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O Conto do Milênio – Capítulo 6: O Marquês de Sorocaba

O fim é um bom lugar para se mostrar o que ainda não veio.

Anotação Pessoal: Caso I – Marquês de Sorocaba

(…) Registrado aos quinze de setembro do ano corrente, à qüinquagésima oitava repartição de Justiça da Capital.

O Marquês, homem conhecido às redondezas por sua inviolável honestidade e generosidade, conheceu aquela que seria sua dama numa festa pagã, à mesma cidade. Adentrou-se ele nos problemas que aquela trazia. Era a mais nova de toda uma linhagem, a única mulher, e também a única da família que era forçada a trabalhar massivamente para garantir o sustento dos irmãos e da debilitada tutora.

Após meses de planejamento, realizado em segredo por trás de uma das igrejas, durante as madrugadas, a fuga gloriosa. A dama deixou um bilhete junto com maior parte de seus pertences e suas memórias, a fim de buscar sua salvação no casarão do Marquês.

Consumato est, diziam os empregados na noite do casamento. Um casal promissor, perdoado de todos os pecados por preces do próprio Padre. Nada faria cálidas aquelas noites. O Marquês havia alcançado aquela que tanto procurou com o passar dos anos, e a agora Marquesa se livrara de todo o trabalho forçado – trabalharia agora somente em troca do prazer em ser útil.

Veio a maré dos tempos e das obrigações, porém. O ciclo de deveres ficava cada vez mais massivo. Não era pra ser assim, todos sabiam, mas assim o era. Não havia mais brilho nos olhos, mas o Marquês, mostrando-se generoso, ofereceu abrigo à dama, mesmo que esta não mais quisesse compartilhar os aposentos com ele.

Segundo relatos de empregados e vizinhos, o que se ouvia nas noites agora eram gritos, ofensas e maldizeres. Não se parecia de fato com um casal – ou se parecia demais. A dama, ciente de sua liberdade, passou a trazer alguns empregados para ajudá-la em serviços mais pessoais e particulares. As sessões perduravam durante madrugadas intermináveis no quarto ao lado daquele do Marquês. O mesmo não conseguia dormir.

Em parte por causa do barulho que emanava – eram sussurros, gemidos, gritos. D’outro lado, havia toda a cena despertada antes dos olhos por causa dos sons. Assim como uma flauta representa um pássaro, um gemido representa o suor escorrendo do pescoço de um e caindo aos ombros de outro.

Numa noite qualquer, o Marquês resolveu polir alguns de seus artefatos. Gritos emanavam do outro quarto, mas ele, bem vestido, apenas polia no alto de sua concentração aqueles artefatos. Cessaram os gritos por volta das duas da madrugada. Ele caminhou lentamente, para não estragar o momento daqueles que lá estavam.

Bateu três vezes à porta, sem resposta. Sabia que não havia trancas, então resolveu entrar, com os artefatos em mãos.

A cena que vira o marcaria para o resto da eternidade. Era sujo, tanto na aparência quanto nos porquês. Era a cena mais suja que jamais havia visto. Com os olhos desfigurados e descompassados, sem conseguir piscar, rasgou a pele dos dois. Ver um banho de sangue seria mais limpo, e os gritos de dor verdadeira seriam mais justos.

Mergulhado no instinto, ele bateu repetidamente no rosto da dama com o artefato, impulsivo, sem que ninguém mais aparecesse para ajudá-la. O sangue era espalhado conforme a mão fosse levantada. O artefato respingava a chuva vermelha nas paredes.

Ali estava a Marquesa em sua forma mais agradecida. Desfigurada, rasgada, surpresa, pouco depois de um orgasmo sincero. (…)

- Escrito por Wm. ; Excerto de T.S.L/Proto || A ser confirmado.

Relógio Fotográfico – Penhasco Velho e Café Novo

O Relógio despertador parou bem em frente à minha luminária, às cinco horas e quarenta e nove minutos da tarde do dia dezenove. Percebi muitos minutos depois, provavelmente depois das seis. O tempo que passou, eu destinei a contemplar as almas todas que conheci na rua próxima à trigésima segunda.

Compartilhei como se compartilha o mate. Não era mate. Era dor.

Compartilhei com alguém que fui há várias décadas, através de uma antiga fotografia. Senti todos os pesares do passado remoto e recente, de uma vez. Não há o que posso dizer, senão apenas que doía como as agulhas do arrependimento.

Eu gostava tanto, e não podia ver. Eu nunca pude ver, eu nunca fui suficientemente digno para ver. Antes eram as bebidas, mas mal sabiam os juízes todos que o combustível do álcool não é o mal que me movimenta, mas a angústia que me sufoca. Mal sabiam os juízes que o que destruía não era meu coração, mas as leis, que sequer eram do mundo.

Depois do passado velho, veio o novo. E então meu pescoço era o pecado da sinceridade. Sei, e sei há tanto, que o sistema da civilização não permite a sinceridade. Não é educado pensar, não é de boa vista admitir o egoísmo e a hipocrisia. Antes de contar minhas versões, devia tê-las mandado a alguma censura. Algum censor sabe sempre contar melhor a história que o original autor… É assim que o sistema funciona.

Antes do café, foi meu filho que me foi tirado das vistas. Que sobraram foram apenas meras fotografias em mau estado. Eu o via como o sentido de minha existência, o porquê de cada dia ser ensolarado para meus pensamentos complicados. O resto todo da família, por outro lado, tinha medo. Uma criança não deveria ficar exposta tanto tempo a alguém que se recusou a perder o brilho dos olhos, a alguém que, mesmo havendo piso concreto, gostava de se sentar próximo aos barrancos e aos penhascos. É perigoso demais expor uma criança às vistas de todos os horizontes, então era melhor que meu filho pouco me visse.

Aos dias verdes, quem me era proibida era senão a mulher entre todas as mulheres. Conheci-a durante uma tormenta, dentre escadarias. Protegíamo-nos da chuva do lago. Dançamos silenciosamente através de todas as folhas e todos os gostos e todas as línguas, até as mais ásperas. Eu nervoso, anestesiado por dentro, com tanta ebriedade das ruas silenciosas. Ela certeira, direta, matematicamente eficaz. Erro, o pai de todos os acertos.

Aconteceu que eu sempre soube – e saber de tudo é um atalho bastante convidativo para a ruína de não se saber de nada – que o caminho dela já era traçado pelos mesmos juízes de outrora. Eu não constava nas três vias das duplicatas e das completezas e não tinha dinheiro para comprar alianças ou pratarias; eu não podia ser o futuro, eu não podia ficar muito próximo daquela que me fazia ver as cores, eu era muito egoísta para merecer as cores, e admiti minha condição.

Admiti a mim mesmo o que eu era, e o mundo voltou a ficar cinza.

Como podemos investigar a natureza das coisas com tanto afinco quando as respostas estão todas tão claras? Por que nos preocupamos em olhar a escuridão quando há tanta luz do lado de fora da janela? Por que a dificuldade das coisas parece sempre ser tão programada para massacrar a lógica mais simples de como o ser humano é por dentro de si mesmo? Quando as raízes do grande polinômio da existência são reveladas, não vejo motivos para descartar uma apenas por ser o oposto d’outra. Um sinal geométrico não pode ser mais bonito que outro. Eles se completam; não parece justo haver política até mesmo nas matemáticas.

Eu, no entanto, não sou um bom orador da justiça, posto que em muitos casos vejo a injustiça como sendo muito mais humana que uma suposta igualdade que faz sentido tão somente em discursos platônicos do século vinte e cinco, fora da realidade pacata do que somos de verdade.

Nos passados todos não pude ser o que sempre tive vontade de ser. Perdi meu filho tão amado e a mulher que colocava eixos coordenados perfumados e calorosos em meus passos bêbados perdidos. Nenhum deles morreu, e não haverão de morrer. Eu não os daria tal conforto, e a vontade de um é a vontade dos céus, mesmo que os céus sejam só de dentro da cabeça de uma alma solitária. Eu, por outro lado, fui levado até o asilo e à cidade grande, porém vazia.

Eu deveria ter sido esquecido, mas nem meu filho e nem minha dama jamais conseguiram se esquecer do que havia em meus olhos. Meu filho entendeu o porquê de eu gostar tanto da proximidade dos precipícios. Ele percebeu que só assim era possível contemplar melhor o horizonte do mundo.

Minha dama, e só minha, entendeu que o que é de todos acaba não sendo de mais ninguém. Entendeu que as letras de um são só as letras de um, e, mesmo que alguém as copie, não há como copiar uma idéia e mantê-la original. Uma vez feito, não pode ser desfeito, e a revolução não mora na reprise da História.

Apesar da terra, eu vivo. Apesar das palavras, eu escrevo. Apesar do mundo, meus olhos brilham.

 - A. Guinelli; Iberia 1921.

