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O Conto do Milênio – Capítulo 7: Corrida de Pedalinho
Hoje eu acordei com uma vontade sem igual,
que corria junto com a chave do meu carro.
Acordei com vontade de matar um inocente,
partir o corpo ao meio, por cima deixar o catarro.Queria ser o mais cruel de todos,
só pra sentir o que é a verdadeira culpa.
Livrar-me da burocracia moral imposta,
saber de fato como é ser mais podre que bosta.Ultrapassá-lo na contramão da avenida sete
e escolher com calma qual seria o local da morte.
Destruir todo o livre arbítrio da locomoção,
destronar o rei da mentira à minha sorte.Não conheço outras sensações parecidas,
todo o resto foi imposto até tal tenra idade;
ser maníaco não é buscar qualquer glória,
mas sim apenas a mais divina das sinceridades.Senti até o gosto da coluna no vidro,
crianças gritando na rua quando interrompi a brincadeira;
jogando carne moída de alguém honesto pelas calçadas,
esperando a viatura, as pedradas e as lesmas de cadeira;Tanta agressividade nunca será necessária,
um ser humano digno jamais deve pensar tais besteiras.
Podemos um dia ter em segredo prazer nas animalias:
Quem nunca acordou com vontade de abraçar uma britadeira?Colocar o cimento nos olhos, enquanto tritura o pé.
acompanhar os gritos horrorizados dos amigos,
colegas, parentes, políticos, secretários;
vendedores, artistas, escritores, estelionatários…Justiça, venha até mim;
condene-me dentro das leis, tranque-me nos cernes.
Acordei com vontade de matar qualquer transeunte,
declaro-me culpado, o mais sujo dentre os vermes.Tão constrangedor para alguém tão cidadão,
vontade besta e irrealizável para o bem comum;
Ah se as paredes do necrotério fossem de pedaços de gente,
quão doce seria o sonho de assassinar um inocente…
202 – Constelações e Sadismo no Deserto
Comi cada pedaço e apreciei como se estivesse em meio ao deserto. Na verdade eu estava nele o tempo todo, mas cada vez abstraía-se numa fantasia diferente. Dessa vez, tinha a forma de uma equação diferencial.
O pão embolorado, que parecia mesmo um violão entoando belas melodias, como diziam os oráculos todos ao mesmo tempo há um ano, mais ou menos. O gosto artificial do sangue dos tomates, cada substância conservante, cada pedacinho de sódio alimentavam, sobretudo, meu cérebro.
Foi depois do café. Também tão artificial quanto o sangue (não o meu, o do tomate). Não era exatamente café, mas chegava bem perto; era solúvel, inclusive. Não precisava coar, não precisava ferver água sequer. Era só fingir que fosse café, assim seria, e assim me manteria acordado.
Número engraçado, de fato, deram ao meu quarto. Duzentos e dois. Lembra-me alguma coisa, mas pode ser apenas coincidência. O que, acredito, seja mais provável que qualquer conceito. A menos que alguém do prédio tenha uma cultura razoável e goste de pregar peças em vagabundos (não no sentido antitrabalhador da palavra, mas sim no sentido de vagal mesmo, o que andarilha. No caso, este que escreve).
Creio que essa mistura excêntrica de bolor e sódio e milho queimado era algo que fazia parte do conjunto atual de inspirações para tal relato. Antes as palavras simplesmente não estavam fluindo, uma vez que tudo estava muito abstrato. Comendo esses restos tóxicos, no entanto, tive algo concreto para relatar. Tão concreto quanto a parede que usei de prato.
Beira o absurdo, mas não chega a tanto, é apenas o gosto da civilização-deserto. Quarenta dias prometi perambular entre todos os pecados, aguentar todas as tentações, respirar com vigor cada pedaço de monóxido que quisesse visitar minhas fossas… Há algo me testando, e não quero reprovar e ter de fazer tudo outra vez.
