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A Torre do Sol

Um fluído rosado começa a esguichar pelas paredes enquanto eu me abstraio dos horários e das contas a pagar, e me concentro no último dos ensinamentos com minha garrafa esverdeada e densa. Aconteceu com um amigo meu, muito próximo, e que, mesmo assim, não consigo saber de quem se trata…

Era uma tarde comum, ele acha; podia ser uma manhã ou uma noite, também, tanto faz. Era uma família tranqüila e realizada, com vinho e pão para se beber todos os dias e algo bom para se acreditar todas as madrugadas de sono. As montanhas se carregavam ao horizonte.

Vozes distorcidas saíam da boca de sua mãe, enquanto ele tentava entender, em vão, a última peça que vira no grande anfiteatro semicircular. Peça, atores, gladiadores, humanos, malabaristas…

A peça era sobre um grego. A peça girava em torno de um grego… O que no mundo não era culpa dos gregos? Acreditava, ele, que havia algo depois do Mar, e que lá tudo também era culpa dos gregos. Dos egípcios, talvez. Dos dois, provavelmente. A peça era de um grego. A idéia também. Mas havia vinho para se bebericar enquanto pensava, e pão, e tudo isso era agradável.

As estátuas pareciam ter vida, embora fossem de pedra. Era como se alguém tivesse sido preso dentro delas… Para se preso, é provável que fosse muito injusto, muito herege, talvez algo até pior. Mas lá estava a estátua, com seu corpo, sua cabeça e seus olhos, olhando, desde os sóis até as escuridões que passavam pelos ecos do tempo quando este se curvava por notas tortas de uma métrica sem sentido.

Quando os músicos que se apresentavam eram realmente dignos, até as conversas sobre ajustes de tons e sobre tecnicidades pareciam, e se confundiam, com as músicas. Era uma obra completa, que não nos deixava perceber as trocas entre ficção e realidade… A realidade era o mundo que existia em cada segundo em que ecoavam os sons que vinham do Sol e de Saturno com suas azeitonas gigantescas em copos igualmente monumentais de éter. Ele podia beber, mas não se lembrava do gosto, enquanto as paredes da casa derretiam em fungos e cores e formas que se desalinhavam do senso comum cada vez que o fogo se apagava da lâmpada e o cheiro de azeite queimado ofuscava os sentidos e produzia sonhos tão belos ou tão horrendos… A vida ocorria no azeite queimado, e era sublime.

E todo o resto da casa se configurava, e, como raiz de plantas celestiais, impregnava nas ruas, nos templos, no anfiteatro, nas montanhas pálidas, nos músicos que dormiam, em tudo.

Enquanto os olhos se fechavam, com sono, misturados num grande caldeirão de improbabilidades sobre o que explica todas as ciências e as sensações, ela aparecia, sempre que ele quisesse. As visões daqueles que passavam do lado de fora se confundiam com as dele, e do lado de fora ele o via próprio do lado de dentro, obscuro, com todos os seus medos em volta, como fossem correntes invisíveis a olhos cobertos pelas palmas da ignorância. A vida o testava, e em muitos testes a falha era inevitável, e a vida continuava, apesar dos erros.

Tinha um gosto azedo, a falha. Gosto de vinho estragado, misturado por concreto, onde os gritos de desespero não podiam ser emitidos por sequer um ser humano, nem o mais arrependido das causas impossíveis, e, portanto, era guardado e cravado nas correntes. Algo que não se grita fica guardado para todos os tempos, até que se resolva olhar bem de perto e sentir o gosto azedo.

Admirava aqueles que pintavam quadros do mais absoluto caos, e faziam as igrejas parecerem tão belas que todos poderiam acreditar na salvação, além de desejá-la. Querer e acreditar são conceitos irmãos, e nem sempre estão juntos na mesma curva de conceitos…

Junto com as correntes dos medos, havia também as correntes das culpas e das vergonhas, e não existia diferença alguma entre elas. As fiandeiras, como ele gostava de ver, eram nada senão correntes. Aquelas que escreviam determinismos para a vida e para as vontades limitavam a existência. Pensar no tempo e contá-lo anulava completamente a infinidade de cada respiração.

E continuavam a comemorar os nascimentos, sem saber que tantas comemorações eram o que causava mais dor quando se aproximava das roupas sombrias da morte.

