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Plano Azimutal #2 – O Banheiro do Sexto Ano do Vigésimo Primeiro Século da História da Humanidade Depois do Messias
Andando por ruas que não existem, cheguei ao ginásio. E parecia lotado, afinal. Por algum motivo, eu não fazia parte da bagunça da platéia, mas sim de algum tipo de equipe ali dentro. Cheguei-me aos vestiários, e encontrei uma velha conhecida – estranhamente, vestindo roupas de ginástica um tanto coladas ao corpo. Estava exuberante. Eu podia ficar olhando por horas e horas, ou décadas.
E só.
A ginasta, em questão, era a velha conhecida – cabelos lisos, pretos, longos e soltos; roupa azul e preta; lábios bem contornados e rosados; olhos escuros, talvez castanhos, mas não sei ao certo; pele extremamente branca e lisa; alguma estranha atração por andar de patins em ocasiões formais onde pessoas costumam usar ternos – também é notável que ela gostasse de doces lisergicamente coloridos.
Eis que ela entrou à quadra da piscina, a qual não continha água, mas bolhas gigantes e coloridas de plástico; a orquestra começou a entoar a Abertura da década das memórias, e ela se lançou às bolhas.
Após quinze minutos, que era o tempo permitido de apresentação, meus olhos não conseguiam ficar sincronizados com meus pensamentos, nem com meu queixo. Tinha sido algo espetacular, que nunca pensei ser tão fenomenal. Não sei com quem exatamente ela estava competindo, mas havia chances de se ganhar algo.
Lembro de ter ouvido, antes da apresentação, que alguma colocação até vigésimo seria de bom tamanho. Mas as notas foram tão altas e tão inesperadamente altas, que demorou até o número Três do telão fazer algum sentido para nossas massas encefálicas.
Subitamente, então, ela se agarrou a mim, e eu não sabia o que fazer, senão dizê-la como eu sentia medo daquela ocasião. Não era bem medo que eu queria dizer, mas foi o que saiu. Existem emoções reais no mundo irreal, como pude finalmente contemplar de fato.
Ela se chegava cada vez mais próxima, suada, mas com um cheiro inexplicavelmente agradável. Roupas coladas, como se quisessem soltar do corpo, mesmo que, para isso, fosse necessária alguma ajuda externa.
Eu não podia pensar em nada daquilo. Na verdade podia, mas não pensava ser justo.
Foi que lembrei estar num mundo não real, então um sorriso maligno se implantou em minha face, e pedi-a para ir até o vestiário. Comigo.
A casa era a mesma, os costumes eram os mesmos. O chão de madeira era o mesmo, o sofá era o mesmo, e mesmas eram todas aquelas pessoas, com os mesmos assuntos há cinqüenta anos. Podia acontecer algo de diferente.
Sempre que se prepara massas para o almoço, algo estranho acontece. E isso me animava um pouco.
Uma súbita luz na janela do quarto de cima, e não era quem todos ali queriam que fosse. Mas era exatamente quem eu queria.
Posso comer macarrão outro dia – quando uma luz aparece na janela do quarto, não se deve pensar muito antes de pular.
- A Magazine Guild Illusion, #73, 1937 – p. 273e15
Agora era uma mera questão de fusos horários até que Ela chegasse, finalmente. Mas lá estávamos eu e a ginasta, e não era certo ficarmos parados. Ela parecia estar bêbada, de tanto que ria e gargalhava. Começou a tirar a pouca roupa, e meus olhos ficavam cada vez mais perdidos.
Ela me levou até um lugar escondido do vestiário, e lá, por algum motivo, havia um sofá. Vi-me caindo sobre ele, sem qualquer reação. A ginasta, que na verdade não era ginasta, se revelava totalmente curvilínea e rosada e lisa. E suada, obviamente.
Eu queria atacá-la, mas ainda não era justo. Era uma tortura inacabável até que se acabou – vi entrando na sala secreta a que fui buscar no meio do almoço.
