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Perseguição Policial Deixa Dois Feridos em Estação de Trem – 1763
Enquanto isso, na estação de trem, algo estava prestes a acabar.
“Homens de verdade não matam coiotes”, dizia a música que insistia em ecoar à sua cabeça. Não parecia o melhor tipo de canção para o momento, mas era o que vinha da alma – o que vem da alma não precisa fazer sentido, nem ter senso. O que vem da alma é algo tão verdadeiro que muitas vezes não é entendível, a princípio.
Roupas comportadas, e ela estava logo ali à sua frente. Era uma viagem não muito longa em termos de distância, mas provavelmente gigantesca em termos de tempo. Não que ela fosse se mudar para a legião estrangeira; o que acontece é que aquilo era uma despedida, no sentido mais cru da palavra.
Começara porque ele havia sido convidado também a viajar. O homem que não tem dinheiro não pode entrar no vagão do trem que tenha restaurante. O homem que não tem dinheiro não come. O homem que não tem dinheiro não é digno de se sentar à mesma mesa. No entanto, são poucos os homens de verdade que tem dinheiro, e mesmo os que não o tem. Homens de verdade não matam coiotes, afinal.
Então ele não podia viajar. Na verdade podia, mas não queria se entrar ao vagão como sendo um clandestino. Não queria se esconder, não precisava se esconder, não tinha por que se esconder. Não iria se esconder, e foi isso que disse.
A dama, naquele instante, engoliu a própria saliva. Junto com a saliva, desceu à garganta um pouco de catarro. A dama teve de engolir o próprio catarro – nunca se sabe o que os espectadores podiam pensar sobre o ato do cuspe de uma dama.
Ela queria que ele fosse, mas ele não iria. Mesmo que houvesse um jeito de tudo mudar, ele não colocaria os pés naquele trem.
Então os dois ficaram a se olhar. Ela contemplava, ele encarava. Havia uma gota de suor ao lado do cabelo curto e castanho, mas não era nervosismo. As estações de trem sempre ficam impregnadas por monóxido e tijolos e fumaças piores. Elas queimam, não só dentro como fora. E essa era apenas uma das marcas da revolução… Havia de se limpar quando voltasse pra casa. Não era uma casa majestosa, mas ao menos ele se lembrava como tomar banho.
Ratos não tomavam banho.
Então o sino ecoou pela estação, e o trem começou a se mover. Ela chorava, ele inquietava as próprias pernas, querendo uma passagem maior de tempo. Moscas, havia moscas por todo lugar. Havia moscas em seus rostos, feridas, pernas, bocas, olhos. As moscas pareciam adivinhar onde ficavam os olhos e as feridas.
Aproximou-se a doce dama a fim de um último beijo, e nisso ele parou o tempo. Deu um passo para o lado, e ela não entendeu muita coisa ao ver que todos haviam congelado mesmo com o calor.
Assemelhavam-se a bichos. Não falavam, apesar de serem bem letrados e saberem exatamente como usar próclises e mesóclises. Não tinham noção de espaço, apesar de terem aprendido mecânica. Sabiam tudo, mas, na prática, não conseguiam ao menos saber quem eram.
Tomando a palavra e um gole de uísque, o homem a disse sobre o que significava de fato aquilo tudo. Não disse sequer uma palavra concreta, mas apontava e mexia as sobrancelhas e respirava de maneiras diferentes conforme o que queria dizer. Ela entendia tudo, claro que entendia. Ela sempre entendia, e assim são as mulheres – elas sempre entendem tudo, sempre sabem tudo, e costumam prender os homens como fossem marionetes de vã existência. Era o que elas costumavam dizer em suas reuniões femininas: homens são todos iguais.
Sem saber se era igual ou não, e também sem se importar de fato com tais terminologias pseudo-matemáticas, ele continuou o ritual de despedida. Não queria de fato fazer aquilo tudo – um ritual para se despedir – mas tinha um resto de sentimento ainda dentro de suas concepções morais. Concepções morais… Esse era um dos termos, aliás, que insistia em perambular por sua mente. Ele não queria concepções morais, julgava não precisar delas, mas lá estavam a todo tempo.
Existiam problemas, inferiu. Sempre existiriam problemas, não importa a situação. Não era por causa dos problemas que eles estavam naquele momento. Era por causa de outra coisa, e ela sabia exatamente o que era.
