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Dia 06 – XXXVII
Eu deveria saber que as coisas seriam dessa forma. Eu deveria saber que minha imaginação uma hora transbordaria de tanta coisa que eu quero dizer a ela e não posso…
Como eu poderia ousar dizer que ela me relaxa toda a existência quando enrijece todo o meu corpo? Como poderia dizer que cada rasgo em meu peito, em minhas costas, em meu pescoço são cicatrizes que curam as dores mais profundas da alma?
Minha tolice – e eu sei bem de minha tolice! – me carrega toda noite num portal secreto que existe embaixo dos cobertores solitários até o calor e o mau-jeito nos braços dormentes que só ela inteira pode causar, delicadamente, enquanto me embaraço junto com os cabelos soltos que cheiram a memórias que rodopiam, sádicas, dentro da minha alucinação…
Eu caio por cima dela, e me lembro perfeitamente de cada nuance. Lembro-me perfeitamente das curvas, dos tamanhos, dos gostos. Lembro-me de tudo, e, mesmo assim, parece ser tudo resultado da iminente amnesia.
Dia 02 – Tela Cinza
Eu não sei de quem é o grito. Eu não sei de onde vem o grito. Eu apenas escuto, mesmo sem saber se é real. O desespero flui como fosse parte do ar que apenas adia, sem nunca trazer, o fim de tudo. As serpentinas e os tubos enferrujados se misturam com o sangue que vaza das paredes e dos enfermos.
As salas, mesmo mortas, ainda deixam o resto de sofrimento. É como um calor residual ao se resfriar um conjunto de células nucleares de combustível. A radiação de Cherenkov é a súplica ajoelhada da realidade em tortura que se esquece de descolar da própria face rígida pelos nervos desativados da lamúria.
No quarto, alguns já são apenas cadáveres. Os que ainda vivem não conseguem dizer, não conseguem comer, não conseguem beber, não conseguem pensar. Grunhem, como criaturas numa floresta de qualquer tipo de inferno escuro. Rastejam sobre si próprios, como fossem vermes – mas são demasiadamente humanos.
Os cadáveres e os vermes são todos demasiadamente humanos.
Radicular Hiato
My fellow humans.
Os tempos recentes tem sido de difícil estabelecimento técnico, outra vez. A essa época de cada ciclo, por algum motivo (tempestades solares, talvez) os aparatos reciclados mostram mau funcionamento; a conexão é ruim, as luzes binárias não piscam como devem.
Como de costume, neste momento estou escrevendo por meio de um servidor gentilmente cedido por um de vocês, em algum tipo de máquina remota.
Há muitos documentos semi-traduzidos em minhas posses. Espero poder redigi-los em breve.
Eu não fui absorvido pelos buracos radioativos, tão pouco desisti de continuar a traduzir as folhas amarelo-esverdeadas de enigmas.
Estimo que, dentro da próxima Lua, as tempestades cessem um pouco.
Mantenham os lampiões de urânio acesos à porta de casa.
dx/dz dz/dy
Suddenly gone downwards the orbit;
The serene skylight then started to rain a piano sandstorm.
I took me a piece of darkness,
There I should hide myself until the silence.Green sparks of elder arcsines became visible inside the temple;
And old crux shining liquid gold was bleeding, softly.
There is not a window inside the sacred place,
There is not a thing to stare outside though.It smells like trapezoidal stone,
Craved one by one
Inside my scanned copies.Wish I could talk with the Master, just once.
Sure he would have anything to tell me;
Even a simple symbolic numeral codex would have a friendly meaning.“Mundane”, I screamed, heretic,
While climbing the nanometric stairs beyond my perception,
As I thought I was just stalking through an iris mirror.“If there is a way out”, the crux talked, “you shall not be afraid to look.”
“There are rainbows in the same sky that tears your heart in a light bolt.”
“May you find outside the locus horrendus that lies within;
Shall you become closer to the mirror’s edge to find your inner self.”I held the crux of Syracuse in a handmade necklace; the wall closed its eyes.
- Unknown Lotus R., 1718
Análise de Matéria Tridecadista Reformulada – Dados Experimentais
Laboratório – Analisamos por volta de seis amostras de reformulações de dados, sobretudo musicais, oriundos da experiência de VREMEN-R. Em tal experiência, a título de complementação leiga, foram traduzidas de décadas anteriores peças musicadas, em atos modernescos segundo a ética e cultura padrão local do contemporâneo.
Em atos observatórios, viu-se certa coerência de contexto em determinadas peças; há, contudo, ainda falhas sensíveis em certas transcrições. Talvez sejam necessárias mudanças em partes das matrizes, a fim de concretizar o conceito proposto por tais experimentos VREMEN-R.
A mais, peço reposição urgente da fibra XVI-2002 no setor 3-96 do laboratório de condensação potencial eletromagnética aplicada em campos gravitacionais.