Não sei de onde mente tão maligna poderia tirar inspiração para tal tipo de teste. Deserto, quarenta dias… A originalidade do sadismo por vezes me surpreende.
Outro fato é que a água no quarto está acabando. Numa análise mais profunda, é irônico, também. Justamente NESTE quarto a água está acabando. A hipótese de minha conduta ser regida por alguém mais culturalmente desenvolvido passa a ser até que aceitável. Só não consigo achar os buracos nas paredes. Ora, esse alguém ESTÁ me observando.
Ao menos esta não tem gosto de ferro. Tem gosto de água, o que a coloca muito perto do sangue, do bolor e do cafeóide. E está acabando, assim como o sangue, o bolor… Cafeóide ainda tem muito para os livros da madrugada. Hesitei por demais a abri-los, uma hora teria de ser removida a tampa. Assim fiz.
De qualquer forma, creio que andar por aqui faça algum bem ao que continuo denominando como alma. Estou distante de tudo o que me traz boas lembranças, estou sendo renegado dos direitos mais elementais, como comer e beber adequadamente, sinto-me observado em cada canto escondido do quarto, as montanhas de pedra amarela parecem-se mais com edifícios cinzas e escadarias de metal das cabeças de borracha e a Lapelle’s deve existir em algum lugar aqui por perto.
A qualquer momento pode acabar a bateria, e percebo que foi me negado também o direito a energia e campos elétricos, se é que existe algo assim. Tomemos por padrão MEU conjunto de leis.
Mas, se assim convencionarmos, estou renegado de todo o livro.
Não façamos assim, convencionemos outra coisa. Qualquer outro conjunto de leis que você queira. E negue-se a todos os seus direitos de sobrevivência e de metanoia. Agora estamos numa situação bem mais parecida.
Ela desfilava, embora não fosse um lugar para desfiles. Couro, coturno, correntes. Era a lorde suprema das rodas e do aço forjado. A música rangia pelos arredores e quase destruía as velhas paredes do Eco.
Era longe, afinal.
Talvez esteja alguém supervisionando inclusive meus sonhos, ou alucinações… Em tais condições, é difícil separar um do outro. Deito, olho para o tubo de gás aceso, e em instantes parece que o teto fica translúcido. Vejo o céu, as estrelas, nebulosas, constelações, vejo Escorpião tão afastada de Touro, o que me deixa um tanto triste por essa noite; mas, se sobrevivo a um deserto, não é uma noite que vai fazê-las ficarem distantes para sempre. Até porque acredito na dobra do espaço e nos túneis de minhoca.
Minhocas são seres repulsivos, mas se não existissem a agricultura perderia muito. Talvez muitos morressem de fome se não fossem as minhocas. Não odiemos. Não faz bem.
E, então, como num passe de mágica (leia-se: fome extrema), o céu começa a rodar cada vez mais rápido. Pode ser que isso tenha sido causado pelo fato de minha pessoa, sem ter muito mais o que fazer além de resistir ao testes, não faça nada. E olhe pro céu, que nem existe.
Rodando, acima de mim, tudo passando, contornando as eclípticas, magnetizando, tempestando, chovendo função gama… Tudo, e todos, brilhando, girando… Como uma música feita pelas minhocas do espaço.
Tenho saudades, não preciso mentir quanto a isso… O uso de termos pesados às vezes é necessário, e muitas vezes não podem ser substituídos por outros equivalentes.
Incoerência IX
Ele não queria, e eu ia ficar com muito peso na consciência, se é que posso dizer que tenho uma. De qualquer forma, sabíamos que tal evolução demandava sacrifícios. Peguei a caixa de ferramentas como se fosse um trabalho comum.
Dei-o uma dose de Veigsztran, ele dormiu rápido. Era quase seis da tarde, e estávamos ficando sem luz, precisava agir rápido. Primeiro a serra manual.
Ele não podia sentir nada, uma vez que estava em transe psicotrópico. Continuei o serviço, fingindo que sequer conhecia o sujeito. Na verdade eu não conhecia, de qualquer forma. Era mais um estranho. Era só um experimento.
