Arquivos do Blog
Relógio Fotográfico – Penhasco Velho e Café Novo
O Relógio despertador parou bem em frente à minha luminária, às cinco horas e quarenta e nove minutos da tarde do dia dezenove. Percebi muitos minutos depois, provavelmente depois das seis. O tempo que passou, eu destinei a contemplar as almas todas que conheci na rua próxima à trigésima segunda.
Compartilhei como se compartilha o mate. Não era mate. Era dor.
Compartilhei com alguém que fui há várias décadas, através de uma antiga fotografia. Senti todos os pesares do passado remoto e recente, de uma vez. Não há o que posso dizer, senão apenas que doía como as agulhas do arrependimento.
Eu gostava tanto, e não podia ver. Eu nunca pude ver, eu nunca fui suficientemente digno para ver. Antes eram as bebidas, mas mal sabiam os juízes todos que o combustível do álcool não é o mal que me movimenta, mas a angústia que me sufoca. Mal sabiam os juízes que o que destruía não era meu coração, mas as leis, que sequer eram do mundo.
Depois do passado velho, veio o novo. E então meu pescoço era o pecado da sinceridade. Sei, e sei há tanto, que o sistema da civilização não permite a sinceridade. Não é educado pensar, não é de boa vista admitir o egoísmo e a hipocrisia. Antes de contar minhas versões, devia tê-las mandado a alguma censura. Algum censor sabe sempre contar melhor a história que o original autor… É assim que o sistema funciona.
Antes do café, foi meu filho que me foi tirado das vistas. Que sobraram foram apenas meras fotografias em mau estado. Eu o via como o sentido de minha existência, o porquê de cada dia ser ensolarado para meus pensamentos complicados. O resto todo da família, por outro lado, tinha medo. Uma criança não deveria ficar exposta tanto tempo a alguém que se recusou a perder o brilho dos olhos, a alguém que, mesmo havendo piso concreto, gostava de se sentar próximo aos barrancos e aos penhascos. É perigoso demais expor uma criança às vistas de todos os horizontes, então era melhor que meu filho pouco me visse.
Aos dias verdes, quem me era proibida era senão a mulher entre todas as mulheres. Conheci-a durante uma tormenta, dentre escadarias. Protegíamo-nos da chuva do lago. Dançamos silenciosamente através de todas as folhas e todos os gostos e todas as línguas, até as mais ásperas. Eu nervoso, anestesiado por dentro, com tanta ebriedade das ruas silenciosas. Ela certeira, direta, matematicamente eficaz. Erro, o pai de todos os acertos.
Aconteceu que eu sempre soube – e saber de tudo é um atalho bastante convidativo para a ruína de não se saber de nada – que o caminho dela já era traçado pelos mesmos juízes de outrora. Eu não constava nas três vias das duplicatas e das completezas e não tinha dinheiro para comprar alianças ou pratarias; eu não podia ser o futuro, eu não podia ficar muito próximo daquela que me fazia ver as cores, eu era muito egoísta para merecer as cores, e admiti minha condição.
Admiti a mim mesmo o que eu era, e o mundo voltou a ficar cinza.
Como podemos investigar a natureza das coisas com tanto afinco quando as respostas estão todas tão claras? Por que nos preocupamos em olhar a escuridão quando há tanta luz do lado de fora da janela? Por que a dificuldade das coisas parece sempre ser tão programada para massacrar a lógica mais simples de como o ser humano é por dentro de si mesmo? Quando as raízes do grande polinômio da existência são reveladas, não vejo motivos para descartar uma apenas por ser o oposto d’outra. Um sinal geométrico não pode ser mais bonito que outro. Eles se completam; não parece justo haver política até mesmo nas matemáticas.
Eu, no entanto, não sou um bom orador da justiça, posto que em muitos casos vejo a injustiça como sendo muito mais humana que uma suposta igualdade que faz sentido tão somente em discursos platônicos do século vinte e cinco, fora da realidade pacata do que somos de verdade.
