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Roda Gigante – 1935 do Outro Lado

Alguns poucos ali parecem dormir em seus caminhos. Daqui a pouco o movimento haverá de começar, bem depois de o horizonte ganhar explosões que tocam o azulado do oceano. Estrelas, poucas nuvens, brisa marítima e som de pedras. A madrugada parece correr de encontro aos pesares, enquanto lentamente saio da hipnose auto-induzida a que me submeti ao contemplar a vida perto do mar e das rodas gigantes.

Não sei se há terra depois de tanta água, mas é provável que haja. Também é provável que o Sol não fique maior lá adiante. É provável que as cores sejam ilusões ópticas, e que os ângulos sejam o que são apenas porque devam ser o que exatamente são. Contento-me em olhar o infinito buscando um traço diferente a cada maré nova que bate numa pedra – talvez as marés sejam guiadas mesmo por vontades lunares gradientes. Tento encontrar relíquias na forma de espirais e conchas indestrutíveis habitadas por tão somente uma criatura que saiba muito mais do mundo que meu cérebro jamais haverá de se enganar acreditando.

Hora ou outra alguém perde um relógio em meio às areias e aos castelos desmanchados, e outro alguém acaba por encontrar e tomar como tesouro para si próprio. Faz certo tempo que não acho nada senão espirais quebradas, conchas frágeis e pedaços ordinários de metal decomposto.

O horizonte parece incomodamente horizontal, sem qualquer traço diferente que me faça pensar em mudar a concepção de universo… O parque se ilumina na hora exata, com as mesmas cores avermelhadas. Até os visitantes parecem sempre ser os mesmos, com as mesmas roupas e mesmos costumes. Vão aos mesmos brinquedos, comem a mesma comida tóxica e gastam o mesmo dinheiro sujo.

Nenhuma alma perdida pedindo por um guia – ou por uma piada, que seja. Nenhum risco, nenhum cometa, nenhum novo fascínio, nenhum novo brilho nos olhos acostumados a saber que cor haverá de aparecer em determinados horários. Nada de novo, e nada me resta senão contemplar.

Há quem diga sobre tudo mudar apenas quando a visão própria muda a respeito do que há do lado de fora da janela. Todos os dias tento me convencer de que uma lâmpada vermelha não é da mesma cor vermelha que fora ontem, mas, ao fundo da inocência, sei que é igual, e que quando mudar será trocada para continuar tão próxima do igual o quanto deveria ser.

As águas também não deveriam parecer as mesmas. Há um mundo todo de mistura e de tormentas. Talvez não muito longe desses céus limpos e calmos haja uma tempestade, e piratas lutando bravamente contra si mesmos e contra os deuses dos mares para conseguir alcançar qualquer nova ilha que guarde fortunas antigas… Mas não vejo barcos, mesmo insistindo em procurá-los aos horizontes, até que meus olhos ardam…

A curvatura da Terra me esconde de mim mesmo. Do outro lado, em algum lugar, em alguma outra noite, o mar também parece igual.

E em toda manhã o mesmo dia volta a acontecer.

Suíte #2 de Sergei Sergeyevich Prokofiev

I – Arcos da Lapa

Os arcos da Lapa levam a um bairro oculto, inimaginável. Além das estatuetas, há um prédio alto e bem escondido. Não sei quantos andares possui, mas fica por trás de um dos grandes morros… E morre.

Perto deste prédio, há um bar freqüentado por velhos sujos e mal-humorados. Soltam rojões, assistem a jogos de futebol, bebem uísque barato, cheiram mal, despertam náusea e assediam todas as moças novas que moram no prédio. Se há alguma definição visual de nojo, talvez esta seja uma cena a se considerar.

O bairro vive em guerra – nada tem a ver com os traficantes nem com os que fumam, tão pouco com os que cheiram. Existem outros – os que quebram as regras e incomodam os velhos. Estes, que quebram as regras, usam-se de equipamentos estranhos de múltiplas mini-rodas. Usam-se de roupas que não combinam; roupas sucateadas, mas não necessariamente sujas. Possuem alguns poderes fenomenais, que os velhos tanto invejam, como, por exemplo, subir escadas.