Tive de separar um pouco as vísceras, para que pudesse acomodar confortavelmente (dadas as condições) uma bateria de Tecnécio, a mesma que pensei em desenvolver há uns meses, como escrevi neste mesmo caderno. Liguei os fios encapados por compostos de Selênio, usei o cauterizador (que adaptei milagrosamente do micro-ondas da fábrica), juntei estanho e estava pronta essa parte.
Os fios que saíram, liguei-os no osciloscópio, para checar se as ligações neurais estavam bem sucedidas. Mandei um impulso de “Olá”, e ele e o osciloscópio responderam positivamente. Bom.
Era um monstro.
- Relatório de Sadi Implattore sobre Automação de Células Nervosas e Aquisição de Reflexos Artificiais, página 184, relato Zero.
Agora, penso, não há mesmo muito o que se fazer por aqui. Talvez haja uma recompensa para tal teste, talvez não, não sei. Pensar muito nisso, por ventura, nem deve ser tão agradável assim. Estou aprendendo a lidar com o gosto dos conservantes… Assim, provavelmente posso criar vergonha na cara suficiente para apreciar com ainda mais zelo os gostos de verdade de tudo o que existe (pra mim).
É chato, eu sei que é chato, mas não custa nada lembrar que a realidade minha é a realidade minha. A sua é a sua. A dele é a dele. Estamos todos no Diagrama, ainda. E, pessoalmente, tudo seria muito sem graça se fôssemos uma única função linear.
Funções lineares matam pessoas, fisicamente falando. Penetram pela garganta e saem, rasgando todas as artérias e veias e tecidos e órgãos e traqueias (agora sequer posso acentuá-las como quero).
Ouço conversas do lado de fora da porta, e um ruído que fica cada vez mais agudo, como se algo estivesse sendo carregado até o limite antes da explosão. A porta deve ter ranhuras que não consigo perceber, alguma ilusão óptica sutil. Estou nu à casa toda, ao prédio todo, à cidade toda. Todas as trapaças são possíveis, todas as armadilhas são prováveis quando se está num deserto assim.
E nem tenho uma motocicleta.
Ela o fez. Assim como eu também o faria, se ela fosse. A situação não requer tipo algum de crítica, não foi nenhum tipo de jogo sujo. Admito isso da forma mais sincera possível.
O que me chateia é que eu não estava lá. Eu não pude participar. Como sempre aconteceu… E, como (soluço) temo que não pare de acontecer.
Temos esses momentos de fuga. De se esconder por baixo do travesseiro e lacrimejar. Houve uma festa, todos se divertiram. E eu não pude sair de casa. É uma sensação além da tristeza. É a sensação de ser preso e não poder estar onde se quer no momento em que se quer.
É a árdua sensação de se sentir humano clássico.
Eu só queria me sentir incluído nas músicas, nas bebidas… Mas a festa sempre acabava comigo no canto. Sempre.
Nota ao Senhor Heinsenberg:
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Ao menos, também devo concordar que estar aqui é bom para digressões. Embora seja difícil pensar linearmente, algumas coisas acabam por concretizar as conjecturas. Não que isso seja bom; aliás, está muito longe de ser bom, mas nos quarenta dias do deserto não há ninguém além de mim e da banca analisadora. Disfarçam-se por síndicos, vendedores, comerciantes, fabricantes, empresários e encanadores. Vejo inclusive belas moças com papéis de impostos nas mãos, cobrando tarifas e atendendo telefonemas. Quadratizadas, robotizadas. Não são de verdade. Quem planejou tudo isso me subestimou nesse ponto, e digo isso sem qualquer tipo de exaltação.
Talvez quem esteja subestimando seja eu.
A queda é maior quando se está mais ao alto, e disso até a sabedoria popular é ciente.
