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A Raposa e o Risco – Fábula a Dorian G. L. Maison

Era uma vez uma raposa muito esperta. Sua reputação percorria todas as florestas, até além de onde a vista consegue alcançar. Suas peripécias eram admiradas, comentadas, adoradas, detestadas, reinventadas por toda sorte de criatura, desde a mais astuta das abelhas até a mais lenta das tartarugas.

Certa vez, uma árvore nova cresceu em meio a floresta onde morava a raposa. Foi do dia para a noite, como num passe de mágica. Os frutos, tão verdes, pareciam saborosos; todos, no entanto, tinham receio de que fossem venenosos. Em pouco tempo, as criaturas todas, cada uma em seu grupo, começaram a arquitetar como descobrir se os frutos novos eram ou não perigosos; além disso, começou-se a pensar, em todo arbusto que havia, como escalar tal árvore – havia espinhos, embora bem camuflados, como descobriu o Sr. Coiote numa de suas inspiradas tardes.

Mas a nossa amiga raposa não tinha grupo. Suas idéias, seus métodos, eram mal compreendidos entre a população da floresta. Ninguém gostava de se manter muito tempo ao seu lado, devido a sua aparente loucura. Ela, portanto, tentava sozinha desvendar o grande mistério dos frutos verdes.

Eram manhãs e mais manhãs – a raposa largava seus compromissos para se dedicar ao pensamento. Tardes e mais tardes – e deixava de comer as outras frutas da floresta, que a alimentavam de forma tão fácil até então. Eram noites e mais noites – e se expunha a todos os tipos de predadores invisíveis que pudessem habitar até os mais sinistros dos pesadelos. Eram madrugadas e mais madrugadas – e se privava de um bom sono, e não se importava com o cansaço extremo, nem com as doenças que a falta de descanso traziam, nem com nada assim.

Via o Sol nascendo, e não se importava de já estar acordada há tanto. Era como um matemático grego, obcecado por encontrar sua resposta, mesmo que tal tarefa parecesse, aos olhos comuns, tão exagerada.

A floresta era repleta de frutos, ervas e água pura. A raposa, no entanto, tinha uma fome descomunal por sua própria dúvida.

Num belo dia, correu entre todos os arbustos e todos os formigueiros a triste notícia para a raposa, que duvidou – como sempre – até o último segundo, antes de ver com seus próprios olhos: a árvore não era mais desconhecida, tão pouco o gosto dos seus frutos verdes.

Numa tarde comum e entediada, o jovem guaxinim e o velho coiote encontraram um caminho à raiz da grande árvore, e conseguiram apanhar alguns de seus frutos, e dividiram irmanamente, e disseram que era doce como a folha de hortelã, mágico como a erva do absinto.

Era o fim da linha para a pobre raposa. A floresta e todas as criaturas encontrariam qualquer outro mistério para comentar, depois disso.

Nossa perspicaz amiga, no entanto, se recusava a acreditar que a árvore era só aquilo. Não podia ser. Depois de noites e noites de lamento, lágrimas, pesadelos, ela decidiu continuar sua busca. Pouco importava o que o guaxinim e o coiote diziam ou haveriam de dizer. Os olhos da raposa eram só dela, e assim também eram suas vontades. Ela continuou se privando de qualquer descanso. Não pararia até comprovar por si mesma como era o gosto dos frutos verdes da árvore das árvores.

Num natal, a floresta era permeada por comemorações. Todas as criaturas trocavam presentes, abraçavam-se, cumprimentavam-se, pouco percebiam a falta da raposa.

Ao centro da floresta, lá estava ela, tão explícita e isolada, junto com a árvore. Havia preparado uma bugiganga com os restos de cipó que encontrara perto da sua cama, e trouxera presentes – à sua maneira – para a árvore.

Não tinha muitas coisas a raposa além de sua imaginação: um cacho de uvas bem doces de uma torre negra distante, uma rosa cheia de espinhos e um pedaço de barro endurecido que trazia uma marca de sua pata, que fizera e guardara com tanta estima quando era mais jovem e tinha mais brilho nos olhos.

Perto da noite armou suas gambiarras, e começou a subir. Depois de quase cair sete vezes, e, com muito esforço, retomar o equilíbrio, uma grande chuva caiu sobre a floresta. Não se sabia de onde haviam chegado as nuvens e os raios e tanto frio. As árvores mais fracas caíam umas sobre as outras, destruíam ninhos, esconderijos, despedaçavam-se.

Num momento sublime, a árvore das árvores, como estivesse abraçando a raposa, lançou um de seus galhos e criou um tipo de ninho para nossa astuta aventureira. Lá estava a raposa, abraçada com a árvore, surpresa, na noite de natal, enquanto o mundo do lado de fora ficava mais e mais imerso na tempestade.

Dentro do abrigo, o clima era perfeito.

Enquanto o guaxinim, o coiote e talvez até outras criaturas mais curiosas devoravam os frutos mais próximos da raíz da árvore, a raposa ficou em seu abrigo improvisado por muitos meses, provando por si mesma os frutos verdes que cresciam lá no alto, e se convencendo de que, se fossem venenosos, valeriam as futuras doenças.

Para a raposa, os frutos verdes eram muito doces para serem venenosos.

Depois do décimo segundo mês, a raposa e a árvore eram como uma só criatura. A raposa brincava com as folhas, os galhos, os frutos e as sombras; a árvore ria, em silêncio, como se as peripécias da raposa fizessem cócegas em seus troncos.

Quando chovia – e tempestades não faltaram naquela floresta – a raposa sabia que podia se aconchegar em seu abrigo entre os galhos. Quando fazia frio – e os frios eram daqueles que nos fazem ranger os dentes e nos trazem vontades incontroláveis de beber chocolate quente – a árvore tinha a certeza do calor da raposa.

Num segundo, tudo pareceu mudar.

De repente, a raposa começou a sentir espinhos que antes pareciam não existir. Conforme andava por galhos que pensava conhecer, machucava-se, torcia as patas ao tentar desviar, sentia calafrios estranhos – parecia que a altura, que nunca a havia incomodado, agora causava vertigem.

Num dia, a raposa desceu até as raízes, enquanto toda a floresta dormia. Queria ver como as coisas estavam, queria encontrar de novo todos os motivos que a fizeram trespassar tantas madrugadas até chegar em seu abrigo na árvore. Queria sentir o cheiro e o gosto do mundo de fora, para se lembrar do porquê preferira viver no mundo de dentro.

…Mas o rumo das coisas nem sempre é uma linha reta. Quando numa noite, cansada, a raposa quis voltar ao seu abrigo, por algum motivo sentiu medo. Olhou para as raízes da árvore das árvores, e elas causaram medo. Olhou para cima, e os galhos pareciam labirintos cheios de espinhos e criaturas invisíveis. Os sons pareciam querer afugentá-la, os cheiros pareciam querer espantá-la, as frutas verdes mais baixas eram tão azedas…

A raposa, imersa em seu medo, correu, correu para bem longe, e sabia que a floresta não sentiria sua falta. A raposa correu, e correndo a tristeza passou a fluir com cada gole de água que bebia no meio do caminho, cada pedacinho de fruta que roubava das outras árvores. Nada mais parecia fazer sentido, para onde quer que olhasse.

