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O Conto do Milênio – Capítulo 2: Punhal da Lascívia / A Sala Esverdeada do Fim
Em meio à gente toda uma delas tinha a marca. Era em sua perna, tal tatuagem feita há décadas. Tinha o destino selado, e não parecia saber. A verdade é que de tudo sabia, e manipulava os contornos até chegar numa resposta convincente. Fingia-se de cientista – era assassina, psicopata e sádica.
Um cientista nunca deve saber de tudo, e foi isso que a entregou para meu olhar rápido, tolo e enganado. Ela parecia gostar de acreditar que sabia de tudo, mas não percebeu que essa era justamente sua maior fraqueza.
Sempre me considerei uma boa cobaia, mesmo que o experimento me custasse a própria vida. Percebi as armas. Para o fuzil dei munição. Para a pólvora, cuspi fogo.
Para a faca, ofereci meu pulso.
Não era deusa, nem nada parecido. Não era gentil, nem ímpar. Era tudo o que se via, mas o era de modos extremos. Não dormia. Um copo de café não era suficiente. Uma noite também não.
Eu queria a certeza. A certeza não vinha… E eu implorava pela certeza.
Numa semana de festividades, eis que bateu à minha porta a revelação. Não era a certeza, mas uma mensageira. Tinha voz colapsada dentro da agonia, e me dizia em tons claros aquilo tudo o que me devia ser dito, mas era escondido pelas armadilhas do mesmo mar.
Andando por dentro da floresta, acabei por descobrir fogo. E o fogo queimava as folhas, e deixava tudo menos e menos esverdeado. O mundo era tomado pela civilização; era triste.
Por outro lado, nada eu poderia fazer quanto ao rumo das coisas, senão as coisas minhas. É impossível mudar o caminhar do universo, mas está ao nosso alcance encontrar nossos próprios passos à grande avenida por onde passam os carros carnavalescos.
- Norton Green. Prévia Diretriz. 1856, Relatório Superfície. Excerto.
E tudo se passava diante de minha mente enquanto o béquer carcinogênico era preenchido por uma bebida escura e forte. Penso eu que podia ser petróleo. Os bêbados brindavam ao barulho; as portas ficavam abertas a quem quisesse entrar, e as curvas da luz destoavam da realidade local.
Era confortável se sentir deslocado do próprio andamento do mundo, então bebi mais uma dose.
Sentado numa sala esverdeada, caindo aos pedaços, a cadeira é o que me resta das minhas lembranças passadas e dos cheiros bons que já sumiram. São imagens desprendidas e desapegadas da realidade e das tessituras compassadas que formam as grandes cadeias morais… São as traduções mais honestas de todas.
Claustrofóbico dentro do meu próprio pesadelo, procuro por alguém para me dizer algo real. Acho, enfim, alguém que se mostra cercada por gente igualmente fétida e que me causa a mesma sensação de claustrofóbica. São dez minutos no meio da madrugada estrelada e cheirando a cerveja barata, mas ela continua a se vestir como uma mulher bem arrumada para as conversas secas que acontecem nesse meio tempo.
- Norton Green. Impressões sobre o efeito do desmatamento em ordens públicas de catástrofe. 1876. Excerto.
À sala eles, ébrios, e elas, tomadas por devassidão, se deitavam, gritavam, escalavam por cima das janelas, e a noite pulsava no mesmo ritmo da inconseqüência. Novos e velhos se juntavam na quebra das leis. Mundos se contorciam aos sofás das regras.
O começo era não dormir.
Algo vinha de dentro e queria ser expelido à boca da assassina, enquanto esta apenas me mostrava delicadamente as lâminas afiadas, as mesmas que me conheceriam tão bem depois de um intervalo.
Das semanas veio o silêncio, e do silêncio o filme artificialmente colorido e sonorizado do começo do século passado.
Um médico e um monstro. O louco que preside o asilo e controla o sonâmbulo. O circo ainda estava lá.
