Arquivo da categoria: Plano Azimutal

Ponto de Zemansky

O dia já havia começado faz tempo, mas da sala escura não havíamos percebido. Em nossa mesa já não tinha vértices, nem arestas, nem nada. Eram moedas sendo contadas, pacotes sendo abertos, um criminoso sendo procurado por nossas mentes que se recusavam a ficar cansadas até que ele estivesse sendo algemado bem diante de nossos olhos.

Lá fora – uma grande corrida tomava conta do centro da cidade. Fazia calor, mas o tempo tava nublado. E como tava nublado o tempo…

Os carros posicionados perto da praça bem cercada. Pessoas, verão tropical, concreto, velocidade, capacetes, igreja velha. Todos podiam ser o procurado, e tudo, absolutamente tudo poderia sair bruscamente de controle caso não fôssemos espertos o suficiente, caso não fôssemos rápidos o suficiente.

A corrida começa e a rua fica momentaneamente vazia. Um homem corre até o outro lado, até o poste do semáforo que acabara de anunciar a largada. As luzes agora apenas piscam desordenadamente para entreter a população que sequer conhecia os competidores, mas apreciava com bom grado aquilo tudo enquanto comia suas pipocas e seus churros.

Depois da confusão da minha mente, pulo a grade e corro atrás dele. Havia algo em suas mãos, um aparato metálico – não era uma arma.

Ele cruza a esquina e some. Minha mente volta para a sala escura.

Mais moedas, agora de cinco, dez e cinqüenta centavos. Uma ordem matematicamente intrigante que acompanhava fichas, milhares de fichas, de poker. Eu não sei jogar poker, não sei se são necessárias tantas fichas coloridas, mas estava tudo na mesma caixa. Era tudo parte das pistas. Como as cartas, as fichas e as moedas se relacionam com um criminoso?

No dia de ontem, conheci um dos competidores da fatídica corrida. Ele acompanhava um velho conhecido meu – não necessariamente estimado – num bar da cidade. Tinha uma séria compulsão por pimentões verdes, e apresentou aos outros um desses jogos bêbados, que consistia em arremessar pimentões verdes não muito grandes contra a mesa de madeira do bar, tentar fazê-lo rebater e cair dentro de algum dos copos previamente dispostos sobre a prancheta da anti-sobriedade.

Num gole de cerveja, vi refletido pelo copo um brilho esquisito, verde, ofuscante.

Não havia de ser nada.

A luz da sala vinha do bnaheiro ao lado, bem limpo. Não me lembro de onde podia ser aquilo. Talvez fosse na própria cidade, em algum bairro nobre, ou talvez fosse no subterrâneo de qualquer lugar, ou talvez fosse apenas dentro da nossa consciência, um cenário sendo manipulado por máquinas muito mais complexas que o nosso usual rancor.

A água do chuveiro, agradavelmente quente, tentava despertar alguma idéia nova em minhas ligações neurais – os rios pareciam secos nos penhascos sinápticos.

Fazia a água entrar também por meus olhos; talvez isso limpasse um pouco minha visão embaçada pelos presságios e pelos assassinatos. Buscar uma solução óbvia funciona na maioria dos casos – mas nem todos os casos são a maioria.

Minhas mãos estenderam para o outro lado do muro, e me agarrei a uma bagagem. Era azul, era tarde, era outra época. Era muito pesada para ser carregada pela moça que a estava carregando, então decidi ser um cavalheiro – com as mais obscuras das intenções.

Ela agradeceu e sorriu – era velha conhecida minha. Havíamos nos casado certa vez, há cerca de uma vida e meia. Ela nem se lembrava de mim, apenas do nosso filho.

Eu, por outro lado, me lembrava bem de tudo.

Os cabelos loiros eram os mesmos, o corpo bem esbelto era o mesmo, mas o mundo era outro, a vida era outra. Eu não podia contar – não faria sentido.

Até a próxima madrugada ajudei-a com a bagagem. Paramos numa praça, durante as constelações, para qualquer coisa. Sentou-se ela à calçada para descansar as generosas pernas. Uma sombra passou do outro lado da rua. Uma silhueta.

Dessa vez tinha que ser.

Postei-me a correr como fosse o último fôlego da minha existência – um dia vai ser, de qualquer forma. O máximo que me pode ocorrer nesses pensamentos comuns é que eu erre, e também não vai ser a primeira vez que isso acontece – talvez a última, caso gostemos de pensamentos recursivos.

Meus pés ficavam muito pequenos pra avenidas tão grandes – n’outro mundo eram as avenidas que ficavam pequenas para os que corriam em seus automóveis vermelhos dentro da cidade movimentada. Eu seguia, senão, as sombras. Não havia mais o que seguir, senão sombras.

Num ponto de sorte derrubei a silhueta. Senti um aparato metálico saindo de seu bolso, e me apossei. Não perdi meu chapéu de caça, nem meu sobretudo, nem meu cachimbo, nem o jogo. Era minha cartada definitiva – mesmo que eu não soubesse jogar poker.

O aparelho, de tamanho de mais ou menos um palmo, comprido, cilíndrico, cheio de botões. A última invenção da fábrica obscura que havia se instalado no mundo da madrugada daquele lugar todo. Ninguém sabia o que aqueles galpões produziam. Uns diziam que eram biscoitos que explodiam na boca, outros diziam ser quebra-queixos de sabores sulfurosos, até havia quem comentasse sobre produção em massa de guarda-chuvas de cores tropicais.

Agora ali estava, em minhas mãos, um produto protótipo daquelas máquinas movidas a carvão.

Um dos botões fazia emanar da ponta um risco esverdeado. Segurasse este botão com um outro, exatamente oposto, bem protuberante, qualquer inseto que se atrevesse a passar pela frente era condenado a queimar no plasma aéreo que se fazia com tamanha potência.

Existe quem goste de matar até a menor das moscas com armas nucleares.

Ele estava preso, algemado, amarrado. Levei-o para perto da minha nobre esposa transcendental – minhas mulheres, nessa vida e em outras, sempre gostaram desse perigo. Algumas inclusive viram bem de perto como era perigoso andar com gente da pior laia.

Enquanto esperávamos o carro policial – que não chegaria – brincamos exaustivamente com o aparelho nuclear de matar moscas. Era uma luz deveras bonita, de fato. Era tão bonita quanto perigosa. Os núcleons – e meu filho – se divertiam.

Quando voltei minhas mãos de trás do muro e me encontrei na sala, soube perfeitamente como organizar as moedas e as fichas. Elas dariam o endereço que buscávamos.

Na cidade da tarde, a corrida estava em seu auge. Barreiras laranjas e brancas eram colocadas nas avenidas mais largas pra denominar as curvas. Os carros passavam a duzentos, duzentos e cinqüenta quilômetros por hora. O povo assistia, apreensivo, mesmo conhecendo tanto aquilo tudo quanto eu conhecia o poker.

Todo mundo queria descobrir alguma coisa naqueles três tempos que se juntaram. O povo queria descobrir os motivos dos automóveis correrem tão rapidamente.

A minha velha e amada conhecida queria descobrir de onde eu havia tirado inspiração pra tratá-la tão docemente.

