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O Conto do Milênio – Capítulo 2: Punhal da Lascívia / A Sala Esverdeada do Fim

Em meio à gente toda uma delas tinha a marca. Era em sua perna, tal tatuagem feita há décadas. Tinha o destino selado, e não parecia saber. A verdade é que de tudo sabia, e manipulava os contornos até chegar numa resposta convincente. Fingia-se de cientista – era assassina, psicopata e sádica.

Um cientista nunca deve saber de tudo, e foi isso que a entregou para meu olhar rápido, tolo e enganado. Ela parecia gostar de acreditar que sabia de tudo, mas não percebeu que essa era justamente sua maior fraqueza.

Sempre me considerei uma boa cobaia, mesmo que o experimento me custasse a própria vida. Percebi as armas. Para o fuzil dei munição. Para a pólvora, cuspi fogo.

Para a faca, ofereci meu pulso.

Não era deusa, nem nada parecido. Não era gentil, nem ímpar. Era tudo o que se via, mas o era de modos extremos. Não dormia. Um copo de café não era suficiente. Uma noite também não.

Eu queria a certeza. A certeza não vinha… E eu implorava pela certeza.

Numa semana de festividades, eis que bateu à minha porta a revelação. Não era a certeza, mas uma mensageira. Tinha voz colapsada dentro da agonia, e me dizia em tons claros aquilo tudo o que me devia ser dito, mas era escondido pelas armadilhas do mesmo mar.

Andando por dentro da floresta, acabei por descobrir fogo. E o fogo queimava as folhas, e deixava tudo menos e menos esverdeado. O mundo era tomado pela civilização; era triste.

Por outro lado, nada eu poderia fazer quanto ao rumo das coisas, senão as coisas minhas. É impossível mudar o caminhar do universo, mas está ao nosso alcance encontrar nossos próprios passos à grande avenida por onde passam os carros carnavalescos.

- Norton Green. Prévia Diretriz. 1856, Relatório Superfície. Excerto.

E tudo se passava diante de minha mente enquanto o béquer carcinogênico era preenchido por uma bebida escura e forte. Penso eu que podia ser petróleo. Os bêbados brindavam ao barulho; as portas ficavam abertas a quem quisesse entrar, e as curvas da luz destoavam da realidade local.

Era confortável se sentir deslocado do próprio andamento do mundo, então bebi mais uma dose.

Sentado numa sala esverdeada, caindo aos pedaços, a cadeira é o que me resta das minhas lembranças passadas e dos cheiros bons que já sumiram. São imagens desprendidas e desapegadas da realidade e das tessituras compassadas que formam as grandes cadeias morais… São as traduções mais honestas de todas.

Claustrofóbico dentro do meu próprio pesadelo, procuro por alguém para me dizer algo real. Acho, enfim, alguém que se mostra cercada por gente igualmente fétida e que me causa a mesma sensação de claustrofóbica. São dez minutos no meio da madrugada estrelada e cheirando a cerveja barata, mas ela continua a se vestir como uma mulher bem arrumada para as conversas secas que acontecem nesse meio tempo.

- Norton Green. Impressões sobre o efeito do desmatamento em ordens públicas de catástrofe. 1876. Excerto.

À sala eles, ébrios, e elas, tomadas por devassidão, se deitavam, gritavam, escalavam por cima das janelas, e a noite pulsava no mesmo ritmo da inconseqüência. Novos e velhos se juntavam na quebra das leis. Mundos se contorciam aos sofás das regras.

O começo era não dormir.

Algo vinha de dentro e queria ser expelido à boca da assassina, enquanto esta apenas me mostrava delicadamente as lâminas afiadas, as mesmas que me conheceriam tão bem depois de um intervalo.

Das semanas veio o silêncio, e do silêncio o filme artificialmente colorido e sonorizado do começo do século passado.

Um médico e um monstro. O louco que preside o asilo e controla o sonâmbulo. O circo ainda estava lá.

Quando o tempo parou, a assassina e sua faca entraram por minhas mãos, e espalhei meu sangue por cima dos cabelos, das roupas e do chão. Não havia conceitos. Nada se livrava dos espirros. Era o ladrilho, era a pia, era a parede, era a bíblia.

Ela ria, e sussurrava para que não parasse até que minha última gota de sangue fosse expulsa do meu corpo – erro bobo; já nem podíamos saber que sangue era meu e que sangue era dela. A única diferença é que por dentro de tão sádica criatura corria um sangue tão doce quanto jamais havia provado até então.

O gosto do meu já era bem conhecido por mim mesmo, e não sei mais se é doce ou salgado ou amargo. É apenas meu, e isso de maneira magnificente. Assim como tinto e seco é o vinho que mais gosto, tão somente meu é o gosto que mais aprecio.

Não havia, entretanto, problema em degustar o doce que emergia da psicopata.

Costumamos nos sentir mais vivos à medida que a vida vai se esvaindo. Carreguei-a, enquanto todos nós dois, ensangüentados e quase desmaiados, aos meus ciclóides. Não era uma diferença gritante, mas minhas mãos espalhavam ainda mais sangue agora pelos lençóis, e minha boca mordia e fazia escorrer ainda mais glóbulos dentro do corredor.

A casa toda, lentamente, ficava tomada pelo suco rubro do anti-pensamento. N’outro dia, sabia eu, tudo seria carregado com a água que limparia o chão e os cobertores e as roupas, mas pouco importava. Já não tínhamos mais sangue, qual seria o problema em perder um pouco de boas memórias?

Dali adiante corremos todos, e o contato mais próximo depois do assassinato consentido foi uma dose de café. O café mais amargo de todos, uma noite mal-dormida e impregnada por certezas.

Veio. Era incômoda, mas lá estava, depois que pedi tanto durante a era anterior.

Veio a certeza.

Líquido Espelhado da Inspiração

Líquido da inspiração, que flui por minha garganta e encontra cada artéria e cada sonho e cada pesadelo…

Ao meio da madrugada, buscando o sono, bebo um cálice de sua existência e me torno parte de toda a espiral de complexidades que esmaece em torno de toda somatória existencial que há no Universo; procuro por olhos onde não estou sendo observado, busco códigos em paredes lisas, nada posso ver antes de ultrapassar a Linha e mergulhar no infinito das galáxias interiores.

