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O Demônio da Margem
Para encontrar a maior de todas as entidades divinas, precisei olhar por dentro dos olhos do demônio que mora dentro do rio que jaz em seu deserto árido de urânio.
A noite era venenosa, gélida como num cemitério calmo, e as calças das ninfas cadavéricas se desprendiam do corpo até as desilusões mais belas. Elas imploravam por meu sangue em suas taças invisíveis, mas eu bebia o resto de vinho do porto e contemplava do lado de fora da circunferência todas as lágrimas que não se sentiam a vontade para se derramarem dentre tais diferenciais.
Eu contemplava os fantasmas, os palhaços, a assassina e a profetisa do Nilo. Todos tão tolos quanto eu, com exceção das duas. Nelas eu enxergava as cargas de âmbar, tão distintas, tão opostas e tão atraentes…
No fluxo do deserto que o rio morto leva, pessoas vão com suas roupas e as escrituras se desmancham como fossem jogadas por ingênuos comediantes do alto de um barco de esperanças, navegando num mar de desilusões até a ilha das frustrações. A cada dia que rasteja às cartolas do calendário gregoriano, mais gente embarca em tal viagem – menos gente sabe aonde vai chegar.
Os palhaços e eu somos exceção. Sabíamos exatamente como era a ilha, que gosto tinha suas areias, como parecia seus ares, que animais selvagens se escondiam antes das cachoeiras e como seria difícil e doloroso conseguir alguma coisa para comer durante a estadia longa que nos aguardava.
Eu vi as fantasias que tanto me apeguei se escorrendo lascivamente por uma cama suja de aspirações mortais dos palhaços, os quais ainda se recusavam a chorar, dado que é de extrema dificuldade retocar tais pinturas da alma, que, em verdade, de nada servem por dentro.
A assassina e a profetisa giravam e dançavam em torno dos cabelos, inclusive dos meus, e me mostravam a verdade em sua forma mais despida.
As lágrimas dos palhaços não escorriam, ainda. Fitei pela última vez na noite, e desci contornando a margem do rio. O demônio se mostrou entre folhas cancerogênicas que nos garantiam o ar das manhãs.
Olhei dentro dos olhos da criatura sinistra, e compreendi que até o mais maligno dos seres da natureza carrega em si a melancolia das noites mal dormidas.
Olhei para dentro dos olhos do demônio, em desafio, e encontrei, por fim, o significado daquilo tudo por que rezei durante todos os meus tempos.
Lagrangeana de Nossa Senhora do Faraó
Segue, sem muita introdução, carta achada próxima ao bloco C da viela XV. Traduzi como pude, mas alguns termos ainda parecem, ao menos para mim, obscuros quanto à significância.
L = T – V?
Nossa Senhora do Faraó, Brasil, Sete de Fevereiro de 1915
Bom dia, marreteiro das fornalhas!
Faz um bom tempo hoje que procuro há anos seu endereço, mas finalmente o achei numa lista lá da central de onde saem os trens de ferro. A comunicação às vezes é difícil – não tenha medo por talvez não se lembrar de me conhecer. Sempre acompanhei seu trabalho; finalmente podemos conversar, mesmo que de tão longe.
É que me ocorreu algo semana passada que creio ser de sua curiosidade. Comprei um caderno novo! Sim, ele tem um tom esverdeado, poucas folhas, é pequeno, mas vai servir muito bem para as anotações que hei de fazer no laboratório que instalei aqui no meio do deserto brasileiro.
Por sinal, devo admitir que entrar naquela caravana tosca e sair de tão longe para vir a um lugar tão tropical foi uma idéia maluca, porém divertida. Sim, eu estive lá, mas dormi quase os cinco meses inteiros. Um dom pouco valorizado em certos tipos de cientistas é a preguiça, afinal.
Quanto ao laboratório, as vidrarias estão chegando a cada dia. Hoje recebi três bulbos grandes e frágeis, nos quais farei os experimentos que envolvem gases das aberturas rochosas. Percebi uma leve coloração roxa ao cair da noite – que seria?
Ouvi dizer de um grupo musical que tem se apresentado por cidades aqui próximas. De acordo com o que entendi, eles se organizam em pequenas praças e reproduzem músicas que me lembram muito daquela nossa tão distante terra… Tenho vontade de vê-los, mas a cidade mais próxima fica a muitos dias daqui.