Depois de um longo inverno em que a raposa jogou toda sorte de jogos de azar com a própria fome, os raios do começo da primavera colidiram contra a árvore, e a mostraram em sombra na parede da toca da raposa.

Numa manhã, o desenho inconfundível na parede de pedra devolveu um pouco do brilho dos olhos da raposa, e ela, numa estranha certeza, estava decidida – iria caçar a sombra, o que quer que custasse.

Caçar sombras, no entanto, é muito mais difícil que caçar borboletas.

A primavera irradiava cores e mais cores pelas florestas. Seguindo a sombra e o instinto, a raposa se deparou com a árvore das árvores, ainda mais alta, ainda mais esbelta, ainda mais imponente.

Querendo ver como estava seu abrigo, nossa amiga tentou num pulo alcançar um galho mais alto. Estranhamente, o galho parece ter desviado – e a raposa caiu ao chão.

Sem conseguir pensar em desistir, a engenhosa raposa armou uma das suas típicas bugigangas para escalar a árvore. O equipamento, no entanto, não conseguia se prender. Ora quebrava um galho velho, ora escorregava num galho novo e derrubava a raposa.

A raposa, toda vez que caía, observava um detalhe novo na árvore das árvores, uma nova cor, um novo caminho, mas nada podia fazer. As lágrimas pensavam em se ajuntar nos olhos, mas tinham muito medo. Tinham muito orgulho para simplesmente transbordarem assim.

Sem maiores alternativas, nossa adorável errante construiu um abrigo à sombra da árvore. Era o mais próximo que conseguiria ficar. Um dia teria a idéia genial para voltar ao seu velho abrigo; enquanto isso, via outros muitos animais devorando as frutas verdes que nunca se acabavam, mas não importava. Ainda as frutas teriam outro gosto nos dentes da raposa.

Numa tarde, um estrondo acordou com um susto a raposa. Não era trovão, mas era como se fosse. Um trovão num dia sem nuvens.

Espreitando o lado de fora, a raposa viu uma máquina. Dentro da máquina, uma criatura esquisita, incompreensível, cheia de fumaça, ferro e roupas laranjas. Num manusear eficaz e mecânico, começou a cortar a árvore das árvores.

Conforme a serra entrava, conforme o pó de madeira voava para todos os lados, a raposa ficava mais e mais desesperada. Enquanto a floresta apenas contemplava, solene, acuada, a raposa tentava escalar pela última vez a grande árvore, provar pela última vez um dos frutos lá do alto, ver pela última vez seu abrigo, despedir-se, mostrar a ela que ali estava… Mas tudo foi inútil.

Numa das trovoadas, a árvore das árvores despencou, violentamente, contra o chão da floresta. Um dos galhos, que, como reconheceu a raposa, eram do seu abrigo, caiu sobre sua testa confusa, deixando uma marca branca. Um risco entre os olhos, uma lembrança de suas memórias.

A árvore das árvores não parecia triste, sequer melancólica. Seria transformada agora em lápis e papéis, que haveriam de contar novos contos, escrever novas cartas. Conheceria o mundo, sentiria ares de todos os lugares. Não importava que poderia ser qualquer coisa desde que não pudesse ser árvore. Assim era para acontecer, assim aconteceria.

A raposa, por outro lado, não queria se conformar. Haveria de roubar papéis e lápis de todos os lugares do universo para reconstruir seu abrigo, antes de perceber que era uma missão sem sentido algum. A raposa não sabia escrever, não sabia fazer dobraduras, não sabia esquecer.

Em nada o gosto de um papel iria se assemelhar ao da fruta verde de outrora.

O risco em sua testa a lembraria de tudo, e a lembraria sobre como são desenhadas as nuances da realidade. Apesar do mundo continuar, a raposa bem sabia que ali no meio da floresta, em seus sonhos mais nostálgicos, haveria um abrigo. Um abrigo no topo de uma árvore que não mais existia.

Num capricho do acaso, num momento inesperado, a alguns pés de altura, numa noite clara de lua cheia e sem nuvens, uma coruja desastrada deixa cair de seu bico uma semente.

Relógio Fotográfico – Penhasco Velho e Café Novo

O Relógio despertador parou bem em frente à minha luminária, às cinco horas e quarenta e nove minutos da tarde do dia dezenove. Percebi muitos minutos depois, provavelmente depois das seis. O tempo que passou, eu destinei a contemplar as almas todas que conheci na rua próxima à trigésima segunda.

Compartilhei como se compartilha o mate. Não era mate. Era dor.

Compartilhei com alguém que fui há várias décadas, através de uma antiga fotografia. Senti todos os pesares do passado remoto e recente, de uma vez. Não há o que posso dizer, senão apenas que doía como as agulhas do arrependimento.

Eu gostava tanto, e não podia ver. Eu nunca pude ver, eu nunca fui suficientemente digno para ver. Antes eram as bebidas, mas mal sabiam os juízes todos que o combustível do álcool não é o mal que me movimenta, mas a angústia que me sufoca. Mal sabiam os juízes que o que destruía não era meu coração, mas as leis, que sequer eram do mundo.

Depois do passado velho, veio o novo. E então meu pescoço era o pecado da sinceridade. Sei, e sei há tanto, que o sistema da civilização não permite a sinceridade. Não é educado pensar, não é de boa vista admitir o egoísmo e a hipocrisia. Antes de contar minhas versões, devia tê-las mandado a alguma censura. Algum censor sabe sempre contar melhor a história que o original autor… É assim que o sistema funciona.

Antes do café, foi meu filho que me foi tirado das vistas. Que sobraram foram apenas meras fotografias em mau estado. Eu o via como o sentido de minha existência, o porquê de cada dia ser ensolarado para meus pensamentos complicados. O resto todo da família, por outro lado, tinha medo. Uma criança não deveria ficar exposta tanto tempo a alguém que se recusou a perder o brilho dos olhos, a alguém que, mesmo havendo piso concreto, gostava de se sentar próximo aos barrancos e aos penhascos. É perigoso demais expor uma criança às vistas de todos os horizontes, então era melhor que meu filho pouco me visse.

Aos dias verdes, quem me era proibida era senão a mulher entre todas as mulheres. Conheci-a durante uma tormenta, dentre escadarias. Protegíamo-nos da chuva do lago. Dançamos silenciosamente através de todas as folhas e todos os gostos e todas as línguas, até as mais ásperas. Eu nervoso, anestesiado por dentro, com tanta ebriedade das ruas silenciosas. Ela certeira, direta, matematicamente eficaz. Erro, o pai de todos os acertos.

Aconteceu que eu sempre soube – e saber de tudo é um atalho bastante convidativo para a ruína de não se saber de nada – que o caminho dela já era traçado pelos mesmos juízes de outrora. Eu não constava nas três vias das duplicatas e das completezas e não tinha dinheiro para comprar alianças ou pratarias; eu não podia ser o futuro, eu não podia ficar muito próximo daquela que me fazia ver as cores, eu era muito egoísta para merecer as cores, e admiti minha condição.

