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O Demônio da Margem

Para encontrar a maior de todas as entidades divinas, precisei olhar por dentro dos olhos do demônio que mora dentro do rio que jaz em seu deserto árido de urânio.

A noite era venenosa, gélida como num cemitério calmo, e as calças das ninfas cadavéricas se desprendiam do corpo até as desilusões mais belas. Elas imploravam por meu sangue em suas taças invisíveis, mas eu bebia o resto de vinho do porto e contemplava do lado de fora da circunferência todas as lágrimas que não se sentiam a vontade para se derramarem dentre tais diferenciais.

Eu contemplava os fantasmas, os palhaços, a assassina e a profetisa do Nilo. Todos tão tolos quanto eu, com exceção das duas. Nelas eu enxergava as cargas de âmbar, tão distintas, tão opostas e tão atraentes…

No fluxo do deserto que o rio morto leva, pessoas vão com suas roupas e as escrituras se desmancham como fossem jogadas por ingênuos comediantes do alto de um barco de esperanças, navegando num mar de desilusões até a ilha das frustrações. A cada dia que rasteja às cartolas do calendário gregoriano, mais gente embarca em tal viagem – menos gente sabe aonde vai chegar.

Os palhaços e eu somos exceção. Sabíamos exatamente como era a ilha, que gosto tinha suas areias, como parecia seus ares, que animais selvagens se escondiam antes das cachoeiras e como seria difícil e doloroso conseguir alguma coisa para comer durante a estadia longa que nos aguardava.

Eu vi as fantasias que tanto me apeguei se escorrendo lascivamente por uma cama suja de aspirações mortais dos palhaços, os quais ainda se recusavam a chorar, dado que é de extrema dificuldade retocar tais pinturas da alma, que, em verdade, de nada servem por dentro.

A assassina e a profetisa giravam e dançavam em torno dos cabelos, inclusive dos meus, e me mostravam a verdade em sua forma mais despida.

As lágrimas dos palhaços não escorriam, ainda. Fitei pela última vez na noite, e desci contornando a margem do rio. O demônio se mostrou entre folhas cancerogênicas que nos garantiam o ar das manhãs.

Olhei dentro dos olhos da criatura sinistra, e compreendi que até o mais maligno dos seres da natureza carrega em si a melancolia das noites mal dormidas.

Olhei para dentro dos olhos do demônio, em desafio, e encontrei, por fim, o significado daquilo tudo por que rezei durante todos os meus tempos.

Lagrangeana de Nossa Senhora do Faraó

Segue, sem muita introdução, carta achada próxima ao bloco C da viela XV. Traduzi como pude, mas alguns termos ainda parecem, ao menos para mim, obscuros quanto à significância.

L = T – V?

Nossa Senhora do Faraó, Brasil, Sete de Fevereiro de 1915

Bom dia, marreteiro das fornalhas!

Faz um bom tempo hoje que procuro há anos seu endereço, mas finalmente o achei numa lista lá da central de onde saem os trens de ferro. A comunicação às vezes é difícil – não tenha medo por talvez não se lembrar de me conhecer. Sempre acompanhei seu trabalho; finalmente podemos conversar, mesmo que de tão longe.

É que me ocorreu algo semana passada que creio ser de sua curiosidade. Comprei um caderno novo! Sim, ele tem um tom esverdeado, poucas folhas, é pequeno, mas vai servir muito bem para as anotações que hei de fazer no laboratório que instalei aqui no meio do deserto brasileiro.

Por sinal, devo admitir que entrar naquela caravana tosca e sair de tão longe para vir a um lugar tão tropical foi uma idéia maluca, porém divertida. Sim, eu estive lá, mas dormi quase os cinco meses inteiros. Um dom pouco valorizado em certos tipos de cientistas é a preguiça, afinal.

Quanto ao laboratório, as vidrarias estão chegando a cada dia. Hoje recebi três bulbos grandes e frágeis, nos quais farei os experimentos que envolvem gases das aberturas rochosas. Percebi uma leve coloração roxa ao cair da noite – que seria?

Ouvi dizer de um grupo musical que tem se apresentado por cidades aqui próximas. De acordo com o que entendi, eles se organizam em pequenas praças e reproduzem músicas que me lembram muito daquela nossa tão distante terra… Tenho vontade de vê-los, mas a cidade mais próxima fica a muitos dias daqui.