Piscamos um ao outro, e saciamos nossa fome e nossa sede por longas curtas horas.
21:30
Talvez fosse a quinta tentativa, não consigo lembrar ao certo. O que importa é que, dessa vez, as coisas foram diferentes.
Era cedo, relativamente. E era um fim de semana, mas eu sentia muito sono. A rua estava especialmente calma, era o ambiente perfeito, dessa vez poderia funcionar.
Deitei-me sobre um lençol azul comum, mas recém lavado. Travesseiro novo. Cheiro agradável e pouca poeira… Nem o ar seco incomodava tanto, eu tinha de fazê-lo.
Fechei os olhos sem qualquer dificuldade, e já sabia das conseqüências mais absurdas e incômodas e perturbadoras… Às vezes sinto que, por qualquer motivo, certas pessoas devem ver o lado obscuro, como se fossem ensinamentos sobre as duas faces de cada moeda.
Era incômodo, mas eu precisava saber da sombra, só então eu mereceria a luz.
Minhas narinas totalmente desobstruídas; o ar conseguia entrar, penetrar dentro das hemácias, fluir por todo meu corpo, realizar as trocas que deveria realizar, e ser liberado. O fluxo parecia tão limpo quanto um rio primordial. Num raro momento, não fiquei angustiado de ouvir o que eu sou.
Até nesse ponto não era novidade. Das vezes anteriores, já pude sentir a afinação diferente da música em que eu entrava lentamente. Melodias cada vez mais desconexas, mas que faziam todo sentido que eu buscava.
Eu girava sem sair do lugar, até que consegui atingir a afinação.
Foi que me lembrei, em momento exato, de algo esquecido das outras vezes. Eu não tinha um mapa, e não sabia o que veria, nem como veria, nem por onde. Apesar de não ser possível eu me perder, nunca se sabe o tipo de vento que pode soprar dos abismos.
Tentei, por algum tipo de telepatia transcendental, pedir os bons ventos de Lisboa, dos mestres que não sei o nome, nem como são, mas sei que são – os mesmos que tanto conversam comigo e depois me fazem esquecer as palavras.
Não há palavras, na verdade… É algo bem mais complicado. Claro que eles ouviram minha reza.
De início, parecia estar entrando numa nuvem d’água, bem cinza. Cumulus, Nimbus, Cumulus Nimbus, não sei ao certo – nunca entendi de nuvens, afinal. Mas era uma sensação relaxada, sem grandes sustos. Era o que eu queria.
Ouvi relatos de camaradas, há muito tempo, que tiveram algum medo de não conseguir voltar desses estados… Em particular, a mim não se fazia tal receio. Estaria eu onde deveria estar, com quem deveria estar, no mundo em que deveria estar.
Ao passo que a nuvem começava a se dissolver, eu me via exatamente onde estive antes de sair. Mas o quarto escuro não parecia mergulhado em breu. De certa forma, parecia até que eu iluminava as paredes, não sei como. Era uma luz azulada, escura, quase imperceptível. Mas tudo ficava bem menos escuro que antes, e isso era confortante.
Não havia necessidade de portas, quisesse eu estar à rua, estaria atravessando a parede. No entanto, eu não me interessava em conhecer tempos diferentes, vidas passadas, monumentos históricos, números de loteria nem nada disso. Eu queria ir pra cidade dos pesares analisar alguns tópicos.
As estradas, em suas rodovias, podem parecer muito confusas. São pedágios, bifurcações, congestionamentos, um caos de música experimental urbana que, dessa vez, eu dispensaria. Talvez fosse mais fácil olhar de um monte bem alto, e alcançar a vila para onde os pássaros vermelhos voavam.
E os pássaros vermelhos de fato existiam, muito acima de qualquer Cumulus Nimbus imaginável. Segui-os, e percebi meu acerto.
Ao meio da vila perdida, o tão conhecido hiperbolóide e os eixos cartesianos. Não era exatamente ali que eu queria estar, mas ficava bem mais fácil seguir por aquelas ruas, as quais eram poucas.