Mas até para isso os velhos tinham uma armadilha. As escadas dos prédios eram cortantes, não havia onde segurar. Os corrimãos quebravam as mãos pelas linhas da vida – era por demais arriscado. Ao topo do prédio, ou melhor, ao topo da antena de TV do prédio, havia ainda outra mensagem escondida – um caderno cheio de equações diferenciais impossíveis de serem resolvidas, e um pára-quedas.

Os seres flutuantes não eram só um, e não eram individuais pelas causas nobres. Não sabem, nem nunca souberam o porquê de estarem ali vendo tanta sujeira. Mas era pra ser, e seria até as últimas conseqüências.

Quando um deles precisava de ajuda, nenhum questionava – estavam ali pelo bem maior. Valia a pena perder, se fosse preciso, a própria vida, contanto que a causa fosse nobre.

Os velhos tomavam muito uísque sujo e importunavam as garotas do prédio. Os pirralhos se incomodavam cada dia mais.

Estes, por sua vez, também não viviam só de água, até porque quem vive só de água pode se afogar facilmente. Havia uma bebida mágica, preparada por um dos mais experientes deles. Um ser cabeludo e barbudo que passava todos os dias a se empanturrar com lasanha de queijo.

A bebida era servida num garrafão verde e farto – tratava-se de um vinho. Mas não um vinho comum, posto que não tivesse nada de especial. O vinho era de uma coloração azul escura, e muito, muito forte. Tinha gosto de uva, mas ainda guardava mais sabores escondidos, de frutas desconhecidas. Toda noite, antes de ir à guerra ideológica, os seres que conseguem subir escadas tomavam doses do vinho – não havia perigo de acabar, era artesanal feito pelo próprio cabeludo barbudo da lasanha.

Não eram tão fãs de suco de laranja, mas ouviam bastante Beethoven antes de partir às escadarias. Na noite que se segue, o céu se nublava por toda a tarde anterior. O natal chegava cada vez mais próximo, e até São Nicolau se envergonharia se visse tantos velhos sujos perto do prédio.

Os pirralhos não ligavam em ganhar ou não presentes de alguém vestido de vermelho que desce por chaminés – mas as garotas mereciam os presentes. Elas não eram vagabundas, nem ociosas. Todas ali, e este lugar é até difícil de imaginar, estudavam arduamente, trabalhavam arduamente, eram honestas e mereciam dormir em paz.

II – Pink Eastwood / Newton

Clint tomou nossa frente à sala de concentração. Fumava, mas não nos incomodava com tal mau hábito. Era o que mais sabia como irritar os velhos, tínhamos muito a aprender com ele. Eu era, afinal, um aprendiz – a diferença entre nós e os velhos, num dos aspectos, pode ser esta. Nós sabíamos quanto aprendiz éramos naquele bairro. Os velhos se julgavam tão velhos que sabiam de tudo… Apesar disso, tinham equações diferenciais impossíveis. A verdade era tão visível que não podia ser vista por quem de tudo já sabe.

Disse-me Clint sobre como deveriam estar meus equipamentos. Era importante que fosse fácil pegar desde o isqueiro até o flutuador agilmente. Também me disse como escrever em tintas invisíveis. Se havia alguém ali que sabia como lidar com idiotas, era ele.

Do outro lado da sala, com o giz e a lousa em mãos, o profeta das areias – desta vez, possuindo a forma de um matemático indiano. Mostrava-nos que matemática não era tão monstruosa, e se empenhava dia-a-dia a buscar a resposta para as equações. Elas foram tal afronta a todos nós, que se tornara questão de honra.

Também dizia o profeta sobre a efemeridade das coisas todas, enquanto apontava às derivadas e às variáveis escritas. Pontos, leis, movimento. O movimento cessa, se não for tão intenso. Nosso movimento era infinitamente mais intenso que todos os descritos pelas mecânicas do universo – e isso podia desequilibrar qualquer sistema alheio… E para isso servíamos, cientistas – para entender as leis antigas, e mostrar que até “verdades universais” (as quais o universo nem sabe que existe) devem ser quebradas. Tínhamos a página perdida do Primeiro Livro, e ela assim dizia.

