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Circo Terebintina – Luxúria e Fogo no Palco da Podridão
Tudo o que descreverei agora começou em meados da década de neon. Eu usava sapatos brilhantes, ela possuía muito cabelo e pouca roupa; queríamos ficar alucinados.
Não é algo que eu recomendaria a pessoas íntegras. O circo estava descansando, era alta madrugada, nenhum palhaço estava com sua maquiagem do lado de fora dos olhos.
Entramos pulando a cerca. Deixei meus sapatos na grama, para assegurar que não suspenderíamos qualquer partícula de barulho ao éter aéreo. Andamos, cambaleando por causa da gasolina, até uma das tendas abandonadas.
O circo era de um mexicano qualquer, perseguido pela polícia de seu país, sob acusa de maus tratos a infantes, já preso por vinte e sete anos, devido à prática de Necropedofilia. Apesar de tudo, acenava com um franco sorriso ao rosto para seus pagantes.
De qualquer forma, lá estávamos. Um lugar sujo, que cheirava a restos de fritura e a diabetes, cortinas imundas, areia, poeira – nossa vontade aumentava a cada instante.
Puxei de minha mochila a lata que tanto queríamos. Amarela, cilíndrica, caveiresca. Bebi o primeiro gole da terebintina, e nisso começamos a roçar línguas, apaixonadamente. Enquanto nossos olhos se faziam cerrados, derramávamos aquele líquido um no corpo do outro.
Ela já estava encharcada. Começamos, quase ao mesmo tempo, a sentir a ardência. O gosto de nossas línguas se desprendendo da boca, nossa pele enrugando, apodrecendo, derretendo…
Iríamos nos amar como dois criminosos até que nossos ossos pudessem se tocar.
Sempre havia mais terebintina, e um pouco de nossa carcaça já caía e se tornava um torrão em meio à areia do picadeiro (nota de edição: parecia-se com brigadeiros de carne).
A sensação de estar ardendo em brasas ácidas era o expoente máximo da lascividade. Nem água nem saliva aliviavam a dor, e isso nos era sublime.
Ela gemia, eu grunhia, lambíamos todo o suco podre que emanava de nossas carnes.
Surgiu, então, das cortinas, para nossa adorável surpresa, o dono do circo. Ouvindo ruídos há quarenta minutos, resolveu averiguar o que acontecia.
Rimos a ele. Nós éramos, modéstia a parte, de beleza extraordinária. Mesmo cegos de um olho e derretendo com a lepra auto-induzida por coito terebintínico, éramos formosos. Eu bem magro, ela com peitos salientes e curvas dignas.
Expliquei rapidamente ao dono do circo o que se passava, enquanto ela me chupava e me jogava mais terebintina. Ele, claro, entendeu, e se mostrou solícito.
Voltou treze minutos mais tarde com um garrafão vermelho. Trazia consigo querosene, o qual seria usado mais tarde para atear fogo nos animais que não fossem sê-lo útil para a caravana; decidiu, porém, no alto de sua bondade, apenas jogá-los à linha do trem.
Quanto ao querosene, abriu a garrafa, disse-nos para que continuássemos, e subiu ao trampolim de sete metros. Lá do alto começou a entornar o querosene em nossa cópula. Era como um banho de fogo – delirávamos um ao outro enquanto o fogo invisível escorria.
Às cinco da manhã acordaram os palhaços, e chegaram já de sobreaviso – cada um trazia um presente a mais: álcool, cachaça, ácidos, água suja, tudo se juntava a nossa orgia.
Quando se começaram a chegar as pessoas – crianças, velhos, senhoras… – os palhaços se rolavam ao chão, comendo areia e nossos torrões e lambuzando-se no líquido tóxico.
Lá do alto, o dono do circo nos jogou seu charuto, aceso.
Num momento rápido, nós e todos os palhaços estávamos em chamas, carbonizando. Abraçamo-nos, em confraternização, sentindo nossos corpos tornarem-se queijo frito.
Foi a noite das noites, e assim nasceu nosso primeiro filho, meses depois.
O circo nunca dorme.
Espelho I-II
Viajantes; no último dia, na última semana, ou na última tarde, que seja, deparei-me com espelhos perdidos. Jogados pelo tempo, abandonados à estação, sabe-se lá desde quando. Espelhos. Numa sala trancafiada, na qual entrei sem chave.