Longilineon Outside; Moi XV

Ontem me lembrei de você! O tempo tava fechado, o vento tava gelado. Quente tava o meu café, bastante amargo. Uma vez você me disse que meu gosto também era amargo; amargo, esverdeado, entorpecente… Apesar de você, ainda prefiro ficar acordado. A amargura é doce, depois da chuva.

Hoje veio o Sol. Com o céu azul e a claridade, chegou também a revolução. Você tinha que ver! São placas por todos os lados, as ruas estão menos movimentadas que o comum, alguns até saíram da cidade! Perto da praça dos aniversários, estão se aglomerando pessoas para discutir as políticas em assembléia. Ontem mesmo um grupo entrou no laboratório, sem proteção alguma, sem óculos contra radiação ultravioleta, e me chamou para ir. Não é por nada, eu até fui a algumas dessas reuniões, mas tudo que vi não foram pessoas e argumentos. Foram jogadores de times falidos, brigas contra o vento para se demonstrar que o outro time, que também não existe, é o mais fraco.

Aqui do lado de fora do laboratório ainda tem muito vento. Ainda é gelado, então ainda me lembro de você – não pela sua frigidez costumeira, nem por sua falta de respostas por tanto e tanto tempo, mas por causa das ventanias gélidas que estavam soprando através da janela de alumínio naquela noite em que tremíamos de frio… Parece que foi ontem que acordei às três da manhã agarrando seu corpo com todas as forças e buscando calor mesmo com os cobertores todos, não?

O silêncio do horizonte azul e ensolarado e vazio só é quebrado pelas conversas das cozinheiras, não muito longe daqui, e também não muito intensamente, posto que sejam apenas duas e o almoço ainda ta longe, e pelo grafite da lapiseira. É interessante ouvir essas conversas perdidas, porque não parecem ser palavras concretas – são apenas sons preenchendo o fluido da vida e da morte, são interações distantes. Só há palavras quando prestamos atenção nelas, assim como todo o resto. Ninguém nos provou que a cor do céu é azul. Todas as definições, nomenclaturas, tudo foi postulado por conveniência, afinal. É tolice ingênua acreditar que isso tudo que existe deve ser assim sob todos os pontos de vista. Mal entendemos algumas palavras quando nos são dirigidas, por que impor que devemos compreender até aquelas que nunca foram ditas?

Ali à frente uma das cientistas acabou de pegar um café. Acho digno esse lugar manter tradições tão seculares… Aqui sequer há máquinas automáticas para servir café, são só duas senhoras. Talvez já haja falta demais de sensações humanas, não há por que tirarem de nós até o gosto imperfeito do café.

Ela colocou um punhado pequeno de açúcar, e daqui da mesa pude sentir que foi o suficiente – nem muito amargo, nem muito doce. Hoje o dia é dos ciclos de Carnot, não precisa dos extremos. Eles sempre chegam, de qualquer forma. É um teorema.

Depois ela enfiou uma colher de plástico no copo, para misturar o líquido e o sólido, e foi como se ela estivesse cutucando meu cérebro solenóide… Sempre me esqueço sobre como são sedutores os movimentos impensados do cotidiano…

Longe vai o trem. Nem tão perto para incomodar, nem tão longe para não existir. Longe o suficiente para fazer um agradável barulho que, tal qual colher de plástico, mistura a fumaça de mil e oitocentos e a fusão fria de dois mil e setenta. Vê; esses trens que por aqui passam não precisam de carvão e fumaça, mas os usam mesmo assim. Talvez seja aquilo que ali em cima escrevi; talvez precisemos dessas lembranças menores para que o futuro não seja tão amedrontador. Num segundo adiante de todas essas letras, qualquer previsão é tola. A realidade pode ser rasgada por qualquer coisa desconhecida, tudo pode ruir, o horizonte azul tão pacato pode colapsar, e ninguém pode saber como é, por que é, ou se mesmo poderá ser. É tolo prever, e tudo o que se diz sobre o futuro são apenas reinterpretações do passado, afinal.

E foi aqui que me lembrei de você. Ontem por causa do céu fechado, do frio e da amargura do café; hoje, por causa da mistura entre o passado e o futuro. Não vou mentir, ainda tenho mais estima por cafeína que por sua presença real. Lembrar de você é muito mais agradável e reconfortante que passar sequer meia centelha de segundo ao seu lado.

Não chore, entretanto. Eu não preciso de você, assim como as dores não precisam de gente e os trens não precisam de fumaça. Apesar de tudo, ainda gosto de como você me engana em tantas previsões sem sentido… Ainda me inspira sua tolice. Ainda me inspira sua imperfeição.

Página Dezenove

Eis que procurei dentre meus livros e não achei; ainda não posso olhar diretamente para as folhas em que faço as traduções. Não são palavras só minhas, e são, ao mesmo tempo, as mais sinceras que me saem. De qualquer forma, sei que ao escrever não sou só eu. É mais gente, e mais gente, e mais…

E tanta gente se manifesta agora na forma de uma só outra. Meu rosto arde, mesmo que seja só eu e o papel e a Lua que se esconde por trás do concreto e das grades de aço.

Eu que rastejo ainda não consigo fixar meus olhos por muito tempo em belos outros sem sentir a lareira se aconchegando cada vez mais quente.

O céu me prende em sua ilusão real; eu, ébrio, apenas escrevo.

Das páginas, separei uma.

Não havia contas, nem enunciados. Não havia algo matematicamente coerente, mas era a página que devia ser. Nela um texto que sequer conseguia passar da metade. Muito, perto de minha imaginação tempestuosa, que mal consegue escrever uma frase completa quando pensa demais em quão fantástico são os contos que aparecem por acaso numa praça abandonada por onde ainda insisto em criar formas e octaedros e cores com minha incerteza.

Faz quanto tempo? Um mês? Mais? Menos? Tanto faz o tempo, afinal.

Olho para o relógio, uma vez, contra minha vontade, e descubro que há poucos ciclos de radiação pra tanta tarde. Uma tarde onde o céu é extremamente azul – e mesmo o céu cinza é mais vívido que o nublado comum; o vento é agradável – mesmo o mais árido; e as outras cores, e as formas desfocadas, e tudo.

Sempre há muita tarde pra pouco tempo.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Bebi a bebida das décadas e descobri ser das mais alucinógenas. Era como café, tinha cheiro de café, tinha gosto de café… Até cheguei a acreditar que poderia ter sido café, mas então pensei melhor e postulei que de fato era algo muito mais transcendental. Havia bebido tantas vezes e ficado acordado tantas noites… Por onde havia eu me esquecido de adentrar à porta?

Em poucos segundos vi o vento arrastando os prédios e me colocando num deserto gigantesco, dentre velhas casas, a contemplar, bem onde a linha do abismo encontra o céu, um gigantesco castelo, cheio de passagens secretas, e livros, e bibliotecas, e tecnologias não desvendadas, e túneis, e salões…

Começou a chover.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Ao ler as memórias daquele que precisava ser transcrito, percebi o cheiro sendo entoado pelo caos. Era chuva, e era da mais pura que há eras não adentrava o edifício que tomei por base nos últimos meses. Do lado de fora não havia mais Sol, nem Lua. O céu era uma gigantesca nuvem escura. Cá dentro apenas meus transmissores, minhas válvulas, minha eletricidade que emergiu do éter como fosse conduzida numa sinfonia. A natureza é os instrumentos. Apesar dos bulbos, acendi uma vela.

Tentei, num segundo de delírio e inocência, encostar meus lábios nos da chuva que repentinamente se formara na cidadela, mas ela era mais sinusoidal que meus artifícios, e fingia fugir mesmo já estando tão cheia de poeira minha como eu estava d’água dela.

Percebi não ser uma fuga, afinal – era uma dança. A chuva ali estava, com suas formas abstratas e sedutoras, me chamando para a dança das décadas… E fazia um bom tempo que eu procurava tão digna companhia.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

Minhas imagens sempre são dos pássaros por cima do âmbar, contornando, riscando, como fossem arranha-céus em outras dimensões que não as horizonte-verticais. Um modo novo de descrever tudo, enquanto repousam; fossem notas musicais numa partitura de entrelaces elétricos, ao arrastar das vozes criptografadas. Quando entrei no cheiro da chuva, entretanto, não eram os pássaros que fluíam com os elétrons. Quem voava era eu.

As gotas persistiam, curvilíneas. O céu, mesmo cinza, continuava mais cheio de cores que o comum – parecia que, desta vez, não era só um cinza por cima de outro, mas um cinza pintado sobre o azul radiante do universo, com a mesma intensidade do Sol que marcava os pontos de encontro das civilizações passadas. O sistema solar, inteiro. E tudo parecia pouco perto da existência e da dança e da música.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

É muito além de uma página. O horizonte é como se estivesse cheio de segredos prontos para serem descobertos ao se despir lentamente a realidade. O tecido fino e suave, pronto pra ser rasgado sutilmente, num momento inesperado.