Eu queria descobrir quem era o criminoso.

- P. Z. Gillette, Bk St, 1920

2/3 Caldo Brisa Marítima

Chego mais perto de mim mesmo a cada dia, e percebo como ser completo implica numa incessante busca por novas partes espalhadas dentro de uma somatória de universos aparentemente tão desconexos. É difícil achar pontes para atravessar montanhas de idéias, afinal.

Encontrei numa longa noite outros destes pedaços, tão palpáveis quanto melancolicamente etéreos num mundo misterioso e anestésico que há de terminar antes das seis da manhã de cada Sol. Perigosos, agradáveis, sublimes – o adocicado sabor da mentira e o tom amargo, tal qual mistura escocesa, da desilusão. Particularmente, não são todos que gostam de algumas bebidas tradicionais… Mas mesmo estes sabem como elas podem completar certas noites das noites.

Nas primeiras horas andei, e andei incessantemente até encontrar uma casa a cerca de quinze minutos das areias duras da praia do sul. Aquela que lá morava iria me salvar quando as águas salgadas invadissem minhas narinas e pulmões – e, obviamente, ela sequer sabia de minha existência naqueles tempos.

Os tempos eram os mesmos, mas pareciam passar cada vez mais devagar enquanto o espaço ficava cada vez mais longo.

Adentrei a casa de fora; nossas palavras, ensaiadas por todo um conjunto de formalismos, nos dizia quão próximos estávamos para dois meros esquecidos da casualidade da reta universal dos acontecimentos.

“Hoje é terça”, comentei, medindo minhas palavras, e sabia que ela era comprometida, e que esperava seu cavalheiro. Era eu o intruso, e disso também meu juízo tinha perfeita ciência. Lá estávamos, a quinze minutos das duras areias, tão próximos, e sem podermos desenhar nossos próprios arranhões sanguinolentos.

Ele não viria para ela, e eu também sabia, mas não podia falar. Queria falar, mas soaria prepotente e deveras arrogante. Preferi me retrair ao aguardo, enquanto a lógica abstrata das rotações de eventualidades davam formas às figuras atratoras do caos da maré baixa.

Encontrei-a, fazendo eu o mínimo de ruído, ao banheiro, com a porta entreaberta, sussurrando contra o espelho, de olhos fechados e mãos bem cruzadas e tão entrelaçadas quanto meus pensamentos. Rezava antes de consumar o pecado – sabia que o erro era seu caminho mais natural, e que eu, tão estrangeiro, era o norte que sempre haveria de mudar de direção ao longo dos anos. Mesmo assim a pequena, delicada e secreta bússola dela apontava só pra mim. Só pra mim.

Por fim ela saiu do templo do silêncio e se entregou. Não foi aos modos de Dionísio, mas sim aos de Madalena. Abraçou-me antes de beijar, tremulou antes de apertar, suspirou antes de perder a respiração completamente ao ser interrompida suave e violentamente por minha boca e perceber todos os caminhos de seu mapa ficarem confusos numa tempestade vigorosa que invadia com força as janelas, as portas, os telhados, os ventos e as águas. Tudo derretia aos poucos, e nos afogávamos com olhos fechados de uma noite escura.

Eu não sabia nadar.

Ela nascera desde sempre nas areias duras da praia do sul, e eu era de tão longe – das montanhas, dos reis e das colinas hiperbólicas. Sabia eu voar, mas não nadar nem navegar. Não conseguia saber algo que nunca me foi necessário.

Sabia ela dominar os ventos e as velas, mas não tinha asas. Eram prédios com pontes e escadarias, não havia necessidade de seres voadores.

No pecado completamos um ao outro. Ela se tornou o fluido de meus desertos celestes, eu me tornei o segredo alado de seus maremotos.

Desfalecemos no prazer da inundação… A quinze minutos da praia do sul.

- d’Art. Caldoneer, 1798. Sudre.

Observando o Lago Selvagem

Numa tarde infinitamente próxima, guardei minhas vontades para roubar lembranças do lago. Eu e meus aparatos tocamos a sinfonia da alma ao capturar feixes selvagens de luz que acidentalmente adentravam o receptor foto-sensível das minhas invenções.

Era uma tarde diferente. Não havia mais ninguém para atormentar as ondas eletromagnéticas, não havia ninguém para me fazer tremer antes de apertar o obturador, não havia ninguém para incomodar a música ambiente das águas calmas do lago fechado. Pude perceber cada peixe que saltava, mesmo que em minhas visões periféricas. Pude reparar em cada folha fractal de cada árvore, e em como a natureza é sublime – tão sublime que nos convidou, certa vez, a fazer parte dela, e mesmo assim apenas a contemplamos como algo alheio, e não como algo de que somos efetivamente parte.

Cada galho que cai, cada pássaro que não consegue voar, cada peixe engraçado que bate a cabeça contra o barco de madeira, cada acerto e cada falha, mesmo que longe de nossa percepção, são partes de nós mesmos. Tudo o que vemos, tudo o que roubamos, tudo o que pensamos e todas as palavras que não conseguimos dizer são tão sublimes quanto as euforias. As mentiras, as verdades, tudo converge para a existência eterna e incompreensível de nossa própria casa que tentamos compreender como vida.

Um pedaço do lago parece se ocultar dentre árvores, e lá talvez durmam – com olhos abertos – mais peixes, provavelmente os mais introspectivos, isto é, os que não batem a cabeça contra os barcos, mas sim contra as árvores e contra os outros peixes.

Minha máquina artificial também é parte da natureza. É uma mistura alquímica bem elaborada e genialmente encaixada em si mesma com o intuito de fazer o tempo durar mais segundos num pedaço perdido de papel que haverei de olhar, numa outra tarde, ao crepúsculo da existência, sentindo nostalgia por ter andado nessas tardes amarelas e silenciosas, e, ao mesmo tempo, com o pesar de não ter conseguido mostrá-las em toda perfeição pra mais alguém que não os galhos das árvores e o barco de madeira.

Mas, obviamente, até mesmo o pesar e a nostalgia não devem se anular ou entrar em conflito. Tanto quis o silêncio que acabei por apagar qualquer outro barulho… Talvez as músicas ruins sejam tão importantes quanto as boas… Talvez as mensagens simples sejam tão valiosas quanto as complexas…

Num pequeno momento de tempo, enquanto a infinidade do mesmo se mostrava no papel de minhas mãos fotográficas, não me importava com a dualidade das coisas todas, ou com o céu, ou com os peixes engraçados do lago. O que me fazia buscar as sombras nas fotografias era a necessidade de mostrar a mais alguém todo o universo que vive em pedaços tão pequenos de tudo, e, ao mesmo tempo, tão infinitos quanto esferas.

Dentro dos ecos da sala e da lareira que já quase encontra sua última chama, consigo ouvir a voz adocicada da guardiã.

Alphonse e os Ciclóides da Revolução

Os líderes que ainda não caíram já tragam os últimos ares de seus cigarros, esquecidos próximos ao topo de alguma fortaleza, em seus nobres uniformes rasgados e surrados. As pedras também se desfazem com os sopros que trazem o final da guerra; o céu ameaça ficar azulado, o cheiro de sangue já se faz sentido por todas as cidades do planeta próximo.