O céu não para de girar enquanto tudo isso penso. Posso fazer as paralaxes, contar estrelas, fazer desejos aos asteroides… É uma fonte dos desejos. É azul-escuro, tal qual água de fonte digna de desejos. Não tem gosto, mas mata a sede. Não tem peixes visíveis, mas a vida pulsa. Além disso, ainda há muito mais que não se pode enxergar. Coisas boas e ruins.
Espero obter melhor sorte e observar mais coisas boas olhando com atenção, ao invés de imitar velhos astrônomos e bradar que o Sol não é perfeito por possuir manchas.
Pra mim o Sol é perfeito. E as manchas nada interferem em minha visão. Tudo tem manchas. E nem por isso deixa de ser perfeito.
A natureza é a perfeição que tentamos equacionar, imitar, decodificar, e nunca conseguiremos.
O deserto beira a perfeição do sadismo. Mas podia ser pior.
Muito pior.
Ajuste Das Freqüencias
Tempo, seus crepúsculos e cores monocromáticas para quem não sabe ver. De certa forma, não causa surpresa descobrir que, em meio a tantos prédios e tantos padrões b/w, alguns tinham iluminações d’Outros lados, e viam cores que não podiam ser vistas do lado de fora da janela. O relógio da catedral parado, mas com alguma graxa e alguns parafusos talvez volte a badalar.
Estava perdido. Dias e noites escorregavam diante minhas pálpebras, a Lua se encaixava no topo do meio-dia, o Sol queimava árvores às três da manhã… E nada parecia concordar. Os ritmos eram igualmente quebrados, os compassos irreconhecíveis, caóticos e agonizantes. Tanta tormenta tilintando por tais diante de portas partidas e ríspidas, raquíticas perturbações e partes cartesianas, turvas. Num instante a porta explodia, e no outro os sussurros da silvestre ninfa sarcástica assoviavam a sabedoria: Sartre, Simão, sangue, surto, cessavam ventos os muros.
Duas. Não consigo recordar se manhã ou tarde, apenas duas. Também devia ser algum lugar cartesiano situado bem ao meio do plano dos doze. Contemplávamos hipérboles e constantes, serenamente projetadas na mesma dimensão que nos apoiava sobre nossos pés. Uma dádiva, presente de alguma estranha entidade. Complexa e, por algum fator, extremamente amável.
Escorregando as mãos pelos tijolos, dos lados das hipérboles apareciam parábolas, retas, pontos, degraus e intersecções: podíamos pisar sobre o eixo das abscissas, víamos ao topo a marca das coordenadas. E tudo fora uma singela dádiva para os únicos malucos que ousavam desafiar a temperatura e permanecer vivos.
Além de mim, três: a Dona dos Relógios, o Senhor das Falas Mudas e, logo ali adiante, alguém com uma garrafa em mãos deslizando sobre as formas como se fossem rampas de neve. À tal altura, as navalhas já pareciam querer penetrar ainda mais fundo a epiderme… O tempo caía, eu tremia.
Descrente de qualquer próxima possibilidade, lembrei da pré-história e de todos os rituais para se conseguir calor com outros corpos. Para não congelar, alguns povos vivam mais próximos, utilizavam-se do calor tanto de semelhantes quanto dos demais animais (uma vez que poucos sabiam evocar o fogo), e então estendi minha mão.
Enquanto toda aquela história de eletromagnetismo era dobrada pelo momento, sentia como o tal calor fluía entre as mãos e braços, entre boca e pescoço. A Catedral estava encoberta por árvores, então não consegui ver com exatidão quantas horas eram… Entretanto, minha vontade é que o relógio santo ainda demorasse muito para outra vez badalar. No instante, mesmo sem saber, um outro relógio trepidava, pulsava, cheguei a ouvi-lo: os mesmos rios de outrora, que ainda corriam quentes por dentro das cavernas; agora não estava frio, mas eu ainda tremia.
