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Deserto IV
O deserto continuava, e todas aquelas pessoas buscavam a Santa Montanha que guardava a Cidade Prometida. Era então o sétimo ano a partir do começo da década, e a caminhada estava em seu ducentésimo qüinquagésimo sétimo dia, à trigésima sétima semana.
Eram milhares que caminhavam, e a água já estava em suas últimas gotas. Mães e pais preferiam passar fome e alimentar seus filhos, os quais não eram poucos. Quando algum dos peregrinos perecia, sua carne era servida como alimento a todos os outros. Nem doenças nem vermes adiavam tal ritual, era uma questão de sobrevivência.
Mas todos tinham convicção de que a montanha chegaria, e assim diziam todos os líderes que por ali mandavam. Um partia, então outro se erguia, e assim num ciclo infinito até que a montanha apontasse, tal qual templo, em meio à areia.
O sol queimava a pele, os olhos, as retinas, os cabelos, as cordas vocais – as noites congelavam, sem piedade, todos eles sem cobertores. As pedras faziam suas sombras aconchegantes do outro lado da caminhada. Os peregrinos eram castigados todos os dias, desde o começo.
Mas a montanha haveria de chegar.
Neste dia, porém, o sétimo círculo celeste, próximo à constelação das quinze estrelas, tornou suas engrenagens, e a vontade divina lançou a praga das pragas, que, desde o início do milênio, era tão ansiosamente esperada.
A montanha se erguera, repentinamente, do dia para a noite – “um milagre”, clamavam os fiéis. Rezas, oferendas, até a fome e a sede ficaram em segundo plano com tal visão. Como feita da própria pedra que dera origem a toda a areia de todos os desertos, era avermelhada e seca.
Subiam todos os milhares, abraçavam o chão, beijavam as pedras, e pedras gigantes se revelavam escondidas entre os vales.
Longe dali, em Roma e no Egito, os imperadores recebiam a notícia, e já sabiam o que aconteceria depois.
As pedras gigantes do deserto começaram a ranger, e os peregrinos entoaram, num acorde, o mais profundo dos silêncios humanos já descritos nos livros do Mar Morto. Iria revelar-se, enfim, a voz daquele das quatro letras capitais impressas em ouro.
Mas a única frase não foi dita por Ele, e sim pela própria pedra.
“Tolos – não precisam vocês saberem meu nome para entender quem sou eu.”
Nisso, o ranger vocal deu lugar a um ranger aracnídico. Era como se as vísceras das pedras estivessem funcionando e digerindo a própria areia. Então, infinitésimos de buracos começaram a surgir entre as pedras, e, deles, apontavam pequenas, e extremamente venenosas, as aranhas da maldição.
Todas as pedras, desde as pequenas como um grão de mostarda, até aquelas do tamanho de cidades inteiras, estavam ocas, preenchidas por universos de aranhas, que aos poucos saíam, forravam todo o carpete desértico, subiam por pessoas – homens, mulheres, novos, velhos, crianças, doentes, santos, pecadores – e despertavam urros e dor suprema e mortes lentas e dolorosas. O veneno era o mais ácido de todas as criaturas, e o castigo era pior que o de todos os marqueses e condes da História.
Havia, também, Roma e Egito.
Décimo Sétimo ano da Graça das Quinze Estrelas da Manhã – O imperador disse suas vontades, e então partiu, não sei aonde, mas disse ele algo relacionado ao trigésimo faraó supremo das pirâmides. Abençoou-nos, servos, posto que sempre fora o mais justo dos imperadores que estas colunas gregas já presenciaram. Seu barco continua ao porto, suas vestes continuam ao quarto.
Disse-me, neste último crepúsculo, que a vontade das vontades havia chegado. Todas essas paredes brancas feito neve não durariam sequer mais um ciclo d’água. Todas elas, desde as feitas com a mais maciça das pedras, estariam tão ocas quanto uma flauta florestal. Por dentro delas, nem pedra, nem areia, nem água nem ar nem som. Aranhas, mas não aranhas comuns. Talvez a única semelhança com as aranhas que conhecemos fosse o fato de terem oito membros. Estas trariam uma dor nunca antes descrita, um veneno nunca antes imaginado, uma tortura nunca antes pregada.
Nem ele, o nobre imperador, nem o supremo faraó do Egito, nem nós, servos, nem nossas mulheres, tão pouco nossas crianças, seríamos justos e bons suficientes a ponto de sermos perdoados da tortura. Deveríamos todos provar do cálice da dor, e, só depois, poderíamos ser julgados pelos atos feitos em vida.