Não se pode saber se as ruas são seguras. Cada esquina ostenta como recordação sua pilha de corpos sem face; cada bar mostra em suas garrafas despedaçadas ao chão o desespero que a humanidade tem em si mesma para buscar o último gole de álcool antes da dor suprema. Qualquer veneno ganha um gosto tipicamente doce àqueles que vivem uma vida infinita de não-anestesia.

Eu não sou um soldado, tão pouco me sinto perdido em meio ao campo de batalha. Meus círculos não mentem, e os raios que contemplo me deixando cada passo mais próximo do inferno servem para transmitir as verdades das quais tanto tentei fugir por esses anos de massacres. O chefe supremo cai, e assim também caem os soldados dos que buscam a liberdade. Por fim, parece que ser livre é um estado transitório, como uma luz que pisca e de repente se escurece em meio aos túneis de carvão.

Basta uma fagulha para que as cavernas desmoronem e até os mais astutos sejam consumidos num fogo impiedoso que não escolhe a cor dos cabelos ou o número de medalhas no uniforme – seja azulado ou esbranquiçado. Tudo é fadado a ser consumido pela mãe de todas as coisas, por menor que seja o risco do fósforo que se escape de um cigarro desesperado em meio às trevas da imaginação.

Marcas no chão trazem à tona memórias naufragadas de outros como eu, que tinham seus círculos e os desenhavam em meio às avenidas por onde a morte traçava seu tabuleiro.

Escrituras sagradas impronunciáveis para os que não transcendem as limitações do ferro e do aço. Uma vez lidas, abrem os portões todos, numa viagem sem volta à terra do autoconhecimento; os olhos que vêem os curiosos acabam servindo como agulhas de ácido cravadas por entre as artérias mais pulsantes.

Não consigo definir ainda se as ruas são seguras, e todos os outros que desenhavam círculos acabaram por perecer a partir do momento em que se deixaram guiar pelos próprios sentimentos inocentes que diziam sobre o final da guerra. A guerra, afinal, nunca parece acabar.

Homens condecorados, mulheres esbeltas e crianças imaginativas – todos são apenas pedaços de fumaça perto do lago fervente que se abre com o zunir de todas as trombetas e o vôo de todos os anjos que se vestem com asas de fogo sobre montanhas de metal ao fim da avenida. Todos tornam pó, indistintamente, e assim será comigo, caso as montanhas me avistem numa rua qualquer.

Não fumo, mas o cigarro parece ser um bom amigo na solidão da sobrevivência. Há tanta fumaça nas redondezas, quem poderia sentir o cheiro do tabaco sendo queimado por um sobrevivente que lê inscrições feitas na pedra tostada?

Minha bebida, por esses últimos meses, tem sido qualquer água misturada com o suco vermelho que jorra de minhas cicatrizes. Bebo a mim mesmo e como minha própria carne, numa tentativa vã de reabsorver o que vejo que pareço ser o tempo todo. O que me é roubado eu faço questão de colocar pra dentro outra vez, da forma que seja, num apego incomum à própria existência.

Das memórias perdidas dentro do rio violeta, tento por algum instante delta pequeno imaginar se aquela que deixei na casa longa da terra das chaminés está viva, se ainda dorme, se sonha, se achou alguma outra pessoa para a qual servir café amargo, como ela sempre soube que eu preferia. Imagino se as noites têm sido tão calorosas, se os ventos têm sido tão inspiradores, se as bebidas do oriente têm refletido a lua, seja cheia seja nova, como costumava acontecer antes de eu tentar escrever meus círculos e minhas funções abstratas nas ruas da ira que tomaram toda uma civilização média…

É provável que ela esteja bem, como sempre, e com o mesmo semblante; quem tenha perdido partes do rio que carrega as memórias, ao que parece mais plausível, tenha sido não outro, mas eu mesmo, que penso tanto apesar de tanto ter sido calejado por dentro e por fora pela terra pontiaguda que invadiu meu nariz durante os meses em busca da liberdade.

Quero voltar para as chaminés e para os equilíbrios, mas não quero parecer um fantasma se estiver apenas vivo e não morto. Ao que parece, continuo vivo; não posso, contudo, ter certeza da segurança das ruas que ostentam seu amarelo cinzento e sua ferrugem espalhada próxima de restos imolados de pesadelos. Meus círculos, e sempre eles, como se as repetições da fala mostrassem o perímetro infinito, se mantêm intactos num eco de desespero que me faz escrever letras irreconhecíveis e preces de religiões que jamais conheci enquanto sóbrio.

Ouço gritos ao meio da tarde, enquanto o mundo parece deserto. Bradam sobre divindades e sobre fogo que haverá de descer logo, e sobre também divindades que por si próprias ateiam fogo ao decrescente da criatura.

Há muito meus pensamentos me saíram de controle. Quando a vida não é certa e as noites não são tão sonolentas quanto de costume, as raízes mais absurdas das coincidências emergem como monstro de um pântano de ilusões, e, embora a razão diga sobre as divisões que se deve fazer entre o plausível e o impulsivo, a glória de se entrar na paranóia tem o gosto do mais poderoso dos vinhos das planícies distantes das chaminés.

A vontade que os ventos carbonizados me despertam sobre voltar à casa das chaminés é maior que qualquer incerteza da realidade. Meu dever sempre foi fazer os círculos e perseguir os olhos que estupram as artérias com suas agulhas, e, como o soldado romano sempre me disse, se há medo, não se precisa sequer ir à guerra. O medo nunca ganha a guerra, e só disso sabe os que perderam medalhas e uniformes para se jogar ao mais sujo dos rios a fim de salvar a si mesmo e aos companheiros que se desfalecem em trauma.

Cada passo de dúvida e cada sombra que se suspender das luzes fracas para me avisar das montanhas, cada sinal que trouxer a próxima peça do tabuleiro, cada sopro demoníaco. Por dentro de cada um deverei trespassar com meus círculos e a luminosidade de meus artefatos, e haverei de não demorar a chegar de volta à terra das chaminés infinitas.

A guerra jamais haverá de acabar. Meus círculos, entretanto, continuarão presos ao chão das ruas de sangue, assim como o espírito daqueles que rasgam as próprias feridas para sobreviver mais um dia.

Sob as Águas de Selene, pt. II

Se a caminhada até os portões do inferno me mostrar que durante todo o tempo acreditei numa natureza justa que não nos esconde a verdade, em vez de decaídos disfarçados de santos, medrosos e renegados, então eu vou apreciar cada espinho que me for colocado, cada fogo que me gotejar enquanto, cego, rastejo procurando o meu apocalipse.

- Galileu de William G.; Cena do Julgamento, ato III.

Eu sou um fantasma do lado de fora da casa de assombrações. Um voyeur da minha própria vida, um espectador chocado por minha própria atuação.

Sonne – Acordar, dormir e comer, em dados referenciais, passam a ser somente meras formalidades, meros caprichos matemáticos para explicar razoavelmente um ciclo espiral.