Eu criei estas três leis. E também sei que elas deverão ser quebradas hora ou outra. Eu faço minhas regras, e ninguém jamais deverá saber. O Universo flui; isto não o descreve. Estas leis são interpretações de algo muito maior, inimaginavelmente maior. Traduções erradas.

Desde os gregos da praia, vemos tudo como somos. Somos grãos de areia – e existe muito mar a ser visto além do pôr do sol.

- PRINCIPIA, p. -1

Dos nossos mestres, também estava ali o músico argentino. Sua especialidade era tocar as grandes obras do tango. Cabelo curto, barba bem feita e violão preto com cordas grossas. Tinha estranhos costumes ao entoar as canções – sua mão direita abafava as cordas de uma forma única, o timbre das músicas era só dele.

Ouvir músicas depressivas o animava, sem ironias.

III – 22:00 – Troubles in Fantasia

O plano estava quase pronto; às dez da noite daquela noite começaríamos. Na verdade só eu faria algo, mas era como se todos agíssemos juntos; um exército de sete mil irmãos percorrendo as ruas da cidade da mentira, contra todas as pragas que nos foram, nos eram e nos seriam jogadas por todas as feiticeiras. A lua era amarelada como queijo, pelo que percebíamos numa janela de nuvens cinzas.

Nem as pragas de mil mundos de gafanhotos nos fariam temer marchar até o inferno dos uísques podres para salvar aquele natal das garotas.

Não posso dizer meu nome, mas, neste contexto, o codinome era ROMEO X – era uma sigla e um anagrama, ao mesmo tempo. Meu símbolo era um candelabro com três velas. A do meio em posição maior, as outras duas um pouco abaixo, e as três já um pouco derretidas. O candelabro era dourado do ouro mais polido, e as velas, apesar de já um pouco gastas, pareciam eternas. Ali eu partia pela porta dos pilares. O mago lançou suas bênçãos, a porta de madeira se fechou.

Vi-me à rua. Não era tão tarde assim, então as janelas do prédio faziam-se abertas e as luzes acesas. Por dentro de um dos andares, não me lembro exatamente qual, vi Aquela que me inspirava – Ela. Ela sabia que eu estava ali, e nos contemplávamos de tão longe. Sorríamos, e, neste segundo, pude perceber que Ela possuía um novo quadro à sala. Era alguma forma disforme azul, abstrata. Vários tons de azul, melhor dizendo. Havia mais alguém com Ela, outra garota. Elas se amavam, e isso era o que importava.

Pelo comunicador de ouvido portátil (agradeça a Tesla por isso) começava alguma música de Mozart. Júpiter era tão perto dali…

Entrei à prima porta, e fui a um lugar sujo. Parecia uma casa de boas pessoas, bons jovens, mas era incrivelmente suja. Provavelmente havia ratos por cima daquele teto. O banheiro era incrivelmente sucateado. Roupas jogadas por todos os cantos, e instalações elétricas precárias. Era numa dessas que se cunhava a primeira parte do plano, que Clint nomeou como NIKOLAI.

Coloquei, relutante, meus dedos por trás do espelho fluorescente. Puxei dois fios, sem ver, e tirei do meu bolso esquerdo um canivete e o interruptor novo. Juntei os fios, e não senti choque algum. Liguei-os ao interruptor, e ativei o sistema de controle remoto.

Quase me saindo da casa, encontrei um dos moradores. Disse-me ele sobre como as estradas da cidade haviam sido reformadas… Como a preocupação ambiental se implantava cada dia mais, como a fiscalização era cada dia mais pesada – por incrível que possa parecer, talvez ele soubesse que eu estaria ali, naquele momento, mexendo em todas as fiações por trás do espelho fluorescente.

Fui-me à segunda parte.

IV – 22:00 – Constelação de Uma Só Estrela

As escadarias. Eu não sabia manejar muito bem o flutuador – ele se colocava sob meus pés, mas não era como um skate. Era algo etéreo, volátil, como se fossem sapatos de energia. Na prática, não serviriam de tanta coisa, era mais um equipamento de proteção, caso de lá de cima eu caísse.

