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Chimarrão de Adrômeda – A Tertúlia da Introspecção

Todo conto é miraculoso, todo conto tem divindades ocultas dentro das linhas e das letras e das sinapses. Todo conto volta a um mar e a um oceano e encontra terras desconhecidas por onde as ondas sinusoidam e por onde monstros impronunciáveis flutuam como fossem calmamente gigantescos.

Era a noite das festas, e havia as árvores luminosas e havia os gritos desesperados das caixas e dos embrulhos. Do outro lado do Universo, mentes continuavam a trabalhar. Faltavam seis horas para o primeiro raio solar, e a chaleira inoxidável chiava ao lado dos monitores.

Em cada nota que ecoava dentro da ressonância de madeira, o cheiro da erva se espalhava por entre os resíduos semicondutores, e alertava em silêncio sobre a tirania do grande déspota. Eram ilhas – água por todo lado, sem marinheiros anciãos, sem duzentos tripulantes, sem albatroz. O único túnel, ainda não quântico, era o que se mostrava nas mãos e nas cabeças de cada um dos solitários navegadores. A noite era calma e a brisa era agradável e a caminhada continuava longa.

Dentro da cuia, com o mato moído, a água se acalentava e fazia sua infusão miraculosa. Abrindo caminhos segundo após segundo, unia, em sua artificialidade, tanta natureza intrínseca. Cada um dos navegadores tinha um alfabeto diferente, um tempo diferente, uma cuia diferente, um mato diferente. Eram unidos por semicondutores e por água.

A água era o maior dos alfabetos.

Por dentro dos navegadores, a cada gole da poção verde amarga as sinapses reagiam e se sintonizavam a todo o resto, seja o que for o resto. Os rios quentes se aceleravam pacificamente, e os barcos seguiam os rumos por através dos cruzamentos infinitos da consciência humana.

Um filósofo, do outro lado da linha, comenta brevemente sobre a facilidade dos fluxos quando se tem uma partitura mental, mesmo que os compassos sejam quebrados.

Tertúlia – num campo além de toda a areia e incrivelmente perto de cada rio, todos eles conseguiam se encontrar depois dos goles da poção verde. Ao centro do campo verde-escuro jazia uma fogueira. A fogueira queimava agradavelmente, contrastando com o frio da brisa leve que reinava àquela peça da Torre. A madeira era bonita, e incandescia faiscando o poder dos trovões rubros, como fosse eterna, apesar de efêmera.

Por instantes preciosos, as cuias se ajuntavam. As poções, tão diferentes, eram unidas por sinapses que ficam além de qualquer dicionário. Era como o encontro descrito no Livro – muitos seres que falam cada um sua linguagem, mas que se entendem de forma inexplicável, mística, e espalham suas idéias numa tempestade seca e amigável. A Torre de Babel havia sido um desastre, não se precisava de mais uma; não era uma Torre de Babel. Era outra Torre.

Na Tertúlia da Introspecção, seres longínquos trocavam lamentos, épicos, heróicos, romances, tudo que fosse escrito, tudo que fosse contado, tudo que fosse divino além de qualquer religião. Era a tradução real de todas as crenças, era o palpável, era o que se sentia, era o que dava origem a tudo, era o que causava sentimentos saudosos incompreensíveis em todos aqueles que sentem falta de algo maior. Era o conhecimento da sala, a idéia do canto do quarto, a substância química que ativa a massa de pão. Era o alfa e o ômega e todas as metáforas do Livro. Eram as três da manhã, era a barba do mendigo, eram todas as letras musicais de todas as galáxias, ali, num gesto sem muita pretensão, sem interesse egoísta.

Os astros, em suas posições relativas, se alinhavam, mas era só mero enfeite. Não havia poder místico no alinhamento de pedaços de pedra ou átomos de hidrogênio, mas conferia uma paisagem mais completa. As constelações e a poeira eram fogos de artifício que não faziam barulho ali no campo verde escuro.

Não se via de onde vinha a melodia, mas todos ouviam atentamente, mesmo conversando além das notas. A melodia também era uma linguagem, e, como todas as outras, era perfeitamente compreensível por qualquer alfabeto que existisse naquele momento eterno de poucos segundos.

A poção verde amarga durava por séculos, e os séculos atravessavam cada um dos setenta olhos com a mesma intensidade, e entravam pelas narinas, e pelos ouvidos, e por dentro de cada papila gustativa.

