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Dura Lex
Eu sou um fantasma, e dono desse lugar. Cada quarto é meu circo, cada inseto é meu palhaço e cada ébrio é minha criança a ser entretida. Eu pinto a realidade de cores tão rubras que se parecem com meu nariz ensangüentado, visto, com horror, nos espelhos em que se devia achar tão somente a face trabalhadora dos homens e inocente das mulheres meninas.
Acorda o trabalhador, acorda a menina, e precisam arrumar o cabelo para mais um dia. Entram sob meia luz, para não acordar o resto da casa que merece seu descanso digno.
Não há brilho nos olhos, não há cabelos soltos, não há narizes respirando. Há uma face funérea, pálida, cuja única cor é o rubro que manchei com os espinhos da coroa de culpa que convenci cada um a ter e a usar todos os dias, até o final dos tempos.
Eu tomo por possessão todos os trabalhadores, todas as meninas, e faço deles minhas marionetes para divertir as manchas invisíveis das paredes, por onde mil olhos espreitam, curiosos, tudo aquilo que deve ser guardado dentro das fechaduras da alma, tudo aquilo que ninguém mais quer que outro saiba. Aquilo tudo que, de tão sincero, é assustador.
A porta range e eu começo a falar com todos eles, em silêncio, despertando o terror e a paranóia. Cada inseto ri, mas ninguém pode ver. Cada mancha se dilata e olhos espreitam, mas são tão cegos que ninguém acreditaria que pudessem enxergar.
Eu bebo as cores roxas que cheiram a carne podre e que tem textura de olhos sendo mastigados e todo o suco da visão é a base para minhas bebidas mais afrodisíacas. Chamaria a mim mesmo de espírito, mas os vales pra mim são sempre os mesmos. As montanhas são as mesmas, os objetivos são os mesmos. Os horários são os mesmos, e tudo é sempre a mesma coisa para sempre. Assim é o universo, e assim funcionam as leis. Dura Lex.
Eu causo dor. E a dor me deixa com cada vez mais fome. Nunca fico saciado. Sempre preciso de mais olhos a mastigar, mais passos a torcer, mais brilhos para comer. Minha tinta é sangue, mas não o sangue das narinas. Minha tinta é o sangue das colunas, é o sangue que fala e não é ouvido. É o sangue que grita e explode nas paredes e suja todos os azulejos tão brancos.
Não sei por que sou o que está aqui, mas cada quarto é meu circo. Havendo platéia, existirá um eu a entretê-los com o maior espetáculo da Terra: a culpa.
- Autore PLHÇM
Circo Terebintina – Luxúria e Fogo no Palco da Podridão
Tudo o que descreverei agora começou em meados da década de neon. Eu usava sapatos brilhantes, ela possuía muito cabelo e pouca roupa; queríamos ficar alucinados.
Não é algo que eu recomendaria a pessoas íntegras. O circo estava descansando, era alta madrugada, nenhum palhaço estava com sua maquiagem do lado de fora dos olhos.
Entramos pulando a cerca. Deixei meus sapatos na grama, para assegurar que não suspenderíamos qualquer partícula de barulho ao éter aéreo. Andamos, cambaleando por causa da gasolina, até uma das tendas abandonadas.
O circo era de um mexicano qualquer, perseguido pela polícia de seu país, sob acusa de maus tratos a infantes, já preso por vinte e sete anos, devido à prática de Necropedofilia. Apesar de tudo, acenava com um franco sorriso ao rosto para seus pagantes.
De qualquer forma, lá estávamos. Um lugar sujo, que cheirava a restos de fritura e a diabetes, cortinas imundas, areia, poeira – nossa vontade aumentava a cada instante.
Puxei de minha mochila a lata que tanto queríamos. Amarela, cilíndrica, caveiresca. Bebi o primeiro gole da terebintina, e nisso começamos a roçar línguas, apaixonadamente. Enquanto nossos olhos se faziam cerrados, derramávamos aquele líquido um no corpo do outro.
Ela já estava encharcada. Começamos, quase ao mesmo tempo, a sentir a ardência. O gosto de nossas línguas se desprendendo da boca, nossa pele enrugando, apodrecendo, derretendo…
Iríamos nos amar como dois criminosos até que nossos ossos pudessem se tocar.
Sempre havia mais terebintina, e um pouco de nossa carcaça já caía e se tornava um torrão em meio à areia do picadeiro (nota de edição: parecia-se com brigadeiros de carne).
