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Dia 06 – XXXVII

Eu deveria saber que as coisas seriam dessa forma. Eu deveria saber que minha imaginação uma hora transbordaria de tanta coisa que eu quero dizer a ela e não posso…

Como eu poderia ousar dizer que ela me relaxa toda a existência quando enrijece todo o meu corpo? Como poderia dizer que cada rasgo em meu peito, em minhas costas, em meu pescoço são cicatrizes que curam as dores mais profundas da alma?

Minha tolice – e eu sei bem de minha tolice! – me carrega toda noite num portal secreto que existe embaixo dos cobertores solitários até o calor e o mau-jeito nos braços dormentes que só ela inteira pode causar, delicadamente, enquanto me embaraço junto com os cabelos soltos que cheiram a memórias que rodopiam, sádicas, dentro da minha alucinação…

Eu caio por cima dela, e me lembro perfeitamente de cada nuance. Lembro-me perfeitamente das curvas, dos tamanhos, dos gostos. Lembro-me de tudo, e, mesmo assim, parece ser tudo resultado da iminente amnesia.

Dia 02 – Tela Cinza

Eu não sei de quem é o grito. Eu não sei de onde vem o grito. Eu apenas escuto, mesmo sem saber se é real. O desespero flui como fosse parte do ar que apenas adia, sem nunca trazer, o fim de tudo. As serpentinas e os tubos enferrujados se misturam com o sangue que vaza das paredes e dos enfermos.

As salas, mesmo mortas, ainda deixam o resto de sofrimento. É como um calor residual ao se resfriar um conjunto de células nucleares de combustível. A radiação de Cherenkov é a súplica ajoelhada da realidade em tortura que se esquece de descolar da própria face rígida pelos nervos desativados da lamúria.

No quarto, alguns já são apenas cadáveres. Os que ainda vivem não conseguem dizer, não conseguem comer, não conseguem beber, não conseguem pensar. Grunhem, como criaturas numa floresta de qualquer tipo de inferno escuro. Rastejam sobre si próprios, como fossem vermes – mas são demasiadamente humanos.

Os cadáveres e os vermes são todos demasiadamente humanos.

Radicular Hiato

My fellow humans.

Os tempos recentes tem sido de difícil estabelecimento técnico, outra vez. A essa época de cada ciclo, por algum motivo (tempestades solares, talvez) os aparatos reciclados mostram mau funcionamento; a conexão é ruim, as luzes binárias não piscam como devem.

Como de costume, neste momento estou escrevendo por meio de um servidor gentilmente cedido por um de vocês, em algum tipo de máquina remota.

Há muitos documentos semi-traduzidos em minhas posses. Espero poder redigi-los em breve.

Eu não fui absorvido pelos buracos radioativos, tão pouco desisti de continuar a traduzir as folhas amarelo-esverdeadas de enigmas.

Estimo que, dentro da próxima Lua, as tempestades cessem um pouco.

Mantenham os lampiões de urânio acesos à porta de casa.

dx/dz dz/dy

Suddenly gone downwards the orbit;
The serene skylight then started to rain a piano sandstorm.
I took me a piece of darkness,
There I should hide myself until the silence.

Green sparks of elder arcsines became visible inside the temple;
And old crux shining liquid gold was bleeding, softly.
There is not a window inside the sacred place,
There is not a thing to stare outside though.

It smells like trapezoidal stone,
Craved one by one
Inside my scanned copies.

Wish I could talk with the Master, just once.
Sure he would have anything to tell me;
Even a simple symbolic numeral codex would have a friendly meaning.

“Mundane”, I screamed, heretic,
While climbing the nanometric stairs beyond my perception,
As I thought I was just stalking through an iris mirror.

“If there is a way out”, the crux talked, “you shall not be afraid to look.”
“There are rainbows in the same sky that tears your heart in a light bolt.”
“May you find outside the
locus horrendus that lies within;
Shall you become closer to the mirror’s edge to find your inner self.”

I held the crux of Syracuse in a handmade necklace; the wall closed its eyes.