Quando o tempo parou, a assassina e sua faca entraram por minhas mãos, e espalhei meu sangue por cima dos cabelos, das roupas e do chão. Não havia conceitos. Nada se livrava dos espirros. Era o ladrilho, era a pia, era a parede, era a bíblia.
Ela ria, e sussurrava para que não parasse até que minha última gota de sangue fosse expulsa do meu corpo – erro bobo; já nem podíamos saber que sangue era meu e que sangue era dela. A única diferença é que por dentro de tão sádica criatura corria um sangue tão doce quanto jamais havia provado até então.
O gosto do meu já era bem conhecido por mim mesmo, e não sei mais se é doce ou salgado ou amargo. É apenas meu, e isso de maneira magnificente. Assim como tinto e seco é o vinho que mais gosto, tão somente meu é o gosto que mais aprecio.
Não havia, entretanto, problema em degustar o doce que emergia da psicopata.
Costumamos nos sentir mais vivos à medida que a vida vai se esvaindo. Carreguei-a, enquanto todos nós dois, ensangüentados e quase desmaiados, aos meus ciclóides. Não era uma diferença gritante, mas minhas mãos espalhavam ainda mais sangue agora pelos lençóis, e minha boca mordia e fazia escorrer ainda mais glóbulos dentro do corredor.
A casa toda, lentamente, ficava tomada pelo suco rubro do anti-pensamento. N’outro dia, sabia eu, tudo seria carregado com a água que limparia o chão e os cobertores e as roupas, mas pouco importava. Já não tínhamos mais sangue, qual seria o problema em perder um pouco de boas memórias?
Dali adiante corremos todos, e o contato mais próximo depois do assassinato consentido foi uma dose de café. O café mais amargo de todos, uma noite mal-dormida e impregnada por certezas.
Veio. Era incômoda, mas lá estava, depois que pedi tanto durante a era anterior.
Veio a certeza.
Líquido Espelhado da Inspiração
Líquido da inspiração, que flui por minha garganta e encontra cada artéria e cada sonho e cada pesadelo…
Ao meio da madrugada, buscando o sono, bebo um cálice de sua existência e me torno parte de toda a espiral de complexidades que esmaece em torno de toda somatória existencial que há no Universo; procuro por olhos onde não estou sendo observado, busco códigos em paredes lisas, nada posso ver antes de ultrapassar a Linha e mergulhar no infinito das galáxias interiores.
Depois da tormenta e das sombras e das praças confusas do prefácio, encontro os salões infinitos feitos apenas para duas pessoas. Deslizo por seus reflexos espelhados, por tudo o que você é de verdade depois das noites, e posso dizer sem eufemismos tudo o que se esconde em meu respirar, tudo o que há depois dos dióxidos.
Olho para os postes na neblina enquanto sinto a fumaça percorrer meus cabelos aos poucos segundos antes de acordar outra vez…
Por que há de ir embora toda noite?
TSH-1619
The Nanny Words – Eng Mec / N. Santos Neto 7D, 7C, 7D 04:00 A.M -> XTR
Rio x
Cuba v Race-Z
A ampulheta se contorce, o delírio começa. A linha fica cada vez menos difusa, a luz faz uma curva cada vez mais definida. Lá vamos nós.
Nós somos muitos.
Num primeiro momento, além do café, há um céu escuro, azul bem escuro, de trás pra frente. E frio, muito frio, no meio das montanhas distantes. Um cristalino por dentro de novos olhos, uma nova visão. E frio, e pouca gente. Gente o suficiente.
Outra vez o objetivo era alcançar o grande castelo. Dessa vez, por graças ao Sir Wallace, não era uma jornada solitária. No acampamento, discutíamos sobre dobras de calças e zíperes. Sem qualquer maldade, apesar de ser tentador. Devemos controlar nossas tentações, de vez em quando. Não é um ato instintivo, mas é para a evolução.
