à minha direita, e por tal caminho rastejei com meus pés.

As placas derretiam antes mesmo d’eu pisá-las. Não havia tempo para pensar nas escolhas. Eu só queria algum chão firme, onde quer que fosse, por que quer que fosse. O que quer que fosse um chão firme naquele lugar… Eu só queria um chão firme para desfalecer.

Desmaiado, vi-me saindo de mim mesmo num punhado de terra. Dentro do caminho que escolhi sem saber, havia uma trilha. Segui-a, com a dor que me crescia às pernas. Era uma estrada tortuosa e cheia de pedras pontiagudas até um ponto mais alto de alguma das montanhas.

Conforme minha visão ia se clareando, iam escurecendo os contrastes do mundo. Havia por lá, às encostas, árvores secas. Galhos e mais galhos, que se desdobravam, retos, em fractais. Mandelbrot, Julia, Sierpinsky, todos pareciam ter construído cada folha que não existia. Eram obras matematicamente belas, mas que não inspiravam qualquer tipo de vida.

Havia vida, porém.

Ao alto de uma das montanhas de agulha, pus-me a contemplar o horizonte acinzentado. Alguém conversava comigo. Uma criatura sem cara, sem corpo, e provavelmente sem voz – uma vez que as palavras que me vinham eram pronunciadas no que sempre conheci como sendo meu próprio som.

Mostrou-me a criatura o que havia abaixo de mim. Entre cada ponta das montanhas, nas pedras concretas, alguns buracos. Nos buracos, alguns tipos de pássaros que não saíam de suas tocas. Não vi sequer um deles voando, mas havia muitos ninhos. Era o único tipo de vida daquela região, além da civilização que lá se instalou.

Mesmo o modo de vida adaptado ao purgatório da matemática se recusava a sair de seu buraco para encontrar o céu.

Era difícil mesmo se curvar para ver alguma outra coisa. As árvores secas se estendiam por todos os cantos, e cutucavam os olhos num movimento descuidado. Era como uma rede de espinhos, mas não eram espinhos. Eram árvores, afinal. Secas, sem folhas, escuras, mórbidas… Mas árvores, enfim.

Desci a estrada de terra, sem ajuda, contemplei as luzes que se acendiam às paredes do horizonte conforme ia escurecendo. Não era como um ciclo natural de claro/escuro. O mundo ficava escuro conforme eu descia, e claro conforme eu subia. As luzes se acendiam e se apagavam por minha culpa, e era esquisito. Não vi as criaturas, mas as luzes.

Entrei ao rio, e descobri que não havia temperatura. Não era quente, nem frio. Não tinha densidade. Não era, na verdade, sequer profundo ou raso. Era como se as árvores secas houvessem derretido e se transformado naquele fluido. Remei até outro bloco de gelo, que ao me ver também começou a se desintegrar, antes mesmo que eu pudesse tocá-lo.

Subi ao primeiro bloco e escolhi outro dos caminhos, e corri, desesperadamente, para não me afogar no fluido que sequer oferecia perigo. Era mais triste, afinal, afogar-se num lugar sem perigo que ser cutucado nos olhos por árvores num outro universo muito mais perigoso.

Eu queria o perigo, porque nele é que moravam os pássaros. E eu queria ver os pássaros, ao menos um que fosse, voando por entre Mandelbrot, Julia e Sierpinsky.

As paredes começaram a se concretizar enquanto eu corria. Ladrilhos, camas, janelas, tudo parecia se formar enquanto eu corria por cima das placas de gelo antes que elas pudessem me levar. Ao final lá estava eu, numa cama de hotel, com uma janela à esquerda e receoso sobre a realidade daquela realidade.

No último momento, contemplei o que havia do lado de fora.

Observando o Lago Selvagem

Numa tarde infinitamente próxima, guardei minhas vontades para roubar lembranças do lago. Eu e meus aparatos tocamos a sinfonia da alma ao capturar feixes selvagens de luz que acidentalmente adentravam o receptor foto-sensível das minhas invenções.

