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O Conto do Milênio – Capítulo 7: Corrida de Pedalinho

(por Mr. Dorian G. Fuentes, a1rar3ens7e por maior128ia de votos,
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Hoje eu acordei com uma vontade sem igual,
que corria junto com a chave do meu carro.
Acordei com vontade de matar um inocente,
partir o corpo ao meio, por cima deixar o catarro.

Queria ser o mais cruel de todos,
só pra sentir o que é a verdadeira culpa.
Livrar-me da burocracia moral imposta,
saber de fato como é ser mais podre que bosta.

Ultrapassá-lo na contramão da avenida sete
e escolher com calma qual seria o local da morte.
Destruir todo o livre arbítrio da locomoção,
destronar o rei da mentira à minha sorte.

Não conheço outras sensações parecidas,
todo o resto foi imposto até tal tenra idade;
ser maníaco não é buscar qualquer glória,
mas sim apenas a mais divina das sinceridades.

Senti até o gosto da coluna no vidro,
crianças gritando na rua quando interrompi a brincadeira;
jogando carne moída de alguém honesto pelas calçadas,
esperando a viatura, as pedradas e as lesmas de cadeira;

Tanta agressividade nunca será necessária,
um ser humano digno jamais deve pensar tais besteiras.
Podemos um dia ter em segredo prazer nas animalias:
Quem nunca acordou com vontade de abraçar uma britadeira? 

Colocar o cimento nos olhos, enquanto tritura o pé.
acompanhar os gritos horrorizados dos amigos,
colegas, parentes, políticos, secretários;
vendedores, artistas, escritores, estelionatários… 

Justiça, venha até mim;
condene-me dentro das leis, tranque-me nos cernes.
Acordei com vontade de matar qualquer transeunte,
declaro-me culpado, o mais sujo dentre os vermes. 

Tão constrangedor para alguém tão cidadão,
vontade besta e irrealizável para o bem comum;
Ah se as paredes do necrotério fossem de pedaços de gente,
quão doce seria o sonho de assassinar um inocente…

Suíte #2 de Sergei Sergeyevich Prokofiev

I – Arcos da Lapa

Os arcos da Lapa levam a um bairro oculto, inimaginável. Além das estatuetas, há um prédio alto e bem escondido. Não sei quantos andares possui, mas fica por trás de um dos grandes morros… E morre.

Perto deste prédio, há um bar freqüentado por velhos sujos e mal-humorados. Soltam rojões, assistem a jogos de futebol, bebem uísque barato, cheiram mal, despertam náusea e assediam todas as moças novas que moram no prédio. Se há alguma definição visual de nojo, talvez esta seja uma cena a se considerar.

O bairro vive em guerra – nada tem a ver com os traficantes nem com os que fumam, tão pouco com os que cheiram. Existem outros – os que quebram as regras e incomodam os velhos. Estes, que quebram as regras, usam-se de equipamentos estranhos de múltiplas mini-rodas. Usam-se de roupas que não combinam; roupas sucateadas, mas não necessariamente sujas. Possuem alguns poderes fenomenais, que os velhos tanto invejam, como, por exemplo, subir escadas.

Mas até para isso os velhos tinham uma armadilha. As escadas dos prédios eram cortantes, não havia onde segurar. Os corrimãos quebravam as mãos pelas linhas da vida – era por demais arriscado. Ao topo do prédio, ou melhor, ao topo da antena de TV do prédio, havia ainda outra mensagem escondida – um caderno cheio de equações diferenciais impossíveis de serem resolvidas, e um pára-quedas.

Os seres flutuantes não eram só um, e não eram individuais pelas causas nobres. Não sabem, nem nunca souberam o porquê de estarem ali vendo tanta sujeira. Mas era pra ser, e seria até as últimas conseqüências.

Quando um deles precisava de ajuda, nenhum questionava – estavam ali pelo bem maior. Valia a pena perder, se fosse preciso, a própria vida, contanto que a causa fosse nobre.

Os velhos tomavam muito uísque sujo e importunavam as garotas do prédio. Os pirralhos se incomodavam cada dia mais.

Estes, por sua vez, também não viviam só de água, até porque quem vive só de água pode se afogar facilmente. Havia uma bebida mágica, preparada por um dos mais experientes deles. Um ser cabeludo e barbudo que passava todos os dias a se empanturrar com lasanha de queijo.

A bebida era servida num garrafão verde e farto – tratava-se de um vinho. Mas não um vinho comum, posto que não tivesse nada de especial. O vinho era de uma coloração azul escura, e muito, muito forte. Tinha gosto de uva, mas ainda guardava mais sabores escondidos, de frutas desconhecidas. Toda noite, antes de ir à guerra ideológica, os seres que conseguem subir escadas tomavam doses do vinho – não havia perigo de acabar, era artesanal feito pelo próprio cabeludo barbudo da lasanha.

Não eram tão fãs de suco de laranja, mas ouviam bastante Beethoven antes de partir às escadarias. Na noite que se segue, o céu se nublava por toda a tarde anterior. O natal chegava cada vez mais próximo, e até São Nicolau se envergonharia se visse tantos velhos sujos perto do prédio.

Os pirralhos não ligavam em ganhar ou não presentes de alguém vestido de vermelho que desce por chaminés – mas as garotas mereciam os presentes. Elas não eram vagabundas, nem ociosas. Todas ali, e este lugar é até difícil de imaginar, estudavam arduamente, trabalhavam arduamente, eram honestas e mereciam dormir em paz.

II – Pink Eastwood / Newton

Clint tomou nossa frente à sala de concentração. Fumava, mas não nos incomodava com tal mau hábito. Era o que mais sabia como irritar os velhos, tínhamos muito a aprender com ele. Eu era, afinal, um aprendiz – a diferença entre nós e os velhos, num dos aspectos, pode ser esta. Nós sabíamos quanto aprendiz éramos naquele bairro. Os velhos se julgavam tão velhos que sabiam de tudo… Apesar disso, tinham equações diferenciais impossíveis. A verdade era tão visível que não podia ser vista por quem de tudo já sabe.