Admiti a mim mesmo o que eu era, e o mundo voltou a ficar cinza.

Como podemos investigar a natureza das coisas com tanto afinco quando as respostas estão todas tão claras? Por que nos preocupamos em olhar a escuridão quando há tanta luz do lado de fora da janela? Por que a dificuldade das coisas parece sempre ser tão programada para massacrar a lógica mais simples de como o ser humano é por dentro de si mesmo? Quando as raízes do grande polinômio da existência são reveladas, não vejo motivos para descartar uma apenas por ser o oposto d’outra. Um sinal geométrico não pode ser mais bonito que outro. Eles se completam; não parece justo haver política até mesmo nas matemáticas.

Eu, no entanto, não sou um bom orador da justiça, posto que em muitos casos vejo a injustiça como sendo muito mais humana que uma suposta igualdade que faz sentido tão somente em discursos platônicos do século vinte e cinco, fora da realidade pacata do que somos de verdade.

Nos passados todos não pude ser o que sempre tive vontade de ser. Perdi meu filho tão amado e a mulher que colocava eixos coordenados perfumados e calorosos em meus passos bêbados perdidos. Nenhum deles morreu, e não haverão de morrer. Eu não os daria tal conforto, e a vontade de um é a vontade dos céus, mesmo que os céus sejam só de dentro da cabeça de uma alma solitária. Eu, por outro lado, fui levado até o asilo e à cidade grande, porém vazia.

Eu deveria ter sido esquecido, mas nem meu filho e nem minha dama jamais conseguiram se esquecer do que havia em meus olhos. Meu filho entendeu o porquê de eu gostar tanto da proximidade dos precipícios. Ele percebeu que só assim era possível contemplar melhor o horizonte do mundo.

Minha dama, e só minha, entendeu que o que é de todos acaba não sendo de mais ninguém. Entendeu que as letras de um são só as letras de um, e, mesmo que alguém as copie, não há como copiar uma idéia e mantê-la original. Uma vez feito, não pode ser desfeito, e a revolução não mora na reprise da História.

Apesar da terra, eu vivo. Apesar das palavras, eu escrevo. Apesar do mundo, meus olhos brilham.

 - A. Guinelli; Iberia 1921.

O Deserto Embaixo do Rio – Abismo 7

As pedras se afastam, mas eu não vejo nada porque tudo é muito escuro. A montanha se abre bem em frente às minhas sensações todas, enquanto a casualidade da lógica universal chacoalha os lençóis que constituem o tecido fino da realidade – nos ventos quentes, cobertores demais são incômodos.

As pontas se debatem contra as paredes, a poeira é espalhada; num instante pequeno, os entrelaces do pensamento revelam um pedaço de mundo desconhecido, obscuro e incerto.

Falta água nos rios sinápticos. O deserto tem desenhos que não se apagam, mesmo depois de tanto tempo inundado. Chaves douradas e sujas, conchas anciãs, riscos matematicamente coerentes, mensagens criptografadas, espaçoportos secos, prédios antigos de civilizações anteriores ao começo da História. Tudo se revela quando falta água e vem o tempo seco nos rios fluentes da imaginação.

Dos planos que se debatem contra a parede do universo surgem as lógicas mais complexas que um humano já pôde experimentar. Tempo e causa se confundem num momento de confusão causado por uma estranha mudança brusca de paradigmas – um estranho conjunto de oposições que se formou das areias que haviam se acumulado no lençol da percepção.

Caminhando pelo rio seco que há dentro das fendas, contemplo o abismo, esperando o colapso da serenidade em qualquer minuto – o momento exato em que a linha reta do horizonte haverá de se transformar numa senoidal

Espero que o líquido do caos jorre para cima dos céus e volte a inundar o rio, como fosse uma fonte insólita de existência – como se a água surgisse do fundo do abismo infinito, contrariando toda a matemática vigente.

De frente para o abismo da lógica contemplo a serenidade incerta do infinito que se forma quando os lençóis são chacoalhados pela casualidade. O rio seco aguarda o colapso para matar a sede dos erros.

Ao longe, uma nuvem se aproxima.

- K. Montserrat, 1873

Ilha Secreta – 3AM

Cavalguei até minha sepultura e desarranhei um monólogo a me ver cravado e resumido em palavras numa lápide do cemitério mais secreto dos confins da cidade das árvores.

Uma caminhada sinistra que me levava a mim mesmo, e eu sabia. A noite, as estrelas e os fantasmas, nada daquilo existia senão dentro de mim mesmo, assim como as estradas sombrias e as árvores feitas em galhos de artérias rumando ao além dos limites da ótica.

Descobri através dos ruídos e dos chiados descontínuos um pedaço apagado da minha existência. Um conjunto musical, uma grande banda que cantava em instrumentos sobre o México, sobre minhas mulheres, sobre as partidas – e havia uma quantidade notável de músicas sobre as partidas -, sobre os casamentos – que assistia de frente à igreja, enquanto lamentava com meus copos de água que fingia ser vinho -, sobre as desistências – as constantes e as variáveis -, sobre os jogos e sobre as matemáticas do mundo que me vi criando nos últimos momentos antes das nuvens se abrirem logo adiante de minha realidade.

O som indefinido, enigmático, simples e ilhado num oceano matricial de dons e composições acabou por me levar flutuando até um punhado de areia segura num novo mundo, onde tudo o que foi aprendido até então não era mais que cópia chula e grossa.

Por dentro das fitas magnéticas consegui recuperar os pedaços apagados, rabiscados, arranhados das memórias. Percebi a grandiosidade dos minutos que se tornaram horas, dias, meses, anos, e perduraram como curvas no tecido das coisas que caem nas cabeças dos pensadores.

Ela, a percepção, sempre se vestia muito bem. Os vestidos, no entanto, por mais resistentes que fossem, sempre deslizavam, como estivessem derretendo em lascívia, ao chão do quarto quando ela se sentia bem acompanhada numa madrugada. Lá estava eu, perto do final do começo, com meus olhos mais abertos e meus pulsos mais frenéticos dentro dos dedos.

Das árvores ressecadas, dos plásticos antigos, dos móveis desordenados num cômodo gigantesco e sem luz alguma, o cheiro do perfume das décadas emergiu e me levou de volta ao cemitério, num lugar afastado, completamente alheio às cadeias, às igrejas, às escolas e às fazendas. Era o meio do meio do nada, mas lá estava eu, numa pedra, escrito, para que eu mesmo pudesse ler.

Li cada palavra em voz alta, embora não houvesse ninguém – embora até não houvesse espaço ou tempo bem definido depois dali – e caí quase desfalecido, enquanto sentia o mato entrando por minhas narinas; a terra começava a me consumir de novo, me convidando para a nova noite e para o novo dia. Ali estava o convite para o banquete dos que sempre sentiram fome.

As palavras se condensaram, e pude encontrar uma parte apagada de mim mesmo, enquanto afundava na terra que fazia crescer árvores ressecadas que se pareciam com artérias numa ilha afastada da realidade comum, rodeada por um oceano de percepções complexas e maiores que as palavras que posso descrever.