Era uma tarde diferente. Não havia mais ninguém para atormentar as ondas eletromagnéticas, não havia ninguém para me fazer tremer antes de apertar o obturador, não havia ninguém para incomodar a música ambiente das águas calmas do lago fechado. Pude perceber cada peixe que saltava, mesmo que em minhas visões periféricas. Pude reparar em cada folha fractal de cada árvore, e em como a natureza é sublime – tão sublime que nos convidou, certa vez, a fazer parte dela, e mesmo assim apenas a contemplamos como algo alheio, e não como algo de que somos efetivamente parte.

Cada galho que cai, cada pássaro que não consegue voar, cada peixe engraçado que bate a cabeça contra o barco de madeira, cada acerto e cada falha, mesmo que longe de nossa percepção, são partes de nós mesmos. Tudo o que vemos, tudo o que roubamos, tudo o que pensamos e todas as palavras que não conseguimos dizer são tão sublimes quanto as euforias. As mentiras, as verdades, tudo converge para a existência eterna e incompreensível de nossa própria casa que tentamos compreender como vida.

Um pedaço do lago parece se ocultar dentre árvores, e lá talvez durmam – com olhos abertos – mais peixes, provavelmente os mais introspectivos, isto é, os que não batem a cabeça contra os barcos, mas sim contra as árvores e contra os outros peixes.

Minha máquina artificial também é parte da natureza. É uma mistura alquímica bem elaborada e genialmente encaixada em si mesma com o intuito de fazer o tempo durar mais segundos num pedaço perdido de papel que haverei de olhar, numa outra tarde, ao crepúsculo da existência, sentindo nostalgia por ter andado nessas tardes amarelas e silenciosas, e, ao mesmo tempo, com o pesar de não ter conseguido mostrá-las em toda perfeição pra mais alguém que não os galhos das árvores e o barco de madeira.

Mas, obviamente, até mesmo o pesar e a nostalgia não devem se anular ou entrar em conflito. Tanto quis o silêncio que acabei por apagar qualquer outro barulho… Talvez as músicas ruins sejam tão importantes quanto as boas… Talvez as mensagens simples sejam tão valiosas quanto as complexas…

Num pequeno momento de tempo, enquanto a infinidade do mesmo se mostrava no papel de minhas mãos fotográficas, não me importava com a dualidade das coisas todas, ou com o céu, ou com os peixes engraçados do lago. O que me fazia buscar as sombras nas fotografias era a necessidade de mostrar a mais alguém todo o universo que vive em pedaços tão pequenos de tudo, e, ao mesmo tempo, tão infinitos quanto esferas.

Dentro dos ecos da sala e da lareira que já quase encontra sua última chama, consigo ouvir a voz adocicada da guardiã.

Noite na Rua de Londres

Os postes são os mesmos do líquido espelhado, mas me revelo estático numa parede, olhando para toda a metrópole que se condensa na rua que deita em frente a mim.

Quando a introspecção não é um capricho, mas uma necessidade, a rua toma novas formas. O asfalto revela todos os seus desenhos e seus moradores, os táxis revelam todas as ferrugens, os guardas revelam que há olhos por baixo dos capacetes. A fumaça do tabaco dança com a noite, refletindo o amarelado dos lampiões acorrentados. Algum bêbado perdido pensa em seus passos e em como emergem padrões em sua caminhada caótica; algum ladrão tenta não ser visto ou ouvido; alguém busca um sinal divino em meio às trevas; alguém ainda não viu a Lua…

Já são cinco da manhã, e a cidade não demorará a despertar.

Percebo, parado em frente ao muro, perto dos postes, que existe movimento enquanto a maioria flutua dentro dos sonhos mais inocentes e mais sinceros. Os meus acabam quando acordo – fora em raras exceções causadas por picos de insanidade ansiosa. O que é palpável e tem cheiro, sabor e textura, numa hora ou duas, acaba por se tornar tão esfumaçado quanto as espirais que saem do tabaco queimando. Cada fantasia, cada palavra agradável, cada cartola e cada perfume, tudo se perde na dança caótica dos movimentos da fumaça sendo refletida pelo fogo falso dos postes.

