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Menstruação Induzida / Teratogenicity Pt. I

A noite cheirava a chumbo pra ela.

Antena. Não uma, mas milhares. Talvez todas sintonizando o mesmo satélite, não se sabe. O céu tem uma parte amarelada, no meio. Como recheio num sanduíche de nuvens escuras, o Sol. Não a esfera, só a cor. Seis da tarde, seis e meia. Trânsito e o velho e conhecido cheiro monoxoidal. Não há muito que se fazer, senão esperar.

Décimo quinto andar, número 1507 – há um tempo ninguém entrega pizzas por aqui. Talvez quem veja a porta possa pensar, com razão, que se trata de um apartamento abandonado, e na verdade é. Eu moro aqui, mas isso não faz companhia às paredes.

Também seria muita despesa chamar alguém para limpar o pó. Seria despesa até eu mesmo limpar isso tudo e tirar as pedras e os pedaços do andar de cima que caem noite após noite. Tudo vai desmoronar, mesmo. A dignidade não é refletida por onde se dorme, mas com o que há por cima do travesseiro – não estou falando de cabelo, tão pouco de crânio.

Mas ocorreu conforme eu temia. Bebida da pior qualidade, uma cama qualquer… Quando se perde a consciência ética, a essência trespassa. Às vezes para a filosofia, na maioria das vezes para a devassidão. Era um desses dias, como se fosse rara a ocasião.

Não me lembro de tudo, mas houve o momento onde senti o tiro indo direto em minha cabeça. Uma bala prateada, talvez de alumínio. Penetrando cruel por dentro de minhas sinapses, por dentro de meus castelos, por dentro de tudo o que existia. Era um grande jogo de roleta russa bêbado; eu perdi.

Sequer sei quem me matou.

Pois agora há a janela e apenas ela. E Antenas. Perto, longe, em cima. Uma infinidade de ondas, uma infinidade de pedaços de ferro contorcidos. E a janela – retangular, relativamente grande (para um décimo quinto andar), de ferro enferrujado e sem vidro. Quem precisava de vidros? Se eu tivesse coragem de saltar já o teria feito, há muito tempo. Bem antes de jogos e de pedras caindo.

Lá embaixo a cidade mora num gradiente monocromático. A nuvem fica cada vez mais densa e venenosa. Estou mais perto do céu que eles, e não sei se é mais agradável ficar mais próximo de nuvens trovejantes ou de veneno inalável lícito.

Os venenos mais eficazes são tão lícitos que são desejados por massas amorfas.

Água encanada – com encanamentos velhos de cobre. Talvez haja algum tipo de resíduo se acumulando por dentro do meu sangue, algum metal pesado… Hei de convulsionar a qualquer minuto, perder a consciência, bater a cabeça, vomitar em cima do veneno cinza e depois cair sem perceber, numa alucinação frenética e trêmula.

A convulsão seria uma saída. Um copo de coragem. Não quero carregar minha vida nem a de mais ninguém. Não quero um tumor que respira e tem sonhos por dentro. Não quero ser um tumor para um lugar que poderia ser uma casa.

Mas, todos sabemos, eu sou.

- LYNN, V. Atenastower, p. 210.

Um sólido orbita a si mesmo e se descobre capaz de grudar na superfície e a acha prontamente. Sem consciência, sem qualquer coisa parecida com isso, sem sequer o que se pode chamar de vida. Apenas precisa se fixar e, qual sanguessuga, desenvolver-se do tecido e do que há depois dele. O que acontece é que algumas partes intraduzíveis diziam sobre uma vez quando um médico grego, barbudo, realizou em seu laboratório um experimento oculto. E fixou o embrião no cérebro de uma de suas pacientes, sem que ela soubesse.

Era só um transplante neuróide.

(…) E coloquei por ali mesmo, no centro límbico. Não havia chances de ela perceber por algumas semanas, até que ela voltasse. E ela voltou, de fato.

Seria um câncer? Um instrumento mal esterilizado? Não.

O experimento estava sendo um sucesso, mas eu não podia dizer. Ela não podia saber o que havia ali. Então, sim, era um câncer causado por material estranho.