Entrei pelo túnel e vi o grande campo dos orbitais. Tais todos. Menores porções de matéria ou energia, um grande gênio dividido em quatro pedaços eletromagnéticos repulsivos e atraídos gravitacionalmente ao mesmo tempo. Havia um método para juntá-los todos, mas o máximo que se conseguia era juntar dois dos pedaços. A repulsão eletromagnética era extremamente mais intensa que a atração forçada das forças esquisitas. Mas havia um jeito. Tudo corria à velocidade da luz, e tinha as cores primárias e não consigo descrever de outra forma, era uma máquina, era um gênio, e isso estava longe, muito longe de ser a resposta definitiva para qualquer coisa.
Era só a porta de muitas outras perguntas.
Mr. Tesla, como posso sentir, ri de toda essa corrida de ratos. Estivesse ele aqui entre nós fisicamente, já teria escrito documentos e mais documentos, e nesse momento estaríamos voando livremente pelos céus nublados.
Mas não à velocidade da luz, obviamente.
Toda uma divergência, e, pelo que parece, minha nave microscópica ultraluminífera não é o suficiente para entender de fato mais essa jogada do grande jogo de xadrez do livro vermelho. Duas das partes, mas não todas. Dessa vez.
A nave era prateada, pequena, triangular. Deveria estacionar-se ao meio dos quatro pedaços do gênio ao mesmo tempo. Precisamente ao mesmo tempo entre todos os tempos.
Num pseudodespertar, há a televisão à minha frente. Um ser gordo, de terno, com voz de mulher. Não era a voz dele, eu sei. Sua fala estava sendo dublada. Não sei por que, não sei se era algum tipo de censura, só parecia muito estranho.
De volta ao acampamento, uma das discípulas que vestia calças azuis apertadas apontou ao poste. Não eram pássaros, eram enigmas. Como cordas entrelaçadas entre os elétrons, infinitos nós e quase-letras formadas; blocos, tetris. Não consigo recordar quantos e nem como. Podiam ser reajustados, realinhados. Eram blocos, era um grande enigma. Eram cordas entrelaçadas, eram infinitas possibilidades.
Talvez até houvesse uma clave de fá.
O juiz fora preso, disse-me o médico professor. Careca, barba branca e jaleco. Eu não era um aluno dele, mas convidou-me a assistir especialmente àquela aula. Não sei qual a disciplina, mas havia um lugar vago, e apenas um. A cadeira era branca, e não havia mesas. Parecia-se mais com a configuração de uma palestra-aula. Qualquer coisa assim. O médico tinha sotaque indiano, embora não me tivesse dirigido palavras que me lembre perfeitamente do significado. Eu entendia sem saber nada.
SFH-1619 v=c
O café ficou um pouco menos forte que o preferível. Mas serviu para me deixar acordado. Estive pensando sobre as escadas, tanto nos macrocosmos quanto nos microcosmos.
Uma escadaria, não sei para onde (não farei relações com dirigíveis de chumbo aqui, embora já tenha feito indiretamente), e um ponto notório:
Quando se sobe um degrau, deixa-se de existir no degrau passado, e passa-se a existir no degrau de cima.
Não sei as aplicações futuras disso, mas haverá de aparecer em tempo.
Uma das últimas cenas, e talvez por alguma interpretação Jungiana possa ser dramática. Havia um submarino emergido. Eu por cima dele. Deslizei após chegar à máxima resolução do problema da nave prateada. Escorreguei pela esquerda, e caí de costas n’água, no meio do oceano.
E a água me puxava cada vez mais para o fundo; eu não podia respirar.
κινεῖν
Tudo começou com um café. Não era uma cafeteria, nem um posto, nem uma casa qualquer. Havia macieiras ao lado de fora, estava noite e eu estava perdido. Fui parar ali porque era o único lugar por perto. Era aquilo ou o mato para dormir, e já estava tarde. Eu sempre atrasado.
Gostava de acordar cedo.
No entanto, a conversa entreteu-me. Havia uma maçã sobre a mesa, mas não comemos. O ser em minha frente, de longos cabelos brancos, e um semblante inteligente, começou a divagar. Perguntou se eu sabia por que a maçã cairia se eu a jogasse da mesa. Como não consegui resposta convincente, ele continuou.