A luz trespassa, temerosa, as linhas que contorno dentro das ruas do calendário. Os dias olham com medo, e atravessam a rua.

O que eu procurava, de verdade, tinha nome, mas não tinha hora; tinha local, mas não tinha lua, e eu achei no meio de todas as improbabilidades – uma flutuação qualquer no espaço me fez ficar desafinado para sempre no tecido do tempo.

- Prelúdio do Tempo, por J. Moose; Teak Aquaria, ensaio XVIII.

Não havia mais ruídos. Eu estava paralisado e além de todas as sensações que me lembrava de existir. Lógica, senso e racionalidade dissolviam-se em frente aos meus olhos que tão acostumados eram a calcular grãos de areia numa ampulheta, sem dar por conta que cada um que fosse, jamais voltaria, embora ainda me iludisse tornando o vidro infinitamente até que escurecesse o Sol…

Minhas mãos doem – os pedaços de tinta são duros e cada letra carrega a dor de se estar contemplando um universo imerso em tudo o que sinto falta e que não acontecerá pelas próximas décadas – uma antecipação finita, mas interminável, onde eu vejo a anti-temporalidade dos meus próprios desejos.

E quem era aquela que bateu à porta, senão essa mesma, que mora furtiva dentro das matrizes inatas de rotação?

Quem girava era eu, embora parado, contemplativo, espectador, especular, voyeur das minhas sentenças.

Eis os que andam apressados à rua da frente, temerosos, alertas por todas as orquestras de temor que vasculham a individualidade do próprio pão. Do lado de dentro do quarto, no entanto, não há mais nada. Ela e eu somos três, mesmo que haja eu mesmo sendo mais um do lado de fora do lado de dentro.

E ela também percebe a si mesma e toma a se juntar no que eu já estava bêbado há muito, e posso sentir suas mãos procurando, síncronas, tanto ela quanto eu mesmo. Inclusive num compartilhamento, o egocentrismo lascivo desperta inspiração.

Mesmo com os olhos semi-abertos e iluminações mínimas das velas, eu entendia perfeitamente sem precisar ver tudo com os olhos.

As línguas encontravam as mãos, que tocavam os lábios, que circundavam os pescoços, as orelhas, e dançavam misticamente com as pernas perdidas num monte de roupas rasgadas e amassadas dentro de um universo novo de uma natureza infinita.

Passou-se o tempo, e as sensações animalescas não se pareciam com aquelas antigas – eram cerebróides; além de intensas, sabiam o quanto eram intensas, sabiam quantas dimensões tiveram de ser trespassadas até que a ampulheta irradiasse os próprios grãos de areia para fora do vidro.

É possível que tenhamos tido milhares de ápices, e nenhum deles nos podia parar – era além do anseio físico e concreto, era transgressor dos próprios limites da dor que me foram apresentados até então, era único, mesmo que num tempo esquisito que girava em círculos imaginários dentro da grande espiral.

O cheiro que ela exalava sem saber me fazia rasgar, além de suas roupas, também os sete vestidos que cobriam a verdadeira imagem da realidade. Forjava-me, com a menor das temperaturas, todos os ensinamentos, e depois os apagava todos, como livros que foram escritos por cima de areias numa lua cheia.

Todos os sentidos se confundiam; eu estava desnorteado. Não conseguia nem eu nem eu mesmo parar de admirá-la, tão perfeitamente errada e tão silenciosamente entregue a mim, afinal.

Pudera, colocaria as areias de todos os mares numa só ampulheta para sentir o cheiro, o gosto e a textura por mais tempo.

Servia a ela, sem conseguir pensar nas dualidades que permeiam poemas místicos da antiguidade que se perdera no meio.

Começara a imagem a esmaecer, as tintas a derreterem, e, aos poucos, me via voltando em passos cambaleantes e randômicos até o telhado da velha casa do passado. Uma garrafa quase vazia ao meu lado, penas tinteiras secas do outro, uma lua gigantesca e constelações e céu bem azul escurecido por cima das poucas e fracas luzes das portinholas daqueles que tinham medo do escuro na cidade. Um ou outro andarilho, ou qualquer vendedor com seu cavalo, e uma sensação única de afeto pela própria concepção de existência.

A certeza, por mais absurda, é um calmante para os flagelos das bordas ásperas que ficam além dos muros. Naquela noite eu vira uma certeza, seja lá por que fosse – eu vira.

A cada passo para baixo nos degraus, uma sensação gélida por dentro de onde eu costumava me aquecer com os tonéis; queria vê-la ali, sentada, ainda, à lareira.

De fato, ali estava ela. Do mesmo jeito, mesma posição, como se não tivessem transcorrido sequer metades de ampulhetas. Olhos abertos olhando o fogo que queimava e aquecia… Por algum motivo, parece que ela também sabia de tudo, e aguardava tão ansiosamente quanto eu por aquele dia.

Mesmo tão diferente, eu contemplava as curvas que se escondiam por baixo dos panos e da capa, e sabia tudo o que iria arquitetar ao mundo real vindo de dentro daqueles olhos e das marcas daqueles lábios.

Eu sabia, e queria fazê-la acreditar que viajaria todos os universos outra vez para reencontrá-la num tempo que haveria de chegar.

Sob as Águas de Selene, Pt. I

Sentia estar perdendo algumas palavras depois de cada página que tornava nos livros amarelados. Não sentia falta, e a história sequer perdia sentido, mas deixá-las escaparem por folhas velhas incomodava.

Existe uma piscina infinita de um líquido viscoso e azulado – definitivamente não é água.

Antes que eu mergulhasse dentro do copo de minha própria embriaguez, alguém bateu à porta – o que era inesperado, posto que todas as pessoas de bem já se dormiam e sonhavam com a salvação do fim dos tempos…

Porta tão velha quanto o livro e o calendário; eu sequer podia saber que época do ano era. Chovia, esquentava, esfriava, plantas cresciam num dia e apodreciam noutro, as folhas não ficavam verdes por mais de uma semana…

Abri e a encontrei embaixo de uma capa velha, ou pelo menos muito surrada, úmida – não sei se por chuva, lágrimas, ou as duas coisas; depois de relutar e respirar olhou-me nos olhos, e eu fui imediatamente curado de toda a sobriedade que me faltava. Era ela, e eu não conseguia imaginar o que isso significava.

Eu não sabia sequer quem era.

Parecia, de fato, que já nos conhecíamos de muito tempo – de uma feira que haveria de ocorrer daqui seiscentos anos, talvez. O que importa é que toda aquela luminosidade sombria que era jogada em meus olhos a partir de baixo da capa me parecia familiar, e tinha notável gosto de vinho.

Coloquei-a próxima ao fogo, e ofereci um copo de bebida – seria melhor um chá, mas a erva havia acabado há tempos… Ela não parecia ansiosa por continuar inebria, afinal, tão pouco eu, que mal começara a escrever sobre as raízes das árvores do inferno.

Não queria forçá-la a falar, me preocupava apenas se a temperatura e a casa eram agradáveis a ela. Sentia por tal desconhecida algo esquisito e inclusive vergonhoso, por isso deveria fornecer os melhores dos meus serviços de bom senso e bons modos.