Depois da tormenta e das sombras e das praças confusas do prefácio, encontro os salões infinitos feitos apenas para duas pessoas. Deslizo por seus reflexos espelhados, por tudo o que você é de verdade depois das noites, e posso dizer sem eufemismos tudo o que se esconde em meu respirar, tudo o que há depois dos dióxidos.

Olho para os postes na neblina enquanto sinto a fumaça percorrer meus cabelos aos poucos segundos antes de acordar outra vez…

Por que há de ir embora toda noite?

TSH-1619

The Nanny Words – Eng Mec / N. Santos Neto 7D, 7C, 7D  04:00 A.M -> XTR

Rio x

Cuba v Race-Z

A ampulheta se contorce, o delírio começa. A linha fica cada vez menos difusa, a luz faz uma curva cada vez mais definida. Lá vamos nós.

Nós somos muitos.

Num primeiro momento, além do café, há um céu escuro, azul bem escuro, de trás pra frente. E frio, muito frio, no meio das montanhas distantes. Um cristalino por dentro de novos olhos, uma nova visão.  E frio, e pouca gente. Gente o suficiente.

Outra vez o objetivo era alcançar o grande castelo. Dessa vez, por graças ao Sir Wallace, não era uma jornada solitária. No acampamento, discutíamos sobre dobras de calças e zíperes. Sem qualquer maldade, apesar de ser tentador. Devemos controlar nossas tentações, de vez em quando. Não é um ato instintivo, mas é para a evolução.

Entrei pelo túnel e vi o grande campo dos orbitais. Tais todos. Menores porções de matéria ou energia, um grande gênio dividido em quatro pedaços eletromagnéticos repulsivos e atraídos gravitacionalmente ao mesmo tempo. Havia um método para juntá-los todos, mas o máximo que se conseguia era juntar dois dos pedaços. A repulsão eletromagnética era extremamente mais intensa que a atração forçada das forças esquisitas. Mas havia um jeito. Tudo corria à velocidade da luz, e tinha as cores primárias e não consigo descrever de outra forma, era uma máquina, era um gênio, e isso estava longe, muito longe de ser a resposta definitiva para qualquer coisa.

Era só a porta de muitas outras perguntas.

Mr. Tesla, como posso sentir, ri de toda essa corrida de ratos. Estivesse ele aqui entre nós fisicamente, já teria escrito documentos e mais documentos, e nesse momento estaríamos voando livremente pelos céus nublados.

Mas não à velocidade da luz, obviamente.

Toda uma divergência, e, pelo que parece, minha nave microscópica ultraluminífera não é o suficiente para entender de fato mais essa jogada do grande jogo de xadrez do livro vermelho. Duas das partes, mas não todas. Dessa vez.

A nave era prateada, pequena, triangular. Deveria estacionar-se ao meio dos quatro pedaços do gênio ao mesmo tempo. Precisamente ao mesmo tempo entre todos os tempos.

Num pseudodespertar, há a televisão à minha frente. Um ser gordo, de terno, com voz de mulher. Não era a voz dele, eu sei. Sua fala estava sendo dublada. Não sei por que, não sei se era algum tipo de censura, só parecia muito estranho.

De volta ao acampamento, uma das discípulas que vestia calças azuis apertadas apontou ao poste. Não eram pássaros, eram enigmas. Como cordas entrelaçadas entre os elétrons, infinitos nós e quase-letras formadas; blocos, tetris. Não consigo recordar quantos e nem como. Podiam ser reajustados, realinhados. Eram blocos, era um grande enigma. Eram cordas entrelaçadas, eram infinitas possibilidades.

Talvez até houvesse uma clave de fá.

O juiz fora preso, disse-me o médico professor. Careca, barba branca e jaleco. Eu não era um aluno dele, mas convidou-me a assistir especialmente àquela aula. Não sei qual a disciplina, mas havia um lugar vago, e apenas um. A cadeira era branca, e não havia mesas. Parecia-se mais com a configuração de uma palestra-aula. Qualquer coisa assim. O médico tinha sotaque indiano, embora não me tivesse dirigido palavras que me lembre perfeitamente do significado. Eu entendia sem saber nada.

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O café ficou um pouco menos forte que o preferível. Mas serviu para me deixar acordado. Estive pensando sobre as escadas, tanto nos macrocosmos quanto nos microcosmos.

Uma escadaria, não sei para onde (não farei relações com dirigíveis de chumbo aqui, embora já tenha feito indiretamente), e um ponto notório:

Quando se sobe um degrau, deixa-se de existir no degrau passado, e passa-se a existir no degrau de cima.

Não sei as aplicações futuras disso, mas haverá de aparecer em tempo.

Uma das últimas cenas, e talvez por alguma interpretação Jungiana possa ser dramática. Havia um submarino emergido. Eu por cima dele. Deslizei após chegar à máxima resolução do problema da nave prateada. Escorreguei pela esquerda, e caí de costas n’água, no meio do oceano.

E a água me puxava cada vez mais para o fundo; eu não podia respirar.

κινεῖν

Tudo começou com um café. Não era uma cafeteria, nem um posto, nem uma casa qualquer. Havia macieiras ao lado de fora, estava noite e eu estava perdido. Fui parar ali porque era o único lugar por perto. Era aquilo ou o mato para dormir, e já estava tarde. Eu sempre atrasado.

Gostava de acordar cedo.

No entanto, a conversa entreteu-me. Havia uma maçã sobre a mesa, mas não comemos. O ser em minha frente, de longos cabelos brancos, e um semblante inteligente, começou a divagar. Perguntou se eu sabia por que a maçã cairia se eu a jogasse da mesa. Como não consegui resposta convincente, ele continuou.