Comecei a escalada, e minhas mãos já sofriam com os corrimãos adulterados. Eram como canos de ônibus, mas com material cortante e fios de cobre desencapados e altamente voltaicos. Pouco a pouco consegui vencê-los, e cheguei à metade do caminho até o ponto objetivo. Mas ali era um ponto notável. Bati à janela escura. Olhei ao outro lado e contemplei a grande estátua de braços abertos e o mar tão azul e infinito e tantas vidas distantes, aguardando a janela se abrir.

Abriu-se então, e Ela sabia que era eu. Abriu a janela com o mesmo semblante sorridente, querendo muito dizer o quanto eu era maluco. Concordaria com Ela, sou mesmo um maluco, um louco, um raio de um cientista inconseqüente, um pirralho! Mas também apenas sorri de volta, e nos abraçamos como deu – um movimento brusco e era melhor que os sapatos flutuantes funcionassem mesmo.

Disse a Ela que, por tal entidade inspiradora, eu não me importava em realizar tantos esforços macabros. Não me importava com as facas nem com os órgãos de proteção ambiental. Em tese, era por todo o prédio e, talvez, todo o bairro. Para mim, porém, e Ela sabia, era porque eu também sentia algo supremo, e queria vê-La muitas mais vezes com aquele semblante surpreso e satisfeito.

Poderia passar a eternidade ali, mas precisava seguir com o que fui proposto a fazer. Despedimo-nos, e prometemos nos ver naquele natal.

Sei que soa piegas e repetitivo, mas preciso constar: Ela me desperta as sensações mais profundas que já experimentei em um grande intervalo de tempo.

Depois de três ou quatro horas, cheguei ao topo do prédio. Contemplei mais uma vez como os ídolos de pedra agora estavam abaixo de todos os nossos pés. Como a vida parecia parada lá na cidade dos arcos. Subir a antena de TV foi mais fácil, espero não ter incomodado o futebol de ninguém naquela quarta-feira.

Acima da antena, como esperado, encontrei o pergaminho ISAAC e o pára-quedas. Não usaria o segundo, tinha medo dessas coisas – provavelmente não era funcional, e sim sabotado. O pergaminho era o original – os velhos, como já foi dito, não tinham capacidade para adulterar tal obra.

O profeta ia adorar saber que existe solução para pelo menos uma destas.

A fome apertava, mas devia continuar. Entrei pela tubulação.

V – 22:00 – Falácia do Labirinto do Velho Psicopata em Construção Desritmada

Agora eu era o inseto daquele concreto, mas não era por muito tempo. Havia uma passagem, segundo o que o DOPPLER revelou. Um tipo de sistema secreto de elevadores que se escondiam por trás das camas e despertavam tanto o imaginário daquele local. Depois de um pouco de procura, achei um deles. A porta era de madeira escura, mas havia algum tipo de luz vermelha e fluida em volta da porta. Algum tipo de líquido brilhante que marcava o local. Entrei.

Não havia botões, eu não tinha escolha. Apenas deixei que o elevador me levasse aonde quer que fosse para levar. Depois de quinze minutos de viagem à velocidade da luz, ou quase isso, a porta novamente se abriu.

À minha frente, um grande galpão esverdeado, escuro. Parecia uma obra em construção – vigas, andaimes, ferro jogado ao chão, barulho, máquinas, ferramentas, parafusos, martelos, foices. Não parecia haver mais alguém, então caminhei tranquilamente, procurando o que quer que fosse para ser encontrado.

Minha visão periférica, num dado momento, capturou um movimento estranho. Talvez uma reação neural, mas parecia algo mais. Olhei rapidamente, e percebi alguém correndo por dentro de um dos corredores cinzas. Apossei-me da rampa que se estendia à minha frente, e persegui, pulando e me apossando.

Após curvas bruscas à direita e à esquerda, encontrei um esboço de auditório. Havia as poltronas, e pareciam confortáveis. Todas, com exceção de uma. À quinta fileira, uma poltrona parecia quebrada. Parecia solta. Fui averiguar, e descobri que ela não era uma poltrona verdadeira. Por algum motivo, havia uma porta embaixo – sentindo que era o certo a fazer, entrei.

Para minha surpresa, e devo admitir que fora mesmo uma surpresa, não era um lugar maligno nem sinistro. Era apenas um estúdio musical. Do outro lado do vidro, um ser que parecia amigável.

