Arquivos do Blog

Dia 04 – Jogado às Traças

Não faz diferença alguma se eu abandonei o mundo. O mundo já nos abandonou faz muito tempo. O cálice das civilizações e o último poente foram apenas o telhado do grande mausoléu em que nos refugiamos para nos fingirmos de mortos enquanto o cemitério era sobrecarregado por cinzas durante a chuva.

Aos poucos as gotas de água começaram a derreter até as sepulturas mais sólidas. De dentro do mausoléu, vimos a água tóxica destruir tudo. O telhado nos protegeu e nos isolou do fim.

Agora não há mais fim. Não há mais começo. Não há mais meio. Não há uma História. Não há conhecimento. Não há texto, não há memória, não há voz.

Não há janelas que não apontem para um mundo deserto, ácido e morto.

Perseguição Policial Deixa Dois Feridos em Estação de Trem – 1763

Enquanto isso, na estação de trem, algo estava prestes a acabar.

“Homens de verdade não matam coiotes”, dizia a música que insistia em ecoar à sua cabeça. Não parecia o melhor tipo de canção para o momento, mas era o que vinha da alma – o que vem da alma não precisa fazer sentido, nem ter senso. O que vem da alma é algo tão verdadeiro que muitas vezes não é entendível, a princípio.

Roupas comportadas, e ela estava logo ali à sua frente. Era uma viagem não muito longa em termos de distância, mas provavelmente gigantesca em termos de tempo. Não que ela fosse se mudar para a legião estrangeira; o que acontece é que aquilo era uma despedida, no sentido mais cru da palavra.

Começara porque ele havia sido convidado também a viajar. O homem que não tem dinheiro não pode entrar no vagão do trem que tenha restaurante. O homem que não tem dinheiro não come. O homem que não tem dinheiro não é digno de se sentar à mesma mesa. No entanto, são poucos os homens de verdade que tem dinheiro, e mesmo os que não o tem. Homens de verdade não matam coiotes, afinal.

Então ele não podia viajar. Na verdade podia, mas não queria se entrar ao vagão como sendo um clandestino. Não queria se esconder, não precisava se esconder, não tinha por que se esconder. Não iria se esconder, e foi isso que disse.

A dama, naquele instante, engoliu a própria saliva. Junto com a saliva, desceu à garganta um pouco de catarro. A dama teve de engolir o próprio catarro – nunca se sabe o que os espectadores podiam pensar sobre o ato do cuspe de uma dama.

Ela queria que ele fosse, mas ele não iria. Mesmo que houvesse um jeito de tudo mudar, ele não colocaria os pés naquele trem.

Então os dois ficaram a se olhar. Ela contemplava, ele encarava. Havia uma gota de suor ao lado do cabelo curto e castanho, mas não era nervosismo. As estações de trem sempre ficam impregnadas por monóxido e tijolos e fumaças piores. Elas queimam, não só dentro como fora. E essa era apenas uma das marcas da revolução… Havia de se limpar quando voltasse pra casa. Não era uma casa majestosa, mas ao menos ele se lembrava como tomar banho.

Ratos não tomavam banho.

Então o sino ecoou pela estação, e o trem começou a se mover. Ela chorava, ele inquietava as próprias pernas, querendo uma passagem maior de tempo. Moscas, havia moscas por todo lugar. Havia moscas em seus rostos, feridas, pernas, bocas, olhos. As moscas pareciam adivinhar onde ficavam os olhos e as feridas.

Aproximou-se a doce dama a fim de um último beijo, e nisso ele parou o tempo. Deu um passo para o lado, e ela não entendeu muita coisa ao ver que todos haviam congelado mesmo com o calor.

Assemelhavam-se a bichos. Não falavam, apesar de serem bem letrados e saberem exatamente como usar próclises e mesóclises. Não tinham noção de espaço, apesar de terem aprendido mecânica. Sabiam tudo, mas, na prática, não conseguiam ao menos saber quem eram.

Tomando a palavra e um gole de uísque, o homem a disse sobre o que significava de fato aquilo tudo. Não disse sequer uma palavra concreta, mas apontava e mexia as sobrancelhas e respirava de maneiras diferentes conforme o que queria dizer. Ela entendia tudo, claro que entendia. Ela sempre entendia, e assim são as mulheres – elas sempre entendem tudo, sempre sabem tudo, e costumam prender os homens como fossem marionetes de vã existência. Era o que elas costumavam dizer em suas reuniões femininas: homens são todos iguais.