Um brilho novo se fez além da carruagem quebrada. Creio que outro conhecido alquimista, nessa mesma equivalência, descobrira o elixir que tanto procurara entre livros e manuscritos e serpentes e caveiras. Uma mesa, uma fogueira, uma floresta. Palavras divinas, ruídos, vinho e alaúde. O ciclo conseguira ajustar o relógio depois de tanta demora.
137 – 2
É pecado pensar.
Algumas estrofes deveriam ser apenas subliminares, sem tradução… E ainda há quem tente se aventurar por tais campos obscuros, tais cidades amórficas; prédios abandonados aqui, ali, mesmo quando cheios de gente. Não podia olhar, mas olhei. Direto para a caverna…
Das pontas dos dedos dos pés, subindo contra a gravidade pelas pernas, regando todo o corpo, evitando que tudo se esfrie por mais uma noite na neve, sinto quão dolorosos são os efeitos da tão falada Evolução. As línguas; elas dançavam. De seres invisíveis, automatizados na guerrilha da sobrevivência, até ímpares, que conseguem automutilação sem nem ao menos um arranhão na pele. Insetos humanóides que não precisam lutar para respirar, não precisam correr os riscos, e por fim acabam achando o maior dos predadores dentro de si, em algum lugar que nunca conseguimos descobrir onde fica nem aonde vai.
Olhar para uma parede e perceber que é uma parede. A lâmina; é uma parede, apenas uma parede, e você está em seu quarto, com a porta trancada, protegido, ninguém pode fazer mal algum. É o quarto, é a fortaleza. É seu castelo, e nele ninguém pode entrar que você não queira. As paredes são tão maciças. Dentro do quarto você está protegido, ninguém vê. Só você.
Das cordas desafinadas do velho violão que achei n’um dos escombros as músicas ecoam pelas avenidas (sombriamente acompanhadas por uma melodia feita pelos ecos de todas as mentiras que meus tímpanos traduzem como meros ruídos). N’um violão com cordas afinadas elas simplesmente se escondem por dentro da madeira. Ou dentro de mim?
O Sol radiava por cima das nuvens. Por algum motivo, iluminando todo esse Mundo estranho no qual vim parar, O Sol. Dos dias nublados contemplava sua não-existência, com a estranha certeza que um dia vê-lo-ia.
Meus olhos, tão desacostumados, olharam sem piscar por alguns segundos, minha retina ia sendo queimada pouco a pouco, mas para mim era só a luz. Minha visão ia se escurecendo milésimo após milésimo, ciclo de radiação após ciclo de radiação, mas para mim aquele era o pedaço prometido do paraíso. Pela fenda solar fui ficando cego, e mesmo assim nada poderia me fazer parar de olhar.
Uma sacada fria e esfumaçada. Algum relógio devia marcar o tempo certo, embora todos eles estivessem com horários diferentes.
…de cera. Em sua dimensão, o Mundo tinha dois grandes oceanos. Sobrevoava, via seu reflexo longe. Cada vez que se aproximava, os oceanos pareciam querer engolir, vorazes. Era como se houvesse um efeito buraco-negro, toda a luz, de quando em quando, era sugada para os oceanos, todos os tempos, todas as sensações, sentimentos… E nunca ninguém soubera o que de fato havia por baixo das águas. Sequer Möebius saberia como definir.
A criatura criada pelo Criador, então, tinha todo o mundo ao seu deleite, meros prazeres. Deitar-se sobre qualquer dos campos, escalar qualquer montanha. E olhar para os oceanos. Que, quanto mais pareciam perto, mais tentavam dilacerar as asas e o coração do nobre desnorteado.
Em meio a um dos chás rotineiros que a criatura havia preparado em qualquer fogueira, pôs-se a olhar a Lua. E foi comer queijo.
Aqui por perto uns fios desencapados; pude ouvir o universo, ali mesmo pelo fogo. Enquanto o plasma radiava trazendo consigo a foice, eu o encarava, ouvindo as vozes daqueles que distam, e não podia acreditar em meus próprios sentidos… Apesar de saber que tudo era real. Era diferente das alucinações. Ali era real, se eu tocasse o transmissor, sentiria as correntes dos calabouços explodindo por dentro, arremessando minhas vísceras a algum lugar bem longe. Ou apenas torrando tudo e, então, mostrando o carbono essencial.