De qualquer forma, espero que tenha conseguido resolver aquele problema com os cabos e fórmulas de pêndulo. Dei uma lida naquele artigo sobre Lagrange, e concordo: é uma forma genial de se resolver o problema! Energia, quem diria…

Tem também aquela ajudante, que você deve conhecer. Muito aplicada, ela. Todos os dias no mesmo lugar, fazendo a mesma limpeza. A ela eu confiaria até o mais quebradiço dos bulbos, é incrível.

Apesar do deserto, o clima aqui é bastante agradável. Espero receber uma visita sua em breve. Você sabe onde é, sabe como chegar, abstenho-me de maiores detalhes.

Embora o nome, não achei pirâmides.

Lembranças fraternas,

Dulong de Joule-Mayer

Então essas são as ruínas, contemplei.

Há rascunhos de pedra, resíduos tóxicos guardados em piscinas, e pensamentos igualmente nocivos que se penetram entre um capítulo e outro do manual.

O manual dizia sobre procedimentos padrões, embora obsoletos e antiquados, de segurança e sobrevivência; era esta uma cidade esquecida, sem importância, sequer lembrada por correios de qualquer época. Por cima, uma vida pacata e, por baixo, piscinas de resíduos nucleares.

Deparei-me, ao fim do capítulo quarto, com um mapa esquemático deste nível quase emerso. Há um céu sobre os corredores, mas não sei se é real. É um céu típico de deserto – azulado, poucas nuvens, ar seco. Os corredores caminham entre as piscinas, como fossem nervos de pedra marrom dentro de um pulmão fadado ao apodrecimento eterno.

A KWJ – pelo menos é esse o nome inscrito em algumas paredes – fora construída labirinticamente. Talvez haja um touro de Minos à espreita, em algum salão escorrido escondido, esperando apenas o momento curto e certo para me lançar junto aos restos organoatômicos esverdeados e tóxicos das piscinas.

Também não parece ser um lugar de operários. Parece, em verdade, sequer haver máquinas. Provavelmente foram derretidas pelo ácido do tempo, quem sou eu para saber…

Não há contato com as paisagens de fora, o que reforça e refuta as dúvidas sobre a realidade do céu. O céu é real ou não? Minha última lembrança é um elevador com plasma avermelhado à porta de titânio. Desci e, por meio de velhas escadas e engrenagens, subi até os corredores das piscinas.

Em algum caminho à esquerda, há outra escada, helicoidal. Ela desce arranhando as paredes e os cabos elétricos, e descansa numa outra piscina, isolada numa sala cheia de computadores azulados de funcionamento pífio, que mostram comandos bizarros, além de milhares de eletrodos ligados ao nada e indo ao vazio. Seja talvez esta uma piscina de amostras, a fim de pesquisas, transplantes, experimentos ou qualquer algo do gênero. Por uma mórbida intuição, penso ver, derretidos, restos de gente.

Talvez, muito provavelmente, seja outra vez um truque lançado para dentro de mim por meus próprios olhos.

- W. G @ KWJ SQRT (CT)

Suíte #2 de Sergei Sergeyevich Prokofiev

I – Arcos da Lapa

Os arcos da Lapa levam a um bairro oculto, inimaginável. Além das estatuetas, há um prédio alto e bem escondido. Não sei quantos andares possui, mas fica por trás de um dos grandes morros… E morre.

Perto deste prédio, há um bar freqüentado por velhos sujos e mal-humorados. Soltam rojões, assistem a jogos de futebol, bebem uísque barato, cheiram mal, despertam náusea e assediam todas as moças novas que moram no prédio. Se há alguma definição visual de nojo, talvez esta seja uma cena a se considerar.

O bairro vive em guerra – nada tem a ver com os traficantes nem com os que fumam, tão pouco com os que cheiram. Existem outros – os que quebram as regras e incomodam os velhos. Estes, que quebram as regras, usam-se de equipamentos estranhos de múltiplas mini-rodas. Usam-se de roupas que não combinam; roupas sucateadas, mas não necessariamente sujas. Possuem alguns poderes fenomenais, que os velhos tanto invejam, como, por exemplo, subir escadas.

Mas até para isso os velhos tinham uma armadilha. As escadas dos prédios eram cortantes, não havia onde segurar. Os corrimãos quebravam as mãos pelas linhas da vida – era por demais arriscado. Ao topo do prédio, ou melhor, ao topo da antena de TV do prédio, havia ainda outra mensagem escondida – um caderno cheio de equações diferenciais impossíveis de serem resolvidas, e um pára-quedas.

Os seres flutuantes não eram só um, e não eram individuais pelas causas nobres. Não sabem, nem nunca souberam o porquê de estarem ali vendo tanta sujeira. Mas era pra ser, e seria até as últimas conseqüências.