Sem saber se era igual ou não, e também sem se importar de fato com tais terminologias pseudo-matemáticas, ele continuou o ritual de despedida. Não queria de fato fazer aquilo tudo – um ritual para se despedir – mas tinha um resto de sentimento ainda dentro de suas concepções morais. Concepções morais… Esse era um dos termos, aliás, que insistia em perambular por sua mente. Ele não queria concepções morais, julgava não precisar delas, mas lá estavam a todo tempo.

Existiam problemas, inferiu. Sempre existiriam problemas, não importa a situação. Não era por causa dos problemas que eles estavam naquele momento. Era por causa de outra coisa, e ela sabia exatamente o que era.

Não era outra pessoa, não era outro problema, não era outra noite. Era outra coisa.

Depois de passados quarenta e sete minutos onde ela não disse nada, ele pegou um de seus charutos. Acendeu, inclinando seus cabelos curtos e bem penteados junto ao seu terno bem limpo. Não era um terno caro nem luxuoso, mas despertava certa inveja por estar sempre tão inexplicavelmente limpo – pessoas às ruas se perguntavam como podia alguém tão sem dinheiro andar de maneira tão limpa por aí.

Por outro lado, o que ele pensava era sobre como podiam pessoas tão cheias de dinheiro andarem de maneira tão suja. Pensava mais, pensava sobre como elas de fato conseguiam ter certeza de que estavam limpas, mesmo nadando em piscinas de fezes animalescas e vermes e moscas. Perguntava-se como elas não sentiam o gosto da própria podridão, como não sentiam o cheiro da própria diarréia, como não sentiam vergonha de andarem daquele jeito por aqueles lugares com aqueles ternos caros cheios de traças.

Mas as perguntas quase nunca levavam a algum lugar, a menos que ele estivesse se olhando ao espelho depois do banho. Os banhos costumavam ser um momento de filosofia única. Se os banhos eram o tempo, o espelho era o espaço destas iluminações.

Logo depois de pensar nisso tudo e acender finalmente o charuto, estalou os dedos da mão esquerda, sem muito requinte, e o tempo voltou. As pessoas começaram a se dirigir ao trem, que já estava de partida. A fumaça preenchia o espaço vazio que havia naquelas conversas sem sentido, e o apito e a sinfonia da revolução acalmavam os tão agitados corações arrítmicos.

Os hospitais, em verdade, se encontravam num estado bastante precário àquela época.

Ele acenou, desejou boa viagem, educadamente, mas sem qualquer tipo de sentimento além da própria educação e boa maneira. Ela esperou, ele apontou ao trem. Não iria chegar perto, não iria ser macio em suas palavras. Não havia o que dizer. Não havia por que deixá-la viver nas mesmas páginas de outrora.

Ela deu uma última olhada e embarcou. Tornou-se, ele, então, em direção à estrada. Partiu a pé, pois não tinha carruagem nem conhecia alguém que o tivesse. Havia ali parentes da dama, que também foram despedir-se. Eles podiam fornecer uma carona até a cidade, mas ele rejeitou antes mesmo de pedir. Seria de mau grado um homem pobre pegar carona com pessoas tão bem sucedidas e donas de tantas terras.

Ele não fazia questão. Tinha bastante música em sua cabeça para voltar os sete quilômetros de terra e sol.

O que importa é que ele nunca havia se esquecido sobre como é banhar-se após um dia complicado e tortuoso, e ainda gostava de se sentir limpo, e queria se manter limpo.

Com um charuto e orquestras inteiras por dentro da massa de pão ele voltou pra cidade. Não acreditava em demônios, mas nenhum deles o tentou atacar no caminho. Eram seis horas da tarde, e havia muito o que fazer no outro dia.

Finalmente ele compreendeu que aquilo em sua folha de caderno era uma divisão por zero, e pôde dormir tranqüilo.

Risco em Quinta Pessoa

As luzes binárias piscam.

O céu, apesar de acinzentado, mostra-me alguns riscos, como se fossem naves sintetizadas que tivessem sobrevoado meus pensamentos… Não consigo imaginar quando, nem onde… Mas elas sobrevoaram… E entraram n’algum buraco de minhoca qualquer até o começo do século.

Havia uma fazenda amarelada e muito vento. O tempo deitado sobre a relva, tão verde apesar de amarela. Havia ali os animais escondidos, silvestres. Havia uma casa, e era só ela em meio a tudo aquilo, e lá talvez vivessem algumas pessoas, mas não muitas… Apesar do deserto, não era um sertão. As vidas eram completas, apesar de faltar tanta coisa…

Sentiam-se todos completos com as abóboras que comiam, e assim a década passava, sem que ninguém se importasse realmente.