Pouco a pouco a vista foi escurecendo, como se anoitecesse cada vez mais rápido, eu já não prestava atenção na velocidade das horas há um tempo. Os prédios começaram a se contorcer, mostrando como o concreto virava pedra, como o céu virava breu, as estrelas se apagavam, voltara para a intersecção. Para as imagens das paredes.
Envolto por terra e mais terra, alguns quilômetros abaixo de qualquer superfície, talvez este também seja um dos infernos, outro deles. Não adiantaria caminhar meses, nunca sairia do lugar. Era um ponto infinito num plano infinito, feito de combinações grosseiras de laços de pedra, retângulos e triângulos, focos de luz que passavam como cometas. Alguma coisa mantinha viva todo o superorganismo, mas para mim, era só uma caverna. Procurei os três gregos, talvez eles estivessem por lá… Mas, como já imaginava, não consegui sair do lugar, mesmo correndo até que meu sangue quisesse acidificar.
Da radiação fez-se a luz, e realizei que estava desmaiado nas escadarias da matriz.
Matriz. Tantas imagens ainda inteiras (embora algumas já reduzidas a pó), agora eu posso ver as estrelas, embora ainda pareça frio para mim, aqui é muito mais amistoso e aconchegante que o inferno no qual eu estava até alguns segundos atrás. Não havia neblina nesse dia.
A mãe Gaia começou seu renascimento, a praça já tem suas folhas, na minha imaginação vejo pessoas saindo de paredes, outras conversando do lado de fora da igreja; como se fosse uma ilusão de algum tipo de vida, bem distante, realmente distante. Entorpecida. Lá longe podíamos ver o microchip.
A cabeça serve para atormentar. E nada mais. Algumas vezes, cri que tudo o que se aprendia sobre o cérebro humano ser a razão da evolução era mentira. Porque eu não sentia. Era apenas atormentado pelas sinapses. Vez e vez outra vez. Com interlocuções, ainda forçando as barreiras para tentar rompê-las. Houve eu de perceber muito tarde que aquele material era mais resistente.
Uma molécula
Perdida
No meio
Da Equação.
Que se perdeu
No tempo
Do Abismo.
A vida começava e acabava e acabava antes mesmo de começar. Os lugares eram marcados por tintas invisíveis, e tatuagens eram feitas sem o uso de sequer uma agulha ou coloração. E o ciclo se repetia, mas Eu nunca percebera. Nunca realizara. Apenas queria viver e esquecer que por trás daquilo tudo havia uma verdade (um padrão). A mentira me era agradável, era extasiante. A verdade não.
Com pedras era pisado e arremessado contra as paredes já derrubadas, os reinos caíam para dar lugar a outros. Fusões e fissões, explosões nucleares, reações. Tudo iluminado mesmo quando no ápice da escuridão das noites de inverno.
Eu sentia medo, e logo percebia o quanto isso também era reconfortante. Não havia cultura, não havia competição, era só eu e eu mesmo no profundo silêncio das notas. Acabaria na manhã seguinte, mas naquela noite o Mundo fazia um pouco de sentido.
Um dia as paredes perceberam como estavam derrubadas.
Depois de todo aquele vento, em certas noites de ressaca, conseguimos sentir que há o Sol, mesmo que não no céu que vemos. Apesar das voltas, nos encontramos no mesmo ponto em algum lugar dentro da massa. Algum lugar além da massa, melhor dizendo. Nesse lugar, cheio de datas e lugares que nem existem, tudo o que de verdade somos, todos os segundos, aqueles que foram, aqueles agora, aqueles que ainda serão.
Na forma alienada, na mais alienada delas, encontramos nossa essência, nossa dádiva; nas mais alienadas ilusões, olhamos nos olhos daquilo que realmente somos.