Quando um deles precisava de ajuda, nenhum questionava – estavam ali pelo bem maior. Valia a pena perder, se fosse preciso, a própria vida, contanto que a causa fosse nobre.

Os velhos tomavam muito uísque sujo e importunavam as garotas do prédio. Os pirralhos se incomodavam cada dia mais.

Estes, por sua vez, também não viviam só de água, até porque quem vive só de água pode se afogar facilmente. Havia uma bebida mágica, preparada por um dos mais experientes deles. Um ser cabeludo e barbudo que passava todos os dias a se empanturrar com lasanha de queijo.

A bebida era servida num garrafão verde e farto – tratava-se de um vinho. Mas não um vinho comum, posto que não tivesse nada de especial. O vinho era de uma coloração azul escura, e muito, muito forte. Tinha gosto de uva, mas ainda guardava mais sabores escondidos, de frutas desconhecidas. Toda noite, antes de ir à guerra ideológica, os seres que conseguem subir escadas tomavam doses do vinho – não havia perigo de acabar, era artesanal feito pelo próprio cabeludo barbudo da lasanha.

Não eram tão fãs de suco de laranja, mas ouviam bastante Beethoven antes de partir às escadarias. Na noite que se segue, o céu se nublava por toda a tarde anterior. O natal chegava cada vez mais próximo, e até São Nicolau se envergonharia se visse tantos velhos sujos perto do prédio.

Os pirralhos não ligavam em ganhar ou não presentes de alguém vestido de vermelho que desce por chaminés – mas as garotas mereciam os presentes. Elas não eram vagabundas, nem ociosas. Todas ali, e este lugar é até difícil de imaginar, estudavam arduamente, trabalhavam arduamente, eram honestas e mereciam dormir em paz.

II – Pink Eastwood / Newton

Clint tomou nossa frente à sala de concentração. Fumava, mas não nos incomodava com tal mau hábito. Era o que mais sabia como irritar os velhos, tínhamos muito a aprender com ele. Eu era, afinal, um aprendiz – a diferença entre nós e os velhos, num dos aspectos, pode ser esta. Nós sabíamos quanto aprendiz éramos naquele bairro. Os velhos se julgavam tão velhos que sabiam de tudo… Apesar disso, tinham equações diferenciais impossíveis. A verdade era tão visível que não podia ser vista por quem de tudo já sabe.

Disse-me Clint sobre como deveriam estar meus equipamentos. Era importante que fosse fácil pegar desde o isqueiro até o flutuador agilmente. Também me disse como escrever em tintas invisíveis. Se havia alguém ali que sabia como lidar com idiotas, era ele.

Do outro lado da sala, com o giz e a lousa em mãos, o profeta das areias – desta vez, possuindo a forma de um matemático indiano. Mostrava-nos que matemática não era tão monstruosa, e se empenhava dia-a-dia a buscar a resposta para as equações. Elas foram tal afronta a todos nós, que se tornara questão de honra.

Também dizia o profeta sobre a efemeridade das coisas todas, enquanto apontava às derivadas e às variáveis escritas. Pontos, leis, movimento. O movimento cessa, se não for tão intenso. Nosso movimento era infinitamente mais intenso que todos os descritos pelas mecânicas do universo – e isso podia desequilibrar qualquer sistema alheio… E para isso servíamos, cientistas – para entender as leis antigas, e mostrar que até “verdades universais” (as quais o universo nem sabe que existe) devem ser quebradas. Tínhamos a página perdida do Primeiro Livro, e ela assim dizia.

Eu criei estas três leis. E também sei que elas deverão ser quebradas hora ou outra. Eu faço minhas regras, e ninguém jamais deverá saber. O Universo flui; isto não o descreve. Estas leis são interpretações de algo muito maior, inimaginavelmente maior. Traduções erradas.

Desde os gregos da praia, vemos tudo como somos. Somos grãos de areia – e existe muito mar a ser visto além do pôr do sol.

- PRINCIPIA, p. -1

Dos nossos mestres, também estava ali o músico argentino. Sua especialidade era tocar as grandes obras do tango. Cabelo curto, barba bem feita e violão preto com cordas grossas. Tinha estranhos costumes ao entoar as canções – sua mão direita abafava as cordas de uma forma única, o timbre das músicas era só dele.

Ouvir músicas depressivas o animava, sem ironias.