Uma casa de dois andares, com pontos vermelhos que vigiavam a todos nós. Entrei pela janela principal, olhei para quem se deitava àquela cama larga, não quis ser notado, e continuei até a porta oposta. E lá estava quem eu buscava tanto.
A televisão se fazia ligada em qualquer canal, o semblante d’Ela também estava normal, e tanta normalidade chegava a me incomodar um pouco. Sentei-me ao seu lado, sem que Ela percebesse. Fermentava por dentro da luz tudo o que eu queria dizer naquele momento, e como eu diria. Ela comia biscoitos e assistia a algum programa feriado.
Apoiei-me as mãos sobre seus ombros, e, logicamente, ela não poderia perceber. Por outras afinações, entretanto, contei a Ela. Contei que tanto esforço, isso tudo de sair de um lugar e flutuar até outro, seguindo pássaros lendários, entrando por além do material e tudo mais, isso tudo era pelo simples ato de eu me preocupar.
Ela sabia tudo o que eu poderia dizer sobre sentimentos, mas há algo além disso tudo que nem eu sei como transmitir. Talvez ela entenda pelo simples ato de estarmos ali, cada um em um lugar diferente, até relativamente distante, mas incrivelmente perto um do outro.
Foi um dos abraços mais longos que já realizei, embora a parte acordada d’Ela não pudesse sequer sentir um calor diferente. N’algum sonho, talvez, essas partes viessem à tona como meras alucinações.
O caminho da volta é bem mais fácil. Como fossem jogadas migalhas de pão pelo caminho feito – dessa vez, no entanto, pássaros perversos não comeriam tais migalhas.
As vias podem parecer absurdas, e as Leis impostas podem deixar tudo impossível. Apesar da realidade forçada, nenhum caminho seria longo o bastante para me impedir de vê-la com um semblante satisfeito e, talvez, sorridente. Nenhuma rodovia, nenhum pedágio… Sequer uma dimensão inteira seria imutável.
“We Three… Kings?”
É complicado escolher palavras em certos tipos de atmosfera, mesmo que para mera tradução (que, se falha a memória de alguns de vocês, é meramente o que faço por esses concretos abandonados). Não há como mostrar o ambiente por si, mas não sei desenhar, então prometo que farei o que puder. Algumas coisas não precisam morrer, use sua ilusão!
Lá estávamos nós três. Nós três diferentes, devo ressaltar. Para não criar qualquer tumulto, vou descrever quem éramos nós três.
Eu tinha a cadeira ao centro. Tinha um fluxo azul em volta de meu cabelo, tinha sete anéis nas mãos, três cálices, um para cada tipo de vinho. Gostava de olhar à frente e contemplar a rachadura e o céu. Também gostava de apontar tudo com meu cetro. Sim, eu tinha um cetro, era o mínimo que se esperava. E ele era dourado com uma pedra vermelha por cima. Ela tem muita magia escondida, mas ainda não sou tão épico a tal ponto de usá-la. Tudo tem seu tempo.
À minha direita, e isso [não] é proposital (é para ser à direita mesmo, com a conotação bíblica que desejar que seja… A interpretação é livre), o Distêmico. Não adiantaria de nada forjar uma tríade de tamanho significado se fôssemos três alienados em olhar pro céu. Foi uma escolha pessoal, admito. E também admito que não conheço outro ser no mundo para tal cadeira. Ou trono, se preferir tal terminologia. O cabelo não era tão grande, mas não era curto. Usava-se de uma capa escura, e eventualmente não podíamos observar como era realmente seu rosto. Possuía dados, mas não era propriamente ligado com a sorte das coisas. Há demônios e mais demônios para cuidar de nossa sorte, mas por horas são eles irrelevantes. O Distêmico também contemplava, e percebia coisas que estavam por vir. Observava cada inseto e sabia exatamente o que aconteceria no próximo minuto. Era admirável. Quando, água.