Não era outra pessoa, não era outro problema, não era outra noite. Era outra coisa.
Depois de passados quarenta e sete minutos onde ela não disse nada, ele pegou um de seus charutos. Acendeu, inclinando seus cabelos curtos e bem penteados junto ao seu terno bem limpo. Não era um terno caro nem luxuoso, mas despertava certa inveja por estar sempre tão inexplicavelmente limpo – pessoas às ruas se perguntavam como podia alguém tão sem dinheiro andar de maneira tão limpa por aí.
Por outro lado, o que ele pensava era sobre como podiam pessoas tão cheias de dinheiro andarem de maneira tão suja. Pensava mais, pensava sobre como elas de fato conseguiam ter certeza de que estavam limpas, mesmo nadando em piscinas de fezes animalescas e vermes e moscas. Perguntava-se como elas não sentiam o gosto da própria podridão, como não sentiam o cheiro da própria diarréia, como não sentiam vergonha de andarem daquele jeito por aqueles lugares com aqueles ternos caros cheios de traças.
Mas as perguntas quase nunca levavam a algum lugar, a menos que ele estivesse se olhando ao espelho depois do banho. Os banhos costumavam ser um momento de filosofia única. Se os banhos eram o tempo, o espelho era o espaço destas iluminações.
Logo depois de pensar nisso tudo e acender finalmente o charuto, estalou os dedos da mão esquerda, sem muito requinte, e o tempo voltou. As pessoas começaram a se dirigir ao trem, que já estava de partida. A fumaça preenchia o espaço vazio que havia naquelas conversas sem sentido, e o apito e a sinfonia da revolução acalmavam os tão agitados corações arrítmicos.
Os hospitais, em verdade, se encontravam num estado bastante precário àquela época.
Ele acenou, desejou boa viagem, educadamente, mas sem qualquer tipo de sentimento além da própria educação e boa maneira. Ela esperou, ele apontou ao trem. Não iria chegar perto, não iria ser macio em suas palavras. Não havia o que dizer. Não havia por que deixá-la viver nas mesmas páginas de outrora.
Ela deu uma última olhada e embarcou. Tornou-se, ele, então, em direção à estrada. Partiu a pé, pois não tinha carruagem nem conhecia alguém que o tivesse. Havia ali parentes da dama, que também foram despedir-se. Eles podiam fornecer uma carona até a cidade, mas ele rejeitou antes mesmo de pedir. Seria de mau grado um homem pobre pegar carona com pessoas tão bem sucedidas e donas de tantas terras.
Ele não fazia questão. Tinha bastante música em sua cabeça para voltar os sete quilômetros de terra e sol.
O que importa é que ele nunca havia se esquecido sobre como é banhar-se após um dia complicado e tortuoso, e ainda gostava de se sentir limpo, e queria se manter limpo.
Com um charuto e orquestras inteiras por dentro da massa de pão ele voltou pra cidade. Não acreditava em demônios, mas nenhum deles o tentou atacar no caminho. Eram seis horas da tarde, e havia muito o que fazer no outro dia.
Finalmente ele compreendeu que aquilo em sua folha de caderno era uma divisão por zero, e pôde dormir tranqüilo.
[Welcome] V/R
[Welcome]
There I was
Walking by the yard,
I entered the room.There it was
Burning by my eyes,
Lightin’ the dark.I entered the fire.
Something uncertain,
I could see what I am
Far beyond
Anywhere but here.Then my own hands took me
To a distant desert over the wind,
So where a kind of angel stared
With time in hands,The hourglass almost flying away.
An infinite ground
Not sand, but shiny bend
Over my consciousness;When I came back to the room
They all drunk the beer,
And an old cup then fell.I began stepping through the broken glass.
- S/WH/314 -L
In Natura
O hospital, velho, sempre apontando e mirando o horizonte. Paredes derrubadas, leitos abandonados, uma carta qualquer jogada queimada apodrecida. Uma legenda, apenas, sem remetente ou destinatário. Parecia mais parte de um diário sonoro. É uma pena, de fato, não ser possível ouvir as musicas que pairavam na mente atormentada.
Lá estava ela, tão perto e tão longe. Deitada. E eu com tanto ouro derretido pela garganta, sentindo as cordas contraírem, desafinarem, quererem gritar, sem, no entanto, poder. Um quarto azul iluminado pela noite e pelo relativo silêncio.