“Talvez sejam as maçãs de hoje em dia. Essas conservações industriais por radiação são perigosas, eu já vinha frisando… Processe a usina que fica ao lado de sua casa, talvez possa ganhar um bom dinheiro antes que o câncer a mate.”

Aconselhei a ler a Bíblia, mas, agora, reflito se eu não deveria ter dito para pular o primeiro Livro. Talvez não precise de tanta preocupação, ela nunca entenderia o conceito, afinal. Nem ia prestar atenção na sutileza gravitacional.

Despedimo-nos, ela chorou. Falou que gostava de viver, que tinha muitos planos e precisava cumpri-los… Eu só podia olhar com pena. Tem algo que ela também não podia compreender.

A existência é uma arte frágil. Pode, e deve, se ter uma cabeça, um crânio bem formado, sinapses, neurônios. Mas se alguém coloca nisso tudo algo além do que deveria ter, problemas surgem. Se começa a crescer algo entre seus neurônios e seus neurotransmissores, hora ou outra você poderá morrer, fisicamente ou de outra forma que preferir.

Uma vez plantado, não há como remover. Aquilo começa a crescer cada vez mais por dentro dos olhos, e você passa a entender o porquê da sagrada instituição espalhar o pavor sobre seres com chifres. São demônios, de fato.

Há quem consiga conviver com chifres crescendo por cima do cabelo, e são pessoas boas. Não são demônios, nesse caso, nem nada parecido. Só não souberam que alguns processos são irreversíveis. Eu, por mim, também não me considero um monstro. Ela estava inconsciente, com a cabeça aberta à minha frente. Eu tinha o vidro. Foram cinco segundos.

Infelizmente, ela não soube o que fazer com seu próprio cérebro, e por isso teve de sofrer a conseqüência inevitável.

Descanse em paz.

- DIAS, Marcopolo. Documento 720 – Sobre o Implante da Árvore. Prypiat, 1915.

Quanto tempo demora até que uma árvore comece a crescer?

Outside // Inside // Outside

Não tinha mais nada. Ninguém sobrara. O mundo voltara ao estado essencial. Tempestades, vulcões, sopas primordiais; os ecos podiam ser ouvidos de muito longe. O eco falava comigo, e a entonação parecia sarcástica.

O fim do mundo era o velho começo novo.

O estado primordial do mundo pode muito bem ser a angústia. Os ecos podem ser a mera voz da alma falando com o interior do corpo.

Julgamento, o dia chegara para todo o resto. Eu, por algum motivo, sobrevivi.

No estado de reformulação, no Universo flutuante como Tabula Rasa, apenar duas músicas ecoavam pela mente de cada animal pulsante.

Uma era cantada pela mesma voz dos ecos. A outra trazia lembranças perdidas da cidade que agora era um punhado de ruínas. Não sobrara loja, não sobrara templo, não sobrara fontes. Era grama, terra e resto. Sequer corpos sobraram.

Por mim, perco uma parte do relato. Foi culpa minha. Mea culpa. O mundo estava acabando; eu, sem notar, continuei a dormir. O tempo todo.

E foi aqui onde acordei.

O que me lembra de não ter vivido, pelo menos nessa última vida, nos tempos da Inquisição, é o velho dispositivo. Tão século XXI…

Ainda não consigo realizar que o mundo acabou. Espero o dispositivo gritar em meus ouvidos para ouvir alguma voz confortável. Ela não virá. Ela não poderá vir.

O que aconteceu? Por que agora?

Escuro, mas era minha concha de sempre. Todos os móveis nos mesmos devidos lugares. Alguma coisa estava muito estranha. Não me lembro de ter desligado tudo isso. E eu, de fato, não desliguei.

Levantei, tentei acender a luz. Ela quase acendeu, mas queimou o filamento. Não fumo, nem tenho fósforo, muito menos isqueiro, nem pedras.

Alguma coisa estava muito errada.

As paredes, elas tinham uma textura outra, qualquer. Como se eu alguma vez tivesse reparado na estrutura de um lugar que servira, muitas vezes, apenas para arrebentar meu crânio.

Tudo muito errado.