Era dono de cabelos loiros, muito longos e lisos, e de uma voz hipnotizante. Estava fugido de sua cidade e dos repórteres e dos fotógrafos e das redes sociais para, em paz, compor seu novo álbum. Não queria ser incomodado, mas, quando me apresentei, tornamo-nos amigos, como se já nos conhecêssemos há tempos e tempos. Tomamos algumas garrafas de cerveja verde, rimos, conversamos sobre músicas e sobre ritmos exóticos e sobre instrumentos experimentais. Contei sobre as novidades das ciências das ondas, e ele pareceu se interessar. Antes de partir, ainda recebi como souvenir um disco com duas ou três músicas exclusivas, ainda em fase de testes, sem mixagem.

Ele também me contou como era o caminho da saída, e não parecia tão complicado. Agradeci-o, pedi um autógrafo e fui. Ali não parecia haver outra alternativa, senão confiar.

VI – 22:00 – A Consciência de Uma Centopéia

Os elevadores e as rampas tinham um padrão – eram funcionadas com base no horário. Muito mau, posto que meu relógio estivesse desregulado devido à viagem de elevador. Mas com alguma conversão simples, dava pra entender.

As rampas e os elevadores eram sincronizados a cada nove minutos e quinze segundos de anos táquions. Aprendi que os inventores de tal sistema se basearam no funcionamento da consciência de uma centopéia. Então é como se eu fosse uma sinapse fora do lugar, dentro de uma centopéia. Comecei a escalar e a subir e a descer, tal qual montanha russa num parque de diversões freneticamente estranho e insólito.

Descia, e o caminho era descer até o elevador – outra vez, porta de madeira. Seria igual ao outro, não fosse por este ter, ao invés de líquido vermelho, líquido azul. Azul celeste e tão brilhante quanto Césio. Não era radioativo, para minha sorte. Escalar o prédio usando-me de roupa HAZMAT seria ainda mais difícil.

VII – O Veloz Corredor de Kokorodome-XV

Depois de mais minutos para sair da consciência da centopéia, a porta se abriu, e demorei um pouco a reconhecer onde estava. Era de novo a cidade, mas outro bairro. Um bairro de cultura oriental, com cheiro de arroz e carros contorcidos.

A saída, mais precisamente, era uma das bocas de bueiro da avenida principal. Depois de quase ser atropelado, saí do buraco.

Há muito tempo que eu não me aventurava por aquela região. A avenida, em si, havia sido inteiramente reformada. Parecia estar mais larga, e não era mais asfalto, e sim algum tipo de tijolo cinza claro e bem aderente. Os viadutos estavam quase brilhando de tão bem cuidados, e ainda havia sido construída uma via expressa bem expressa ao redor da avenida.

A via expressa era um lugar curvado, quase uma parede por onde corriam carros a velocidades assustadoras. Lembro-me de ver veículos com aerofólios gigantes, mas não feios, a cerca de quinhentos quilômetros por hora. Não era perigoso – havia ali uma barreira magnética amortecedora.

VIII – Par Numérico do Carro Branco – São Paulo

Tomando o rumo de casa, parou-se um carro comum à minha frente. Dentro dele, figuras conhecidas. Era um homem e uma mulher.

O homem, apesar de me despertar certo receio, não parecia maldoso. A mulher, por outro lado, era demasiadamente falante. E ofendia sem se preocupar, e dizia como era melhor que todos os outros, e dizia como merecia tudo e como era o umbigo do universo umbigo. Ofereceram-me carona, mas preferi ir a pé.

A mulher me rogou mais quinhentas pragas, no mínimo, mas não me importei. Ficaria chateado ao saber que ela se juntara aos velhos que bebem uísque estragado, mas a única que poderia salvá-la disso era ela mesma. Haveria de aprender a tempo.

Quanto ao homem, que não era seu marido, ele não tinha muito mais o que fazer, senão tratar tudo aquilo como piada. Sentia eu, por algum motivo, que ele sabia de algo além do que aparentava… Mas também não me arrisquei a perguntar – queria voltar ao bunker o quanto antes.