É um preço a se pagar quando se rouba as correntezas dos rios e a pele das árvores, disse.
- MARCUS (ATL XVII), Ano 17 do Templo Prateado
Aqueles que ainda não haviam sido picados choravam, aos prantos, pois sabiam que não havia escapatória. Estavam cercados pelo rio de aracnídeos e de veneno. A praga acontecia ao mesmo tempo em todos os tempos, em todos os ventos. A humanidade era una, e assim era seu castigo.
Então parece que chegamos ao limiar de nossa loucura. E digo isso por mim mesmo. Tive de ir estudar ontem à noite, uma idéia fantástica surgira em minha mente, eu precisava do laboratório.
Fiz o caminho de sempre, e cheguei à praça do círculo central. Lá, para minha surpresa, notas e mais notas de dinheiro ao chão. Eram notas azuis e vermelhas, e eu era o único por ali. Não seria roubo, não seria trapaça. Era um presente a mim, pensei.
Pois foi que, ao pegar-me a quinta nota vermelha, ouvi uma risada zombeteira vinda da copa daquela árvore. A risada parecia se multiplicar por toda a praça, e me despertava calafrios. Estava bem próximo ao laboratório agora, mas eles podiam ter um carro. Nunca fui maldoso, mas isso de nada vale para estes malucos.
Descera um deles da árvore, e não consigo me recordar sobre seu rosto – estive assustado.
Lembro-me de ter ouvido algo sobre minha ganância, e perguntei se ele, por zombar de mim, também não a tinha. Respondeu-me, então, que se estava falando comigo, então também ele não era digno de salvação. Não sendo digno de salvação, compartilharia seu inferno com todos os que passassem por baixo das árvores – e assim, também, fariam todos os outros que se revelaram por cima delas.
Antes que eu me desfalecesse em desespero, alertou-me que não era um bandido, nem um maltrapilho, nem um seqüestrador. Ele viera para me castigar, mas eu era um dos escolhidos a não sentir dor física alguma – o que não alivia tanto assim as chibatadas.
Cheguei ao laboratório, tranquei a porta, bebi um copo d’água. Havia começado.
- ANDROS, Ano 17 das Colunas Transparentes
Como um naufrágio épico, mas, ao invés de água, eram areia e criaturas venenosas. O convés estava tomado, assim como todas as chaminés imaginárias. Aqueles primeiros que foram pegos, aqueles que se agarravam às pedras grandes, aqueles que brincavam com as pedras pequenas, ainda agonizavam, debatiam-se e, conforme se debatiam, mais aranhas entravam por suas narinas, orelhas e bocas.
Uma pequena parte, ínfima mesmo, infinitésima, já havia sido devorada por completo. Os mais justos e iluminados, neste caso. Eles também mereciam sofrer, mas não por tantos anos.
Assim prosseguiu-se aquele dia onde o Sol parou sobre o deserto. Nunca mais se fez a noite, nunca mais surgiu a Lua pelos horizontes, nunca mais se soprou a brisa gelada.
Como a soma de tudo aquilo que contemplei, vim parar num quarto amarelado com a porta aberta e a cama bem arrumada. Levantei-me, e minhas roupas também eram incrivelmente limpas. Então observei a grande escadaria que descia – não para o inferno, mas sim para a cozinha. Desci-a. A casa parecia vazia e silenciosa, e só havia um dos representantes sagrados que tanto conheço bem – ele lambia os próprios pelos, e ronronava em silêncio, como se não estivesse preocupado com todas aquelas tempestades.
Ali eu esperava por qualquer coisa que devesse acontecer – embora a cidade estivesse em silêncio, eu e aquele que ronronava sabíamos – nenhum de nós estava sozinho.
- SIGMA, Ano 17 da Rainha Amarelada
Subtrassoma II – Projeto LEGUMINOSA SOLAR ROTATIVA
“As leguminosas fazem associações mutualísticas com bactérias do gênero Rhizobium. Estas bactérias, por sua vez, tem a capacidade de fixar o Nitrogênio no solo. Sabendo-se que o N2 é constituinte essencial de aminoácidos, proteínas, bases nitrogenadas (ácidos nucléicos), entre outros, ele proporciona um crescimento mais rápido das plantas, uma maior folhagem, e também alimenta os microorganismos do solo que decompõem a matéria orgânica.” – H. C. S . @ 178
Foram utilizadas, historicamente, na rotação de culturas, implicando num melhor aproveitamento das terras em tempos críticos da Idade Média.