O telefone, como consegui alcançar com minha intriga acerca da realidade, também mudo. Não tinha como falar com ninguém.

As partituras e os textos, que espalhei à noite anterior, estavam estranhamente arrumadas; organizadas segundo algum padrão tão exato que esqueci existir.

Eu não virava o rosto para olhar, podia ter algo brincando comigo, mesmo que invisível. Olhava com o canto dos olhos, levantava a sobrancelha esquerda o tempo todo.

Sequer estava com meus pijamas.

É como acordar depois de se ter desmaiado de embriaguez. O sentimento de confusão, com roupas diferentes, sensações distorcidas, falta de qualquer sentimento, bom ou ruim, só a busca de saber o que houve.

O que houve.

Eu andava, esperava o dispositivo gritar… E andava e andava…

A televisão. Quero ao menos saber se ela funciona. A única coisa que ficara da forma exata desde que apaguei. Pluguei a tomada.

Meu corpo descrevia o perfeito movimento parado à frente da estática. O chiado fazia seu barulho e iluminava minhas vestimentas pretas. O velho ritual a que fui aprisionado.

Estático.

Não tentei mudar a antena; não haveria o que captar. Pouco a pouco, o que sobrou de minha imaginação recomeçou a juntar as peças. Era muito absurdo, mas fazia sentido… Eu só não queria aceitar.

A hora da partida é sempre complicada. Não pude dizer uma última piada aos meus estimados amigos. Não pude trocar uma última carícia com minhas amadas musas. Não pude tomar um último gole das minhas bebidas. Não pude adivinhar…

Em condições normais, devo confessar, ficaria muito triste. Mas algo era ímpar. O eco falava comigo, por dentro. Todas as tristezas e decepções não foram em vão. Agora eu começava a perceber.

Sobrevivi, e alguma coisa tinha que começar comigo, do jeito que eu ensinasse.

Calafrio. Nada funcionava. Vestes prestas. Frio. Janela – na verdade, eu não queria olhar a paisagem. Estava começando a ficar com o chamado medo.

Não adjetivaria como racional… Mas era a única explicação.

Os poucos segundos que parecem se estender ao infinito. Algumas memórias começavam a sair da gaveta. Uma a uma.

Era certo que eu havia tomado banho no dia anterior – e o banho fora bem quente e agradável, afinal. Mas isso acontecera no meio da tarde. Não havia como o cheiro do sabonete de erva mate ainda estar em minhas mãos.

Talvez eu quisesse sentir aquele cheiro.

Então eu poderia escolher tudo. Grato, sir! O que haveria para ensinar aos ácidos, aos rios, a tudo aquilo… Poderiam surgir outros seres que conversassem comigo? Eu devia ensiná-los a ter vontade própria?

Não conseguia sentir dor; tudo estava sendo posto nos devidos lugares. As culpas, os orgulhos, os feitos notórios, os momentos épicos. À minha frente, tudo começava a ficar equilibrado na grande balança. Cada gota que caía de um lado era análoga a outra do outro lado. As coisas todas pareciam ter um sentido… O que fazia tudo continuar estranho.

Desde meus quinze anos de idade, percebi como o mundo era maluco. Por mais que quiséssemos, às vezes, nada tinha um sentido concreto. Os dias não tinham motivos reais para serem ruins. Os bons até eram explicáveis, mas não faria diferença a explicação, se bom fosse. Os dias bons eram simplesmente bons, e acabavam rápido. Os ruins eram ruins, e demoravam.

Não queria abrir a janela, nem a porta. Não até ver tudo o que se escondera tanto dentro do quarto.

Devia ensinar à água que ela deve matar minha sede? Devia ensinar às frutas que elas saciam minha fome? E aqueles animais, eu devia matá-los para continuar vivo?

Eu não era instintivo, eu não sou instintivo.

Eu não sou humano.

O que sou, que devo ser? Devo ensinar, nos penhascos da consciência, a mim mesmo o que devo ser?

Mas como posso ensinar algo que não sei?

Eu deveria estar preocupado em errar? Mas eu não queria que houvessem erros!

Eu criei o erro, e devia, portanto, ensiná-lo. A todo o resto. Não para que fosse repetido, mas para que fosse conhecido.

