Arquivo da categoria: Noites Insólitas

Chama Florestal

Foi horrível. Montamos nosso acampamento ali perto da floresta; tava ficando escuro, não ia dar pra continuar a caminhada até a outra manhã. Tava tudo normal, tínhamos até o que comer, o que beber, como dormir…

Aí então o Dirmac, arqueiro, viu o que parecia a silhueta de uma estátua feminina, bem lá no meio das árvores. Conversamos pra ir ver o que era aquilo, mas de repente não havia mais nada. Sumiu, como uma lágrima na chuva.

No meio da noite, senti uma mudança na luz ambiente, e, ao abrir os olhos, percebi a estátua no meio do acampamento, sem expressão, sem nada, tão estátua quanto qualquer outra. O espadachim Mirnas tentou investir contra aquela coisa, mas, ao atingir a pedra cinza com a espada curta, o braço do Mirnas começou a sangrar violentamente. Quando todos nós desviamos a atenção, pra estancar o machucado, percebemos que não havia mais estátua.

Num outro segundo, eu encontrei uma escadaria ali no meio da floresta, próximo a onde estávamos. Ia pra baixo, e cada vez mais pra baixo, mas eu desci, sozinho, sendo a única luz um pouco de magia que ainda emanava da minha coragem de mago versado em todos os segredos dos druidas. Danú estava comigo, havia luz… Mas a luz era cada vez mais fraca, e meu medo aumentava.

Depois do terceiro setor de escadarias de madeira, bem abaixo da terra, um grande poço quadrado. Não se via o que tinha para o fundo; não sei se era raso.

Um grande cuspe de fogo, uma cabeça gigantesca, flamejante, raivosa. Eu tentava me esconder entre os pilares, tentava investir contra as extensões que saíam dos ouvidos, dos olhos, mas nada adiantava. Meus socos eram em vão, minha pele começou a lentamente se desprender do meu corpo. Era muito quente.

Minhas investidas mais em mim doíam que no monstro que aparecera sob a terra, vindo das profundezas. Não tenho dúvidas de que fosse algum dos mais poderosos demônios. O cerne das minhas dúvidas é tão somente o que ele queria comigo. Por que logo eu tive de encará-lo naquele lugar imerso em penumbra.

Não sinto, no entanto, que minhas dúvidas haverão de ser respondidas tão breve quanto o som de um trovão.

Os gritos de angústia ecoariam por toda a floresta, se houvesse floresta lá em cima.

Alguém, na madrugada, brincou com a realidade do nosso tempo. O Sol mudou de lugar três vezes. Ficamos mais próximos do reino da insanidade.

Na madrugada em que desci as escadarias, descobri não ser certo que tudo o que acredito realmente exista.

- Dimas, o Mago – Crëstring, 1127.

Dia 12 – 238U

Um televisor ligado em qualquer coisa – sinal algum vem pra cá, de qualquer forma. Uma conversa automática, estática, sobre qualquer coisa – conversar com enfermos não é um diodo terápico.

A dança sai do país, ou não sei, ou é sobre o rio, ou é doze anos mais velha, ou é quem se pensou que fosse, ou é italiana, ou quem nunca tenha sido na estação de tratamento d’água.

Um velho novo. Um curto-circuito. Vai pra todas as direções, não se joga, não se dissolve.

Em três atos, o juiz sela o acordo. Um seguro, um enforcado – e não era eu.

Monopolo, passei do outro lado da esquina. Contemplei pela última vez, por final, quase indo embora, mesmo sem que as pernas nem os braços soubessem. Só eu sabia naquela esquina.

A questão não é se a bomba atômica irá explodir, mas quando. Quando irá explodir? Quando tudo partirá sobre si próprio – o tudo – em pedaços? Quando tudo será esmirilhado? Qual será o próximo prédio?

Os rios já são sujos. O ar já é contaminado pelas chaminés que disfarçam mas não evitam. Todos já tem suas doenças instaladas, mesmo que não se manifestem tão já.

