Arquivo da categoria: Vômito

Dia 13 – Névoa

Ainda à janela nada. Também não sei por que esperança. Já me convenci o suficiente sobre sermos o final da civilização. É inclusive bastante provável que seja o purgatório. Estamos sendo julgados por nossos atos pecadores. Tudo o que fizemos foi errado. Falhamos miseravelmente. Foi um erro.

Foi tudo um absoluto e vergonhoso erro.

Uma névoa se forma sempre que tento limpar com panos sujos o pouco de vidro que restou. Não é suficiente pra passar um braço, não é suficiente pra tentar escapar, mas, mesmo que fosse, não teria pra onde escapar. É tudo parte do mesmo fim, é tudo o mesmo deserto, a única diferença é que cá dentro estamos sendo cozidos, e lá fora seríamos congelados.

Talvez o cheiro seja melhor, talvez nossos sentidos todos sejam estuprados a ponto de não sentirmos mais nada de uma vez, mas e se isso daqui de dentro passar? De que valerá ter perdido tudo escapando?

Uma outra madrugada passa na autoestrada do deserto. Não há ninguém lá fora, e aqui dentro já somos cada vez mais poucos que vivemos.

A anestesia se esvai a cada dia. Chegará a vez que teremos de suportar cada gota da dor.

Não há escapatória. Nunca houve. Nunca haverá.

Dia 12 – 238U

Um televisor ligado em qualquer coisa – sinal algum vem pra cá, de qualquer forma. Uma conversa automática, estática, sobre qualquer coisa – conversar com enfermos não é um diodo terápico.

A dança sai do país, ou não sei, ou é sobre o rio, ou é doze anos mais velha, ou é quem se pensou que fosse, ou é italiana, ou quem nunca tenha sido na estação de tratamento d’água.

Um velho novo. Um curto-circuito. Vai pra todas as direções, não se joga, não se dissolve.

Em três atos, o juiz sela o acordo. Um seguro, um enforcado – e não era eu.

Monopolo, passei do outro lado da esquina. Contemplei pela última vez, por final, quase indo embora, mesmo sem que as pernas nem os braços soubessem. Só eu sabia naquela esquina.

A questão não é se a bomba atômica irá explodir, mas quando. Quando irá explodir? Quando tudo partirá sobre si próprio – o tudo – em pedaços? Quando tudo será esmirilhado? Qual será o próximo prédio?

Os rios já são sujos. O ar já é contaminado pelas chaminés que disfarçam mas não evitam. Todos já tem suas doenças instaladas, mesmo que não se manifestem tão já.

Um jornal se mostra aberto num gráfico que não vale mais. Por que haveria de haver? Não preciso das novidades do mundo. Não haverá mundo em muito pouco tempo, e o que restou do antigo somos nós todos trancafiados em quartos infectados, sem conseguir fugir, sem conseguir olhar pra fora porque há apenas gelo e usinas prestes a explodirem.

Ataduras cheias de pus ardendo contra o chão para limparem vômito. É tudo da mesma matéria, é tudo podre, é tudo sem volta. Sai das feridas, sai dos corpos, sai das torneiras, vaza do chão, do teto, das camas, o encanamento não funciona, nada é nada.

No ritual da mesa redonda, todos eles voltam e me abrem os olhos. Há muito que se ver, mesmo que me custe a respiração. As portas se fecham e depois caem. As visões não se apagam. As letras abstratas são atemporais – são agulhas de uma injeção necessária.

Meus delírios tem ficado menos frequentes. A raíz quadrada, a marionete, não sei o que é pesadelo, o que é verdade, eu não tenho minha arma.

Quando uma bomba atômica explode, não há muito o que fazer. Não há o que ler, não há o que pensar. A gente só corre.

A gente só corre e não olha. A gente não quer ficar cego.

Nosso corpo se desprende em cada pedaço indivisível. Tudo se vai, toda a realidade, e algo deve ser construído quando o mundo continua.

Não sei por qual porta correr. Todas estão trancadas, todas estão travadas.

Estamos todos presos.