Falou, então, sobre as maiores montanhas que existem nesse mundo tão estranho; falou sobre os oceanos e todo o peso que a água tem, e como ela, mesmo assim, sobe aos céus e volta durante a chuva. Falou sobre a Lua, e como seriam as montanhas lunares; como seria, agora que vira quão imperfeita a Lua é de perto.

Ele podia voar?

Era uma casa qualquer, com alguns equipamentos estranhos, é verdade, mas nada de rebuscado à fachada. Havia pilhas de madeira, macieiras, telescópios e ampulhetas e luminárias. Parecia que tínhamos algo em comum, afinal: ele também não dormia adequadamente.

“Há muito que se ver por aí durante a noite”, disse ele, apontando para cima. “Se há algo maior?” indagou ao vento sem resposta. “O que poderia ser maior, por que pensamos em algo maior, por que procuramos algo maior?”

“E por que todos eles querem que acreditemos ser o centro?”

“Há uma fogueira, muito perto daqui. Junto dela, toda uma praça. Junto da praça, pecadores. Junto aos pecadores, padres e cardeais. Junto aos cardeais, a salvação divina. Olha bem para esta maçã, ela representa o pecado inicial. Ela mostra a queda do ser humano, a perda da imortalidade. A expulsão do Éden. Isso é esta maçã.”

Tomei outra dose daquele café amargo, forte e quente. Por sorte, a temperatura local era agradavelmente baixa. A lareira estava acesa, um felino amigável ronronava pela casa, era um ambiente ideal para tais divagações.

“O céu, sim, o céu. Pode sair por aquela porta e olhar agora mesmo. Ele se estende até além dos campos e das vilas. Ele dobra, ele curva. Como se morássemos numa grande bolha. E também não posso dizer isso publicamente, você sabe. Não é interessante mostrar que moramos dentro de uma bolha. Temos de ser planos, retificados, regrados, calculados. Eu não calculo seres humanos.”

De fato, achei a idéia palpável. Convidei os dois a saírem da casa e contemplar a grande abóbada por meio de tão complexos instrumentos. O céu estava sem nuvens, e não havia muitas luzes por perto. A Lua realmente parecia feita de queijo, deliciosamente lisa, mais lisa que as pernas da melhor dançarina de toda a Grã Bretanha. Mais prateada que a prata mais polida da Rainha. Mais distante que meus próprios sonhos.

Mas, se eu esticasse o braço, quase conseguia tocá-la.

Após uns ajustes, ele me chamou a contemplar pelo olho de vidro: vi, então, aquilo que vi nos livros e não conseguia realizar quão verdadeiro poderia parecer. Era algum tipo de esfera com discos. E eles faziam sombras na esfera. Como poderia… Era minha imaginação pregando peças? Era um sinal? Miragens, talvez?

“Veja, há muitos outros além de nós! Vivemos numa bolha, pois esta é a natureza que nos foi imposta. O ser supremo que tanto tememos é a personificação dos nossos próprios medos. Somos esmagados pelo simples ato de não olharmos com atenção às coisas. Não perceber todas as nuances que uma curva traz, não perceber todas as distorções em cada letra de uma equação, não perceber como até o céu pode mudar de cor dependendo da estação do ano, como o cheiro do mundo muda, como os sons mudam de afinação, como tudo se movimenta.

Estamos em movimento agora mesmo, olhe os pontos próximos à grande esfera com anéis. É um ser de sorte; temos apenas uma dançarina que rodopia sua roupa prateada ao redor de nossas montanhas e nossos mares e nossas florestas. Ele, por outro lado, tem tanta magnitude que pode escolher qual delas levar ao quarto. É intrigante pensar que não temos tanta escolha assim. Aqui estamos, afinal. Nossa única escolha é respirar e perguntar. Nem sempre responder, mas sempre perguntar.

Não é necessário que fiquemos trancafiados em celas com crucifixos esperando o grande Messias descer dos céus com suas fogueiras e sua justiça. Não existe justiça no que chamamos de Natureza. Ele não vai descer. Se há alguém supremo, que montou minunciosamente todo esse sistema, jamais descobriremos todos os segredos. Tudo o que sabemos, o que soubemos e o que saberemos são, foram e serão dádivas dadas a nós por nós mesmos. Se há um ser supremo, ele quer que provemos da maçã; ele quer que olhemos para o céu e percebamos que não estamos sozinhos; ele quer que construamos os instrumentos para tocar as músicas. Num momento precisamos largar nossos medos e contemplar como a maçã não é venenosa.

Aliás, ela dá um chá ótimo, posso garantir.”

Depois de tempos e tempos conversando sobre derivações, gráficos, gregos e exaustões, voltamos adentro, onde fui presenteado com alguns velhos livros salvos de queimas de bibliotecas. Desenhos, esquemas, projetos, coisas que voam, homens que flutuam, desintegrações da própria matéria, questionamentos, amarelados envelhecidos…

Existem relatos impassíveis de término. Olhando para o céu, percebi como o sentimento de solidão que a espera nos causa é ilusório. Só ficaremos sozinhos se assim pensarmos.

Pensei, também, antes de conseguir pegar no sono: talvez sejamos mesmo o centro de alguma coisa. Talvez carreguemos o centro de algum Universo conosco por todo o lugar. “Andei colinas e colinas a partir da Anatólia”, diz um viajante. Ele traz toda a Anatólia consigo, e cada pedra de lá dentro de sua cabeça. “Vim das raízes da criação”, diz o profeta. Ele traz a criação de tudo consigo, também, e não duvido. Não duvido de quão eterno ele possa ser. Ele diz, não tenho por que refutar.

A eternidade é como a dançarina que veste prata todas as noites, e aparece refletida nos muros de cada casa, mesmo que estejamos com os olhos fechados.

Ciclos Radioativos

Saudações! Viajantes, hoje deparei-me com uma dúvida: onde começa a noite? É quando o Sol se põe completamente? É depois que a Lua fica ortogonal à terra? É quando fechamos os olhos? Quando apagamos a luz? Quando dormimos? Quando o relógio diz que é? Onde começa, afinal?