III – 22:00 – Troubles in Fantasia

O plano estava quase pronto; às dez da noite daquela noite começaríamos. Na verdade só eu faria algo, mas era como se todos agíssemos juntos; um exército de sete mil irmãos percorrendo as ruas da cidade da mentira, contra todas as pragas que nos foram, nos eram e nos seriam jogadas por todas as feiticeiras. A lua era amarelada como queijo, pelo que percebíamos numa janela de nuvens cinzas.

Nem as pragas de mil mundos de gafanhotos nos fariam temer marchar até o inferno dos uísques podres para salvar aquele natal das garotas.

Não posso dizer meu nome, mas, neste contexto, o codinome era ROMEO X – era uma sigla e um anagrama, ao mesmo tempo. Meu símbolo era um candelabro com três velas. A do meio em posição maior, as outras duas um pouco abaixo, e as três já um pouco derretidas. O candelabro era dourado do ouro mais polido, e as velas, apesar de já um pouco gastas, pareciam eternas. Ali eu partia pela porta dos pilares. O mago lançou suas bênçãos, a porta de madeira se fechou.

Vi-me à rua. Não era tão tarde assim, então as janelas do prédio faziam-se abertas e as luzes acesas. Por dentro de um dos andares, não me lembro exatamente qual, vi Aquela que me inspirava – Ela. Ela sabia que eu estava ali, e nos contemplávamos de tão longe. Sorríamos, e, neste segundo, pude perceber que Ela possuía um novo quadro à sala. Era alguma forma disforme azul, abstrata. Vários tons de azul, melhor dizendo. Havia mais alguém com Ela, outra garota. Elas se amavam, e isso era o que importava.

Pelo comunicador de ouvido portátil (agradeça a Tesla por isso) começava alguma música de Mozart. Júpiter era tão perto dali…

Entrei à prima porta, e fui a um lugar sujo. Parecia uma casa de boas pessoas, bons jovens, mas era incrivelmente suja. Provavelmente havia ratos por cima daquele teto. O banheiro era incrivelmente sucateado. Roupas jogadas por todos os cantos, e instalações elétricas precárias. Era numa dessas que se cunhava a primeira parte do plano, que Clint nomeou como NIKOLAI.

Coloquei, relutante, meus dedos por trás do espelho fluorescente. Puxei dois fios, sem ver, e tirei do meu bolso esquerdo um canivete e o interruptor novo. Juntei os fios, e não senti choque algum. Liguei-os ao interruptor, e ativei o sistema de controle remoto.

Quase me saindo da casa, encontrei um dos moradores. Disse-me ele sobre como as estradas da cidade haviam sido reformadas… Como a preocupação ambiental se implantava cada dia mais, como a fiscalização era cada dia mais pesada – por incrível que possa parecer, talvez ele soubesse que eu estaria ali, naquele momento, mexendo em todas as fiações por trás do espelho fluorescente.

Fui-me à segunda parte.

IV – 22:00 – Constelação de Uma Só Estrela

As escadarias. Eu não sabia manejar muito bem o flutuador – ele se colocava sob meus pés, mas não era como um skate. Era algo etéreo, volátil, como se fossem sapatos de energia. Na prática, não serviriam de tanta coisa, era mais um equipamento de proteção, caso de lá de cima eu caísse.

Comecei a escalada, e minhas mãos já sofriam com os corrimãos adulterados. Eram como canos de ônibus, mas com material cortante e fios de cobre desencapados e altamente voltaicos. Pouco a pouco consegui vencê-los, e cheguei à metade do caminho até o ponto objetivo. Mas ali era um ponto notável. Bati à janela escura. Olhei ao outro lado e contemplei a grande estátua de braços abertos e o mar tão azul e infinito e tantas vidas distantes, aguardando a janela se abrir.

Abriu-se então, e Ela sabia que era eu. Abriu a janela com o mesmo semblante sorridente, querendo muito dizer o quanto eu era maluco. Concordaria com Ela, sou mesmo um maluco, um louco, um raio de um cientista inconseqüente, um pirralho! Mas também apenas sorri de volta, e nos abraçamos como deu – um movimento brusco e era melhor que os sapatos flutuantes funcionassem mesmo.

Disse a Ela que, por tal entidade inspiradora, eu não me importava em realizar tantos esforços macabros. Não me importava com as facas nem com os órgãos de proteção ambiental. Em tese, era por todo o prédio e, talvez, todo o bairro. Para mim, porém, e Ela sabia, era porque eu também sentia algo supremo, e queria vê-La muitas mais vezes com aquele semblante surpreso e satisfeito.