Era alta madrugada. Ela nada falava. Respirava, bebia, olhava para o fogo, mas nada falava. Sequer uma palavra, ironia, pedido ou oração.

Subi-me ao topo frágil da casa – e qual casa tem um topo resistente? -, com meu cálice prateado, minhas penas tinteiras e minhas veias avermelhadas por causa do fogo. A lua estava no periélio, gigantesca, brilhante, sedutora. Não podiam ser manchas, não podiam ser defeitos…

As memórias me começaram a vir lentamente, como se minha consciência tivesse flutuado até o final dos tempos e voltado para me contar do passado que eu haveria de viver. As imagens começaram a surgir em minha frente.

Era ela, mas parecia diferente. Nem se parecia, na verdade, com aquela que batera à porta, pelo menos não fisicamente; eu sabia, no entanto, que só podia ser.

Usava, ela, uma roupa inteira azulada, sem adereços, sem alarde; deitava à minha direita numa cama pequena, porém bem arrumada. Algo nos era mostrado, com luzes baixas – um tipo de espetáculo teatral com raios e tempestades e cores absurdas, acompanhado sublimemente por um grupo de bardos invisíveis que moravam além dos olhos que mostravam o que os nossos tentavam entender.

Não podia eu controlar, apenas assistia à minha vida daquele passado tão à frente na linha das civilizações; é provável que eu tivesse algum tipo de motivo para aquilo tudo, mas, ao mesmo tempo, era blasfemo, errado, e eu não podia parar.

Embaixo da capa, num lugar onde nem a mais digna consciência haveria de enxergar, vi minha mão direita acariciar suas pernas, lentamente, com mais afeto que lascívia, e o afeto e a lascívia se confundiam conforme eu a arranhava delicadamente e explorava com interesse cada pedaço de terra nova a ser descoberta por tal navegador errante… Havia certa tremulação em meus punhos, aquilo parecia ser a cada instante mais e mais errado…

…E ela, apesar disso, não se sentia nem um pouco incomodada participando de tal pecado mutuo, e eu continuava, sem poder me ajudar.

O tecido era confortável – a textura de pele, lisa, limpa e da cor de Selene, era mais ainda, e a interface era como um lembrete de quão culpado eu era ao afastar o tecido e deslizar sob as roupas. E eu desviava por baixo de cada interface, com uma vontade latente e flamejante que continuava a aumentar.

Ela sabia, e sempre soube, o que eu estava querendo. Qualquer um provido de mínima imaginação entenderia lendo qualquer relato mínimo que houvesse… Eu rastejava, e as teias nas quais fui preso não me incomodavam, e o perigo era como azeite sendo derramado numa brasa incandescente que cuspia suas faíscas a cada gota; eu entrava cada vez mais fundo nas trevas do futuro da civilização, só para ter um pouco mais de luz das velas e menos dos inquisidores.

O que antes era singelo ficava a cada grão de areia mais intenso, mais ávido, e as pontas perdidas dos meus dedos que deslizavam agora eram minhas mãos inteiras apertando cada momento daquelas pernas e daquelas interfaces lisas e misteriosas. Eu queria rasgá-la completamente, livrá-la daquela carapaça moral azulada, praticar todo tipo de perversões naquele mundo tão sombrio que se aproximava do apocalipse cinzento.

Já havia me esquecido das peças, dos bardos e dos atores e do tempo; olhava atenciosamente para sua face em perfil, pouco iluminada, a fim de ver algum tipo de reação, qualquer uma que fosse, qualquer uma…

…Mas ela continuava a jogar comigo muito além de onde eu conhecia as regras, e quem estava trancafiado era eu, dentro do meu próprio resto de instinto.

Uma leve angústia se pairava dentro das minhas ciências – eu queria saber do desfecho, qualquer que fosse, e a história parecia presa num loop, embora quem estivesse em loop fosse eu, somente eu. Eu sabia disso, também.

Os lábios tinham marcas – não sei dizer se era ela quem os mordia quando eu não estava olhando, ou se era eu mesmo enquanto me distraía com minha consciência.

Fosse o segundo caso, ficaria ainda mais angustiado por não conseguir lembrar que gosto ela tinha. E queria prová-la sem distrações, sem ruídos que não os nossos, sem luzes demais, sem medo do juízo final cinza e sem temer os erros máximos – fosse o tempo que fosse, não éramos mais que humanos.

Gnab Gib Arabesque Biblioteque

The sine wave amongst the Physics of Eternity

“Every stone has its consciousness when the Sun strikes hot.” – M.C.

………………..………………..………………..………………..

………………..………………..………………..

………………..………………..

………………. vacuum

………………..………………..

………………..………………..……………….. lactose intolerance

………………..………………..………………..………………..

………………..………………..………………..

………………..………………..

………………. vacuum

………………..………………..

………………..………………..………………..

………………..………………..………………..………………..

………………..………………..………………..

………………..………………..

………………. Low energies at decade of enlightment…

………………..………………..

………………..………………..………………..

………………..………………..………………..……………….. the expansion stops slowly

 

Then quicker.

 

………………. Vacuum

…………. Vacuu

………. Vacu

……. Vac

…. Va

.. v

Every single proto-thing moves away from every center, and we are nothing but a determined
origin,
Ready to collapse with our demagogy and our politics;
to explode inside a green flux of non-acquaintance warm-blue discs

As the life dissipates
Towards our sands…

Despite the sea, I couldn’t see the conquerors.
There were no caravels,
No galleons.
I was floating along the sky coelacanth and the grey pulses of an eternal oscilloscope.

…the lactose then flew away from the chest – I saw no heroes.

We hid, instead.
As the time made
Every being sigh away…

() )) ))) ))))) ))))))) )))))))))))

-          Thank You, Alex.

A Sétima Vida – 735

Os demônios outra vez se postavam fora das janelas. Por dentro eram quatro ou cinco almas perdidas, ofuscadas, lânguidas dentro da escuridão e do casulo de proteção que havia dentro das paredes. Um ritual pagão, um culto às sensações carnais, a primeira das três noites.

Não havia culpa – ali estavam as cinco almas lascivas e perdidas dentro do casulo.

Havia, de fato, mais que um casulo. Havia o que protegia dos demônios, do lado de fora, e havia o que aquecia, por dentro, por entre os corpos, entre as gotas, entre os sussurros, e havia outro.

Quando se faz uma infusão de ervas, não se deve bebê-la logo que a água quente é despejada. Deve se esperar até que a erva cozinhe – embora cozer não seja o termo mais adequado -, solte todos os cheiros e todas as cores e todos os sabores. Algumas horas antes, logicamente, beberam todas as infusões possíveis, e agora se entorpeciam com sangue. Não eram dos mais puros dos sangues, mas satisfaziam a sede de todos. Eram quatro feiticeiras e um mago perdido às ruas da inocência desconhecida. Era a isca para todas elas; era o que nascera dentro da tempestade, das nuvens, era o esperado há tanto tempo. E lá estava ele com todas as que previram os eclipses que haveriam de chegar enfim.