A nota musical era a mesma a cada intervalo, o osciloscópio era o único aparato que demonstrava haver algum tipo de atividade por dentro de onde outrora viveu. A cama, desconfortável, alguns cobertores, paredes lisas e cores imperceptíveis. A luz apagada, a seringa injetando misericórdia em suas artérias.
Agora eu poderia dizer qualquer coisa, qualquer pesar, agora nos últimos segundos eu poderia dizer palavras que dia após dia controlei. Por motivo algum. Enquanto havia ar nos pulmões deixei de agradecer tanto tempo que esperou, tanto tempo que suportou, tanto tempo que sangrou. E agora era só eu e ela. A cada segundo que passava já nem isso podia dar certeza. No próximo segundo poderia ser só eu.
Uma poltrona e um livro qualquer. Trocaria de lugar. As memórias ressoavam em minha mente, eu me sentia cada vez mais culpado por ter sido mudo. Tantos conceitos e fiquei cego. Tantos gritos e fiquei surdo.
O único quadro remanescente na parede, e ela nem sabia disso, era um que mostrava uma concepção artística de Júpiter. O maior dos planetas do sistema, o que possibilitou cálculos da velocidade da luz, o que salvou vidas tantas vezes. Ela nem sabia da existência desse quadro, mas fiz questão de colocá-lo lá, bem próximo ao osciloscópio. E este apitava, apitava…
Se ela pudesse ouvir a música, e sons cósmicos tantos esses, que voasse para onde quisesse, e percebesse o quanto esteve presa perto de minhas palavras silenciosas. Agora talvez pudesse entender o porquê de alguns atos, e sentir então como tudo o que pensara durante toda a caminhada era real. Vera dentro de Carlson, e talvez os templos e os pilares realmente existissem. Algo em mim clamava pela abertura do túnel e que fosse ela levada por este.
Tamanho o pesar, não conseguia colocar lágrimas para fora. Até estas se recusavam a aparecer para mim, era o ácido que corria perto dos meus olhos, enquanto eu via a realidade que habitava o sul dos piores pesadelos. Nalgumas tardes pensei em dor suprema, mas nada comparado a isso. A areia escorria pelas mãos assim como escorrera pelas mãos do imperador.
O hospital, viajantes, é tétrico.
Melancholia II – PTENG
Fase I – O Portão
Enquanto andava pelas correções gramaticais, as quais insistiam em acusar minhas falhas idiomáticas, até que agora cessaram, era como a janela de Heathcliff. Estava frio lá fora, mas eu queria entrar. Mesmo sem saber ao certo o que tinha dentro da casa, onde estava a porta, eu queria entrar e sentir o calor da lareira e suas brasas e suas faíscas contra o inverno rigoroso.
As paredes da casa eram ásperas, e ainda havia o medo de ficar preso, sem saída, próximo ao fogo da lareira, e vê-lo incendiar toda a montanha.
As ondas, as contas. A cada logaritmo, a cabeça parecia acumular um pouco mais de explosões, um pouco mais de elétrons rebelados, e a noite parecia mais fria que o normal, os ventos pareciam mais fortes que realmente são, as palavras pareciam mais perigosas e dolorosas mesmo sem serem ditas. As ruas vazias angustiavam os pobres entardeceres onde sentia os ecos dos gritos. A prática levava à melhora. A prática levava ao sem nexo.
Try to figure out how waves do the dance
Patterns emerging as moons tick vein clocks,
Outside the window, staring eyes, door knocks
Into nights as my spirit flows in trance.A prophet opened this mind, spinning glance,
Uncanny integers and stormy locks,
Sand after sand, machine, block after block.
Future past Constellations beyond sense.Lack of sensations, waltz of obscurity,
Trying, in vain, see how to let it out.
Lines in the sky of all insanities.Growing inside a seed of sinusoid doubt.
A crack has opened gamma, human kiss,
I try to break the spell and leave the cloud.
Fase II – Fermentação
Uma falha, talvez, na evolução: o que sentimos. Por que sentimos, por quem sentimos. A mais bizarra das invenções da grande obra, do grande plano. Em alguns momentos, os instrumentos deviam ser cessados, e as únicas batidas a serem ouvidas deveriam ser a dos dois corações em ressonância. O sangue correndo no mesmo fluxo, e tudo sem precisar de cálculos, sem precisar de valores.