Segundo a lenda local, pude perceber, havia vários grandes demônios. Todos ferozes, assustadores, tenebrosos. Eles costumavam viver nos rodamoinhos, nas árvores mortas, nas noites frias, no trigo que sussurrava quando dançava contra o vento e respirava… Todos temiam cada um desses demônios, ninguém ousava observá-los.

O único relógio da casa não era ajustado há eras, e não se sabe exatamente o quanto está atrasado. Talvez esteja certo quando diga a todos, imponente à sala, dentro do caixão, que às nove da noite o Sol nasce. Talvez apenas o resto da humanidade esteja errado. E só eles.

O gato de estimação era branco, e provido de muita e muita pelugem. Tinha o que comer (e normalmente comia muito atum); chegava a ficar bêbado de tanto leite, era tão folgado quanto um gato deve ser, e tão dono de seu próprio mundo…

Eles todos não se importavam, de fato, com o que havia além do deserto. Não parecia ser tão relevante assim – caso fosse, saberiam a tempo. Que precisavam descobrir? Que o Sol não nasce às nove da noite?

Mas, também é notório, queriam ser descobertos por alguém. Não necessariamente os colonos e os peregrinos – ninguém precisava deles. Queriam ser descobertos por seres prateados que surgiriam de uma porta que se abriria em meio ao trigo todo, numa tarde ensolarada de Natal, enquanto todos preparariam biscoitos e bebidas.

Eles surgiriam calmamente, trazendo um brilho nunca imaginado, branco. Seriam três deles, sabiam, e caminhariam entre as plantações e chegariam a casa. Tirariam os capacetes e revelariam sequer uma mancha. Seriam seres como eles, tão bons e tão ruins, tão dignos e tão pecadores ao mesmo tempo.

Haveria, obviamente, um ao meio de todos. O que dá ordens – talvez um tipo de pai, de onde vieram. Mas não seria pai de ninguém, mas sim um irmão. De todos, em todos os tempos, em todas as plantações.

Algo que recordaria a menor das habitantes da casa perdida, uma vez que esta seria a que mais viveria, seria o fato dos seres prateados agradarem ao gato branco. Afagarem-lhe os pelos, darem-lhe uma dose generosa de leite integral e um atum inacreditavelmente grande.

Não sei quanto à consciência que pode desenvolver um ser tão absolutamente supremo que perambula soberano entre sete vidas (e se dá conta disso). Provavelmente é uma consciência tão avançada e evoluída que sabe exatamente tudo isso, e sabe das sete vidas, e sabe que merece o atum que come e o leite que toma. Não se incomoda em pedir isso tudo, e também pouco liga se é muita folga exigir alguma atenção a mais.

Aqueles seres de mau odor não precisam de tanta atenção quanto um gato. E ele sabe disso, e não se incomoda em pensar sobre a justiça escondida nas cláusulas. Bastava observar onde estava – o juiz mais próximo estaria a pelo menos algumas dezenas de noites dali.

Havia um quadro pendurado à sala, acima da mesa de livros – era um homem, apenas o rosto de um homem. Cabelos longos, mas nem tanto; barba e bigode, mas ambos bem aparados. Mãos aos cabelos e uma expressão assustada, talvez desesperada. Segundo o que se dizia por ali, o quadro era francês – mas, novamente, não era realmente relevante.

Antes do portal se abrir, pensavam, haveria muito mais deles. Mas sem as roupas prateadas – era mais provável que elas só servissem para garantir algum tipo de proteção, contra os demônios, talvez – e sem aqueles equipamentos. Na verdade, haveria um grupo de pessoas tão parecidas com eles, mas com roupas mais modernas e limpas, e semblantes interessados num espelho d’água.

Logicamente, o que acontece antes dos seres prateados chegarem até ali é tema para outro dos contos. Eu não sei ainda como começá-lo, mas sei exatamente como se parece.

O demônio mais temível de todos os demônios não era o das tempestades, nem dos rodamoinhos, nem das noites nem do trigo. O mais temível deles todos era o que se escondia por dentro de cada um que observava. Por dentro de cada pulmão, de cada pesadelo. De tão bem disfarçado, raramente era notado. Apenas apodrecia tudo por onde passava, e ia embora.

Aquela casa, porém, no meio do nada do deserto, recebera a visita dos seres prateados – o Natal daquele ano seria tão iluminado quanto as nove da noite de todas as noites serenas.

Deserto IV

O deserto continuava, e todas aquelas pessoas buscavam a Santa Montanha que guardava a Cidade Prometida. Era então o sétimo ano a partir do começo da década, e a caminhada estava em seu ducentésimo qüinquagésimo sétimo dia, à trigésima sétima semana.