Disse-me Clint sobre como deveriam estar meus equipamentos. Era importante que fosse fácil pegar desde o isqueiro até o flutuador agilmente. Também me disse como escrever em tintas invisíveis. Se havia alguém ali que sabia como lidar com idiotas, era ele.

Do outro lado da sala, com o giz e a lousa em mãos, o profeta das areias – desta vez, possuindo a forma de um matemático indiano. Mostrava-nos que matemática não era tão monstruosa, e se empenhava dia-a-dia a buscar a resposta para as equações. Elas foram tal afronta a todos nós, que se tornara questão de honra.

Também dizia o profeta sobre a efemeridade das coisas todas, enquanto apontava às derivadas e às variáveis escritas. Pontos, leis, movimento. O movimento cessa, se não for tão intenso. Nosso movimento era infinitamente mais intenso que todos os descritos pelas mecânicas do universo – e isso podia desequilibrar qualquer sistema alheio… E para isso servíamos, cientistas – para entender as leis antigas, e mostrar que até “verdades universais” (as quais o universo nem sabe que existe) devem ser quebradas. Tínhamos a página perdida do Primeiro Livro, e ela assim dizia.

Eu criei estas três leis. E também sei que elas deverão ser quebradas hora ou outra. Eu faço minhas regras, e ninguém jamais deverá saber. O Universo flui; isto não o descreve. Estas leis são interpretações de algo muito maior, inimaginavelmente maior. Traduções erradas.

Desde os gregos da praia, vemos tudo como somos. Somos grãos de areia – e existe muito mar a ser visto além do pôr do sol.

- PRINCIPIA, p. -1

Dos nossos mestres, também estava ali o músico argentino. Sua especialidade era tocar as grandes obras do tango. Cabelo curto, barba bem feita e violão preto com cordas grossas. Tinha estranhos costumes ao entoar as canções – sua mão direita abafava as cordas de uma forma única, o timbre das músicas era só dele.

Ouvir músicas depressivas o animava, sem ironias.

III – 22:00 – Troubles in Fantasia

O plano estava quase pronto; às dez da noite daquela noite começaríamos. Na verdade só eu faria algo, mas era como se todos agíssemos juntos; um exército de sete mil irmãos percorrendo as ruas da cidade da mentira, contra todas as pragas que nos foram, nos eram e nos seriam jogadas por todas as feiticeiras. A lua era amarelada como queijo, pelo que percebíamos numa janela de nuvens cinzas.

Nem as pragas de mil mundos de gafanhotos nos fariam temer marchar até o inferno dos uísques podres para salvar aquele natal das garotas.

Não posso dizer meu nome, mas, neste contexto, o codinome era ROMEO X – era uma sigla e um anagrama, ao mesmo tempo. Meu símbolo era um candelabro com três velas. A do meio em posição maior, as outras duas um pouco abaixo, e as três já um pouco derretidas. O candelabro era dourado do ouro mais polido, e as velas, apesar de já um pouco gastas, pareciam eternas. Ali eu partia pela porta dos pilares. O mago lançou suas bênçãos, a porta de madeira se fechou.

Vi-me à rua. Não era tão tarde assim, então as janelas do prédio faziam-se abertas e as luzes acesas. Por dentro de um dos andares, não me lembro exatamente qual, vi Aquela que me inspirava – Ela. Ela sabia que eu estava ali, e nos contemplávamos de tão longe. Sorríamos, e, neste segundo, pude perceber que Ela possuía um novo quadro à sala. Era alguma forma disforme azul, abstrata. Vários tons de azul, melhor dizendo. Havia mais alguém com Ela, outra garota. Elas se amavam, e isso era o que importava.

Pelo comunicador de ouvido portátil (agradeça a Tesla por isso) começava alguma música de Mozart. Júpiter era tão perto dali…

Entrei à prima porta, e fui a um lugar sujo. Parecia uma casa de boas pessoas, bons jovens, mas era incrivelmente suja. Provavelmente havia ratos por cima daquele teto. O banheiro era incrivelmente sucateado. Roupas jogadas por todos os cantos, e instalações elétricas precárias. Era numa dessas que se cunhava a primeira parte do plano, que Clint nomeou como NIKOLAI.

Coloquei, relutante, meus dedos por trás do espelho fluorescente. Puxei dois fios, sem ver, e tirei do meu bolso esquerdo um canivete e o interruptor novo. Juntei os fios, e não senti choque algum. Liguei-os ao interruptor, e ativei o sistema de controle remoto.

Quase me saindo da casa, encontrei um dos moradores. Disse-me ele sobre como as estradas da cidade haviam sido reformadas… Como a preocupação ambiental se implantava cada dia mais, como a fiscalização era cada dia mais pesada – por incrível que possa parecer, talvez ele soubesse que eu estaria ali, naquele momento, mexendo em todas as fiações por trás do espelho fluorescente.

Fui-me à segunda parte.

IV – 22:00 – Constelação de Uma Só Estrela

As escadarias. Eu não sabia manejar muito bem o flutuador – ele se colocava sob meus pés, mas não era como um skate. Era algo etéreo, volátil, como se fossem sapatos de energia. Na prática, não serviriam de tanta coisa, era mais um equipamento de proteção, caso de lá de cima eu caísse.

Comecei a escalada, e minhas mãos já sofriam com os corrimãos adulterados. Eram como canos de ônibus, mas com material cortante e fios de cobre desencapados e altamente voltaicos. Pouco a pouco consegui vencê-los, e cheguei à metade do caminho até o ponto objetivo. Mas ali era um ponto notável. Bati à janela escura. Olhei ao outro lado e contemplei a grande estátua de braços abertos e o mar tão azul e infinito e tantas vidas distantes, aguardando a janela se abrir.