O rio quente chegava aos penhascos das sinapses, e cruzava as quedas azuis d’água catódica e voltavam e encontravam o caminho até as terras novas que sempre estiveram em frente à vista.

O Mundo Novo é descoberto a cada vez que se procura por ele. Seja do outro lado do oceano de água ou de vácuo, em átomos de fósforo ou de urânio, em luz fotônica ou negra. Sempre há um Mundo Novo.

E sempre há o que não possamos imaginar até que esteja em nossa frente.

Deserto IV

O deserto continuava, e todas aquelas pessoas buscavam a Santa Montanha que guardava a Cidade Prometida. Era então o sétimo ano a partir do começo da década, e a caminhada estava em seu ducentésimo qüinquagésimo sétimo dia, à trigésima sétima semana.

Eram milhares que caminhavam, e a água já estava em suas últimas gotas. Mães e pais preferiam passar fome e alimentar seus filhos, os quais não eram poucos. Quando algum dos peregrinos perecia, sua carne era servida como alimento a todos os outros. Nem doenças nem vermes adiavam tal ritual, era uma questão de sobrevivência.

Mas todos tinham convicção de que a montanha chegaria, e assim diziam todos os líderes que por ali mandavam. Um partia, então outro se erguia, e assim num ciclo infinito até que a montanha apontasse, tal qual templo, em meio à areia.

O sol queimava a pele, os olhos, as retinas, os cabelos, as cordas vocais – as noites congelavam, sem piedade, todos eles sem cobertores. As pedras faziam suas sombras aconchegantes do outro lado da caminhada. Os peregrinos eram castigados todos os dias, desde o começo.

Mas a montanha haveria de chegar.

Neste dia, porém, o sétimo círculo celeste, próximo à constelação das quinze estrelas, tornou suas engrenagens, e a vontade divina lançou a praga das pragas, que, desde o início do milênio, era tão ansiosamente esperada.

A montanha se erguera, repentinamente, do dia para a noite – “um milagre”, clamavam os fiéis. Rezas, oferendas, até a fome e a sede ficaram em segundo plano com tal visão. Como feita da própria pedra que dera origem a toda a areia de todos os desertos, era avermelhada e seca.

Subiam todos os milhares, abraçavam o chão, beijavam as pedras, e pedras gigantes se revelavam escondidas entre os vales.

Longe dali, em Roma e no Egito, os imperadores recebiam a notícia, e já sabiam o que aconteceria depois.

As pedras gigantes do deserto começaram a ranger, e os peregrinos entoaram, num acorde, o mais profundo dos silêncios humanos já descritos nos livros do Mar Morto. Iria revelar-se, enfim, a voz daquele das quatro letras capitais impressas em ouro.

Mas a única frase não foi dita por Ele, e sim pela própria pedra.

“Tolos – não precisam vocês saberem meu nome para entender quem sou eu.”

Nisso, o ranger vocal deu lugar a um ranger aracnídico. Era como se as vísceras das pedras estivessem funcionando e digerindo a própria areia. Então, infinitésimos de buracos começaram a surgir entre as pedras, e, deles, apontavam pequenas, e extremamente venenosas, as aranhas da maldição.

Todas as pedras, desde as pequenas como um grão de mostarda, até aquelas do tamanho de cidades inteiras, estavam ocas, preenchidas por universos de aranhas, que aos poucos saíam, forravam todo o carpete desértico, subiam por pessoas – homens, mulheres, novos, velhos, crianças, doentes, santos, pecadores – e despertavam urros e dor suprema e mortes lentas e dolorosas. O veneno era o mais ácido de todas as criaturas, e o castigo era pior que o de todos os marqueses e condes da História.

Havia, também, Roma e Egito.

Décimo Sétimo ano da Graça das Quinze Estrelas da Manhã – O imperador disse suas vontades, e então partiu, não sei aonde, mas disse ele algo relacionado ao trigésimo faraó supremo das pirâmides. Abençoou-nos, servos, posto que sempre fora o mais justo dos imperadores que estas colunas gregas já presenciaram. Seu barco continua ao porto, suas vestes continuam ao quarto.