Falei comigo mesmo na sinceridade que só alguém que sabe que se esqueceu de uma parte da existência pode ter. Vi-me indo embora do cemitério, sentindo saudades das palavras todas que pude dizer a mim mesmo cravado numa pedra.

A ilha entrou por dentro da chuva, e derreteu em meio à vastidão das criaturas marinhas. A água voltou a molhar, o céu voltou a se fechar.

Às três da manhã voltei para dentro de mim mesmo, longe do continente secreto.

Observando o Lago Selvagem

Numa tarde infinitamente próxima, guardei minhas vontades para roubar lembranças do lago. Eu e meus aparatos tocamos a sinfonia da alma ao capturar feixes selvagens de luz que acidentalmente adentravam o receptor foto-sensível das minhas invenções.

Era uma tarde diferente. Não havia mais ninguém para atormentar as ondas eletromagnéticas, não havia ninguém para me fazer tremer antes de apertar o obturador, não havia ninguém para incomodar a música ambiente das águas calmas do lago fechado. Pude perceber cada peixe que saltava, mesmo que em minhas visões periféricas. Pude reparar em cada folha fractal de cada árvore, e em como a natureza é sublime – tão sublime que nos convidou, certa vez, a fazer parte dela, e mesmo assim apenas a contemplamos como algo alheio, e não como algo de que somos efetivamente parte.

Cada galho que cai, cada pássaro que não consegue voar, cada peixe engraçado que bate a cabeça contra o barco de madeira, cada acerto e cada falha, mesmo que longe de nossa percepção, são partes de nós mesmos. Tudo o que vemos, tudo o que roubamos, tudo o que pensamos e todas as palavras que não conseguimos dizer são tão sublimes quanto as euforias. As mentiras, as verdades, tudo converge para a existência eterna e incompreensível de nossa própria casa que tentamos compreender como vida.

Um pedaço do lago parece se ocultar dentre árvores, e lá talvez durmam – com olhos abertos – mais peixes, provavelmente os mais introspectivos, isto é, os que não batem a cabeça contra os barcos, mas sim contra as árvores e contra os outros peixes.

Minha máquina artificial também é parte da natureza. É uma mistura alquímica bem elaborada e genialmente encaixada em si mesma com o intuito de fazer o tempo durar mais segundos num pedaço perdido de papel que haverei de olhar, numa outra tarde, ao crepúsculo da existência, sentindo nostalgia por ter andado nessas tardes amarelas e silenciosas, e, ao mesmo tempo, com o pesar de não ter conseguido mostrá-las em toda perfeição pra mais alguém que não os galhos das árvores e o barco de madeira.

Mas, obviamente, até mesmo o pesar e a nostalgia não devem se anular ou entrar em conflito. Tanto quis o silêncio que acabei por apagar qualquer outro barulho… Talvez as músicas ruins sejam tão importantes quanto as boas… Talvez as mensagens simples sejam tão valiosas quanto as complexas…

Num pequeno momento de tempo, enquanto a infinidade do mesmo se mostrava no papel de minhas mãos fotográficas, não me importava com a dualidade das coisas todas, ou com o céu, ou com os peixes engraçados do lago. O que me fazia buscar as sombras nas fotografias era a necessidade de mostrar a mais alguém todo o universo que vive em pedaços tão pequenos de tudo, e, ao mesmo tempo, tão infinitos quanto esferas.

Dentro dos ecos da sala e da lareira que já quase encontra sua última chama, consigo ouvir a voz adocicada da guardiã.

A Torre de Vesúvio Atena

A torre mais alta já vista se erguerá à madrugada em que o quartzo disser a profecia. Os céus irão pulsar com os mensageiros finais; a Terra revelará seu coração espiral no berço do conhecimento humano; fogo dançará em lemniscatas de juízo. Aqueles que tentarem olhar para o ponto onde a torre toca o céu, perderão cada pedaço de memória.

Durante a calma do sono, os fragmentos de quartzo começarão a pulsar em ressonância, cantando a música do último dia e da última noite. Os que aguardam resposta deverão adiar o descanso para contemplar os últimos momentos da realidade acostumada; cada compromisso terreno será adiado quando as vibrações soarem como ecos dentro dos ouvidos dos profetas. Apesar da linguagem nova, todos entenderão cada verbo.

Das janelas os templos, os deuses de pedra e a luz que reflete pelas nuvens de uma madrugada tranqüila. O horizonte por trás do topo da montanha, as ruas e a inquietação das estruturas da própria existência. Não se observará sozinho a paisagem que aguarda o desmoronamento.

Ao repente dos goles de vinho, a torre se erguerá sem qualquer ruído ou alarde, como já estivesse próxima aos templos e aos deuses de pedra o tempo todo, desde o início, até o fim. A torre se estenderá além de todas as limitações da engenharia do universo, e tocará o céu. Apesar de infinita em altura, será da espessura de não mais que cinco aproximações de colunas jônicas.

Não é um bloco inteiriço e contínuo. Em vez disso, cada cilindro se mostra sobre outro, de espessura maior. Embora a progressão infinita, a mais alta das estruturas terá o mesmo tamanho da base.

Aqueles que tentarem contemplar o ponto onde a torre toca os céus perderão todas as memórias. Perderão as visões e a capacidade de discernimento. Perderão o dom da razão, da fala concreta e do discurso. Perderão as doenças, mas também não procurarão as curas.

Enquanto os sem passado estiverem ao desespero silencioso de não saber que sensação é a de não se lembrar de nada, os mensageiros celestes pulsarão por trás das nuvens da noite, com o brilho de dois mil sóis que se movem a velocidades que distorcem a própria travessia da luz. O tempo passará a se condensar e a correr em ritmos não ortodoxos. A confusão se instalará em todos os alfabetos e em todos os templos.

Durante a confusão da humanidade, a Terra abrirá seu peito e revelará seu coração espiral. O manto quente, pulsante e rubro sairá do chão e se levantará em lemniscatas e helicoidais de Arquimedes, e dançará com todos os níveis da torre, enquanto envolve cada curva e sobe até o firmamento, levando a mais sincera das justiças.

Apesar do medo e da confusão, nenhum dos que estiverem aos pés da torre serão atingidos pelos blocos que descerão das nuvens. Nenhuma casa justa perderá seu teto, e nenhum inocente acordará assustado. Apenas os escolhidos deverão contemplar a solidificação da torre e a revelação da Terra. Os que tentarem alcançar o céu com os pés e com as escadarias, cairão e se rebentarão ao chão duro, sem poder ver o coração do mundo.

Depois da noite das noites, cada poente solar será entendido como a dádiva mais sincera já entregue pelas mãos da maior das mães.

A Tangente

Em um instante muito pequeno da grande curvatura eu não vi o horizonte e trespassei por dentro da realidade. Vi os fogos e as luzes sendo puxadas, como disse o Profeta cravado na madeira flamejante naqueles tempos.

Por um infinito eu pude ver a verdade que nos recusávamos a enxergar quando as esferas celestes pareciam ser do tamanho do Universo, quando não podíamos compreender que o todo é constituído das partes, que os gritos são maiores que os átomos, que o tempo é maior que a volta.