A sensação de estar ardendo em brasas ácidas era o expoente máximo da lascividade. Nem água nem saliva aliviavam a dor, e isso nos era sublime.
Ela gemia, eu grunhia, lambíamos todo o suco podre que emanava de nossas carnes.
Surgiu, então, das cortinas, para nossa adorável surpresa, o dono do circo. Ouvindo ruídos há quarenta minutos, resolveu averiguar o que acontecia.
Rimos a ele. Nós éramos, modéstia a parte, de beleza extraordinária. Mesmo cegos de um olho e derretendo com a lepra auto-induzida por coito terebintínico, éramos formosos. Eu bem magro, ela com peitos salientes e curvas dignas.
Expliquei rapidamente ao dono do circo o que se passava, enquanto ela me chupava e me jogava mais terebintina. Ele, claro, entendeu, e se mostrou solícito.
Voltou treze minutos mais tarde com um garrafão vermelho. Trazia consigo querosene, o qual seria usado mais tarde para atear fogo nos animais que não fossem sê-lo útil para a caravana; decidiu, porém, no alto de sua bondade, apenas jogá-los à linha do trem.
Quanto ao querosene, abriu a garrafa, disse-nos para que continuássemos, e subiu ao trampolim de sete metros. Lá do alto começou a entornar o querosene em nossa cópula. Era como um banho de fogo – delirávamos um ao outro enquanto o fogo invisível escorria.
Às cinco da manhã acordaram os palhaços, e chegaram já de sobreaviso – cada um trazia um presente a mais: álcool, cachaça, ácidos, água suja, tudo se juntava a nossa orgia.
Quando se começaram a chegar as pessoas – crianças, velhos, senhoras… – os palhaços se rolavam ao chão, comendo areia e nossos torrões e lambuzando-se no líquido tóxico.
Lá do alto, o dono do circo nos jogou seu charuto, aceso.
Num momento rápido, nós e todos os palhaços estávamos em chamas, carbonizando. Abraçamo-nos, em confraternização, sentindo nossos corpos tornarem-se queijo frito.
Foi a noite das noites, e assim nasceu nosso primeiro filho, meses depois.
O circo nunca dorme.
Vá ao Circo, Palhaço!
O disco pulando, e a máquina do tempo girando. O circo instalou-se ao lado do laboratório, tudo parece meio caótico com essas musicas circenses maníacas. Uma ranhura na máquina do tempo (coitada), e tento observar por dentro, como as partículas interagem, como o ferro se oxida, como as barbas crescem, como a poeira aparece.
Meu reflexo nos espelhos de fora, o toca-discos também já parece um tanto danificado devido a tanto magnetismo estrangeiro. Coisas que vêm de fora, do lado de fora da casa. Bem onde andam os palhaços da madrugada. Observando, mimetizando, gargalhando e esbravejando, bêbados, vomitando pelas ruas. Uma terra de ninguém, isso é o que parece a cidade desde que o circo chegou.
Às vezes, emergem das paredes globos oculares gigantescos, cheios de veias saltadas e coágulos. Íris verdes; tenta me sugar e ao mesmo tempo fundir-se aos meus tecidos, ler meus livros. Era uma branca e áspera parede, agora é quase um organismo. Primeiro o globo ocular, depois os capilares, pulsando junto à casa, no mesmo compasso habitual. Olhos emergem de onde era observado.
Como a parede sabe que está sendo observada? Que números fantásticos realizam naquele circo, afinal?
Como um cão, num ápice de insanidade, um deles tenta apanhar o próprio cabelo, rasgá-lo, arrancá-lo do couro cabeludo, comer o próprio cabelo, seu lanche da madrugada. O palhaço, pintado, escondendo-se não se sabe de que, exatamente. Mas se esconde, talvez nem desfaça a própria maquiagem, a fim de acreditar ser o que finge ser todos os dias.
Um dia desses mesmo um cavalo escapou do circo. Relinchou alto, cavalgou por toda a extensão da rua. Parou em casas, destruiu jardins; senhoras saíram em prantos, ao ver as orquídeas todas pisoteadas. Um garoto tentou atingi-lo com um estilingue, sem sucesso. O velho da mercearia ameaçou matá-lo com sua carabina enferrujada. O coveiro, sempre sujo e barbado, atirou, num frenesi, suas poucas moedas, seus poucos réis. Uma delas acertou o olho do cavalo, mas não foi tão forte assim. O coveiro tinha sono, afinal, assim como todos nós.