Uma noite talvez não comece num momento exato, talvez a linha que separa dia e noite seja tão tênue… talvez sequer exista uma linha que divida dia e noite. É como o calendário, é uma questão de não se perder…
Tão incerto é o começo da noite, como incertos são todos os caminhos que as portas das estrelas abrem a cada madrugada. Uma xícara ou duas de café, uma garrafa de vinho, talvez um banco numa praça silenciosa, com ninguém a exceção dos fantasmas que correm por labirintos…

Era verde a árvore, ao menos parecia toda vez que olhava para cima. Estava na sombra da sombra, procurando onde dormir. Queria uma casa, qualquer casa. Um abrigo para poder ficar nos dias de Sol ou de chuva. Queria a cidade como casa. Queria ser parte da cidade. Ser parte de cada pilar, cada luz de cada poste, cada entulho.

Doze minutos, contando agora. Doze minutos é o que resta de bateria para este comunicador. Preciso recarregá-lo… Por tão admirável sorte hoje está bem ensolarado, dadas as devidas proporções do que é um dia ensolarado aqui por essas terras. Preciso ser sucinto. Também não há como detalhar muita coisa.

É mais difícil colocar uma roupa ou tira-la no meio da madrugada, embriagado? Olhar para os olhos de sua musa mentirosa, sentir-se enfeitiçado, como num passe de mágica, rasgar a própria camisa e atirar-se rumo ao nada?

Metalingüística pode até parecer engraçada: escrever sobre escrever… respirar inspirado no próprio respirar… festejar rumado pelo ato de festejar… soltar fogos feitos de fogos… tirar fotos feitas de luz…

Caindo, caindo outra vez nos mesmos acordes dos mesmos instrumentos, iludindo-me com as mesmas palhaçadas e truques de ilusionismo de sempre. Por um lado até que parece bom, ao menos tenho com o que alimentar minha vã imaginação, deixando um pouco de lado toda essa parte de documentário frio envolvendo acidentes nucleares… Tudo tem sua pergunta inocente.

Heart as a Cup of Wine

Dear lady who live on the walls,
Inside my neck, within the breath;
Why can’t you melt this air we inhale,
Instead of humming wet songs in my ear…?


Dear lady who stand on the corner,
Floating at the photovoltaic bottles,
Writing foreign symbols in the wood;
Such hot invisible curves,
Such strawberry-smell infinite hair,
Which insists to follow this fool heart
Anywhere.


For an uncertain lady I close my eyes,
Then I dive in the glasses.

- Brnöke Lastläkke

Caesar

III – Saloonbre

Buscando novas páginas
De um velho livro lido
Enterrado às encostas de qualquer montanha
Queimado por qualquer Sol desfalecido.

O circo ia e voltava, caravanas cheias de especiarias das mais distantes terras que a vista poderia imaginar existir em tão pequeno grandioso mundo. Teatrais dramas e comédias, sobretudo as comédias, e o teatro enchia de gente. Quinhentos, ou quase isso. Riam, ofegavam, gritavam, falavam e bebiam champanhe.

Foi então, depois, à carruagem até mais uma taverna. Garrafas, mais garrafas, e sequer tinha começado sua noite. Olha para a ampulheta e para o calendário universal, a noite estava em seu ninho, pronta para o vôo. Um último gole e levanta-se.

Cambaleia um pouco, mas nada de agravante. E segue a trilha sem carruagens. A Lua refletia o Sol, e o tijolo prateado brilhava ainda mais. Alguns ruídos vinham da taverna do final da cidade, e era para lá que seguia. O livro do mago, enquanto isso, dizia sobre os nomes.

Entra, e sobe a escadaria. Um dia, há muitas eras, poderia sentir-se o cheiro da fumaça e da neblina que ocorrem quando dimensões tão abstratas confundem-se. Dessa vez, porém, o céu estava um tanto mais limpo, e as únicas nuvens estavam a uma considerável altura. Então pega uma mesa.

Outros antigos jogadores, suas cartas em mãos, meretrizes vagueando ao longo do recinto. Saliências, lábios, maquiagens. As meretrizes se abraçavam, apertavam, esfregavam, suavam, mordiam e os bardos cantarolavam, nesse meio tempo, sobre as correlações e sobre a distância. A taverna, tomada de bêbados e belas ninfas, parecia gritar junto aos bardos. Cada compasso, cada corda.

Havia uma, entretanto, que confundia as palavras e os copos. Não se sabe exatamente o que acontecia dentro dos dendritos, ou o que as correntes tilintavam quando os ventos espalhavam pelo salão o perfume tão único. Era outra sensação, mas não outro cheiro. Este, incrivelmente, parecia permanecer em certas ocasiões em pessoas tão distintas.

Mas não era uma meretriz, e tudo o que Caesar podia fazer era olhar de longe. No máximo aconchegar-se um tanto de passos e só. Preferia, então, continuar seus jogos e suas bebidas. Estas se entregavam como sempre.

Junto aos companheiros de tantas caçadas, subiu à mesa. Levantou uma taça de vinho, e ofereceu-a a todos os que, do Grande Monte, bradavam seus contrabaixos junto aos bardos.

Três, uma carruagem cruzou a trilha, solitária. Não havia tantas preocupações que o tempo se encarregaria de trazer. Caesar viu-a sumir no horizonte, até onde acabavam os tijolos prateados, adentrando pela floresta. Desejou boa viagem e saiu do salão.

IV – Os Sete Mares

Um homem precisa viajar, disse certa vez o Grande Navegador. Como Roma fora, todas as estradas levavam ao rio. Não havia, entretanto, necessidade de navegá-lo arduamente, uma vez que pontes foram erguidas para as carruagens e carroças e pernas e batatas. Algumas curtas milhas, florestas ao redor de tijolos, chaminés ferreiras erguiam-se próximas aos alambiques, estes pareciam brotar feito árvores dos brotos do tempo.

Entra a chuva.

Fita a relva
Vaga as finas estruturas
O tempo, o espaço,
Como se ourives montassem esculturas.