Antes que eu pudesse escrever qualquer esboço de palavra, os rios elétricos que vinham do céu fizeram os círculos e marcaram com anagramas todos os blocos de pedra e todos os casebres.

Depois que as décadas se amontoaram e se mostraram e se escorreram, vi uma silhueta emergindo em meio à chuva, e tentei agarrá-la.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. III, excerto.

Todas as décadas colidem dentro da garrafa das improbabilidades – a bebida mais forte; um mar de infinitos, série tão complexa e não-linear que as próprias bases da matemática se renderiam e se curvariam perante a dança das folhas.

O fogo, agora azulado, se curva por dentro de um dos pedaços de titânio, e marca o tempo da madrugada.

Um respingo atinge meu braço.

Ilha Secreta – 3AM

Cavalguei até minha sepultura e desarranhei um monólogo a me ver cravado e resumido em palavras numa lápide do cemitério mais secreto dos confins da cidade das árvores.

Uma caminhada sinistra que me levava a mim mesmo, e eu sabia. A noite, as estrelas e os fantasmas, nada daquilo existia senão dentro de mim mesmo, assim como as estradas sombrias e as árvores feitas em galhos de artérias rumando ao além dos limites da ótica.

Descobri através dos ruídos e dos chiados descontínuos um pedaço apagado da minha existência. Um conjunto musical, uma grande banda que cantava em instrumentos sobre o México, sobre minhas mulheres, sobre as partidas – e havia uma quantidade notável de músicas sobre as partidas -, sobre os casamentos – que assistia de frente à igreja, enquanto lamentava com meus copos de água que fingia ser vinho -, sobre as desistências – as constantes e as variáveis -, sobre os jogos e sobre as matemáticas do mundo que me vi criando nos últimos momentos antes das nuvens se abrirem logo adiante de minha realidade.

O som indefinido, enigmático, simples e ilhado num oceano matricial de dons e composições acabou por me levar flutuando até um punhado de areia segura num novo mundo, onde tudo o que foi aprendido até então não era mais que cópia chula e grossa.

Por dentro das fitas magnéticas consegui recuperar os pedaços apagados, rabiscados, arranhados das memórias. Percebi a grandiosidade dos minutos que se tornaram horas, dias, meses, anos, e perduraram como curvas no tecido das coisas que caem nas cabeças dos pensadores.

Ela, a percepção, sempre se vestia muito bem. Os vestidos, no entanto, por mais resistentes que fossem, sempre deslizavam, como estivessem derretendo em lascívia, ao chão do quarto quando ela se sentia bem acompanhada numa madrugada. Lá estava eu, perto do final do começo, com meus olhos mais abertos e meus pulsos mais frenéticos dentro dos dedos.

Das árvores ressecadas, dos plásticos antigos, dos móveis desordenados num cômodo gigantesco e sem luz alguma, o cheiro do perfume das décadas emergiu e me levou de volta ao cemitério, num lugar afastado, completamente alheio às cadeias, às igrejas, às escolas e às fazendas. Era o meio do meio do nada, mas lá estava eu, numa pedra, escrito, para que eu mesmo pudesse ler.

Li cada palavra em voz alta, embora não houvesse ninguém – embora até não houvesse espaço ou tempo bem definido depois dali – e caí quase desfalecido, enquanto sentia o mato entrando por minhas narinas; a terra começava a me consumir de novo, me convidando para a nova noite e para o novo dia. Ali estava o convite para o banquete dos que sempre sentiram fome.

As palavras se condensaram, e pude encontrar uma parte apagada de mim mesmo, enquanto afundava na terra que fazia crescer árvores ressecadas que se pareciam com artérias numa ilha afastada da realidade comum, rodeada por um oceano de percepções complexas e maiores que as palavras que posso descrever.

Falei comigo mesmo na sinceridade que só alguém que sabe que se esqueceu de uma parte da existência pode ter. Vi-me indo embora do cemitério, sentindo saudades das palavras todas que pude dizer a mim mesmo cravado numa pedra.

A ilha entrou por dentro da chuva, e derreteu em meio à vastidão das criaturas marinhas. A água voltou a molhar, o céu voltou a se fechar.

Às três da manhã voltei para dentro de mim mesmo, longe do continente secreto.

Mnemônica da Loira Erótica do Banheiro Matricial da Cleópatra

A imaginação é uma caótica sopa de freqüências, e a cada dia fica com fome em busca de uma suculenta ressonância.

Dependendo do dia, pode ressoar com um pedaço épico de lasanha, cheiro de queijo; pode ressoar com o barulho de água salgada batendo com suas conchas cadavéricas numa pedra cheia de baratas d’água; pode ressoar com um monte significativo de sangue escorrendo entre os dentes; pode ressoar inclusive com uma sarjeta suja, perto de restos mortais de concreto.

Aqui jaz.

Quanto tempo demora, perguntei-me, até que o casco de um navio comece a entrar no mar, enquanto este vai embora com nossos vinhos e nossas azeitonas? Ele simplesmente vai e se funde à esfera de probabilidades que une o quantum à quintessência?

E se o tempo fosse uma estrada (como um mar) e, tal qual embarcação, carregássemos nossos vinhos em fótons e nossas azeitonas em relatividades gerais até os confins da auto-estrada das minhocas espaciais? O barco some, entrando na curvatura azul marítima. Pudera, nossos cálices justamente também entrariam em algum tipo de curvatura longilínea do tempo, e não teríamos sequer cognição para percebê-los indo ao passado num lugar que seria de nosso futuro alcançar.

A física tem seu Einstein e suas relatividades. A matemática tem seu Gödel e sua incompletude e seus mentirosos. Não preciso da coesão clássica literária, meus textos são a relatividade e a incompletude a quem quiser olhar, enxergar, ver, e, possivelmente, ler.

Além dos vales (que só tive trabalho para subir, uma vez que, segundo o que postulei como eixo de coordenadas, a descida era para baixo), entrei num velho casebre, cheio de gavetas metálicas e armários de aço. Havia um cheiro festivo abandonado, de fato, como se lá tivesse ocorrido uma grande festa num momento passado, bem passado.

A priori, era só eu – vi um vulto. Aproximei-me por trás dos armários e descobri a dona da sombra, que sombra nem era, já que tinha cores. Cabelos lisos, longos e loiros – não se parecia com uma sueca, não era robusta – toalha vermelha ao redor do corpo.

É verdade também que não se parecia a toalha com uma de banho. O tecido era liso e áspero ao mesmo tempo. Era como seda, mas a textura era mais agradável e menos delicada.

Contou-me, brevemente, o que era aquilo. Mostrou-me imagens de torturadores antigos, de olheiras extraordinariamente virtuosas, e olhos tão vidrados quanto o cristal cego da ampulheta. Ela, ou elas, nunca se sabe, quebraram as regras e transcenderam os pecados, assim como alguns números transcendem a álgebra. Passaram dentro de nove infernos obscuros e gélidos para chegar ao casebre da antiga festa.

Não sei se ela havia conseguido se condensar numa matéria sólida, ou se eu havia me desprendido de meus preciosos hidrogênios. Não sei, de fato, mas podia tocá-la, e podia senti-la. E a toalha revelava meias-calças que despertariam os mais lascivos fetiches da Polônia.

Admito que não sou propriamente um fetichista quanto a isso, mas a sensação de roçar com aquelas coxas era agradável.

Ela viajara de tão longe para ser satisfeita por mim, e no momento que eu não podia me confundir, veio a confusão e me cuspiu aos olhos. Apesar das minhas funções transcendentais implorarem por refresco naquele calor de quatro mil Kelvin, eu tinha escrúpulos.

Eu tinha escrúpulos. Eu tinha escrúpulos…

Foi ali que percebi o que se passava. A vida era uma puta, e não era baixo o preço. Ela, tal meretriz experiente, aparecia às redondezas dos bairros mais pudorados usando-se de cinta-liga escura, com poucas roupas a cobrir suas “vergonhas” (que, em particular, não eram nem de longe vergonhosas – devo admitir que até eu já fiquei encantado por aquelas coxas). Olhava a todos os homens das calçadas – desde bêbados até crianças inconseqüentes – e os chamava. Mas ela não queria afeição, queria só o dinheiro e o prazer momentâneo, e queria se jogar à mercê do último julgamento, caso viesse ele a acontecer um dia.

Sentisse necessidade, haveria de oferecer seu corpo a todos os porteiros do céu e do inferno.

Ali, no entanto, não havia céu nem inferno. Nem o julgamento havia chegado. Eram só várias irmãs juntas no mesmo espectro, olhando para mim, implorando por meu toque. E sabiam implorar… A roupa era claramente impermeável, e mesmo assim, por dentro, dizia a mim o quanto estava úmida…

Respirei e tomei uma dose d’água imaginária. Da sala ao lado emanava, em tom discreto, certa música e certo vozerio. Fui analisar o que era e encontrei Cleópatra (ela mesma) sendo abanada por duas escravas, que seguravam aquelas folhas gigantescas que jamais encontrei numa árvore, nem nos lugares mais inóspitos que visitei durante a vida acordada. Fiz minha reverência e a perguntei das irmãs transcendentais loiras, e ela me olhou com desprezo. Fora um sim? Um não? Um talvez?