Naquele dia em questão um barulho incomodava. Parecia um trovão, mas não necessariamente chovia. A montanha tinha um brilho, talvez o Sol indo embora, mas não fazia sentido. O Sol não precisava ir embora por ali, e, se fosse, devia fazê-lo logo depois do fim da tarde, não agora… Mas o brilho aumentava mais, e, como havia gente que não podia conceber a idéia de navios antes de vê-los, ele não podia conceber o inferno sem passar por ele.

Nem sempre o inferno é apresentado às pessoas de mau comportamento. Os bons e os justos são obrigados a conhecer aquilo tudo para onde nunca mais vão querer voltar. Os mais justos ainda compreendem, e apreciam cada gole do cálice da dor.

O fogo descia, lentamente, como que buscando aqueles que se alimentariam dele. E esquentava cada vez mais. Era o mesmo medo que tinha da chuva quando criança, mas os medos eram apenas escrituras interiores. Aquilo era real, assustadoramente real, e descia pela montanha em busca de sua alma.

Era uma guerra curta como um relâmpago, mas que não passava para o lado de fora dos olhos, abertos, espantados, sem lágrimas, sem sensações explicáveis. Apenas viam o que já tinha destino certo, e continuava a descer.

Nenhuma palavra, nenhuma prece, era tudo ali, naquele momento. Podia dizer o que viesse em mente para quem quisesse – nada seria lembrado por aqueles quartos. E a verdade vinha cada vez mais sedenta, cada vez mais verdadeira.

A rua toca, então, o rosto das próprias luxúrias. A verdade toma a rua. Em pouco tempo, bate à porta, por mero aviso, uma vez que já adentrava. E a verdade era rubra, mas não tinha vergonha. Tinha ira, e a ira era ilusão de todos aqueles que, subitamente, curavam-se do vinho e sentiam o vinagre. O inferno entrelaçado com as distorções da verdade. Emaranhados, chegam próximos aos seus pés, e queimam.

Não havia para onde correr, era como se as pedras se tornassem líquidas e o centro do universo mostrasse sua vingança a todos aqueles que o pisavam diariamente. As estátuas tinham vida, e esse pensamento foi o último que se concretizou à cabeça dele. As estátuas, elas tinham vida… E elas viviam a angústia de se tornarem eternas num lugar fadado à repetição.

Todos os versos, todos os músicos, todos os gregos e os egípcios, todos os vinhos, todos os templos, tudo seria condenado a viver para o resto do sempre, ali, contemplativos, esperando por alguém a observar, alguém que viesse do mais alto das montanhas, menos quente que a verdade que naquele dia se fez em rio pelas ruas e mostrou aos bons e aos justos como era o inferno…

Haveria de chegar gente para se contemplar. Enquanto isso, o céu parecia mais bonito todos os dias, e existia muito mais que uma massa azul uniforme. Os discos, as fases da lua, até as escuridões eram diferentes, e ninguém podia saber…

As estátuas respiravam o éter e o fogo, e, espantadas dentro dos próprios pensamentos, passaram a mostrar a toda a História da humanidade quais eram as viagens universais, que era a verdade, que era o inferno, que era o paraíso…

Tudo tinha seu único lugar, e os seres que respiravam, apesar de terem vontade, chegaram muito perto do centro do universo, e foram congelados para sempre numa massa flamejante.

Melancholia II – PTENG

Fase I – O Portão

Enquanto andava pelas correções gramaticais, as quais insistiam em acusar minhas falhas idiomáticas, até que agora cessaram, era como a janela de Heathcliff. Estava frio lá fora, mas eu queria entrar. Mesmo sem saber ao certo o que tinha dentro da casa, onde estava a porta, eu queria entrar e sentir o calor da lareira e suas brasas e suas faíscas contra o inverno rigoroso.

As paredes da casa eram ásperas, e ainda havia o medo de ficar preso, sem saída, próximo ao fogo da lareira, e vê-lo incendiar toda a montanha.

As ondas, as contas. A cada logaritmo, a cabeça parecia acumular um pouco mais de explosões, um pouco mais de elétrons rebelados, e a noite parecia mais fria que o normal, os ventos pareciam mais fortes que realmente são, as palavras pareciam mais perigosas e dolorosas mesmo sem serem ditas. As ruas vazias angustiavam os pobres entardeceres onde sentia os ecos dos gritos. A prática levava à melhora. A prática levava ao sem nexo.