Uma ou duas eram mais novas que o novato, mas, ao mesmo tempo, aparentavam ser mais velhas. Pareciam ter ali esperado, por vidas e vidas, até aquele momento. Vestiram as melhores roupas e se usaram dos melhores perfumes. Arrumaram-se todas, tanto, esperando a queda da noite para que fossem violadas, desarrumadas, rasgadas, invadidas pelos trovões da quintessência.

A porta estava trancada por todas as chaves, e talvez seja esta uma alusão a todo aquele sangue que jorrava e cheirava e era bebido por todos ao mesmo tempo. A porta para o fim do mundo, a poção mágica, as bebidas servidas em taças e cristais e cuias, não importava. O batimento dos pulsos e dos relógios das catedrais, as linhas nas areias, o movimento dos grãos, a quebra das ondas. Tudo era a grande ópera que tinha, àquela noite, seu ato triunfal.

Parecia fantasioso, mas, afinal, era a realidade também uma fantasia. Num momento a linha entre sonhos, alucinações e verdades despertas esmaecia pelas diluições das músicas que tocam e reverberam nos rios vermelhos.

Em noites confusas, a imagem das quatro sempre aparecia no espelho, enquanto ele olhava para o breu do quarto, e não conseguia dizer quem fossem, ou por que apareciam. Elas estavam aguardando por ele há tantos séculos, e ele mal sabia o motivo.

E chegava cada vez mais próximo, e ficava cada vez mais confuso, e cada vez mais cego… Era o que devia fazer, era o que queria fazer. Era o que precisava fazer mais que tudo. Mais que respirar. Mais que pensar. Mais que andar.

Mais que viver.

Entre a casa e a catedral havia infinitas estradas a serem desbravadas por moedas velhas que ainda haviam de valer alguma coisa. Era escuro e cheio de florestas.

A Lua iluminava atrás das nuvens, mas o brilho não era igual em todo canto. Os dias da semana se confundiam; os cafés, as águas dos poços, os ninhos das corujas. Havia um brilho maior apontando a direção, como fosse estrela que guiava os reis antigos na cadência da História. Os pés doíam, mas ele caminhava e ficava cada vez mais próximo de si mesmo e delas quatro.

E então havia a cidade, por fim. Ruas quadradas, raízes, penumbra, postes, violência, avenidas numerosas e numeradas. A distância era menor depois de andar dentro do infinito de vales e árvores compridas e estreitas. Agora já se podia sentir melhor como era áspera a reluzência das tubas da orquestra de bronze que fazia todo o som do vento.

Num violão recortado, cheio de pontas, as cordas vibravam e faziam as ruas ressoarem com o caminho que deveria ser percorrido. Ele fechava os olhos e sabia exatamente por onde devia ir, que pontes tomar, que becos evitar, e as feiticeiras aguardavam numa casa cheia de demônios domados. Esperavam a meia-noite, esperavam e esperavam. O tempo não era mais tão impiedoso com elas… Já se foram tantas vidas, que são poucas horas perto de seis inteiras existências de cada uma?

Enquanto isso, se entorpeciam com vinhos guardados há invernos. Cantavam músicas depressivas e, ao mesmo tempo, tão animadas que se podia dançar em volta das fogueiras que ali se encontravam. A madeira queimava, a brasa era consumida, mas não havia carne alguma assando. A carne era banhada em sangue, e não havia sido cortada por homem algum. Nenhum outro animal deveria sofrer aquilo tudo.

Do outro lado do rio, ele sentia que era mais um mistério a ser resolvido, embora nunca tenha resolvido crimes ou sido um verdadeiro descobridor. Sentia-se como um, embora não soubesse como fosse a sensação. Apenas sabia que era assim, mesmo que ser algum tivesse contado. Os números e as datas faziam sentido, e o quarto de hotel, e os uivos solitários à Lua, e tudo.

A primeira delas era alta. Possuía pernas longilíneas, tatuagens cheias de significados, marcas singelas no rosto – constelações graciosas -, cabelos pretos e longos, se escondia em areias e mares de lugares distantes. Gostava de se entregar e entrelaçar com aquelas outras três, gostava de sentir a saliva, os lábios, os cheiros, a textura macia e lisa, o gosto do vinho diluído e das vestimentas apertadas implorando por fugirem dali.

A segunda era ruiva, nova, e disfarçava a própria essência por trás de campos franceses e contos de pureza. Sabia, por dentro, tudo que pulsava, e todas as vontades que deveriam despertar com os uivos daquela noite. Sabia que perderia o controle e encontraria lugares que tanto havia procurado por seis vidas e dezesseis anos de ardência. Olhava as outras e sabia tudo. Olhava as outras e fantasiava, e não conseguia conter a tremulação e o suor dentro das vestimentas pretas com asas.

A terceira não era a mais nova, mas era a menor de todas. Era quase anoréxica, mas, por algum motivo, também era bastante atraente. Alguns dos ossos se mostravam através da pele extremamente branca e intocada; qualquer movimento brusco poderia quebrá-la inteira… E, talvez, fosse isso mesmo que ela queria aquela noite.

A derradeira era carnosa. Possuía todas as curvas e era a mais velha. Havia lido os livros e havia conhecido os templos. A mestra das quatro. Havia procurado e havia ficado sem dormir, e lá estava. Embora soubesse como era a sensação, mostrava-se apreensiva. Todo dia era um Sol novo, uma Lua nova. Uma folha nova que caía da árvore e se enterrava ao chão virgem dos poços e dos rios.

E ele, errante, não se guardava às descrições. Mal se lembrava de como podia ser o próprio rosto. Bebia, mas não tanto. Não era forte, não era alto. Possuía cabelo e um pouco de imaginação, nada que pudesse alimentar o estômago. Era a quintessência que o ciclo das feiticeiras procurava desde a época da inquisição e das proibições e dos postulados hexagonais. Fora motivo de fogueiras, sofrimento, lágrimas, preces, juras, e lá estava. Havia o portão em frente aos seus olhos, era o inquisidor da noite, o redentor dos pecados, a salvação.

O portão abria-se lentamente, e ele não sabia como havia chegado até ali. Barulho, ferrugem; é verdade que se parecia muito com um portão de cemitério, e talvez fosse mesmo um cemitério.

As quatro silhuetas surgiram em meio à névoa do frio, supremas e certas. Ele continuava confuso, mas sabia de tudo.

Os pés queriam cair, o cérebro queria continuar em pé. Os toques de cada uma das mãos o desprendia das tensões e das ruas e dos quilômetros. Os demônios estavam presos, não havia o que pudesse encerrar abruptamente aquela noite rigorosa e nebulosa de inverno.

Por muito tempo, aprendera que os portões do céu seriam igualmente celestiais, como deveriam ser. Que o céu seria azul, sem nuvens; que anjos viriam ao seu encontro. Aprendera que o inferno era um lugar escuro, sombrio, coberto por um rio de sombra e pedras de sofrimento. Com aquilo tudo o que aprendera, não sabia se estava num céu ou num inferno. Talvez fosse a síntese de tudo, talvez fosse aquilo que ele mesmo era e não sabia. A quintessência, a junção de todos os capítulos de todos os livros, o despertar das coisas que não se pode imaginar com imaginação terrena. Era além da moral, além da verdade, além da lei. Era o céu e o inferno – os demônios estavam presos e os anjos estavam dormindo e não precisavam se preocupar.