Disse-me, neste último crepúsculo, que a vontade das vontades havia chegado. Todas essas paredes brancas feito neve não durariam sequer mais um ciclo d’água. Todas elas, desde as feitas com a mais maciça das pedras, estariam tão ocas quanto uma flauta florestal. Por dentro delas, nem pedra, nem areia, nem água nem ar nem som. Aranhas, mas não aranhas comuns. Talvez a única semelhança com as aranhas que conhecemos fosse o fato de terem oito membros. Estas trariam uma dor nunca antes descrita, um veneno nunca antes imaginado, uma tortura nunca antes pregada.

Nem ele, o nobre imperador, nem o supremo faraó do Egito, nem nós, servos, nem nossas mulheres, tão pouco nossas crianças, seríamos justos e bons suficientes a ponto de sermos perdoados da tortura. Deveríamos todos provar do cálice da dor, e, só depois, poderíamos ser julgados pelos atos feitos em vida.

É um preço a se pagar quando se rouba as correntezas dos rios e a pele das árvores, disse.

- MARCUS (ATL XVII), Ano 17 do Templo Prateado

Aqueles que ainda não haviam sido picados choravam, aos prantos, pois sabiam que não havia escapatória. Estavam cercados pelo rio de aracnídeos e de veneno. A praga acontecia ao mesmo tempo em todos os tempos, em todos os ventos. A humanidade era una, e assim era seu castigo.

Então parece que chegamos ao limiar de nossa loucura. E digo isso por mim mesmo. Tive de ir estudar ontem à noite, uma idéia fantástica surgira em minha mente, eu precisava do laboratório.

Fiz o caminho de sempre, e cheguei à praça do círculo central. Lá, para minha surpresa, notas e mais notas de dinheiro ao chão. Eram notas azuis e vermelhas, e eu era o único por ali. Não seria roubo, não seria trapaça. Era um presente a mim, pensei.

Pois foi que, ao pegar-me a quinta nota vermelha, ouvi uma risada zombeteira vinda da copa daquela árvore. A risada parecia se multiplicar por toda a praça, e me despertava calafrios. Estava bem próximo ao laboratório agora, mas eles podiam ter um carro. Nunca fui maldoso, mas isso de nada vale para estes malucos.

Descera um deles da árvore, e não consigo me recordar sobre seu rosto – estive assustado.

Lembro-me de ter ouvido algo sobre minha ganância, e perguntei se ele, por zombar de mim, também não a tinha. Respondeu-me, então, que se estava falando comigo, então também ele não era digno de salvação. Não sendo digno de salvação, compartilharia seu inferno com todos os que passassem por baixo das árvores – e assim, também, fariam todos os outros que se revelaram por cima delas.

Antes que eu me desfalecesse em desespero, alertou-me que não era um bandido, nem um maltrapilho, nem um seqüestrador. Ele viera para me castigar, mas eu era um dos escolhidos a não sentir dor física alguma – o que não alivia tanto assim as chibatadas.

Cheguei ao laboratório, tranquei a porta, bebi um copo d’água. Havia começado.

- ANDROS, Ano 17 das Colunas Transparentes

Como um naufrágio épico, mas, ao invés de água, eram areia e criaturas venenosas. O convés estava tomado, assim como todas as chaminés imaginárias. Aqueles primeiros que foram pegos, aqueles que se agarravam às pedras grandes, aqueles que brincavam com as pedras pequenas, ainda agonizavam, debatiam-se e, conforme se debatiam, mais aranhas entravam por suas narinas, orelhas e bocas.

Uma pequena parte, ínfima mesmo, infinitésima, já havia sido devorada por completo. Os mais justos e iluminados, neste caso. Eles também mereciam sofrer, mas não por tantos anos.

Assim prosseguiu-se aquele dia onde o Sol parou sobre o deserto. Nunca mais se fez a noite, nunca mais surgiu a Lua pelos horizontes, nunca mais se soprou a brisa gelada.

Como a soma de tudo aquilo que contemplei, vim parar num quarto amarelado com a porta aberta e a cama bem arrumada. Levantei-me, e minhas roupas também eram incrivelmente limpas. Então observei a grande escadaria que descia – não para o inferno, mas sim para a cozinha. Desci-a. A casa parecia vazia e silenciosa, e só havia um dos representantes sagrados que tanto conheço bem – ele lambia os próprios pelos, e ronronava em silêncio, como se não estivesse preocupado com todas aquelas tempestades.

Ali eu esperava por qualquer coisa que devesse acontecer – embora a cidade estivesse em silêncio, eu e aquele que ronronava sabíamos – nenhum de nós estava sozinho.