À minha esquerda, e não sei se há significado pra isso além de ser propriamente a minha esquerda, alguém que não sei ao certo quem é, e podem ser muitos ao mesmo tempo. Não que tenha personalidades múltiplas nem nada disso, é que se trata de uma incógnita. Não consigo descrevê-lo o pensamento, nem as idéias nem o porquê de ser o que é, só consigo traduzir o que vejo; o que vejo é um ser segurando um ábaco, andando ao redor da rachadura, contando alguma coisa, fazendo os cálculos com os cálculos (como antigamente), usando pedras, ferramentas, parafusos e muita madeira para isso tudo. Talvez fosse um grande experimento. Não me lembro sob que circunstâncias o escolhi, mas também sei que é o ideal para a esquerda.
Então agora já sabem quem somos os três. Quer dizer, sabem como é a descrição. Mas nem eu me satisfaço com isso, então vocês também não precisam sentir necessidade de se satisfazer com palavras. O discurso de rachaduras, observar, contemplar; isso tudo pode ter também feito alguns nós, mas vou tentar explicar.
Era uma montanha, bem alta e bem marrom nessa época. Havia uma época onde ela se enchia de neve, e dava lugar a um branco misturado com um azul acinzentado. Mas, por hora, era marrom. Ficava no meio de todos os reinos, e todos aqueles que construíam castelos achavam-se reis de tudo, e sempre se esqueciam dos muros.
Não viemos até aqui por luxo. Fomos escolhidos. E também não é algo que não gostemos, pelo contrário – é prazeroso olhar tudo da forma que devemos olhar.
Há uma grande rachadura defronte à grande mesa onde jogamos, comemos e bebemos. Uma rachadura na montanha, mas quem observa de fora pra dentro não pode ver. Apenas nós que já estamos dentro da montanha podemos contemplar.
Lá embaixo, grandes penhascos e cascatas e corredores de terra. Animais de todos os tipos – para nós, parecem-se todos com insetos, principalmente os que se acham superiores aos outros animais. Os insetos, e assim vou atribuir o nome, rastejam, encontram florestas, perdem-se, acham a saída, e depois enchem os outros insetos com fantasias e mais fantasias. É uma necessidade. Observar tudo apenas como tudo é passa a ser algo chato quando se tem estalos por trás dos olhos. O Distêmico acha isso tudo apenas patético, e em partes concordo. Não é patético usufruir da própria imaginação – é patético querer construir um castelo e prender todos os insetos a acreditarem nas mesmas coisas, como se houvesse verdade no Universo.
O Do Ábaco apenas observava e movia as pedras e rabiscava algo.
Podíamos perceber também como os insetos gostam de ser provados. Acham besteira ter que mostrar algo a alguém, ninguém pode saber o que se passa na cabeça deles, é absurdo. De verdade, se não gostassem mesmo, não sentiriam tanta necessidade de provas. Não é uma teoria, é algo observável. Todos eles amam revoluções, mas quando uma se aproxima, a maioria clama pela própria vida. Os princípios são irrelevantes quando se precisa saltar do penhasco e se salvar da manada que vem por trás.
Para a maioria.
O Do Ábaco possuía um artefato interessante. Tinha ele um pêndulo perpétuo (não existe movimento perpétuo, pode ser que acreditem, mas não vou tentar convencê-los do contrário. É só um conto, afinal. Não se esqueçam de onde estão cada um de vocês); o pêndulo batia de um lado, saía do outro, e assim infinitamente. Eu gostava muito, particularmente, de tal instrumento. Mostrava a todos nós como o fim é o começo, e o começo é o fim, e como não é nada destrutivo. É o contrário de destrutivo: as forças se conservam!
Era unanimidade, e esta não era burra. Eu gostava do pêndulo, o Distêmico sempre fazia suas digressões sobre parecer difícil enfiar uma idéia tão simples (conservação de momento) na cabeça de todos os insetos, que não aprendem porque não querem, e O Do Ábaco, numa das poucas conversas que tivemos, comentou que fora aquilo invenção de um velho amigo… Um velho amigo que gostava de maçãs, felinos e café amargo.
