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Dia 13 – Névoa
Ainda à janela nada. Também não sei por que esperança. Já me convenci o suficiente sobre sermos o final da civilização. É inclusive bastante provável que seja o purgatório. Estamos sendo julgados por nossos atos pecadores. Tudo o que fizemos foi errado. Falhamos miseravelmente. Foi um erro.
Foi tudo um absoluto e vergonhoso erro.
Uma névoa se forma sempre que tento limpar com panos sujos o pouco de vidro que restou. Não é suficiente pra passar um braço, não é suficiente pra tentar escapar, mas, mesmo que fosse, não teria pra onde escapar. É tudo parte do mesmo fim, é tudo o mesmo deserto, a única diferença é que cá dentro estamos sendo cozidos, e lá fora seríamos congelados.
Talvez o cheiro seja melhor, talvez nossos sentidos todos sejam estuprados a ponto de não sentirmos mais nada de uma vez, mas e se isso daqui de dentro passar? De que valerá ter perdido tudo escapando?
Uma outra madrugada passa na autoestrada do deserto. Não há ninguém lá fora, e aqui dentro já somos cada vez mais poucos que vivemos.
A anestesia se esvai a cada dia. Chegará a vez que teremos de suportar cada gota da dor.
Não há escapatória. Nunca houve. Nunca haverá.
Dia 11 – C
E se ela não me responder?
E se acabar o papel?
E se acabar o grafite?
E se o fio arrebentar?
E se der mal contato?
E se derreter?
E se eu errar a conta?
E se eu me esquecer?
E se eu repetir?
E se eu errar?
E se eu não for?
E se eu desistir?
E se minha letra ficar invisível?
E se meu conto ficar ilegível?
E se for mentira?
E se eu abrir os olhos?
E SE MINHA SANIDADE FOR EMBORA OUTRA VEZ
EXATAMENTE ÀS TRÊS DA MANHÃ
NUMA LIGAÇÃO TELEFÔNICA ERRADA
COM TRANSISTORES ERRADOS
PRA PESSOA ERRADA
BATERIA DE LÍTIO COM GOSTO AMARGO
COM O TELEFONE ERRADO?
E SE EU APAGAR O NÚMERO NOVO? E SE O AVIÃO CAIR? E SE A CABEÇA ESTOURAR E ARREBENTAR TODOS OS OSSOS DO CRÂNIO E ESPALHAR CÉREBRO PELA SALA QUE JÁ TEM UM MONTE DE GENTE MORTA?
O Esplêndido Final do Significado, A Assinatura Manuscrita Do Tratado Número Quinto, O Trabalho De Um Nobre.
Dia 10,5 – Cronos
A carne custava a vir. Eu mordia, mas meus dentes doíam. Ela não se quebrava no meio da noite, e minha fome continuava.
Eu puxava com o que me restava dos dentes, e sentia os nervos se contorcendo, implorando para que não viessem.
Eles sempre vinham.
Cada gota que escorria da carne que eu puxava me trazia a culpa de ter um sangue a menos pra matar minha sede quando eu precisasse. O sangue todo podre, como a carne, como o resto do lugar todo, mas era eu, e eu ainda respirava, mesmo que fosse pra sentir o cheiro das coisas se desconstruindo, doentes.
Vermes não há. Eles estão em lugares menos sombrios. Afugentam-se com o cheiro e a luz das lamparinas.
Eu continuo comendo a carne, e sentindo o gosto salgado que provavelmente é das infecções e das doenças e dos remédios.
O outro pedaço, meio vivo, meio morto, mastigado, grita.
Eu não posso controlar minha fome.
Dia 10 – Parnasus
É elétrico,
É meramente elétrico.É algoritmo,
É apenas algorítmico.É equação,
É uma tola equação.É círculo,
É só perfeito purgatório: círculo.Não é gente…
Não é gente…Não é gente…
Não é gente.
Dia 09 – Ferrofluido NIHIL
O ferrofluido incandescente da luminária do labirinto escorre nas falhas da parede. Não há ciência. Não há matemática. Não há razoabilidade. Não há motivo.
O líquido não são átomos. A luz não são campos. As palavras não são significados. A música não são ondas. O sonho não são presságios. A consciência não são máquinas.
O ruído cresce, mas não há padrão. Apenas cresce desordenadamente, fica mais e mais intenso, mais e mais agudo.
As portas todas levam aos mesmos lugares cíclicos. Estamos todos presos, confinados a assistirmos uns aos outros enquanto apodrecemos. Fechados os olhos, ouvimos os lamentos. Tapados os ouvidos, sentimos o cheiro de carne sendo devorada pelo ar. Usando máscara filtradora, ainda há o gosto de sangue podre.
Além das coisas, ainda há os insetos invisíveis que caminham entre os braços, sem se importar com a mais grossa das camuflagens.
Estamos todos condenados, e sabemos disso.
Não há mais nada senão o intervalo.
Dia 05 – Agonia
Os gritos continuam do outro lado da parede. Eu não consigo alcançar, eu não consigo ver, eu não consigo curar.
Alguém não consegue respirar, não consegue se mover, mas tem o dom de estar acordado para sentir cada pedaço de toda a dor.
Os gritos não param. Os gritos não me deixam dormir. Tudo me leva a crer que não é minha voz que ouço por todas essas noites.
Não pode ser minha voz. Não sou eu quem está gritando. Não sou eu quem pode estar gritando.
