O dia já havia começado faz tempo, mas da sala escura não havíamos percebido. Em nossa mesa já não tinha vértices, nem arestas, nem nada. Eram moedas sendo contadas, pacotes sendo abertos, um criminoso sendo procurado por nossas mentes que se recusavam a ficar cansadas até que ele estivesse sendo algemado bem diante de nossos olhos.
Lá fora – uma grande corrida tomava conta do centro da cidade. Fazia calor, mas o tempo tava nublado. E como tava nublado o tempo…
Os carros posicionados perto da praça bem cercada. Pessoas, verão tropical, concreto, velocidade, capacetes, igreja velha. Todos podiam ser o procurado, e tudo, absolutamente tudo poderia sair bruscamente de controle caso não fôssemos espertos o suficiente, caso não fôssemos rápidos o suficiente.
A corrida começa e a rua fica momentaneamente vazia. Um homem corre até o outro lado, até o poste do semáforo que acabara de anunciar a largada. As luzes agora apenas piscam desordenadamente para entreter a população que sequer conhecia os competidores, mas apreciava com bom grado aquilo tudo enquanto comia suas pipocas e seus churros.
Depois da confusão da minha mente, pulo a grade e corro atrás dele. Havia algo em suas mãos, um aparato metálico – não era uma arma.
Ele cruza a esquina e some. Minha mente volta para a sala escura.
Mais moedas, agora de cinco, dez e cinqüenta centavos. Uma ordem matematicamente intrigante que acompanhava fichas, milhares de fichas, de poker. Eu não sei jogar poker, não sei se são necessárias tantas fichas coloridas, mas estava tudo na mesma caixa. Era tudo parte das pistas. Como as cartas, as fichas e as moedas se relacionam com um criminoso?
No dia de ontem, conheci um dos competidores da fatídica corrida. Ele acompanhava um velho conhecido meu – não necessariamente estimado – num bar da cidade. Tinha uma séria compulsão por pimentões verdes, e apresentou aos outros um desses jogos bêbados, que consistia em arremessar pimentões verdes não muito grandes contra a mesa de madeira do bar, tentar fazê-lo rebater e cair dentro de algum dos copos previamente dispostos sobre a prancheta da anti-sobriedade.
Num gole de cerveja, vi refletido pelo copo um brilho esquisito, verde, ofuscante.
Não havia de ser nada.
A luz da sala vinha do bnaheiro ao lado, bem limpo. Não me lembro de onde podia ser aquilo. Talvez fosse na própria cidade, em algum bairro nobre, ou talvez fosse no subterrâneo de qualquer lugar, ou talvez fosse apenas dentro da nossa consciência, um cenário sendo manipulado por máquinas muito mais complexas que o nosso usual rancor.
A água do chuveiro, agradavelmente quente, tentava despertar alguma idéia nova em minhas ligações neurais – os rios pareciam secos nos penhascos sinápticos.
Fazia a água entrar também por meus olhos; talvez isso limpasse um pouco minha visão embaçada pelos presságios e pelos assassinatos. Buscar uma solução óbvia funciona na maioria dos casos – mas nem todos os casos são a maioria.
Minhas mãos estenderam para o outro lado do muro, e me agarrei a uma bagagem. Era azul, era tarde, era outra época. Era muito pesada para ser carregada pela moça que a estava carregando, então decidi ser um cavalheiro – com as mais obscuras das intenções.
Ela agradeceu e sorriu – era velha conhecida minha. Havíamos nos casado certa vez, há cerca de uma vida e meia. Ela nem se lembrava de mim, apenas do nosso filho.
Eu, por outro lado, me lembrava bem de tudo.
Os cabelos loiros eram os mesmos, o corpo bem esbelto era o mesmo, mas o mundo era outro, a vida era outra. Eu não podia contar – não faria sentido.
Até a próxima madrugada ajudei-a com a bagagem. Paramos numa praça, durante as constelações, para qualquer coisa. Sentou-se ela à calçada para descansar as generosas pernas. Uma sombra passou do outro lado da rua. Uma silhueta.
Dessa vez tinha que ser.
Postei-me a correr como fosse o último fôlego da minha existência – um dia vai ser, de qualquer forma. O máximo que me pode ocorrer nesses pensamentos comuns é que eu erre, e também não vai ser a primeira vez que isso acontece – talvez a última, caso gostemos de pensamentos recursivos.
Meus pés ficavam muito pequenos pra avenidas tão grandes – n’outro mundo eram as avenidas que ficavam pequenas para os que corriam em seus automóveis vermelhos dentro da cidade movimentada. Eu seguia, senão, as sombras. Não havia mais o que seguir, senão sombras.
Num ponto de sorte derrubei a silhueta. Senti um aparato metálico saindo de seu bolso, e me apossei. Não perdi meu chapéu de caça, nem meu sobretudo, nem meu cachimbo, nem o jogo. Era minha cartada definitiva – mesmo que eu não soubesse jogar poker.
O aparelho, de tamanho de mais ou menos um palmo, comprido, cilíndrico, cheio de botões. A última invenção da fábrica obscura que havia se instalado no mundo da madrugada daquele lugar todo. Ninguém sabia o que aqueles galpões produziam. Uns diziam que eram biscoitos que explodiam na boca, outros diziam ser quebra-queixos de sabores sulfurosos, até havia quem comentasse sobre produção em massa de guarda-chuvas de cores tropicais.
Agora ali estava, em minhas mãos, um produto protótipo daquelas máquinas movidas a carvão.
Um dos botões fazia emanar da ponta um risco esverdeado. Segurasse este botão com um outro, exatamente oposto, bem protuberante, qualquer inseto que se atrevesse a passar pela frente era condenado a queimar no plasma aéreo que se fazia com tamanha potência.
Existe quem goste de matar até a menor das moscas com armas nucleares.
Ele estava preso, algemado, amarrado. Levei-o para perto da minha nobre esposa transcendental – minhas mulheres, nessa vida e em outras, sempre gostaram desse perigo. Algumas inclusive viram bem de perto como era perigoso andar com gente da pior laia.
Enquanto esperávamos o carro policial – que não chegaria – brincamos exaustivamente com o aparelho nuclear de matar moscas. Era uma luz deveras bonita, de fato. Era tão bonita quanto perigosa. Os núcleons – e meu filho – se divertiam.
Quando voltei minhas mãos de trás do muro e me encontrei na sala, soube perfeitamente como organizar as moedas e as fichas. Elas dariam o endereço que buscávamos.
Na cidade da tarde, a corrida estava em seu auge. Barreiras laranjas e brancas eram colocadas nas avenidas mais largas pra denominar as curvas. Os carros passavam a duzentos, duzentos e cinqüenta quilômetros por hora. O povo assistia, apreensivo, mesmo conhecendo tanto aquilo tudo quanto eu conhecia o poker.
Todo mundo queria descobrir alguma coisa naqueles três tempos que se juntaram. O povo queria descobrir os motivos dos automóveis correrem tão rapidamente.
A minha velha e amada conhecida queria descobrir de onde eu havia tirado inspiração pra tratá-la tão docemente.
Eu queria descobrir quem era o criminoso.
- P. Z. Gillette, Bk St, 1920