Andei pelos monotrilhos obscuros, com o mesmo cheiro de poeira e as mensagens subliminares e todas as frases que escrevo de olhos fechados, imaginando, torturando meu próprio cérebro, divagando sobre o que há escondido embaixo de cada trilho de trem onde já não passa mais nada desde há muito tempo…
Olhos fechados, talvez esse seja um bom método, uma boa metáfora e uma boa síntese. Muitas vezes alguns segredos só são confessáveis, mesmo que acompanhado da pessoa mais confiável do mundo, sob uma neblina feita de escuridão. Seja ao fim de uma festa, ou antes de dormir, com as luzes do quarto apagadas.
Às vezes saem erros nas palavras, distorções, mas o conceito fica bem mais claro quando está tudo escuro.
E, dessa forma, continuei a caminhar, espreitando cada vazio enferrujado para tentar achar alguma porta perdida, alguma entryway station inside the train station. Pois bem, achei duas delas, uma em frente à outra.
Entrei à primeira.
Era um lugar sujo. Insetos podres já mortos. Metal podre. Líquido podre. Cheiro de podre. Tudo exatamente podre. Ao meio da sala, como algum tipo de ídolo exposto às orações, jazia um espelho velho. Mais velho que a própria existência da estação, creio. Mais velho que as eras todas da humanidade, creio. Mais velho que a consciência.
Nele, algumas manchas, mas elas não pareciam estar lá devido ao tempo. Parecia que o espelho já possuía essas manchas desde que fora fabricado. E elas ofuscavam a própria imagem que via ao tentar olhar meus próprios olhos.
Elas me indagavam, também. O que eu tentava ver? Por que tentava ver uma imagem sem manchas? Por que precisava ver a mim mesmo para ter certeza de minha existência? E se alguém apalpasse meu reflexo no espelho, por dentro? Eu sentiria afeto? E se as manchas fossem minhas de verdade, eu saberia limpá-las? Por que limpá-las? Por que eu queria ser limpo? Eu precisava ser limpo? Eu precisava de reflexo? Por que eu precisava tanto de tanta coisa? Por que eu me perguntava? Por que eu tinha consciência? Por que algo me despertava sentimentos mesmo sendo um reflexo de mim mesmo? Eu sentia raiva?
Pois foi o que vi. Um espelho manchado, e, dentro dele, alguém, algum vulto afagava meus cabelos secos. Segurava minhas mãos, brincava com qualquer coisa inocente que estivesse ao alcance. Alguém brincava com meu reflexo por dentro do espelho. Do lado de fora, ainda parecia tudo frio na estação de trem abandonada.
Admirei uns segundos, até que quase fui puxado para o mundo de dentro. Não parecia o lugar mais aconchegante do mundo, então vesti meus sapatos (achei muito desrespeitoso continuar de sapatos num templo, seja ele qualquer fosse), e pus-me a retirar do local. Sem um último olhar para o espelho. Não gostei de minha face manchada. Ela não era minha.
Ela não podia ser minha.
Questão fiz, é verdade, de esquecer muito sobre aquela sala podre cheia de coisas podres. Estive muito ansioso pela outra. Seria tão angustiante? Ou uma compensação por tamanho desagrado? Antes de pensar, entrei.
Fiquei atônito, em princípio, ao perceber que não parecia fazer parte da própria estação. Parecia outro mundo, outra realidade, outro tempo; ou aquele pedaço parara no tempo, ou eu viajei no mesmo. Ou era uma outra alucinação. Ou. Ou. Ou! Ou!
Como é doce depender de parafernalhas que nunca funcionam. Na verdade funcionam muito bem, mas travam em horas inapropriadas. Estive relatando, caros viajantes, sobre espelhos e tudo mais, a Segunda Porta, quando as máquinas começaram a ruir; senti o velho cheiro de silício derretido feito aquele queijo delicioso numa fogueira, ou até então marshmallow com gosto de eletricidade.
De qualquer forma, houve um pequeno lapso desde então, estou alarmado quanto às funcionalidades, mas prossigamos.
Estive à segunda sala, reaceso após qualquer tipo de queda ao obscuro. Tudo brilhava mais que o normal, tudo, na verdade, parecia mais anormal que o normal. Não parecia sequer parte da estação. Parecia outro lugar.
Talvez fosse outro lugar.