Nos passados todos não pude ser o que sempre tive vontade de ser. Perdi meu filho tão amado e a mulher que colocava eixos coordenados perfumados e calorosos em meus passos bêbados perdidos. Nenhum deles morreu, e não haverão de morrer. Eu não os daria tal conforto, e a vontade de um é a vontade dos céus, mesmo que os céus sejam só de dentro da cabeça de uma alma solitária. Eu, por outro lado, fui levado até o asilo e à cidade grande, porém vazia.
Eu deveria ter sido esquecido, mas nem meu filho e nem minha dama jamais conseguiram se esquecer do que havia em meus olhos. Meu filho entendeu o porquê de eu gostar tanto da proximidade dos precipícios. Ele percebeu que só assim era possível contemplar melhor o horizonte do mundo.
Minha dama, e só minha, entendeu que o que é de todos acaba não sendo de mais ninguém. Entendeu que as letras de um são só as letras de um, e, mesmo que alguém as copie, não há como copiar uma idéia e mantê-la original. Uma vez feito, não pode ser desfeito, e a revolução não mora na reprise da História.
Apesar da terra, eu vivo. Apesar das palavras, eu escrevo. Apesar do mundo, meus olhos brilham.
- A. Guinelli; Iberia 1921.
O Líquido Etéreo das Probabilidades
Era o auge dos tijolos, diziam os anúncios. A cidade não cheirava mais café nem andava a carroça; as chaminés, pouco a pouco, tomavam conta dos corredores, e as casas pareciam caminhar até um lugar cada vez mais estreito e apertado, onde uns viam roupas dos outros.
A individualidade não mais existia, e assim parecia divertir-se nosso povo. As paredes eram avermelhadas e cinzentas… Era tanto monóxido que mal podíamos respirar. Mas era bom para o progresso, diziam os cartazes e os senhores.
Uma de nossas alternativas de diversão era aquela festa. Eu não podia ir, e isso se deve a uma longa história. Imagine-se sentado numa cama, enquanto observa, do outro lado do quarto, uma mulher a se vestir e a se olhar contra o espelho. Ela não sabe, na verdade, que você está em sua cama – não é uma história sobrenatural, nem nada parecido. É algo bem mais mundano e mais simples… Eu não sou tão pálido a ponto de ser confundido com um fantasma, afinal.
Mas ela se arrumava, e eu contemplava. Era um vestido claro, não muito rebuscado, – nossas terras eram calorosas em demasia – e havia um chapéu, ou uma boina, não sei exatamente o nome daquilo. Ao contrário do vestido, essa veste era de fato rebuscada e beirava o barroco. Por algum motivo, prendia-se bem àquela cabeça e àqueles cabelos longos e presos por dentro da boina. A maquiagem era, de certa forma, pesada, mas não tanto.
Havia certo odor de chuva ácida ao ambiente, mas ela usava um perfume único. Não sei definir o cheiro, mas era agradável e notavelmente marcante.
Cerca de sete da noite, dizia o relógio atrasado. A porta de madeira se abria e ela saía de casa. Acompanhei-a, em silêncio, como fosse um psicopata que observava cada detalhe daquelas veias expostas e lisas e brancas. Minhas roupas são irrelevantes – eram até antiquadas.
A festa em questão ocorria de ano em ano, e todo aquele bairro carbônico se vestia e se disfarçava. Esse ano, porém, ela não iria sozinha. Havia um homem de boa família que ela conhecera, era parente de militares. Homem forte, trabalhador e com muita escolaridade, e as pessoas todas o viam com bons olhos pela sua simpatia. Eu, particularmente, nunca gostei dele. Mas sou apenas um psicopata seguidor, então tentarei não dar detalhes tendenciosos.
Encontraram-se num ponto desativado por onde, antigamente, passava um trem. A cena toda é úmida de ácido, escurecida, borrada. Deram-se um beijo de encontro, entrelaçaram as mãos e caminharam em direção as luzes.