Try to figure out how waves do the dance
Patterns emerging as moons tick vein clocks,
Outside the window, staring eyes, door knocks
Into nights as my spirit flows in trance.

A prophet opened this mind, spinning glance,
Uncanny integers and stormy locks,
Sand after sand, machine, block after block.
Future past Constellations beyond sense.

Lack of sensations, waltz of obscurity,
Trying, in vain, see how to let it out.
Lines in the sky of all insanities.

Growing inside a seed of sinusoid doubt.
A crack has opened gamma, human kiss,
I try to break the spell and leave the cloud.

Fase II – Fermentação

Uma falha, talvez, na evolução: o que sentimos. Por que sentimos, por quem sentimos. A mais bizarra das invenções da grande obra, do grande plano. Em alguns momentos, os instrumentos deviam ser cessados, e as únicas batidas a serem ouvidas deveriam ser a dos dois corações em ressonância. O sangue correndo no mesmo fluxo, e tudo sem precisar de cálculos, sem precisar de valores.

O ar era suficiente, os pontos luminosos eram suficientes. Creio, até, que nem pensamentos fossem necessários nesses momentos. Algum meio de desligar o cérebro, esquecer do que é a realidade e viver o que verdadeiramente é a realidade.

Que é, no caso, um tanto diferente do que as lascas insistem em dizer ser a realidade.

Complex strings raging silent frequencies,
As thoughts become words, phrases as stumbling swords.
I walk upstairs, world goes without regards.
Despite the cold, Sun still in the axis.

When the nights seem lonely as I would pray,
In seventh hell I could miss the warmth,
Couldn’t see the stars if I won’t look North.
Ratios won’t tell where to look for a Sun ray.

Break of dawn beside the rivers and trees,
No why to eat that outside worms beneath.
Matter of view: see it as really is.

At wall, sometimes have to release belief,
Sail against the coldness of seven seas,
Breathe no sorrows on the top of the cliff.

Fase III – Iluminatti

Outro corte de cena, truque de edição. A árvore ficava cada vez maior e mais ampla, as folhas calmas fazendo seus ruídos devido a todo o vento. A obra de arte toda à minha frente, a maior de todas as obras. O compasso, o esquadro, os moldes, todos eram senão instrumentos mudos, como o piano talvez fosse um outro tipo de instrumento. As contas e as equações apareciam no papel não como uma tradução do que é fechado finito real, não do que é o caminho, não dos padrões. Fazia parte da maior das obras já realizadas pelos micróbios, pelos primatas que acharam a pedra, acharam o fogo e acharam a Lua, que acharam a vida também.

Uma obra indefinida, sem autor preciso, sem tempo de ter começado, sem tempo para terminar, à mercê da vontade apenas daqueles que quiserem escrever um próximo capítulo. Esquecer que o mundo é real e esquecer que esqueceu que o mundo é real. Esquecer dos motivos, e entregar-se apenas ao que está acontecendo.

Alienar-se é uma das sensações mais nobres que podemos sentir. Iludir-se faz com que pedaços pequenos de grandes sonhos materializem-se, e livra também um bom peso da matéria invisível que esmaga o crânio de vez em quando.

É sono, é pesar. E as contas e os expoentes não são o melhor remédio para a enxaqueca. Pensar nas dores não as alivia. Em alguns momentos a janela serve como cinemascope, e, sem preocupações com a verdade ou com os rumos a serem tomados, a vida passa para ser vivida, e não decifrada. Para ser tentada, e não trapaceada.

Não são padrões. Talvez exista algum, de fato. Mas o primeiro respirar, o vermelho que entra pelos olhos, e toda a gama de sensações estranhas que passam com o tempo e voltam depois, que seja o que une as diferentes épocas da humanidade, o que une quem escrevia em pedras e quem escreve em naves espaciais. A imaginação é mais poderosa que qualquer tipo de máquina.

E todas as tais tempestades hão de passar em pouquíssimo tempo, as paranóias passam a dar lugar a outras cadeias, e nada disso é exclusividade. É apenas como ocorre desde as épocas remotas, e é como ocorrerá por muitos e muitos anos enquanto houver um simples ser racional rastejando pelas pedras e pela terra.

Quebra-se o gelo da Era Glacial quando se esquece que está frio.