- Unknown Lotus R., 1718

Incident

Behold the glare that bolts from the midnight.
The insect crawls beneath your sleeping pale skin.
Third stanza can be as catastrophic as your lack of flux.

Inside the television, incidentally, something that should not be shown,
But there it is, cold, with its frozen numbers and its grayish-blue plasma rectangles in gradient.
An infinite invisible space after the cathodes; can be perfectly described as it is:

“A river squared root of deep blue fake water,
Rectangular walls without z-component.
Some are grey, some are also blue.
Before your eyes there are the three keys, too.”

The Red,
The Yellow,
The Blue;

Though there is no time to think, shall the fourth component never be empty.
What is to heard, despite the illusion – a loop of modulated voices
That won’t tell a single solitary word.

A kind of monster is expected, in agony – again there is nothing throughout the river;
Surrounded scene of serene hell translated as polygonal nightmares;
The Jew has been left alone to find the way out.

Charon has gone – So did the Angel.

VINCE, G. – At The Mean-Value Mountains, 1921.

System Overview I

A humanidade passava inteira por baixo dos pés de nós que observávamos. Como nuvens transcendentes, como um grande fluido de idéias que convergem e divergem; a humanidade passava e inspirava nos momentos mais errados possíveis. As regras frias, as contas, os protocolos, as óperas, as eras e as décadas, fluindo como um grande rio que de verdade se fazia sob nossas sombras.

Éramos, por um momento, ouvidos, mesmo que não disséssemos nada. Todos nós ao mesmo tempo. O mesmo semblante, olhando para o lado de fora, estando por dentro.

A Noite das Fogueiras

Era noite, e as folhas compunham a trilha sonora orquestrada. Era noite, havia uma fogueira, havia pessoas a ouvir todas as histórias. Estávamos ao centro, perto da fogueira, na forma de um só, contando sobre as faíscas, sobre as florestas e sobre os anões. Havia bebida suficiente para todos, havia comida suficiente para todos, mas nenhum de nós conseguia prestar atenção na fome ou na sede.

Nossa sede era pela virtualidade daquilo tudo que considerávamos realidade imposta até então, e percebíamos a cada grão de areia que caía como não era bem assim que funcionava.

Apesar da fogueira, conseguíamos enxergar cada estrela e cada planeta e cada galáxia e até a nossa mesma via láctea feita como nuvem cósmica bem acima de nossas cabeças. Parecia tão próxima…

Em primeiro, lembrei-os do Sol. Era noite, mas o Sol continuava existindo do outro lado. Todos precisavam do Sol, afinal. Cada ser distante que pisasse por cima da casca de Gaia era merecedor da inspiração solar e cada explosão de hidrogênio (como haviam nos ensinado no futuro). Mas o Sol era muito mais que isso, e sabíamos.

O que mais fazia a fotossíntese existir, o que mais carregava os pacotes de virtuosidade, o que mais trazia as tardes ensolaradas senão o próprio Sol?! Talvez seja mais palpável pensar em tal parte imaginando como seria uma tarde de Sol sem Sol. Absurdo, não?

Pois talvez seja justamente para isso que o Sol exista: para ser o Sol.

E temo dizer que meu pai esteve errado esse tempo todo: o Sol é perfeito. As manchas existem, mas não implicam em anti-perfeição. Por que algo não poderia ser perfeito tendo manchas? Todos temos, afinal.

Não que sejamos perfeitos.

I – O grande mensageiro. Talvez o inferno, segundo os bíblicos. Podem ler a versão do Rei Jaime – é a descrição perfeita do inferno. Mas não acredito que haja demônios lá a fim de cozinhar pecadores e torturar-nos pelo resto da eternidade. Talvez a morada dos demônios seja completamente diferente, afinal.

O ácido cai como aqui cai a água, e se estivéssemos por lá nessa forma iria doer muito. Mas não precisamos nos limitar a isso que pensamos que somos apenas por conveniência. Além daquilo que sente dor, somos aquilo que sente o prazer ao enxergar a luz e o calor quando se está frio, e o frio quando se está calor. Pode chamar de processos biológicos, químicos, físicos ou divinos, é tudo a mesma coisa afinal.