Um jornal se mostra aberto num gráfico que não vale mais. Por que haveria de haver? Não preciso das novidades do mundo. Não haverá mundo em muito pouco tempo, e o que restou do antigo somos nós todos trancafiados em quartos infectados, sem conseguir fugir, sem conseguir olhar pra fora porque há apenas gelo e usinas prestes a explodirem.

Ataduras cheias de pus ardendo contra o chão para limparem vômito. É tudo da mesma matéria, é tudo podre, é tudo sem volta. Sai das feridas, sai dos corpos, sai das torneiras, vaza do chão, do teto, das camas, o encanamento não funciona, nada é nada.

No ritual da mesa redonda, todos eles voltam e me abrem os olhos. Há muito que se ver, mesmo que me custe a respiração. As portas se fecham e depois caem. As visões não se apagam. As letras abstratas são atemporais – são agulhas de uma injeção necessária.

Meus delírios tem ficado menos frequentes. A raíz quadrada, a marionete, não sei o que é pesadelo, o que é verdade, eu não tenho minha arma.

Quando uma bomba atômica explode, não há muito o que fazer. Não há o que ler, não há o que pensar. A gente só corre.

A gente só corre e não olha. A gente não quer ficar cego.

Nosso corpo se desprende em cada pedaço indivisível. Tudo se vai, toda a realidade, e algo deve ser construído quando o mundo continua.

Não sei por qual porta correr. Todas estão trancadas, todas estão travadas.

Estamos todos presos.

A bomba não tardará a explodir.

Turbillonnaire

Vortex no extremo do cubo.
Risco de giz.
Caco de vidro.

Pentagrama.
Parágrafo.
Paráfrase.

Presente, passado.

Tea

Não foi a primeira vez. Há óleo nas letras. O rio adentra a terra e carrega as folhas.

Vem a lama – apocalipticamente, descubro os sobretons do martelo refinado que prega as últimas sementes; vento.

Através do núcleo aerossol, cobras bêbadas, uísque, roupas sociais alaranjadas. Santas imagens, lago, polaroide. A vida girada num ângulo reto – passa luz.

Caixa de estados, mapa, roteiro. Os resquícios certos, as antagonias erradas. Dentro do espelho a palavra se inverte com exceção dos sons. As dimensões se curvam à morte no mundo onde são feitos os sonhos.

O dígito décimo-primeiro refrata.

Dia 10,5 – Cronos

A carne custava a vir. Eu mordia, mas meus dentes doíam. Ela não se quebrava no meio da noite, e minha fome continuava.

Eu puxava com o que me restava dos dentes, e sentia os nervos se contorcendo, implorando para que não viessem.

Eles sempre vinham.

Cada gota que escorria da carne que eu puxava me trazia a culpa de ter um sangue a menos pra matar minha sede quando eu precisasse. O sangue todo podre, como a carne, como o resto do lugar todo, mas era eu, e eu ainda respirava, mesmo que fosse pra sentir o cheiro das coisas se desconstruindo, doentes.

Vermes não há. Eles estão em lugares menos sombrios. Afugentam-se com o cheiro e a luz das lamparinas.

Eu continuo comendo a carne, e sentindo o gosto salgado que provavelmente é das infecções e das doenças e dos remédios.

O outro pedaço, meio vivo, meio morto, mastigado, grita.

Eu não posso controlar minha fome.

Relógio Fotográfico – Penhasco Velho e Café Novo

O Relógio despertador parou bem em frente à minha luminária, às cinco horas e quarenta e nove minutos da tarde do dia dezenove. Percebi muitos minutos depois, provavelmente depois das seis. O tempo que passou, eu destinei a contemplar as almas todas que conheci na rua próxima à trigésima segunda.

Compartilhei como se compartilha o mate. Não era mate. Era dor.

Compartilhei com alguém que fui há várias décadas, através de uma antiga fotografia. Senti todos os pesares do passado remoto e recente, de uma vez. Não há o que posso dizer, senão apenas que doía como as agulhas do arrependimento.