Os pés venceram o cérebro, e ele desfaleceu, ainda acordado. Olhos e consciência continuavam ativos, mas as sensações já não eram as mesmas. As mãos das quatro passavam por seu corpo e seu cabelo com tal agrado e afeição que jamais havia sentido. Apesar da sensação corporal ser meramente carnal, havia algo além, inexplicável.

O mundo exterior estava em chamas. O apocalipse havia começado naquela madrugada. Através dos portões, sentia ele que se aconchegava no primeiro dos casulos. Via o apocalipse lá fora, e nada poderia atingir. Nenhuma pedra, nenhum meteoro, nenhum fim de nenhum mundo.

Aos poucos, começara a se acostumar com a sensação. Movimentava as mãos, e percebia que tudo havia ficado mais leve. Não era feito de matéria, não era material. Era um fluido adimensional, até que soubesse em que dimensão estava. A orquestra das ruas ficava distorcida e cada vez mais agradável.

Embora fosse tudo tão fluido, podia tocar tudo, podia tocá-las, e elas podiam sentir e tocar de volta. E ele só tinha duas mãos, mas conseguia passar por todas elas, ao mesmo tempo, e conseguia desviar-se das roupas e alcançar o que havia além de todas. E sentia pernas e braços e coxas arrepiadas, e ouvia os murmúrios, e olhava cada uma e sabia o que cada uma queria.

Ventava uma brisa gélida e agradável.

A primeira também fora a primeira. Pôde degustar a saliva e os lábios e sentir como sua roupa apertada era desabotoada, rasgada, e dava lugar a um alívio supremo de estar exposta aos predadores e aos monstros que queriam entrar em seu universo com dedos, línguas e gritos.

A segunda não conseguia se portar de paciência, e começou por si a arrancar aqueles vestidos satânicos, camada após camada, e dançava sem mesmo perceber. Eram roupas difíceis de serem arrancadas, por isso se contorcia àquela dança enigmática e sedutora. Também se contorcia pela tremulação e por todas aquelas vontades que escorriam entre suas pernas tão aparentemente puras.

A terceira se amarrava aos braços não tão fortes. Perto dela qualquer braço era forte, de fato. E torcia os quadris, e era como se estivesse possuída por alguma entidade lasciva. Não estava possuída por coisa alguma senão ela mesma; esta já era suficientemente lasciva. Perdia-se nos movimentos das mãos e de todas as outras partes, e parecia querer ser apenas quebrada em milhares de pedaços, como fosse um copo de cristal fino que caía de um relógio infinitamente alto e se espalhava ao chão molhado da cidade da perdição. Seu sangue era bebido por todos, e sentia como se duas galáxias titânicas se chocassem, embora uma fosse tão pequena e frágil e outra fosse tão grande e massiva.

A quarta não tremia. Não se mostrava surpresa; sabia o que queria aproveitar, e como faria. Tinha todos os dons, e era paciente, e esperava, e sabia, e olhava. Estava gostando tanto quanto as outras todas, mas controlava os impulsos da debutância. Eram seis vidas e muito mais que quinze anos. Era forte, por dentro e por fora.

A salvação que havia sido escrita nas escrituras sagradas se mostrava tão diferente e tão prazerosa. Passaram-se três noites de luxúria e cultos e sangrias e músicas e fogo, e os dias mal eram notados. A cena não era observada por outras criaturas. Não havia demônio ou anjo que pudesse enxergar aquilo tudo, ou talvez não quisessem, ou talvez não fizesse diferença se houvessem anjos e demônios além deles cinco. As roupas todas estavam rasgadas, surradas, jogadas aos cantos, e algumas peças foram acidentalmente queimadas nas brasas. Ninguém precisava daquilo. Ninguém queria aquilo. O que queriam era essa outra coisa que vagava e entrava pelas narinas e por entre os lábios e escorria entre as pernas e pulsava e fluía sem parecer ter fim. Vidas e vidas estavam alcançando a redenção em três noites inacabáveis, onde sequer textos e letras conseguem alcançar.

As três noites não eram as únicas, e nunca acabariam. As três noites eram infinitas. O fim do mundo era só do lado de fora. O tempo só existia do lado de fora.

Do lado de dentro, todos os casulos protegiam a fantasia da ríspida realidade. Não havia fim.

A brisa seria sempre gélida e agradável.

Plano Azimutal #3 – Mago dos Peixes

O mago dos peixes tinha me levado outra vez. Eu gostava de ler os livros que não eram publicados, e muitas vezes eram até esquecidos. Segui-o. Minha curiosidade nunca cessa.

Em começo, levou-me o mago a ver grandes embarcações. Era fisicamente impossível, e não tenho palavras para descrever quão agradável era essa sensação – eram barcos de madeira, como fossem caravelas, mas bem maiores. Estupidamente maiores. Tinham tudo, as velas, os mastros, as tripulações em trajes específicos. A diferença é que não estávamos na década de quinze ou dezesseis, e também aquilo não era exatamente o Oceano Atlântico dos astecas.

Era o próprio espaço fora de qualquer ponto de apoio, onde Arquimedes costumava por vezes rir e ecoar seu eco através das constelações e das falhas das leis sonoras.

Parecia um fluido, na verdade – não conseguíamos dizer que era um espaço vazio, nem coberto por partículas virtuais. Ou, talvez, estávamos nadando entre as partículas virtuais, que, por absurdo, pareciam muito reais nesse caso.

Talvez seja tudo uma questão de ponto de vista.

De qualquer forma, pegamos carona até uma das Luas. A tripulação foi bem amigável, e deu-nos bastante rum. Descemos.

A Lua parecia o que uma Lua se parece – era cinza, esburacada. Mas o notório é que ela não era só um pedaço de pedra gigante castigado por meteoros e pela História. Havia edificações – não exatamente casas ou prédios, mas sim túneis e gangorras e esculturas de ferro retorcido. Apesar de parecer um lugar não habitado, tinha bastante gente. Mas todos tinham coisas importantes a fazer.

A priori, o mago dos peixes me levou até um dos túneis. Desenhado em pedra, com tintas primordiais, vi toda a História da criação do Universo. Desde a parte “conhecida” (leia-se radiação de fundo e toda essa baboseira) até as vespas gigantes em forma de cristal, até os próprios cristais, até tudo o que havia antes do Big Bang (e que, infelizmente, não lembro como era exatamente).

Mas a parte dos cristais e das vespas era interessante.

O Universo; como pude ver, não era um só. Mas ainda não era aquela teoria de Universos infinitos. Era algo mais palpável, por enquanto: havia dois Universos que corram em paralelo (cada um era uma das paredes do corredor). Mas o corredor tinha teto abobadado. Não lembro o que havia na junção dos dois Universos, mas havia algo. Com certeza havia.

Ninguém faria um corredor desenhado com pedaços em falta.