II – A ninfa. Ela não vive nas florestas daqui, mas gosta delas todas. Todas elas gostam. Podem vocês alguns terem se perguntado algumas vezes por que enxergam tantos seres místicos e não os conseguem seguir até as casas de cada um. E é por isso – eles não precisam ficar aqui pra sempre pra gostarem de voltar toda vez.

Loiras, ruivas, cabelos azuis, tanto faz. O absurdo não é necessariamente improvável. Chega a ser mais provável que a própria probabilidade… Mas não me atreveria a explicar isso a quem de vocês for matemático. E caso seja, não precisa tomar cada palavra que canto como verdade, porque não precisa ser.

Andando, e sei que vocês muitos andam constantemente, por esse mesmo tipo de lugar em que estamos agora, com fogueiras parecidas com esta, e músicas parecidas com estas que os bardos tocam entre nós sem que possamos ver, por vezes vemos as sombras ou algo mais. As roupas poucas, as adagas, os cabelos, as asas, toda a beleza que não conseguimos explicar e os olhos tão hipnotizantes… As magias verdes que saem pelas mãos, as orelhas longas…

Tudo é do mesmo lugar, e tudo pode ir a todo lugar que queiramos que esteja. Desde os castelos e os feudos, até os rios e as montanhas. Todas as analogias são aceitáveis!

Elas estão lá para nos iludir. E não fazem por mal, na verdade. É apenas prazeroso, e o prazer não precisa ser errado.

III – Gaia. Não é o nome de um animal, propriamente. Olhe ao redor e sinta sede. A sede é um estado magnífico quando você encontra fontes e rios cheios d’água. A mesma água entrando por baixo da terra onde pisa; a mesma água subindo e descendo constantemente das nuvens mais longínquas… Talvez alguma parte dessa água esteja nas nuvens cósmicas! Não precisa pensar que não é possível… É claramente possível a todos vocês que estão aqui nesse exato momento.

A compreensão do Universo por ele mesmo em criaturas tão estranhas e únicas. Como os grãos de areia que observaram os gregos e pensaram então que tudo poderia ser como uma grande praia. Teoria atomística, hão de chamar um belo dia. A teoria atômica, no mais profundo da consciência elementar que haverá de ter seres que vierem depois de nós, basear-se-á pensando que tudo deve ser uma grande praia, onde os grãos de areia formam tudo o que existe.

Nossos castelos de areia talvez fiquem bem mais frágeis depois de tal teoria, não?

Uma gama de aleatoriedades que parecem se organizar perfeitamente. O caos em sua forma mais inspiradora. A tempestade em seu dia mais intenso. Tão intensamente caem as gotas que sentimos como se fosse tudo um grande éter luminífero ou vital. E, como sempre, por tempos e tempos as criaturas vão julgar-se criadoras a ponto de achar que tudo está devidamente errado.

E, mais que isso, poderão provar que tudo está errado. E isso não vai implicar em estar de fato errado… Mas é um longo tempo até a percepção dessa parte… E não é algo com o que precisamos nos preocupar. Cada um pode provar o que quiser a quem quiser.

Um lugar tão azul e tão verde ao mesmo tempo, com ciclones, turbilhões, vórtices, universos e realidades simultâneas… E, com tudo isso, os insetos ainda se sentem sozinhos pelo fato de não conseguirem manipular devidamente as ondas mecânicas no vácuo. Um dia talvez aprendam e possam se sentir menos sozinhos, afinal.

Por algum motivo, mesmo não sendo o meio do Universo, ainda é um dos mais apreciáveis pontos de encontro. Como se todas as estradas que levam a Roma passassem exclusivamente por aqui, e todos os povos de todos os cantos do Novo Mundo viajassem até aqui para verem o que há, como há, quem há e como pensamos todos.

É a grande miscelânea das galáxias… Por que é tão difícil ficar orgulhoso sabendo disso?! É magistral!

O fato que não gostamos de admitir, mas que, no fundo, sabemos que é verdade – somos muito, mas muito mal agradecidos a tudo.