Mesmo falsos, os fogos amarelos iluminam a rua e guiam os asfaltos, os táxis, os guardas, os bêbados, os moradores, os que não moram, os ladrões, os religiosos e os cegos. Assim como os sonhos, eles se acendem quando não há mais azul no céu, e colorem o que antes era apenas uma treva como todas as outras.

Penso em dizer para os fogos falsos sobre como o mundo seria mais escuro se não houvesse a mentira. Penso em agradecer a ilusão por guiar os bêbados até suas casas e confortar os desesperados da Inglaterra. Penso em contemplar com estima a fumaça que reflete o amarelo das lâmpadas e se torna parte até mesmo de meu confortável tabaco…

Mas toda luz vai embora de manhã, quando é substituída por outra. As cores mudam, as formas derretem e se moldam para novos observadores e novos porquês. Há mais táxis, mais guardas, mais movimento, mais ferrugem, mais tudo e menos nada. O mundo se muda para cada pedaço de tempo que o abraça.

Os postes se apagam quando vem a luz do Sol, e a mentira se torna senão uma nostalgia. Não há porque procurar proteção quando tudo é claro como cristal e seguro como a certeza. Não há porque sentir os ares da sobrevivência quando ela se torna um lugar comum. As ilusões partem quando toda a cidade acorda.

O asfalto é rabiscado pelos carros, os táxis levam e trazem senhoras bem arrumadas e senhores honestos, guardas trocam de turno e caçam os contrabandistas – e parece que até eu devo ajudá-los a adivinhar comportamentos; a fumaça acaba com o fim do tabaco, e logo é trocada por outro charuto; os bêbados acordam na ressaca e não se lembram de todo o caminho até chegar a suas casas; os ladrões vestem seus ternos, seus sapatos bem polidos e vivem a vida comum dos ofícios e dos compromissos; os religiosos rezam, purificam e acalmam os pecadores… E não há Lua para se ver quando se está distraído olhando para o Sol.

A luz de mentira se vai embora de manhã… E as noites parecem levar, a cada acordar, um pedaço dos sonhos.

- Wm. 1935.

Vale do Céu Amarelado – O Julgamento dos Cinco Profetas Políticos Sob a Ótica do Povo

Dos moinhos se erguera o inseto alado gigante que habitava a velocidade, as pausas, os momentos, os pais da humanidade e as folhas esbranquiçadas da incerteza e do caos que rastejava junto aos ovos dos vermes aos redores dos mictórios da cultura.

Uma guerra de máscaras e contagem de cabeças que não pensam; um espaço tendo que se contorcer e ficar maior que realmente pode ser, a fim de se acurvar pelo tempo e pela conveniência ao mestre ucraniano, o qual deve obedecer a cada ciclo solar.

Caminha com raios e cordas tensionadas numa superfície deliberadamente atritante, enquanto chove o gelo em grãos minúsculos, traçando como fogo as cinzas que Galileu e as radiações de corpo-negro ao mesmo tempo, num impulso histórico, houveram de rabiscar ao redor da elipse de probabilidades que os astutos chamam de casa – e que, de fato, é a mais confortável das casas.

No horizonte da densidade, os valores antigos se desprendem; é como carne daqueles que viram o que havia além da bolha esverdeada que recobria o frio dos navios de guerra, enquanto eram observados do porto por grandes sábios da História.

O ímã, as velocidades e a sensação da língua se juntando numa fusão sinistra ao ferro que modelava o mictório. Uma sensação além dos gostos é aquela da viagem por dentro dos próprios conceitos artificiais, vendo-os se tornando reais de maneira absurda e assustadora, como se a realidade real fosse o maior dos pesadelos – por vezes, ver o que se espera é assustador.