Antes de prosseguir pelo túnel, o mago dos peixes me levou de volta para o começo do túnel (saída do Universo Local) e me mostrou o céu visto da Lua. Havia um tipo de Estrela, bem amarelada, mas muito desfocada. Talvez alguma anomalia dimensional-atmosférica. Era como se interferências ondulares pudessem se parecer com nuvens de chuva das seis da tarde.

De qualquer forma, voltamos a andar pelo corredor, dessa vez ignorando a linha do tempo tão dita, e indo diretamente ao outro lado. E ali estava o que era para ser visto por poucos.

A humanidade caminhava num tipo de passarela ínfima e invisível. Perguntei se eles poderiam cair em algum momento, mas o mago disse que não. Era um chão muito firme, mas, dali, não podíamos ver. Os seres que andavam por ali sabiam onde estavam pisando, e sabiam onde haviam de chegar. Em volta, como fosse um grande jogo de espelhos, humanóides gigantes acompanhavam cada movimento numa sala amarelada. Apesar de não terem qualquer tipo de semblante específico, pareciam calmos e serenóides.

Também perguntei se havia algum perigo de pisar nos seres minúsculos, e o mago também disse que não. O que fazemos aqui não interfere na caminhada dos humanóides, a menos que queiramos ou que necessário seja. Esse local não parece ter qualquer dimensão. Apesar de sabermos onde a sala acaba e onde o corredor começa, tudo parece infinito. O que não tem fim não precisa ser grande, e isso é uma idéia complicada de se entender.

Passamos ao próximo compartimento. Era outro corredor que levava a outra sala, um pouco mais abaixo da superfície lunar. Ali as pessoas eram de nosso tamanho, e usavam jalecos e óculos, e eram igualmente serenóides.

Um deles estava conversando com um homúnculo daqueles que caminhavam no invisível. O ser de nosso tamanho tinha uma folha de papel, com um tipo de mapa desenhado, e estava o explicando para o homúnculo – provavelmente, algum tipo de caminho por onde o homúnculo poderia andar para chegar ao início do Universo de forma mais leve e sem tantas interrupções, como poeiras interestelares voadoras (para nós era apenas poeira, mas para os homúnculos podia ser do tamanho de asteróides gigantescos e assustadores). Nossas preocupações pareciam tão grandes perto da dos homúnculos, mas isso era errado.

Não era um tamanho único a tudo – cada referencial tem sua igual quantidade de afazeres e problemas assustadores. Da mesma forma que não era compreensível a um homúnculo dizer como existem lugares tão além daquilo, não era compreensível a nós que observávamos a idéia de que havia lugares menores e igualmente gigantescos.

O mago dos peixes me ofereceu um copo d’água, e me mostrou o caminho de volta. E disse que eu poderia voltar um dia.

Voltei à superfície, pedi outra carona. Depois do longo caminho de luzes distorcionadas, cheguei a algum tipo de quintal de residência comum.

Pessoas jogavam e bebiam. A ginasta passou a minha frente, de patins, e acenou sorridente. Um primo desconhecido me ofereceu mais cerveja e um pedaço pequeno de ouro puro.

Cumprimentei os presentes, sentei-me ao sofá, e continuei a beber.

Plano Azimutal #2 – O Banheiro do Sexto Ano do Vigésimo Primeiro Século da História da Humanidade Depois do Messias

Andando por ruas que não existem, cheguei ao ginásio. E parecia lotado, afinal. Por algum motivo, eu não fazia parte da bagunça da platéia, mas sim de algum tipo de equipe ali dentro. Cheguei-me aos vestiários, e encontrei uma velha conhecida – estranhamente, vestindo roupas de ginástica um tanto coladas ao corpo. Estava exuberante. Eu podia ficar olhando por horas e horas, ou décadas.

E só.

A ginasta, em questão, era a velha conhecida – cabelos lisos, pretos, longos e soltos; roupa azul e preta; lábios bem contornados e rosados; olhos escuros, talvez castanhos, mas não sei ao certo; pele extremamente branca e lisa; alguma estranha atração por andar de patins em ocasiões formais onde pessoas costumam usar ternos – também é notável que ela gostasse de doces lisergicamente coloridos.

Eis que ela entrou à quadra da piscina, a qual não continha água, mas bolhas gigantes e coloridas de plástico; a orquestra começou a entoar a Abertura da década das memórias, e ela se lançou às bolhas.

Após quinze minutos, que era o tempo permitido de apresentação, meus olhos não conseguiam ficar sincronizados com meus pensamentos, nem com meu queixo. Tinha sido algo espetacular, que nunca pensei ser tão fenomenal. Não sei com quem exatamente ela estava competindo, mas havia chances de se ganhar algo.

Lembro de ter ouvido, antes da apresentação, que alguma colocação até vigésimo seria de bom tamanho. Mas as notas foram tão altas e tão inesperadamente altas, que demorou até o número Três do telão fazer algum sentido para nossas massas encefálicas.

Subitamente, então, ela se agarrou a mim, e eu não sabia o que fazer, senão dizê-la como eu sentia medo daquela ocasião. Não era bem medo que eu queria dizer, mas foi o que saiu. Existem emoções reais no mundo irreal, como pude finalmente contemplar de fato.

Ela se chegava cada vez mais próxima, suada, mas com um cheiro inexplicavelmente agradável. Roupas coladas, como se quisessem soltar do corpo, mesmo que, para isso, fosse necessária alguma ajuda externa.

Eu não podia pensar em nada daquilo. Na verdade podia, mas não pensava ser justo.

Foi que lembrei estar num mundo não real, então um sorriso maligno se implantou em minha face, e pedi-a para ir até o vestiário. Comigo.

A casa era a mesma, os costumes eram os mesmos. O chão de madeira era o mesmo, o sofá era o mesmo, e mesmas eram todas aquelas pessoas, com os mesmos assuntos há cinqüenta anos. Podia acontecer algo de diferente.

Sempre que se prepara massas para o almoço, algo estranho acontece. E isso me animava um pouco.

Uma súbita luz na janela do quarto de cima, e não era quem todos ali queriam que fosse. Mas era exatamente quem eu queria.

Posso comer macarrão outro dia – quando uma luz aparece na janela do quarto, não se deve pensar muito antes de pular.

- A Magazine Guild Illusion, #73, 1937 – p. 273e15

Agora era uma mera questão de fusos horários até que Ela chegasse, finalmente. Mas lá estávamos eu e a ginasta, e não era certo ficarmos parados. Ela parecia estar bêbada, de tanto que ria e gargalhava. Começou a tirar a pouca roupa, e meus olhos ficavam cada vez mais perdidos.

Ela me levou até um lugar escondido do vestiário, e lá, por algum motivo, havia um sofá. Vi-me caindo sobre ele, sem qualquer reação. A ginasta, que na verdade não era ginasta, se revelava totalmente curvilínea e rosada e lisa. E suada, obviamente.

Eu queria atacá-la, mas ainda não era justo. Era uma tortura inacabável até que se acabou – vi entrando na sala secreta a que fui buscar no meio do almoço.

Piscamos um ao outro, e saciamos nossa fome e nossa sede por longas curtas horas.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.