Eu gostava tanto, e não podia ver. Eu nunca pude ver, eu nunca fui suficientemente digno para ver. Antes eram as bebidas, mas mal sabiam os juízes todos que o combustível do álcool não é o mal que me movimenta, mas a angústia que me sufoca. Mal sabiam os juízes que o que destruía não era meu coração, mas as leis, que sequer eram do mundo.

Depois do passado velho, veio o novo. E então meu pescoço era o pecado da sinceridade. Sei, e sei há tanto, que o sistema da civilização não permite a sinceridade. Não é educado pensar, não é de boa vista admitir o egoísmo e a hipocrisia. Antes de contar minhas versões, devia tê-las mandado a alguma censura. Algum censor sabe sempre contar melhor a história que o original autor… É assim que o sistema funciona.

Antes do café, foi meu filho que me foi tirado das vistas. Que sobraram foram apenas meras fotografias em mau estado. Eu o via como o sentido de minha existência, o porquê de cada dia ser ensolarado para meus pensamentos complicados. O resto todo da família, por outro lado, tinha medo. Uma criança não deveria ficar exposta tanto tempo a alguém que se recusou a perder o brilho dos olhos, a alguém que, mesmo havendo piso concreto, gostava de se sentar próximo aos barrancos e aos penhascos. É perigoso demais expor uma criança às vistas de todos os horizontes, então era melhor que meu filho pouco me visse.

Aos dias verdes, quem me era proibida era senão a mulher entre todas as mulheres. Conheci-a durante uma tormenta, dentre escadarias. Protegíamo-nos da chuva do lago. Dançamos silenciosamente através de todas as folhas e todos os gostos e todas as línguas, até as mais ásperas. Eu nervoso, anestesiado por dentro, com tanta ebriedade das ruas silenciosas. Ela certeira, direta, matematicamente eficaz. Erro, o pai de todos os acertos.

Aconteceu que eu sempre soube – e saber de tudo é um atalho bastante convidativo para a ruína de não se saber de nada – que o caminho dela já era traçado pelos mesmos juízes de outrora. Eu não constava nas três vias das duplicatas e das completezas e não tinha dinheiro para comprar alianças ou pratarias; eu não podia ser o futuro, eu não podia ficar muito próximo daquela que me fazia ver as cores, eu era muito egoísta para merecer as cores, e admiti minha condição.

Admiti a mim mesmo o que eu era, e o mundo voltou a ficar cinza.

Como podemos investigar a natureza das coisas com tanto afinco quando as respostas estão todas tão claras? Por que nos preocupamos em olhar a escuridão quando há tanta luz do lado de fora da janela? Por que a dificuldade das coisas parece sempre ser tão programada para massacrar a lógica mais simples de como o ser humano é por dentro de si mesmo? Quando as raízes do grande polinômio da existência são reveladas, não vejo motivos para descartar uma apenas por ser o oposto d’outra. Um sinal geométrico não pode ser mais bonito que outro. Eles se completam; não parece justo haver política até mesmo nas matemáticas.

Eu, no entanto, não sou um bom orador da justiça, posto que em muitos casos vejo a injustiça como sendo muito mais humana que uma suposta igualdade que faz sentido tão somente em discursos platônicos do século vinte e cinco, fora da realidade pacata do que somos de verdade.

Nos passados todos não pude ser o que sempre tive vontade de ser. Perdi meu filho tão amado e a mulher que colocava eixos coordenados perfumados e calorosos em meus passos bêbados perdidos. Nenhum deles morreu, e não haverão de morrer. Eu não os daria tal conforto, e a vontade de um é a vontade dos céus, mesmo que os céus sejam só de dentro da cabeça de uma alma solitária. Eu, por outro lado, fui levado até o asilo e à cidade grande, porém vazia.

Eu deveria ter sido esquecido, mas nem meu filho e nem minha dama jamais conseguiram se esquecer do que havia em meus olhos. Meu filho entendeu o porquê de eu gostar tanto da proximidade dos precipícios. Ele percebeu que só assim era possível contemplar melhor o horizonte do mundo.