Eram milhares que caminhavam, e a água já estava em suas últimas gotas. Mães e pais preferiam passar fome e alimentar seus filhos, os quais não eram poucos. Quando algum dos peregrinos perecia, sua carne era servida como alimento a todos os outros. Nem doenças nem vermes adiavam tal ritual, era uma questão de sobrevivência.

Mas todos tinham convicção de que a montanha chegaria, e assim diziam todos os líderes que por ali mandavam. Um partia, então outro se erguia, e assim num ciclo infinito até que a montanha apontasse, tal qual templo, em meio à areia.

O sol queimava a pele, os olhos, as retinas, os cabelos, as cordas vocais – as noites congelavam, sem piedade, todos eles sem cobertores. As pedras faziam suas sombras aconchegantes do outro lado da caminhada. Os peregrinos eram castigados todos os dias, desde o começo.

Mas a montanha haveria de chegar.

Neste dia, porém, o sétimo círculo celeste, próximo à constelação das quinze estrelas, tornou suas engrenagens, e a vontade divina lançou a praga das pragas, que, desde o início do milênio, era tão ansiosamente esperada.

A montanha se erguera, repentinamente, do dia para a noite – “um milagre”, clamavam os fiéis. Rezas, oferendas, até a fome e a sede ficaram em segundo plano com tal visão. Como feita da própria pedra que dera origem a toda a areia de todos os desertos, era avermelhada e seca.

Subiam todos os milhares, abraçavam o chão, beijavam as pedras, e pedras gigantes se revelavam escondidas entre os vales.

Longe dali, em Roma e no Egito, os imperadores recebiam a notícia, e já sabiam o que aconteceria depois.

As pedras gigantes do deserto começaram a ranger, e os peregrinos entoaram, num acorde, o mais profundo dos silêncios humanos já descritos nos livros do Mar Morto. Iria revelar-se, enfim, a voz daquele das quatro letras capitais impressas em ouro.

Mas a única frase não foi dita por Ele, e sim pela própria pedra.

“Tolos – não precisam vocês saberem meu nome para entender quem sou eu.”

Nisso, o ranger vocal deu lugar a um ranger aracnídico. Era como se as vísceras das pedras estivessem funcionando e digerindo a própria areia. Então, infinitésimos de buracos começaram a surgir entre as pedras, e, deles, apontavam pequenas, e extremamente venenosas, as aranhas da maldição.

Todas as pedras, desde as pequenas como um grão de mostarda, até aquelas do tamanho de cidades inteiras, estavam ocas, preenchidas por universos de aranhas, que aos poucos saíam, forravam todo o carpete desértico, subiam por pessoas – homens, mulheres, novos, velhos, crianças, doentes, santos, pecadores – e despertavam urros e dor suprema e mortes lentas e dolorosas. O veneno era o mais ácido de todas as criaturas, e o castigo era pior que o de todos os marqueses e condes da História.

Havia, também, Roma e Egito.

Décimo Sétimo ano da Graça das Quinze Estrelas da Manhã – O imperador disse suas vontades, e então partiu, não sei aonde, mas disse ele algo relacionado ao trigésimo faraó supremo das pirâmides. Abençoou-nos, servos, posto que sempre fora o mais justo dos imperadores que estas colunas gregas já presenciaram. Seu barco continua ao porto, suas vestes continuam ao quarto.

Disse-me, neste último crepúsculo, que a vontade das vontades havia chegado. Todas essas paredes brancas feito neve não durariam sequer mais um ciclo d’água. Todas elas, desde as feitas com a mais maciça das pedras, estariam tão ocas quanto uma flauta florestal. Por dentro delas, nem pedra, nem areia, nem água nem ar nem som. Aranhas, mas não aranhas comuns. Talvez a única semelhança com as aranhas que conhecemos fosse o fato de terem oito membros. Estas trariam uma dor nunca antes descrita, um veneno nunca antes imaginado, uma tortura nunca antes pregada.

Nem ele, o nobre imperador, nem o supremo faraó do Egito, nem nós, servos, nem nossas mulheres, tão pouco nossas crianças, seríamos justos e bons suficientes a ponto de sermos perdoados da tortura. Deveríamos todos provar do cálice da dor, e, só depois, poderíamos ser julgados pelos atos feitos em vida.

É um preço a se pagar quando se rouba as correntezas dos rios e a pele das árvores, disse.

- MARCUS (ATL XVII), Ano 17 do Templo Prateado

Aqueles que ainda não haviam sido picados choravam, aos prantos, pois sabiam que não havia escapatória. Estavam cercados pelo rio de aracnídeos e de veneno. A praga acontecia ao mesmo tempo em todos os tempos, em todos os ventos. A humanidade era una, e assim era seu castigo.