Abriu-se então, e Ela sabia que era eu. Abriu a janela com o mesmo semblante sorridente, querendo muito dizer o quanto eu era maluco. Concordaria com Ela, sou mesmo um maluco, um louco, um raio de um cientista inconseqüente, um pirralho! Mas também apenas sorri de volta, e nos abraçamos como deu – um movimento brusco e era melhor que os sapatos flutuantes funcionassem mesmo.

Disse a Ela que, por tal entidade inspiradora, eu não me importava em realizar tantos esforços macabros. Não me importava com as facas nem com os órgãos de proteção ambiental. Em tese, era por todo o prédio e, talvez, todo o bairro. Para mim, porém, e Ela sabia, era porque eu também sentia algo supremo, e queria vê-La muitas mais vezes com aquele semblante surpreso e satisfeito.

Poderia passar a eternidade ali, mas precisava seguir com o que fui proposto a fazer. Despedimo-nos, e prometemos nos ver naquele natal.

Sei que soa piegas e repetitivo, mas preciso constar: Ela me desperta as sensações mais profundas que já experimentei em um grande intervalo de tempo.

Depois de três ou quatro horas, cheguei ao topo do prédio. Contemplei mais uma vez como os ídolos de pedra agora estavam abaixo de todos os nossos pés. Como a vida parecia parada lá na cidade dos arcos. Subir a antena de TV foi mais fácil, espero não ter incomodado o futebol de ninguém naquela quarta-feira.

Acima da antena, como esperado, encontrei o pergaminho ISAAC e o pára-quedas. Não usaria o segundo, tinha medo dessas coisas – provavelmente não era funcional, e sim sabotado. O pergaminho era o original – os velhos, como já foi dito, não tinham capacidade para adulterar tal obra.

O profeta ia adorar saber que existe solução para pelo menos uma destas.

A fome apertava, mas devia continuar. Entrei pela tubulação.

V – 22:00 – Falácia do Labirinto do Velho Psicopata em Construção Desritmada

Agora eu era o inseto daquele concreto, mas não era por muito tempo. Havia uma passagem, segundo o que o DOPPLER revelou. Um tipo de sistema secreto de elevadores que se escondiam por trás das camas e despertavam tanto o imaginário daquele local. Depois de um pouco de procura, achei um deles. A porta era de madeira escura, mas havia algum tipo de luz vermelha e fluida em volta da porta. Algum tipo de líquido brilhante que marcava o local. Entrei.

Não havia botões, eu não tinha escolha. Apenas deixei que o elevador me levasse aonde quer que fosse para levar. Depois de quinze minutos de viagem à velocidade da luz, ou quase isso, a porta novamente se abriu.

À minha frente, um grande galpão esverdeado, escuro. Parecia uma obra em construção – vigas, andaimes, ferro jogado ao chão, barulho, máquinas, ferramentas, parafusos, martelos, foices. Não parecia haver mais alguém, então caminhei tranquilamente, procurando o que quer que fosse para ser encontrado.

Minha visão periférica, num dado momento, capturou um movimento estranho. Talvez uma reação neural, mas parecia algo mais. Olhei rapidamente, e percebi alguém correndo por dentro de um dos corredores cinzas. Apossei-me da rampa que se estendia à minha frente, e persegui, pulando e me apossando.

Após curvas bruscas à direita e à esquerda, encontrei um esboço de auditório. Havia as poltronas, e pareciam confortáveis. Todas, com exceção de uma. À quinta fileira, uma poltrona parecia quebrada. Parecia solta. Fui averiguar, e descobri que ela não era uma poltrona verdadeira. Por algum motivo, havia uma porta embaixo – sentindo que era o certo a fazer, entrei.

Para minha surpresa, e devo admitir que fora mesmo uma surpresa, não era um lugar maligno nem sinistro. Era apenas um estúdio musical. Do outro lado do vidro, um ser que parecia amigável.

Era dono de cabelos loiros, muito longos e lisos, e de uma voz hipnotizante. Estava fugido de sua cidade e dos repórteres e dos fotógrafos e das redes sociais para, em paz, compor seu novo álbum. Não queria ser incomodado, mas, quando me apresentei, tornamo-nos amigos, como se já nos conhecêssemos há tempos e tempos. Tomamos algumas garrafas de cerveja verde, rimos, conversamos sobre músicas e sobre ritmos exóticos e sobre instrumentos experimentais. Contei sobre as novidades das ciências das ondas, e ele pareceu se interessar. Antes de partir, ainda recebi como souvenir um disco com duas ou três músicas exclusivas, ainda em fase de testes, sem mixagem.

Ele também me contou como era o caminho da saída, e não parecia tão complicado. Agradeci-o, pedi um autógrafo e fui. Ali não parecia haver outra alternativa, senão confiar.

VI – 22:00 – A Consciência de Uma Centopéia

Os elevadores e as rampas tinham um padrão – eram funcionadas com base no horário. Muito mau, posto que meu relógio estivesse desregulado devido à viagem de elevador. Mas com alguma conversão simples, dava pra entender.

As rampas e os elevadores eram sincronizados a cada nove minutos e quinze segundos de anos táquions. Aprendi que os inventores de tal sistema se basearam no funcionamento da consciência de uma centopéia. Então é como se eu fosse uma sinapse fora do lugar, dentro de uma centopéia. Comecei a escalar e a subir e a descer, tal qual montanha russa num parque de diversões freneticamente estranho e insólito.