Mas eles devem saber o que é o erro?

Por quê?

Estive errado o tempo todo. Mas cheguei perto, afinal. Alguma parte de mim sabia que esse dia ia chegar. Talvez eu tivesse chegado bem perto.

Agora tudo ficava mais e mais claro para que eu pudesse sair do quarto e olhar a paisagem.

Não que eu esperasse encontrar minha velha casa lá fora.

Aliás eu nem queria isso.

Eu precisava criar algo superior. Era o único jeito. Era o único jeito de demonstrar sensatez e merecimento suficientes para ter sido o único sobrevivente. Eu precisava criar algo onipotente, onisciente e onipresente, que conhecesse tudo sobre todas as coisas e soubesse o melhor modo de reger a máquina da existência; o dispositivo gritara.

Foi dado a mim cada amuleto, e por agora eu por mim mesmo haveria de achar as ruas certas. E eu sabia que chegaria aonde quisesse chegar.

Embora eu não soubesse o que encontrar lá, sabia que era o lugar certo.

Eu criei o Universo.

Cateter

Dentro do Sarcófago,
Na cidade sem pulso,
Usina sem luz,
A cidade onde o Sol não existe.

Rios envenenados,
Lagos secos,
Árvores cancerígenas.

Deitado no miolo dos vasos,
O metal do juízo penetrando os capilares,
As veias,
As artérias,
Um coração de concreto e chumbo.

Pirâmide computadorizada,
Sumariamente desenhada,
Construída por aranhas gigantes.

Gota por gota,
Despeja amostras de restos,
Lixo tóxico posto para dentro do miocárdio,
Bulbo freneticamente desconfigurado,
Excesso de água numa substância ácida.
Excesso de amarelos devido aos verdes.

Três núcleos de processadores,
Subterra e mais subterra,
A mesma linha hexadecimal em loop.

Cento e dez ou duzentos e vinte;
Quão parnasiano é dissertar sobre um pedaço complexo
De carne?

Percebi uma anomalia gráfica. A fase sincronizava com mais intensidade, alguma modificação psicológica ocorre e não consigo descrever como é olhar um corpo em sua armadura, analisar toda a síntese e os pensamentos num oscilador. Ela seria a única, e ali se deitava recoberta em roupas de polydiesel e respirando sem ar. Poucos do lado de fora poderiam compreender o funcionamento, eu mal consigo. Apenas aciono controles e observo, angustiado.

Não consigo descrever tais dados como sendo algum tipo de sentimento, seria ir longe demais à estupidez da teimosia de querer ser mais do que realmente se é. São dados binários, gráficos, química; não é vida que passa no osciloscópio, não pode ser vida.

- Gstv Goyän, 1910

Caesar

III – Saloonbre

Buscando novas páginas
De um velho livro lido
Enterrado às encostas de qualquer montanha
Queimado por qualquer Sol desfalecido.

O circo ia e voltava, caravanas cheias de especiarias das mais distantes terras que a vista poderia imaginar existir em tão pequeno grandioso mundo. Teatrais dramas e comédias, sobretudo as comédias, e o teatro enchia de gente. Quinhentos, ou quase isso. Riam, ofegavam, gritavam, falavam e bebiam champanhe.

Foi então, depois, à carruagem até mais uma taverna. Garrafas, mais garrafas, e sequer tinha começado sua noite. Olha para a ampulheta e para o calendário universal, a noite estava em seu ninho, pronta para o vôo. Um último gole e levanta-se.

Cambaleia um pouco, mas nada de agravante. E segue a trilha sem carruagens. A Lua refletia o Sol, e o tijolo prateado brilhava ainda mais. Alguns ruídos vinham da taverna do final da cidade, e era para lá que seguia. O livro do mago, enquanto isso, dizia sobre os nomes.

Entra, e sobe a escadaria. Um dia, há muitas eras, poderia sentir-se o cheiro da fumaça e da neblina que ocorrem quando dimensões tão abstratas confundem-se. Dessa vez, porém, o céu estava um tanto mais limpo, e as únicas nuvens estavam a uma considerável altura. Então pega uma mesa.