Minha dama, e só minha, entendeu que o que é de todos acaba não sendo de mais ninguém. Entendeu que as letras de um são só as letras de um, e, mesmo que alguém as copie, não há como copiar uma idéia e mantê-la original. Uma vez feito, não pode ser desfeito, e a revolução não mora na reprise da História.

Apesar da terra, eu vivo. Apesar das palavras, eu escrevo. Apesar do mundo, meus olhos brilham.

 - A. Guinelli; Iberia 1921.

(3-n)/3 La Danza del Fuego Aeterno, Locus Pocus II

São raros os momentos em que o café é menos amargo. Há mentira no leite condensado que adoça o suco do anti-sono, mas, nas tardes do fim do começo da semana, pouco importa.

Uma fantasiosa casca de crenças gira em torno do eixo e se torna um sólido, talvez oco, em princípio. Aos poucos outras folhas geométricas surgem e completam os espaços vazios, pouco a pouco, infinitamente, até que a esfera seja tão concreta quanto aquilo que se vê num espelho.

Também pouco importa a quantidade de dimensões de um espelho.

A mistura dos gelados grãos moídos e torrados com o fluido da calmaria torna a euforia menos patética e mais anestésica, mesmo aguçando todos os sentidos de uma só vez – tanto os que sentem de fato quanto os que fingem que sentem no pudim de eletricidade.

Onde eu fui parar? O que vejo são sombras numa parede suja. Mãos, marcas, esboços, sempre esboços de retratos intermináveis e histórias que não passam do primeiro capítulo e são interrompidas antes mesmo do começo do fim; a sombra fica no mesmo lugar, estática, e eu procuro em todas as gavetas uma chave que a faça andar, mesmo que de uma parede a outra do corredor.

Uma dose elevada é aplicada dentro do cérebro. O cérebro não sente dor, a agulha penetra sorrateiramente depois da anestesia da parte de fora da cabeça; uma antena com interferência, um fluido de corrente alternada, uma cena em amarelo sépia plantada num mundo cinza.

O mundo novo tem aspecto antigo dentro da realidade nova e desprovida de cores.

Ao meio do mato se forma uma festa. Gente que parece animal, animal misturado com gente, danças folclóricas, bebidas, novos, velhos, ninfas e minotauros. Lesmas gigantes sendo devoradas por arqueiros que miram a boca exposta das vísceras do pesadelo.

Os sonhos mais azulados convivem e dançam com os infernos mais inóspitos das madrugadas.

2/3 Caldo Brisa Marítima

Chego mais perto de mim mesmo a cada dia, e percebo como ser completo implica numa incessante busca por novas partes espalhadas dentro de uma somatória de universos aparentemente tão desconexos. É difícil achar pontes para atravessar montanhas de idéias, afinal.

Encontrei numa longa noite outros destes pedaços, tão palpáveis quanto melancolicamente etéreos num mundo misterioso e anestésico que há de terminar antes das seis da manhã de cada Sol. Perigosos, agradáveis, sublimes – o adocicado sabor da mentira e o tom amargo, tal qual mistura escocesa, da desilusão. Particularmente, não são todos que gostam de algumas bebidas tradicionais… Mas mesmo estes sabem como elas podem completar certas noites das noites.

Nas primeiras horas andei, e andei incessantemente até encontrar uma casa a cerca de quinze minutos das areias duras da praia do sul. Aquela que lá morava iria me salvar quando as águas salgadas invadissem minhas narinas e pulmões – e, obviamente, ela sequer sabia de minha existência naqueles tempos.

Os tempos eram os mesmos, mas pareciam passar cada vez mais devagar enquanto o espaço ficava cada vez mais longo.

Adentrei a casa de fora; nossas palavras, ensaiadas por todo um conjunto de formalismos, nos dizia quão próximos estávamos para dois meros esquecidos da casualidade da reta universal dos acontecimentos.

“Hoje é terça”, comentei, medindo minhas palavras, e sabia que ela era comprometida, e que esperava seu cavalheiro. Era eu o intruso, e disso também meu juízo tinha perfeita ciência. Lá estávamos, a quinze minutos das duras areias, tão próximos, e sem podermos desenhar nossos próprios arranhões sanguinolentos.