Seja o mundo que for, mulheres sempre são mulheres. Inclusive, descobri, a Cleópatra era também uma mulher, por incrível que pudesse parecer. Tivesse eu menos apego com minha carcaça anti-hidrogenada, a chamaria para ver a loira mais de perto – muito mais de perto, minuciosamente.

Outra vez percebi meus escrúpulos, e voltei à primeira sala. Antes dela, no entanto, havia um corredor e uma quadra (de onde surgira aquela rua?!), e um grupo de fugitivos.

Também por mais estranho que seja, os fugitivos estavam todos sob meu comando, e precisavam achar o aparato eletrônico de comunicação com aqueles que moram dentro das grades. Estava ali por perto do monumento central daquela praça. O monumento era branco, provavelmente feito com algum tipo de mármore. Possuía túneis, ângulos – lembrava uma biblioteca desativada, ou fechada, já que era madrugada – e o aparelho estava ali, em algum lugar. Era amarelo, compacto e funcional. Ou deveria ser, já que é tão esquisita essa forma com a qual eu lembro perfeitamente de coisas que jamais vi ou ouvi falar, em detalhes tão minuciosos.

Durante a operação de titulação, que deve ser feita a quente, deve ser observado que, ao serem adicionadas as primeiras gotas de solução de KMnO4 a solução perde a cor muito lentamente Entretanto, logo depois, o descoramento passa a ocorrer muito mais rapidamente que é devido à ação catalítica dos íons Mn(2+) formados. Como o catalisador resultou da sua própria reação, trata-se de uma reação autocatalisada.

Por fim, depois de várias horas (que se passaram em alguns segundos), um deles achou o aparelho e o levantou aos ares, para que pudéssemos notá-lo. Houve uma revoada de comemoração, e gritos gloriosos foram ecoados por entre os ângulos daquele monumento.

Havia outro problema, porém. Era a praça um quadrado, e eu não sabia para onde ir. Queria chegar ao casebre, mas todos aqueles lugares pareciam ser casebres. Logicamente, a idéia de entrar por engano numa casa de família e bulinar uma mãe em frente aos filhos e ao marido me era absurda. Um tanto grotesca, devo salientar.

Eu tenho escrúpulos – se algo me aproxima dos pitagóricos, além do pentagrama marcado nas mãos, é o fato de eu não gostar de praticar sexo em público (muito menos urinar em público). Algumas coisas são melhores quanto menos gente for envolvida, seja de vista, seja de conhecimento, seja de análise combinatória.

Cheguei depois de horas no casebre correto, e meus batimentos cardíacos (embora eu não possuísse coração) eram acelerados e ansiosos. Eu voltara para satisfazê-la, mas não encontrei ninguém além de mim.

Havia somente um bilhete, assinado por mim mesmo, que fora escrito minutos depois daquele momento, mas que já estava lá quando cheguei.

Milk Shake – Spear e^sin(x) (As Bitter As Hell)

I got no answer
To a question I once made.
I’ve got a promise that day,
a loop just like that old way.

08010011 – Time had come in a bunch of cycles,
anguish was like the tear drop inside the rain.
Far away I’d tried to go,
Must I leave without a trace?

This thus won’t end, at last,
But I have to go
While the Sun goes rayleighin’ down the hill.

Inside me there are no Physics,
There is no salvation to hold on to;
I got a vintage-like photography I don’t like to keep,

Got angry I shall spill
Among
The burden shallows.

There she goes
And talks to the Elder.
It is not the first time I lay here, alone.

Far, I must have learnt how to be the wolf;

Which words to say?
Which paths to take?
Which gods to create?

After all, that was my fate,
That was my faithful hate.
Loving near, living far…

Am I the blind fool, says the Wizard.

Não existe maior licença poética que aquela concedida ao se escrever errado de propósito.

 

O Líquido Etéreo das Probabilidades

Era o auge dos tijolos, diziam os anúncios. A cidade não cheirava mais café nem andava a carroça; as chaminés, pouco a pouco, tomavam conta dos corredores, e as casas pareciam caminhar até um lugar cada vez mais estreito e apertado, onde uns viam roupas dos outros.

A individualidade não mais existia, e assim parecia divertir-se nosso povo. As paredes eram avermelhadas e cinzentas… Era tanto monóxido que mal podíamos respirar. Mas era bom para o progresso, diziam os cartazes e os senhores.

Uma de nossas alternativas de diversão era aquela festa. Eu não podia ir, e isso se deve a uma longa história. Imagine-se sentado numa cama, enquanto observa, do outro lado do quarto, uma mulher a se vestir e a se olhar contra o espelho. Ela não sabe, na verdade, que você está em sua cama – não é uma história sobrenatural, nem nada parecido. É algo bem mais mundano e mais simples… Eu não sou tão pálido a ponto de ser confundido com um fantasma, afinal.

Mas ela se arrumava, e eu contemplava. Era um vestido claro, não muito rebuscado, – nossas terras eram calorosas em demasia – e havia um chapéu, ou uma boina, não sei exatamente o nome daquilo. Ao contrário do vestido, essa veste era de fato rebuscada e beirava o barroco. Por algum motivo, prendia-se bem àquela cabeça e àqueles cabelos longos e presos por dentro da boina. A maquiagem era, de certa forma, pesada, mas não tanto.

Havia certo odor de chuva ácida ao ambiente, mas ela usava um perfume único. Não sei definir o cheiro, mas era agradável e notavelmente marcante.

Cerca de sete da noite, dizia o relógio atrasado. A porta de madeira se abria e ela saía de casa. Acompanhei-a, em silêncio, como fosse um psicopata que observava cada detalhe daquelas veias expostas e lisas e brancas. Minhas roupas são irrelevantes – eram até antiquadas.

A festa em questão ocorria de ano em ano, e todo aquele bairro carbônico se vestia e se disfarçava. Esse ano, porém, ela não iria sozinha. Havia um homem de boa família que ela conhecera, era parente de militares. Homem forte, trabalhador e com muita escolaridade, e as pessoas todas o viam com bons olhos pela sua simpatia. Eu, particularmente, nunca gostei dele. Mas sou apenas um psicopata seguidor, então tentarei não dar detalhes tendenciosos.

Encontraram-se num ponto desativado por onde, antigamente, passava um trem. A cena toda é úmida de ácido, escurecida, borrada. Deram-se um beijo de encontro, entrelaçaram as mãos e caminharam em direção as luzes.

O rosto dela trazia um semblante comum, satisfeito. O dele trazia sobrancelhas cerradas, e um riso estranho. De qualquer forma, também parecia satisfeito com seu feitio. Era um conquistador nato, de qualquer forma, e assim comentavam as madames do bairro, cheias de orgulho.

À festa, todos bebiam cachaça. Era a bebida mais fácil de encontrar, e agradava as multidões. Litros e litros de aguardente da pior qualidade, com um leve gosto de fumaça industrial. Bebiam e brindavam à revolução, a utopia se aproximava. Claro que essa utopia teria suas desventuras ao caminho, mas era tudo para um motivo maior, uma razão maior. As lutas de classes ficavam de lado nessas confraternizações; todos tinham preocupações, elas não deveriam entrar lá.

Era um lugar aberto, tudo bem. Um pátio industrial que já era obsoleto, e se enfeitava todo. Luzes, máquinas experimentais, e um plano de fundo com gigantes funcionando o dia todo. Havia pessoas lá? Era tão orgânico a ponto de não precisar de gente?

Não importa. A festa continuava. Não lembro que tipo de música ecoava; talvez fosse músicas novas de uma nova madame da época. Não sei seu nome correto, mas era tal que usava frutas por cima do chapéu e dançava efusivamente pelas escadas… Algo muito original, devo admitir.

O que acontece é que ela, a que eu seguia em silêncio, também dançava nessa época. Não efusivamente como a tal madame, mas sinceramente. Suas curvas, apesar de bem escondidas, me encantavam. Ela desfilava entre os normais e despertava admiração por parte de todos os homens e mulheres de bem.

Do outro lado da festa, outro cavalheiro caminhava sozinho. Usava-se de um chapéu preto, roupas pretas, cabelo relativamente longo e preso. Não estava interessado em nada, mas também ficou fascinado pela nossa senhorita. Postou-se a observar, como faziam todos, no que ela o viu, e seu rosto a agradou.

Consegui perceber claramente quando ela levantou a sobrancelha esquerda, com um olhar enigmático, em direção ao rapaz. Foi que, nesse momento, o homem que acompanhava a moça – aquele forte e trabalhador – também viu claramente. E decidiu, portanto, que era hora de partir.

Chamou-a, e ela concordou que deviam ir até um lugar mais reservado. Foram entre dois tanques de óleo da indústria.