Outros antigos jogadores, suas cartas em mãos, meretrizes vagueando ao longo do recinto. Saliências, lábios, maquiagens. As meretrizes se abraçavam, apertavam, esfregavam, suavam, mordiam e os bardos cantarolavam, nesse meio tempo, sobre as correlações e sobre a distância. A taverna, tomada de bêbados e belas ninfas, parecia gritar junto aos bardos. Cada compasso, cada corda.

Havia uma, entretanto, que confundia as palavras e os copos. Não se sabe exatamente o que acontecia dentro dos dendritos, ou o que as correntes tilintavam quando os ventos espalhavam pelo salão o perfume tão único. Era outra sensação, mas não outro cheiro. Este, incrivelmente, parecia permanecer em certas ocasiões em pessoas tão distintas.

Mas não era uma meretriz, e tudo o que Caesar podia fazer era olhar de longe. No máximo aconchegar-se um tanto de passos e só. Preferia, então, continuar seus jogos e suas bebidas. Estas se entregavam como sempre.

Junto aos companheiros de tantas caçadas, subiu à mesa. Levantou uma taça de vinho, e ofereceu-a a todos os que, do Grande Monte, bradavam seus contrabaixos junto aos bardos.

Três, uma carruagem cruzou a trilha, solitária. Não havia tantas preocupações que o tempo se encarregaria de trazer. Caesar viu-a sumir no horizonte, até onde acabavam os tijolos prateados, adentrando pela floresta. Desejou boa viagem e saiu do salão.

IV – Os Sete Mares

Um homem precisa viajar, disse certa vez o Grande Navegador. Como Roma fora, todas as estradas levavam ao rio. Não havia, entretanto, necessidade de navegá-lo arduamente, uma vez que pontes foram erguidas para as carruagens e carroças e pernas e batatas. Algumas curtas milhas, florestas ao redor de tijolos, chaminés ferreiras erguiam-se próximas aos alambiques, estes pareciam brotar feito árvores dos brotos do tempo.

Entra a chuva.

Fita a relva
Vaga as finas estruturas
O tempo, o espaço,
Como se ourives montassem esculturas.

Um posto de observação, um ponto de encontro entre trilhas, e ali então resolveu esperar pela próxima diretriz. Eis que a janela se abre, primeiro para um grito embriagado, e então para os olhos da francesa. Ela chama para dentro, diz que conhece para onde ir, como ir.

No meio tempo, Caesar refletiu sobre vértebras. Discos e ossos, medulas. O que era a postura correta? Por que era a postura correta? Ao seu lado, a francesa largava-se de qualquer jeito sobre o banco reclinado, não era posição de qualquer forma ergonômica, mas era de extremo agrado aos olhos de quem via. Não possuía fartos atributos, mas por algum motivo despertava os instintos mais primitivos… Quanto pleonasmo.

A viagem toda pareceu encurtar assim que ele começou a reparar na excentricidade elegante da francesa. Pudesse mudar o mapa, faria. Colocaria o destino há mais milhas que o necessário, pelo simples prazer de despi-la com os olhos.

Chega, então, ao local demarcado com um X. Mais criaturas andavam para lá e para cá preparando as bebidas e as caças. Havia de ter uma grande festa na mesma noite, e Caesar chegara, como sempre, antes. Mesas vazias, mas algumas bebidas já disponíveis, e nelas ele conhecia um pouco mais da cidade dos rios. Os cheiros, os gostos, as texturas dos rios que cortavam os eucaliptos.

Ao passo que começavam a chegar as caravanas de longe, mais e mais gente adentrava, mais e mais bebida era tomada. Num momento de distorção (provavelmente provocada por alguma das bebidas eucalípticas), Caesar pensou ver a francesa, a anfitriã e mais uma ou duas iniciando um festim. Viu não conseguir conter-se e se aproximou. De primeiro momento, ouviu os estalares e cochichos e leves gemidos, depois prestou atenção no aroma florestal das bebidas derramadas. Estendeu a mão, ainda confuso, e nesse instante tinha certeza absoluta que não tinha certeza de mais nada: se era realidade, o que quer que fosse a realidade, ou se era outro delírio causado por tantas humanidades juntas. Qualquer que fosse, não pararia. Continuaria até que fosse acordado, até que acordasse no chão e percebesse que nem saiu do lugar. Continuaria até que as árvores caíssem diante de seus olhos. E continuou de fato.