Não havia um porquê para eu ficar no mundo real…
Não importava se eu estivesse no mundo real ou não.
Quando compreendi isso, perdi o medo de perder meu corpo.
- Psiqué
- Accela
- Knights
SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R1, B188 FOURIER – 0007 – UNSIGNED PHI
Subtrassoma I – Documentos Encontrados no Setor-0007 ÉTER
Saudações, caros viajantes. Sem muitas delongas, postarei numa série infinita de posts (ocasionalmente interrompida para outras coisas, obviamente – não esperem por algo contínuo) algumas transcrições estranhas acerca de papéis e mais papéis espirais que encontrei num dos laboratórios de um dos setores de uma das instalações de uma das torres de uma das usinas.
Algumas estrofes podem parecer estranhas, inclusive são, mas foi o melhor que pude fazer nessas transcrições. É meio difícil trabalhar com coordenadas não ortodoxas na gramática, de fato.
Over The Café
A lack of words (worlds, maybe) as the darkest beans
Come alive
Along
Beneath
Among
Indeed.
Eu fugi do cemitério
Porque tava chovendo
E eu queria aprisioná-la
Na beira da estrada
No meio da pista,
Eu queria só pra mim.
Um escravo (escracho) cafeinado,
Uma overdose de guard-rails,
Circuitos,
Círculos,
Blast beats
E compassos desalojados
Procurando a clave.
“Quem estará observando
O velho
Cantarolando
No ouvido da moça
A sétima sinfonia?”SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R2, H308 X.X – 0007 – UNSIGNED ETA
entropic clouds of evolution
Dinâmica – como as coisas mudam com o tempo. Para um problema, mil ratos; para cada mil problemas, um rato.
Correndo, observando, buscando a saída do círculo fechado… Engaiolados e rindo da ignorância do que há do lado de fora da jaula.
A verdade está dentro da jaula?
2^40 = 10^a ↔ a = log2^40 ↔ a = 40log2 ↔ 10^12
Todos somos o grande vírus do experimento. Um tempo estranho, algo empuxa-nos o cérebro, como se este carregasse toda a informação que temos, resumida, carnal. Revela-nos como tudo o que aprendíamos em anatomia era mentira: o cérebro não é maciço; mas, sim, sin, fios enrolados condensados como uma nuvem de incógnitas.
E daí vem todas as chuvas… Embora todos demorem ainda um bom tempo até terem matemática suficiente para comprovar.
Não basta acreditar, deve-se provar tudo por si mesmo. O mundo de verdade. O mundo que existe. Além da fé, além da crença, além da vontade: Não há vontade na ciência. A ciência move o mundo. A ciência enrola os fios para dentro, numa grande espiral.
A ironia é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos. Na Literatura, a ironia é a arte de gozar com alguém ou de alguma coisa, com vista a obter uma reacção do leitor, ouvinte ou interlocutor.
Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo. Para tal, o locutor descreve a realidade com termos aparentemente valorizantes, mas com a finalidade de desvalorizar. A ironia convida o leitor ou o ouvinte, a ser activo durante a leitura, para refletir sobre o tema e escolher uma determinada posição. O termo Ironia Socrática, levantado por Aristóteles, refere-se ao método socrático. Neste caso, não se trata de ironia no sentido moderno da palavra.
- Enciclopaedia Clichecyclyca, W.
O gargalo estocástico – como num estupro de camelos neurônicos – a garrafa está meio cheia? Meio vazia? Insuficiente? O bastante para embebedar?
Enquanto flutuávamos pelo oceano primordial hipotético, éramos senão vírus, apenas. Nossa informação devidamente guardada, o grande segredo universal por trás da compreensão da carga e das correntes e dos padrões; aminoácidos, talvez, devidamente combinados. Ribozimas, afinal.
Encontrei, enfim, algum tipo de padrão na realidade que tanto desprezo. Não é cabível de reclamação mera de minha parte ser rondado por tamanhos indivíduos. É de conhecimento geral, à minoria, como são desprezíveis. São como ratos, mas não de estimação; como se ratos de esgoto fossem usados em termos decorativos, correndo em loop, atrás de um fim invisível e impossível.
MIRANDA, C. Et al; Replicação da Idiotice da Sociedade Explicada pelo Método de Spiegelman, p. 166.