Um posto de observação, um ponto de encontro entre trilhas, e ali então resolveu esperar pela próxima diretriz. Eis que a janela se abre, primeiro para um grito embriagado, e então para os olhos da francesa. Ela chama para dentro, diz que conhece para onde ir, como ir.

No meio tempo, Caesar refletiu sobre vértebras. Discos e ossos, medulas. O que era a postura correta? Por que era a postura correta? Ao seu lado, a francesa largava-se de qualquer jeito sobre o banco reclinado, não era posição de qualquer forma ergonômica, mas era de extremo agrado aos olhos de quem via. Não possuía fartos atributos, mas por algum motivo despertava os instintos mais primitivos… Quanto pleonasmo.

A viagem toda pareceu encurtar assim que ele começou a reparar na excentricidade elegante da francesa. Pudesse mudar o mapa, faria. Colocaria o destino há mais milhas que o necessário, pelo simples prazer de despi-la com os olhos.

Chega, então, ao local demarcado com um X. Mais criaturas andavam para lá e para cá preparando as bebidas e as caças. Havia de ter uma grande festa na mesma noite, e Caesar chegara, como sempre, antes. Mesas vazias, mas algumas bebidas já disponíveis, e nelas ele conhecia um pouco mais da cidade dos rios. Os cheiros, os gostos, as texturas dos rios que cortavam os eucaliptos.

Ao passo que começavam a chegar as caravanas de longe, mais e mais gente adentrava, mais e mais bebida era tomada. Num momento de distorção (provavelmente provocada por alguma das bebidas eucalípticas), Caesar pensou ver a francesa, a anfitriã e mais uma ou duas iniciando um festim. Viu não conseguir conter-se e se aproximou. De primeiro momento, ouviu os estalares e cochichos e leves gemidos, depois prestou atenção no aroma florestal das bebidas derramadas. Estendeu a mão, ainda confuso, e nesse instante tinha certeza absoluta que não tinha certeza de mais nada: se era realidade, o que quer que fosse a realidade, ou se era outro delírio causado por tantas humanidades juntas. Qualquer que fosse, não pararia. Continuaria até que fosse acordado, até que acordasse no chão e percebesse que nem saiu do lugar. Continuaria até que as árvores caíssem diante de seus olhos. E continuou de fato.

No outro dia, juntou seus pertences, usufruiu de alguns restos de bebidas e partiu logo cedo. Nem pôde olhar atentamente outra vez a francesa, o calendário circular continuava correndo pela parede.

57–

O Assassino – I

Vida mesma, bicicleta e porão. Sábado nublado, TV, madeira. Janela, talvez. Grama, piscina, rio. Ele também ria. De longe das casas comuns, obviamente. E em sua bicicleta havia as inscrições que o tempo fizera, desde os pneus lisos até os oxidados na lataria setentista. Martelo, marreta, parafusos pregos chaves de fenda.

Quando badalava seu alarme, empunhava sua bicicleta, pedalava e chegava ao alto da colina que levava à cidade, esta se preparava ou para dormir ou para festejar. Trazia consigo a chuva e as tempestades, não que isso inferisse ele ter algum tipo de poder. Era apenas coincidencial. Como tudo o que ele gostava de fazer.

Primeiras descidas, fábricas velhas desmontadas, Lapelle’s, estações de trem moribundas, museus de hipocrisia e mais folhas velhas e secas e mofadas, o clima úmido deixava tudo cheirando muito mal. Passava defronte ao bar, também oriundo das doenças urbanas que tentaram outrora por lá se arrastarem como centopéias e pararam no meio do caminho. Frituras podres, garrafas velhacas, mais cheiro ruim e alguns desolados do purgatório com tacos em mãos, ou já desmaiados pelo balcão.

E Ele com sua bicicleta passava, observava alheio, não reparava muito. A cidade não ia esperar até o Sol.

E volta a ver por cima da colina a descida que agora sim levava às luzes. Vento não muito frio, mas com certeza não era quente. Uma grande avenida cortada por um rio medíocre e sujo. Num dado momento Ele pára e olha o mercado. Encara, formalmente dizendo. Já nada aberto, dado o horário. E continua a percorrer a avenida, como alguém que dirige uma lâmina por um pulso e não se importa com o sangue a derrapar os pneus.

Ele realizava gritos em seu íntimo, e tanta agonia retirava-lhe um sorriso singelo da face. A avenida crescia para trás e diminuía pela frente, sua barba grisalha e sua pele albina guardavam as caixas da decadência, mesma essa explorada tanto há tanto tempo pela Centopéia de Fumaça.

Outro posto e outro bar moribundo, algumas putas embaixo do viaduto, alguns caminhões parados e ônibus. Carros de vez em vez passavam a buzinar e a exalar tantos sons que entravam por ouvidos, nariz, olhos e boca d’Ele. Talvez sentisse um pouco na pele também, algumas horas música meio áspera, n’outras suave. Mas nada disso importava, seu crucifixo estava no bolso, ele tinha um dever.

Eis que no final da segunda avenida pela qual passou sua lâmina encontrou as torres de energia, e saindo delas os fios que condensavam todo o breu urbano e imitava o grande astro do sistema tirando o medo dos porcos que se escondiam embaixo de cobertas invisíveis, protegidos por outros seres, outras imaginações, outras freqüências, que sequer existiam. Ou existiam?

O caçador encontra a caça, afortunadamente. Três que andavam sobre os pés, passando próximos a outro abandonado ali na esquina. Ferro, ferrugem, insetos e um cachorro-quente pronto para ser vendido.

Eis que Ele, sempre virtuoso, joga a bicicleta e atrapalha a trilha. Os três, robóticos, não se dão conta e apenas desviam, como um ser pré-histórico desviava de uma pequena pedra, nem se preocupava em removê-la. Passaria por dentro das maiores se necessário fosse (logicamente, não consideremos os três gregos).