No outro dia, juntou seus pertences, usufruiu de alguns restos de bebidas e partiu logo cedo. Nem pôde olhar atentamente outra vez a francesa, o calendário circular continuava correndo pela parede.

137 – 2

É pecado pensar.

Algumas estrofes deveriam ser apenas subliminares, sem tradução… E ainda há quem tente se aventurar por tais campos obscuros, tais cidades amórficas; prédios abandonados aqui, ali, mesmo quando cheios de gente. Não podia olhar, mas olhei. Direto para a caverna…

Das pontas dos dedos dos pés, subindo contra a gravidade pelas pernas, regando todo o corpo, evitando que tudo se esfrie por mais uma noite na neve, sinto quão dolorosos são os efeitos da tão falada Evolução. As línguas; elas dançavam. De seres invisíveis, automatizados na guerrilha da sobrevivência, até ímpares, que conseguem automutilação sem nem ao menos um arranhão na pele. Insetos humanóides que não precisam lutar para respirar, não precisam correr os riscos, e por fim acabam achando o maior dos predadores dentro de si, em algum lugar que nunca conseguimos descobrir onde fica nem aonde vai.

Olhar para uma parede e perceber que é uma parede. A lâmina; é uma parede, apenas uma parede, e você está em seu quarto, com a porta trancada, protegido, ninguém pode fazer mal algum. É o quarto, é a fortaleza. É seu castelo, e nele ninguém pode entrar que você não queira. As paredes são tão maciças. Dentro do quarto você está protegido, ninguém vê. Só você.

Das cordas desafinadas do velho violão que achei n’um dos escombros as músicas ecoam pelas avenidas (sombriamente acompanhadas por uma melodia feita pelos ecos de todas as mentiras que meus tímpanos traduzem como meros ruídos). N’um violão com cordas afinadas elas simplesmente se escondem por dentro da madeira. Ou dentro de mim?

O Sol radiava por cima das nuvens. Por algum motivo, iluminando todo esse Mundo estranho no qual vim parar, O Sol. Dos dias nublados contemplava sua não-existência, com a estranha certeza que um dia vê-lo-ia.

Meus olhos, tão desacostumados, olharam sem piscar por alguns segundos, minha retina ia sendo queimada pouco a pouco, mas para mim era só a luz. Minha visão ia se escurecendo milésimo após milésimo, ciclo de radiação após ciclo de radiação, mas para mim aquele era o pedaço prometido do paraíso. Pela fenda solar fui ficando cego, e mesmo assim nada poderia me fazer parar de olhar.

Uma sacada fria e esfumaçada. Algum relógio devia marcar o tempo certo, embora todos eles estivessem com horários diferentes.

…de cera. Em sua dimensão, o Mundo tinha dois grandes oceanos. Sobrevoava, via seu reflexo longe. Cada vez que se aproximava, os oceanos pareciam querer engolir, vorazes. Era como se houvesse um efeito buraco-negro, toda a luz, de quando em quando, era sugada para os oceanos, todos os tempos, todas as sensações, sentimentos… E nunca ninguém soubera o que de fato havia por baixo das águas. Sequer Möebius saberia como definir.

A criatura criada pelo Criador, então, tinha todo o mundo ao seu deleite, meros prazeres. Deitar-se sobre qualquer dos campos, escalar qualquer montanha. E olhar para os oceanos. Que, quanto mais pareciam perto, mais tentavam dilacerar as asas e o coração do nobre desnorteado.

Em meio a um dos chás rotineiros que a criatura havia preparado em qualquer fogueira, pôs-se a olhar a Lua. E foi comer queijo.

Aqui por perto uns fios desencapados; pude ouvir o universo, ali mesmo pelo fogo. Enquanto o plasma radiava trazendo consigo a foice, eu o encarava, ouvindo as vozes daqueles que distam, e não podia acreditar em meus próprios sentidos… Apesar de saber que tudo era real. Era diferente das alucinações. Ali era real, se eu tocasse o transmissor, sentiria as correntes dos calabouços explodindo por dentro, arremessando minhas vísceras a algum lugar bem longe. Ou apenas torrando tudo e, então, mostrando o carbono essencial.