Então parece que chegamos ao limiar de nossa loucura. E digo isso por mim mesmo. Tive de ir estudar ontem à noite, uma idéia fantástica surgira em minha mente, eu precisava do laboratório.

Fiz o caminho de sempre, e cheguei à praça do círculo central. Lá, para minha surpresa, notas e mais notas de dinheiro ao chão. Eram notas azuis e vermelhas, e eu era o único por ali. Não seria roubo, não seria trapaça. Era um presente a mim, pensei.

Pois foi que, ao pegar-me a quinta nota vermelha, ouvi uma risada zombeteira vinda da copa daquela árvore. A risada parecia se multiplicar por toda a praça, e me despertava calafrios. Estava bem próximo ao laboratório agora, mas eles podiam ter um carro. Nunca fui maldoso, mas isso de nada vale para estes malucos.

Descera um deles da árvore, e não consigo me recordar sobre seu rosto – estive assustado.

Lembro-me de ter ouvido algo sobre minha ganância, e perguntei se ele, por zombar de mim, também não a tinha. Respondeu-me, então, que se estava falando comigo, então também ele não era digno de salvação. Não sendo digno de salvação, compartilharia seu inferno com todos os que passassem por baixo das árvores – e assim, também, fariam todos os outros que se revelaram por cima delas.

Antes que eu me desfalecesse em desespero, alertou-me que não era um bandido, nem um maltrapilho, nem um seqüestrador. Ele viera para me castigar, mas eu era um dos escolhidos a não sentir dor física alguma – o que não alivia tanto assim as chibatadas.

Cheguei ao laboratório, tranquei a porta, bebi um copo d’água. Havia começado.

- ANDROS, Ano 17 das Colunas Transparentes

Como um naufrágio épico, mas, ao invés de água, eram areia e criaturas venenosas. O convés estava tomado, assim como todas as chaminés imaginárias. Aqueles primeiros que foram pegos, aqueles que se agarravam às pedras grandes, aqueles que brincavam com as pedras pequenas, ainda agonizavam, debatiam-se e, conforme se debatiam, mais aranhas entravam por suas narinas, orelhas e bocas.

Uma pequena parte, ínfima mesmo, infinitésima, já havia sido devorada por completo. Os mais justos e iluminados, neste caso. Eles também mereciam sofrer, mas não por tantos anos.

Assim prosseguiu-se aquele dia onde o Sol parou sobre o deserto. Nunca mais se fez a noite, nunca mais surgiu a Lua pelos horizontes, nunca mais se soprou a brisa gelada.

Como a soma de tudo aquilo que contemplei, vim parar num quarto amarelado com a porta aberta e a cama bem arrumada. Levantei-me, e minhas roupas também eram incrivelmente limpas. Então observei a grande escadaria que descia – não para o inferno, mas sim para a cozinha. Desci-a. A casa parecia vazia e silenciosa, e só havia um dos representantes sagrados que tanto conheço bem – ele lambia os próprios pelos, e ronronava em silêncio, como se não estivesse preocupado com todas aquelas tempestades.

Ali eu esperava por qualquer coisa que devesse acontecer – embora a cidade estivesse em silêncio, eu e aquele que ronronava sabíamos – nenhum de nós estava sozinho.

- SIGMA, Ano 17 da Rainha Amarelada

202 – Constelações e Sadismo no Deserto

Comi cada pedaço e apreciei como se estivesse em meio ao deserto. Na verdade eu estava nele o tempo todo, mas cada vez abstraía-se numa fantasia diferente. Dessa vez, tinha a forma de uma equação diferencial.

O pão embolorado, que parecia mesmo um violão entoando belas melodias, como diziam os oráculos todos ao mesmo tempo há um ano, mais ou menos. O gosto artificial do sangue dos tomates, cada substância conservante, cada pedacinho de sódio alimentavam, sobretudo, meu cérebro.

Foi depois do café. Também tão artificial quanto o sangue (não o meu, o do tomate). Não era exatamente café, mas chegava bem perto; era solúvel, inclusive. Não precisava coar, não precisava ferver água sequer. Era só fingir que fosse café, assim seria, e assim me manteria acordado.

Número engraçado, de fato, deram ao meu quarto. Duzentos e dois. Lembra-me alguma coisa, mas pode ser apenas coincidência. O que, acredito, seja mais provável que qualquer conceito. A menos que alguém do prédio tenha uma cultura razoável e goste de pregar peças em vagabundos (não no sentido antitrabalhador da palavra, mas sim no sentido de vagal mesmo, o que andarilha. No caso, este que escreve).