O rosto dela trazia um semblante comum, satisfeito. O dele trazia sobrancelhas cerradas, e um riso estranho. De qualquer forma, também parecia satisfeito com seu feitio. Era um conquistador nato, de qualquer forma, e assim comentavam as madames do bairro, cheias de orgulho.
À festa, todos bebiam cachaça. Era a bebida mais fácil de encontrar, e agradava as multidões. Litros e litros de aguardente da pior qualidade, com um leve gosto de fumaça industrial. Bebiam e brindavam à revolução, a utopia se aproximava. Claro que essa utopia teria suas desventuras ao caminho, mas era tudo para um motivo maior, uma razão maior. As lutas de classes ficavam de lado nessas confraternizações; todos tinham preocupações, elas não deveriam entrar lá.
Era um lugar aberto, tudo bem. Um pátio industrial que já era obsoleto, e se enfeitava todo. Luzes, máquinas experimentais, e um plano de fundo com gigantes funcionando o dia todo. Havia pessoas lá? Era tão orgânico a ponto de não precisar de gente?
Não importa. A festa continuava. Não lembro que tipo de música ecoava; talvez fosse músicas novas de uma nova madame da época. Não sei seu nome correto, mas era tal que usava frutas por cima do chapéu e dançava efusivamente pelas escadas… Algo muito original, devo admitir.
O que acontece é que ela, a que eu seguia em silêncio, também dançava nessa época. Não efusivamente como a tal madame, mas sinceramente. Suas curvas, apesar de bem escondidas, me encantavam. Ela desfilava entre os normais e despertava admiração por parte de todos os homens e mulheres de bem.
Do outro lado da festa, outro cavalheiro caminhava sozinho. Usava-se de um chapéu preto, roupas pretas, cabelo relativamente longo e preso. Não estava interessado em nada, mas também ficou fascinado pela nossa senhorita. Postou-se a observar, como faziam todos, no que ela o viu, e seu rosto a agradou.
Consegui perceber claramente quando ela levantou a sobrancelha esquerda, com um olhar enigmático, em direção ao rapaz. Foi que, nesse momento, o homem que acompanhava a moça – aquele forte e trabalhador – também viu claramente. E decidiu, portanto, que era hora de partir.
Chamou-a, e ela concordou que deviam ir até um lugar mais reservado. Foram entre dois tanques de óleo da indústria.
A cena ficava cada vez mais escura, e já não conseguia ver nada – estava eu enfiado entre duas saídas de gás, com dificuldades para respirar, e sem poder fazer qualquer barulho. A moça e o homem começavam a se espremer entre os tanques e se sujavam e se lambiam e se animalizavam e se devoravam. O homem possuía e ela cedia, pouco a pouco. Ninguém estava vendo, não havia problemas.
Num dado momento, quando ela já não tinha mais forças, o homem ainda estava em pé. Segurou-a pelo pescoço. Ela ria, pensando ser uma brincadeira, mas não era. Ele apertava cada vez mais, e ela começava a reclamar de dores.
Ele fingia não ouvir.
Depois de trinta e sete segundos, ele a jogou entre os tanques. Começou a chutá-la com sua botina de parente de militares. Depois, levantou-a segurando pelo vestido, e começou a dar socos e cotoveladas em seu rosto. Ela chorava e tentava gritar, mas não conseguia. Era pequena, perto dele. Não tinha como se defender, apesar de não ser fraca.
Ele rasgou uma parte do vestido, pegou-a o chapéu, começou a pisar naquilo tudo, cuspia, esbravejava.
Pediu desculpas e foi embora.
Ela continuava lá, no chão, destruída, melada com o líquido etéreo das probabilidades e com o óleo sujo dos tanques; cheirava a monóxido de revolução. Eu também continuava ali, entre os gases, apertado e preso dentro de minha moralidade.
Ela não podia me ver, mas eu a via. Queria estar com ela, não só por causa da aparência e das curvas.