Falou, então, sobre as maiores montanhas que existem nesse mundo tão estranho; falou sobre os oceanos e todo o peso que a água tem, e como ela, mesmo assim, sobe aos céus e volta durante a chuva. Falou sobre a Lua, e como seriam as montanhas lunares; como seria, agora que vira quão imperfeita a Lua é de perto.
Ele podia voar?
Era uma casa qualquer, com alguns equipamentos estranhos, é verdade, mas nada de rebuscado à fachada. Havia pilhas de madeira, macieiras, telescópios e ampulhetas e luminárias. Parecia que tínhamos algo em comum, afinal: ele também não dormia adequadamente.
“Há muito que se ver por aí durante a noite”, disse ele, apontando para cima. “Se há algo maior?” indagou ao vento sem resposta. “O que poderia ser maior, por que pensamos em algo maior, por que procuramos algo maior?”
“E por que todos eles querem que acreditemos ser o centro?”
“Há uma fogueira, muito perto daqui. Junto dela, toda uma praça. Junto da praça, pecadores. Junto aos pecadores, padres e cardeais. Junto aos cardeais, a salvação divina. Olha bem para esta maçã, ela representa o pecado inicial. Ela mostra a queda do ser humano, a perda da imortalidade. A expulsão do Éden. Isso é esta maçã.”
Tomei outra dose daquele café amargo, forte e quente. Por sorte, a temperatura local era agradavelmente baixa. A lareira estava acesa, um felino amigável ronronava pela casa, era um ambiente ideal para tais divagações.
“O céu, sim, o céu. Pode sair por aquela porta e olhar agora mesmo. Ele se estende até além dos campos e das vilas. Ele dobra, ele curva. Como se morássemos numa grande bolha. E também não posso dizer isso publicamente, você sabe. Não é interessante mostrar que moramos dentro de uma bolha. Temos de ser planos, retificados, regrados, calculados. Eu não calculo seres humanos.”
De fato, achei a idéia palpável. Convidei os dois a saírem da casa e contemplar a grande abóbada por meio de tão complexos instrumentos. O céu estava sem nuvens, e não havia muitas luzes por perto. A Lua realmente parecia feita de queijo, deliciosamente lisa, mais lisa que as pernas da melhor dançarina de toda a Grã Bretanha. Mais prateada que a prata mais polida da Rainha. Mais distante que meus próprios sonhos.
Mas, se eu esticasse o braço, quase conseguia tocá-la.
Após uns ajustes, ele me chamou a contemplar pelo olho de vidro: vi, então, aquilo que vi nos livros e não conseguia realizar quão verdadeiro poderia parecer. Era algum tipo de esfera com discos. E eles faziam sombras na esfera. Como poderia… Era minha imaginação pregando peças? Era um sinal? Miragens, talvez?
“Veja, há muitos outros além de nós! Vivemos numa bolha, pois esta é a natureza que nos foi imposta. O ser supremo que tanto tememos é a personificação dos nossos próprios medos. Somos esmagados pelo simples ato de não olharmos com atenção às coisas. Não perceber todas as nuances que uma curva traz, não perceber todas as distorções em cada letra de uma equação, não perceber como até o céu pode mudar de cor dependendo da estação do ano, como o cheiro do mundo muda, como os sons mudam de afinação, como tudo se movimenta.
Estamos em movimento agora mesmo, olhe os pontos próximos à grande esfera com anéis. É um ser de sorte; temos apenas uma dançarina que rodopia sua roupa prateada ao redor de nossas montanhas e nossos mares e nossas florestas. Ele, por outro lado, tem tanta magnitude que pode escolher qual delas levar ao quarto. É intrigante pensar que não temos tanta escolha assim. Aqui estamos, afinal. Nossa única escolha é respirar e perguntar. Nem sempre responder, mas sempre perguntar.