Param, então, e ficam a contemplar a barba e a pele albina, já avermelhada, acrescida de um vasto sorriso de gratidão e satisfação. Tira o crucifixo em forma de pistola do bolso, mira no primeiro cabeludo e dispara no mesmo ritmo em que a Morte lança sua foice no começo dos livros dos elfos. Um certeiro, bem no meio da testa. Mira ao segundo, de face desconhecida, e volta a disparar a salvação divina em chumbo. O terceiro materializa um outro veículo e começa sua fuga (não tão virtuosa quanto as de Bach, no entanto). O caçador, já satisfeito com dois caçados, não fica muito preocupado, lança os céus chumbados à torto, atinge o rim, ou a área próxima ao rim esquerdo.

Enquanto isso, na outra bicicleta, descendo as torres e os fios, o segundo cabeludo sente o calor por suas pernas de seu próprio sangue a escapar de si, vai cada vez mais próximo à sua casa: num dos últimos momentos grita por acordar.

E vê-se sozinho jogado em sua própria cama.

O Gato – II

Uma garagem às seis da manhã, não tava tão frio quanto Julho, nem tão calor quanto Dezembro, mas estava no mesmo tom azulado. Portão vinho, um carro encostado à esquerda e, à frente, eis que estava o felino.

Do branco acinzentado, logo passou a se modificar, ficando cada vez mais alaranjado, pulsando, parecia um tanto ácido de fato. Uma aura pairava contornando-o, se muito não me engano ele também flutuava.

Num estalar de dedos vi-me naquele outro bar, que esses dias vi abandonado, próximo à Igreja das naves espaciais. Então, na mesa, pessoas em cadeiras, confraternização, música. Olho ao lado e sinto o quão doentio tudo parecia ficar quando essas combinações ocorriam.

Estava a Dona dos Relógios segurando as mãos de um terceiro, enquanto eu apenas assistia quieto e avulso a magia sair da boca dos dois. Um tanto de instinto, um tanto de cosmo ao mesmo tempo fluiu entre as sinapses.

Perdi o controle, eu não era forte o bastante.

Peguei a cadeira de madeira, levantei-a visivelmente, olhos assustados, mais tarde saberia eu que enquanto a cadeira estava ao alto eu gritava furiosamente, rosnava, lacrimejava, fungava, xingava, bradava qualquer coisa violenta até que fui seguro por todos os meus companheiros, que logo percebi traírem-me em frente do espelho, como disse o amigo de José Newton (se subiu tem que descer, vale ressaltar).

Cada ato de cada pico do relógio despertava ainda mais os arrepios mórbidos da minha pele. Eu queria arrancar a cabeça do terceiro, degolá-lo, ver sua traquéia abrir e fechar ao vento procurando ar, arrancar com minhas mãos suas tripas e jogá-las pela mesa, empalá-lo com qualquer coisa de metal que houvesse no bar, desmembrá-lo, cuspir em cima do cadáver, ele tinha cruzado todo o caminho que eu traçara com tanto pesar.

Pois eu me vingaria, pensei, enquanto meus queridíssimos companheiros sociais me soltaram e percebi que um deles estava debruçado sobre a mesa, em prantos. A noite de todos tinha acabado, e a culpa era minha. Minha? O argumento para que a culpa fosse minha baseava-se no princípio do desprezo da ordem. Uma vez em muito, muito tempo, eu havia lembrado sobre como era aquele sentimento de quatro letras, e logo à minha esquerda eu via como o prédio começava a desabar outra vez. A culpa da noite de todos ter sido estragada fora minha, assim como parto da premissa de que, da outra vez, no parque de diversões, a culpa também fora minha. Mas talvez, olhando atentamente, pudéssemos tirar outras conclusões, quem sabe…

Nisso outra vez vi o Gato Fosforescente. Olhos fixos em mim, sereno, e as palavras começaram a surgir automaticamente. Não sei bem se ele falou mesmo, ou se foi algum tipo evoluído de comunicação.

Era sobre como os pensamentos mudavam, sobre como todas as pessoas da Terra gostam de mudar alguma coisa, algum hábito, alguma música, algum costume. Chegamos até a cogitar que as pessoas gostam de trocar de pessoas constantemente para não cair numa mesmice. Um dia, vá lá. Uma semana, vá lá. Um mês, ano, década, vá lá. Mas um dia, cedo ou tarde, busca-se algo novo, e é nessa hora que os caminhos podem se separar. Muitas vezes, uma vanguarda surge, fundo dentro dos pensamentos, mas essa vanguarda é sumariamente desprezada, até que outro a pense. Não deixa de ser triste, mas deve-se acostumar com esses apesares. A justiça, na natureza, o conceito de justiça, não existe. É justo uma formiga arrebentar carbonos para se alimentar? É justo pisar em uma formiga sem vê-la?

Por isso não nos apeguemos tanto ao conceito de justiça, justiça não existe. O que existe ainda é de difícil definição. Pensamento, o que é o pensamento? Quem pensa? Nós? O que somos nós? Elétrons, carbonos? Um monte de matéria aleatória que se juntou de alguma forma, passou por processos biológicos, tornou-se parte espermatozóide parte óvulo, e então se encontrou segundo um estranho caos do universo, deu um pico negativo na entropia, cresceu por dentro de outro ser, depois de alguns meses saiu gritando e esperneando, levou o primeiro tapa logo nos primeiros segundos. O que somos nós? Por que insistimos que sentimentos existem? Que necessidade estranha é essa de se mandar uma carta e esperar todos os dias resposta? Fazer declarações ao vento e esperar ser agradecido, no mínimo?

Por que inventamos a palavra de quatro letras? Há algum tempo, para suprir nossa necessidade de companhia, criamos os Deuses, e estes fizeram muito bem seu papel pondo-nos medos e regras. E então procuramos algo além de amigos invisíveis: procuramos cada vez mais seres reais que fingimos ser imaginários para nos mantermos distantes e carregá-los cada vez mais perto de nossas sobrancelhas. Idealização que levou sumariamente à frustração. Era um tanto difícil frustrar-se com os Deuses, até que outros crentes frustraram inventando normas e mais normas. É assim com o platonismo… Idealiza-se os cabelos da pessoa em sua mente, sente-se o cheiro dela, com um pouco de esforço é até possível sentir as mãos ainda unidas e as bocas trocando ar entre si. Dorme-se muito melhor quando se pensa na pessoa que inspira. E por quê? Por que precisamos disso?