IV – Rostos Solitários. Exatamente isso. A passagem deles por aqui vai ser um tanto bizarra e antiquada. Haveremos nós de rejeitá-los tanto, mas tanto, que vão acabar voltando para lá de onde vieram e vão pensar que são solitários por essência. A culpa é nossa, claro… Mas também é deles.

Não estamos preparados sequer para olharmos um ao outro e dar um bom dia sincero, eles acharam mesmo que poderiam socializar daquele jeito e com aqueles cabelos?!

Pode parecer muito esotérico, mas tentarei dar uma breve descrição. O mundo todo, de oceanos a oceanos, será tomado por coisas que rasgam o céu, cheiram a pedras, são cinzas e fumacentas. Então algum dia esses seres intrigantes que constroem rostos gigantes como templos haverão de ficar curiosos sobre o que se passa. Virão sem alarmar e conhecerão de nossa rejeição extrema.

Os cabelos não serão como os meus ou os seus que lêem e ouvem sabe-se lá em que era da humanidade. Os cabelos serão parecidos com elmos, cairão pelo rosto de um lado apenas. Usarão parafernalhas elétricas com barulhos repetitivos, e mostrarão insistentemente que faz bem lubrificar os olhos para não cansá-los.

Mas serão muito mal compreendidos. Terrivelmente catastrófico.

A intenção era apenas mostrar que é divertido construir, ao invés de cruzes (que lembram torturas e dor), como forma de templo, rostos soberanos. Talvez possamos nos sentir mais seguros tendo um grande olho amistoso e superior a nos vigiar, que sermos lembrados tantas vezes da dor. Não precisamos lembrar-nos da dor a cada grão de areia que cai – é mais interessante poder sentir a proteção estando dentro de nós mesmos e olhando para tudo com os mesmos olhos supremos daqueles que governam a história de todos os contos das dobras universais.

O grande rosto não é uma mentira – mas seria um choque igualmente terrível termos, algum dia, que admitir que seres solitários e com franjas possam ter algum conhecimento que nós demoramos milênios para alcançar.

O grande rosto não é uma mentira.

V – Existem pedras que flutuam, e rios amarelados. E quem isso me disse foi o Profeta das Areias, então é bom acreditar. Eu até fiquei um pouco cético ao ouvir tudo isso, mas quando vi fez muito mais sentido.

Há três grandes pilares, e um conhecimento extraordinário em toda a atmosfera. Como se fossem os anciãos mais sábios que pudéssemos imaginar, todos em um lugar, aprendendo, ensinando, apenas pela essência de saber de tudo mais que possamos tentar saber.

Pedras que flutuam; rios amarelos e conhecimento supremo. As óperas e os teatros mais profundos que já pudemos conhecer e que poderemos conhecer um dia. Constante evolução – é como se fôssemos todos irmãos.

Inclusive irmãos no sentido de sermos protegidos a cada ameaça que nos é feita por outro feudo. Alguém que se coloca à nossa frente quando uma pedra vem em nossa direção, no tempo exato, no momento exato.

Alguém que nos ensina sobre coisas igualmente supremas, como a que velocidade todos nós estamos ou a que velocidade todos nós viajamos. Os pilares ao centro, os grandes olhos e os grandes ídolos. Criaturas de pedra, criaturas fluidas e idéias puras que vagam como outro tipo de éter que, vez em quando, acaba por escapar e atingir nossos céus azuis.

O céu deles é um grande cânion, e há uma grande tempestade vermelha.

VI – A mutação constante. O movimento constante. O mesmo movimento constante do Teatro dos Sonhos, poderia dizer. E tal teatro irão entender vocês algum dia em breve, meus amigos. Tudo começando de onde termina, e terminando num novo começo, numa gigantesca cidade, muito mais colossal que nossa amada Roma. Muito mais colossal, e com dezenas mais de pessoas nobres andando pelas ruas de tijolos cinzas.

Um lugar com música em todos os tempos e em todos os grãos de areia. Uma grande sinfonia que não poderemos compreender até criar o grande aparato. Mas o grande aparato, infelizmente, não despertaria a atenção da maioria de nós.