A bomba não tardará a explodir.

Dia 10 – Parnasus

É elétrico,
É meramente elétrico. 

É algoritmo,
É apenas algorítmico. 

É equação,
É uma tola equação.

É círculo,
É só perfeito purgatório: círculo. 

Não é gente…
Não é gente…

Não é gente…
Não é gente.

Dia 09 – Ferrofluido NIHIL

O ferrofluido incandescente da luminária do labirinto escorre nas falhas da parede. Não há ciência. Não há matemática. Não há razoabilidade. Não há motivo.

O líquido não são átomos. A luz não são campos. As palavras não são significados. A música não são ondas. O sonho não são presságios. A consciência não são máquinas.

O ruído cresce, mas não há padrão. Apenas cresce desordenadamente, fica mais e mais intenso, mais e mais agudo.

As portas todas levam aos mesmos lugares cíclicos. Estamos todos presos, confinados a assistirmos uns aos outros enquanto apodrecemos. Fechados os olhos, ouvimos os lamentos. Tapados os ouvidos, sentimos o cheiro de carne sendo devorada pelo ar. Usando máscara filtradora, ainda há o gosto de sangue podre.

Além das coisas, ainda há os insetos invisíveis que caminham entre os braços, sem se importar com a mais grossa das camuflagens.

Estamos todos condenados, e sabemos disso.

Não há mais nada senão o intervalo.

Dia 08 – Heuristics

I hear them knocking.

They live inside my dendrite,
They step aside my headache.

Although silently I bypass the air conductors
They keep crawling.

They crawl.

Dia 07 – sqrt(k/m)

Eu ainda consigo escutar a dor que vem do outro quarto.

São os gritos mais sinceros, claustrofóbicos, desesperados; imploram até os miolos por uma gota de sanidade que se recusa a vir.

A sanidade nunca vem.

Alguém se debate, quebra a realidade em estilhaços de aparelhos enferrujados enquanto uma horda de fantasmas brinca com o brilho lunar que reflete no foice dos impérios e mostram senão as concepções mais cruas das ilusões.

Os copos não enchem; os móveis não ficam estáticos – todos são recolocados de qualquer jeito relaxado, soltam-se, caem outra vez, e mesmo assim o barulho das distrações não encontra os gritos.

Há alguém no outro quarto que tenta intervir nos joguetes dos fantasmas, tenta alcançar a foice mas tem só as imagens refletidas nas paredes sujas.

Logo ao lado do tempo, eu tento conversar com as vozes, mas elas não respondem.

As vozes apenas gritam.

As vozes só podem gritar.

O Gordão

Kernel = Null Space ; Range -> Imagem ; Rank -> Posto

O gordão vinha andando pela rua, cômico. Era gigantesco perto de sua mala, a qual vinha sendo arrastada, suja, rasgada, velha, desengonçada; gambiarra. O gordão engraçado tinha um semblante pesado, cansado, afoito, e o cabo da mala quase se desintegrava em suas mãos inchadas.

Não há fita isolante poderosa suficiente para agüentar algo fadado a se despedaçar ao meio da avenida.

Noite anterior – muita gordura e muito sal pra pouco sangue. Dor o tempo todo, calor sufocante; gigantesco de gordo, mas a fome não ia embora. Queria comer, mas não tinha nada de gostoso no armário dos fermentos. Era tudo amargo, e de salgado só havia sal.

Gemia, retorcia com todo seu suor animalesco na cama. Dores latejantes; ele só queria comer, mesmo com toda aquela barriga. Era uma barriga enorme, mas parecia ser povoada apenas por vermes invisíveis.

Não eram vermes. Era gordura.

Num ato desesperado, o gordão foi à cozinha e começou a comer pó de café, sem nada mais. Era café puro, sem água, sem dignidade. O pó puro do desespero, torrado nas fornalhas da decepção. Negro como seus pesadelos, amargo como seus sonhos.

Após três colheradas generosas, o gordão se jogou ao chão cheio de rastros de baratas e outros insetos mais sujos, com todas as suas dores insuportáveis, que agora já tomavam o corpo todo como fosse uma possessão demoníaca. Continuava com fome.