Poderia passar a eternidade ali, mas precisava seguir com o que fui proposto a fazer. Despedimo-nos, e prometemos nos ver naquele natal.

Sei que soa piegas e repetitivo, mas preciso constar: Ela me desperta as sensações mais profundas que já experimentei em um grande intervalo de tempo.

Depois de três ou quatro horas, cheguei ao topo do prédio. Contemplei mais uma vez como os ídolos de pedra agora estavam abaixo de todos os nossos pés. Como a vida parecia parada lá na cidade dos arcos. Subir a antena de TV foi mais fácil, espero não ter incomodado o futebol de ninguém naquela quarta-feira.

Acima da antena, como esperado, encontrei o pergaminho ISAAC e o pára-quedas. Não usaria o segundo, tinha medo dessas coisas – provavelmente não era funcional, e sim sabotado. O pergaminho era o original – os velhos, como já foi dito, não tinham capacidade para adulterar tal obra.

O profeta ia adorar saber que existe solução para pelo menos uma destas.

A fome apertava, mas devia continuar. Entrei pela tubulação.

V – 22:00 – Falácia do Labirinto do Velho Psicopata em Construção Desritmada

Agora eu era o inseto daquele concreto, mas não era por muito tempo. Havia uma passagem, segundo o que o DOPPLER revelou. Um tipo de sistema secreto de elevadores que se escondiam por trás das camas e despertavam tanto o imaginário daquele local. Depois de um pouco de procura, achei um deles. A porta era de madeira escura, mas havia algum tipo de luz vermelha e fluida em volta da porta. Algum tipo de líquido brilhante que marcava o local. Entrei.

Não havia botões, eu não tinha escolha. Apenas deixei que o elevador me levasse aonde quer que fosse para levar. Depois de quinze minutos de viagem à velocidade da luz, ou quase isso, a porta novamente se abriu.

À minha frente, um grande galpão esverdeado, escuro. Parecia uma obra em construção – vigas, andaimes, ferro jogado ao chão, barulho, máquinas, ferramentas, parafusos, martelos, foices. Não parecia haver mais alguém, então caminhei tranquilamente, procurando o que quer que fosse para ser encontrado.

Minha visão periférica, num dado momento, capturou um movimento estranho. Talvez uma reação neural, mas parecia algo mais. Olhei rapidamente, e percebi alguém correndo por dentro de um dos corredores cinzas. Apossei-me da rampa que se estendia à minha frente, e persegui, pulando e me apossando.

Após curvas bruscas à direita e à esquerda, encontrei um esboço de auditório. Havia as poltronas, e pareciam confortáveis. Todas, com exceção de uma. À quinta fileira, uma poltrona parecia quebrada. Parecia solta. Fui averiguar, e descobri que ela não era uma poltrona verdadeira. Por algum motivo, havia uma porta embaixo – sentindo que era o certo a fazer, entrei.

Para minha surpresa, e devo admitir que fora mesmo uma surpresa, não era um lugar maligno nem sinistro. Era apenas um estúdio musical. Do outro lado do vidro, um ser que parecia amigável.

Era dono de cabelos loiros, muito longos e lisos, e de uma voz hipnotizante. Estava fugido de sua cidade e dos repórteres e dos fotógrafos e das redes sociais para, em paz, compor seu novo álbum. Não queria ser incomodado, mas, quando me apresentei, tornamo-nos amigos, como se já nos conhecêssemos há tempos e tempos. Tomamos algumas garrafas de cerveja verde, rimos, conversamos sobre músicas e sobre ritmos exóticos e sobre instrumentos experimentais. Contei sobre as novidades das ciências das ondas, e ele pareceu se interessar. Antes de partir, ainda recebi como souvenir um disco com duas ou três músicas exclusivas, ainda em fase de testes, sem mixagem.

Ele também me contou como era o caminho da saída, e não parecia tão complicado. Agradeci-o, pedi um autógrafo e fui. Ali não parecia haver outra alternativa, senão confiar.

VI – 22:00 – A Consciência de Uma Centopéia

Os elevadores e as rampas tinham um padrão – eram funcionadas com base no horário. Muito mau, posto que meu relógio estivesse desregulado devido à viagem de elevador. Mas com alguma conversão simples, dava pra entender.

As rampas e os elevadores eram sincronizados a cada nove minutos e quinze segundos de anos táquions. Aprendi que os inventores de tal sistema se basearam no funcionamento da consciência de uma centopéia. Então é como se eu fosse uma sinapse fora do lugar, dentro de uma centopéia. Comecei a escalar e a subir e a descer, tal qual montanha russa num parque de diversões freneticamente estranho e insólito.