Um aparato que não serviria para explorar minérios nem outros seres. Um aparato que só serviria para conhecermos um pouco mais de nós mesmos, e podermos nos surpreender com o que ouviríamos. Seria maior que qualquer alaúde, maior que qualquer harpa. Haveria à ponta uma gigantesca agulha, e ela deslizaria pelos espaços entre todos os asteróides, fluiria como uma grande onda senoidal materializada, em ressonância com todos os materiais, e a música começaria.

Já devo ter comentado certa vez sobre as óperas que Kronos costuma compor, e volto a ela. Uma vez, há muito tempo, pude ouvir um pouco, e sinto saudades de cada nota musical. Preciso voltar àquele lugar para ouvir todas as músicas outra vez.

Olhem bem para todos os outros – não precisa ser muito imaginativo para pensar que há algo escondido nesses discos. Não precisa mesmo ser nem um pouco imaginativo para enxergar que há um grande disco pronto a ser tocado!

Mas, como disse, o grande aparato demorará muito tempo a ser construído, e provavelmente seremos os últimos a nos interessar por ouvir as sinfonias de Kronos. Um dia, meus caros, inventarão alguns de vocês uma máquina que grita músicas a partir de discos pequenos e quase em uma dimensão inferior à nossa (serão muito finos!), depois vão inventar algo sobre músicas escondidas em feixes de luz, primeiro vermelhos e depois azuis.

Mas vai ser muito difícil, por muitas eras, pensar que as músicas podem ser codificadas e traduzidas em dimensões maiores. Vão se perguntar se há vida além da nossa. Eu aconselharia a perguntar não isso, mas sim como é a música além da nossa.

Vida pode haver em qualquer pedaço de universo. Música é algo bem mais complexo. Procurem a música, não a pedra.

A música não existe, a música é.

VII – Não sei muito sobre esse lugar. Pode ter havido muita coisa por lá, mas hoje são apenas ruínas. Como se uma cidade tão grande, e volto a usar Roma como exemplo, fosse despovoada do dia pra noite, sem ninguém saber ao certo o que aconteceu, ou por que todo mundo resolveu fugir. Não é sem motivos, claro, mas o motivo talvez seja muito mais difícil de entender.

Um dia talvez possamos compreender de fato o que houve… Por hora, tudo o que posso dizer é que há ruínas por todos os lados, grandes usinas abandonadas e uma atmosfera tão cinza quanto a que se instalará aqui por perto da grande nevasca algum dia no futuro.

Tampouco sei como era o modo de vida ou se havia alguma vida prazerosa. Não sei pra onde foram, por que foram ou se ao menos existiram.

Lembre-se de onde estão vocês que estão lendo isso (e de onde estou eu que estou escrevendo). É mais ou menos assim. Mais ou menos assim, só que mais colossal.

VIII – O grande oceano. Tormentas, tempestades e peixes. Muitos peixes, muitas tempestades e muitas tormentas. Há poucos que se aventuraram por tais águas até hoje, poucos piratas foram corajosos o suficiente. Também não há tanto assim a se pilhar, mas há muito que se conhecer.

Há poucas ilhas, e nelas alguns piratas mais ousados construíram fortalezas. Homens bravos e bêbados. Um lugar onde o rum é eterno, e as navegações sempre são recobertas pela vontade de encontrar as serpentes gigantes que achamos até hoje que não existem e em busca dos grandes baús cheios de iguarias e metais valiosos extra dimensionais.

Os piratas que até lá forem vão saber viajar a qualquer lugar do universo conhecido, mas vão preferir construir navios com a mesma madeira que compõe essas árvores que estão ao nosso redor agora. Talvez seja por verossimilhança, talvez navegar pelos mares num navio pirata só faça sentido se for feita uma navegação pelos mares num navio pirata!

Alguns equipamentos não precisam de versões modernas, são apenas eternizados conforme forem utilizados da forma que forem utilizados.