A cena ficava cada vez mais escura, e já não conseguia ver nada – estava eu enfiado entre duas saídas de gás, com dificuldades para respirar, e sem poder fazer qualquer barulho. A moça e o homem começavam a se espremer entre os tanques e se sujavam e se lambiam e se animalizavam e se devoravam. O homem possuía e ela cedia, pouco a pouco. Ninguém estava vendo, não havia problemas.

Num dado momento, quando ela já não tinha mais forças, o homem ainda estava em pé. Segurou-a pelo pescoço. Ela ria, pensando ser uma brincadeira, mas não era. Ele apertava cada vez mais, e ela começava a reclamar de dores.

Ele fingia não ouvir.

Depois de trinta e sete segundos, ele a jogou entre os tanques. Começou a chutá-la com sua botina de parente de militares. Depois, levantou-a segurando pelo vestido, e começou a dar socos e cotoveladas em seu rosto. Ela chorava e tentava gritar, mas não conseguia. Era pequena, perto dele. Não tinha como se defender, apesar de não ser fraca.

Ele rasgou uma parte do vestido, pegou-a o chapéu, começou a pisar naquilo tudo, cuspia, esbravejava.

Pediu desculpas e foi embora.

Ela continuava lá, no chão, destruída, melada com o líquido etéreo das probabilidades e com o óleo sujo dos tanques; cheirava a monóxido de revolução. Eu também continuava ali, entre os gases, apertado e preso dentro de minha moralidade.

Ela não podia me ver, mas eu a via. Queria estar com ela, não só por causa da aparência e das curvas.

Apesar de tudo, ela sabia o perigo que corria com tal bem aparentado homenzarrão. Ela sabia perfeitamente, mas gostava de se esquecer e ouvir a música e olhar para os rapazes que usavam chapéu preto. Aquele, aliás, ainda a veria no próximo mês, e os dois talvez se gostassem por um tempo.

Mas acontece que as pessoas não são donas de outras pessoas, e não conseguiam perceber isso aqueles ratos todos, morando dentro de gaiolas de tijolo, sendo alimentados com queijo estragado. As utopias sempre terão suas desventuras, sejam elas a falta de champanhe ou a falta de senso.

Eu não sou um psicopata.

 

Suíte #2 de Sergei Sergeyevich Prokofiev

I – Arcos da Lapa

Os arcos da Lapa levam a um bairro oculto, inimaginável. Além das estatuetas, há um prédio alto e bem escondido. Não sei quantos andares possui, mas fica por trás de um dos grandes morros… E morre.

Perto deste prédio, há um bar freqüentado por velhos sujos e mal-humorados. Soltam rojões, assistem a jogos de futebol, bebem uísque barato, cheiram mal, despertam náusea e assediam todas as moças novas que moram no prédio. Se há alguma definição visual de nojo, talvez esta seja uma cena a se considerar.

O bairro vive em guerra – nada tem a ver com os traficantes nem com os que fumam, tão pouco com os que cheiram. Existem outros – os que quebram as regras e incomodam os velhos. Estes, que quebram as regras, usam-se de equipamentos estranhos de múltiplas mini-rodas. Usam-se de roupas que não combinam; roupas sucateadas, mas não necessariamente sujas. Possuem alguns poderes fenomenais, que os velhos tanto invejam, como, por exemplo, subir escadas.

Mas até para isso os velhos tinham uma armadilha. As escadas dos prédios eram cortantes, não havia onde segurar. Os corrimãos quebravam as mãos pelas linhas da vida – era por demais arriscado. Ao topo do prédio, ou melhor, ao topo da antena de TV do prédio, havia ainda outra mensagem escondida – um caderno cheio de equações diferenciais impossíveis de serem resolvidas, e um pára-quedas.

Os seres flutuantes não eram só um, e não eram individuais pelas causas nobres. Não sabem, nem nunca souberam o porquê de estarem ali vendo tanta sujeira. Mas era pra ser, e seria até as últimas conseqüências.

Quando um deles precisava de ajuda, nenhum questionava – estavam ali pelo bem maior. Valia a pena perder, se fosse preciso, a própria vida, contanto que a causa fosse nobre.

Os velhos tomavam muito uísque sujo e importunavam as garotas do prédio. Os pirralhos se incomodavam cada dia mais.

Estes, por sua vez, também não viviam só de água, até porque quem vive só de água pode se afogar facilmente. Havia uma bebida mágica, preparada por um dos mais experientes deles. Um ser cabeludo e barbudo que passava todos os dias a se empanturrar com lasanha de queijo.

A bebida era servida num garrafão verde e farto – tratava-se de um vinho. Mas não um vinho comum, posto que não tivesse nada de especial. O vinho era de uma coloração azul escura, e muito, muito forte. Tinha gosto de uva, mas ainda guardava mais sabores escondidos, de frutas desconhecidas. Toda noite, antes de ir à guerra ideológica, os seres que conseguem subir escadas tomavam doses do vinho – não havia perigo de acabar, era artesanal feito pelo próprio cabeludo barbudo da lasanha.

Não eram tão fãs de suco de laranja, mas ouviam bastante Beethoven antes de partir às escadarias. Na noite que se segue, o céu se nublava por toda a tarde anterior. O natal chegava cada vez mais próximo, e até São Nicolau se envergonharia se visse tantos velhos sujos perto do prédio.

Os pirralhos não ligavam em ganhar ou não presentes de alguém vestido de vermelho que desce por chaminés – mas as garotas mereciam os presentes. Elas não eram vagabundas, nem ociosas. Todas ali, e este lugar é até difícil de imaginar, estudavam arduamente, trabalhavam arduamente, eram honestas e mereciam dormir em paz.

II – Pink Eastwood / Newton

Clint tomou nossa frente à sala de concentração. Fumava, mas não nos incomodava com tal mau hábito. Era o que mais sabia como irritar os velhos, tínhamos muito a aprender com ele. Eu era, afinal, um aprendiz – a diferença entre nós e os velhos, num dos aspectos, pode ser esta. Nós sabíamos quanto aprendiz éramos naquele bairro. Os velhos se julgavam tão velhos que sabiam de tudo… Apesar disso, tinham equações diferenciais impossíveis. A verdade era tão visível que não podia ser vista por quem de tudo já sabe.

Disse-me Clint sobre como deveriam estar meus equipamentos. Era importante que fosse fácil pegar desde o isqueiro até o flutuador agilmente. Também me disse como escrever em tintas invisíveis. Se havia alguém ali que sabia como lidar com idiotas, era ele.

Do outro lado da sala, com o giz e a lousa em mãos, o profeta das areias – desta vez, possuindo a forma de um matemático indiano. Mostrava-nos que matemática não era tão monstruosa, e se empenhava dia-a-dia a buscar a resposta para as equações. Elas foram tal afronta a todos nós, que se tornara questão de honra.

Também dizia o profeta sobre a efemeridade das coisas todas, enquanto apontava às derivadas e às variáveis escritas. Pontos, leis, movimento. O movimento cessa, se não for tão intenso. Nosso movimento era infinitamente mais intenso que todos os descritos pelas mecânicas do universo – e isso podia desequilibrar qualquer sistema alheio… E para isso servíamos, cientistas – para entender as leis antigas, e mostrar que até “verdades universais” (as quais o universo nem sabe que existe) devem ser quebradas. Tínhamos a página perdida do Primeiro Livro, e ela assim dizia.

Eu criei estas três leis. E também sei que elas deverão ser quebradas hora ou outra. Eu faço minhas regras, e ninguém jamais deverá saber. O Universo flui; isto não o descreve. Estas leis são interpretações de algo muito maior, inimaginavelmente maior. Traduções erradas.

Desde os gregos da praia, vemos tudo como somos. Somos grãos de areia – e existe muito mar a ser visto além do pôr do sol.

- PRINCIPIA, p. -1

Dos nossos mestres, também estava ali o músico argentino. Sua especialidade era tocar as grandes obras do tango. Cabelo curto, barba bem feita e violão preto com cordas grossas. Tinha estranhos costumes ao entoar as canções – sua mão direita abafava as cordas de uma forma única, o timbre das músicas era só dele.

Ouvir músicas depressivas o animava, sem ironias.

III – 22:00 – Troubles in Fantasia

O plano estava quase pronto; às dez da noite daquela noite começaríamos. Na verdade só eu faria algo, mas era como se todos agíssemos juntos; um exército de sete mil irmãos percorrendo as ruas da cidade da mentira, contra todas as pragas que nos foram, nos eram e nos seriam jogadas por todas as feiticeiras. A lua era amarelada como queijo, pelo que percebíamos numa janela de nuvens cinzas.

Nem as pragas de mil mundos de gafanhotos nos fariam temer marchar até o inferno dos uísques podres para salvar aquele natal das garotas.