Pouco a pouco a vista foi escurecendo, como se anoitecesse cada vez mais rápido, eu já não prestava atenção na velocidade das horas há um tempo. Os prédios começaram a se contorcer, mostrando como o concreto virava pedra, como o céu virava breu, as estrelas se apagavam, voltara para a intersecção. Para as imagens das paredes.

Envolto por terra e mais terra, alguns quilômetros abaixo de qualquer superfície, talvez este também seja um dos infernos, outro deles. Não adiantaria caminhar meses, nunca sairia do lugar. Era um ponto infinito num plano infinito, feito de combinações grosseiras de laços de pedra, retângulos e triângulos, focos de luz que passavam como cometas. Alguma coisa mantinha viva todo o superorganismo, mas para mim, era só uma caverna. Procurei os três gregos, talvez eles estivessem por lá… Mas, como já imaginava, não consegui sair do lugar, mesmo correndo até que meu sangue quisesse acidificar.

Da radiação fez-se a luz, e realizei que estava desmaiado nas escadarias da matriz.

Matriz. Tantas imagens ainda inteiras (embora algumas já reduzidas a pó), agora eu posso ver as estrelas, embora ainda pareça frio para mim, aqui é muito mais amistoso e aconchegante que o inferno no qual eu estava até alguns segundos atrás. Não havia neblina nesse dia.

A mãe Gaia começou seu renascimento, a praça já tem suas folhas, na minha imaginação vejo pessoas saindo de paredes, outras conversando do lado de fora da igreja; como se fosse uma ilusão de algum tipo de vida, bem distante, realmente distante. Entorpecida. Lá longe podíamos ver o microchip.

A cabeça serve para atormentar. E nada mais. Algumas vezes, cri que tudo o que se aprendia sobre o cérebro humano ser a razão da evolução era mentira. Porque eu não sentia. Era apenas atormentado pelas sinapses. Vez e vez outra vez. Com interlocuções, ainda forçando as barreiras para tentar rompê-las. Houve eu de perceber muito tarde que aquele material era mais resistente.

Uma molécula
Perdida
No meio
Da Equação.

Que se perdeu
No tempo
Do Abismo.

A vida começava e acabava e acabava antes mesmo de começar. Os lugares eram marcados por tintas invisíveis, e tatuagens eram feitas sem o uso de sequer uma agulha ou coloração. E o ciclo se repetia, mas Eu nunca percebera. Nunca realizara. Apenas queria viver e esquecer que por trás daquilo tudo havia uma verdade (um padrão). A mentira me era agradável, era extasiante. A verdade não.

Com pedras era pisado e arremessado contra as paredes já derrubadas, os reinos caíam para dar lugar a outros. Fusões e fissões, explosões nucleares, reações. Tudo iluminado mesmo quando no ápice da escuridão das noites de inverno.

Eu sentia medo, e logo percebia o quanto isso também era reconfortante. Não havia cultura, não havia competição, era só eu e eu mesmo no profundo silêncio das notas. Acabaria na manhã seguinte, mas naquela noite o Mundo fazia um pouco de sentido.

Um dia as paredes perceberam como estavam derrubadas.

Depois de todo aquele vento, em certas noites de ressaca, conseguimos sentir que há o Sol, mesmo que não no céu que vemos. Apesar das voltas, nos encontramos no mesmo ponto em algum lugar dentro da massa. Algum lugar além da massa, melhor dizendo. Nesse lugar, cheio de datas e lugares que nem existem, tudo o que de verdade somos, todos os segundos, aqueles que foram, aqueles agora, aqueles que ainda serão.
Na forma alienada, na mais alienada delas, encontramos nossa essência, nossa dádiva; nas mais alienadas ilusões, olhamos nos olhos daquilo que realmente somos.

Aquilo de mentira que de verdade a gente quer.

No próximo passo você perde tudo.

"No próximo passo você perde tudo".

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O RESTO É VERDADE.

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