Descia, e o caminho era descer até o elevador – outra vez, porta de madeira. Seria igual ao outro, não fosse por este ter, ao invés de líquido vermelho, líquido azul. Azul celeste e tão brilhante quanto Césio. Não era radioativo, para minha sorte. Escalar o prédio usando-me de roupa HAZMAT seria ainda mais difícil.

VII – O Veloz Corredor de Kokorodome-XV

Depois de mais minutos para sair da consciência da centopéia, a porta se abriu, e demorei um pouco a reconhecer onde estava. Era de novo a cidade, mas outro bairro. Um bairro de cultura oriental, com cheiro de arroz e carros contorcidos.

A saída, mais precisamente, era uma das bocas de bueiro da avenida principal. Depois de quase ser atropelado, saí do buraco.

Há muito tempo que eu não me aventurava por aquela região. A avenida, em si, havia sido inteiramente reformada. Parecia estar mais larga, e não era mais asfalto, e sim algum tipo de tijolo cinza claro e bem aderente. Os viadutos estavam quase brilhando de tão bem cuidados, e ainda havia sido construída uma via expressa bem expressa ao redor da avenida.

A via expressa era um lugar curvado, quase uma parede por onde corriam carros a velocidades assustadoras. Lembro-me de ver veículos com aerofólios gigantes, mas não feios, a cerca de quinhentos quilômetros por hora. Não era perigoso – havia ali uma barreira magnética amortecedora.

VIII – Par Numérico do Carro Branco – São Paulo

Tomando o rumo de casa, parou-se um carro comum à minha frente. Dentro dele, figuras conhecidas. Era um homem e uma mulher.

O homem, apesar de me despertar certo receio, não parecia maldoso. A mulher, por outro lado, era demasiadamente falante. E ofendia sem se preocupar, e dizia como era melhor que todos os outros, e dizia como merecia tudo e como era o umbigo do universo umbigo. Ofereceram-me carona, mas preferi ir a pé.

A mulher me rogou mais quinhentas pragas, no mínimo, mas não me importei. Ficaria chateado ao saber que ela se juntara aos velhos que bebem uísque estragado, mas a única que poderia salvá-la disso era ela mesma. Haveria de aprender a tempo.

Quanto ao homem, que não era seu marido, ele não tinha muito mais o que fazer, senão tratar tudo aquilo como piada. Sentia eu, por algum motivo, que ele sabia de algo além do que aparentava… Mas também não me arrisquei a perguntar – queria voltar ao bunker o quanto antes.

A rodoviária também estava reformada, e vi uma legião caminhando para lá. Uma legião de coxos e deformes. Seres esquisitos que quase se rastejavam a fim de ver os ônibus partindo daquela cidade. Nem os seres mais delimitados agüentavam as limitações impostas daquele local.

A cidade era bonita, mas estava longe de ser apreciável para se viver.

IX – Natal Prelúdio

Longas horas até o bairro por trás das montanhas, mas cheguei. Entrei pela porta velha e branca do bunker, e fui recebido com congratulações por parte de todos. A missão fora um sucesso, o pergaminho estava inteiro, não faltava sequer meio sinal de operação.

O natal das garotas estava salvo.

Ela e eu nos olharíamos, e poderíamos sonhar mais uma vez, mais uma noite.

202 – Constelações e Sadismo no Deserto

Comi cada pedaço e apreciei como se estivesse em meio ao deserto. Na verdade eu estava nele o tempo todo, mas cada vez abstraía-se numa fantasia diferente. Dessa vez, tinha a forma de uma equação diferencial.

O pão embolorado, que parecia mesmo um violão entoando belas melodias, como diziam os oráculos todos ao mesmo tempo há um ano, mais ou menos. O gosto artificial do sangue dos tomates, cada substância conservante, cada pedacinho de sódio alimentavam, sobretudo, meu cérebro.

Foi depois do café. Também tão artificial quanto o sangue (não o meu, o do tomate). Não era exatamente café, mas chegava bem perto; era solúvel, inclusive. Não precisava coar, não precisava ferver água sequer. Era só fingir que fosse café, assim seria, e assim me manteria acordado.

Número engraçado, de fato, deram ao meu quarto. Duzentos e dois. Lembra-me alguma coisa, mas pode ser apenas coincidência. O que, acredito, seja mais provável que qualquer conceito. A menos que alguém do prédio tenha uma cultura razoável e goste de pregar peças em vagabundos (não no sentido antitrabalhador da palavra, mas sim no sentido de vagal mesmo, o que andarilha. No caso, este que escreve).

Creio que essa mistura excêntrica de bolor e sódio e milho queimado era algo que fazia parte do conjunto atual de inspirações para tal relato. Antes as palavras simplesmente não estavam fluindo, uma vez que tudo estava muito abstrato. Comendo esses restos tóxicos, no entanto, tive algo concreto para relatar. Tão concreto quanto a parede que usei de prato.

Beira o absurdo, mas não chega a tanto, é apenas o gosto da civilização-deserto. Quarenta dias prometi perambular entre todos os pecados, aguentar todas as tentações, respirar com vigor cada pedaço de monóxido que quisesse visitar minhas fossas… Há algo me testando, e não quero reprovar e ter de fazer tudo outra vez.

Não sei de onde mente tão maligna poderia tirar inspiração para tal tipo de teste. Deserto, quarenta dias… A originalidade do sadismo por vezes me surpreende.

Outro fato é que a água no quarto está acabando. Numa análise mais profunda, é irônico, também. Justamente NESTE quarto a água está acabando. A hipótese de minha conduta ser regida por alguém mais culturalmente desenvolvido passa a ser até que aceitável. Só não consigo achar os buracos nas paredes. Ora, esse alguém ESTÁ me observando.

Ao menos esta não tem gosto de ferro. Tem gosto de água, o que a coloca muito perto do sangue, do bolor e do cafeóide. E está acabando, assim como o sangue, o bolor… Cafeóide ainda tem muito para os livros da madrugada. Hesitei por demais a abri-los, uma hora teria de ser removida a tampa. Assim fiz.