Não posso dizer meu nome, mas, neste contexto, o codinome era ROMEO X – era uma sigla e um anagrama, ao mesmo tempo. Meu símbolo era um candelabro com três velas. A do meio em posição maior, as outras duas um pouco abaixo, e as três já um pouco derretidas. O candelabro era dourado do ouro mais polido, e as velas, apesar de já um pouco gastas, pareciam eternas. Ali eu partia pela porta dos pilares. O mago lançou suas bênçãos, a porta de madeira se fechou.

Vi-me à rua. Não era tão tarde assim, então as janelas do prédio faziam-se abertas e as luzes acesas. Por dentro de um dos andares, não me lembro exatamente qual, vi Aquela que me inspirava – Ela. Ela sabia que eu estava ali, e nos contemplávamos de tão longe. Sorríamos, e, neste segundo, pude perceber que Ela possuía um novo quadro à sala. Era alguma forma disforme azul, abstrata. Vários tons de azul, melhor dizendo. Havia mais alguém com Ela, outra garota. Elas se amavam, e isso era o que importava.

Pelo comunicador de ouvido portátil (agradeça a Tesla por isso) começava alguma música de Mozart. Júpiter era tão perto dali…

Entrei à prima porta, e fui a um lugar sujo. Parecia uma casa de boas pessoas, bons jovens, mas era incrivelmente suja. Provavelmente havia ratos por cima daquele teto. O banheiro era incrivelmente sucateado. Roupas jogadas por todos os cantos, e instalações elétricas precárias. Era numa dessas que se cunhava a primeira parte do plano, que Clint nomeou como NIKOLAI.

Coloquei, relutante, meus dedos por trás do espelho fluorescente. Puxei dois fios, sem ver, e tirei do meu bolso esquerdo um canivete e o interruptor novo. Juntei os fios, e não senti choque algum. Liguei-os ao interruptor, e ativei o sistema de controle remoto.

Quase me saindo da casa, encontrei um dos moradores. Disse-me ele sobre como as estradas da cidade haviam sido reformadas… Como a preocupação ambiental se implantava cada dia mais, como a fiscalização era cada dia mais pesada – por incrível que possa parecer, talvez ele soubesse que eu estaria ali, naquele momento, mexendo em todas as fiações por trás do espelho fluorescente.

Fui-me à segunda parte.

IV – 22:00 – Constelação de Uma Só Estrela

As escadarias. Eu não sabia manejar muito bem o flutuador – ele se colocava sob meus pés, mas não era como um skate. Era algo etéreo, volátil, como se fossem sapatos de energia. Na prática, não serviriam de tanta coisa, era mais um equipamento de proteção, caso de lá de cima eu caísse.

Comecei a escalada, e minhas mãos já sofriam com os corrimãos adulterados. Eram como canos de ônibus, mas com material cortante e fios de cobre desencapados e altamente voltaicos. Pouco a pouco consegui vencê-los, e cheguei à metade do caminho até o ponto objetivo. Mas ali era um ponto notável. Bati à janela escura. Olhei ao outro lado e contemplei a grande estátua de braços abertos e o mar tão azul e infinito e tantas vidas distantes, aguardando a janela se abrir.

Abriu-se então, e Ela sabia que era eu. Abriu a janela com o mesmo semblante sorridente, querendo muito dizer o quanto eu era maluco. Concordaria com Ela, sou mesmo um maluco, um louco, um raio de um cientista inconseqüente, um pirralho! Mas também apenas sorri de volta, e nos abraçamos como deu – um movimento brusco e era melhor que os sapatos flutuantes funcionassem mesmo.

Disse a Ela que, por tal entidade inspiradora, eu não me importava em realizar tantos esforços macabros. Não me importava com as facas nem com os órgãos de proteção ambiental. Em tese, era por todo o prédio e, talvez, todo o bairro. Para mim, porém, e Ela sabia, era porque eu também sentia algo supremo, e queria vê-La muitas mais vezes com aquele semblante surpreso e satisfeito.

Poderia passar a eternidade ali, mas precisava seguir com o que fui proposto a fazer. Despedimo-nos, e prometemos nos ver naquele natal.

Sei que soa piegas e repetitivo, mas preciso constar: Ela me desperta as sensações mais profundas que já experimentei em um grande intervalo de tempo.

Depois de três ou quatro horas, cheguei ao topo do prédio. Contemplei mais uma vez como os ídolos de pedra agora estavam abaixo de todos os nossos pés. Como a vida parecia parada lá na cidade dos arcos. Subir a antena de TV foi mais fácil, espero não ter incomodado o futebol de ninguém naquela quarta-feira.

Acima da antena, como esperado, encontrei o pergaminho ISAAC e o pára-quedas. Não usaria o segundo, tinha medo dessas coisas – provavelmente não era funcional, e sim sabotado. O pergaminho era o original – os velhos, como já foi dito, não tinham capacidade para adulterar tal obra.

O profeta ia adorar saber que existe solução para pelo menos uma destas.

A fome apertava, mas devia continuar. Entrei pela tubulação.

V – 22:00 – Falácia do Labirinto do Velho Psicopata em Construção Desritmada

Agora eu era o inseto daquele concreto, mas não era por muito tempo. Havia uma passagem, segundo o que o DOPPLER revelou. Um tipo de sistema secreto de elevadores que se escondiam por trás das camas e despertavam tanto o imaginário daquele local. Depois de um pouco de procura, achei um deles. A porta era de madeira escura, mas havia algum tipo de luz vermelha e fluida em volta da porta. Algum tipo de líquido brilhante que marcava o local. Entrei.

Não havia botões, eu não tinha escolha. Apenas deixei que o elevador me levasse aonde quer que fosse para levar. Depois de quinze minutos de viagem à velocidade da luz, ou quase isso, a porta novamente se abriu.

À minha frente, um grande galpão esverdeado, escuro. Parecia uma obra em construção – vigas, andaimes, ferro jogado ao chão, barulho, máquinas, ferramentas, parafusos, martelos, foices. Não parecia haver mais alguém, então caminhei tranquilamente, procurando o que quer que fosse para ser encontrado.

Minha visão periférica, num dado momento, capturou um movimento estranho. Talvez uma reação neural, mas parecia algo mais. Olhei rapidamente, e percebi alguém correndo por dentro de um dos corredores cinzas. Apossei-me da rampa que se estendia à minha frente, e persegui, pulando e me apossando.

Após curvas bruscas à direita e à esquerda, encontrei um esboço de auditório. Havia as poltronas, e pareciam confortáveis. Todas, com exceção de uma. À quinta fileira, uma poltrona parecia quebrada. Parecia solta. Fui averiguar, e descobri que ela não era uma poltrona verdadeira. Por algum motivo, havia uma porta embaixo – sentindo que era o certo a fazer, entrei.

Para minha surpresa, e devo admitir que fora mesmo uma surpresa, não era um lugar maligno nem sinistro. Era apenas um estúdio musical. Do outro lado do vidro, um ser que parecia amigável.

Era dono de cabelos loiros, muito longos e lisos, e de uma voz hipnotizante. Estava fugido de sua cidade e dos repórteres e dos fotógrafos e das redes sociais para, em paz, compor seu novo álbum. Não queria ser incomodado, mas, quando me apresentei, tornamo-nos amigos, como se já nos conhecêssemos há tempos e tempos. Tomamos algumas garrafas de cerveja verde, rimos, conversamos sobre músicas e sobre ritmos exóticos e sobre instrumentos experimentais. Contei sobre as novidades das ciências das ondas, e ele pareceu se interessar. Antes de partir, ainda recebi como souvenir um disco com duas ou três músicas exclusivas, ainda em fase de testes, sem mixagem.

Ele também me contou como era o caminho da saída, e não parecia tão complicado. Agradeci-o, pedi um autógrafo e fui. Ali não parecia haver outra alternativa, senão confiar.

VI – 22:00 – A Consciência de Uma Centopéia

Os elevadores e as rampas tinham um padrão – eram funcionadas com base no horário. Muito mau, posto que meu relógio estivesse desregulado devido à viagem de elevador. Mas com alguma conversão simples, dava pra entender.

As rampas e os elevadores eram sincronizados a cada nove minutos e quinze segundos de anos táquions. Aprendi que os inventores de tal sistema se basearam no funcionamento da consciência de uma centopéia. Então é como se eu fosse uma sinapse fora do lugar, dentro de uma centopéia. Comecei a escalar e a subir e a descer, tal qual montanha russa num parque de diversões freneticamente estranho e insólito.

Descia, e o caminho era descer até o elevador – outra vez, porta de madeira. Seria igual ao outro, não fosse por este ter, ao invés de líquido vermelho, líquido azul. Azul celeste e tão brilhante quanto Césio. Não era radioativo, para minha sorte. Escalar o prédio usando-me de roupa HAZMAT seria ainda mais difícil.

VII – O Veloz Corredor de Kokorodome-XV

Depois de mais minutos para sair da consciência da centopéia, a porta se abriu, e demorei um pouco a reconhecer onde estava. Era de novo a cidade, mas outro bairro. Um bairro de cultura oriental, com cheiro de arroz e carros contorcidos.