Não há progresso na evolução. O que há é adaptação. Muitas vezes os seres mais adaptados não são os que mais sobrevivem, uma vez que podem, assim como em grande parte das estimativas estão, existir em menor número.
Desde o oceano primordial, pouco importa a destreza intelectual. Ou se é mais forte ou se está em maior grupo. Os caras legais são facilmente extintos.
Chuva de fundo, radiação de fundo, background. Protocolo de transferência serial em Gargalo. Condições antimutagênicas. Crescimento pareado.
“Em ambientes variáveis, que mudam com o tempo, não faz sentido dizer que um indivíduo é mais apto que outro. Fratura exposta no chamado orgulho.”
Interferência construtiva/destrutiva é linear. Quem ganha a briga não é quem se reproduz mais rapidamente, em alguns casos. Nem sempre replicador mais rápido é o mais apto. O advento das quase espécies. Vulgo Homo sapiens. Usando o telefone aqui da quitanda e ligando; aquele senhor de camisa amarela na seção de lataria, pegando o telefone. Esse senhor pediu para usar o telefone, e ligou para a casa dela, para atormentar.
10^130 > 10^80
Se uma molécula é muito grande, ela está fadada ao fracasso.
Teoria – O ser humano é mais interessado em entender o funcionamento do que vê ou imagina que vê. Eu concordo com o que você quiser. Whvl6CikDxA
Vai chover? Quando? Borboletas? Tornados? Zeta?
Alfa?
Paradigma da regularidade[]
Atratores estranhos…? @~@
O Geneticista
Viajantes! Esta manhã estive numa outra sala perdida, pelo que entendi era um tipo de laboratório de biologia. Corpos, ou o que restou deles… Certamente não havia muitas almas… Mas, entre os furos, alguns versos, alguns pedaços de relatórios, cientistas, teorias grotescas. Algo além do simples estudo da vida… Bom, talvez nem tanto.
Vejo o espelho, intocável, longe no horizonte. Em frente meu rosto, dentro dos meus olhos, inalcançável. O rio vermelho flui agradavelmente quente, enquanto lá fora parece chover o tempo todo. Meus pesares traduzem-se em letras gregas e equações, minhas memórias pecadoras de correlações.
Há um buraco na parede, e sou observado por tudo o que não quero ver. Enquanto alguns escrevem em paredes eu desperdiço árvores.
E isso não é bom.
O Geneticista
Mosto e leveduras, mas isso é apenas a diversão diária. Nos outros momentos, ponho-me a observar. Não o micromundo, como de costume, mas o macro. A manifestação que vemos daquilo que não vemos. Assim como nos cromossomos, percebo alelos, aqui ou ali, ora bem visível, ora escondido entre conceitos. Mas começo a crer nas lendas.
Pode ter a ver com a convivência, ou aquilo que chamam convivência. Alguns anos de fermentação não poderiam resultar numa destilação diferente desta. Não se trata de álcool, mas de sentimentos. Ou o que chamam sentimento.
Se é que existe sentimento.
Uma vez, entre meus documentos, li sobre o processo de fabricação da cachaça. A destilação resulta num composto dividido em cabeça, coração e cauda. Cabeça e cauda possuem componentes tóxicos, enquanto o coração é a parte nobre, a qual, teoricamente, deveria ser mandada para armazenamento ou envelhecimento. Há quem redestile restos, e mande-os para engarrafamento. Há quem misture serragem nas cachaças que não foram envelhecidas. Muitos meios de enganar, a maioria nem se pergunta o porquê da bebida queimar a garganta e quase não ter gosto, quase não ter função além de embriagar.
Os tonéis de inox também existem nos novos relatórios. Cápsulas protéicas envolvendo palavras que provavelmente não serão cochichadas. Fibras inúteis de fixação, que não conseguem atingir as células que desejam parasitar. Olham de longe, mais uma vez. Os vírus, quando não parasitam, vivem no limiar.
É muita gente… E muito espaço vazio. Gente que quer falar e não fala, gente que fala e não é ouvida, gente que precisa de gente e gente que é muita gente em uma só. E os pares de genes alelos flutuando pelas moléculas de gás carbônico. Fotossintetizando sem clorofila, processos sem qualquer padrão afinal, mas que parecem seguir as grandes configurações universais.
Sou doente, mas esses líquidos etílicos são meus elixires. Devo ter algum gene alelo também. E talvez eu não deva saber. Poderia ser fatal.
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E as ondas senóides atravessam os limites das páginas e anunciam as freqüências também em outros universos. Igualmente dantescos.