De qualquer forma, espero que tenha conseguido resolver aquele problema com os cabos e fórmulas de pêndulo. Dei uma lida naquele artigo sobre Lagrange, e concordo: é uma forma genial de se resolver o problema! Energia, quem diria…
Tem também aquela ajudante, que você deve conhecer. Muito aplicada, ela. Todos os dias no mesmo lugar, fazendo a mesma limpeza. A ela eu confiaria até o mais quebradiço dos bulbos, é incrível.
Apesar do deserto, o clima aqui é bastante agradável. Espero receber uma visita sua em breve. Você sabe onde é, sabe como chegar, abstenho-me de maiores detalhes.
Embora o nome, não achei pirâmides.
Lembranças fraternas,
Dulong de Joule-Mayer
Então essas são as ruínas, contemplei.
Há rascunhos de pedra, resíduos tóxicos guardados em piscinas, e pensamentos igualmente nocivos que se penetram entre um capítulo e outro do manual.
O manual dizia sobre procedimentos padrões, embora obsoletos e antiquados, de segurança e sobrevivência; era esta uma cidade esquecida, sem importância, sequer lembrada por correios de qualquer época. Por cima, uma vida pacata e, por baixo, piscinas de resíduos nucleares.
Deparei-me, ao fim do capítulo quarto, com um mapa esquemático deste nível quase emerso. Há um céu sobre os corredores, mas não sei se é real. É um céu típico de deserto – azulado, poucas nuvens, ar seco. Os corredores caminham entre as piscinas, como fossem nervos de pedra marrom dentro de um pulmão fadado ao apodrecimento eterno.
A KWJ – pelo menos é esse o nome inscrito em algumas paredes – fora construída labirinticamente. Talvez haja um touro de Minos à espreita, em algum salão escorrido escondido, esperando apenas o momento curto e certo para me lançar junto aos restos organoatômicos esverdeados e tóxicos das piscinas.
Também não parece ser um lugar de operários. Parece, em verdade, sequer haver máquinas. Provavelmente foram derretidas pelo ácido do tempo, quem sou eu para saber…
Não há contato com as paisagens de fora, o que reforça e refuta as dúvidas sobre a realidade do céu. O céu é real ou não? Minha última lembrança é um elevador com plasma avermelhado à porta de titânio. Desci e, por meio de velhas escadas e engrenagens, subi até os corredores das piscinas.
Em algum caminho à esquerda, há outra escada, helicoidal. Ela desce arranhando as paredes e os cabos elétricos, e descansa numa outra piscina, isolada numa sala cheia de computadores azulados de funcionamento pífio, que mostram comandos bizarros, além de milhares de eletrodos ligados ao nada e indo ao vazio. Seja talvez esta uma piscina de amostras, a fim de pesquisas, transplantes, experimentos ou qualquer algo do gênero. Por uma mórbida intuição, penso ver, derretidos, restos de gente.
Talvez, muito provavelmente, seja outra vez um truque lançado para dentro de mim por meus próprios olhos.
- W. G @ KWJ SQRT (CT)
Café Jornal Atômico Celular
Ocorreu enquanto lia sobre política. Não que a política atraia insetos.
Era, ou é, uma tarde calorenta – e por isso os insetos. Devo reforçar que os insetos nada têm a ver com políticas… Eles talvez sejam mais limpos empiricamente. Teoricamente são grotescos, admito.
Também, ao momento, saboreava meu café; quatro colheres de pó, duas de açúcar não muito cheias. Forte, não tão amargo, funcional. Esperava algum telefonema com notícias boas ou ruins ou uma guerra… Enquanto isso, lia o jornal galáctico.
Caro viajante, por favor note: por “jornal galáctico”, não me refiro à ficção científica. Refiro-me à trilha sonora.
A janela estava aberta, posto o calor que se fazia gradiente – pela fenestra, entrou ele, o famigerado inseto saltador. Saí da política e dos partidos, fui-me à incerteza metafísica.
Contemplei o inseto, forçosamente – queria, na verdade, sua extinção do meu ambiente calmo. Percebi um análogo interessante. O grilo era absurdamente rápido, e pulava. Cada pedaço de caos vazio entre móveis poderia ser uma morada nova por um infinitésimo de tempo. Talvez o grilo existisse em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas minha ferramenta de pão só consegue visualizá-lo ponto a ponto, nunca em sua obra completa.