Creio que essa mistura excêntrica de bolor e sódio e milho queimado era algo que fazia parte do conjunto atual de inspirações para tal relato. Antes as palavras simplesmente não estavam fluindo, uma vez que tudo estava muito abstrato. Comendo esses restos tóxicos, no entanto, tive algo concreto para relatar. Tão concreto quanto a parede que usei de prato.

Beira o absurdo, mas não chega a tanto, é apenas o gosto da civilização-deserto. Quarenta dias prometi perambular entre todos os pecados, aguentar todas as tentações, respirar com vigor cada pedaço de monóxido que quisesse visitar minhas fossas… Há algo me testando, e não quero reprovar e ter de fazer tudo outra vez.

Não sei de onde mente tão maligna poderia tirar inspiração para tal tipo de teste. Deserto, quarenta dias… A originalidade do sadismo por vezes me surpreende.

Outro fato é que a água no quarto está acabando. Numa análise mais profunda, é irônico, também. Justamente NESTE quarto a água está acabando. A hipótese de minha conduta ser regida por alguém mais culturalmente desenvolvido passa a ser até que aceitável. Só não consigo achar os buracos nas paredes. Ora, esse alguém ESTÁ me observando.

Ao menos esta não tem gosto de ferro. Tem gosto de água, o que a coloca muito perto do sangue, do bolor e do cafeóide. E está acabando, assim como o sangue, o bolor… Cafeóide ainda tem muito para os livros da madrugada. Hesitei por demais a abri-los, uma hora teria de ser removida a tampa. Assim fiz.

De qualquer forma, creio que andar por aqui faça algum bem ao que continuo denominando como alma. Estou distante de tudo o que me traz boas lembranças, estou sendo renegado dos direitos mais elementais, como comer e beber adequadamente, sinto-me observado em cada canto escondido do quarto, as montanhas de pedra amarela parecem-se mais com edifícios cinzas e escadarias de metal das cabeças de borracha e a Lapelle’s deve existir em algum lugar aqui por perto.

A qualquer momento pode acabar a bateria, e percebo que foi me negado também o direito a energia e campos elétricos, se é que existe algo assim. Tomemos por padrão MEU conjunto de leis.

Mas, se assim convencionarmos, estou renegado de todo o livro.

Não façamos assim, convencionemos outra coisa. Qualquer outro conjunto de leis que você queira. E negue-se a todos os seus direitos de sobrevivência e de metanoia. Agora estamos numa situação bem mais parecida.

Ela desfilava, embora não fosse um lugar para desfiles. Couro, coturno, correntes. Era a lorde suprema das rodas e do aço forjado. A música rangia pelos arredores e quase destruía as velhas paredes do Eco.

Era longe, afinal.

Talvez esteja alguém supervisionando inclusive meus sonhos, ou alucinações… Em tais condições, é difícil separar um do outro. Deito, olho para o tubo de gás aceso, e em instantes parece que o teto fica translúcido. Vejo o céu, as estrelas, nebulosas, constelações, vejo Escorpião tão afastada de Touro, o que me deixa um tanto triste por essa noite; mas, se sobrevivo a um deserto, não é uma noite que vai fazê-las ficarem distantes para sempre. Até porque acredito na dobra do espaço e nos túneis de minhoca.

Minhocas são seres repulsivos, mas se não existissem a agricultura perderia muito. Talvez muitos morressem de fome se não fossem as minhocas. Não odiemos. Não faz bem.

E, então, como num passe de mágica (leia-se: fome extrema), o céu começa a rodar cada vez mais rápido. Pode ser que isso tenha sido causado pelo fato de minha pessoa, sem ter muito mais o que fazer além de resistir ao testes, não faça nada. E olhe pro céu, que nem existe.

Rodando, acima de mim, tudo passando, contornando as eclípticas, magnetizando, tempestando, chovendo função gama… Tudo, e todos, brilhando, girando… Como uma música feita pelas minhocas do espaço.

Tenho saudades, não preciso mentir quanto a isso… O uso de termos pesados às vezes é necessário, e muitas vezes não podem ser substituídos por outros equivalentes.

Incoerência IX

Ele não queria, e eu ia ficar com muito peso na consciência, se é que posso dizer que tenho uma. De qualquer forma, sabíamos que tal evolução demandava sacrifícios. Peguei a caixa de ferramentas como se fosse um trabalho comum.

Dei-o uma dose de Veigsztran, ele dormiu rápido. Era quase seis da tarde, e estávamos ficando sem luz, precisava agir rápido. Primeiro a serra manual.

Ele não podia sentir nada, uma vez que estava em transe psicotrópico. Continuei o serviço, fingindo que sequer conhecia o sujeito. Na verdade eu não conhecia, de qualquer forma. Era mais um estranho. Era só um experimento.