Por que se sonha com a inspiração? Seria um outro artifício sádico das linhas da vida? Acordar num quarto, sem ninguém além de você mesmo, e perceber como não tem percepção suficiente para materializar a amada…

Um interlúdio ocorre, e vejo a praça, a Lua, as árvores. Sinto um conforto vindo em minha cabeça, e percebo também que estou deitado no colo da Dona dos Relógios. Olhando para a Lua, contemplando, um dos companheiros mais chegados estava logo ali do lado com sua ninfa. Todos sentíamos juntos o cheiro das folhas, era como se estivéssemos abandonados nesse fim de mundo, ao menos não estava mais sozinho como quando estive no meio de tanta gente. Um posto de observação havia ali à direita, também vazio, sombrio.

A única luz era a luz prateada que descia do céu e contornava-nos. E a Dona dos Relógios, poucas vezes vi tão inspiradora.

Eu não sabia exatamente onde estava, em que compasso. Se era um sonho dentro de outro sonho, se era continuação da realidade ou tradução da mesma. Mas eu não queria voltar, e sabia que o assassino ainda me buscava, esse era outro intervalo apenas, meramente ilustrativo.

A Orgia – III

O brócolis, e o lago parecia um oásis. O tempo tava é muito seco. Arenoso, o lago também parecia muito maior, extremamente maior, gigantesco. Ao redor, os carros passaram uma, e uma única vez. Depois disso senti que o assassino me procurava outra vez. Ela estava logo lá, na outra esquina, eu sentia. Mas não podia ver.

Pus-me a andar apressadamente procurando um casulo, um abrigo. Como uma cabine telefônica, um posto de combustível abandonado. Parecia um deserto, na verdade, e, no meio, o posto. Estava calor, e como era o único lugar, por ali mesmo segui.

Uma única casinha abandonada nele, e ninguém por perto, bati à porta, e fui atendido prontamente por uma senhorita com exatamente poucas roupas. Como se todos os bons costumes sumissem de hora pra outra, passei a buliná-la, ela tirando minhas mãos e eu insistindo em deslizar pelas pernas, coxas, barriga, aproveitando cada pedaço daquela jovem pecadora. Peitos sobressalentes, não tão fartos, mas bem moldados, transparecendo um pouco devido a todo o suor que cobria o corpo. Sem mais defesas e tomada pela libido, ela me guiou até outra sala, que, ao acender a luz, percebi ser meu quarto.

Uma orgia medonha. Senhoras se amassando com senhoras, pequenas monstruosidades noutro canto, lambendo paredes e perdendo-se em êxtase. Pela janela, vi outras janelas também orgiásticas, igualmente estranhas. Não era algo de fato agradável, o calor fazia-me zonzear, e todo aquele bacanal do inferno me causava enjôo. Nisso, a recepcionista ninfeta passou a me explicar um pouco sobre como os outros falavam de mim pela cidade. Como eu deveria me alimentar, se eu me alimentava bem, se meus dentes eram desse jeito ou daquele, o que falavam que eu falava, como diziam que eu agia nesses e noutros tempos, todo o tipo de informação desviada possível.

Desistindo eu de tentar esclarecer ou aplicar minha versão, reduzi minhas orações a um simples e risonho pedido de desculpas, logo aceito. Então separamo-nos da orgia e retomamos a bulinação, mas dessa vez mútua, e incrivelmente libidinosa.

Outro tipo de lapso, e voltei ao bar próximo à igreja. Sim, aquele mesmo. Um troféu, e segurando este estava outro companheiro distante, um que vinha das profundezas faraônicas do Egito. Ele e seu grupo ganharam o concurso de bandas, e estavam como sempre serenos eram e sempre serenos foram. O indivíduo que outrora se perdia em emoções com a Dona dos Relógios agora se acovardava sob uma mesa qualquer abandonada. Receava eu ser expulso, tamanha a algazarra que formei. A culpa foi minha, não?

Mas enquanto ninguém me chutava, cumprimentei o velho Faraó, de alguma forma eu sabia que ele ia ganhar o concurso, ele sempre ganha, e ele sempre merece o prêmio. Ele e seu contrabaixo, músicas simples podem ficar realmente complicadas, complexas e progressivas. Cinco por oito, sete por quatro, pi por fi, e por derivada, tudo mais. Pilares de ouro e ele ao centro, ele era o campeão.

Perto do momento, outro distante companheiro apareceu com suas piadas e risadas. Agora o Egito e o Japão se encontravam lado a lado à minha frente, cantando as músicas velhas, sempre em moda. Rindo, sem ligar para os olhares tortos dos demais presentes no recinto. A noite parecia não ter fim, parecia que, do primeiro momento até ali, passaram-se apenas minutos.

Prescrição I – A Máquina

De volta aos anos oitenta e aos carros quadrados, nesse caso uma caminhonete pequena. Cidades dentro da cidade, culpa novamente do urbis romano. Ferida na boca, casas amontoadas, mato no meio da rua, e a caminhonete cortando as plantações da fibra mágica do canvas.

Depois de um tanto de tempo, uma construção primordial, colossal. Parecia o esqueleto de um gigante, feito de madeira. Não sei ao certo como puderam erguer tanta madeira uma sobre a outra como uma grande garra de Arquimedes. Este ficaria orgulhosíssimo ao ver. Colossal, no sentido mais profundo da palavra.

Alguns capangas no térreo, empunhavam submetralhadoras enferrujadas, e tive de ficar no carro enquanto o mestre ia negociar. ‘Fique com a chave no contato, fuja se precisar, deixe-me aqui se precisar’.

A profecia fechava o ciclo do Mestre. Peito feito de peneira, sangue espalhado pelo chão, nem consegui ouvir o porquê de sua morte, apenas liguei a caminhonete e saí acelerado e vendo tudo diferente. Vício das cidades, fronteiras mexicanas, compilações, et coetera e tal.