Corri-me ao corredor, a fim de me apossar da lata vermelha. Infelizmente, veneno de nada adiantaria. Poderia jogar em todos os cantos, o grilo sempre acharia algum espaço novo.
Incômodo PT. I
O telefone toca, e não é a voz que eu gostaria de ouvir. Não é uma voz desagradável, isso seria injusto da parte de quem conta a história. Mas, por algum motivo, há um cutucão – a mediana é diferente da média.
Estatísticas são números e nomes – vida talvez seja algo além.
Parei ao grilo. Veneno; joguei um pouco dele, mas nada capturei. Assim funcionam muitos dos captadores de átomos, creio eu, embora não os conheça a fundo. O máximo que pude fazer, e assim é o máximo que podem fazer os tão respeitosos cientistas entre aspas – abrir as janelas e esperar que o grilo saia por si só, a fim de atingir uma estabilidade.
O grilo dentro do quarto simbolizou uma interrupção de minha leitura, de meu café e de minha música. Um barulho a mais, uma energia além do que estou acostumado ou do que esperaria numa tarde ensolarada. Coloquemos o inseto como perturbador de minha estabilidade. Pulando por todos os lados ao mesmo tempo, infinitamente rápido (para os padrões); talvez o grilo interagindo com o sistema novo tenha feito o telefone tocar, a campainha disparar e, quem sabe, tenha causado toda uma tempestade em algum lugar de algum continente longínquo – talvez até na Nova Zelândia.
Incômodo PT. II
Novíssimo Mundo – e é assim que me foi apresentado no livro de geografia. Os geógrafos caem do céu, resolvi pensar. Certa vez, ouvi dizer que não se trata de decorar capitais de países ou estados ou adjetivâncias assim.
Existem lugares tão despreparados para neologismos e idéias novas – existem lugares abertos onde as janelas estão todas fechadas.
Amar é diferente de possuir completamente. Pessoas não são objetos. Rochas o são.
Rochas ígneas podem até ser interessantes… Pode-se roubar uma delas e colocar num vaso.
Pode ser interpretado como crônica, embora heterodoxa. Em carta ao prefeito da metrópole, diria que a desigualdade social não tem necessariamente a ver com a taxa de pobreza.
Para que não fique demasiadamente grande, e meu café já acabou há um tempo, gostaria de pedir um pouco mais de ação ao prefeito. Os rios estão um pouco sujos, pude sentir um tanto do odor desagradável deles hoje, andando pela marginal principal. O tratamento de esgoto deve ser melhorado, assim como a educação.
Não posso dizer imparcialmente, mas, em minha humilde opinião, a educação é fraca, e tal fraqueza se reflete como num espelho de alumínio.
Neste momento o grilo sai do quarto, e a estabilidade volta. Assim também volta a se materializar o papel, e assim também voltarei a ler os artigos e as notícias…
Já que o café acabou, tomarei água.
Incômodo PT. III
Não se pode definir um sistema pelo comportamento isolado de indivíduos em exceção. É quase como definir a matemática por uma indeterminação – e a matemática não é tão indeterminada quanto parece.
De qualquer forma, todo sistema tem regras, e, em aspectos palpáveis, inúmeras exceções. É um pseudocírculo de raios – Busque o discernimento, ou então se acostume a dormir com os pés descobertos quando se cobre a cabeça.
Subtrassoma III – Sobre as Espiras de Lorentz
Eles começaram a descer as escadas, com os pulsos cortados, marcando cada degrau por onde passavam. Havia gente batendo na porta, gente gritando, gente tentando fugir, gente por todas as entranhas da rua, gente pulando nos esgotos… Os homens estavam com fuzis apontados, e eu era um dos alvos.
“Uma espira condutora ideal, com 1,5m por 5m, é deslocada com velocidade constante de tal forma que um de seus lados atravessa uma região onde existe um campo magnético B, uniforme, criado por um grande eletroímã. Esse lado da espira leva 05s para atravessar a região do campo. Na espira está inserida uma resistência R com as características descritas. Em conseqüência do movimento da espira, durante esse intervalo de tempo, observa-se uma variação de temperatura em R, de 40 graus Celsius. Essa medida de temperatura pode, então, ser utilizada como uma forma indireta para estimar o valor do campo magnético B.”
As ubtrrfanecÊrnacir eletromagnéticas dissolviam o tempo, juntavam linhas e espaços como um grande dioptro, confuso e difuso, refracionando todo o convívio da espécie num ambiente hostil, padronizado e nojento. Vozes nojentas, cheiros nojentos, seres nojentos, asquerosos no pior sentido possível da palavra.