A parte do café amargo não consta nos livros, mas é verdade.
Uma vez eu e o Distêmico conversamos sobre Platão, o grego. A caverna. Seria o topo da montanha nossa caverna? Seriam os insetos as sombras que chamamos de realidade? Mas parece tudo tão real! E a realidade deles, será que não seria tão absurda quanto achamos? E se para os insetos os absurdos forem normais e a normalidade for absurda? Até eu acho normalidade algo absurdo! É um bumerangue, afinal. Não há como chegar a conclusões, verdades universais não existem.
Mas ainda parecia patético construir um muro e aprisionar cada grão de terra que estivesse antes dele.
O Do Ábaco mostrava seus cálculos como se quisesse dizer que a prisão não é um estado crítico. As pedras ficam presas, e só assim conseguem mostrar algo ao resto. As pedras soltas em aleatório não simbolizariam nada senão pedras. Organizadas elas podem ajudar a entender quantidades, a estimar, a prever, a construir métodos eficientes. Elas estão presas por cordas ou por ordem. E se elas tivessem vontade? E se ficassem quentes quando expostas ao Sol não por meios científicos, mas por mera vontade ou necessidade?
A natureza não é aperfeiçoável, comentávamos. Ela já é perfeita por ser a natureza. Os sistemas que inventamos como parte da natureza até podem ser aperfeiçoáveis, uma vez que foram criados por seres tão aperfeiçoáveis no intelecto quanto uma formiga que, ao perceber que um dia teve asas, constrói outras por si mesma, com as folhas que antes comia, a fim de lembrar como é a sensação de voar.
Diga-me outra vez como é a dor que sente. Ela não vai ser igual à de ontem, tampouco parecida com a de amanhã. Não precisa ter medo de sentir dor. Seria de fato um problema temer um corte. Sofrer não é sinal de fraqueza nem de anti-evolução. Tentar ir contra os princípios naturais talvez seja insensato. É bom ser ingênuo, mas não com tudo.
Devemos olhar o que acontece. Se for passível de nossa ingenuidade, tanto melhor. Mas não estamos cravados no tempo, assim como as próprias pedras gigantescas não estão paradas. Elas se movem a velocidades insanas, mas só podem ser observadas em animação quando de longe. Bem longe.
Tão longe que os insetos demoraram séculos de séculos até perceber.
O Do Ábaco comentou sobre sua nova idéia. Um pêndulo horizontal, tal qual a linha que vemos todas as manhãs antes do Sol. Não é um muro, e ainda bem que não é um muro; é uma linha que divide o que podemos ver do que não podemos ver daqui. Para ver o que há além, precisamos andar. A linha vai continuar existindo, até que cheguemos ao mesmo lugar de onde começamos. Um pêndulo com engrenagens e uma lemniscata ao centro. Creio que não seja meramente simbólico, posto que O Do Ábaco não crie sistemas por serem meramente bonitos, mas sim por serem funcionais.
Eu, o Distêmico e O Do Ábaco passávamos todos os dias observando, bebendo e criando. Criando brinquedos e resoluções para os insetos, bebendo pelos insetos. Eles nunca notariam, sequer saberiam; não precisavam saber, assim sempre havia funcionado e assim continuaria a funcionar.
E a eternidade não é tão entediante quanto pensam.
Berserker Hypothesis
Cite-me; faça meu dia valer alguma coisa.
Virou (virei) o último gole. No sentido de beber ou de tornar, tanto faz. Esbravejou (esbravejei) contra o céu azul, contra as nuvens e contra tudo aquilo que era bom; ele (eu) sabia que tudo era perfeito enquanto caos, enquanto música quebrada, enquanto letra torta, enquanto palavras ligadas, enquanto garotas com línguas duplas; no momento nada disso fazia sentido. Era eu, a janela e a televisão.