Descia, e o caminho era descer até o elevador – outra vez, porta de madeira. Seria igual ao outro, não fosse por este ter, ao invés de líquido vermelho, líquido azul. Azul celeste e tão brilhante quanto Césio. Não era radioativo, para minha sorte. Escalar o prédio usando-me de roupa HAZMAT seria ainda mais difícil.

VII – O Veloz Corredor de Kokorodome-XV

Depois de mais minutos para sair da consciência da centopéia, a porta se abriu, e demorei um pouco a reconhecer onde estava. Era de novo a cidade, mas outro bairro. Um bairro de cultura oriental, com cheiro de arroz e carros contorcidos.

A saída, mais precisamente, era uma das bocas de bueiro da avenida principal. Depois de quase ser atropelado, saí do buraco.

Há muito tempo que eu não me aventurava por aquela região. A avenida, em si, havia sido inteiramente reformada. Parecia estar mais larga, e não era mais asfalto, e sim algum tipo de tijolo cinza claro e bem aderente. Os viadutos estavam quase brilhando de tão bem cuidados, e ainda havia sido construída uma via expressa bem expressa ao redor da avenida.

A via expressa era um lugar curvado, quase uma parede por onde corriam carros a velocidades assustadoras. Lembro-me de ver veículos com aerofólios gigantes, mas não feios, a cerca de quinhentos quilômetros por hora. Não era perigoso – havia ali uma barreira magnética amortecedora.

VIII – Par Numérico do Carro Branco – São Paulo

Tomando o rumo de casa, parou-se um carro comum à minha frente. Dentro dele, figuras conhecidas. Era um homem e uma mulher.

O homem, apesar de me despertar certo receio, não parecia maldoso. A mulher, por outro lado, era demasiadamente falante. E ofendia sem se preocupar, e dizia como era melhor que todos os outros, e dizia como merecia tudo e como era o umbigo do universo umbigo. Ofereceram-me carona, mas preferi ir a pé.

A mulher me rogou mais quinhentas pragas, no mínimo, mas não me importei. Ficaria chateado ao saber que ela se juntara aos velhos que bebem uísque estragado, mas a única que poderia salvá-la disso era ela mesma. Haveria de aprender a tempo.

Quanto ao homem, que não era seu marido, ele não tinha muito mais o que fazer, senão tratar tudo aquilo como piada. Sentia eu, por algum motivo, que ele sabia de algo além do que aparentava… Mas também não me arrisquei a perguntar – queria voltar ao bunker o quanto antes.

A rodoviária também estava reformada, e vi uma legião caminhando para lá. Uma legião de coxos e deformes. Seres esquisitos que quase se rastejavam a fim de ver os ônibus partindo daquela cidade. Nem os seres mais delimitados agüentavam as limitações impostas daquele local.

A cidade era bonita, mas estava longe de ser apreciável para se viver.

IX – Natal Prelúdio

Longas horas até o bairro por trás das montanhas, mas cheguei. Entrei pela porta velha e branca do bunker, e fui recebido com congratulações por parte de todos. A missão fora um sucesso, o pergaminho estava inteiro, não faltava sequer meio sinal de operação.

O natal das garotas estava salvo.

Ela e eu nos olharíamos, e poderíamos sonhar mais uma vez, mais uma noite.

Café Jornal Atômico Celular

Ocorreu enquanto lia sobre política. Não que a política atraia insetos.

Era, ou é, uma tarde calorenta – e por isso os insetos. Devo reforçar que os insetos nada têm a ver com políticas… Eles talvez sejam mais limpos empiricamente. Teoricamente são grotescos, admito.

Também, ao momento, saboreava meu café; quatro colheres de pó, duas de açúcar não muito cheias. Forte, não tão amargo, funcional. Esperava algum telefonema com notícias boas ou ruins ou uma guerra… Enquanto isso, lia o jornal galáctico.

Caro viajante, por favor note: por “jornal galáctico”, não me refiro à ficção científica. Refiro-me à trilha sonora.

A janela estava aberta, posto o calor que se fazia gradiente – pela fenestra, entrou ele, o famigerado inseto saltador. Saí da política e dos partidos, fui-me à incerteza metafísica.

Contemplei o inseto, forçosamente – queria, na verdade, sua extinção do meu ambiente calmo. Percebi um análogo interessante. O grilo era absurdamente rápido, e pulava. Cada pedaço de caos vazio entre móveis poderia ser uma morada nova por um infinitésimo de tempo. Talvez o grilo existisse em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas minha ferramenta de pão só consegue visualizá-lo ponto a ponto, nunca em sua obra completa.