A rodoviária também estava reformada, e vi uma legião caminhando para lá. Uma legião de coxos e deformes. Seres esquisitos que quase se rastejavam a fim de ver os ônibus partindo daquela cidade. Nem os seres mais delimitados agüentavam as limitações impostas daquele local.

A cidade era bonita, mas estava longe de ser apreciável para se viver.

IX – Natal Prelúdio

Longas horas até o bairro por trás das montanhas, mas cheguei. Entrei pela porta velha e branca do bunker, e fui recebido com congratulações por parte de todos. A missão fora um sucesso, o pergaminho estava inteiro, não faltava sequer meio sinal de operação.

O natal das garotas estava salvo.

Ela e eu nos olharíamos, e poderíamos sonhar mais uma vez, mais uma noite.

61 – Petróleo

Um lugar distante, cheio de gente vestindo cartolas. Seres amontoavam-se por todos os lados, e todos eles pareciam muito curiosos. Era como se eu tivesse algo a mostrar a todos eles, algo a ensinar, e todos estavam interessados. Cada lugar que eu resolvia me mover, aglomerações sentavam-se aos meus lados.

Cheguei, não sei por que, numa espécie de apartamento. Abri a porta de madeira, não lembro o número. Mais gente por dentro, olhando como se alguém esperado estivesse chegando. Havia uma sensação de esquecimento por dentro de minha cabeça, mas não era algo que me preocupasse de fato. Passei à próxima sala.

Um chefe de cozinha qualquer, famoso em televisores, por trás de uma pequena mesa. À sua frente, um equipamento intrigante: havia algumas garrafas d’água experimentais. Não tinham consistência de água, sequer lembravam o gosto de água. Ele serviu meu copo, de vidro transparente e bem limpo, e comecei a tomar avidamente. Eu não estava com sede, mas precisava daquilo. Sentia que precisava beber aquilo o quanto antes.

Tão precisava que me esqueci de todas as regras. Ele, o chefe, olhou para mim, rindo, e me lembrou que eu me esqueci de brindar aquela dose. Com o líquido à metade do copo, já, fiz o ritual comum e continuei a tomar.

Não parecia água. Talvez fosse algo ainda mais puro e que matasse ainda outras sedes de outros tipos de organismos que temos e não sabemos.

Sequer podemos imaginar.

Conversei com o chefe, e depois com um cabeludo qualquer com cabelo encaracolado e roupas sociais e alguma coisa metálica na face, não lembro exatamente o quê. Voltei à primeira sala e sentei-me.

Peguei meu caderno, comecei a escrever qualquer outra coisa, e uma senhora perguntou o que era aquilo. Voltei-me a ela e expliquei que gosto de escrever o que encontro por lugares tão bizarros que viajo sem querer. Ela pareceu bem interessada, como de costume. Olhei à minha mão, havia alguma inscrição estranha, que não me lembro de ter feito.

Por ventura, era uma inscrição feita em papel, e colada. Eu não podia tirá-la dali, mas o cabeludo entregou-me uma borracha. Não sei o sentido disso, mas comecei, então, a esfregar a borracha contra a inscrição, de forma que o verdadeiro desenho começasse, lentamente, a se revelar sobre minha mão esquerda.

Dissertação Acerca dos Círculos – II

É como um grande tabuleiro dinâmico. Move-se constantemente, caoticamente organizado, soldados marchando e arqueiros lançando. Armas de cerco derrubando muros e construções, desconstruindo cidades inteiras, sem nada deixar para o futuro. Alguns milênios de suor e sangue não são o suficiente para conter o avanço, é necessário. As perdas são, infortunadamente, inevitáveis.

As estratégias, enquanto estudadas, fazem sentido. Cada nação teve seu poderio, seus fortes, e todas, pouco a pouco, salvo raríssimas exceções, foram se esvairindo pelos ralos da evolução. Algumas ainda sustentaram o alicerce por tempo mais longo, é verdade. Mas o tempo de glórias jaz enterrado em algum outro rio de Yucatán…  Talvez do Canal da Mancha.

Pisei num caco de vidro, e por baixo dos outros restos achei algo amassado, queimado, não sei ao certo em que estado estava, algumas palavras eram legíveis, ainda em sua língua-mãe, outras, confesso, tive de inventar.