A glimpse of red started something, somehow.
My eyes, they were not blinded anymore,
Once living, I gave away Pain and Gore.
Once escaped, could turn against the claw.

In a distort of lost melancholia
Found something I have lost long time ago,
Kind of feel wanted ever to re-know,
Stones kept melting frozen schizophrenia.

Unlocked again is this door here to me,
No fear to look outside, nor roll the dices.
Sun strikes, for now I can barely see.

Without looking glasses before we be,
Then discover how life has its own price.
Behold this time how we can melt the ice.

Epílogo: O Ar

E quando sentir-se arrebentando por dentro, sendo triturado por coisas que ao menos estão acontecendo, lembre-se das palavras, lembre-se das grandes obras. Tudo flui e tudo passa, a idéia de infinidade sequer passa pela mais ávida das imaginações. Nada é tão ruim quanto parece, e isso também é clichê. Mas com o tempo as dores passam, o sono passa, o peso passa.

Esse texto todo passa.

Como no décimo terceiro portão, quando a cobra morde a própria cauda o ciclo recomeça. Termina para uns, começa para outros. Outras histórias dão lugar a velhos personagens das novelas que não têm um capítulo final e simplesmente acabam.

É tudo mais simples. Respire o ar. Olhe para a frente. E nevermind.

Outro Prólogo

A primeira página. Aliás, antes disso. A capa dura. Sem desenhos, sem prescrições, sem resumo, sem ao menos um título discernível. Mas curioso, um livro bem guardado, embaixo de uma cama, sob a região do travesseiro. De longe, as páginas parecem amareladas e velhas.

Por hora, o que posso fazer é imaginar se é alguma história, algum diário, algum apanhado de contos ou poemas, sonetos ou documentos, rimas ou pontos. Metalinguagem, segundo o que aprendi há muito e muito tempo, trata-se de escrever sobre escrever, entrando num loop e, por vezes, em labirintos de paradoxos descontínuos. Escrever sobre o ato de ler talvez fosse alguma coisa também.

Tradução instantânea, mas não tão depressa assim, uma vez que estou apenas digitando e digitando prossigo até você ficar cansado de saber que estou só digitando.

Poderia muito bem ser um livro de álgebra.

É também algo notável quando alguém pega o livro em mãos pela primeira vez: título, capa, textura. Sem ver a primeira palavra, uma breve imaginação de tudo o que se passa por dentro da toda poderosa caixa. Se envolve desertos, se envolve tempestades, se é sobre a Guerra de Canudos, se é sobre um grupo de desmiolados navegadores submarinos. A história começa a fermentar por dentro das ligações, e as asas se expandem mesmo que não possamos tocá-las em nosso magro espectro tridimensional.

Uma folha em branco, não sei ao certo porquê. Mas a primeira folha sempre é em branco… Duvido, mas podia muito bem ser algum tipo de conceito centenário envolvendo brincar ainda mais com a expectativa, atrasar ainda mais a primeira palavra do primeiro subtítulo.

Outra equação, flutuando ali na frente. Um logaritmo sobre outro logaritmo sobre outro logaritmo sobre uma cabeça. A pessoa era um integrante, e o exponencial estava sobre si mesmo. Às vezes uma porta se abria no meio do nada, assim como a que Roland vira no deserto, talvez tivesse até a mesma função, nunca se sabe.

O templo estava à minha frente e eu não sabia exatamente o que fazer. Minha cabeça não conseguia se prender ao tempo que estava passando. Eu queria voltar a um segundo atrás por cada segundo que ia para a frente. Era injusto não ser capaz de conceber a idéia de eternidade ou infinidade nesses momentos, lembrar-se que por aqui tudo parece ter começo, meio e fim era maçante. Eu não queria que a folha caísse da árvore, não queria resolver a equação dos logaritmos nem descobrir o que queria dizer tantos gráficos: eu só queria continuar ali sentindo o mesmo cheiro e a mesma textura… (…)

Geralmente tudo isso não existe, é como a matemática ou a física escolares. Desconsidera-se muita coisa e assumem-se muitos valores que simplesmente não são reais. Assim como um mais um são dois, diz a lenda popular: questão de fé.