Ao olhar com atenção ao espelho, realizei que era, de fato, outro lugar. Estava eu do outro lado. O espelho era cristalino, e por ele vi-me achegando, cada vez mais próximo; cada vez mais próximo… Cada vez mais…
Num susto, senti uma mão em meu ombro esquerdo, suavemente, devo acrescentar. Não queria olhar de prontidão quem era ou o que era. Decidi experimentar minhas próprias alucinações. Não fiz questão de olhar. Apenas deixei que fluísse.
Era uma mão feminina. E parecia amigável. Mais que isso, tanto libidinosa. Num momento, entretanto, tive de virar e me deparar com algum tipo de mulher muito exótica, inexplicavelmente bela, com veias bioluminescentes, cabelo comprido e muito liso… E, ao chão embaixo dela se fazia um pentagrama vermelho, e toda a sala parecia branca. Branca e limpa, de fato. Paredes brancas que se assemelhavam a látex, chão branco e liso, e o pentagrama vermelho, e o espelho. Cristalino.
Ela queria me beijar, mas eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Não era eu de verdade, era apenas meu reflexo. Mas dessa vez eu controlava cada ação de meu reflexo. Olhei para o espelho, vi-me do lado de fora, com as mãos perdidas, olhos perdidos, procurando alguma saída de dentro de mim mesmo, gritando em silêncio, debatendo contra o vidro (que talvez fosse manchado se visto daquele ângulo), angustiado.
Eu não podia deixá-la me beijar ali.
Acenei negativamente, uma vez que não podia falar (onde já se viu um reflexo falante…), e ela pareceu compreender, e esboçou um estranho sorriso.
Afastou-se um pouco, e depois se aproximou do espelho. Vi-me chegando cada vez mais próximo, e ela chegando cada vez mais próxima de mim mesmo do lado de fora. As bocas, vagarosamente, na iminência de se tocarem, já podiam sentir a temperatura uma da outra. Era exatamente o que eu queria.
Ali, então, ela e eu pusemos-nos a nos beijar, mas ela não estava beijando meu reflexo. Era eu de verdade. Talvez se voltasse à outra sala nesse momento a sensação fosse diferente. Fosse menos absurda, pois conseguira atravessar até a outra parte do mesmo livro e rearranjar todas as estrofes e todos os parágrafos dos textos que sequer consigo ler.
A realidade não é estática.
E um espelho pode despertar inúmeros fetiches.
E, Senhor dos pesos e etiquetas, o Senhor não se enforcou.
Maria Sanguinolenta
Saudações!
Sei que é um tempo desde a última transmissão, my fellow readers… Mas é por um bom motivo: tenho presenciado experiências fantásticas. Maioria delas tem sido agradáveis ao extremo. Algumas um tanto frustrantes, mas sempre servem para ensinar algo… Mesmo que esse algo só apareça depois de um longo hiato subversivo das revistas e jornais e boletins rodoviários extraordinários.
A cena que preciso retratar por hora é cinza e vermelha: havia portas, talvez, há muito tempo, o cheiro é de cimento e resíduo nuclear e vômito após uma longa sessão subversiva de sexo oral.
Ela era a garota que sempre sonhei. Não exatamente a que sempre sonhei, pois nunca a imaginei de tal forma. Nem a conhecia, na verdade. Ela apareceu no meu quarto. Antes do meu quarto, no meu portão; antes do portão, na minha rua, cidade, país, continente, et coetera. E ela queria uma dose de bloody mary. Sabendo fazer, chamei-a para tomar em casa.
Na verdade eu queria embebedá-la com molho inglês.
Para minha surpresa, ela veio! E não veio sozinha, de fato. Só não sei quem a acompanhou. Em casa ela entrou sozinha, vi o vulto na carruagem indo embora.
Sempre gostei dessas novas tecnologias – eletricidade, que tanta gente comenta; eletrônica, qualquer maluquice assim – e tenho muito orgulho de minha coleção de placas. São tantas placas… Variadas cores, formas, tamanhos, cheiros, texturas… Lindas plaquinhas milagrosas cheias de elétrons e neutrinos dançando com a Lua e com os diodos do destino e com o milkshake eletroeletrônico organicamente organizado segundo as rimas poéticas alexandrinas (ou algumas outras derivações também)… Tudo muito mágico e saboroso. Ah, o gosto dos neutrinos…
Mas no momento da preparação da dose, pensei em algo mais concreto e vermelho: o tomate. Sementes, quem se importa com sementes de tomate… Há quem tenha algum tipo de desejo estranho envolvendo sementes de tomate, segundo o que M.O.$>E.$ chegou a contar certa vez na chuva. Estávamos por demais bêbados. Não lembro ao certo da história. Mas tinha sementes de tomate.