Apesar de tudo, ela sabia o perigo que corria com tal bem aparentado homenzarrão. Ela sabia perfeitamente, mas gostava de se esquecer e ouvir a música e olhar para os rapazes que usavam chapéu preto. Aquele, aliás, ainda a veria no próximo mês, e os dois talvez se gostassem por um tempo.
Mas acontece que as pessoas não são donas de outras pessoas, e não conseguiam perceber isso aqueles ratos todos, morando dentro de gaiolas de tijolo, sendo alimentados com queijo estragado. As utopias sempre terão suas desventuras, sejam elas a falta de champanhe ou a falta de senso.
Eu não sou um psicopata.
Café Jornal Atômico Celular
Ocorreu enquanto lia sobre política. Não que a política atraia insetos.
Era, ou é, uma tarde calorenta – e por isso os insetos. Devo reforçar que os insetos nada têm a ver com políticas… Eles talvez sejam mais limpos empiricamente. Teoricamente são grotescos, admito.
Também, ao momento, saboreava meu café; quatro colheres de pó, duas de açúcar não muito cheias. Forte, não tão amargo, funcional. Esperava algum telefonema com notícias boas ou ruins ou uma guerra… Enquanto isso, lia o jornal galáctico.
Caro viajante, por favor note: por “jornal galáctico”, não me refiro à ficção científica. Refiro-me à trilha sonora.
A janela estava aberta, posto o calor que se fazia gradiente – pela fenestra, entrou ele, o famigerado inseto saltador. Saí da política e dos partidos, fui-me à incerteza metafísica.
Contemplei o inseto, forçosamente – queria, na verdade, sua extinção do meu ambiente calmo. Percebi um análogo interessante. O grilo era absurdamente rápido, e pulava. Cada pedaço de caos vazio entre móveis poderia ser uma morada nova por um infinitésimo de tempo. Talvez o grilo existisse em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas minha ferramenta de pão só consegue visualizá-lo ponto a ponto, nunca em sua obra completa.
Corri-me ao corredor, a fim de me apossar da lata vermelha. Infelizmente, veneno de nada adiantaria. Poderia jogar em todos os cantos, o grilo sempre acharia algum espaço novo.
Incômodo PT. I
O telefone toca, e não é a voz que eu gostaria de ouvir. Não é uma voz desagradável, isso seria injusto da parte de quem conta a história. Mas, por algum motivo, há um cutucão – a mediana é diferente da média.
Estatísticas são números e nomes – vida talvez seja algo além.
Parei ao grilo. Veneno; joguei um pouco dele, mas nada capturei. Assim funcionam muitos dos captadores de átomos, creio eu, embora não os conheça a fundo. O máximo que pude fazer, e assim é o máximo que podem fazer os tão respeitosos cientistas entre aspas – abrir as janelas e esperar que o grilo saia por si só, a fim de atingir uma estabilidade.
O grilo dentro do quarto simbolizou uma interrupção de minha leitura, de meu café e de minha música. Um barulho a mais, uma energia além do que estou acostumado ou do que esperaria numa tarde ensolarada. Coloquemos o inseto como perturbador de minha estabilidade. Pulando por todos os lados ao mesmo tempo, infinitamente rápido (para os padrões); talvez o grilo interagindo com o sistema novo tenha feito o telefone tocar, a campainha disparar e, quem sabe, tenha causado toda uma tempestade em algum lugar de algum continente longínquo – talvez até na Nova Zelândia.
Incômodo PT. II
Novíssimo Mundo – e é assim que me foi apresentado no livro de geografia. Os geógrafos caem do céu, resolvi pensar. Certa vez, ouvi dizer que não se trata de decorar capitais de países ou estados ou adjetivâncias assim.
Existem lugares tão despreparados para neologismos e idéias novas – existem lugares abertos onde as janelas estão todas fechadas.
Amar é diferente de possuir completamente. Pessoas não são objetos. Rochas o são.
Rochas ígneas podem até ser interessantes… Pode-se roubar uma delas e colocar num vaso.