Conceitos Ópticos – Terceiro Vértice: Borracha

Do início tu dormias. Enquanto, o observador, cego, apenas sentia as alavancas e o cheiro de ferrugem e revoluções correndo pelos sentidos. Tão humanos…

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Erasernstrial Electro, por J. Guilherme #L

Holbein; observar um quadro, tema histórico, e se incomodar com uma mancha de tinta embaixo dos pés dos embaixadores. E depois culpar demônios por visões que sua própria cabeça havia de criar. Tudo àquela época.

Mas resolveste então andar pelas ruas, mesmo sabendo o quanto sozinho andavas. As manchas de tinta de Holbein ainda ofuscavam tuas noites sombrias há um tempo.

Até que achaste a orgânica.

Luzes que acendem e apagam, curto-circuito, como já havias tu dito. Talvez um dia tenha sido algo como esta cidade a concepção que alguém teve para chamar de Purgatório. Aqui, porém, ainda corre pelo mundo dos vivos, ainda sente seu sangue, ainda és carbono, ainda faz sentido para ti os poemas que Anjos escrevia. Assim é tua carne, putrefata. Mas tu resistes. És forte!

Pensas que é forte.

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Perambulando por perto das Revoluções de tijolo e fumaça, algo como as manchas de tinta o intriga. São as outras manchas. Tal janela quebrada, aqui ou ali, barulho de máquinas a trabalhar o dia todo sem parar. Você não consegue enxergar quem manipula as máquinas, elas parecem ser um monstro vivo e urbano, escondido por qualquer beco noturno, deglutindo, devorando. O amanhecer é relativo. Só amanhece quando você quer que amanheça.

É tão dono quanto louco, é tão louco quanto dono de si mesmo.

A culpa mostra suas alucinações. Tantas páginas assim não poderiam ser nem escritas, você é que as está escrevendo. Mas pouco percebe, pois tem mais o que fazer… Nunca tem tempo suficiente para olhar ao redor, ver se está sendo seguido. Nunca tem tempo para ter medo do espelho. Você quer ver alguém e vê outra pessoa. No lugar onde era para você ver apenas você. E mais ninguém.

E quando as luzes se apagam, você também não tem tempo para perceber que o escuro apaga os dogmas, apaga as barreiras, e você fica por você mesmo, dependendo do funcionamento padrão do corpo, escravo das condições do Ka.

Até que o despertador toca, e você mal percebe também que não teve tempo para pensar em quanto tempo se passou desde que fechou os olhos e novamente os abriu. Só pode saber a posição das coisas quem de cima as olha. Quem as vive pouco consegue perceber, apenas vive.

A matemática é a linguagem da Natureza, disse.

Quando se fica obcecado com algo, começa a ver por todas as partes. Números, razões, acontecimentos, pessoas, frases, sons, ruídos, temperaturas e ventos. Tudo é exatamente como deveria (ou não deveria) ser. Tudo segue a ordem natural de sua obsessão. Assim como as mesmas formigas, desde 1929, vão até o formigueiro, voltam do formigueiro, como se entrassem e saíssem de veias, como se saíssem de mãos abertas e perfuradas. Tinha gente.

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Fr;Nd;Ep. @029 @017 – PTFU

Conceitos Ópticos – Primeiro Vértice: Irracionalidade

Os etruscos, sempre soberanos.
O Soberbo, sempre soberano.
Soberano. Soberbo.

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REDE – 6A | O Universo é feito de Números


Tal vez que Sibila, de Cumas, ofereceu nove livros de profecias ao Soberbo. Recusados foram, como já era de se esperar, vindo de alguém com tantas riquezas vazias; Sibila queimou três livros, e depois voltou a oferecê-los ao Soberbo, pelo mesmo preço. Soberbo se sentira humilhado e desonrado, obviamente não aceitou a proposta. A Profetisa queimou mais três livros, dos seis restantes, e ofereceu os três que não foram queimados ao Rei. Dessa vez, porém, o Rei comprou-os.

Euclides teria visto isso tudo, teria acompanhado fielmente os fatos, teria até calculado alguma coisa. Euclides estava muito ocupado em outros andares do mesmo prédio.

Os números pareciam correr numa infinita fila de razões matemáticas, mas ao mesmo tempo Euclides não conseguia achar uma razão em meio aos números. Euclides falhara. Apenas vomitara uma série de números de sua inconsciência.

E então revirava o lixo. Queria cheirar o vômito, queria lamber o vômito, provar o gosto do vômito. O vômito mostrava as entranhas de Euclides; queria as entranhas conceituais de Euclides. Quando alguém, ou algo, consegue se tornar consciente de sua estrutura, a vomita.