- SIGMA, Ano 17 da Rainha Amarelada

Subtrassoma II – Projeto LEGUMINOSA SOLAR ROTATIVA

“As leguminosas fazem associações mutualísticas com bactérias do gênero Rhizobium. Estas bactérias, por sua vez, tem a capacidade de fixar o Nitrogênio no solo. Sabendo-se que o N2 é constituinte essencial de aminoácidos, proteínas, bases nitrogenadas (ácidos nucléicos), entre outros, ele proporciona um crescimento mais rápido das plantas, uma maior folhagem, e também alimenta os microorganismos do solo que decompõem a matéria orgânica.” – H. C. S . @ 178

Foram utilizadas, historicamente, na rotação de culturas, implicando num melhor aproveitamento das terras em tempos críticos da Idade Média.

Não havia um porquê para eu ficar no mundo real…

Não importava se eu estivesse no mundo real ou não.

Quando compreendi isso, perdi o medo de perder meu corpo.

- Psiqué

- Accela

- Knights

SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R1, B188 FOURIER – 0007 – UNSIGNED PHI

Subtrassoma I – Documentos Encontrados no Setor-0007 ÉTER

Saudações, caros viajantes. Sem muitas delongas, postarei numa série infinita de posts (ocasionalmente interrompida para outras coisas, obviamente – não esperem por algo contínuo) algumas transcrições estranhas acerca de papéis e mais papéis espirais que encontrei num dos laboratórios de um dos setores de uma das instalações de uma das torres de uma das usinas.

Algumas estrofes podem parecer estranhas, inclusive são, mas foi o melhor que pude fazer nessas transcrições. É meio difícil trabalhar com coordenadas não ortodoxas na gramática, de fato.

Over The Café

A lack of words (worlds, maybe) as the darkest beans
Come alive
Along
Beneath
Among
Indeed.

Eu fugi do cemitério
Porque tava chovendo
E eu queria aprisioná-la
Na beira da estrada
No meio da pista,
Eu queria só pra mim.

Um escravo (escracho) cafeinado,
Uma overdose de guard-rails,
Circuitos,
Círculos,
Blast beats
E compassos desalojados
Procurando a clave.

“Quem estará observando
O velho
Cantarolando
No ouvido da moça
A sétima sinfonia?”

SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R2, H308 X.X  – 0007 – UNSIGNED ETA

Menstruação Induzida / Teratogenicity Pt. I

A noite cheirava a chumbo pra ela.

Antena. Não uma, mas milhares. Talvez todas sintonizando o mesmo satélite, não se sabe. O céu tem uma parte amarelada, no meio. Como recheio num sanduíche de nuvens escuras, o Sol. Não a esfera, só a cor. Seis da tarde, seis e meia. Trânsito e o velho e conhecido cheiro monoxoidal. Não há muito que se fazer, senão esperar.

Décimo quinto andar, número 1507 – há um tempo ninguém entrega pizzas por aqui. Talvez quem veja a porta possa pensar, com razão, que se trata de um apartamento abandonado, e na verdade é. Eu moro aqui, mas isso não faz companhia às paredes.

Também seria muita despesa chamar alguém para limpar o pó. Seria despesa até eu mesmo limpar isso tudo e tirar as pedras e os pedaços do andar de cima que caem noite após noite. Tudo vai desmoronar, mesmo. A dignidade não é refletida por onde se dorme, mas com o que há por cima do travesseiro – não estou falando de cabelo, tão pouco de crânio.

Mas ocorreu conforme eu temia. Bebida da pior qualidade, uma cama qualquer… Quando se perde a consciência ética, a essência trespassa. Às vezes para a filosofia, na maioria das vezes para a devassidão. Era um desses dias, como se fosse rara a ocasião.

Não me lembro de tudo, mas houve o momento onde senti o tiro indo direto em minha cabeça. Uma bala prateada, talvez de alumínio. Penetrando cruel por dentro de minhas sinapses, por dentro de meus castelos, por dentro de tudo o que existia. Era um grande jogo de roleta russa bêbado; eu perdi.

Sequer sei quem me matou.