Vi a constituição de tudo sendo condensada numa helicoidal livre de todas as areias e de todas as palavras formais e de todos os arcos. Todos os anos se passaram de uma vez, com a mesma intensidade somada, nenhum arcossegundo perdido numa lei sem sentido sendo rasgada diante dos olhos de todos, sem que a maioria pudesse ver.

Em um instante muito pequeno eu não vi que havia uma curva e um muro. Entrei por dentro do muro, vi as leis da física sendo desmanchadas e vi todos os livros se tornarem errados.

No instante de tempo em que fui presenteado com o erro, fui livre para o resto da eternidade.

O Ermitão dos Livros de Poeira

O ermitão procura dentre as pedras seu máximo erro e não encontra nada senão poeira sem distinção de idades ou fatos. Talvez não houvesse erro, talvez fossem os primeiros sinais da cegueira.

Tornar-se cego em meio à multidão de visões que se fazem com o por do Sol o é perturbador. Segundo os contos que por aí contam, seria mais brando perder as cores num tempo suficientemente curto a não se lembrar da existência delas.

Mas a caminhada tem pedras, e todas se deitam com as camadas lisas ao chão e as pontas apontando o céu e os pés. Pedras não sentem dor, tão pouco percebem que os ventos a transformam em iguais poeiras e areias covardes cheias de histórias inacabadas.

O ermitão fecha os olhos para se acostumar, e tenta achar um lugar a se sentar perto das águas. Sabe que já está numa ilha suficientemente grande, mas a água sempre pode se atormentar e beber até a mais seca das planícies áridas. Não é culpa das águas, nem das criaturas que fora dela vivem. As coisas acontecem como devem, e nem o vento mais rígido pode ser visto como um assassino por desmanchar lentamente as pedras.

Por algum instante perdido em meio ao próprio pensamento, o ermitão pensou nos demônios que o expulsaram da cidade. Não havia demônio algum, ponderou; ao menos não que fossem reais. Criara os próprios exércitos que seriam destinados a combater contra si mesmo, ferozmente, a fim de expulsá-lo de lugares por quais gostava de vagar e a brisa era agradável e o céu azul. As cidades se enchem de culpados, e nenhum é expulso; as cidades possuem criminosos, mas, apesar de presos, permanecem dentro delas, comendo os pães e bebendo as cervejas; as cidades possuem mal-vistos, e tão pouco eles se desprendem das ruas. A cidade pode até possuir covardes, mas estes raramente percebem a própria contradição e continuam a andar como nada tivesse acontecendo.

O porquê de o ermitão ter sido expulso, mesmo que por si próprio – ou quase isso – da cidade que considerava o oásis em meio ao deserto, continua um mistério.

Chuva e Trovões na Praça do Julgamento

Chovia e trovejava.

Naquela noite obscura, entrei na espiral de minha própria vergonha. A praça parecia uma floresta fechada e cheia de criaturas sombrias, cinzas, verdes e pretas. O verde era bem escuro, cada banco estava úmido e cheio de folhas. Eu estava sendo observado, mas não via por quem. Nem sabia por que alguém se daria ao trabalho.

Deitei num dos bancos e percebi, lentamente, formar-se à minha esquerda uma casa, como que erguida do meio da relva molhada, por vigas que não sei de onde surgiram. Maciça, branca e velha. Estava lá há eras, mas estive ocupado todo esse tempo a ponto de não vê-la.

Assim foi, inclusive, como aquela moça que passara ao meu lado na feira. Procurei-a por toda a vida, e, concentrado em achá-la, deixei de vê-la quando passou ao lado, com suas sacolas e seu vestido vermelho.

Era sublime pensar em sua voz. Arrepiava-me além de todas as percepções que impus a mim mesmo sobre o que é a vida em si. Além da voz tinha um cheiro ímpar, bastante doce, enjoativo para alguns, mas não para mim.

Sabia sobre o que conversar, e dominava as linguagens perdidas dos monges do oriente, e desenhava a própria imaginação em traços inocentes que acabaram por pintar todas as cores que faziam falta no meu mundo monocromático.

Claro que ela não sabia disso. E eu também não sabia como eram bonitas as cores antes de derramar solvente sobre minha própria barriga, acidentalmente.

É provável que as cores jamais voltem, e os desenhos inocentes tão pouco. Agora o que se fazia sobre a parede do meu quarto era, senão, quadros impressionistas, distorcidos, como um conceito tão obscuro que resolveu se curvar, tal qual ferrugem, sobre o substrato da minha dor.

E ela também carregava cestas, e vivia em campos, embora eu saiba que não se tratava da Arcádia outra vez. Era parecido, mas como se a Arcádia fosse real, menos idealizada, em termos, e menos exagerada. Tão palpável e tão angustiantemente real…

A cada dia eu olhava os desenhos retorcidos e decidia que iria achá-la em qualquer feira de qualquer antigo feudo de qualquer lugar entre os mares e as luas. Qualquer que fosse a montanha, se ela estivesse lá, eu iria procurá-la.

O tempo chega a ser como uma refeição. Mal percebia que já havia se passado mais de dois ou três anos desde que decidi que ela existia. A barba já era sobressalente em minha face, assim como cabelo estava mais assustado por tudo que havia já presenciado, e as roupas, e os rádios, tudo. Era uma enganação e uma perdição, e eu sabia.

Embora árduo e lambendo as margens da impossibilidade, eu ainda acreditava, e olhava para cada nova rua abandonada esperançoso por achá-la jogada, desolada, com lágrimas secas decorando, como maquiagem, a pálida e temerosa face, esperando só por mim, o único que iria confortá-la naquele mundo de sombras e radiação acima dos níveis tolerados por qualquer ser que vive.

Hei de achá-la.

- Q.E.D.; PRYPIAT, STNK, VDL, RVNB, 191781:4812.

Mas a casa parecia vazia. As janelas estavam fechadas, escuras. A fachada, branca, já mostrava as marcas do tempo. Parecia algum tipo de catedral, mas duvido que algum tipo de santidade iria gostar de passar por ali as noites, naquela chuva. Quem sou eu, entretanto, para falar com tal autoridade sobre santidades… Sou só um pecador.

Não era uma chuva calma.

Cada trovão caía três vezes ao mesmo lugar, e todos eles pareciam muito próximos de onde eu estava. Astuto, escolhi como refúgio um lugar seguro numa tempestade, sob a copa de árvores.

É como se cada um dos relâmpagos tentasse me alertar de onde eu estava, e que não era sensato estar ali por tanto tempo. Mas esqueci-me da linguagem dos raios e continuei andando, em minha embriaguês, até a porta velha da casa velha.

Ninguém respondia às batidas. A porta rangia, mas não era por vida, e sim por velhice. Talvez não houvesse ninguém mesmo, com exceção daquela que com certeza estaria. Eu não queria vê-la, e ela não queria me ver.

Entrei à casa mesmo assim e vi como ela parecia pequena, embora gigantesca, por fora, a partir do momento que olhei por dentro.

Os galhos e a relva úmida de fora estavam presentes nos corredores abandonados de dentro. Uma leve luz, talvez de postes, clareava um pouco cada canto, e eu podia ver, embora não muito, como era o local.