A saída, mais precisamente, era uma das bocas de bueiro da avenida principal. Depois de quase ser atropelado, saí do buraco.

Há muito tempo que eu não me aventurava por aquela região. A avenida, em si, havia sido inteiramente reformada. Parecia estar mais larga, e não era mais asfalto, e sim algum tipo de tijolo cinza claro e bem aderente. Os viadutos estavam quase brilhando de tão bem cuidados, e ainda havia sido construída uma via expressa bem expressa ao redor da avenida.

A via expressa era um lugar curvado, quase uma parede por onde corriam carros a velocidades assustadoras. Lembro-me de ver veículos com aerofólios gigantes, mas não feios, a cerca de quinhentos quilômetros por hora. Não era perigoso – havia ali uma barreira magnética amortecedora.

VIII – Par Numérico do Carro Branco – São Paulo

Tomando o rumo de casa, parou-se um carro comum à minha frente. Dentro dele, figuras conhecidas. Era um homem e uma mulher.

O homem, apesar de me despertar certo receio, não parecia maldoso. A mulher, por outro lado, era demasiadamente falante. E ofendia sem se preocupar, e dizia como era melhor que todos os outros, e dizia como merecia tudo e como era o umbigo do universo umbigo. Ofereceram-me carona, mas preferi ir a pé.

A mulher me rogou mais quinhentas pragas, no mínimo, mas não me importei. Ficaria chateado ao saber que ela se juntara aos velhos que bebem uísque estragado, mas a única que poderia salvá-la disso era ela mesma. Haveria de aprender a tempo.

Quanto ao homem, que não era seu marido, ele não tinha muito mais o que fazer, senão tratar tudo aquilo como piada. Sentia eu, por algum motivo, que ele sabia de algo além do que aparentava… Mas também não me arrisquei a perguntar – queria voltar ao bunker o quanto antes.

A rodoviária também estava reformada, e vi uma legião caminhando para lá. Uma legião de coxos e deformes. Seres esquisitos que quase se rastejavam a fim de ver os ônibus partindo daquela cidade. Nem os seres mais delimitados agüentavam as limitações impostas daquele local.

A cidade era bonita, mas estava longe de ser apreciável para se viver.

IX – Natal Prelúdio

Longas horas até o bairro por trás das montanhas, mas cheguei. Entrei pela porta velha e branca do bunker, e fui recebido com congratulações por parte de todos. A missão fora um sucesso, o pergaminho estava inteiro, não faltava sequer meio sinal de operação.

O natal das garotas estava salvo.

Ela e eu nos olharíamos, e poderíamos sonhar mais uma vez, mais uma noite.

Café Jornal Atômico Celular

Ocorreu enquanto lia sobre política. Não que a política atraia insetos.

Era, ou é, uma tarde calorenta – e por isso os insetos. Devo reforçar que os insetos nada têm a ver com políticas… Eles talvez sejam mais limpos empiricamente. Teoricamente são grotescos, admito.

Também, ao momento, saboreava meu café; quatro colheres de pó, duas de açúcar não muito cheias. Forte, não tão amargo, funcional. Esperava algum telefonema com notícias boas ou ruins ou uma guerra… Enquanto isso, lia o jornal galáctico.

Caro viajante, por favor note: por “jornal galáctico”, não me refiro à ficção científica. Refiro-me à trilha sonora.

A janela estava aberta, posto o calor que se fazia gradiente – pela fenestra, entrou ele, o famigerado inseto saltador. Saí da política e dos partidos, fui-me à incerteza metafísica.

Contemplei o inseto, forçosamente – queria, na verdade, sua extinção do meu ambiente calmo. Percebi um análogo interessante. O grilo era absurdamente rápido, e pulava. Cada pedaço de caos vazio entre móveis poderia ser uma morada nova por um infinitésimo de tempo. Talvez o grilo existisse em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas minha ferramenta de pão só consegue visualizá-lo ponto a ponto, nunca em sua obra completa.

Corri-me ao corredor, a fim de me apossar da lata vermelha. Infelizmente, veneno de nada adiantaria. Poderia jogar em todos os cantos, o grilo sempre acharia algum espaço novo.

Incômodo PT. I

O telefone toca, e não é a voz que eu gostaria de ouvir. Não é uma voz desagradável, isso seria injusto da parte de quem conta a história. Mas, por algum motivo, há um cutucão – a mediana é diferente da média.

Estatísticas são números e nomes – vida talvez seja algo além.

Parei ao grilo. Veneno; joguei um pouco dele, mas nada capturei. Assim funcionam muitos dos captadores de átomos, creio eu, embora não os conheça a fundo. O máximo que pude fazer, e assim é o máximo que podem fazer os tão respeitosos cientistas entre aspas – abrir as janelas e esperar que o grilo saia por si só, a fim de atingir uma estabilidade.

O grilo dentro do quarto simbolizou uma interrupção de minha leitura, de meu café e de minha música. Um barulho a mais, uma energia além do que estou acostumado ou do que esperaria numa tarde ensolarada. Coloquemos o inseto como perturbador de minha estabilidade. Pulando por todos os lados ao mesmo tempo, infinitamente rápido (para os padrões); talvez o grilo interagindo com o sistema novo tenha feito o telefone tocar, a campainha disparar e, quem sabe, tenha causado toda uma tempestade em algum lugar de algum continente longínquo – talvez até na Nova Zelândia.

Incômodo PT. II

Novíssimo Mundo – e é assim que me foi apresentado no livro de geografia. Os geógrafos caem do céu, resolvi pensar. Certa vez, ouvi dizer que não se trata de decorar capitais de países ou estados ou adjetivâncias assim.

Existem lugares tão despreparados para neologismos e idéias novas – existem lugares abertos onde as janelas estão todas fechadas.

Amar é diferente de possuir completamente. Pessoas não são objetos. Rochas o são.

Rochas ígneas podem até ser interessantes… Pode-se roubar uma delas e colocar num vaso.

Pode ser interpretado como crônica, embora heterodoxa. Em carta ao prefeito da metrópole, diria que a desigualdade social não tem necessariamente a ver com a taxa de pobreza.

Para que não fique demasiadamente grande, e meu café já acabou há um tempo, gostaria de pedir um pouco mais de ação ao prefeito. Os rios estão um pouco sujos, pude sentir um tanto do odor desagradável deles hoje, andando pela marginal principal. O tratamento de esgoto deve ser melhorado, assim como a educação.

Não posso dizer imparcialmente, mas, em minha humilde opinião, a educação é fraca, e tal fraqueza se reflete como num espelho de alumínio.

Neste momento o grilo sai do quarto, e a estabilidade volta. Assim também volta a se materializar o papel, e assim também voltarei a ler os artigos e as notícias…

Já que o café acabou, tomarei água.

Incômodo PT. III

Não se pode definir um sistema pelo comportamento isolado de indivíduos em exceção. É quase como definir a matemática por uma indeterminação – e a matemática não é tão indeterminada quanto parece.

De qualquer forma, todo sistema tem regras, e, em aspectos palpáveis, inúmeras exceções. É um pseudocírculo de raios – Busque o discernimento, ou então se acostume a dormir com os pés descobertos quando se cobre a cabeça.

202 – Constelações e Sadismo no Deserto

Comi cada pedaço e apreciei como se estivesse em meio ao deserto. Na verdade eu estava nele o tempo todo, mas cada vez abstraía-se numa fantasia diferente. Dessa vez, tinha a forma de uma equação diferencial.

O pão embolorado, que parecia mesmo um violão entoando belas melodias, como diziam os oráculos todos ao mesmo tempo há um ano, mais ou menos. O gosto artificial do sangue dos tomates, cada substância conservante, cada pedacinho de sódio alimentavam, sobretudo, meu cérebro.

Foi depois do café. Também tão artificial quanto o sangue (não o meu, o do tomate). Não era exatamente café, mas chegava bem perto; era solúvel, inclusive. Não precisava coar, não precisava ferver água sequer. Era só fingir que fosse café, assim seria, e assim me manteria acordado.

Número engraçado, de fato, deram ao meu quarto. Duzentos e dois. Lembra-me alguma coisa, mas pode ser apenas coincidência. O que, acredito, seja mais provável que qualquer conceito. A menos que alguém do prédio tenha uma cultura razoável e goste de pregar peças em vagabundos (não no sentido antitrabalhador da palavra, mas sim no sentido de vagal mesmo, o que andarilha. No caso, este que escreve).

Creio que essa mistura excêntrica de bolor e sódio e milho queimado era algo que fazia parte do conjunto atual de inspirações para tal relato. Antes as palavras simplesmente não estavam fluindo, uma vez que tudo estava muito abstrato. Comendo esses restos tóxicos, no entanto, tive algo concreto para relatar. Tão concreto quanto a parede que usei de prato.

