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Plano Azimutal #2 – O Banheiro do Sexto Ano do Vigésimo Primeiro Século da História da Humanidade Depois do Messias
Andando por ruas que não existem, cheguei ao ginásio. E parecia lotado, afinal. Por algum motivo, eu não fazia parte da bagunça da platéia, mas sim de algum tipo de equipe ali dentro. Cheguei-me aos vestiários, e encontrei uma velha conhecida – estranhamente, vestindo roupas de ginástica um tanto coladas ao corpo. Estava exuberante. Eu podia ficar olhando por horas e horas, ou décadas.
E só.
A ginasta, em questão, era a velha conhecida – cabelos lisos, pretos, longos e soltos; roupa azul e preta; lábios bem contornados e rosados; olhos escuros, talvez castanhos, mas não sei ao certo; pele extremamente branca e lisa; alguma estranha atração por andar de patins em ocasiões formais onde pessoas costumam usar ternos – também é notável que ela gostasse de doces lisergicamente coloridos.
Eis que ela entrou à quadra da piscina, a qual não continha água, mas bolhas gigantes e coloridas de plástico; a orquestra começou a entoar a Abertura da década das memórias, e ela se lançou às bolhas.
Após quinze minutos, que era o tempo permitido de apresentação, meus olhos não conseguiam ficar sincronizados com meus pensamentos, nem com meu queixo. Tinha sido algo espetacular, que nunca pensei ser tão fenomenal. Não sei com quem exatamente ela estava competindo, mas havia chances de se ganhar algo.
Lembro de ter ouvido, antes da apresentação, que alguma colocação até vigésimo seria de bom tamanho. Mas as notas foram tão altas e tão inesperadamente altas, que demorou até o número Três do telão fazer algum sentido para nossas massas encefálicas.
Subitamente, então, ela se agarrou a mim, e eu não sabia o que fazer, senão dizê-la como eu sentia medo daquela ocasião. Não era bem medo que eu queria dizer, mas foi o que saiu. Existem emoções reais no mundo irreal, como pude finalmente contemplar de fato.
Ela se chegava cada vez mais próxima, suada, mas com um cheiro inexplicavelmente agradável. Roupas coladas, como se quisessem soltar do corpo, mesmo que, para isso, fosse necessária alguma ajuda externa.
Eu não podia pensar em nada daquilo. Na verdade podia, mas não pensava ser justo.
Foi que lembrei estar num mundo não real, então um sorriso maligno se implantou em minha face, e pedi-a para ir até o vestiário. Comigo.
A casa era a mesma, os costumes eram os mesmos. O chão de madeira era o mesmo, o sofá era o mesmo, e mesmas eram todas aquelas pessoas, com os mesmos assuntos há cinqüenta anos. Podia acontecer algo de diferente.
Sempre que se prepara massas para o almoço, algo estranho acontece. E isso me animava um pouco.
Uma súbita luz na janela do quarto de cima, e não era quem todos ali queriam que fosse. Mas era exatamente quem eu queria.
Posso comer macarrão outro dia – quando uma luz aparece na janela do quarto, não se deve pensar muito antes de pular.
- A Magazine Guild Illusion, #73, 1937 – p. 273e15
Agora era uma mera questão de fusos horários até que Ela chegasse, finalmente. Mas lá estávamos eu e a ginasta, e não era certo ficarmos parados. Ela parecia estar bêbada, de tanto que ria e gargalhava. Começou a tirar a pouca roupa, e meus olhos ficavam cada vez mais perdidos.
Ela me levou até um lugar escondido do vestiário, e lá, por algum motivo, havia um sofá. Vi-me caindo sobre ele, sem qualquer reação. A ginasta, que na verdade não era ginasta, se revelava totalmente curvilínea e rosada e lisa. E suada, obviamente.
Eu queria atacá-la, mas ainda não era justo. Era uma tortura inacabável até que se acabou – vi entrando na sala secreta a que fui buscar no meio do almoço.
Piscamos um ao outro, e saciamos nossa fome e nossa sede por longas curtas horas.
Subtrassoma III – Sobre as Espiras de Lorentz
Eles começaram a descer as escadas, com os pulsos cortados, marcando cada degrau por onde passavam. Havia gente batendo na porta, gente gritando, gente tentando fugir, gente por todas as entranhas da rua, gente pulando nos esgotos… Os homens estavam com fuzis apontados, e eu era um dos alvos.