Eu queria fugir, mas não para muito longe dali. Pouco tempo andando e eu teria, então, a companhia que desejava; mais além, entretanto, meus pensamentos queimavam o que a sabedoria popular diz pulsar junto com as batidas de um Joule.
Como um relógio desajustado interfere em toda a vida operária de uma indústria, meus pensamentos se tornavam fumaça, via inimigos onde não existiam, os pesadelos ficavam mais e mais freqüentes, e em todos eles eu via a mesma pessoa, fazendo as mesmas coisas… Das mesmas formas…
Na realidade, quando acordava, o travesseiro continha um estranho líquido – parecia algum tipo de sangue transparente, jorrado de um trem em movimentação contínua e randômica por túneis de saliva e torres de energia elétrica.
Eu ainda queria comer e rasgar todos os estudos, queimar todos os livros, ser igual a todo mundo, e então, talvez, eu pudesse ter alguma paz menos transitória nisso que insistimos em chamar de termos em latim.
A diferença é que eu sou eu. E isso é uma decisão difícil, por caminhos difíceis. O mundo é árido, afinal.
Enquanto meus olhos palpitavam, eu ficava cada dia mais cego e perturbado. A falta de carne começava a me mostrar como proteínas poderiam fazer falta na alimentação humana. Eu me alimento? O que é o alimento? Por que ainda sinto fome, tendo os melhores alimentos, além das carnes? Por que demônios eu ainda estou respirando? O que demônios faço aqui? Eu não quero buscar as grandes viagens, de vez em quando só queria olhar nos olhos dela e saber que ela me ama do mesmo modo que eu a amo. É incoerente, um lapso de ser. Não faz sentido andar pelas ruas sem ter quem segurar as mãos. Não faz sentido respirar e não ter outra pessoa para compartilhar o ar, não faz sentido ter um cérebro e ninguém reparar que há um coração que resiste à falta de ritmo que é imposta.
SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. 4, G348 E.E – 0007 – UNSIGNED THETA
Subtrassoma II – Projeto LEGUMINOSA SOLAR ROTATIVA
“As leguminosas fazem associações mutualísticas com bactérias do gênero Rhizobium. Estas bactérias, por sua vez, tem a capacidade de fixar o Nitrogênio no solo. Sabendo-se que o N2 é constituinte essencial de aminoácidos, proteínas, bases nitrogenadas (ácidos nucléicos), entre outros, ele proporciona um crescimento mais rápido das plantas, uma maior folhagem, e também alimenta os microorganismos do solo que decompõem a matéria orgânica.” – H. C. S . @ 178
Foram utilizadas, historicamente, na rotação de culturas, implicando num melhor aproveitamento das terras em tempos críticos da Idade Média.
Não havia um porquê para eu ficar no mundo real…
Não importava se eu estivesse no mundo real ou não.
Quando compreendi isso, perdi o medo de perder meu corpo.
- Psiqué
- Accela
- Knights
SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R1, B188 FOURIER – 0007 – UNSIGNED PHI
Subtrassoma I – Documentos Encontrados no Setor-0007 ÉTER
Saudações, caros viajantes. Sem muitas delongas, postarei numa série infinita de posts (ocasionalmente interrompida para outras coisas, obviamente – não esperem por algo contínuo) algumas transcrições estranhas acerca de papéis e mais papéis espirais que encontrei num dos laboratórios de um dos setores de uma das instalações de uma das torres de uma das usinas.
Algumas estrofes podem parecer estranhas, inclusive são, mas foi o melhor que pude fazer nessas transcrições. É meio difícil trabalhar com coordenadas não ortodoxas na gramática, de fato.
Over The Café
A lack of words (worlds, maybe) as the darkest beans
Come alive
Along
Beneath
Among
Indeed.
Eu fugi do cemitério
Porque tava chovendo
E eu queria aprisioná-la
Na beira da estrada
No meio da pista,
Eu queria só pra mim.
Um escravo (escracho) cafeinado,
Uma overdose de guard-rails,
Circuitos,
Círculos,
Blast beats
E compassos desalojados
Procurando a clave.
“Quem estará observando
O velho
Cantarolando
No ouvido da moça
A sétima sinfonia?”SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R2, H308 X.X – 0007 – UNSIGNED ETA