Tudo parecia maior e exagerado. Havia quartos que eram tão grandes quanto casas inteiras; vazios, esperando por alguém a habitá-los, preparados para aqueles que viriam depois, e todos eles pareciam ter se perdido num caminho escuro, rotativo, de pensamentos circulares e estradas de barro em beiras de rios flamejantes do próprio medo de respirar.

A cozinha parecia familiar – facas jogadas ao chão, marcadas, manchadas, um rubro apagado e seco que ou era de tomates ou de sangue, tanto faz. Apesar das lâminas, não pareciam pertencer a uma assassina, mas sim a alguém que, mergulhado na piscina do desespero, acabou por se cortar todas as noites para se lembrar de que a dor física também existia. Armários de madeira, rotos, apodrecendo perto da escadaria que levava para baixo de um térreo que se encontrava no terceiro andar.

Continuei a andar e percebi as texturas do chão, e, como de costume, aconcheguei-me cada vez mais ao calor do chão gélido e sujo de piso quebradiço com cheiro de incensos de cemitério. As serenatas estavam gravadas, uma por uma, nos buracos que se revelavam, como lepra, ao longo dos corredores.

Havia um quarto com chão e paredes azuis, menos abarrotado e menos sujo. Ninguém estava por lá, tão pouco. Apesar disso, parecia estar esperando ainda mais ansiosamente por algum morador único, mas não havia ninguém. Eras e eras de espera, e ninguém viria.

Ninguém poderia vir.

Além da lepra da madeira, também havia outros buracos cavados, quadrados, no chão. Eram como gavetas, e provavelmente se tratavam de algum tipo de coleção de cofres num lugar tão comum que jamais despertaria qualquer suspeita por esconder valiosos papéis e jóias.

A cada trovejada, toda a casa infinita se iluminava, e a realidade parecia fluida – era como se o ar fosse mais denso, e eu pudesse ver cada distorção; parecia um tipo de camaleão que me grudara aos olhos – não os que vêem, mas os que percebem. Talvez, também, fosse algum tipo de bolha que criei em volta de minhas concepções, a fim de conservá-las. E me afogava, sem perceber, nas próprias águas serenas da realidade.

Uma sala escura, com bancos longilíneos de madeira. Também parecia ser local de muita e muita gente, mas só podia ver um vulto. Era um tipo de mulher, cabelo curto e loiro, magra, e a escuridão refletia o gosto de cada palavra que de sua boca ousava sair, ou ao menos que parecia sair de lá. Ela também esperava desde eras, e ninguém vinha – ao contrário dos outros, ela também sabia que ninguém haveria de vir, e que a casa fora construída por tanto tempo e sob prumo de tantas expectativas que jamais alguém teria coragem de se deitar num daqueles quartos tão majestosos destinados a pessoas tão comuns.

Na casa, o tempo parava. Trovejava, ainda, e a chuva continuava séria e tempestuosa. Não havia aquela que estava dizendo, assim como não havia ninguém na casa além de mim, e penso, inclusive, se havia mesmo casa, ou se fazia tudo parte de um cenário proposto por minha loucura, num provável momento em que caí no sono ao meio daquela praça radioativa cheia de árvores perigosas.

Podia ser, também, que os trovões eram meus. Não há quem possa provar que eu não estava pagando por meus crimes numa condenação elétrica, e que até a cidade era uma ilusão criada para mostrar minha própria jornada até aquela cadeira de madeira e ferro, até aqueles circuitos, fios desencapados, faíscas e aquele ser cinza, encapuzado, que, como carrasco, acionava a alavanca e fazia o tempo passar infinitamente devagar enquanto eu caminhava até o final do túnel, arrependido.

A condenação era um templo frio, como aquela casa, onde eu devia aprender as orações certas para expulsar os demônios que pudessem aparecer na forma de cães, porcos ou barulhos – não só em mim, como em todos os outros ventos. Os espetos do mar de brasa já tocavam meus braços, e eu deveria continuar descendo pela espiral e confrontar a forma mais crua de castigo, sem deixar de acreditar que há um final justo.

Um gosto do último gole de vodka voltou em minha garganta, e senti certo alívio. Era como se estivesse sendo abraçado por aquela moça que perdi na feira, vestida de vermelho, que esperava só por mim. Podia sentir seu gosto no gole já bebido de vodka, e, assim como a garrafa, só ela poderia me deixar tão ébrio.

Queria, antes de beber a garrafa, bebê-la em vermelho. Sempre gostei mais de vinho que de vodka, afinal.

É triste que só a vodka sobreviva a condições tão extremas de castigo.

A casa começa a se diluir, assim como minhas ilusões. Os quartos ventam por dentro, mesmo com janelas fechadas – sequer pude ver alguma delas, do lado de dentro. O sentimento de decepção e desapontamento paira sobre cada canto da casa, e, mesmo sem saber o porquê, eu sou um dos culpados. Também não sei culpado de quê. Não posso saber – só aceitar.

Uma multidão precisava de lar, mas a cidade já não podia abrigar ninguém além de mim. Até podia, em verdade, mas não havia ninguém com tamanho desapego às coisas boas a ponto de se contentar com vodka e pedaços velhos de civilização congelada e restos orgânicos.

Era a trinta ou quarenta minutos da rodoviária, e para lá eu deveria voltar e procurar em outros cantos do esgoto.

Lentamente eu fechei e abri os olhos, e não havia mais casa. Era eu, a relva por cima de mim e um cheiro deveras agradável de vestido vermelho.

Pensei ter visto um vulto, mas era só o vento em meu cabelo.

Caesar X

Era quente como o inferno, mas Caesar gostava da sensação gelada das tigelas nórdicas de água. Havia apenas uma forma de ficar acordado, e era dentro do profundo escuro; ninguém mais podia ver, nem ouvir, nem pensar. Lá estava ele, outra vez, no mesmo lugar… Embora fosse um lugar completamente diferente.

A fumaça havia voltado, depois de vários reinados transparecidos como a estatueta blasfema de uma santa. Porém o cheiro não era sólido como atomicidades cinzentas e sujas. Era um cheiro doce e inexplicável. Era de extremo bom gosto, e lembrava Caesar sobre várias noites embaixo de coqueiros artificiais das praias do futuro. Era de coloração roxa e odor doce.

Antes de ficar escuro, havia músicos. Eram diferentes dos bardos costumeiros. Estes traziam maquinarias a vapor, engrenagens, cristais, bastões mágicos, vidros de poções alquimistas, trovões enclausurados… Sentia Caesar que eram virtuosos, e traziam consigo mais cordas que um instrumento poderia conceber. As cordas vibravam distorcidas e ressonantes com a mudança do Universo e dos tempos.

Os tempos eram bastante diferentes.

Ainda antes de escurecer, chegou-se um velho conhecido. Parecia um traidor, mas não o era. Fosse, seria não mais que o próprio Caesar. Não havemos de tentar entender os entrelaces que ocorrem entre os seres antientrópicos. Havemos apenas de viver o que quer que seja, o que quer que seja para acontecer. E assim acontecia.

Ele parecia ter um bom coração, afinal. Ofertou, junto com sua dama, uma bebida a Caesar. Sentou-se este para conversar com eles.