“Uma espira condutora ideal, com 1,5m por 5m, é deslocada com velocidade constante de tal forma que um de seus lados atravessa uma região onde existe um campo magnético B, uniforme, criado por um grande eletroímã. Esse lado da espira leva 05s para atravessar a região do campo. Na espira está inserida uma resistência R com as características descritas. Em conseqüência do movimento da espira, durante esse intervalo de tempo, observa-se uma variação de temperatura em R, de 40 graus Celsius. Essa medida de temperatura pode, então, ser utilizada como uma forma indireta para estimar o valor do campo magnético B.”
As ubtrrfanecÊrnacir eletromagnéticas dissolviam o tempo, juntavam linhas e espaços como um grande dioptro, confuso e difuso, refracionando todo o convívio da espécie num ambiente hostil, padronizado e nojento. Vozes nojentas, cheiros nojentos, seres nojentos, asquerosos no pior sentido possível da palavra.
Eu queria fugir, mas não para muito longe dali. Pouco tempo andando e eu teria, então, a companhia que desejava; mais além, entretanto, meus pensamentos queimavam o que a sabedoria popular diz pulsar junto com as batidas de um Joule.
Como um relógio desajustado interfere em toda a vida operária de uma indústria, meus pensamentos se tornavam fumaça, via inimigos onde não existiam, os pesadelos ficavam mais e mais freqüentes, e em todos eles eu via a mesma pessoa, fazendo as mesmas coisas… Das mesmas formas…
Na realidade, quando acordava, o travesseiro continha um estranho líquido – parecia algum tipo de sangue transparente, jorrado de um trem em movimentação contínua e randômica por túneis de saliva e torres de energia elétrica.
Eu ainda queria comer e rasgar todos os estudos, queimar todos os livros, ser igual a todo mundo, e então, talvez, eu pudesse ter alguma paz menos transitória nisso que insistimos em chamar de termos em latim.
A diferença é que eu sou eu. E isso é uma decisão difícil, por caminhos difíceis. O mundo é árido, afinal.
Enquanto meus olhos palpitavam, eu ficava cada dia mais cego e perturbado. A falta de carne começava a me mostrar como proteínas poderiam fazer falta na alimentação humana. Eu me alimento? O que é o alimento? Por que ainda sinto fome, tendo os melhores alimentos, além das carnes? Por que demônios eu ainda estou respirando? O que demônios faço aqui? Eu não quero buscar as grandes viagens, de vez em quando só queria olhar nos olhos dela e saber que ela me ama do mesmo modo que eu a amo. É incoerente, um lapso de ser. Não faz sentido andar pelas ruas sem ter quem segurar as mãos. Não faz sentido respirar e não ter outra pessoa para compartilhar o ar, não faz sentido ter um cérebro e ninguém reparar que há um coração que resiste à falta de ritmo que é imposta.
SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. 4, G348 E.E – 0007 – UNSIGNED THETA
Subtrassoma I – Documentos Encontrados no Setor-0007 ÉTER
Saudações, caros viajantes. Sem muitas delongas, postarei numa série infinita de posts (ocasionalmente interrompida para outras coisas, obviamente – não esperem por algo contínuo) algumas transcrições estranhas acerca de papéis e mais papéis espirais que encontrei num dos laboratórios de um dos setores de uma das instalações de uma das torres de uma das usinas.
Algumas estrofes podem parecer estranhas, inclusive são, mas foi o melhor que pude fazer nessas transcrições. É meio difícil trabalhar com coordenadas não ortodoxas na gramática, de fato.
Over The Café
A lack of words (worlds, maybe) as the darkest beans
Come alive
Along
Beneath
Among
Indeed.
Eu fugi do cemitério
Porque tava chovendo
E eu queria aprisioná-la
Na beira da estrada
No meio da pista,
Eu queria só pra mim.
Um escravo (escracho) cafeinado,
Uma overdose de guard-rails,
Circuitos,
Círculos,
Blast beats
E compassos desalojados
Procurando a clave.
“Quem estará observando
O velho
Cantarolando
No ouvido da moça
A sétima sinfonia?”SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R2, H308 X.X – 0007 – UNSIGNED ETA
Melancholia II – PTENG
Fase I – O Portão
Enquanto andava pelas correções gramaticais, as quais insistiam em acusar minhas falhas idiomáticas, até que agora cessaram, era como a janela de Heathcliff. Estava frio lá fora, mas eu queria entrar. Mesmo sem saber ao certo o que tinha dentro da casa, onde estava a porta, eu queria entrar e sentir o calor da lareira e suas brasas e suas faíscas contra o inverno rigoroso.