O ar era suficiente, os pontos luminosos eram suficientes. Creio, até, que nem pensamentos fossem necessários nesses momentos. Algum meio de desligar o cérebro, esquecer do que é a realidade e viver o que verdadeiramente é a realidade.
Que é, no caso, um tanto diferente do que as lascas insistem em dizer ser a realidade.
Complex strings raging silent frequencies,
As thoughts become words, phrases as stumbling swords.
I walk upstairs, world goes without regards.
Despite the cold, Sun still in the axis.When the nights seem lonely as I would pray,
In seventh hell I could miss the warmth,
Couldn’t see the stars if I won’t look North.
Ratios won’t tell where to look for a Sun ray.Break of dawn beside the rivers and trees,
No why to eat that outside worms beneath.
Matter of view: see it as really is.At wall, sometimes have to release belief,
Sail against the coldness of seven seas,
Breathe no sorrows on the top of the cliff.
Fase III – Iluminatti
Outro corte de cena, truque de edição. A árvore ficava cada vez maior e mais ampla, as folhas calmas fazendo seus ruídos devido a todo o vento. A obra de arte toda à minha frente, a maior de todas as obras. O compasso, o esquadro, os moldes, todos eram senão instrumentos mudos, como o piano talvez fosse um outro tipo de instrumento. As contas e as equações apareciam no papel não como uma tradução do que é fechado finito real, não do que é o caminho, não dos padrões. Fazia parte da maior das obras já realizadas pelos micróbios, pelos primatas que acharam a pedra, acharam o fogo e acharam a Lua, que acharam a vida também.
Uma obra indefinida, sem autor preciso, sem tempo de ter começado, sem tempo para terminar, à mercê da vontade apenas daqueles que quiserem escrever um próximo capítulo. Esquecer que o mundo é real e esquecer que esqueceu que o mundo é real. Esquecer dos motivos, e entregar-se apenas ao que está acontecendo.
Alienar-se é uma das sensações mais nobres que podemos sentir. Iludir-se faz com que pedaços pequenos de grandes sonhos materializem-se, e livra também um bom peso da matéria invisível que esmaga o crânio de vez em quando.
É sono, é pesar. E as contas e os expoentes não são o melhor remédio para a enxaqueca. Pensar nas dores não as alivia. Em alguns momentos a janela serve como cinemascope, e, sem preocupações com a verdade ou com os rumos a serem tomados, a vida passa para ser vivida, e não decifrada. Para ser tentada, e não trapaceada.
Não são padrões. Talvez exista algum, de fato. Mas o primeiro respirar, o vermelho que entra pelos olhos, e toda a gama de sensações estranhas que passam com o tempo e voltam depois, que seja o que une as diferentes épocas da humanidade, o que une quem escrevia em pedras e quem escreve em naves espaciais. A imaginação é mais poderosa que qualquer tipo de máquina.
E todas as tais tempestades hão de passar em pouquíssimo tempo, as paranóias passam a dar lugar a outras cadeias, e nada disso é exclusividade. É apenas como ocorre desde as épocas remotas, e é como ocorrerá por muitos e muitos anos enquanto houver um simples ser racional rastejando pelas pedras e pela terra.
Quebra-se o gelo da Era Glacial quando se esquece que está frio.
A glimpse of red started something, somehow.
My eyes, they were not blinded anymore,
Once living, I gave away Pain and Gore.
Once escaped, could turn against the claw.In a distort of lost melancholia
Found something I have lost long time ago,
Kind of feel wanted ever to re-know,
Stones kept melting frozen schizophrenia.Unlocked again is this door here to me,
No fear to look outside, nor roll the dices.
Sun strikes, for now I can barely see.Without looking glasses before we be,
Then discover how life has its own price.
Behold this time how we can melt the ice.
Epílogo: O Ar
E quando sentir-se arrebentando por dentro, sendo triturado por coisas que ao menos estão acontecendo, lembre-se das palavras, lembre-se das grandes obras. Tudo flui e tudo passa, a idéia de infinidade sequer passa pela mais ávida das imaginações. Nada é tão ruim quanto parece, e isso também é clichê. Mas com o tempo as dores passam, o sono passa, o peso passa.
Esse texto todo passa.
Como no décimo terceiro portão, quando a cobra morde a própria cauda o ciclo recomeça. Termina para uns, começa para outros. Outras histórias dão lugar a velhos personagens das novelas que não têm um capítulo final e simplesmente acabam.