Então o Sol se foi atrás das montanhas, e provavelmente fora apenas a primeira das magias de um dos virtuosos. Não havia lá relógios confiáveis, e notas musicais eram meramente relativas.

Depois de uma voz oraculosa conversar conosco em pensamento sobre o que de fato somos, começou-se a contar um conto. Era um conto longo, sobre um pesadelo. Um pesadelo que jamais deveria ser esquecido.

Então isso é o teatro dos sonhos, ela pensou. Parecia um lugar sujo, de verdade. Um lugar pobre, caindo aos pedaços, com tochas fracas e mal-cheirosas. Não havia por que se estar ali. Não havia. Mas ela precisava saber o que havia; já se passaram inúmeras estações, não era mais sensato se esconder por baixo de cobertas.

Havia algo a ser visto, e ela precisava ver o que precisava ver.

O cavalheiro perdido contou a Caesar que já se passara um ano. Caesar consentiu. Passara-se um ano a ele também… Era lamento, no entanto, que sua inspiração estivesse tão longe dali. Mas estava perto, como sempre, e ele sabia.

Depois de outro jarro de cevada, assentou-se à mesa o que usava chapéu. Estava sem chapéu ali, é verdade, mas suas retratações desenhadas jamais seriam diferentes. Aos doze anos, já lecionava em seu clã – era alguém devidamente notável, e gostava de conversar com Caesar. Parecia, de fato, que conhecia entranhas do pensamento, e sabia exatamente que caminhos fraseados tomar.

Conversar é como uma música a se tocar. Naquela noite, os músicos eram virtuosos, e assim pareciam as companhias.

Atrasado, chegou outro dos imperadores da Terra Nova. O último deles, e o mais louvável.

Escadarias, mas não levavam a um castelo. Era bem diferente de um castelo. Não ficava num lugar que pudesse um dia ser um castelo. Era tolice, essas fantasias são igualmente tolas. Os castelos dos livros não são como os castelos de verdade que se vê através da janela toda manhã.

Não havia porque uma mulher usar armadura. Ela não era uma mulher. Era quase, mas ainda não era. Resolveu se cobrir, apesar do calor.

Castelos de livros não existem.

Depois de contar sobre o pesadelo, o cozinheiro das dimensões tirou de sua capa um tipo de metal refletor. Faiscava, emanava raios verdes que se estendiam às paredes e emitiam barulhos incompreensíveis, caóticos e, ao mesmo tempo, de beleza inconcebível. As peças pareciam cair como acontecia nas terras distantes e geladas dos hunos, e caíam exatamente por dentro da cabeça de Caesar, uma a uma, buscando uma ordem, enquanto obedeciam as regras do desequilíbrio.

As peças podem ficar em ordem de alguma forma. Enquanto caem, porém, seguem senão o caos. Não é um sistema caótico, é apenas um sistema em caos.

Números emergiam, e Caesar compreendia o que disse o velho grego. Não era que toda a natureza fosse resumida em contas e cálculos e pedras. Era que tudo podia ser escrito em números, como fosse uma linguagem que transcendia.

Os virtuosos sabiam inclusive conversar por números.

Havia sido apenas um ou dois goles, mas já se sentia um pouco distorcida. Caminhava entre as pessoas, procurando o que devia ver, sem conseguir imaginar o que seria. Estava derretendo, mas precisava parecer comportada.

Do outro lado daquelas terras perdidas e desoladas, luzes riscavam o céu. Devia ser algum tipo de teste dos malucos chineses, mas não parecia tão agradável. Era bonito, visto de longe, assim como bonita parecia a Lua, tão redonda vista da torre da taverna.

Eram mais bonitas as luzes de dentro.

Caesar, depois de outra sinfonia acabada, subiu à mesa. Levantou o cálice de cevada e contou sobre como o espaço e o tempo eram um só, e isso de maneira extravagante. Contou que havia uma grande entidade que era o espaço e o tempo, e esta era um tipo de mulher, uma dançarina. Usava-se de um chapéu ornamentado por frutas, talvez falsas, e dançava músicas simples e, ao mesmo tempo, intrigantes. O espaço-tempo era uma dançarina, e ela parecia muito familiar.

Os virtuosos entenderam, como haviam de entender tudo o que seria dito aquela noite. O imperador da Terra Nova estava longe, mas havia também entendido. Ele tinha tarefas mais relevantes, como jogar.

O último imperador da Terra Nova gostava de jogar, e era um senhor deveras engraçado, porém bastante sábio ao mesmo tempo. E um tanto assustador, quando contava piadas. Disse sobre um quadrado que havia inventado, que emitia sons conforme o desenho formado. Ou emitia desenhos, conforme o som gritado. Tanto faz, era reversível.

Reversível também era a música que ecoava dos alquimistas. Era um druida, um cozinheiro, um ritmista de terras distantes, um canônico e um inventor de máquinas voadoras. O druida contava, embora dessa vez sem sua flauta, sobre as linguagens faladas. O cozinheiro usava seus utensílios transdimensionais para gritar sons imersos em caos organizados. O ritmista viera do continente do sul, e parecia ser um octopus em seus latões e peles de carneiro. O canônico não ria, não olhava e não dizia, apenas tocava suas cordas infinitas, cuidadosamente, precisamente, exatamente. O inventor de máquinas voadoras inventava máquinas voadoras que só fariam algum sentido depois de alguns séculos de hiato – os códigos do que futuramente seriam chamados aeroportos já haviam sido todos catalogados; pontos, traços, traços, pontos, música.

Andando entre a gente toda, ela pensou ter visto algo diferente. Era uma mesa, e nela conversavam quatro seres. Eram três homens de aparência respeitável, e uma moça. Todos pareciam muito mais velhos, apesar disso não ser tão difícil. O que acontecia, de verdade, é que a nova era ela. Talvez mais do que queria ser, talvez mais do que podia ser…

Mas não eram os três nem a moça que a despertara curiosidade. Era um dos três. Um que apontava e bebia e falava sobre universos distantes e cordas que vibravam e soavam como uma grande música do que é chamado de realidade. Era um tipo de conversa complicada, mas ela estava lá, ela deveria entender. Ela não estava lá aleatoriamente, e, por algum motivo, ela sabia disso.

O rapaz perdido e sua dama foram embora. Despediram-se. Caesar achou melhor ficar sozinho à mesa por alguns instantes, contemplando a introspecção. Desenhava, parado, linhas nas areias de um deserto que havia por dentro da consciência. Entrava dentro da própria carne, via tudo, como poucas vezes pôde ver. Talvez fosse a fumaça roxa, talvez as luzes, talvez as bebidas, talvez os alquimistas, talvez tudo. Mas tudo parecia fazer sentido por um momento bastante pequeno de tempo, e essa sensação era agradável a Caesar, apesar de ele saber que tudo seria esquecido na próxima manhã.

O que importava de verdade não era se o conhecimento seria guardado num lugar bem seguro, mas sim se esse conhecimento de fato existia. Naquele momento cheio de carne humana, Caesar percebeu que existia mesmo. Percebeu que o que sabia era certo, e que não estava perdendo a linha.