- Mc. 927, 15
Capital e Carpete [texto desnaturado]
Aconselho, antes de começar a ler, uma xícara, ou um copo de café. Como alguns quilos d’água podem dissertar em versos sobre as escrituras do futuro, a tradução do terceiro eixo tem consistência de tijolo sulfurado, o mármore todo corroído, as estátuas caindo uma por uma.
Análise Dissertativa sobre a Terceira Interpretação: Não há Capital.
Um mundo dividido em dois, o velho e o novo; que as tragédias começassem pelo fim, e que pudéssemos todos acreditar que esses esferóides nucleares não fossem dizimar-nos todos em qualquer dia de Sol. Olho para o céu, e além dos círculos de fogo parece haver guerreiros de Odin em conflito com os santos todos de Jerusalém. Um exército de milhares, um exército solitário.
Pode ser que haja ainda mais personagens dentro do livro, atuando coadjuvantes com as já conhecidas e não menos imaginárias. Para alguém que tenha como esporte o devaneio, alguém que recebeu por recado o Universo, bem capaz seria de teatrizar uma tragédia do que se via traduzido do lado de fora da janela. Morria um cão qualquer na esquina, logo o cão era dele, a tristeza era dele, a dúvida era dele, o pesar era todo dele, terníssimo pesar. Alguém sempre sobra para contar história. Se não houvesse cão morto, este seria criado.
A história dentro da História – O velho vivo, chefe de família, numa poltrona assistindo, ouvindo as últimas notícias e os códigos do Sputnik, as crianças brincando no carpete empoeirado. Num instante, o velho, seu semblante calmo, mal percebe os vermes que começam a brotar nos poros do braço. Como alguma lepra, o velho começa a se transformar todo num verme gigante, pegajoso, úmido, com cheiro de carne podre, cheio de formigas mastigando o próprio cérebro e construindo formigueiros dentro do que antes eram artérias e agora é barro.
As crianças do carpete, por sua vez, pegam os vermes menores e pensam se tratar de mais um brinquedo. Modelam, jogam pelas paredes, pisam, comem; o tipo mais insólito de antropofagia que pude ter relato até então. Aos poucos não sobrava quase nada de gente no velho, de longe ele parecia um conjunto de vísceras vivas se movendo conforme o calor. É provável que, em pouco tempo, e com a falta de alimento, os vermes começassem a comer o carpete empoeirado, mofado, temperado com os filhos bastardos e as bandeiras e o rádio e a televisão e o Sputnik.
Volta – uma nova personagem emergiu dentro do barulho de quem não sabia assoviar, uma nova personagem que alegorizava a desordem e a incerteza, e por cima desta foi feita a reforma da casa; por cima desta nova personagem criou-se um conto que rotacionava e transladava, mas na verdade nada saía do lugar. Posto que fosse animação suspensa, não houve uma personagem real, o que houve foi apenas um buraco negro. Sem carne de verdade, mas o cheiro podre ainda existia. A dor de cabeça ainda existia. Podia muito bem ser uma invenção, mas de fato não era uma mentira.
A Gramática sempre me pareceu, de todo, inútil. Sem senso.
Tanta gente ri, gargalha, elogia e ri um pouco mais, mesmo sem ter entendido a piada. Na verdade, pouquíssimos foram os que interromperam o próprio discurso para ouvir, dá muito trabalho abrir os ouvidos, não é mais fácil que abrir os olhos: a diferença elementar é que os olhos podem fechar-se; os ouvidos são mais fáceis de serem estuprados.
A cada novo retrato, o rosto do filho do homem modelava a satisfazer a bipolaridade, os atos capitais eram criados para que houvesse certa coerência. Cada parte, cada fração do relato encaixa-se sublimemente.
Aposto recapitulativo – olhando para toda a linha da vida até então, o escritor expôs o conceito de como era seu solo, e como criara uma ópera com duetos, tercetos, quartetos, todos com a mesma voz dele, mas em tons diferentes. Não há um modo mais simples de explicar, a menos que houvesse hoje tecnologia tal que um poderia ser todos os instrumentos e vocalistas da ópera e do concerto. Talvez daqui cem, cento e cinqüenta anos.
A Chuva
Na verdade esse texto todo era para você. Eu só não soube escrevê-lo.
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Viajantes.
Uma vez eu também tive uma daquelas ilusões. Estava eu parado, observando, e mal percebi quando ela começou. Uma janela se abria, azul. Cinza, mas azul. E pulsava diante de mim.
No que minha curiosidade me mandou até lá, de começo mal consegui ver, tamanha luz. Depois que meus olhos se acostumaram, eu pude ver longe.
Era como se eu estivesse num lugar envolto por montanhas nevadas, grama verde aos meus pés, um campo plano, planície. E um cheiro agradável que não consigo explicar ainda como é…
Mas eu sabia que tudo era uma ilusão. E eu gostava da idéia de saber que eu estava iludido. Eu queria me iludir.
Um poço. Precisava de um poço. Estava quente, seco, minha boca mal conseguia abrir. Seco, vento seco. Tempo seco.