Pois agora há a janela e apenas ela. E Antenas. Perto, longe, em cima. Uma infinidade de ondas, uma infinidade de pedaços de ferro contorcidos. E a janela – retangular, relativamente grande (para um décimo quinto andar), de ferro enferrujado e sem vidro. Quem precisava de vidros? Se eu tivesse coragem de saltar já o teria feito, há muito tempo. Bem antes de jogos e de pedras caindo.

Lá embaixo a cidade mora num gradiente monocromático. A nuvem fica cada vez mais densa e venenosa. Estou mais perto do céu que eles, e não sei se é mais agradável ficar mais próximo de nuvens trovejantes ou de veneno inalável lícito.

Os venenos mais eficazes são tão lícitos que são desejados por massas amorfas.

Água encanada – com encanamentos velhos de cobre. Talvez haja algum tipo de resíduo se acumulando por dentro do meu sangue, algum metal pesado… Hei de convulsionar a qualquer minuto, perder a consciência, bater a cabeça, vomitar em cima do veneno cinza e depois cair sem perceber, numa alucinação frenética e trêmula.

A convulsão seria uma saída. Um copo de coragem. Não quero carregar minha vida nem a de mais ninguém. Não quero um tumor que respira e tem sonhos por dentro. Não quero ser um tumor para um lugar que poderia ser uma casa.

Mas, todos sabemos, eu sou.

- LYNN, V. Atenastower, p. 210.

Um sólido orbita a si mesmo e se descobre capaz de grudar na superfície e a acha prontamente. Sem consciência, sem qualquer coisa parecida com isso, sem sequer o que se pode chamar de vida. Apenas precisa se fixar e, qual sanguessuga, desenvolver-se do tecido e do que há depois dele. O que acontece é que algumas partes intraduzíveis diziam sobre uma vez quando um médico grego, barbudo, realizou em seu laboratório um experimento oculto. E fixou o embrião no cérebro de uma de suas pacientes, sem que ela soubesse.

Era só um transplante neuróide.

(…) E coloquei por ali mesmo, no centro límbico. Não havia chances de ela perceber por algumas semanas, até que ela voltasse. E ela voltou, de fato.

Seria um câncer? Um instrumento mal esterilizado? Não.

O experimento estava sendo um sucesso, mas eu não podia dizer. Ela não podia saber o que havia ali. Então, sim, era um câncer causado por material estranho.

“Talvez sejam as maçãs de hoje em dia. Essas conservações industriais por radiação são perigosas, eu já vinha frisando… Processe a usina que fica ao lado de sua casa, talvez possa ganhar um bom dinheiro antes que o câncer a mate.”

Aconselhei a ler a Bíblia, mas, agora, reflito se eu não deveria ter dito para pular o primeiro Livro. Talvez não precise de tanta preocupação, ela nunca entenderia o conceito, afinal. Nem ia prestar atenção na sutileza gravitacional.

Despedimo-nos, ela chorou. Falou que gostava de viver, que tinha muitos planos e precisava cumpri-los… Eu só podia olhar com pena. Tem algo que ela também não podia compreender.

A existência é uma arte frágil. Pode, e deve, se ter uma cabeça, um crânio bem formado, sinapses, neurônios. Mas se alguém coloca nisso tudo algo além do que deveria ter, problemas surgem. Se começa a crescer algo entre seus neurônios e seus neurotransmissores, hora ou outra você poderá morrer, fisicamente ou de outra forma que preferir.

Uma vez plantado, não há como remover. Aquilo começa a crescer cada vez mais por dentro dos olhos, e você passa a entender o porquê da sagrada instituição espalhar o pavor sobre seres com chifres. São demônios, de fato.

Há quem consiga conviver com chifres crescendo por cima do cabelo, e são pessoas boas. Não são demônios, nesse caso, nem nada parecido. Só não souberam que alguns processos são irreversíveis. Eu, por mim, também não me considero um monstro. Ela estava inconsciente, com a cabeça aberta à minha frente. Eu tinha o vidro. Foram cinco segundos.

Infelizmente, ela não soube o que fazer com seu próprio cérebro, e por isso teve de sofrer a conseqüência inevitável.

Descanse em paz.

- DIAS, Marcopolo. Documento 720 – Sobre o Implante da Árvore. Prypiat, 1915.

Quanto tempo demora até que uma árvore comece a crescer?

entropic clouds of evolution

Dinâmica – como as coisas mudam com o tempo. Para um problema, mil ratos; para cada mil problemas, um rato.