A cena tão horrífica, mórbida e singela do tomate sendo triturado. O tomate que vira suco. O suco de tomate. Da lâmina de aço cirúrgico infinito ao copo. Tinha vodka, mas o momento pedia algo mais violento, algo que combinasse com sangue. Joguei algum licor vermelho. E depois vodka também, se me compreende. Ela não pode faltar jamais. E aí algumas folhas, molho inglês (o tão esperado molho inglês), e algo mais.
Fui surpreendido, então. Ela chegou-se como a preguiça ao meu pescoço. Subiu os dentes até a costa de meus ouvidos, murmurando, arfando, soltando pequenas risadas inocentes de prazer; eis que passou a mão pela minha cintura, alcançou o balcão, sempre tão determinada. Abriu uma das gavetas e pegou um velho cutelo. Era de meu avô esse cutelo… Quantos animais já se passaram por essas lâminas. Quantos hormônios e quantos glóbulos. Glóbulos: era isso que ela queria.
“Licores vermelhos” – disse, e continuou – “doces como o ferro que sustenta tantas casas e tantas torres” – e conforme sussurrava tais romantismos, passava lentamente a lâmina afiada e enferrujada do cutelo pelo próprio pulso. Começava a sangrar e deixar o sangue cair dentro do copo… Era uma cena tão açucarada…
Fomos tomados pela embriaguez antes da bebida ficar pronta. Peguei o cutelo de suas mãos e comecei a fatiá-la toda. Mas não violentamente – com ternura. Ela ria e gargalhava de tanta excitação, tremia quando eu afastava aquela lâmina já avermelhada… E a dose em cima da mesa: num momento, de repente, resolvemos parar um pouco o ato sexual e tomar a Maria Sanguinolenta.
Ajoelhamo-nos no chão e tomamos cada gole como se fosse o último, aproveitando cada nuance. Pensei que o molho inglês daria um gosto especial, mas o gosto das hemácias foi fenomenal. Nunca tinha provado hemácias tão saborosas. Parece que hemácias foram feitas apenas para combinarem com o gosto tão ímpar do tomate e do molho inglês e da pimenta.
Eis que ela levantou, já com as roupas todas estraçalhadas (quem é que pensa em tirar a roupa convencionalmente quando se tem um cutelo afrodisíaco em mãos…) e correu para o quarto. Assustei-me por um momento, mas já estava eu meio zonzo devido ao álcool e aos eritrócitos… Apenas fui me arrastando até lá. Eu não tinha cortes pelo corpo.
E lá me deparei com uma das cenas mais eróticas que jamais passara sequer nos sonhos mais despudorados de minha mente tarada. Lá estava ela, esfregando-se contra o chão, com alguns circuitos em mãos, alguns fios enrolados pelo pescoço e coxas. Minha nobre coleção de placas, tão organizadas, agora no caos da excitação suprema.
Ela pegava as placas mais ásperas, com mais terminações, e lambia, roçava contra a virilha, mordia, usava inclusive como se fossem artifícios de satisfação carnal. As mais ásperas e pontiagudas. Parece que ela gostava mesmo de bebidas sanguinolentas.
Eu também gosto, como já se sabe. Por isso não pude manter-me como observador. Abri o armário e peguei mais placas. Joguei-as todas em cima dela. Placas velhas, podres, cheias de formigas e ovos e teias e terra e ferrugem e seja lá qual mais elemento velho possa existir nas tabelas. Cada placa que jogava, mais ela se retorcia… Posso ver o quanto ela se divertiu analisando as manchas de sangue pelo quarto todo: cama, escrivaninha, armário, ralos, lixos, livros, parafernalhas, rádios, janelas. Tinha muito sangue.
Voltei à cozinha, enquanto ela continuava tal insólita masturbação. Só para pegar mais uma dose… No caminho, no entanto, deparei-me com o radiador. Não estava frio… Eu poderia comprar outro depois… Chutei-o até desprender da parede e levei-o ao quarto para minha amada Maria Sanguinolenta.
Claro que de início ela estranhou, afinal uma pancada na cabeça pode parecer muito rude. Mas depois gostou, como previ. E continuou seu alfa de sangue e cobre…
Depois disso, meu caro, não me lembro de mais nada. Tomei mais três ou quatro doses de todo tipo de bebida que encontrei no quarto… N’outro dia acordei com uma carta dela ao meu lado, com juras e juras de amor eterno.