Eu procurava algo, e não sabia. Eu queria achar algo.
Um poço bem fundo. Do tipo que qualquer um tem medo de tropeçar e afundar na inexistência vertiginosa de suas pedras e bater a cabeça no chão. Hora ou outra todos se atiravam num poço e nem percebiam. Só quando atingiam o chão.
Eu não queria explodir minha cabeça na pedra, de fato. Eu dizia que queria, mas não tão cedo. Mas eu estava com sede. O tempo estava seco. Eu precisava de algum poço.Uma miragem? Avistei um poço. Cordas, longas cordas castanhas. Cordas tão resistentes, mas ao mesmo tempo me lembravam cabelos ao vento. Devia ser insolação. Outra miragem qualquer. Mas foi ficando cada vez mais perto e eu podia sentir o cheiro de perfume vindo daquele poço que ao mesmo tempo era tão profundo e inatingível. Uma tela, talvez, pintada por algum tipo de artista com senso de humor questionável, um tanto sádico. No meio daquele lugar seco, que mais parecia um deserto, uma pintura de um poço.
Não, não podia ser uma pintura. Agora eu estava bem perto e via que o poço tinha profundidade. Tinha água no fundo, bem no fundo. Era bem fundo. E eu queria aquela água. As cordas castanhas, que se parecia com cabelos, traziam consigo um tipo arcaico de balde, meio enferrujado; pra mim parecia perfeito.
Ao longe era horizonte, via os barcos certa vez meu pai e eu. Mais ou menos seis da manhã. O rio nem era muito grande, mas havia alguns barcos invisíveis. Eu os admirava. Contemplava, não gostava de perder sequer um detalhe daqueles começos de dia esfumaçados, solenes, saudando ao Sol por cada segundo que meus olhos estavam abertos, naquele começo, naqueles primeiros capítulos, onde o Universo eram os barcos no pequeno rio. Flutuando sobre as águas com o vento…
Ali perto de onde parávamos para olhar, uns tijolos quebrados e um antigo alambique desativado. Sinto saudades daquele alambique. Nunca sequer cheguei perto de entrar nele, mas todas as noites, antes de dormir, imaginava como seria, toda aquela construção vazia… Com tamanho cheiro de história, tantas pessoas incrustadas nas paredes, tudo o que um dia foi e agora já não era…
Uma chaminé, que mais parecia uma Torre, erguia-se ao meio de todo o mato. Alguma estrada devia levar até ela.
E os mesmos ventos que levavam os barcos destruíam o mato, e levavam todo o cheiro do mato e da fumaça, levavam as estradas, levavam tudo o que eu via, diante de meus olhos… Levavam minhas lágrimas que eu relutava para abandonar, levavam. Como levavam aqueles velhos barcos… Levavam com a mesma facilidade com que levavam cada folha de cada árvore. Levavam meus irmãos. Tudo em frente aos meus olhos. O horizonte engolia-os como um buraco negro, como um predador faminto.
E foram-se. O rio se foi. Os barcos. O mato. E a chaminé. E tudo.
E quando eu me aproximava muito da corda, ouvia um zunido. Se tocasse a corda talvez ficasse surdo, cego, qualquer coisa. Esses momentos lembravam-me muito os escudos magnéticos vistos em Eraserhead, quando Henry tentava tocar seu sonho. Ela apenas dançava com o vento, como um ímã atraindo um pedaço de metal para a armadilha. Eu procurava insetos e não achava. Via apenas a corda, longos cabelos castanhos, que me levariam ao fundo do poço. Que me levariam à água. À vida.
Um jogo. Um jogo a mais, um a menos, era tudo um jogo. Ou pelo menos era isso que eu tentava enfiar em minha cabeça. Quando estamos com sede, sonhamos com água. Devia ser isso. Salivação. Mal conseguia salivar, parecia que todo o meu sangue ia ressecar em pouco tempo, meus nervos, meus músculos, meus pensamentos, eu só conseguia pensar na água. Era uma obsessão. Mórbida. Alguém jogava comigo. Talvez a deusa sádica dos cabelos castanhos. Talvez ela estivesse me olhando de longe por uma tela de algumas polegadas, jogando comigo, seu novo jogo, novo velho jogo.
A mestra máxima de qualquer jogo. Ela jogava. E eu mostrava minhas fichas.
Sem que ela ao menos visse minhas mãos na mesa de jogatina. Ou nem eu mesmo conseguia ver minhas mãos. Estava com tanta sede que não via muitas coisas. Via defeitos onde não existiam, via qualidades no vazio.
Estava vazio, mas completamente transbordado. Mas não era água. Não matava a sede.
Eu estava com sede.
Era pra ter muitos pedaços, mas eu os perdi. Em algum lugar. Os ares têm mudado muito rapidamente, não sei como explicar. Pouco sei. Mas ainda sinto o Sol estapeando meus nervos e meu sangue.
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Enquanto isso, chovia do lado de fora da janela.