De qualquer forma, creio que andar por aqui faça algum bem ao que continuo denominando como alma. Estou distante de tudo o que me traz boas lembranças, estou sendo renegado dos direitos mais elementais, como comer e beber adequadamente, sinto-me observado em cada canto escondido do quarto, as montanhas de pedra amarela parecem-se mais com edifícios cinzas e escadarias de metal das cabeças de borracha e a Lapelle’s deve existir em algum lugar aqui por perto.

A qualquer momento pode acabar a bateria, e percebo que foi me negado também o direito a energia e campos elétricos, se é que existe algo assim. Tomemos por padrão MEU conjunto de leis.

Mas, se assim convencionarmos, estou renegado de todo o livro.

Não façamos assim, convencionemos outra coisa. Qualquer outro conjunto de leis que você queira. E negue-se a todos os seus direitos de sobrevivência e de metanoia. Agora estamos numa situação bem mais parecida.

Ela desfilava, embora não fosse um lugar para desfiles. Couro, coturno, correntes. Era a lorde suprema das rodas e do aço forjado. A música rangia pelos arredores e quase destruía as velhas paredes do Eco.

Era longe, afinal.

Talvez esteja alguém supervisionando inclusive meus sonhos, ou alucinações… Em tais condições, é difícil separar um do outro. Deito, olho para o tubo de gás aceso, e em instantes parece que o teto fica translúcido. Vejo o céu, as estrelas, nebulosas, constelações, vejo Escorpião tão afastada de Touro, o que me deixa um tanto triste por essa noite; mas, se sobrevivo a um deserto, não é uma noite que vai fazê-las ficarem distantes para sempre. Até porque acredito na dobra do espaço e nos túneis de minhoca.

Minhocas são seres repulsivos, mas se não existissem a agricultura perderia muito. Talvez muitos morressem de fome se não fossem as minhocas. Não odiemos. Não faz bem.

E, então, como num passe de mágica (leia-se: fome extrema), o céu começa a rodar cada vez mais rápido. Pode ser que isso tenha sido causado pelo fato de minha pessoa, sem ter muito mais o que fazer além de resistir ao testes, não faça nada. E olhe pro céu, que nem existe.

Rodando, acima de mim, tudo passando, contornando as eclípticas, magnetizando, tempestando, chovendo função gama… Tudo, e todos, brilhando, girando… Como uma música feita pelas minhocas do espaço.

Tenho saudades, não preciso mentir quanto a isso… O uso de termos pesados às vezes é necessário, e muitas vezes não podem ser substituídos por outros equivalentes.

Incoerência IX

Ele não queria, e eu ia ficar com muito peso na consciência, se é que posso dizer que tenho uma. De qualquer forma, sabíamos que tal evolução demandava sacrifícios. Peguei a caixa de ferramentas como se fosse um trabalho comum.

Dei-o uma dose de Veigsztran, ele dormiu rápido. Era quase seis da tarde, e estávamos ficando sem luz, precisava agir rápido. Primeiro a serra manual.

Ele não podia sentir nada, uma vez que estava em transe psicotrópico. Continuei o serviço, fingindo que sequer conhecia o sujeito. Na verdade eu não conhecia, de qualquer forma. Era mais um estranho. Era só um experimento.

Tive de separar um pouco as vísceras, para que pudesse acomodar confortavelmente (dadas as condições) uma bateria de Tecnécio, a mesma que pensei em desenvolver há uns meses, como escrevi neste mesmo caderno. Liguei os fios encapados por compostos de Selênio, usei o cauterizador (que adaptei milagrosamente do micro-ondas da fábrica), juntei estanho e estava pronta essa parte.

Os fios que saíram, liguei-os no osciloscópio, para checar se as ligações neurais estavam bem sucedidas. Mandei um impulso de “Olá”, e ele e o osciloscópio responderam positivamente. Bom.

Era um monstro.

- Relatório de Sadi Implattore sobre Automação de Células Nervosas e Aquisição de Reflexos Artificiais, página 184, relato Zero.

Agora, penso, não há mesmo muito o que se fazer por aqui. Talvez haja uma recompensa para tal teste, talvez não, não sei. Pensar muito nisso, por ventura, nem deve ser tão agradável assim. Estou aprendendo a lidar com o gosto dos conservantes… Assim, provavelmente posso criar vergonha na cara suficiente para apreciar com ainda mais zelo os gostos de verdade de tudo o que existe (pra mim).

É chato, eu sei que é chato, mas não custa nada lembrar que a realidade minha é a realidade minha. A sua é a sua. A dele é a dele. Estamos todos no Diagrama, ainda. E, pessoalmente, tudo seria muito sem graça se fôssemos uma única função linear.

Funções lineares matam pessoas, fisicamente falando. Penetram pela garganta e saem, rasgando todas as artérias e veias e tecidos e órgãos e traqueias (agora sequer posso acentuá-las como quero).

Ouço conversas do lado de fora da porta, e um ruído que fica cada vez mais agudo, como se algo estivesse sendo carregado até o limite antes da explosão. A porta deve ter ranhuras que não consigo perceber, alguma ilusão óptica sutil. Estou nu à casa toda, ao prédio todo, à cidade toda. Todas as trapaças são possíveis, todas as armadilhas são prováveis quando se está num deserto assim.

E nem tenho uma motocicleta.

Ela o fez. Assim como eu também o faria, se ela fosse. A situação não requer tipo algum de crítica, não foi nenhum tipo de jogo sujo. Admito isso da forma mais sincera possível.

O que me chateia é que eu não estava lá. Eu não pude participar. Como sempre aconteceu… E, como (soluço) temo que não pare de acontecer.