Aquilo de mentira que de verdade a gente quer.
-
O RESTO É VERDADE.
Entendimento e Compartilhamento de Linhas
“Ninguém entende e, no fim, quem não entende sou eu!”
Eis, amigos, um texto que fiz a poucos instantes, inspirado pelo vício de escrever subjetivamente.
Abre parênteses.
Hoje, primeiros momentos do segundo dia do ano, vou dizer um pouco sobre significados. Por que significados? Porque sim, oras.
Significados… Você entende os significados? E quando você não deve entender os significados?
Bom, vou tentar seguir uma linha pra você entender o que eu quero transmitir aqui. Linha sim, linear. Mágico, não? Enfim, tudo começa quando alguém começa a comunicar-se com outro alguém ou coisa. Daí então o primeiro, ou seja, emissor da mensagem, lança artifícios comuns ao entendimento dele e do receptor da mensagem. Feito isso, têm-se uma linha comunicativa.
Mas pode ser que o emissor da mensagem não queria emiti-la claramente, explicitamente, por qualquer motivo. Então usa sinais! Ou codifica a mensagem de algum outro modo. Com isso o receptor, ao decifrar a mensagem em questão, não decifra só a mensagem. Mas sim chega mais perto ainda do que o emissor quis realmente transmitir.
Enigmas não são apenas diversões baratas. Todo enigma tem um significado tão valioso (ou mais) que o significado da própria mensagem. Talvez a mensagem seja meramente o enigma, ali, na frente. Olhando pra você esperando ser olhado de volta.
Olhe de novo.
Muito bem, nesse momento o emissor passa a mensagem para o receptor.
Suponhamos que o emissor seja a própria vida. Suponhamos que dessa vez a vida transmita algo bom em você, e você entenda claramente. Então o que fazer com o algo bom que você acabou de descobrir dentro das sombras? Guardar pra você e ser feliz conversando com paredes? Talvez transmitir o algo bom para outro alguém que você goste.
Então você, caro leitor e companheiro (e por que não professor?) vai até a pessoa e tenta transmitir a mensagem. Porém, sem perceber, a mensagem sai codificada. Não é sua culpa! Deve ser a euforia do momento, a tal felicidade, sabe-se lá. E seu receptor não entende nada. E você fica chateado por ter dentro de si algo bom e agradável pra passar à humanidade, e não conseguir transmitir.
Problema comunicativo.
A comunicação individual, segundo a analogia que tomei liberdade de fazer, é uma linha reta, p2p, como quiser chamar. A partir do momento em que se quer transmitir uma mensagem a mais pessoas, há uma quebra na linha e ela se divide em várias outras linhas menores, como num grande sistema multiplicativo de razão desprezível. Como a linha é menor e dividida, o transmissor da mensagem para várias pessoas deve ter um poder maior para transmitir, caso contrário a transmissão será fraca e inútil.
E o que acontece então se este mesmo indivíduo que quer transmitir a várias pessoas resolver codificar a mensagem? Eis um caminho complicado. Talvez se fosse algo ruim, pudesse se usar algum tipo de eufemismo ou coisa do tipo. Mas para coisas boas não são necessários tantos eufemismos, uma vez que boa parte da mensagem já fica codificada subliminarmente, sem que você note. Então seja claro. Pelo menos nesse caso.
Compartilhar coisas boas têm se tornado um fenômeno cada vez mais raro (principalmente quando alguém fica gritando no seu ouvido ou na sua janela querendo jogar sua concentração no lixo), então não há o que temer. Compartilhando bons sentimentos você não estará atrapalhando, e sim contribuindo. Talvez um sentimento agradável seja tudo o que você precise passar a uma pessoa para que o dia dela melhore. O ser necessitado não precisará de palavras vazias, e sim segundos preenchidos.
Simples e funcional.
Fechei os parênteses? Acho que não.
E nem fecharei. Até a próxima, galerinha do mal!
Grato!
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