E a música de navegação deles também será muito divertida e dançante. Não é difícil imaginar – pense nesses todos que usam tapa-olhos, saias, espadas e panos e bandanas e bebem rum o tempo todo em seus barris e descascam vegetais em salas de madeira. É exatamente isso. Só um pouco mais longe, mas diria que até as pessoas são parecidas e tem os mesmos dentes podres e marcas de batalhas.

Há quem goste de achar monstros e lutar bravamente contra cada um deles, se souber que há uma ilha misteriosa a esperar depois dos setenta milhões de mares.

A odisséia não precisa necessariamente ser feita, mas pode ser que seja mais interessante realizá-la ao invés de conseguir tudo do jeito mais fácil.

E é isso que eu tinha a dizer a todos vocês essa noite, meus caros que não dormem à fogueira. Temos ainda muita bebida e muito a saber e muito a pensar. Creio que cada um de vocês teria coisas muito mais produtivas a fazer, somos todos servos, afinal. Mas essa clareira nos caiu muito bem essa madrugada… Apostaria que sequer o mais astuto dos alabardeiros ou arqueiros conseguiria pensar em nossa existência aqui, essa noite, dessa forma, tão bêbados quanto estamos.

Não sei ao certo como terminar, é uma sensação única estar com todos vocês por aqui. Um dia conto mais sobre isso tudo, por hora também tenho meus deveres como servo que sou.

Análise de Matéria Tridecadista Reformulada – Dados Experimentais

Laboratório – Analisamos por volta de seis amostras de reformulações de dados, sobretudo musicais, oriundos da experiência de VREMEN-R. Em tal experiência, a título de complementação leiga, foram traduzidas de décadas anteriores peças musicadas, em atos modernescos segundo a ética e cultura padrão local do contemporâneo.

Em atos observatórios, viu-se certa coerência de contexto em determinadas peças; há, contudo, ainda falhas sensíveis em certas transcrições. Talvez sejam necessárias mudanças em partes das matrizes, a fim de concretizar o conceito proposto por tais experimentos VREMEN-R.

A mais, peço reposição urgente da fibra XVI-2002 no setor 3-96 do laboratório de condensação potencial eletromagnética aplicada em campos gravitacionais.

- Mc. 927, 15

Capital e Carpete [texto desnaturado]

Aconselho, antes de começar a ler, uma xícara, ou um copo de café. Como alguns quilos d’água podem dissertar em versos sobre as escrituras do futuro, a tradução do terceiro eixo tem consistência de tijolo sulfurado, o mármore todo corroído, as estátuas caindo uma por uma.

Análise Dissertativa sobre a Terceira Interpretação: Não há Capital.

Um mundo dividido em dois, o velho e o novo; que as tragédias começassem pelo fim, e que pudéssemos todos acreditar que esses esferóides nucleares não fossem dizimar-nos todos em qualquer dia de Sol. Olho para o céu, e além dos círculos de fogo parece haver guerreiros de Odin em conflito com os santos todos de Jerusalém. Um exército de milhares, um exército solitário.

Pode ser que haja ainda mais personagens dentro do livro, atuando coadjuvantes com as já conhecidas e não menos imaginárias. Para alguém que tenha como esporte o devaneio, alguém que recebeu por recado o Universo, bem capaz seria de teatrizar uma tragédia do que se via traduzido do lado de fora da janela. Morria um cão qualquer na esquina, logo o cão era dele, a tristeza era dele, a dúvida era dele, o pesar era todo dele, terníssimo pesar. Alguém sempre sobra para contar história. Se não houvesse cão morto, este seria criado.

A história dentro da História – O velho vivo, chefe de família, numa poltrona assistindo, ouvindo as últimas notícias e os códigos do Sputnik, as crianças brincando no carpete empoeirado. Num instante, o velho, seu semblante calmo, mal percebe os vermes que começam a brotar nos poros do braço. Como alguma lepra, o velho começa a se transformar todo num verme gigante, pegajoso, úmido, com cheiro de carne podre, cheio de formigas mastigando o próprio cérebro e construindo formigueiros dentro do que antes eram artérias e agora é barro.