Dia 04 – Jogado às Traças
Não faz diferença alguma se eu abandonei o mundo. O mundo já nos abandonou faz muito tempo. O cálice das civilizações e o último poente foram apenas o telhado do grande mausoléu em que nos refugiamos para nos fingirmos de mortos enquanto o cemitério era sobrecarregado por cinzas durante a chuva.
Aos poucos as gotas de água começaram a derreter até as sepulturas mais sólidas. De dentro do mausoléu, vimos a água tóxica destruir tudo. O telhado nos protegeu e nos isolou do fim.
Agora não há mais fim. Não há mais começo. Não há mais meio. Não há uma História. Não há conhecimento. Não há texto, não há memória, não há voz.
Não há janelas que não apontem para um mundo deserto, ácido e morto.
Dia 03 – Culpa
Eu poderia muito bem ter salvo muitos deles. Eu poderia ter recalculado algumas das doses, e talvez sobrasse uma ou outra gota para uma artéria nova conseguir sobreviver por mais alguns minutos.
O desespero ao ver uma cabeça sendo afogada pelos próprios fluidos me fez sentir compaixão. Eu não deveria…
Eu também poderia ter mentido, para aliviar a sombria certeza do fim da estrada, e para disfarçar o muro de pedra que aguarda os olhos a quinhentos mil quilômetros por hora.
Eu fui a cafeína servida pelas entidades mais malévolas de todas as crenças.
Eu poderia ter desligado as válvulas enquanto era tempo, enquanto eles dormiam, e assim eles todos cairiam dentro do abismo dos sonhos mais sinceros… Mas não o fiz. Esperei que estivessem tão acordados quanto uma criança após beber duas xícaras de café e comer algumas barras bem doces de chocolate numa manhã ensolarada, e, então, contei toda a verdade.
Apaguei o sol que refletia na colina da ilusão, queimei os matos e os arbustos que traziam frutas, sequei todos os rios e todos os lagos e mostrei os peixes que agora já não serviam mais para alimentar sequer o mais faminto dos seres que vivem.
Trouxe a todos os escravos do fim do mundo a dose derradeira. Destruí todas as esperanças e terminei a parte boa daquilo que restava dentro dos circuitos cerebrais de cada um deles.
Eu falhei miseravelmente.
Prólogo Voynich – Hospital
A medida mais precisa é também a que mais angustia. O tempo corre entre os prédios e distorce até o mais sólido dos contornos, enquanto os giros amortecem a sensação do corpo consciente que questiona o porquê dos túneis tão velhos ainda existirem.
Levanta-se, das grades de um pesadelo, a escadaria para o lado avesso da parede desconstruída. Uma janela onde antes havia tijolo – um mundo inteiro afinado em outros tons.
Tentei olhar ao lado de fora, mas não havia mais o que olhar. A cidade toda desapareceu, em poucas horas. Os que conversam comigo nada são senão mortos. Todos nós estamos dizimados a derreter, a nos vermos em formas podres, caindo aos pedaços pelos chãos, arrastando-nos entre as grades… Não há o que fazer. Respiramos o ar venenoso da fissão dos átomos.
Estamos mortos.
Antes que minha face se desprenda de meu crânio, quero me lembrar de como sou. Quero me lembrar de como é cada fio de cabelo, quero me lembrar de cada arranhão e cada dor, antes que todas elas se juntem numa somatória do purgatório. Um pouco antes do fim, quero conseguir ler – se ainda meus olhos estiverem em suas órbitas – sobre um pouco desse tempo de ontem. Eu mesmo amanhã não vou ser nada senão uma massa em decomposição acelerada. Um monstro.
Os pacientes, todos, também estão mortos. Alguns foram poupados de saber. Outros já tem a certeza – mesmo que nada lhes tivesse sido dito.
Há, neste complexo, cerca de cento e trinta leitos, divididos em sete quartos. É uma matemática absurda, mas os quartos são suficientemente grandes. Há mais de um mês o cheiro de vômito ficou impregnado até nos salões mais limpos. Talvez o vômito tenha entrado em mim, de alguma forma. Talvez os insetos sejam uma alucinação do meu asco. Talvez as paredes grossas que se esfarelam há tanto sejam apenas uma metáfora das minhas vistas…
Os pacientes são como iscas de eletrodos. As máquinas, as bobinas, os motores passam por pescoços, e por pés, e por fluidos, e por infecções e por ninhos de baratas, e entram nas paredes, e saem pelas janelas… O cheiro do metal enferrujado se mistura com o cheiro da doença, com o cheiro do câncer, com o cheiro da ferida que não cicatriza, com o cheiro das tripas que se enojaram do corpo que habitavam e foram expulsas por si próprias em frente a todos os outros em meio a uma tarde ensolarada quando ainda havia Sol…
Um giz, ataduras, álcool, óleo e um pouco de luz carbônica tentam, em vão, distrair-me nessa longa noite que se aproxima, mesmo que ainda sejam três da tarde.
Não há luz além da lamparina. Uma nuvem se estendeu pouco depois de todos fugirem. Uma sirene gritou por metade de um dia, antes de ser jogada apenas aos ecos. É como se tudo houvesse se transformado de repente – uma parte de mim viu o que aconteceu; outra parte tem certeza que tudo foi uma alegoria.
Rádios não funcionam. Diálogos não se encaixam. Há apenas nós, mortos, e os insetos que haverão de sair das tocas quando todos dormirmos distorcidos, derretidos.
Antes que eu me cegue, quero me lembrar de como eu era ontem.
- L. Grlnd; PRYPIAT, 9-13/Sh
Uma nova paleta se estende quando a luz lapida o mundo. Cada espaço conhecido se torna um fractal novo. Tudo – um grito.