E não estou dizendo sobre raios catódicos processados com x_o e y_o e curvas defletoras dentro dos experimentos de Rutherford. Pouco interessa o que distorce a trajetória dos elétrons. Eles são cinzas, e sentem fome.
Ao menos ainda podem ficar bêbados e não precisam fingir que está tudo bem com a realidade, enquanto ela parece, na verdade, o Tetris mais sádico já jogado.
A janela não pisca. Nunca. Tá frio.
Enquanto isso, no fundo do mar…
Não devia ter lavado o cabelo e a cabeça. Posso pegar alguma doença. Deve se ter muita cautela ao usar a cabeça para qualquer coisa. Sempre se pode ficar gripado, na melhor das hipóteses.
Hipóteses.
Pele de urso.
Hipótese.
Riemann.
Apótese.
Tá ficando tarde…
Espelho I-II
Viajantes; no último dia, na última semana, ou na última tarde, que seja, deparei-me com espelhos perdidos. Jogados pelo tempo, abandonados à estação, sabe-se lá desde quando. Espelhos. Numa sala trancafiada, na qual entrei sem chave.
Andei pelos monotrilhos obscuros, com o mesmo cheiro de poeira e as mensagens subliminares e todas as frases que escrevo de olhos fechados, imaginando, torturando meu próprio cérebro, divagando sobre o que há escondido embaixo de cada trilho de trem onde já não passa mais nada desde há muito tempo…
Olhos fechados, talvez esse seja um bom método, uma boa metáfora e uma boa síntese. Muitas vezes alguns segredos só são confessáveis, mesmo que acompanhado da pessoa mais confiável do mundo, sob uma neblina feita de escuridão. Seja ao fim de uma festa, ou antes de dormir, com as luzes do quarto apagadas.
Às vezes saem erros nas palavras, distorções, mas o conceito fica bem mais claro quando está tudo escuro.
E, dessa forma, continuei a caminhar, espreitando cada vazio enferrujado para tentar achar alguma porta perdida, alguma entryway station inside the train station. Pois bem, achei duas delas, uma em frente à outra.
Entrei à primeira.
Era um lugar sujo. Insetos podres já mortos. Metal podre. Líquido podre. Cheiro de podre. Tudo exatamente podre. Ao meio da sala, como algum tipo de ídolo exposto às orações, jazia um espelho velho. Mais velho que a própria existência da estação, creio. Mais velho que as eras todas da humanidade, creio. Mais velho que a consciência.
Nele, algumas manchas, mas elas não pareciam estar lá devido ao tempo. Parecia que o espelho já possuía essas manchas desde que fora fabricado. E elas ofuscavam a própria imagem que via ao tentar olhar meus próprios olhos.
Elas me indagavam, também. O que eu tentava ver? Por que tentava ver uma imagem sem manchas? Por que precisava ver a mim mesmo para ter certeza de minha existência? E se alguém apalpasse meu reflexo no espelho, por dentro? Eu sentiria afeto? E se as manchas fossem minhas de verdade, eu saberia limpá-las? Por que limpá-las? Por que eu queria ser limpo? Eu precisava ser limpo? Eu precisava de reflexo? Por que eu precisava tanto de tanta coisa? Por que eu me perguntava? Por que eu tinha consciência? Por que algo me despertava sentimentos mesmo sendo um reflexo de mim mesmo? Eu sentia raiva?
Pois foi o que vi. Um espelho manchado, e, dentro dele, alguém, algum vulto afagava meus cabelos secos. Segurava minhas mãos, brincava com qualquer coisa inocente que estivesse ao alcance. Alguém brincava com meu reflexo por dentro do espelho. Do lado de fora, ainda parecia tudo frio na estação de trem abandonada.
Admirei uns segundos, até que quase fui puxado para o mundo de dentro. Não parecia o lugar mais aconchegante do mundo, então vesti meus sapatos (achei muito desrespeitoso continuar de sapatos num templo, seja ele qualquer fosse), e pus-me a retirar do local. Sem um último olhar para o espelho. Não gostei de minha face manchada. Ela não era minha.