Temos esses momentos de fuga. De se esconder por baixo do travesseiro e lacrimejar. Houve uma festa, todos se divertiram. E eu não pude sair de casa. É uma sensação além da tristeza. É a sensação de ser preso e não poder estar onde se quer no momento em que se quer.

É a árdua sensação de se sentir humano clássico.

Eu só queria me sentir incluído nas músicas, nas bebidas… Mas a festa sempre acabava comigo no canto. Sempre.

Nota ao Senhor Heinsenberg: :( .

Ao menos, também devo concordar que estar aqui é bom para digressões. Embora seja difícil pensar linearmente, algumas coisas acabam por concretizar as conjecturas. Não que isso seja bom; aliás, está muito longe de ser bom, mas nos quarenta dias do deserto não há ninguém além de mim e da banca analisadora. Disfarçam-se por síndicos, vendedores, comerciantes, fabricantes, empresários e encanadores. Vejo inclusive belas moças com papéis de impostos nas mãos, cobrando tarifas e atendendo telefonemas. Quadratizadas, robotizadas. Não são de verdade. Quem planejou tudo isso me subestimou nesse ponto, e digo isso sem qualquer tipo de exaltação.

Talvez quem esteja subestimando seja eu.

A queda é maior quando se está mais ao alto, e disso até a sabedoria popular é ciente.

O céu não para de girar enquanto tudo isso penso. Posso fazer as paralaxes, contar estrelas, fazer desejos aos asteroides… É uma fonte dos desejos. É azul-escuro, tal qual água de fonte digna de desejos. Não tem gosto, mas mata a sede. Não tem peixes visíveis, mas a vida pulsa. Além disso, ainda há muito mais que não se pode enxergar. Coisas boas e ruins.

Espero obter melhor sorte e observar mais coisas boas olhando com atenção, ao invés de imitar velhos astrônomos e bradar que o Sol não é perfeito por possuir manchas.

Pra mim o Sol é perfeito. E as manchas nada interferem em minha visão. Tudo tem manchas. E nem por isso deixa de ser perfeito.

A natureza é a perfeição que tentamos equacionar, imitar, decodificar, e nunca conseguiremos.

O deserto beira a perfeição do sadismo. Mas podia ser pior.

Muito pior.

Ajuste Das Freqüencias

Tempo, seus crepúsculos e cores monocromáticas para quem não sabe ver. De certa forma, não causa surpresa descobrir que, em meio a tantos prédios e tantos padrões b/w, alguns tinham iluminações d’Outros lados, e viam cores que não podiam ser vistas do lado de fora da janela. O relógio da catedral parado, mas com alguma graxa e alguns parafusos talvez volte a badalar.

Estava perdido. Dias e noites escorregavam diante minhas pálpebras, a Lua se encaixava no topo do meio-dia, o Sol queimava árvores às três da manhã… E nada parecia concordar. Os ritmos eram igualmente quebrados, os compassos irreconhecíveis, caóticos e agonizantes. Tanta tormenta tilintando por tais diante de portas partidas e ríspidas, raquíticas perturbações e partes cartesianas, turvas. Num instante a porta explodia, e no outro os sussurros da silvestre ninfa sarcástica assoviavam a sabedoria: Sartre, Simão, sangue, surto, cessavam ventos os muros.

Duas. Não consigo recordar se manhã ou tarde, apenas duas. Também devia ser algum lugar cartesiano situado bem ao meio do plano dos doze. Contemplávamos hipérboles e constantes, serenamente projetadas na mesma dimensão que nos apoiava sobre nossos pés. Uma dádiva, presente de alguma estranha entidade. Complexa e, por algum fator, extremamente amável.

Escorregando as mãos pelos tijolos, dos lados das hipérboles apareciam parábolas, retas, pontos, degraus e intersecções: podíamos pisar sobre o eixo das abscissas, víamos ao topo a marca das coordenadas. E tudo fora uma singela dádiva para os únicos malucos que ousavam desafiar a temperatura e permanecer vivos.

Além de mim, três: a Dona dos Relógios, o Senhor das Falas Mudas e, logo ali adiante, alguém com uma garrafa em mãos deslizando sobre as formas como se fossem rampas de neve. À tal altura, as navalhas já pareciam querer penetrar ainda mais fundo a epiderme… O tempo caía, eu tremia.

Descrente de qualquer próxima possibilidade, lembrei da pré-história e de todos os rituais para se conseguir calor com outros corpos. Para não congelar, alguns povos vivam mais próximos, utilizavam-se do calor tanto de semelhantes quanto dos demais animais (uma vez que poucos sabiam evocar o fogo), e então estendi minha mão.

Enquanto toda aquela história de eletromagnetismo era dobrada pelo momento, sentia como o tal calor fluía entre as mãos e braços, entre boca e pescoço. A Catedral estava encoberta por árvores, então não consegui ver com exatidão quantas horas eram… Entretanto, minha vontade é que o relógio santo ainda demorasse muito para outra vez badalar. No instante, mesmo sem saber, um outro relógio trepidava, pulsava, cheguei a ouvi-lo: os mesmos rios de outrora, que ainda corriam quentes por dentro das cavernas; agora não estava frio, mas eu ainda tremia.

Um brilho novo se fez além da carruagem quebrada. Creio que outro conhecido alquimista, nessa mesma equivalência, descobrira o elixir que tanto procurara entre livros e manuscritos e serpentes e caveiras. Uma mesa, uma fogueira, uma floresta. Palavras divinas, ruídos, vinho e alaúde. O ciclo conseguira ajustar o relógio depois de tanta demora.

137 – 2

É pecado pensar.