Analogamente, um sentimento além de rancor é aquele da viagem por dentro da singularidade massiva do universo incompressível do fluido sem luz. Existem esses parágrafos sem significados, eles só ocupam espaço, e mal podem ser arte pela arte – uma vez que arte pode ser bonita, vez em quando.

As baratas do banheiro se aventuram na cozinha, aproveitam o cheiro e o gosto e as músicas das panelas e dos restos e dos grãos. Passeiam, voam e beijam a boca dos anfitriões que separam o lixo toda noite a fim de vê-las novamente, enquanto tudo se escurece, tentando não serem percebidos, como serventes, escravos e voyeurs do gozo que se instala ao perder todo tipo de prazer, seja físico, mental, espiritual, analítico ou romantizado.

Ver tudo se esvaziando, de grão em grão numa ampulheta que repousa sobre uma balança analítica sob o olhar vidrado de um cientista, enquanto as baratas entram por dentro dos restos dos insetos podres, dando continuidade à cadeia circular da fome, excita as vísceras daquele que gosta de sentir as interações sociais em sua forma mais poética e metafórica.

- TRENT NORIVM, D.J., Prefácio para o Diálogo Político, 1915.

 

O céu se apresenta amarelado. Não há lugar suficiente para que o fluxo do trânsito corra. As pessoas descem dos carros e caminham por cima do outro rio, aquele de mais transeuntes que se aglomeram próximos à junção das duas pontes, onde um palco fora instalado. Como era belo o palco do julgamento…

Os caros carros, todos em tons de cinza, com sua fumaça típica e seu couro bem instalado, ficam num plano abaixo do palco de madeira, e isto tudo fica ainda bem abaixo do céu amarelo das seis da tarde do começo do século. Parece uma junção em cotovelo dos séculos, desde a França até Detroit da América. O cheiro de fumaça e as cartolas; os pensamentos e os cabelos falsos; os carrascos e os circenses; os camponeses e os empresários; a mochila e a bolsa de valores; as luzes repetitivas e os sons hipnotizantes que parecem estar viajando de algum lugar do futuro para também presenciar a Revolução; sinfonias feitas por cigarrilhas, bebidas e psicotrópicos altamente tecnológicos, com patentes irrefutáveis, preparados numa casa de alquimia.

“U.S. Patent 136:215/667 – 1806 John Mac. Co. – The Ladies’ Ultimate Medicine – No collateral effects – Handmade by Barbarus XVIII of Seville with herbal juices of Foster Valley”, diria o rótulo do vidro em formato de apêndice. O vidro existia, na verdade, mas no meio da multidão era apenas mais um vidro em posse de algum espião do tempo, acompanhando cada passo da cena toda.

As pessoas se aglomeram – desde a primeira colheita -, e querem ver todas de uma vez, como fosse uma possessão demoníaca de trezentos espíritos perturbados num único escritor bêbado por sua overdose de café. Ele, alheio à constituição de tudo, escreve a dor e os pecados e as lamentações de cada um, enquanto continua seu café. Assim as pessoas agem próximas ao palco.

Acima de suas cabeças, uma estrutura se levanta, também de madeira. Parece-se com uma guilhotina, e talvez seja mesmo uma guilhotina, posto que se apresenta um julgamento, em seus tons mais nobres e circenses, de profetas e filósofos que ousaram mencionar um erro no capítulo de logaritmos de um livro mentiroso qualquer.

Os livros, por serem livros, não estão além da mentira. Assim também são as tradições: repetir um feito por três séculos não o faz menos absurdo.

O povo aplaude e mostra suas bandeiras e seus pedaços de esgoto, como fossem estandartes – ou souvenires -, próximos todos ao grande vale que a cidade possui.

Quando for a uma cidade, pegue uma lembrança. E cada cidade tem o dom de ter um esgoto bem específico. O cheiro do esgoto, enquanto perdura, vale mais que um quadro pintado numa praça cheirosa e florida.