Ela não podia ser minha.
Questão fiz, é verdade, de esquecer muito sobre aquela sala podre cheia de coisas podres. Estive muito ansioso pela outra. Seria tão angustiante? Ou uma compensação por tamanho desagrado? Antes de pensar, entrei.
Fiquei atônito, em princípio, ao perceber que não parecia fazer parte da própria estação. Parecia outro mundo, outra realidade, outro tempo; ou aquele pedaço parara no tempo, ou eu viajei no mesmo. Ou era uma outra alucinação. Ou. Ou. Ou! Ou!
Como é doce depender de parafernalhas que nunca funcionam. Na verdade funcionam muito bem, mas travam em horas inapropriadas. Estive relatando, caros viajantes, sobre espelhos e tudo mais, a Segunda Porta, quando as máquinas começaram a ruir; senti o velho cheiro de silício derretido feito aquele queijo delicioso numa fogueira, ou até então marshmallow com gosto de eletricidade.
De qualquer forma, houve um pequeno lapso desde então, estou alarmado quanto às funcionalidades, mas prossigamos.
Estive à segunda sala, reaceso após qualquer tipo de queda ao obscuro. Tudo brilhava mais que o normal, tudo, na verdade, parecia mais anormal que o normal. Não parecia sequer parte da estação. Parecia outro lugar.
Talvez fosse outro lugar.
Ao olhar com atenção ao espelho, realizei que era, de fato, outro lugar. Estava eu do outro lado. O espelho era cristalino, e por ele vi-me achegando, cada vez mais próximo; cada vez mais próximo… Cada vez mais…
Num susto, senti uma mão em meu ombro esquerdo, suavemente, devo acrescentar. Não queria olhar de prontidão quem era ou o que era. Decidi experimentar minhas próprias alucinações. Não fiz questão de olhar. Apenas deixei que fluísse.
Era uma mão feminina. E parecia amigável. Mais que isso, tanto libidinosa. Num momento, entretanto, tive de virar e me deparar com algum tipo de mulher muito exótica, inexplicavelmente bela, com veias bioluminescentes, cabelo comprido e muito liso… E, ao chão embaixo dela se fazia um pentagrama vermelho, e toda a sala parecia branca. Branca e limpa, de fato. Paredes brancas que se assemelhavam a látex, chão branco e liso, e o pentagrama vermelho, e o espelho. Cristalino.
Ela queria me beijar, mas eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Não era eu de verdade, era apenas meu reflexo. Mas dessa vez eu controlava cada ação de meu reflexo. Olhei para o espelho, vi-me do lado de fora, com as mãos perdidas, olhos perdidos, procurando alguma saída de dentro de mim mesmo, gritando em silêncio, debatendo contra o vidro (que talvez fosse manchado se visto daquele ângulo), angustiado.
Eu não podia deixá-la me beijar ali.
Acenei negativamente, uma vez que não podia falar (onde já se viu um reflexo falante…), e ela pareceu compreender, e esboçou um estranho sorriso.
Afastou-se um pouco, e depois se aproximou do espelho. Vi-me chegando cada vez mais próximo, e ela chegando cada vez mais próxima de mim mesmo do lado de fora. As bocas, vagarosamente, na iminência de se tocarem, já podiam sentir a temperatura uma da outra. Era exatamente o que eu queria.
Ali, então, ela e eu pusemos-nos a nos beijar, mas ela não estava beijando meu reflexo. Era eu de verdade. Talvez se voltasse à outra sala nesse momento a sensação fosse diferente. Fosse menos absurda, pois conseguira atravessar até a outra parte do mesmo livro e rearranjar todas as estrofes e todos os parágrafos dos textos que sequer consigo ler.
A realidade não é estática.
E um espelho pode despertar inúmeros fetiches.
E, Senhor dos pesos e etiquetas, o Senhor não se enforcou.