Beira o absurdo, mas não chega a tanto, é apenas o gosto da civilização-deserto. Quarenta dias prometi perambular entre todos os pecados, aguentar todas as tentações, respirar com vigor cada pedaço de monóxido que quisesse visitar minhas fossas… Há algo me testando, e não quero reprovar e ter de fazer tudo outra vez.

Não sei de onde mente tão maligna poderia tirar inspiração para tal tipo de teste. Deserto, quarenta dias… A originalidade do sadismo por vezes me surpreende.

Outro fato é que a água no quarto está acabando. Numa análise mais profunda, é irônico, também. Justamente NESTE quarto a água está acabando. A hipótese de minha conduta ser regida por alguém mais culturalmente desenvolvido passa a ser até que aceitável. Só não consigo achar os buracos nas paredes. Ora, esse alguém ESTÁ me observando.

Ao menos esta não tem gosto de ferro. Tem gosto de água, o que a coloca muito perto do sangue, do bolor e do cafeóide. E está acabando, assim como o sangue, o bolor… Cafeóide ainda tem muito para os livros da madrugada. Hesitei por demais a abri-los, uma hora teria de ser removida a tampa. Assim fiz.

De qualquer forma, creio que andar por aqui faça algum bem ao que continuo denominando como alma. Estou distante de tudo o que me traz boas lembranças, estou sendo renegado dos direitos mais elementais, como comer e beber adequadamente, sinto-me observado em cada canto escondido do quarto, as montanhas de pedra amarela parecem-se mais com edifícios cinzas e escadarias de metal das cabeças de borracha e a Lapelle’s deve existir em algum lugar aqui por perto.

A qualquer momento pode acabar a bateria, e percebo que foi me negado também o direito a energia e campos elétricos, se é que existe algo assim. Tomemos por padrão MEU conjunto de leis.

Mas, se assim convencionarmos, estou renegado de todo o livro.

Não façamos assim, convencionemos outra coisa. Qualquer outro conjunto de leis que você queira. E negue-se a todos os seus direitos de sobrevivência e de metanoia. Agora estamos numa situação bem mais parecida.

Ela desfilava, embora não fosse um lugar para desfiles. Couro, coturno, correntes. Era a lorde suprema das rodas e do aço forjado. A música rangia pelos arredores e quase destruía as velhas paredes do Eco.

Era longe, afinal.

Talvez esteja alguém supervisionando inclusive meus sonhos, ou alucinações… Em tais condições, é difícil separar um do outro. Deito, olho para o tubo de gás aceso, e em instantes parece que o teto fica translúcido. Vejo o céu, as estrelas, nebulosas, constelações, vejo Escorpião tão afastada de Touro, o que me deixa um tanto triste por essa noite; mas, se sobrevivo a um deserto, não é uma noite que vai fazê-las ficarem distantes para sempre. Até porque acredito na dobra do espaço e nos túneis de minhoca.

Minhocas são seres repulsivos, mas se não existissem a agricultura perderia muito. Talvez muitos morressem de fome se não fossem as minhocas. Não odiemos. Não faz bem.

E, então, como num passe de mágica (leia-se: fome extrema), o céu começa a rodar cada vez mais rápido. Pode ser que isso tenha sido causado pelo fato de minha pessoa, sem ter muito mais o que fazer além de resistir ao testes, não faça nada. E olhe pro céu, que nem existe.

Rodando, acima de mim, tudo passando, contornando as eclípticas, magnetizando, tempestando, chovendo função gama… Tudo, e todos, brilhando, girando… Como uma música feita pelas minhocas do espaço.

Tenho saudades, não preciso mentir quanto a isso… O uso de termos pesados às vezes é necessário, e muitas vezes não podem ser substituídos por outros equivalentes.

Incoerência IX

Ele não queria, e eu ia ficar com muito peso na consciência, se é que posso dizer que tenho uma. De qualquer forma, sabíamos que tal evolução demandava sacrifícios. Peguei a caixa de ferramentas como se fosse um trabalho comum.

Dei-o uma dose de Veigsztran, ele dormiu rápido. Era quase seis da tarde, e estávamos ficando sem luz, precisava agir rápido. Primeiro a serra manual.

Ele não podia sentir nada, uma vez que estava em transe psicotrópico. Continuei o serviço, fingindo que sequer conhecia o sujeito. Na verdade eu não conhecia, de qualquer forma. Era mais um estranho. Era só um experimento.

Tive de separar um pouco as vísceras, para que pudesse acomodar confortavelmente (dadas as condições) uma bateria de Tecnécio, a mesma que pensei em desenvolver há uns meses, como escrevi neste mesmo caderno. Liguei os fios encapados por compostos de Selênio, usei o cauterizador (que adaptei milagrosamente do micro-ondas da fábrica), juntei estanho e estava pronta essa parte.

Os fios que saíram, liguei-os no osciloscópio, para checar se as ligações neurais estavam bem sucedidas. Mandei um impulso de “Olá”, e ele e o osciloscópio responderam positivamente. Bom.

Era um monstro.

- Relatório de Sadi Implattore sobre Automação de Células Nervosas e Aquisição de Reflexos Artificiais, página 184, relato Zero.

Agora, penso, não há mesmo muito o que se fazer por aqui. Talvez haja uma recompensa para tal teste, talvez não, não sei. Pensar muito nisso, por ventura, nem deve ser tão agradável assim. Estou aprendendo a lidar com o gosto dos conservantes… Assim, provavelmente posso criar vergonha na cara suficiente para apreciar com ainda mais zelo os gostos de verdade de tudo o que existe (pra mim).

É chato, eu sei que é chato, mas não custa nada lembrar que a realidade minha é a realidade minha. A sua é a sua. A dele é a dele. Estamos todos no Diagrama, ainda. E, pessoalmente, tudo seria muito sem graça se fôssemos uma única função linear.

Funções lineares matam pessoas, fisicamente falando. Penetram pela garganta e saem, rasgando todas as artérias e veias e tecidos e órgãos e traqueias (agora sequer posso acentuá-las como quero).

Ouço conversas do lado de fora da porta, e um ruído que fica cada vez mais agudo, como se algo estivesse sendo carregado até o limite antes da explosão. A porta deve ter ranhuras que não consigo perceber, alguma ilusão óptica sutil. Estou nu à casa toda, ao prédio todo, à cidade toda. Todas as trapaças são possíveis, todas as armadilhas são prováveis quando se está num deserto assim.

E nem tenho uma motocicleta.

Ela o fez. Assim como eu também o faria, se ela fosse. A situação não requer tipo algum de crítica, não foi nenhum tipo de jogo sujo. Admito isso da forma mais sincera possível.

O que me chateia é que eu não estava lá. Eu não pude participar. Como sempre aconteceu… E, como (soluço) temo que não pare de acontecer.

Temos esses momentos de fuga. De se esconder por baixo do travesseiro e lacrimejar. Houve uma festa, todos se divertiram. E eu não pude sair de casa. É uma sensação além da tristeza. É a sensação de ser preso e não poder estar onde se quer no momento em que se quer.

É a árdua sensação de se sentir humano clássico.

Eu só queria me sentir incluído nas músicas, nas bebidas… Mas a festa sempre acabava comigo no canto. Sempre.

Nota ao Senhor Heinsenberg: :( .

Ao menos, também devo concordar que estar aqui é bom para digressões. Embora seja difícil pensar linearmente, algumas coisas acabam por concretizar as conjecturas. Não que isso seja bom; aliás, está muito longe de ser bom, mas nos quarenta dias do deserto não há ninguém além de mim e da banca analisadora. Disfarçam-se por síndicos, vendedores, comerciantes, fabricantes, empresários e encanadores. Vejo inclusive belas moças com papéis de impostos nas mãos, cobrando tarifas e atendendo telefonemas. Quadratizadas, robotizadas. Não são de verdade. Quem planejou tudo isso me subestimou nesse ponto, e digo isso sem qualquer tipo de exaltação.

Talvez quem esteja subestimando seja eu.

A queda é maior quando se está mais ao alto, e disso até a sabedoria popular é ciente.

O céu não para de girar enquanto tudo isso penso. Posso fazer as paralaxes, contar estrelas, fazer desejos aos asteroides… É uma fonte dos desejos. É azul-escuro, tal qual água de fonte digna de desejos. Não tem gosto, mas mata a sede. Não tem peixes visíveis, mas a vida pulsa. Além disso, ainda há muito mais que não se pode enxergar. Coisas boas e ruins.

Espero obter melhor sorte e observar mais coisas boas olhando com atenção, ao invés de imitar velhos astrônomos e bradar que o Sol não é perfeito por possuir manchas.

Pra mim o Sol é perfeito. E as manchas nada interferem em minha visão. Tudo tem manchas. E nem por isso deixa de ser perfeito.

A natureza é a perfeição que tentamos equacionar, imitar, decodificar, e nunca conseguiremos.

O deserto beira a perfeição do sadismo. Mas podia ser pior.

Muito pior.

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