As paredes da casa eram ásperas, e ainda havia o medo de ficar preso, sem saída, próximo ao fogo da lareira, e vê-lo incendiar toda a montanha.
As ondas, as contas. A cada logaritmo, a cabeça parecia acumular um pouco mais de explosões, um pouco mais de elétrons rebelados, e a noite parecia mais fria que o normal, os ventos pareciam mais fortes que realmente são, as palavras pareciam mais perigosas e dolorosas mesmo sem serem ditas. As ruas vazias angustiavam os pobres entardeceres onde sentia os ecos dos gritos. A prática levava à melhora. A prática levava ao sem nexo.
Try to figure out how waves do the dance
Patterns emerging as moons tick vein clocks,
Outside the window, staring eyes, door knocks
Into nights as my spirit flows in trance.A prophet opened this mind, spinning glance,
Uncanny integers and stormy locks,
Sand after sand, machine, block after block.
Future past Constellations beyond sense.Lack of sensations, waltz of obscurity,
Trying, in vain, see how to let it out.
Lines in the sky of all insanities.Growing inside a seed of sinusoid doubt.
A crack has opened gamma, human kiss,
I try to break the spell and leave the cloud.
Fase II – Fermentação
Uma falha, talvez, na evolução: o que sentimos. Por que sentimos, por quem sentimos. A mais bizarra das invenções da grande obra, do grande plano. Em alguns momentos, os instrumentos deviam ser cessados, e as únicas batidas a serem ouvidas deveriam ser a dos dois corações em ressonância. O sangue correndo no mesmo fluxo, e tudo sem precisar de cálculos, sem precisar de valores.
O ar era suficiente, os pontos luminosos eram suficientes. Creio, até, que nem pensamentos fossem necessários nesses momentos. Algum meio de desligar o cérebro, esquecer do que é a realidade e viver o que verdadeiramente é a realidade.
Que é, no caso, um tanto diferente do que as lascas insistem em dizer ser a realidade.
Complex strings raging silent frequencies,
As thoughts become words, phrases as stumbling swords.
I walk upstairs, world goes without regards.
Despite the cold, Sun still in the axis.When the nights seem lonely as I would pray,
In seventh hell I could miss the warmth,
Couldn’t see the stars if I won’t look North.
Ratios won’t tell where to look for a Sun ray.Break of dawn beside the rivers and trees,
No why to eat that outside worms beneath.
Matter of view: see it as really is.At wall, sometimes have to release belief,
Sail against the coldness of seven seas,
Breathe no sorrows on the top of the cliff.
Fase III – Iluminatti
Outro corte de cena, truque de edição. A árvore ficava cada vez maior e mais ampla, as folhas calmas fazendo seus ruídos devido a todo o vento. A obra de arte toda à minha frente, a maior de todas as obras. O compasso, o esquadro, os moldes, todos eram senão instrumentos mudos, como o piano talvez fosse um outro tipo de instrumento. As contas e as equações apareciam no papel não como uma tradução do que é fechado finito real, não do que é o caminho, não dos padrões. Fazia parte da maior das obras já realizadas pelos micróbios, pelos primatas que acharam a pedra, acharam o fogo e acharam a Lua, que acharam a vida também.
Uma obra indefinida, sem autor preciso, sem tempo de ter começado, sem tempo para terminar, à mercê da vontade apenas daqueles que quiserem escrever um próximo capítulo. Esquecer que o mundo é real e esquecer que esqueceu que o mundo é real. Esquecer dos motivos, e entregar-se apenas ao que está acontecendo.
Alienar-se é uma das sensações mais nobres que podemos sentir. Iludir-se faz com que pedaços pequenos de grandes sonhos materializem-se, e livra também um bom peso da matéria invisível que esmaga o crânio de vez em quando.
É sono, é pesar. E as contas e os expoentes não são o melhor remédio para a enxaqueca. Pensar nas dores não as alivia. Em alguns momentos a janela serve como cinemascope, e, sem preocupações com a verdade ou com os rumos a serem tomados, a vida passa para ser vivida, e não decifrada. Para ser tentada, e não trapaceada.
Não são padrões. Talvez exista algum, de fato. Mas o primeiro respirar, o vermelho que entra pelos olhos, e toda a gama de sensações estranhas que passam com o tempo e voltam depois, que seja o que une as diferentes épocas da humanidade, o que une quem escrevia em pedras e quem escreve em naves espaciais. A imaginação é mais poderosa que qualquer tipo de máquina.