Não consigo recordar ao certo quando foi a ultima vez que o circo veio, antes disso. Creio que já é marca de sessenta anos. Muito tempo, na verdade. Aberrações, pessoas sem membros rastejando pelas ruas, como dizia meu pai. Pareciam verdadeiros vermes. Rastejavam, lambiam o asfalto, riam da própria bizarrice. Palhaços com insetos nas mãos, divertindo todas as crianças, distribuindo balas, brinquedos, o circo sempre trouxe muita alegria aos capuchos.
Oh, que lona majestosa ergueu-se desde essa semana. Quantas cores no meio da noite iluminada por tão precários postes. O cheiro exaustivo dos quitutes lá servidos e do óleo velho queimado. Que outra época do ano, que outro acontecimento faz vermos seres dançando tango no meio-fio; quando mais podemos ver gente comendo gente no meio-fio; quando mais vemos uma sodomia tão grotesca envolvendo fios de cobre e sarjetas?!
As crianças parecem não se incomodar com tantas cenas grotescas, elas ainda ganham seus doces das mesmas mãos sujas daqueles animais. Querem porque querem entrar no circo, ver o que é lá dentro, se é mais suburbano que o subúrbio daqui de fora, se há um portal mágico, se o ilusionista cria coelhos na cartola, se serra as dançarinas e estas saem ilesas.
Há algum tempo não chove. A chuva deixaria o chão escorregadio, daria margem a novos números, a grama mais verde, apesar de não poder ser vista.
E aquilo ali, agora… Uma bicicleta! Bom, não é uma bicicleta. Tem uns quarenta acentos, mas lembra muito uma centopéia, passando tão graciosa pela rua. A velha ainda está chorando as orquídeas, as crianças, ao perceberem tal movimento, já pularam da cama e também estão se esfregando pelas calçadas e gritando em busca de doces duvidosos.
O coveiro deve ter desistido de resistir: agora dança num dos postes de iluminação, com seus dentes tortos num largo sorriso, sua pá brandindo enquanto este bate nas portas de metal das vendas fechadas.
O tilintar dos sinos, agora também percebo que há cães na rua. Algumas cadelas no cio, uivando, copulando, sangrando. Gatos miando pelos telhados, toca-discos enferrujado, circo e seu êxtase na sessão da madrugada (não faço questão alguma de saber por que raios existe uma sessão de madrugada, o máximo que vi foi uns senhores de cartola e umas senhoras com pouca roupa entrando no local).
Tempo, tempo, tempo. A máquina do tempo ainda gira arranhada, e apesar do barulho lá fora e aqui dentro, ainda tento olhar por dentro. Quanta besteira, eu mesmo construí minha máquina do tempo, o mínimo que se espera é que eu saiba como foi feita.
Mas eu estava bêbado.
- Manuscrito (mal)traduzido, achado num vasto campo de entulho, próximo à Estátua.
Caesar
III – Saloonbre
Buscando novas páginas
De um velho livro lido
Enterrado às encostas de qualquer montanha
Queimado por qualquer Sol desfalecido.
O circo ia e voltava, caravanas cheias de especiarias das mais distantes terras que a vista poderia imaginar existir em tão pequeno grandioso mundo. Teatrais dramas e comédias, sobretudo as comédias, e o teatro enchia de gente. Quinhentos, ou quase isso. Riam, ofegavam, gritavam, falavam e bebiam champanhe.
Foi então, depois, à carruagem até mais uma taverna. Garrafas, mais garrafas, e sequer tinha começado sua noite. Olha para a ampulheta e para o calendário universal, a noite estava em seu ninho, pronta para o vôo. Um último gole e levanta-se.
Cambaleia um pouco, mas nada de agravante. E segue a trilha sem carruagens. A Lua refletia o Sol, e o tijolo prateado brilhava ainda mais. Alguns ruídos vinham da taverna do final da cidade, e era para lá que seguia. O livro do mago, enquanto isso, dizia sobre os nomes.
Entra, e sobe a escadaria. Um dia, há muitas eras, poderia sentir-se o cheiro da fumaça e da neblina que ocorrem quando dimensões tão abstratas confundem-se. Dessa vez, porém, o céu estava um tanto mais limpo, e as únicas nuvens estavam a uma considerável altura. Então pega uma mesa.