Não é necessário que fiquemos trancafiados em celas com crucifixos esperando o grande Messias descer dos céus com suas fogueiras e sua justiça. Não existe justiça no que chamamos de Natureza. Ele não vai descer. Se há alguém supremo, que montou minunciosamente todo esse sistema, jamais descobriremos todos os segredos. Tudo o que sabemos, o que soubemos e o que saberemos são, foram e serão dádivas dadas a nós por nós mesmos. Se há um ser supremo, ele quer que provemos da maçã; ele quer que olhemos para o céu e percebamos que não estamos sozinhos; ele quer que construamos os instrumentos para tocar as músicas. Num momento precisamos largar nossos medos e contemplar como a maçã não é venenosa.
Aliás, ela dá um chá ótimo, posso garantir.”
Depois de tempos e tempos conversando sobre derivações, gráficos, gregos e exaustões, voltamos adentro, onde fui presenteado com alguns velhos livros salvos de queimas de bibliotecas. Desenhos, esquemas, projetos, coisas que voam, homens que flutuam, desintegrações da própria matéria, questionamentos, amarelados envelhecidos…
Existem relatos impassíveis de término. Olhando para o céu, percebi como o sentimento de solidão que a espera nos causa é ilusório. Só ficaremos sozinhos se assim pensarmos.
Pensei, também, antes de conseguir pegar no sono: talvez sejamos mesmo o centro de alguma coisa. Talvez carreguemos o centro de algum Universo conosco por todo o lugar. “Andei colinas e colinas a partir da Anatólia”, diz um viajante. Ele traz toda a Anatólia consigo, e cada pedra de lá dentro de sua cabeça. “Vim das raízes da criação”, diz o profeta. Ele traz a criação de tudo consigo, também, e não duvido. Não duvido de quão eterno ele possa ser. Ele diz, não tenho por que refutar.
A eternidade é como a dançarina que veste prata todas as noites, e aparece refletida nos muros de cada casa, mesmo que estejamos com os olhos fechados.
Caesar
III – Saloonbre
Buscando novas páginas
De um velho livro lido
Enterrado às encostas de qualquer montanha
Queimado por qualquer Sol desfalecido.
O circo ia e voltava, caravanas cheias de especiarias das mais distantes terras que a vista poderia imaginar existir em tão pequeno grandioso mundo. Teatrais dramas e comédias, sobretudo as comédias, e o teatro enchia de gente. Quinhentos, ou quase isso. Riam, ofegavam, gritavam, falavam e bebiam champanhe.
Foi então, depois, à carruagem até mais uma taverna. Garrafas, mais garrafas, e sequer tinha começado sua noite. Olha para a ampulheta e para o calendário universal, a noite estava em seu ninho, pronta para o vôo. Um último gole e levanta-se.
Cambaleia um pouco, mas nada de agravante. E segue a trilha sem carruagens. A Lua refletia o Sol, e o tijolo prateado brilhava ainda mais. Alguns ruídos vinham da taverna do final da cidade, e era para lá que seguia. O livro do mago, enquanto isso, dizia sobre os nomes.
Entra, e sobe a escadaria. Um dia, há muitas eras, poderia sentir-se o cheiro da fumaça e da neblina que ocorrem quando dimensões tão abstratas confundem-se. Dessa vez, porém, o céu estava um tanto mais limpo, e as únicas nuvens estavam a uma considerável altura. Então pega uma mesa.
Outros antigos jogadores, suas cartas em mãos, meretrizes vagueando ao longo do recinto. Saliências, lábios, maquiagens. As meretrizes se abraçavam, apertavam, esfregavam, suavam, mordiam e os bardos cantarolavam, nesse meio tempo, sobre as correlações e sobre a distância. A taverna, tomada de bêbados e belas ninfas, parecia gritar junto aos bardos. Cada compasso, cada corda.
Havia uma, entretanto, que confundia as palavras e os copos. Não se sabe exatamente o que acontecia dentro dos dendritos, ou o que as correntes tilintavam quando os ventos espalhavam pelo salão o perfume tão único. Era outra sensação, mas não outro cheiro. Este, incrivelmente, parecia permanecer em certas ocasiões em pessoas tão distintas.