Pode ser interpretado como crônica, embora heterodoxa. Em carta ao prefeito da metrópole, diria que a desigualdade social não tem necessariamente a ver com a taxa de pobreza.
Para que não fique demasiadamente grande, e meu café já acabou há um tempo, gostaria de pedir um pouco mais de ação ao prefeito. Os rios estão um pouco sujos, pude sentir um tanto do odor desagradável deles hoje, andando pela marginal principal. O tratamento de esgoto deve ser melhorado, assim como a educação.
Não posso dizer imparcialmente, mas, em minha humilde opinião, a educação é fraca, e tal fraqueza se reflete como num espelho de alumínio.
Neste momento o grilo sai do quarto, e a estabilidade volta. Assim também volta a se materializar o papel, e assim também voltarei a ler os artigos e as notícias…
Já que o café acabou, tomarei água.
Incômodo PT. III
Não se pode definir um sistema pelo comportamento isolado de indivíduos em exceção. É quase como definir a matemática por uma indeterminação – e a matemática não é tão indeterminada quanto parece.
De qualquer forma, todo sistema tem regras, e, em aspectos palpáveis, inúmeras exceções. É um pseudocírculo de raios – Busque o discernimento, ou então se acostume a dormir com os pés descobertos quando se cobre a cabeça.
202 – Constelações e Sadismo no Deserto
Comi cada pedaço e apreciei como se estivesse em meio ao deserto. Na verdade eu estava nele o tempo todo, mas cada vez abstraía-se numa fantasia diferente. Dessa vez, tinha a forma de uma equação diferencial.
O pão embolorado, que parecia mesmo um violão entoando belas melodias, como diziam os oráculos todos ao mesmo tempo há um ano, mais ou menos. O gosto artificial do sangue dos tomates, cada substância conservante, cada pedacinho de sódio alimentavam, sobretudo, meu cérebro.
Foi depois do café. Também tão artificial quanto o sangue (não o meu, o do tomate). Não era exatamente café, mas chegava bem perto; era solúvel, inclusive. Não precisava coar, não precisava ferver água sequer. Era só fingir que fosse café, assim seria, e assim me manteria acordado.
Número engraçado, de fato, deram ao meu quarto. Duzentos e dois. Lembra-me alguma coisa, mas pode ser apenas coincidência. O que, acredito, seja mais provável que qualquer conceito. A menos que alguém do prédio tenha uma cultura razoável e goste de pregar peças em vagabundos (não no sentido antitrabalhador da palavra, mas sim no sentido de vagal mesmo, o que andarilha. No caso, este que escreve).
Creio que essa mistura excêntrica de bolor e sódio e milho queimado era algo que fazia parte do conjunto atual de inspirações para tal relato. Antes as palavras simplesmente não estavam fluindo, uma vez que tudo estava muito abstrato. Comendo esses restos tóxicos, no entanto, tive algo concreto para relatar. Tão concreto quanto a parede que usei de prato.
Beira o absurdo, mas não chega a tanto, é apenas o gosto da civilização-deserto. Quarenta dias prometi perambular entre todos os pecados, aguentar todas as tentações, respirar com vigor cada pedaço de monóxido que quisesse visitar minhas fossas… Há algo me testando, e não quero reprovar e ter de fazer tudo outra vez.
Não sei de onde mente tão maligna poderia tirar inspiração para tal tipo de teste. Deserto, quarenta dias… A originalidade do sadismo por vezes me surpreende.
Outro fato é que a água no quarto está acabando. Numa análise mais profunda, é irônico, também. Justamente NESTE quarto a água está acabando. A hipótese de minha conduta ser regida por alguém mais culturalmente desenvolvido passa a ser até que aceitável. Só não consigo achar os buracos nas paredes. Ora, esse alguém ESTÁ me observando.
Ao menos esta não tem gosto de ferro. Tem gosto de água, o que a coloca muito perto do sangue, do bolor e do cafeóide. E está acabando, assim como o sangue, o bolor… Cafeóide ainda tem muito para os livros da madrugada. Hesitei por demais a abri-los, uma hora teria de ser removida a tampa. Assim fiz.