Foi uma tarde inesquecível.
- SM2; Prypiat, 2305 1002
Sobre detalhes técnicos, o comunicador está com um chiado horrível, e não consigo entender de onde vem. Se algum dos que estiverem lendo estiverem tentando passar uma mensagem, por favor, troquem a freqüência. Nessas microfreqüências de césio toda a programação pode ser desfigurada. Já não é lá tão simples achar um pouco de césio saudável por essas bandas… Preciso usar muito bem esse pouco.
Estou, e isso é bom relatar, para sair definitivamente desse casebre… Achei outra construção abandonada, com mais recursos, mais poeira e mais concreto. Igualmente cinza, e fica praticamente ao lado. Já era hora de sair daqui e testar uma nova disposição de comunicadores para um melhor relato…
A cidade ainda é cinza, não se enganem com tanto vermelho. A cidade é cinza. E a rodoviária ainda existe, assim como todo o resto. Em breve, aliás, volto a catalogar certos documentos que achei. A bateria está com problema e o cabo de energia foi devorado por um gato. Não aqui, claro; aqui não existem gatos. Mas antigamente eu usava uma gambiarra, e esta não está surtindo mais efeito. O cabo de energia está com problemas, se alguém souber como consigo um novo, ou melhor, se alguém puder mandar um novo por avião e jogá-lo lá de cima… Que seja, estou sonhando demais com esse cabo de força. Esqueçam.
Até a vista, my fellow readers!
Grato.
Outro Prólogo
A primeira página. Aliás, antes disso. A capa dura. Sem desenhos, sem prescrições, sem resumo, sem ao menos um título discernível. Mas curioso, um livro bem guardado, embaixo de uma cama, sob a região do travesseiro. De longe, as páginas parecem amareladas e velhas.
Por hora, o que posso fazer é imaginar se é alguma história, algum diário, algum apanhado de contos ou poemas, sonetos ou documentos, rimas ou pontos. Metalinguagem, segundo o que aprendi há muito e muito tempo, trata-se de escrever sobre escrever, entrando num loop e, por vezes, em labirintos de paradoxos descontínuos. Escrever sobre o ato de ler talvez fosse alguma coisa também.
Tradução instantânea, mas não tão depressa assim, uma vez que estou apenas digitando e digitando prossigo até você ficar cansado de saber que estou só digitando.
Poderia muito bem ser um livro de álgebra.
É também algo notável quando alguém pega o livro em mãos pela primeira vez: título, capa, textura. Sem ver a primeira palavra, uma breve imaginação de tudo o que se passa por dentro da toda poderosa caixa. Se envolve desertos, se envolve tempestades, se é sobre a Guerra de Canudos, se é sobre um grupo de desmiolados navegadores submarinos. A história começa a fermentar por dentro das ligações, e as asas se expandem mesmo que não possamos tocá-las em nosso magro espectro tridimensional.
Uma folha em branco, não sei ao certo porquê. Mas a primeira folha sempre é em branco… Duvido, mas podia muito bem ser algum tipo de conceito centenário envolvendo brincar ainda mais com a expectativa, atrasar ainda mais a primeira palavra do primeiro subtítulo.
Outra equação, flutuando ali na frente. Um logaritmo sobre outro logaritmo sobre outro logaritmo sobre uma cabeça. A pessoa era um integrante, e o exponencial estava sobre si mesmo. Às vezes uma porta se abria no meio do nada, assim como a que Roland vira no deserto, talvez tivesse até a mesma função, nunca se sabe.
O templo estava à minha frente e eu não sabia exatamente o que fazer. Minha cabeça não conseguia se prender ao tempo que estava passando. Eu queria voltar a um segundo atrás por cada segundo que ia para a frente. Era injusto não ser capaz de conceber a idéia de eternidade ou infinidade nesses momentos, lembrar-se que por aqui tudo parece ter começo, meio e fim era maçante. Eu não queria que a folha caísse da árvore, não queria resolver a equação dos logaritmos nem descobrir o que queria dizer tantos gráficos: eu só queria continuar ali sentindo o mesmo cheiro e a mesma textura… (…)
Geralmente tudo isso não existe, é como a matemática ou a física escolares. Desconsidera-se muita coisa e assumem-se muitos valores que simplesmente não são reais. Assim como um mais um são dois, diz a lenda popular: questão de fé.