Se é assim? Se é assim que quis o Senhor? Quis o Senhor minha labuta a troco da lágrima nos olhos de minha filha, dos gritos de desespero de minha mulher, perdendo as graças defronte a mim? De todas as minhas preces, de todas as privações, ver, com o Livro em mãos, minha casa sendo reduzida a cinzas em teu nome, monstruosidades atemporais grunhindo, brandindo espadas, estuprando minha mulher, imolando minha filha!

Do alto daquelas colinas, uma vez que olhei para cima, cri na tosca mortal esperança do nada, do vazio, vi anjos descendo à Terra, pisoteando plantações, despertando terror. Vi bocas abertas, mas meu coração era mais alto que os gritos da vila. As paredes olhavam com pessoas por dentro, tentando como vermes entrar na pedra. Ouvi velhos amigos urrando de dor ao atear fogo em si próprios. Pecadores todos, acreditando na última das desgraças, o último dos juízos. Mas eu pagava os tributos Divinos da Misericórdia, eu seguia as tábuas, que agora parecem mais pedaços ocos de pedra, ocos para leve permanecer o fardo dos que vestem o amarelo que escorreu por minhas mãos para alimentar a Tua boca.

Há para onde ir? Procuro dentro de minhas mãos a fé, e não a vejo, não vejo nada. Em breve talvez deva agradecer por ter sido dilacerado junto à minha tenda, à minha casa, que fiz questão de levantar palha por palha, madeiro por madeiro. Pedra por pedra.

Creio que o Senhor lembre aquele dia chuvoso. Estava eu repousando sob o moinho, olhando para o movimento dos grãos, e eis que vi a sombra mexer-se. Ora, vi a sombra. Desconfio agora, que já não me adianta, de que escondido em algum lugar da sombra alguém me alertava sobre tudo o que viria, mas era só a noite cair, eu acendia outro pedaço de carvalho para não cegar completamente. No escuro eu sentia medo, porque algum estranho sussurrava, entre florestas, as palavras que tanto quis ignorar.

Desgrace-me, mande-me ao sétimo dos infernos, foi uma toda vida de ferros forjados, palavras mal-escritas, crenças lastimáveis, o ouro que colhi derretido foi em minha garganta. Minha família toda acabou como acabavam as ovelhas que sacrifiquei. De todos os monumentos colossais, escondi em minha ingenuidade o maior dos castelos.

E, nesses últimos segundos, não irei culpá-lo. Entreguei cada grão e cada quilo e cada suor por minha vontade. Eu quis a salvação. Como o Sol se põe no horizonte flamejante, agora vejo: não há nada para ver.

Revirando

“A humanidade é feliz. A humanidade é harmônica.”

Hole in a Consciousness Wall - Por J. Guilherme

É quase fim do ano. E tem muito entulho por aqui. Não sei ao certo por onde começar, eu grito e ouço ecos

Nesse momento eu estou numa construção sem escadarias, abandonada. Todo esse clima cinzento ora incomoda, ora instiga.

É bom, mas às vezes sinto certa solidão por aqui… Tanta gente já andou por aqui, e agora esse cinza fúnebre estranho. Onde estou? As ruas têm nomes impronunciáveis!

Certo, terei muito tempo para compartilhar com vocês meus achados nesses becos desolados e fantasmagóricos. Parece que não há muita gente por aqui há anos!

Sem muitas delongas nesse primeiro relato, tenho arquivados aqui alguns escritos sobre minhas caminhadas, vou disponibilizá-los assim que possível (e assim que não se tornar cansativo). Confesso que alguns desses achados são um tanto quanto perturbadores, alguns não tem muito significado, outros estão aquém do que eu possa compreender (talvez estejam em outro idioma), mas acredito que algum de vocês saberá melhor que eu o significado de algumas coisas.

Por hora é só, vou me acomodar entre uns entulhos e dormir. Coisa difícil na companhia dessas ruas, mas tentarei mesmo assim.

Grato!

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“Seu modo principal de viver é focado internamente, absorvendo fatos primariamente através da sua intuição. Seu modo secundário é externo, através do qual você lida com as coisas de acordo com a maneira com que você se sente quanto a elas, ou de acordo com a maneira com que elas se encaixam no seu sistema pessoal de valores.”

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