É provado através do tempo. E o tempo, como sabemos, é uma dançarina.

E agora ele parecia sozinho. Mas não estava de fato sozinho. Parecia na verdade que estava bem acompanhado, e tinha gente bastante interessante para conversar. Não seria ela uma perturbadora daquela paz que via no meio das músicas dentro dos olhos do tecedor das cordas da realidade.

Continuou andando, ela, entre a gente do local. Mas dessa vez ela sabia o que queria ver, e via. E continuava a ver, e não se importava se alguém percebesse que estava vendo. Era o que ela queria ver, e via. E via.

E ele não parecia perceber que estava sendo visto.

Percebia. Caesar percebia que estava ficando tarde e as músicas ficavam cada vez mais longas, e isso não era necessariamente ruim. Juntou-se à mesa de jogo do imperador e tentou caçar a conversa jogada ao esmo. Conseguiu, como de costume, e se entrosou nas bebidas que não existiam.

Era um remédio. Conversar com virtuosos sobre coisas novas e terras distantes era um remédio para a alma. Não havia atrito – era como uma grande mesa de bolas rolantes, perfeitamente lisa e polida e agramada. Perto ali deles, não propriamente junto com eles, havia outra moça. Parecia um tanto deslocada, não falava muito e era razoavelmente atraente.

Deixe ser, ela disse. E foi a única coisa que disse a noite toda. Misteriosamente, disse bem quando Caesar se aproximou.

Era, para ela, parecido com aquelas imagens que via todo dia no templo da montanha. Era bem parecido, na verdade. Conseguia imaginá-lo sem aquelas vestes nobres. Conseguia imaginá-lo quase sem veste alguma, sangrando, com flechas fincadas perto do peito, mantendo um semblante calmo e pacífico, segurando um livro e querendo dizer algo perto de uma árvore.

O calor parecia se intensificar conforme os pensamentos dela se desenrolavam por tudo aquilo. Era sinal de algo? Mas ela era tão nova!

Lembrou também que, tão longe quanto os malucos chineses, outro senhor dizia suas histórias à cidade. Eram histórias sujas, promíscuas, proibidas. Queria saber das histórias, era curiosa. Mas não precisava – ali estava ela, criando sua própria história suja, promíscua e proibida.

Endeusava o tecedor das ondas, e fantasiava com uma imagem endeusada. Era uma blasfema. Mas sequer tinha idade para ser blasfema. Quase não tinha idade para pecar, então por que sentia tantos turbilhões apenas ao olhar para alguém qualquer que jogava bolas rolantes com um imperador cômico e um professor de cereais?

Deixe ser, Caesar pensou, em silêncio. Bastante gente conhecida estava com pinturas de guerra e sinais na pele. Não entendeu muito bem, mas provavelmente sequer deveria entender aquilo. Deixe ser, estava escrito no ombro da moça calada.

Enquanto isso, ali à frente das mesas, o cozinheiro contou brevemente sobre suas musas. Caesar se lembrou de sua Musa Suprema, e sentiu que faltava algo na noite, e não era por causa da luminosidade da cidade que ofuscava o céu.

A musa da qual falava o cozinheiro era diferente. Ela parecia rastejar pelos compassos, e gritar por socorro, subliminarmente, em algum tipo de segredo.

O druida, enquanto falava o cozinheiro, bebia algum tipo de bebida amarga e forte, e realizava semblantes engraçados. O inventor de máquinas voadoras havia sumido, mas seu som continuava. Testes alquimistas de invisibilidade também faziam parte do espetáculo, afinal…

Era majestoso, ao contrário. E tão majestoso quanto a ordem correta. É inexplicável, mas tente imaginar uma sinfonia épica sendo apresentada em ordem reversa. Se a sinfonia for de fato transcendental, não importa a ordem, a velocidade ou até a nota. As grandes sinfonias sequer precisariam de notas.

Estava tarde. Precisava partir. Iria embora sem saber quem era aquele, sem saber seu nome, e levaria consigo por todo o resto da eternidade apenas um conjunto de fantasias que a faziam suspirar. Lembraria dele em todos os rapazes que conheceria em sua vida, e antes dela, e depois dela. Ela vira o que deveria ter visto. Queria ver mais, mas não podia. Queria apenas falar com ele, mas não podia.

Tinha de ir embora, e já estava sendo quase arrastada por seus protetores gigantes e brutos e cheios de martelos e armaduras. Andou à saída, e quase tropeçou em seus próprios pés. Continuou a olhar aquele ser das ondas e das cordas da realidade, e continuou a suspirar. Ele não parecia notar, de fato. Os olhos dela brilharam, e ela desceu as escadas.

As noites comuns também se faziam presentes naquelas músicas que ecoavam pelo salão. Era uma sensação única. A mesma sensação refletida por aquelas noites agradavelmente geladas e azuladas e estreladas, onde o céu se misturava harmoniosamente com os prédios e as luzes artificiais, tudo visto de cima do castelo de verdade.

Havia, afinal, três tipos de castelos – o dos livros, o da realidade crua, e o de verdade. Ela gostava de subir até o alto do terceiro tipo e ficar contemplando a cidade.

Um dia perceberia que está mais próxima do tecedor da realidade do que poderia imaginar. Um dia olharia ao redor quando estivesse ao alto do castelo, e realizaria que está acompanhada por todas as suas fantasias.

Na última nota do piano do cozinheiro ela foi embora.

A música cessaria logo, disse o imperador. Caesar também consentiu, já estava ficando com sono. Por surpresa, os alquimistas ofereceram a todos da mesa do imperador aquela última sinfonia. Ela dizia que cada respirar deixava a morte cada vez mais próxima.

Caesar sabia disso, e talvez todos ali também soubessem. No entanto, o modo como os alquimistas diziam era poderoso e introspectivo. É estranho algo ser introspectivo quando falado por uma terceira pessoa, mas costumava funcionar.

Era uma introspecção conjunta, e talvez por isso ninguém se sentisse sozinho.

As linhas na areia continuavam a se desenhar, e Caesar precisava partir. Acordou seus criados e partiu, sem conseguir se despedir honrosamente do imperador e do professor.

No caminho de volta, uma sensação estranha pairava. Era uma mistura de bastante coisa. Eram cenas que vinham desde a preparação do ritual, desde os trovões guarnecidos, desde as bebidas, desde o pseudo-traidor, até os errantes que se amontoavam para ver o rosto de Caesar. Não sabia o que tinha de tão ímpar, mas atraía aquela gente. Eles não pediam dinheiro, só queriam apertar-lhe a mão.

Mas a sensação ia além disso tudo. Caesar sentia que havia alguém com ele, pacificamente. Alguém que o observava, de alguma forma, em algum lugar, talvez dentro de alguma das construções que se faziam ao horizonte.

O conhecimento provavelmente se diluiria com o fluido etéreo da Estrela da Manhã após algum sono, mas era pra ser assim.

Havia uma natureza que se desprendia em escalas que não podem ser vistas. Os números, os pentagramas. Tudo seguia uma ordem de beleza embriagante.

Houve algo notável aquela noite, e Caesar haveria, um dia, de descobrir o que tinha sido.

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