Ele não viria para ela, e eu também sabia, mas não podia falar. Queria falar, mas soaria prepotente e deveras arrogante. Preferi me retrair ao aguardo, enquanto a lógica abstrata das rotações de eventualidades davam formas às figuras atratoras do caos da maré baixa.

Encontrei-a, fazendo eu o mínimo de ruído, ao banheiro, com a porta entreaberta, sussurrando contra o espelho, de olhos fechados e mãos bem cruzadas e tão entrelaçadas quanto meus pensamentos. Rezava antes de consumar o pecado – sabia que o erro era seu caminho mais natural, e que eu, tão estrangeiro, era o norte que sempre haveria de mudar de direção ao longo dos anos. Mesmo assim a pequena, delicada e secreta bússola dela apontava só pra mim. Só pra mim.

Por fim ela saiu do templo do silêncio e se entregou. Não foi aos modos de Dionísio, mas sim aos de Madalena. Abraçou-me antes de beijar, tremulou antes de apertar, suspirou antes de perder a respiração completamente ao ser interrompida suave e violentamente por minha boca e perceber todos os caminhos de seu mapa ficarem confusos numa tempestade vigorosa que invadia com força as janelas, as portas, os telhados, os ventos e as águas. Tudo derretia aos poucos, e nos afogávamos com olhos fechados de uma noite escura.

Eu não sabia nadar.

Ela nascera desde sempre nas areias duras da praia do sul, e eu era de tão longe – das montanhas, dos reis e das colinas hiperbólicas. Sabia eu voar, mas não nadar nem navegar. Não conseguia saber algo que nunca me foi necessário.

Sabia ela dominar os ventos e as velas, mas não tinha asas. Eram prédios com pontes e escadarias, não havia necessidade de seres voadores.

No pecado completamos um ao outro. Ela se tornou o fluido de meus desertos celestes, eu me tornei o segredo alado de seus maremotos.

Desfalecemos no prazer da inundação… A quinze minutos da praia do sul.

- d’Art. Caldoneer, 1798. Sudre.

1/3 Caixa Laço Metalinguagem

Ela conheceu um mundo todo novo por meus dedos, e ouviu sem querer cada vírgula que falei. Minhas palavras sempre foram o mais eficiente dos remédios… E ela continuou doente mesmo depois que cerrei meus vocábulos.

Busca, em vão, palavras tão estranhamente unidas quanto as minhas. Busca a interpretação fantasiosa e fractal da realidade que eu costumava sussurrar em meio aos cheiros, sons e gostos. Busca as histórias, os conceitos e os arranhões e os jogos, mas tudo o que acha são simulacros de sinceridade.

Não é ruim, e até é muito nobre cada novo achado, mas sabe ela que falta. Falta uma nuance egocêntrica tanto quanto um texto metalingüístico codificado e secreto, mesmo explícito. Falta a sublime desilusão, o caos e as crises. Falta tudo, mesmo no espaço vetorial do pseudo-esquecimento.

Existem braços mais fortes, mas não que conhecem tão bem a constituição mais infinitésima da matéria toda de seu pescoço. Existem ternos mais valorosos, mas que não parecem tão bonitos quando jogados pelas escadarias. Existem lábios mais firmes, mas que não sentem tão bem o vinho que adentra pelas fissuras de um dia seco. Existem películas tão bem escritas, mas que não valem aquelas inúmeras horas de pensamento. Músicas belas existem aos montes – desde o cabaré da beira da estrada até as marchas turcas que trazem chaves para as coincidências -, mas poucas são tão agradáveis mesmo quando nos acorda num susto de meia-tarde pela voz fingidamente sombria que sai dos transistores.

Ecoa a memória como ela deve sempre ecoar. Os pedaços agradáveis da realidade passada são dobrados por dentro de uma caixa semitransparente; os cheiros, os sons e os gostos moram num lugar distante que jamais deverá ser reconstruído, para que possa se tornar eterno.

Falta tudo quando se esquece da caixa do tempo.

- Aox. Om., Bleu-2V

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