Tive de separar um pouco as vísceras, para que pudesse acomodar confortavelmente (dadas as condições) uma bateria de Tecnécio, a mesma que pensei em desenvolver há uns meses, como escrevi neste mesmo caderno. Liguei os fios encapados por compostos de Selênio, usei o cauterizador (que adaptei milagrosamente do micro-ondas da fábrica), juntei estanho e estava pronta essa parte.

Os fios que saíram, liguei-os no osciloscópio, para checar se as ligações neurais estavam bem sucedidas. Mandei um impulso de “Olá”, e ele e o osciloscópio responderam positivamente. Bom.

Era um monstro.

- Relatório de Sadi Implattore sobre Automação de Células Nervosas e Aquisição de Reflexos Artificiais, página 184, relato Zero.

Agora, penso, não há mesmo muito o que se fazer por aqui. Talvez haja uma recompensa para tal teste, talvez não, não sei. Pensar muito nisso, por ventura, nem deve ser tão agradável assim. Estou aprendendo a lidar com o gosto dos conservantes… Assim, provavelmente posso criar vergonha na cara suficiente para apreciar com ainda mais zelo os gostos de verdade de tudo o que existe (pra mim).

É chato, eu sei que é chato, mas não custa nada lembrar que a realidade minha é a realidade minha. A sua é a sua. A dele é a dele. Estamos todos no Diagrama, ainda. E, pessoalmente, tudo seria muito sem graça se fôssemos uma única função linear.

Funções lineares matam pessoas, fisicamente falando. Penetram pela garganta e saem, rasgando todas as artérias e veias e tecidos e órgãos e traqueias (agora sequer posso acentuá-las como quero).

Ouço conversas do lado de fora da porta, e um ruído que fica cada vez mais agudo, como se algo estivesse sendo carregado até o limite antes da explosão. A porta deve ter ranhuras que não consigo perceber, alguma ilusão óptica sutil. Estou nu à casa toda, ao prédio todo, à cidade toda. Todas as trapaças são possíveis, todas as armadilhas são prováveis quando se está num deserto assim.

E nem tenho uma motocicleta.

Ela o fez. Assim como eu também o faria, se ela fosse. A situação não requer tipo algum de crítica, não foi nenhum tipo de jogo sujo. Admito isso da forma mais sincera possível.

O que me chateia é que eu não estava lá. Eu não pude participar. Como sempre aconteceu… E, como (soluço) temo que não pare de acontecer.

Temos esses momentos de fuga. De se esconder por baixo do travesseiro e lacrimejar. Houve uma festa, todos se divertiram. E eu não pude sair de casa. É uma sensação além da tristeza. É a sensação de ser preso e não poder estar onde se quer no momento em que se quer.

É a árdua sensação de se sentir humano clássico.

Eu só queria me sentir incluído nas músicas, nas bebidas… Mas a festa sempre acabava comigo no canto. Sempre.

Nota ao Senhor Heinsenberg: :( .

Ao menos, também devo concordar que estar aqui é bom para digressões. Embora seja difícil pensar linearmente, algumas coisas acabam por concretizar as conjecturas. Não que isso seja bom; aliás, está muito longe de ser bom, mas nos quarenta dias do deserto não há ninguém além de mim e da banca analisadora. Disfarçam-se por síndicos, vendedores, comerciantes, fabricantes, empresários e encanadores. Vejo inclusive belas moças com papéis de impostos nas mãos, cobrando tarifas e atendendo telefonemas. Quadratizadas, robotizadas. Não são de verdade. Quem planejou tudo isso me subestimou nesse ponto, e digo isso sem qualquer tipo de exaltação.

Talvez quem esteja subestimando seja eu.

A queda é maior quando se está mais ao alto, e disso até a sabedoria popular é ciente.

O céu não para de girar enquanto tudo isso penso. Posso fazer as paralaxes, contar estrelas, fazer desejos aos asteroides… É uma fonte dos desejos. É azul-escuro, tal qual água de fonte digna de desejos. Não tem gosto, mas mata a sede. Não tem peixes visíveis, mas a vida pulsa. Além disso, ainda há muito mais que não se pode enxergar. Coisas boas e ruins.

Espero obter melhor sorte e observar mais coisas boas olhando com atenção, ao invés de imitar velhos astrônomos e bradar que o Sol não é perfeito por possuir manchas.

Pra mim o Sol é perfeito. E as manchas nada interferem em minha visão. Tudo tem manchas. E nem por isso deixa de ser perfeito.

A natureza é a perfeição que tentamos equacionar, imitar, decodificar, e nunca conseguiremos.

O deserto beira a perfeição do sadismo. Mas podia ser pior.