Corri-me ao corredor, a fim de me apossar da lata vermelha. Infelizmente, veneno de nada adiantaria. Poderia jogar em todos os cantos, o grilo sempre acharia algum espaço novo.

Incômodo PT. I

O telefone toca, e não é a voz que eu gostaria de ouvir. Não é uma voz desagradável, isso seria injusto da parte de quem conta a história. Mas, por algum motivo, há um cutucão – a mediana é diferente da média.

Estatísticas são números e nomes – vida talvez seja algo além.

Parei ao grilo. Veneno; joguei um pouco dele, mas nada capturei. Assim funcionam muitos dos captadores de átomos, creio eu, embora não os conheça a fundo. O máximo que pude fazer, e assim é o máximo que podem fazer os tão respeitosos cientistas entre aspas – abrir as janelas e esperar que o grilo saia por si só, a fim de atingir uma estabilidade.

O grilo dentro do quarto simbolizou uma interrupção de minha leitura, de meu café e de minha música. Um barulho a mais, uma energia além do que estou acostumado ou do que esperaria numa tarde ensolarada. Coloquemos o inseto como perturbador de minha estabilidade. Pulando por todos os lados ao mesmo tempo, infinitamente rápido (para os padrões); talvez o grilo interagindo com o sistema novo tenha feito o telefone tocar, a campainha disparar e, quem sabe, tenha causado toda uma tempestade em algum lugar de algum continente longínquo – talvez até na Nova Zelândia.

Incômodo PT. II

Novíssimo Mundo – e é assim que me foi apresentado no livro de geografia. Os geógrafos caem do céu, resolvi pensar. Certa vez, ouvi dizer que não se trata de decorar capitais de países ou estados ou adjetivâncias assim.

Existem lugares tão despreparados para neologismos e idéias novas – existem lugares abertos onde as janelas estão todas fechadas.

Amar é diferente de possuir completamente. Pessoas não são objetos. Rochas o são.

Rochas ígneas podem até ser interessantes… Pode-se roubar uma delas e colocar num vaso.

Pode ser interpretado como crônica, embora heterodoxa. Em carta ao prefeito da metrópole, diria que a desigualdade social não tem necessariamente a ver com a taxa de pobreza.

Para que não fique demasiadamente grande, e meu café já acabou há um tempo, gostaria de pedir um pouco mais de ação ao prefeito. Os rios estão um pouco sujos, pude sentir um tanto do odor desagradável deles hoje, andando pela marginal principal. O tratamento de esgoto deve ser melhorado, assim como a educação.

Não posso dizer imparcialmente, mas, em minha humilde opinião, a educação é fraca, e tal fraqueza se reflete como num espelho de alumínio.

Neste momento o grilo sai do quarto, e a estabilidade volta. Assim também volta a se materializar o papel, e assim também voltarei a ler os artigos e as notícias…

Já que o café acabou, tomarei água.

Incômodo PT. III

Não se pode definir um sistema pelo comportamento isolado de indivíduos em exceção. É quase como definir a matemática por uma indeterminação – e a matemática não é tão indeterminada quanto parece.

De qualquer forma, todo sistema tem regras, e, em aspectos palpáveis, inúmeras exceções. É um pseudocírculo de raios – Busque o discernimento, ou então se acostume a dormir com os pés descobertos quando se cobre a cabeça.

Subtrassoma III – Sobre as Espiras de Lorentz

Eles começaram a descer as escadas, com os pulsos cortados, marcando cada degrau por onde passavam. Havia gente batendo na porta, gente gritando, gente tentando fugir, gente por todas as entranhas da rua, gente pulando nos esgotos… Os homens estavam com fuzis apontados, e eu era um dos alvos.

“Uma espira condutora ideal, com 1,5m por 5m, é deslocada com velocidade constante de tal forma que um de seus lados atravessa uma região onde existe um campo magnético B, uniforme, criado por um grande eletroímã. Esse lado da espira leva 05s para atravessar a região do campo. Na espira está inserida uma resistência R com as características descritas. Em conseqüência do movimento da espira, durante esse intervalo de tempo, observa-se uma variação de temperatura em R, de 40 graus Celsius. Essa medida de temperatura pode, então, ser utilizada como uma forma indireta para estimar o valor do campo magnético B.”