As criaturas que moram embaixo dos eletrodomésticos acompanhavam ansiosas. Seria hoje o dia delas se alimentarem de tão grandioso cadáver?

Nem sua maleta tão estimada e tão antiga, pela qual tinha tanto sentimento, a qual ganhara de seus últimos entes queridos vivos, já o conseguia acompanhar. Estava ela despedaçada dentro de algum lugar escondido da casa, inútil, cadavérica, vazia.

Tudo parecia estar morto além dele, mesmo o mundo que sequer tinha vida.

Ali estava ele, sozinho, jogado na cozinha suja. Suado, cheio de fermento, pó de café e lágrimas incontroláveis. Gritos por piedade, mas não havia ninguém o fazendo mal. Fome, mas cheio de gordura por dentro.

A maior das solidões não parecia estar perto de ser preenchida. O gordão desmaia, em vão, sentindo o cheiro de seu veneno.

Hoje não tem janta.

3/3 Unexpected Dançarina Turnpike

Ela aparece toda noite rastejando pelas paredes do lugar comum, mas não tenho culpa. Sempre acabo escrevendo sobre o mesmo pronome, é maior que meu controle. Posso estar tão errado sendo tão recursivo?

O fato é que toda noite ela aparece de novo embaixo d’outra roupa; cada vez menos. Vejo-a em músicas que nunca fiz questão de conhecer, mas que admiro pela genialidade de cada movimento, enquanto ela dança bem à minha direita, como se eu soubesse que tudo é um jogo, e como se ela gostasse de saber de minha ciência de tanta decepção programada matematicamente.

Ela sabe, eu sei, todos sabem; tudo é de todos, tudo é tudo, é todo, deixo por um compasso ou dois meu egoísmo numa quina de gesso, maluca, de conceitos rabiscados; ela ri, enquanto eu também continuo rindo, satisfeito por caminhar de novo contra o abismo da imaginação e de tudo o que acho louvável e concreto. A carta zero me foi mostrada por uma fração de segundo – uma fração suficientemente pequena.

Dei a ela um pedaço criptografado de mim, que não pode ser lido por olhos que dominam a linguagem, nem podem ser ouvidos por orelhas que dominam a música. Avesso ao plano coordenado do comportamento. Sincero na ciência do erro. Algo que não consigo encontrar em outro lugar senão em mim mesmo. Um erro minuciosamente planejado.

Um erro matematicamente coerente.

E toda vez ela rasteja outra vez e me aparece, perto do espelho, dizendo de minhas virtudes e de meus fracassos, sadicamente, e eu não posso fazer nada, senão contemplar e ficar cada vez mais bêbado dom a realidade, mesmo sentindo as bordas ásperas e gostando de ser arranhado pelos muros ao tentar enxergar o que há por cima do concreto.

Converso com fantasmas, sem notar que a conversa é comigo mesmo e que as imagens são criadas por detrás dos olhos enquanto as ramificações se espalham e se encontram com o vírus da garganta.

As letras ficam cada vez mais embaraçadas e as músicas mais descompassadas, mas ainda adoro vê-la dançando tão perto de mim mesmo que eu não possa escolher as músicas de todos os dias como sempre escrevi nas linhas das mãos de areia da ilusionista do caos.

…Ela se contorce sozinha e eu não faço nada, não por não querer, mas por ter o pensamento. O pensamento pesa numa inclinação íngreme bem polida, assim como as dificuldades de escrever palavras simples. Estou bêbado enquanto ela dança. Converso, e não é com ela.

Não me lembrarei das conversas, mesmo sabendo que a amnésia é iminente.

Tudo que fazemos é esquecido no outro dia, e disso minha memória também haverá de me lembrar, por cima das curvas e a contração do espaço, assim como o cheiro, as formas e os sons e o tempo e o eco.

Estou bêbado, e ela é fantástica enquanto dança tão perto.

- Mr. Young T. Fawkes; Castela Hills, 2112

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