Muito pior.

[Welcome] V/R

[Welcome]

There I was
Walking by the yard,
I entered the room.

There it was
Burning by my eyes,
Lightin’ the dark.

I entered the fire.

Something uncertain,
I could see what I am
Far beyond
Anywhere but here.

Then my own hands took me
To a distant desert over the wind,
So where a kind of angel stared
With time in hands,

The hourglass almost flying away.

An infinite ground
Not sand, but shiny bend
Over my consciousness;

When I came back to the room
They all drunk the beer,
And an old cup then fell.

I began stepping through the broken glass.

- S/WH/314 -L

Cactaceae

Tudo já havia ruído há tempos, há tempos, há tempos…

-

Parecem cenas longínquas; mas não foi há mais que alguns minutos. Acreditar que tudo esteja tão fora de alcance talvez dê certa magia para aquilo que é meramente normal. Com o aparato certo, o barulho até diminui um pouco, substituído por outros.

Outro daqueles sonhos estranhos, sem sentido, assustadores e cheios de gradações.

Depois de um pequeno intervalo, vi-me na sala velha, uma casa sem portas. Olhos olhavam para mim entre as rachaduras da parede, as janelas mostravam qualquer paisagem que não me recordo.

Escondido ali ao lado, o buraco tapado. Vedado e Marcado.

Por trás da barreira, o estreito caminho para baixo, na mesma conhecida espiral sem término. Mas uma hora havia de acabar.

Portanto comecei minha descida.

As paredes ficavam cada vez mais escuras e rústicas, alguns fungos começavam a aparecer entre os tijolos que já saltavam; um cheiro estranho de necrose. Talvez houvesse algo além das paredes que recobriam a espiral para baixo, mas naquele momento eu só precisava descer.

Abre-se a ultima porta da espiral. Rua, deserto, noite. Lua. E algumas estrelas também.

Da estrada se via apenas o asfalto, as linhas e o vazio, em qualquer sentido vetorial ou sensorial. Como se fosse um pedaço do céu escuro que havia se derretido sobre a Terra. Não estava frio, no entanto, apesar de ser um deserto com seus augustos cactos e arbustos.

Um ponto de esperança se fazia onde antes não havia eu olhado. Era um bar vazio. Com duas pessoas dentro, ou três, não lembro.

Embora fosse eu o forasteiro naquele lugar, fui relativamente bem recebido pelas ilustres desconhecidas, cumprimentaram-me, convidaram a sentar na mesma mesa, de alguma forma os rostos não eram de todo estranhos, mas eu apenas não conseguia juntar os pontos. De qualquer forma, lá conversei por alguns bons momentos, em algum idioma igualmente estranho, e igualmente caloroso.

Então, como deve você ter imaginado, Sábio Viajante, também não me lembro da conversa.

Algumas frases ficam, outras não, outras vão em vão.

E, quando eu já pensava estar diante das únicas pessoas sobreviventes no Universo em que me encontrava, vi estar errado outra vez. Alguns veículos semelhantes a motos estacionaram, trazendo consigo os trovões, o metal e as pedras lascadas. Depois de um corte insano, estávamos em paz com o fogo.

O inferno cederia, os portões todos romperiam, a ampulheta das eras humanas estava em nossas mãos, conseguíamos sentir a essência de tudo aquilo que aconteceu o que ainda aconteceria, mais uma das experiências onde pude perceber o Estado Zero. Com uma tocha em chamas levantada, algum tipo de animal sendo assado numa fogueira, o deserto e seus ventos, que agora já estavam um tanto gélidos, mas nada de assustador; os desenhos rupestres não precisavam mais de cavernas.

El Desperado [Srcfg]

Muitos se preocupam em como sair, mas eu não; não agora. Todos já estão correndo desesperados, para salvar qualquer vida (embora duvide que isso seja possível a tal altura), tentando ser mais rápidos que a própria criatura. Criador correndo da Criatura. Papéis se invertendo, novas regras sendo ignoradas, e nada parece se encaixar.

Por isso eu apenas parei perto de um dos grandes pilares, e pus-me a observar; e, por incrível que possa parecer, não sou o único.

Aqui ao lado, o Marteleiro; o filho de Marco Polo; a Atriz Clarividente; a Deusa do Fogo; e, por fim, a Telepática.

Enquanto o caos reina, cantamos, dançamos e rimos. A cidade toda fica cada vez mais vazia, mas é um ambiente tão diferente que, se nos concentrarmos em salvar as nossas vidas, acabaremos não mais vivendo.

O Egito é uma dádiva do Nilo. A vida é uma dádiva do caos.

-

Qualquer um escreve coisas sem sentido.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.