Houvesse máquina de fotografar, fotografias seriam registradas, e talvez fossem vendidas, muitos séculos depois, a preços tão estonteantes como uma dama proibida em seu vestido vermelho pedindo, com voz sofrível e lânguida, para passar a noite em seu quarto – sem o vestido, obviamente. Sem vestido, sem maquiagens e sem religiões.

Mas a fotografia – e isto os filósofos que estavam para ser executados sabiam – era um erro. Era um erro se apegar a memórias. Era um erro também se apegar ao exagero dos textos que eles mesmos escreviam, sabendo que estavam errados.

Era um erro tentar estudar a própria metáfora e era um erro tentar esquecer que a era. A matriz de erros era complicada de se compreender – tendo ciência daquilo que se faz, se percebe a falta de lógica, se é que existe alguma lógica palpável em alguma coisa; saber que não há essa lógica, porém, faz com que conversar sobre ela também não tenha sentido, se é que há sentido para alguma coisa. O exagero é um manifesto, mas todo manifesto, sendo exagerado, não se deve ser seguido literalmente. Mas se o manifesto não for exagerado, não mais é um manifesto válido. Não havendo vontade de se desprender do costume velho, não há um atrito que faça a idéia continuar andando – idéias que apenas concordam com o que já existe são carros luxuosos que tentam se mover sobre um lago congelado no mais longo inverno do norte.

Estudar a metáfora auto-centrada, por sua vez, também é um erro. É um erro egoísta, prepotente, arrogante e discreto. Por outro lado, entretanto, parece ser uma forma de refinar a transmissão de pensamento, a fim de se tentar despertar uma melhor compreensão nos leitores do folheto circense – o que também categoriza egoísmo, prepotência, arrogância e discrição.

Gritar por gritar é um erro. Gritar por uma idéia é um erro. Pensar no que fazer é um erro, e fazer sem pensar é outro erro. O erro é um erro e fotografar o erro é um erro, embora esquecer seja incrivelmente errado. Comer em demasia é injusto, e não comer é autoflagelo – e a gradiente do bom nível de gula é deveras discutível, embora discutir seja outra forma, pouco mais comportada e polida, de se tentar impor uma idéia. Em outras palavras, outro erro.

Num dado momento os profetas perceberam só conseguir conversar entre si mesmos – os pensamentos ficaram mais abstratos, mas o fato anterior não se dá pela causa do não entendimento dos outros. O povo pode entender muito bem cada palavra e significado, se prestarem atenção por dois minutos. Sair da superfície padrão, porém, é muito fácil, e muito doloroso. Deve-se, portanto, ter extrema cautela com o que se pensa e com o que se ouve – do mais absoluto repente, uma palavra pode trazer sentido à idéia, e então o mundo desaba para ser construído de novo.

Não temos tantos engenheiros de verdade quanto deveríamos ter.

Circa Relevances

Ela me disse para ficar calmo. Eu sabia, entretanto, o que estava havendo. Eu sempre sabia de tudo, e ela sabia dessa minha ciência. Eu sabia as notas que ecoavam em qualquer que fosse a orquestra, só de mal ouvir. Eu sabia o porquê das dores, eu sabia o porquê do silêncio durante a madrugada e sabia o porquê dos banquetes inesperados.

Ela me disse para ficar calmo e escrever um poema, mas minhas linhas se recusavam a quebrar para garantir qualquer sonoridade e agradibilidade ao leitor. Eu ouvia as vozes que vinham da saleta enquanto tentava dormir nos horários estranhamente breves. Sentia as lágrimas que escorriam às faces tão graciosas daqueles seres todos que por mim tinham alguma estima. Sentia cada remorso velado com as velas que tentavam chamar atenção de entidades divinas para, num movimento burro, negociar minha salvação.

Salvar-se de quê?

Ela me disse para ficar calmo, mas eu ouvia as lamentações. Era tarde, e as manhãs eram novos espinhos fincados sobre minha cabeça. Ela não queria me dizer o porquê, e existem termos técnicos e médicos que não posso adivinhar, nem em minhas mais profundas e pessoais imaginações a respeito do que nos aguarda na sombra.