As crianças do carpete, por sua vez, pegam os vermes menores e pensam se tratar de mais um brinquedo. Modelam, jogam pelas paredes, pisam, comem; o tipo mais insólito de antropofagia que pude ter relato até então. Aos poucos não sobrava quase nada de gente no velho, de longe ele parecia um conjunto de vísceras vivas se movendo conforme o calor. É provável que, em pouco tempo, e com a falta de alimento, os vermes começassem a comer o carpete empoeirado, mofado, temperado com os filhos bastardos e as bandeiras e o rádio e a televisão e o Sputnik.

Volta – uma nova personagem emergiu dentro do barulho de quem não sabia assoviar, uma nova personagem que alegorizava a desordem e a incerteza, e por cima desta foi feita a reforma da casa; por cima desta nova personagem criou-se um conto que rotacionava e transladava, mas na verdade nada saía do lugar. Posto que fosse animação suspensa, não houve uma personagem real, o que houve foi apenas um buraco negro. Sem carne de verdade, mas o cheiro podre ainda existia. A dor de cabeça ainda existia. Podia muito bem ser uma invenção, mas de fato não era uma mentira.

A Gramática sempre me pareceu, de todo, inútil. Sem senso.

Tanta gente ri, gargalha, elogia e ri um pouco mais, mesmo sem ter entendido a piada. Na verdade, pouquíssimos foram os que interromperam o próprio discurso para ouvir, dá muito trabalho abrir os ouvidos, não é mais fácil que abrir os olhos: a diferença elementar é que os olhos podem fechar-se; os ouvidos são mais fáceis de serem estuprados.

A cada novo retrato, o rosto do filho do homem modelava a satisfazer a bipolaridade, os atos capitais eram criados para que houvesse certa coerência. Cada parte, cada fração do relato encaixa-se sublimemente.

Aposto recapitulativo – olhando para toda a linha da vida até então, o escritor expôs o conceito de como era seu solo, e como criara uma ópera com duetos, tercetos, quartetos, todos com a mesma voz dele, mas em tons diferentes. Não há um modo mais simples de explicar, a menos que houvesse hoje tecnologia tal que um poderia ser todos os instrumentos e vocalistas da ópera e do concerto. Talvez daqui cem, cento e cinqüenta anos.

O Fim Está Próximo

O server foi pro espaço.

As imagens  desconfiguradas.

=/

Updates Soon.

A Chuva

Na verdade esse texto todo era para você. Eu só não soube escrevê-lo.

-

Viajantes.

Uma vez eu também tive uma daquelas ilusões. Estava eu parado, observando, e mal percebi quando ela começou. Uma janela se abria, azul. Cinza, mas azul. E pulsava diante de mim.

No que minha curiosidade me mandou até lá, de começo mal consegui ver, tamanha luz. Depois que meus olhos se acostumaram, eu pude ver longe.

Era como se eu estivesse num lugar envolto por montanhas nevadas, grama verde aos meus pés, um campo plano, planície. E um cheiro agradável que não consigo explicar ainda como é…

Mas eu sabia que tudo era uma ilusão. E eu gostava da idéia de saber que eu estava iludido. Eu queria me iludir.

Um poço. Precisava de um poço. Estava quente, seco, minha boca mal conseguia abrir. Seco, vento seco. Tempo seco.
Eu procurava algo, e não sabia. Eu queria achar algo.
Um poço bem fundo. Do tipo que qualquer um tem medo de tropeçar e afundar na inexistência vertiginosa de suas pedras e bater a cabeça no chão. Hora ou outra todos se atiravam num poço e nem percebiam. Só quando atingiam o chão.
Eu não queria explodir minha cabeça na pedra, de fato. Eu dizia que queria, mas não tão cedo. Mas eu estava com sede. O tempo estava seco. Eu precisava de algum poço.