É tudo mais simples. Respire o ar. Olhe para a frente. E nevermind.
Portão da Tentativa e Erro
É estranho o modo como algumas coisas se encaixam. O horizonte, alguns montes, o Sol se pondo. Uma sinestesia bizarra. Ouvia vozes e sentia cheiros, sem nem saber a fonte. Por algum motivo, soava familiar, mas ainda não compreendia o porquê. Universos diferentes, rumos diferentes, tempos diferentes. Compassos diferentes. Todos convergindo, misturando, sublimando.
Até as notas musicais pareciam diferentes naquele fim de tarde, pareciam estar por dentro de alguma câmara filtrada, qualquer coisa assim, distorcidas.
Insistia em enxergar a silhueta. Não sei se ela realmente existia, mas eu insistia que havia uma silhueta. Uma sombra, logo ao fim dessa rua em que eu estava. Curvas sedutoras, cabelos longos. Mas não havia nada por cima da sombra.
Outra ilusão besta. Outra ilusão, besta.
De qualquer forma, caros viajantes, tenho de atualizar-lhes. O grande esperado jogo de sinuca finalmente ocorreu, por dentro das normas. Vi, não sei como, alguns grandes amigos, ouvimos boas músicas, todos no recinto aproveitaram o jogo. Creio eu que foi uma viagem astral, de um lugar bem longe para outro mais longe ainda.
E, como de costume, e como já há tempos não fazia a vossas excelências, pedaço traduzido de outro conto que achei por essas bandas. Parece meio mórbido, quero achar os outros capítulos.
Grato!
-
Posto, noite, cerveja, pinga brasileira. Do lado de fora da loja de conveniência, o grupinho conversa:
- Aquele ali. Não, o do lado.
- Certeza?
- Ele mesmo, cabeludo de merda. Ele que falou da namorada do Shal.
- Maluco.
- Agora?
- Calma.Depois do barulho, o silêncio enfeitado com vozes desconhecidas pelas mesas. Vidas diferentes, mesmas satisfações. O cheiro do mais nobre dos grãos daquela cidade.
Dois cafés, um chocolate quente. Doce, mas nem tanto. Na medida certa. A distância de um braço separava os dois, mas os olhos fixavam-se um no outro, alguns sorrisos brotavam de ambas as bocas. Uma sensação prazerosa, o tempo, outra vez, não precisava continuar. Ele gostava dela, ela gostava dele. Mas nem ele nem ela sabiam disso. Clichê, mas é o que costuma se suceder.
Conversas sem sentido, ninguém dizia o que realmente queria dizer, mas assim a noite escorria pelo cabelo dos dois. A mão no ombro, o calor tão confortável.
Um último abraço e a despedida. Vendo-a partir pela rua com o carro, não pôde esboçar defesa. Cinco ou seis mãos agarravam o pescoço, em segundos era arrastado pelo concreto, sem nem entender o porquê de tudo aquilo.
- Agora Shal será vingado, porco.
A agulha, ou a faca, ou o bisturi. Pulso esquerdo, e a pressão sangüínea exposta. O fogo queimava a carne, carbonizava invisível. Ninguém via, mas ele estava sendo imolado, gritando, agonizando.
Até que abriu os olhos.
Conceitos Ópticos – Grand Finale
O Sol estava se pondo e eu ainda não sabia quanto tempo havia se passado. Talvez fossem alguns anos, ou então alguns segundos. Vi o Triângulo se dissolver entre as linhas azimutais, entre as fendas rasgadas em azul pude sentir como as matrizes eram desorganizadas, caóticas, mas conforme eu as via de perto, ficavam cada vez mais organizadas.
Talvez haja uma constante para tudo isso, como disse uma voz em minha mente algum dia. Talvez as integrais tenham algo a ver, talvez em Julho.
Do mundo em que nós pisamos vemos tudo àquilo que nos é real. Real para alguns, imaginário para outros; não temos a certeza de que o que vemos na verdade existe. Pode existir.
O fluxo volta de tempos em tempos, e quanto mais se tenta afastar, mais próximo ele fica.
Mesmo céu…
Mesma cidade (embora em cidade diferente)…
Mesmo bairro…
Mesma quadra…
Mesma Rua…
Quem sabe até na mesma casa.Tudo existe porque é observado.
E você está observando agora.
Não porque isto exista.E sim porque você existe.
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