E todas as tais tempestades hão de passar em pouquíssimo tempo, as paranóias passam a dar lugar a outras cadeias, e nada disso é exclusividade. É apenas como ocorre desde as épocas remotas, e é como ocorrerá por muitos e muitos anos enquanto houver um simples ser racional rastejando pelas pedras e pela terra.
Quebra-se o gelo da Era Glacial quando se esquece que está frio.
A glimpse of red started something, somehow.
My eyes, they were not blinded anymore,
Once living, I gave away Pain and Gore.
Once escaped, could turn against the claw.In a distort of lost melancholia
Found something I have lost long time ago,
Kind of feel wanted ever to re-know,
Stones kept melting frozen schizophrenia.Unlocked again is this door here to me,
No fear to look outside, nor roll the dices.
Sun strikes, for now I can barely see.Without looking glasses before we be,
Then discover how life has its own price.
Behold this time how we can melt the ice.
Epílogo: O Ar
E quando sentir-se arrebentando por dentro, sendo triturado por coisas que ao menos estão acontecendo, lembre-se das palavras, lembre-se das grandes obras. Tudo flui e tudo passa, a idéia de infinidade sequer passa pela mais ávida das imaginações. Nada é tão ruim quanto parece, e isso também é clichê. Mas com o tempo as dores passam, o sono passa, o peso passa.
Esse texto todo passa.
Como no décimo terceiro portão, quando a cobra morde a própria cauda o ciclo recomeça. Termina para uns, começa para outros. Outras histórias dão lugar a velhos personagens das novelas que não têm um capítulo final e simplesmente acabam.
É tudo mais simples. Respire o ar. Olhe para a frente. E nevermind.
O Geneticista
Viajantes! Esta manhã estive numa outra sala perdida, pelo que entendi era um tipo de laboratório de biologia. Corpos, ou o que restou deles… Certamente não havia muitas almas… Mas, entre os furos, alguns versos, alguns pedaços de relatórios, cientistas, teorias grotescas. Algo além do simples estudo da vida… Bom, talvez nem tanto.
Vejo o espelho, intocável, longe no horizonte. Em frente meu rosto, dentro dos meus olhos, inalcançável. O rio vermelho flui agradavelmente quente, enquanto lá fora parece chover o tempo todo. Meus pesares traduzem-se em letras gregas e equações, minhas memórias pecadoras de correlações.
Há um buraco na parede, e sou observado por tudo o que não quero ver. Enquanto alguns escrevem em paredes eu desperdiço árvores.
E isso não é bom.
O Geneticista
Mosto e leveduras, mas isso é apenas a diversão diária. Nos outros momentos, ponho-me a observar. Não o micromundo, como de costume, mas o macro. A manifestação que vemos daquilo que não vemos. Assim como nos cromossomos, percebo alelos, aqui ou ali, ora bem visível, ora escondido entre conceitos. Mas começo a crer nas lendas.
Pode ter a ver com a convivência, ou aquilo que chamam convivência. Alguns anos de fermentação não poderiam resultar numa destilação diferente desta. Não se trata de álcool, mas de sentimentos. Ou o que chamam sentimento.
Se é que existe sentimento.
Uma vez, entre meus documentos, li sobre o processo de fabricação da cachaça. A destilação resulta num composto dividido em cabeça, coração e cauda. Cabeça e cauda possuem componentes tóxicos, enquanto o coração é a parte nobre, a qual, teoricamente, deveria ser mandada para armazenamento ou envelhecimento. Há quem redestile restos, e mande-os para engarrafamento. Há quem misture serragem nas cachaças que não foram envelhecidas. Muitos meios de enganar, a maioria nem se pergunta o porquê da bebida queimar a garganta e quase não ter gosto, quase não ter função além de embriagar.
Os tonéis de inox também existem nos novos relatórios. Cápsulas protéicas envolvendo palavras que provavelmente não serão cochichadas. Fibras inúteis de fixação, que não conseguem atingir as células que desejam parasitar. Olham de longe, mais uma vez. Os vírus, quando não parasitam, vivem no limiar.
É muita gente… E muito espaço vazio. Gente que quer falar e não fala, gente que fala e não é ouvida, gente que precisa de gente e gente que é muita gente em uma só. E os pares de genes alelos flutuando pelas moléculas de gás carbônico. Fotossintetizando sem clorofila, processos sem qualquer padrão afinal, mas que parecem seguir as grandes configurações universais.
Sou doente, mas esses líquidos etílicos são meus elixires. Devo ter algum gene alelo também. E talvez eu não deva saber. Poderia ser fatal.
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E as ondas senóides atravessam os limites das páginas e anunciam as freqüências também em outros universos. Igualmente dantescos.