As ubtrrfanecÊrnacir eletromagnéticas dissolviam o tempo, juntavam linhas e espaços como um grande dioptro, confuso e difuso, refracionando todo o convívio da espécie num ambiente hostil, padronizado e nojento. Vozes nojentas, cheiros nojentos, seres nojentos, asquerosos no pior sentido possível da palavra.

Eu queria fugir, mas não para muito longe dali. Pouco tempo andando e eu teria, então, a companhia que desejava; mais além, entretanto, meus pensamentos queimavam o que a sabedoria popular diz pulsar junto com as batidas de um Joule.

Como um relógio desajustado interfere em toda a vida operária de uma indústria, meus pensamentos se tornavam fumaça, via inimigos onde não existiam, os pesadelos ficavam mais e mais freqüentes, e em todos eles eu via a mesma pessoa, fazendo as mesmas coisas… Das mesmas formas…

Na realidade, quando acordava, o travesseiro continha um estranho líquido – parecia algum tipo de sangue transparente, jorrado de um trem em movimentação contínua e randômica por túneis de saliva e torres de energia elétrica.

Eu ainda queria comer e rasgar todos os estudos, queimar todos os livros, ser igual a todo mundo, e então, talvez, eu pudesse ter alguma paz menos transitória nisso que insistimos em chamar de termos em latim.

A diferença é que eu sou eu. E isso é uma decisão difícil, por caminhos difíceis. O mundo é árido, afinal.

Enquanto meus olhos palpitavam, eu ficava cada dia mais cego e perturbado. A falta de carne começava a me mostrar como proteínas poderiam fazer falta na alimentação humana. Eu me alimento? O que é o alimento? Por que ainda sinto fome, tendo os melhores alimentos, além das carnes? Por que demônios eu ainda estou respirando? O que demônios faço aqui? Eu não quero buscar as grandes viagens, de vez em quando só queria olhar nos olhos dela e saber que ela me ama do mesmo modo que eu a amo. É incoerente, um lapso de ser. Não faz sentido andar pelas ruas sem ter quem segurar as mãos. Não faz sentido respirar e não ter outra pessoa para compartilhar o ar, não faz sentido ter um cérebro e ninguém reparar que há um coração que resiste à falta de ritmo que é imposta.

SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. 4, G348 E.E – 0007 – UNSIGNED THETA

Subtrassoma II – Projeto LEGUMINOSA SOLAR ROTATIVA

“As leguminosas fazem associações mutualísticas com bactérias do gênero Rhizobium. Estas bactérias, por sua vez, tem a capacidade de fixar o Nitrogênio no solo. Sabendo-se que o N2 é constituinte essencial de aminoácidos, proteínas, bases nitrogenadas (ácidos nucléicos), entre outros, ele proporciona um crescimento mais rápido das plantas, uma maior folhagem, e também alimenta os microorganismos do solo que decompõem a matéria orgânica.” – H. C. S . @ 178

Foram utilizadas, historicamente, na rotação de culturas, implicando num melhor aproveitamento das terras em tempos críticos da Idade Média.

Não havia um porquê para eu ficar no mundo real…

Não importava se eu estivesse no mundo real ou não.

Quando compreendi isso, perdi o medo de perder meu corpo.

- Psiqué

- Accela

- Knights

SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R1, B188 FOURIER – 0007 – UNSIGNED PHI

Subtrassoma I – Documentos Encontrados no Setor-0007 ÉTER

Saudações, caros viajantes. Sem muitas delongas, postarei numa série infinita de posts (ocasionalmente interrompida para outras coisas, obviamente – não esperem por algo contínuo) algumas transcrições estranhas acerca de papéis e mais papéis espirais que encontrei num dos laboratórios de um dos setores de uma das instalações de uma das torres de uma das usinas.

Algumas estrofes podem parecer estranhas, inclusive são, mas foi o melhor que pude fazer nessas transcrições. É meio difícil trabalhar com coordenadas não ortodoxas na gramática, de fato.

Over The Café

A lack of words (worlds, maybe) as the darkest beans
Come alive
Along
Beneath
Among
Indeed.

Eu fugi do cemitério
Porque tava chovendo
E eu queria aprisioná-la
Na beira da estrada
No meio da pista,
Eu queria só pra mim.

Um escravo (escracho) cafeinado,
Uma overdose de guard-rails,
Circuitos,
Círculos,
Blast beats
E compassos desalojados
Procurando a clave.

“Quem estará observando
O velho
Cantarolando
No ouvido da moça
A sétima sinfonia?”

SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R2, H308 X.X  – 0007 – UNSIGNED ETA

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