Algumas estrofes deveriam ser apenas subliminares, sem tradução… E ainda há quem tente se aventurar por tais campos obscuros, tais cidades amórficas; prédios abandonados aqui, ali, mesmo quando cheios de gente. Não podia olhar, mas olhei. Direto para a caverna…

Das pontas dos dedos dos pés, subindo contra a gravidade pelas pernas, regando todo o corpo, evitando que tudo se esfrie por mais uma noite na neve, sinto quão dolorosos são os efeitos da tão falada Evolução. As línguas; elas dançavam. De seres invisíveis, automatizados na guerrilha da sobrevivência, até ímpares, que conseguem automutilação sem nem ao menos um arranhão na pele. Insetos humanóides que não precisam lutar para respirar, não precisam correr os riscos, e por fim acabam achando o maior dos predadores dentro de si, em algum lugar que nunca conseguimos descobrir onde fica nem aonde vai.

Olhar para uma parede e perceber que é uma parede. A lâmina; é uma parede, apenas uma parede, e você está em seu quarto, com a porta trancada, protegido, ninguém pode fazer mal algum. É o quarto, é a fortaleza. É seu castelo, e nele ninguém pode entrar que você não queira. As paredes são tão maciças. Dentro do quarto você está protegido, ninguém vê. Só você.

Das cordas desafinadas do velho violão que achei n’um dos escombros as músicas ecoam pelas avenidas (sombriamente acompanhadas por uma melodia feita pelos ecos de todas as mentiras que meus tímpanos traduzem como meros ruídos). N’um violão com cordas afinadas elas simplesmente se escondem por dentro da madeira. Ou dentro de mim?

O Sol radiava por cima das nuvens. Por algum motivo, iluminando todo esse Mundo estranho no qual vim parar, O Sol. Dos dias nublados contemplava sua não-existência, com a estranha certeza que um dia vê-lo-ia.

Meus olhos, tão desacostumados, olharam sem piscar por alguns segundos, minha retina ia sendo queimada pouco a pouco, mas para mim era só a luz. Minha visão ia se escurecendo milésimo após milésimo, ciclo de radiação após ciclo de radiação, mas para mim aquele era o pedaço prometido do paraíso. Pela fenda solar fui ficando cego, e mesmo assim nada poderia me fazer parar de olhar.

Uma sacada fria e esfumaçada. Algum relógio devia marcar o tempo certo, embora todos eles estivessem com horários diferentes.

…de cera. Em sua dimensão, o Mundo tinha dois grandes oceanos. Sobrevoava, via seu reflexo longe. Cada vez que se aproximava, os oceanos pareciam querer engolir, vorazes. Era como se houvesse um efeito buraco-negro, toda a luz, de quando em quando, era sugada para os oceanos, todos os tempos, todas as sensações, sentimentos… E nunca ninguém soubera o que de fato havia por baixo das águas. Sequer Möebius saberia como definir.

A criatura criada pelo Criador, então, tinha todo o mundo ao seu deleite, meros prazeres. Deitar-se sobre qualquer dos campos, escalar qualquer montanha. E olhar para os oceanos. Que, quanto mais pareciam perto, mais tentavam dilacerar as asas e o coração do nobre desnorteado.

Em meio a um dos chás rotineiros que a criatura havia preparado em qualquer fogueira, pôs-se a olhar a Lua. E foi comer queijo.

Aqui por perto uns fios desencapados; pude ouvir o universo, ali mesmo pelo fogo. Enquanto o plasma radiava trazendo consigo a foice, eu o encarava, ouvindo as vozes daqueles que distam, e não podia acreditar em meus próprios sentidos… Apesar de saber que tudo era real. Era diferente das alucinações. Ali era real, se eu tocasse o transmissor, sentiria as correntes dos calabouços explodindo por dentro, arremessando minhas vísceras a algum lugar bem longe. Ou apenas torrando tudo e, então, mostrando o carbono essencial.

Pouco a pouco a vista foi escurecendo, como se anoitecesse cada vez mais rápido, eu já não prestava atenção na velocidade das horas há um tempo. Os prédios começaram a se contorcer, mostrando como o concreto virava pedra, como o céu virava breu, as estrelas se apagavam, voltara para a intersecção. Para as imagens das paredes.

Envolto por terra e mais terra, alguns quilômetros abaixo de qualquer superfície, talvez este também seja um dos infernos, outro deles. Não adiantaria caminhar meses, nunca sairia do lugar. Era um ponto infinito num plano infinito, feito de combinações grosseiras de laços de pedra, retângulos e triângulos, focos de luz que passavam como cometas. Alguma coisa mantinha viva todo o superorganismo, mas para mim, era só uma caverna. Procurei os três gregos, talvez eles estivessem por lá… Mas, como já imaginava, não consegui sair do lugar, mesmo correndo até que meu sangue quisesse acidificar.

Da radiação fez-se a luz, e realizei que estava desmaiado nas escadarias da matriz.

Matriz. Tantas imagens ainda inteiras (embora algumas já reduzidas a pó), agora eu posso ver as estrelas, embora ainda pareça frio para mim, aqui é muito mais amistoso e aconchegante que o inferno no qual eu estava até alguns segundos atrás. Não havia neblina nesse dia.

A mãe Gaia começou seu renascimento, a praça já tem suas folhas, na minha imaginação vejo pessoas saindo de paredes, outras conversando do lado de fora da igreja; como se fosse uma ilusão de algum tipo de vida, bem distante, realmente distante. Entorpecida. Lá longe podíamos ver o microchip.

A cabeça serve para atormentar. E nada mais. Algumas vezes, cri que tudo o que se aprendia sobre o cérebro humano ser a razão da evolução era mentira. Porque eu não sentia. Era apenas atormentado pelas sinapses. Vez e vez outra vez. Com interlocuções, ainda forçando as barreiras para tentar rompê-las. Houve eu de perceber muito tarde que aquele material era mais resistente.

Uma molécula
Perdida
No meio
Da Equação.