De qualquer forma, creio que andar por aqui faça algum bem ao que continuo denominando como alma. Estou distante de tudo o que me traz boas lembranças, estou sendo renegado dos direitos mais elementais, como comer e beber adequadamente, sinto-me observado em cada canto escondido do quarto, as montanhas de pedra amarela parecem-se mais com edifícios cinzas e escadarias de metal das cabeças de borracha e a Lapelle’s deve existir em algum lugar aqui por perto.
A qualquer momento pode acabar a bateria, e percebo que foi me negado também o direito a energia e campos elétricos, se é que existe algo assim. Tomemos por padrão MEU conjunto de leis.
Mas, se assim convencionarmos, estou renegado de todo o livro.
Não façamos assim, convencionemos outra coisa. Qualquer outro conjunto de leis que você queira. E negue-se a todos os seus direitos de sobrevivência e de metanoia. Agora estamos numa situação bem mais parecida.
Ela desfilava, embora não fosse um lugar para desfiles. Couro, coturno, correntes. Era a lorde suprema das rodas e do aço forjado. A música rangia pelos arredores e quase destruía as velhas paredes do Eco.
Era longe, afinal.
Talvez esteja alguém supervisionando inclusive meus sonhos, ou alucinações… Em tais condições, é difícil separar um do outro. Deito, olho para o tubo de gás aceso, e em instantes parece que o teto fica translúcido. Vejo o céu, as estrelas, nebulosas, constelações, vejo Escorpião tão afastada de Touro, o que me deixa um tanto triste por essa noite; mas, se sobrevivo a um deserto, não é uma noite que vai fazê-las ficarem distantes para sempre. Até porque acredito na dobra do espaço e nos túneis de minhoca.
Minhocas são seres repulsivos, mas se não existissem a agricultura perderia muito. Talvez muitos morressem de fome se não fossem as minhocas. Não odiemos. Não faz bem.
E, então, como num passe de mágica (leia-se: fome extrema), o céu começa a rodar cada vez mais rápido. Pode ser que isso tenha sido causado pelo fato de minha pessoa, sem ter muito mais o que fazer além de resistir ao testes, não faça nada. E olhe pro céu, que nem existe.
Rodando, acima de mim, tudo passando, contornando as eclípticas, magnetizando, tempestando, chovendo função gama… Tudo, e todos, brilhando, girando… Como uma música feita pelas minhocas do espaço.
Tenho saudades, não preciso mentir quanto a isso… O uso de termos pesados às vezes é necessário, e muitas vezes não podem ser substituídos por outros equivalentes.
Incoerência IX
Ele não queria, e eu ia ficar com muito peso na consciência, se é que posso dizer que tenho uma. De qualquer forma, sabíamos que tal evolução demandava sacrifícios. Peguei a caixa de ferramentas como se fosse um trabalho comum.
Dei-o uma dose de Veigsztran, ele dormiu rápido. Era quase seis da tarde, e estávamos ficando sem luz, precisava agir rápido. Primeiro a serra manual.
Ele não podia sentir nada, uma vez que estava em transe psicotrópico. Continuei o serviço, fingindo que sequer conhecia o sujeito. Na verdade eu não conhecia, de qualquer forma. Era mais um estranho. Era só um experimento.
Tive de separar um pouco as vísceras, para que pudesse acomodar confortavelmente (dadas as condições) uma bateria de Tecnécio, a mesma que pensei em desenvolver há uns meses, como escrevi neste mesmo caderno. Liguei os fios encapados por compostos de Selênio, usei o cauterizador (que adaptei milagrosamente do micro-ondas da fábrica), juntei estanho e estava pronta essa parte.
Os fios que saíram, liguei-os no osciloscópio, para checar se as ligações neurais estavam bem sucedidas. Mandei um impulso de “Olá”, e ele e o osciloscópio responderam positivamente. Bom.
Era um monstro.