Uma miragem? Avistei um poço. Cordas, longas cordas castanhas. Cordas tão resistentes, mas ao mesmo tempo me lembravam cabelos ao vento. Devia ser insolação. Outra miragem qualquer. Mas foi ficando cada vez mais perto e eu podia sentir o cheiro de perfume vindo daquele poço que ao mesmo tempo era tão profundo e inatingível. Uma tela, talvez, pintada por algum tipo de artista com senso de humor questionável, um tanto sádico. No meio daquele lugar seco, que mais parecia um deserto, uma pintura de um poço.
Não, não podia ser uma pintura. Agora eu estava bem perto e via que o poço tinha profundidade. Tinha água no fundo, bem no fundo. Era bem fundo. E eu queria aquela água. As cordas castanhas, que se parecia com cabelos, traziam consigo um tipo arcaico de balde, meio enferrujado; pra mim parecia perfeito.

Ao longe era horizonte, via os barcos certa vez meu pai e eu. Mais ou menos seis da manhã. O rio nem era muito grande, mas havia alguns barcos invisíveis. Eu os admirava. Contemplava, não gostava de perder sequer um detalhe daqueles começos de dia esfumaçados, solenes, saudando ao Sol por cada segundo que meus olhos estavam abertos, naquele começo, naqueles primeiros capítulos, onde o Universo eram os barcos no pequeno rio. Flutuando sobre as águas com o vento…

Ali perto de onde parávamos para olhar, uns tijolos quebrados e um antigo alambique desativado. Sinto saudades daquele alambique. Nunca sequer cheguei perto de entrar nele, mas todas as noites, antes de dormir, imaginava como seria, toda aquela construção vazia… Com tamanho cheiro de história, tantas pessoas incrustadas nas paredes, tudo o que um dia foi e agora já não era…

Uma chaminé, que mais parecia uma Torre, erguia-se ao meio de todo o mato. Alguma estrada devia levar até ela.

E os mesmos ventos que levavam os barcos destruíam o mato, e levavam todo o cheiro do mato e da fumaça, levavam as estradas, levavam tudo o que eu via, diante de meus olhos… Levavam minhas lágrimas que eu relutava para abandonar, levavam. Como levavam aqueles velhos barcos… Levavam com a mesma facilidade com que levavam cada folha de cada árvore. Levavam meus irmãos. Tudo em frente aos meus olhos. O horizonte engolia-os como um buraco negro, como um predador faminto.

E foram-se. O rio se foi. Os barcos. O mato. E a chaminé. E tudo.

E quando eu me aproximava muito da corda, ouvia um zunido. Se tocasse a corda talvez ficasse surdo, cego, qualquer coisa. Esses momentos lembravam-me muito os escudos magnéticos vistos em Eraserhead, quando Henry tentava tocar seu sonho. Ela apenas dançava com o vento, como um ímã atraindo um pedaço de metal para a armadilha. Eu procurava insetos e não achava. Via apenas a corda, longos cabelos castanhos, que me levariam ao fundo do poço. Que me levariam à água. À vida.

Um jogo. Um jogo a mais, um a menos, era tudo um jogo. Ou pelo menos era isso que eu tentava enfiar em minha cabeça. Quando estamos com sede, sonhamos com água. Devia ser isso. Salivação. Mal conseguia salivar, parecia que todo o meu sangue ia ressecar em pouco tempo, meus nervos, meus músculos, meus pensamentos, eu só conseguia pensar na água. Era uma obsessão. Mórbida. Alguém jogava comigo. Talvez a deusa sádica dos cabelos castanhos. Talvez ela estivesse me olhando de longe por uma tela de algumas polegadas, jogando comigo, seu novo jogo, novo velho jogo.
A mestra máxima de qualquer jogo. Ela jogava. E eu mostrava minhas fichas.
Sem que ela ao menos visse minhas mãos na mesa de jogatina. Ou nem eu mesmo conseguia ver minhas mãos. Estava com tanta sede que não via muitas coisas. Via defeitos onde não existiam, via qualidades no vazio.
Estava vazio, mas completamente transbordado. Mas não era água. Não matava a sede.
Eu estava com sede.

Era pra ter muitos pedaços, mas eu os perdi. Em algum lugar. Os ares têm mudado muito rapidamente, não sei como explicar. Pouco sei. Mas ainda sinto o Sol estapeando meus nervos e meu sangue.

-

Enquanto isso, chovia do lado de fora da janela.

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