Que se perdeu
No tempo
Do Abismo.

A vida começava e acabava e acabava antes mesmo de começar. Os lugares eram marcados por tintas invisíveis, e tatuagens eram feitas sem o uso de sequer uma agulha ou coloração. E o ciclo se repetia, mas Eu nunca percebera. Nunca realizara. Apenas queria viver e esquecer que por trás daquilo tudo havia uma verdade (um padrão). A mentira me era agradável, era extasiante. A verdade não.

Com pedras era pisado e arremessado contra as paredes já derrubadas, os reinos caíam para dar lugar a outros. Fusões e fissões, explosões nucleares, reações. Tudo iluminado mesmo quando no ápice da escuridão das noites de inverno.

Eu sentia medo, e logo percebia o quanto isso também era reconfortante. Não havia cultura, não havia competição, era só eu e eu mesmo no profundo silêncio das notas. Acabaria na manhã seguinte, mas naquela noite o Mundo fazia um pouco de sentido.

Um dia as paredes perceberam como estavam derrubadas.

Depois de todo aquele vento, em certas noites de ressaca, conseguimos sentir que há o Sol, mesmo que não no céu que vemos. Apesar das voltas, nos encontramos no mesmo ponto em algum lugar dentro da massa. Algum lugar além da massa, melhor dizendo. Nesse lugar, cheio de datas e lugares que nem existem, tudo o que de verdade somos, todos os segundos, aqueles que foram, aqueles agora, aqueles que ainda serão.
Na forma alienada, na mais alienada delas, encontramos nossa essência, nossa dádiva; nas mais alienadas ilusões, olhamos nos olhos daquilo que realmente somos.

Aquilo de mentira que de verdade a gente quer.

No próximo passo você perde tudo.

"No próximo passo você perde tudo".

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O RESTO É VERDADE.

Entendimento e Compartilhamento de Linhas

“Ninguém entende e, no fim, quem não entende sou eu!”

Eis, amigos, um texto que fiz a poucos instantes, inspirado pelo vício de escrever subjetivamente.

Abre parênteses.

Hoje, primeiros momentos do segundo dia do ano, vou dizer um pouco sobre significados. Por que significados? Porque sim, oras.

Significados… Você entende os significados? E quando você não deve entender os significados?

Bom, vou tentar seguir uma linha pra você entender o que eu quero transmitir aqui. Linha sim, linear. Mágico, não? Enfim, tudo começa quando alguém começa a comunicar-se com outro alguém ou coisa. Daí então o primeiro, ou seja, emissor da mensagem, lança artifícios comuns ao entendimento dele e do receptor da mensagem. Feito isso, têm-se uma linha comunicativa.

Mas pode ser que o emissor da mensagem não queria emiti-la claramente, explicitamente, por qualquer motivo. Então usa sinais! Ou codifica a mensagem de algum outro modo. Com isso o receptor, ao decifrar a mensagem em questão, não decifra só a mensagem. Mas sim chega mais perto ainda do que o emissor quis realmente transmitir.

Enigmas não são apenas diversões baratas. Todo enigma tem um significado tão valioso (ou mais) que o significado da própria mensagem. Talvez a mensagem seja meramente o enigma, ali, na frente. Olhando pra você esperando ser olhado de volta.

Olhe de novo.

Muito bem, nesse momento o emissor passa a mensagem para o receptor.

Suponhamos que o emissor seja a própria vida. Suponhamos que dessa vez a vida transmita algo bom em você, e você entenda claramente. Então o que fazer com o algo bom que você acabou de descobrir dentro das sombras? Guardar pra você e ser feliz conversando com paredes? Talvez transmitir o algo bom para outro alguém que você goste.

Então você, caro leitor e companheiro (e por que não professor?) vai até a pessoa e tenta transmitir a mensagem. Porém, sem perceber, a mensagem sai codificada. Não é sua culpa! Deve ser a euforia do momento, a tal felicidade, sabe-se lá. E seu receptor não entende nada. E você fica chateado por ter dentro de si algo bom e agradável pra passar à humanidade, e não conseguir transmitir.

Problema comunicativo.

A comunicação individual, segundo a analogia que tomei liberdade de fazer, é uma linha reta, p2p, como quiser chamar. A partir do momento em que se quer transmitir uma mensagem a mais pessoas, há uma quebra na linha e ela se divide em várias outras linhas menores, como num grande sistema multiplicativo de razão desprezível. Como a linha é menor e dividida, o transmissor da mensagem para várias pessoas deve ter um poder maior para transmitir, caso contrário a transmissão será fraca e inútil.

E o que acontece então se este mesmo indivíduo que quer transmitir a várias pessoas resolver codificar a mensagem? Eis um caminho complicado. Talvez se fosse algo ruim, pudesse se usar algum tipo de eufemismo ou coisa do tipo. Mas para coisas boas não são necessários tantos eufemismos, uma vez que boa parte da mensagem já fica codificada subliminarmente, sem que você note. Então seja claro. Pelo menos nesse caso.

Compartilhar coisas boas têm se tornado um fenômeno cada vez mais raro (principalmente quando alguém fica gritando no seu ouvido ou na sua janela querendo jogar sua concentração no lixo), então não há o que temer. Compartilhando bons sentimentos você não estará atrapalhando, e sim contribuindo. Talvez um sentimento agradável seja tudo o que você precise passar a uma pessoa para que o dia dela melhore. O ser necessitado não precisará de palavras vazias, e sim segundos preenchidos.

Simples e funcional.

Fechei os parênteses? Acho que não.

E nem fecharei. Até a próxima, galerinha do mal!

Grato!

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“Dê-me sua mão, por favor deixe aqui seus medos. / Vamos voar pois o passado nos espera. / Esqueça seu nome e abra seus olhos, / A mágica está feita.”

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