Era um preço caro a se pagar, mas talvez nunca mais houvesse próxima vez como aquela.

As árvores surgem das raízes, que surgem das sementes. As raízes, tão abaixo dos nossos pés, sustentam muito do que podemos ver acima de nossas cabeças. As raízes parecem não ter fim, as raízes parecem não pensar, parecem irracionais. Uma irracionalidade falsa. Elas sustentam o céu. Mas elas não têm como ver a luz.

Apesar disso, as folhas, bem ao topo, ainda realizam fotossíntese.

Os Nove Livros não pareciam fazer total sentido. Faltava uma ponte para ligar as ilhas. Os insetos comiam, silenciosamente. A paranóia parecia ser o combustível que mantinha os ângulos e os vértices em seus devidos lugares, sem deixá-los vagar pelo caos infinito.

Estava cada vez mais difícil formular frases concretas a respeito de qualquer coisa, pensava. Tantos tempos e espaços diferentes, e os Três Livros que restaram dos Nove, ainda permaneciam fechados. Quais conhecimentos maravilhosos possuíra, daquela vez, a profetisa de Cumas?

O conhecimento dos livros das profecias estava realmente dentro dos livros das profecias?

Valia de algo sabê-lo?

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+10: 2ndV

A Narrativa [Primeiro Ato]

[Eu]

Boa tarde, caros viajantes.

Lembram-se do hospital? Parece que foi ontem, não? Todas aquelas luzes por cima de sua cabeça, as pessoas, os equipamentos, toda aquela atmosfera anestésica. Agulhas, ferros e pílulas. Quantas lembranças. Sinto o cheiro até hoje.

Pois perto de um grande hospital abandonado foi onde achei um conjunto intrigante de manuscritos. Não consegui traduzir tudo ainda (como é de praxe e como vocês já se acostumaram), mas algumas coisas já foram passadas para esse meu computador.

Está chovendo agora, e eis um fato um tanto quanto medonho em se tratando de onde eu estou nesse momento. Será que a chuva é perigosa?

I – Fiasco IF Soil

Twilight of the Canvas, por J. Guilherme #L

Da sinapse; do relógio. O mundo e a realidade. E a existência. Seqüências intermináveis de conhecimentos novos e profundos, cada vez mais detalhados e intrigantes. E quanto mais procuramos entender o porquê, mais mergulhamos nas entranhas místicas da nossa própria inconsciência.
Passam os dias, e a cada um desses dias parece que a convicção de que tudo pode ser explicado em fórmulas gigantescas matemáticas só aumenta. São variáveis, constantes, integrais, somatórias, números, letras, razões e radicais. E depois?
Ou melhor… E antes?
Ao parar para pensar sobre o simples ato de existir, muitos filósofos ao longo dos milênios passaram pelas mesmas alucinações bizarras, sonhos complexos, lapsos de realidade e crises das mais estranhas naturezas. O máximo que conseguiram foi deixar anotações, muitas sem nexo. Assim como esse texto.
Maior parte das vezes aquelas noites em claro e as tentativas de tradução das visões se resumem a cópias de fragmentos perdidos no vácuo do universo comunicativo, expostos como troféus de pseudo-intelectualismo em páginas que, no fundo, são apenas números.
Os números parecem querer traduzir a essência, a vida.
Os amores.
As dores.

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O segundo capítulo estou quase terminando a tradução. Amanhã mesmo já a coloco aqui. Ou hoje, quem sabe…

A única coisa que me impede de colocá-la hoje é meu sono. Esses últimos dias eu tenho ido dormir bem cedo, e acordado muito cedo também. Houve uma época em que eu dormia três, quatro da manhã, acordava às duas da tarde; maldita mudança magnética. Tudo parece estar passando tão rápido… Uma vez conversava com um amigo meu, ele me contou sobre pesquisadores citando teorias sobre campos magnéticos modificados e velocidades alteradas, tudo muito abstrato, não entendi direito.

Mas talvez tenha algo com o magnetismo mesmo.

Grato!

Post Scriptum: E em breve também mais uma parte daquele poema que citei em um escrito passado. São tantos pedaços de tantas coisas que acabo até me esquecendo de algumas.

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(Refrão – Agonia)

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