Do outro lado do prédio, subi as escadarias, aproveitando a brecha deixada pelos capangas. Subi correndo, tropeçando, não olhei para baixo, pois sabia que nisso tudo travaria, minhas pernas e meu coração gelaria. Apenas para cima, subi três degraus por vez.

Para minha surpresa, quando já não havia degraus para se subir, deparei-me com o topo de uma pirâmide dos tempos modernos. Um tipo de templo, uma máquina que remetia até a estruturas alienígenas, atemporais. Sentia que eu era o escolhido, e subi os degraus dela.

Aos poucos comecei a flutuar, eletrodos e placas começaram a flutuar comigo, pedaços pretos. Destes saíram raios e mais raios, transpassavam meu corpo e uma paz interior reinava por todas as minhas mentes unidas. Não sei qual era o intuito desse ritual todo, mas a paz interior podia fazer-me esquecer das desilusões que passei recentemente, podia até me reconfortar depois de ver o Mestre morrendo à frente, totalmente furado. Por razões desconhecidas eu sentia a presença de muitos que pensava terem ido. Estavam ali, junto a mim, todos os verdadeiros amigos e os heróis da humanidade. Eletricidade passando pelas veias, e nisso eu ainda estava d’olhos fechados.

Quando os abri pude contemplar a cidade e seu entardecer cinza.

Galvão – IV

A última das partes da incoerência noturna duma noite. Um tabuleiro de ludo. Vai ficando cada vez menor, até que revela a outra realidade por fora. O Gato Sábio outra vez, agora por cima do tabuleiro, ainda olhando fixamente, pacientemente, poderosamente e serenamente. Tudo ao mesmo tempo e em todos os lugares ao mesmo tempo.

As despedidas, continuou, são difíceis. Apegamo-nos uns aos outros de tal forma, ligações mais fortes que pontes de hidrogênio. Conversamos, tomamos café, dividimos chocolates, vivemos pedaços juntos, e chega sempre a página onde temos que dizer um até logo. Aquele sentimento gelado que se situa perto do coração, próximo ao estômago, trêmulo, que faz acordar triste sem ao menos ter sonhado. O primeiro pensamento do dia, a última vez em que os olhos ficam realmente perto uns dos outros.

Normalmente é corriqueiro, mas quando gostamos mesmo uns dos outros tudo fica mais complicado e dramático, por mais que se tente controlar. Acaba se tornando mais um chato, mas acontece. É a vida. São as interações. É o eletromagnetismo.

E aí chega aquela última página de um livro que você gostou tanto de ler, cada linha, cada frase. Antes de terminar a leitura, foca-se a página em branco ao lado, sente-se um nó na garganta… Não é um termo muito polido, mas a sensação é muito parecida. Não há saídas, a despedida deve acontecer cedo ou tarde, tudo o que começa acaba. O começo é o começo do fim, o fim é o fim do começo.

Não fique alienado também pensando no que acontece depois de você. Logicamente, despedidas são um grupo fechado, e cada elemento procura novas ligações de hidrogênio, novas moléculas a compartilhar. Poderia ser você, poderia ser quem você viu ontem mesmo na rua, poderia ser qualquer um, até mesmo aqueles que você não gostaria que fosse. Era para ser você, em seus sonhos utópicos é só você e só ela. Nada mais que isso. Mesmo sabendo da utopia toda que envolve suas fantasias, ainda sente-se abalado. Também é normal. Não é o primeiro tampouco o último a sentir tais conjunturas.

Numa noite qualquer, como essa, alguns poucos recebem mensagens, recebem sinais de estrelas distantes, mas não têm a percepção para sentir as vibrações cósmicas de todas as dimensões que passam rasgando pedaços de matéria escura e iluminando porções vastas de espaço-tempo. Anti-matéria terminal. Um rio azul como sua visão agora, na mesma temperatura desse ar que venta pelas árvores e libera todos os cheiros da floresta. É você quem joga o seu jogo, não importa competir com os outros, a competição mais dura é contra você mesmo. E você já ouviu isso muitas vezes, posso apostar. Na verdade eu sei disso.

A genialidade não está no durar para sempre, isso é conseqüência. Nada serve pra tudo, mas tudo pode ser imortalizado toda vez que for lembrado. Disse o andarilho, lembro-me de suas palavras: ‘basta fazer um ato notável’.

A despedida pode ser agora, amanhã, pode ter sido ontem, semana passada. Foi bom, e você está com a consciência tranqüila. Você é uma pessoa boa, você tem a capacidade de sentir, mesmo que não perceba. Você sente coisas que outros talvez voltem à terra sem nem imaginar que possam existir. Nem numa possibilidade remota.

Você já chegou até aqui, e essa não será nossa despedida.

Acordo de Sangue – V

Inspiração assustada, dessa vez é uma hora a menos, são três da manhã. E é segunda-feira, ou alguma coisa assim. Sono, sono, sono, sono. Sono.

Muito sono mesmo, mas chega de dormir por hoje.

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Epílogramofônico II – Coadjuvante

A bicicleta não cessou, no entanto. O Assassino muda suas formas e seus objetivos, não menos mórbidos. Ainda com barbas brancas, grisalho, encontra-se próximo ao mesmo lugar, agora a pé.

Um círculo no meio das avenidas, ele circula de um lado e o segundo cabeludo circula do outro. Os dois se olham e se cumprimentam na madrugada perdida, mas o cabeludo continua olhando pois sabe que algo está errado naquele senhor estar andando num horário tão insólito. Cadê a bicicleta?!

Ele pára, então, e ri. O cabeludo compreende num instante, e se desespera ao perceber que não consegue andar, nem gritar, nem movimentar.

- Toca o interruptor – Ele ri alto.

A boca é como a de Munch, ele grita mas não ouve a voz, o céu escuro parece dissolver entre as estrelas e as torres de energia. Aos poucos a última memória são os olhos do Assassino. Mas este já estava satisfeito, não mataria o cabeludo naquela noite.

E da mesma forma sempre o cabeludo não poderia aniquilar seu Assassino apenas com mãos, pernas e armas. Precisava de outra forma.

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