Correndo, observando, buscando a saída do círculo fechado… Engaiolados e rindo da ignorância do que há do lado de fora da jaula.

A verdade está dentro da jaula?

2^40 = 10^a ↔ a = log2^40 ↔ a = 40log2 ↔ 10^12

Todos somos o grande vírus do experimento. Um tempo estranho, algo empuxa-nos o cérebro, como se este carregasse toda a informação que temos, resumida, carnal. Revela-nos como tudo o que aprendíamos em anatomia era mentira: o cérebro não é maciço; mas, sim, sin, fios enrolados condensados como uma nuvem de incógnitas.

E daí vem todas as chuvas… Embora todos demorem ainda um bom tempo até terem matemática suficiente para comprovar.

Não basta acreditar, deve-se provar tudo por si mesmo. O mundo de verdade. O mundo que existe. Além da fé, além da crença, além da vontade: Não há vontade na ciência. A ciência move o mundo. A ciência enrola os fios para dentro, numa grande espiral.

A ironia é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos. Na Literatura, a ironia é a arte de gozar com alguém ou de alguma coisa, com vista a obter uma reacção do leitor, ouvinte ou interlocutor.

Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo. Para tal, o locutor descreve a realidade com termos aparentemente valorizantes, mas com a finalidade de desvalorizar. A ironia convida o leitor ou o ouvinte, a ser activo durante a leitura, para refletir sobre o tema e escolher uma determinada posição. O termo Ironia Socrática, levantado por Aristóteles, refere-se ao método socrático. Neste caso, não se trata de ironia no sentido moderno da palavra.

- Enciclopaedia Clichecyclyca, W.

O gargalo estocástico – como num estupro de camelos neurônicos – a garrafa está meio cheia? Meio vazia? Insuficiente? O bastante para embebedar?

Enquanto flutuávamos pelo oceano primordial hipotético, éramos senão vírus, apenas. Nossa informação devidamente guardada, o grande segredo universal por trás da compreensão da carga e das correntes e dos padrões; aminoácidos, talvez, devidamente combinados. Ribozimas, afinal.

Encontrei, enfim, algum tipo de padrão na realidade que tanto desprezo. Não é cabível de reclamação mera de minha parte ser rondado por tamanhos indivíduos. É de conhecimento geral, à minoria, como são desprezíveis. São como ratos, mas não de estimação; como se ratos de esgoto fossem usados em termos decorativos, correndo em loop, atrás de um fim invisível e impossível.

MIRANDA, C. Et al; Replicação da Idiotice da Sociedade Explicada pelo Método de Spiegelman, p. 166.

Não há progresso na evolução. O que há é adaptação. Muitas vezes os seres mais adaptados não são os que mais sobrevivem, uma vez que podem, assim como em grande parte das estimativas estão, existir em menor número.

Desde o oceano primordial, pouco importa a destreza intelectual. Ou se é mais forte ou se está em maior grupo. Os caras legais são facilmente extintos.

Chuva de fundo, radiação de fundo, background. Protocolo de transferência serial em Gargalo. Condições antimutagênicas. Crescimento pareado.

“Em ambientes variáveis, que mudam com o tempo, não faz sentido dizer que um indivíduo é mais apto que outro. Fratura exposta no chamado orgulho.”

Interferência construtiva/destrutiva é linear. Quem ganha a briga não é quem se reproduz mais rapidamente, em alguns casos. Nem sempre replicador mais rápido é o mais apto. O advento das quase espécies. Vulgo Homo sapiens. Usando o telefone aqui da quitanda e ligando; aquele senhor de camisa amarela na seção de lataria, pegando o telefone. Esse senhor pediu para usar o telefone, e ligou para a casa dela, para atormentar.

10^130 > 10^80

Se uma molécula é muito grande, ela está fadada ao fracasso.

Teoria – O ser humano é mais interessado em entender o funcionamento do que vê ou imagina que vê. Eu concordo com o que você quiser. Whvl6CikDxA

Vai chover? Quando? Borboletas? Tornados? Zeta?

Alfa?

Paradigma da regularidade[]

Atratores estranhos…? @~@

Cateter

Dentro do Sarcófago,
Na cidade sem pulso,
Usina sem luz,
A cidade onde o Sol não existe.

Rios envenenados,
Lagos secos,
Árvores cancerígenas.

Deitado no miolo dos vasos,
O metal do juízo penetrando os capilares,
As veias,
As artérias,
Um coração de concreto e chumbo.