Mas não era uma meretriz, e tudo o que Caesar podia fazer era olhar de longe. No máximo aconchegar-se um tanto de passos e só. Preferia, então, continuar seus jogos e suas bebidas. Estas se entregavam como sempre.
Junto aos companheiros de tantas caçadas, subiu à mesa. Levantou uma taça de vinho, e ofereceu-a a todos os que, do Grande Monte, bradavam seus contrabaixos junto aos bardos.
Três, uma carruagem cruzou a trilha, solitária. Não havia tantas preocupações que o tempo se encarregaria de trazer. Caesar viu-a sumir no horizonte, até onde acabavam os tijolos prateados, adentrando pela floresta. Desejou boa viagem e saiu do salão.
IV – Os Sete Mares
Um homem precisa viajar, disse certa vez o Grande Navegador. Como Roma fora, todas as estradas levavam ao rio. Não havia, entretanto, necessidade de navegá-lo arduamente, uma vez que pontes foram erguidas para as carruagens e carroças e pernas e batatas. Algumas curtas milhas, florestas ao redor de tijolos, chaminés ferreiras erguiam-se próximas aos alambiques, estes pareciam brotar feito árvores dos brotos do tempo.
Entra a chuva.
Fita a relva
Vaga as finas estruturas
O tempo, o espaço,
Como se ourives montassem esculturas.
Um posto de observação, um ponto de encontro entre trilhas, e ali então resolveu esperar pela próxima diretriz. Eis que a janela se abre, primeiro para um grito embriagado, e então para os olhos da francesa. Ela chama para dentro, diz que conhece para onde ir, como ir.
No meio tempo, Caesar refletiu sobre vértebras. Discos e ossos, medulas. O que era a postura correta? Por que era a postura correta? Ao seu lado, a francesa largava-se de qualquer jeito sobre o banco reclinado, não era posição de qualquer forma ergonômica, mas era de extremo agrado aos olhos de quem via. Não possuía fartos atributos, mas por algum motivo despertava os instintos mais primitivos… Quanto pleonasmo.
A viagem toda pareceu encurtar assim que ele começou a reparar na excentricidade elegante da francesa. Pudesse mudar o mapa, faria. Colocaria o destino há mais milhas que o necessário, pelo simples prazer de despi-la com os olhos.
Chega, então, ao local demarcado com um X. Mais criaturas andavam para lá e para cá preparando as bebidas e as caças. Havia de ter uma grande festa na mesma noite, e Caesar chegara, como sempre, antes. Mesas vazias, mas algumas bebidas já disponíveis, e nelas ele conhecia um pouco mais da cidade dos rios. Os cheiros, os gostos, as texturas dos rios que cortavam os eucaliptos.
Ao passo que começavam a chegar as caravanas de longe, mais e mais gente adentrava, mais e mais bebida era tomada. Num momento de distorção (provavelmente provocada por alguma das bebidas eucalípticas), Caesar pensou ver a francesa, a anfitriã e mais uma ou duas iniciando um festim. Viu não conseguir conter-se e se aproximou. De primeiro momento, ouviu os estalares e cochichos e leves gemidos, depois prestou atenção no aroma florestal das bebidas derramadas. Estendeu a mão, ainda confuso, e nesse instante tinha certeza absoluta que não tinha certeza de mais nada: se era realidade, o que quer que fosse a realidade, ou se era outro delírio causado por tantas humanidades juntas. Qualquer que fosse, não pararia. Continuaria até que fosse acordado, até que acordasse no chão e percebesse que nem saiu do lugar. Continuaria até que as árvores caíssem diante de seus olhos. E continuou de fato.
No outro dia, juntou seus pertences, usufruiu de alguns restos de bebidas e partiu logo cedo. Nem pôde olhar atentamente outra vez a francesa, o calendário circular continuava correndo pela parede.