Outros antigos jogadores, suas cartas em mãos, meretrizes vagueando ao longo do recinto. Saliências, lábios, maquiagens. As meretrizes se abraçavam, apertavam, esfregavam, suavam, mordiam e os bardos cantarolavam, nesse meio tempo, sobre as correlações e sobre a distância. A taverna, tomada de bêbados e belas ninfas, parecia gritar junto aos bardos. Cada compasso, cada corda.
Havia uma, entretanto, que confundia as palavras e os copos. Não se sabe exatamente o que acontecia dentro dos dendritos, ou o que as correntes tilintavam quando os ventos espalhavam pelo salão o perfume tão único. Era outra sensação, mas não outro cheiro. Este, incrivelmente, parecia permanecer em certas ocasiões em pessoas tão distintas.
Mas não era uma meretriz, e tudo o que Caesar podia fazer era olhar de longe. No máximo aconchegar-se um tanto de passos e só. Preferia, então, continuar seus jogos e suas bebidas. Estas se entregavam como sempre.
Junto aos companheiros de tantas caçadas, subiu à mesa. Levantou uma taça de vinho, e ofereceu-a a todos os que, do Grande Monte, bradavam seus contrabaixos junto aos bardos.
Três, uma carruagem cruzou a trilha, solitária. Não havia tantas preocupações que o tempo se encarregaria de trazer. Caesar viu-a sumir no horizonte, até onde acabavam os tijolos prateados, adentrando pela floresta. Desejou boa viagem e saiu do salão.
IV – Os Sete Mares
Um homem precisa viajar, disse certa vez o Grande Navegador. Como Roma fora, todas as estradas levavam ao rio. Não havia, entretanto, necessidade de navegá-lo arduamente, uma vez que pontes foram erguidas para as carruagens e carroças e pernas e batatas. Algumas curtas milhas, florestas ao redor de tijolos, chaminés ferreiras erguiam-se próximas aos alambiques, estes pareciam brotar feito árvores dos brotos do tempo.
Entra a chuva.
Fita a relva
Vaga as finas estruturas
O tempo, o espaço,
Como se ourives montassem esculturas.
Um posto de observação, um ponto de encontro entre trilhas, e ali então resolveu esperar pela próxima diretriz. Eis que a janela se abre, primeiro para um grito embriagado, e então para os olhos da francesa. Ela chama para dentro, diz que conhece para onde ir, como ir.
No meio tempo, Caesar refletiu sobre vértebras. Discos e ossos, medulas. O que era a postura correta? Por que era a postura correta? Ao seu lado, a francesa largava-se de qualquer jeito sobre o banco reclinado, não era posição de qualquer forma ergonômica, mas era de extremo agrado aos olhos de quem via. Não possuía fartos atributos, mas por algum motivo despertava os instintos mais primitivos… Quanto pleonasmo.
A viagem toda pareceu encurtar assim que ele começou a reparar na excentricidade elegante da francesa. Pudesse mudar o mapa, faria. Colocaria o destino há mais milhas que o necessário, pelo simples prazer de despi-la com os olhos.
Chega, então, ao local demarcado com um X. Mais criaturas andavam para lá e para cá preparando as bebidas e as caças. Havia de ter uma grande festa na mesma noite, e Caesar chegara, como sempre, antes. Mesas vazias, mas algumas bebidas já disponíveis, e nelas ele conhecia um pouco mais da cidade dos rios. Os cheiros, os gostos, as texturas dos rios que cortavam os eucaliptos.
Ao passo que começavam a chegar as caravanas de longe, mais e mais gente adentrava, mais e mais bebida era tomada. Num momento de distorção (provavelmente provocada por alguma das bebidas eucalípticas), Caesar pensou ver a francesa, a anfitriã e mais uma ou duas iniciando um festim. Viu não conseguir conter-se e se aproximou. De primeiro momento, ouviu os estalares e cochichos e leves gemidos, depois prestou atenção no aroma florestal das bebidas derramadas. Estendeu a mão, ainda confuso, e nesse instante tinha certeza absoluta que não tinha certeza de mais nada: se era realidade, o que quer que fosse a realidade, ou se era outro delírio causado por tantas humanidades juntas. Qualquer que fosse, não pararia. Continuaria até que fosse acordado, até que acordasse no chão e percebesse que nem saiu do lugar. Continuaria até que as árvores caíssem diante de seus olhos. E continuou de fato.
No outro dia, juntou seus pertences, usufruiu de alguns restos de bebidas e partiu logo cedo. Nem pôde olhar atentamente outra vez a francesa, o calendário circular continuava correndo pela parede.