Ela me disse para ficar calmo, enquanto aquele monstro crescia por dentro das minhas equações.

- C.E., 1900, PRKSTNCT

Sed Lex

Numa dor muito pequena, abre-se um oceano de sangue. Na matemática atual, não se consegue provar que uma coisa pode ser igual a outra. Somos castelos construídos por cima de areias que parecem compactas, apesar de sabermos que são areias. A visão escurece, lentamente…

Você vê lágrimas e não consegue acompanhá-las, e falha ao ser a única companhia confiável de alguém que precisava de sua mão sem se importar se estivesse limpa ou suja. A luz estava acesa e você apagou.

Os sons não existem, mas você os ouve porque sente falta de algo para perturbar o falso vácuo que se formara em seu templo de silêncio, e agora o controle se esvaece com a fumaça espiral que se desprende das cinzas do incenso.

Os poetas dançam em cima das lápides, as pedras parecem sujas e sombrias, e não é um cemitério. Não é um lugar de mortos, posto que todos pareçam estar bem vivos e bêbados. O ciclo precisa de uma força que faz a corda arrebentar e a partícula sair tangencial ao ímpeto da constante grega.

A partícula se desprende do loop de ignorância e se arrebenta na parede próxima.

A história acaba, e as gotas rubras pingam como uma breve chuva que te faz lembrar de quão vivo fora na corrida em busca de sua própria cauda.

Dura Lex

Eu sou um fantasma, e dono desse lugar. Cada quarto é meu circo, cada inseto é meu palhaço e cada ébrio é minha criança a ser entretida. Eu pinto a realidade de cores tão rubras que se parecem com meu nariz ensangüentado, visto, com horror, nos espelhos em que se devia achar tão somente a face trabalhadora dos homens e inocente das mulheres meninas.

Acorda o trabalhador, acorda a menina, e precisam arrumar o cabelo para mais um dia. Entram sob meia luz, para não acordar o resto da casa que merece seu descanso digno.

Não há brilho nos olhos, não há cabelos soltos, não há narizes respirando. Há uma face funérea, pálida, cuja única cor é o rubro que manchei com os espinhos da coroa de culpa que convenci cada um a ter e a usar todos os dias, até o final dos tempos.

Eu tomo por possessão todos os trabalhadores, todas as meninas, e faço deles minhas marionetes para divertir as manchas invisíveis das paredes, por onde mil olhos espreitam, curiosos, tudo aquilo que deve ser guardado dentro das fechaduras da alma, tudo aquilo que ninguém mais quer que outro saiba. Aquilo tudo que, de tão sincero, é assustador.

A porta range e eu começo a falar com todos eles, em silêncio, despertando o terror e a paranóia. Cada inseto ri, mas ninguém pode ver. Cada mancha se dilata e olhos espreitam, mas são tão cegos que ninguém acreditaria que pudessem enxergar.

Eu bebo as cores roxas que cheiram a carne podre e que tem textura de olhos sendo mastigados e todo o suco da visão é a base para minhas bebidas mais afrodisíacas. Chamaria a mim mesmo de espírito, mas os vales pra mim são sempre os mesmos. As montanhas são as mesmas, os objetivos são os mesmos. Os horários são os mesmos, e tudo é sempre a mesma coisa para sempre. Assim é o universo, e assim funcionam as leis. Dura Lex.

Eu causo dor. E a dor me deixa com cada vez mais fome. Nunca fico saciado. Sempre preciso de mais olhos a mastigar, mais passos a torcer, mais brilhos para comer. Minha tinta é sangue, mas não o sangue das narinas. Minha tinta é o sangue das colunas, é o sangue que fala e não é ouvido. É o sangue que grita e explode nas paredes e suja todos os azulejos tão brancos.

Não sei por que sou o que está aqui, mas cada quarto é meu circo. Havendo platéia, existirá um eu a entretê-los com o maior espetáculo da Terra: a culpa.

- Autore PLHÇM

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