Pirâmide computadorizada,
Sumariamente desenhada,
Construída por aranhas gigantes.

Gota por gota,
Despeja amostras de restos,
Lixo tóxico posto para dentro do miocárdio,
Bulbo freneticamente desconfigurado,
Excesso de água numa substância ácida.
Excesso de amarelos devido aos verdes.

Três núcleos de processadores,
Subterra e mais subterra,
A mesma linha hexadecimal em loop.

Cento e dez ou duzentos e vinte;
Quão parnasiano é dissertar sobre um pedaço complexo
De carne?

Percebi uma anomalia gráfica. A fase sincronizava com mais intensidade, alguma modificação psicológica ocorre e não consigo descrever como é olhar um corpo em sua armadura, analisar toda a síntese e os pensamentos num oscilador. Ela seria a única, e ali se deitava recoberta em roupas de polydiesel e respirando sem ar. Poucos do lado de fora poderiam compreender o funcionamento, eu mal consigo. Apenas aciono controles e observo, angustiado.

Não consigo descrever tais dados como sendo algum tipo de sentimento, seria ir longe demais à estupidez da teimosia de querer ser mais do que realmente se é. São dados binários, gráficos, química; não é vida que passa no osciloscópio, não pode ser vida.

- Gstv Goyän, 1910

O Geneticista

Viajantes! Esta manhã estive numa outra sala perdida, pelo que entendi era um tipo de laboratório de biologia. Corpos, ou o que restou deles… Certamente não havia muitas almas… Mas, entre os furos, alguns versos, alguns pedaços de relatórios, cientistas, teorias grotescas. Algo além do simples estudo da vida… Bom, talvez nem tanto.

Vejo o espelho, intocável, longe no horizonte. Em frente meu rosto, dentro dos meus olhos, inalcançável. O rio vermelho flui agradavelmente quente, enquanto lá fora parece chover o tempo todo. Meus pesares traduzem-se em letras gregas e equações, minhas memórias pecadoras de correlações.
Há um buraco na parede, e sou observado por tudo o que não quero ver. Enquanto alguns escrevem em paredes eu desperdiço árvores.
E isso não é bom.

O Geneticista

Mosto e leveduras, mas isso é apenas a diversão diária. Nos outros momentos, ponho-me a observar. Não o micromundo, como de costume, mas o macro. A manifestação que vemos daquilo que não vemos. Assim como nos cromossomos, percebo alelos, aqui ou ali, ora bem visível, ora escondido entre conceitos. Mas começo a crer nas lendas.

Pode ter a ver com a convivência, ou aquilo que chamam convivência. Alguns anos de fermentação não poderiam resultar numa destilação diferente desta. Não se trata de álcool, mas de sentimentos. Ou o que chamam sentimento.

Se é que existe sentimento.

Uma vez, entre meus documentos, li sobre o processo de fabricação da cachaça. A destilação resulta num composto dividido em cabeça, coração e cauda. Cabeça e cauda possuem componentes tóxicos, enquanto o coração é a parte nobre, a qual, teoricamente, deveria ser mandada para armazenamento ou envelhecimento. Há quem redestile restos, e mande-os para engarrafamento. Há quem misture serragem nas cachaças que não foram envelhecidas. Muitos meios de enganar, a maioria nem se pergunta o porquê da bebida queimar a garganta e quase não ter gosto, quase não ter função além de embriagar.

Os tonéis de inox também existem nos novos relatórios. Cápsulas protéicas envolvendo palavras que provavelmente não serão cochichadas. Fibras inúteis de fixação, que não conseguem atingir as células que desejam parasitar. Olham de longe, mais uma vez. Os vírus, quando não parasitam, vivem no limiar.

É muita gente… E muito espaço vazio. Gente que quer falar e não fala, gente que fala e não é ouvida, gente que precisa de gente e gente que é muita gente em uma só. E os pares de genes alelos flutuando pelas moléculas de gás carbônico. Fotossintetizando sem clorofila, processos sem qualquer padrão afinal, mas que parecem seguir as grandes configurações universais.

Sou doente, mas esses líquidos etílicos são meus elixires. Devo ter algum gene alelo também. E talvez eu não deva saber. Poderia ser fatal.

-

E as ondas senóides atravessam os limites das páginas e anunciam as freqüências também em outros universos. Igualmente dantescos.

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