- Relatório de Sadi Implattore sobre Automação de Células Nervosas e Aquisição de Reflexos Artificiais, página 184, relato Zero.
Agora, penso, não há mesmo muito o que se fazer por aqui. Talvez haja uma recompensa para tal teste, talvez não, não sei. Pensar muito nisso, por ventura, nem deve ser tão agradável assim. Estou aprendendo a lidar com o gosto dos conservantes… Assim, provavelmente posso criar vergonha na cara suficiente para apreciar com ainda mais zelo os gostos de verdade de tudo o que existe (pra mim).
É chato, eu sei que é chato, mas não custa nada lembrar que a realidade minha é a realidade minha. A sua é a sua. A dele é a dele. Estamos todos no Diagrama, ainda. E, pessoalmente, tudo seria muito sem graça se fôssemos uma única função linear.
Funções lineares matam pessoas, fisicamente falando. Penetram pela garganta e saem, rasgando todas as artérias e veias e tecidos e órgãos e traqueias (agora sequer posso acentuá-las como quero).
Ouço conversas do lado de fora da porta, e um ruído que fica cada vez mais agudo, como se algo estivesse sendo carregado até o limite antes da explosão. A porta deve ter ranhuras que não consigo perceber, alguma ilusão óptica sutil. Estou nu à casa toda, ao prédio todo, à cidade toda. Todas as trapaças são possíveis, todas as armadilhas são prováveis quando se está num deserto assim.
E nem tenho uma motocicleta.
Ela o fez. Assim como eu também o faria, se ela fosse. A situação não requer tipo algum de crítica, não foi nenhum tipo de jogo sujo. Admito isso da forma mais sincera possível.
O que me chateia é que eu não estava lá. Eu não pude participar. Como sempre aconteceu… E, como (soluço) temo que não pare de acontecer.
Temos esses momentos de fuga. De se esconder por baixo do travesseiro e lacrimejar. Houve uma festa, todos se divertiram. E eu não pude sair de casa. É uma sensação além da tristeza. É a sensação de ser preso e não poder estar onde se quer no momento em que se quer.
É a árdua sensação de se sentir humano clássico.
Eu só queria me sentir incluído nas músicas, nas bebidas… Mas a festa sempre acabava comigo no canto. Sempre.
Nota ao Senhor Heinsenberg:
.
Ao menos, também devo concordar que estar aqui é bom para digressões. Embora seja difícil pensar linearmente, algumas coisas acabam por concretizar as conjecturas. Não que isso seja bom; aliás, está muito longe de ser bom, mas nos quarenta dias do deserto não há ninguém além de mim e da banca analisadora. Disfarçam-se por síndicos, vendedores, comerciantes, fabricantes, empresários e encanadores. Vejo inclusive belas moças com papéis de impostos nas mãos, cobrando tarifas e atendendo telefonemas. Quadratizadas, robotizadas. Não são de verdade. Quem planejou tudo isso me subestimou nesse ponto, e digo isso sem qualquer tipo de exaltação.
Talvez quem esteja subestimando seja eu.
A queda é maior quando se está mais ao alto, e disso até a sabedoria popular é ciente.
O céu não para de girar enquanto tudo isso penso. Posso fazer as paralaxes, contar estrelas, fazer desejos aos asteroides… É uma fonte dos desejos. É azul-escuro, tal qual água de fonte digna de desejos. Não tem gosto, mas mata a sede. Não tem peixes visíveis, mas a vida pulsa. Além disso, ainda há muito mais que não se pode enxergar. Coisas boas e ruins.
Espero obter melhor sorte e observar mais coisas boas olhando com atenção, ao invés de imitar velhos astrônomos e bradar que o Sol não é perfeito por possuir manchas.
Pra mim o Sol é perfeito. E as manchas nada interferem em minha visão. Tudo tem manchas. E nem por isso deixa de ser perfeito.
A natureza é a perfeição que tentamos equacionar, imitar, decodificar, e nunca conseguiremos.
O deserto beira a perfeição do sadismo. Mas podia ser pior.
Muito pior.