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O Conto do Milênio – Capítulo 7: Corrida de Pedalinho
Hoje eu acordei com uma vontade sem igual,
que corria junto com a chave do meu carro.
Acordei com vontade de matar um inocente,
partir o corpo ao meio, por cima deixar o catarro.Queria ser o mais cruel de todos,
só pra sentir o que é a verdadeira culpa.
Livrar-me da burocracia moral imposta,
saber de fato como é ser mais podre que bosta.Ultrapassá-lo na contramão da avenida sete
e escolher com calma qual seria o local da morte.
Destruir todo o livre arbítrio da locomoção,
destronar o rei da mentira à minha sorte.Não conheço outras sensações parecidas,
todo o resto foi imposto até tal tenra idade;
ser maníaco não é buscar qualquer glória,
mas sim apenas a mais divina das sinceridades.Senti até o gosto da coluna no vidro,
crianças gritando na rua quando interrompi a brincadeira;
jogando carne moída de alguém honesto pelas calçadas,
esperando a viatura, as pedradas e as lesmas de cadeira;Tanta agressividade nunca será necessária,
um ser humano digno jamais deve pensar tais besteiras.
Podemos um dia ter em segredo prazer nas animalias:
Quem nunca acordou com vontade de abraçar uma britadeira?Colocar o cimento nos olhos, enquanto tritura o pé.
acompanhar os gritos horrorizados dos amigos,
colegas, parentes, políticos, secretários;
vendedores, artistas, escritores, estelionatários…Justiça, venha até mim;
condene-me dentro das leis, tranque-me nos cernes.
Acordei com vontade de matar qualquer transeunte,
declaro-me culpado, o mais sujo dentre os vermes.Tão constrangedor para alguém tão cidadão,
vontade besta e irrealizável para o bem comum;
Ah se as paredes do necrotério fossem de pedaços de gente,
quão doce seria o sonho de assassinar um inocente…
Observando o Lago Selvagem
Numa tarde infinitamente próxima, guardei minhas vontades para roubar lembranças do lago. Eu e meus aparatos tocamos a sinfonia da alma ao capturar feixes selvagens de luz que acidentalmente adentravam o receptor foto-sensível das minhas invenções.
Era uma tarde diferente. Não havia mais ninguém para atormentar as ondas eletromagnéticas, não havia ninguém para me fazer tremer antes de apertar o obturador, não havia ninguém para incomodar a música ambiente das águas calmas do lago fechado. Pude perceber cada peixe que saltava, mesmo que em minhas visões periféricas. Pude reparar em cada folha fractal de cada árvore, e em como a natureza é sublime – tão sublime que nos convidou, certa vez, a fazer parte dela, e mesmo assim apenas a contemplamos como algo alheio, e não como algo de que somos efetivamente parte.
Cada galho que cai, cada pássaro que não consegue voar, cada peixe engraçado que bate a cabeça contra o barco de madeira, cada acerto e cada falha, mesmo que longe de nossa percepção, são partes de nós mesmos. Tudo o que vemos, tudo o que roubamos, tudo o que pensamos e todas as palavras que não conseguimos dizer são tão sublimes quanto as euforias. As mentiras, as verdades, tudo converge para a existência eterna e incompreensível de nossa própria casa que tentamos compreender como vida.
Um pedaço do lago parece se ocultar dentre árvores, e lá talvez durmam – com olhos abertos – mais peixes, provavelmente os mais introspectivos, isto é, os que não batem a cabeça contra os barcos, mas sim contra as árvores e contra os outros peixes.
Minha máquina artificial também é parte da natureza. É uma mistura alquímica bem elaborada e genialmente encaixada em si mesma com o intuito de fazer o tempo durar mais segundos num pedaço perdido de papel que haverei de olhar, numa outra tarde, ao crepúsculo da existência, sentindo nostalgia por ter andado nessas tardes amarelas e silenciosas, e, ao mesmo tempo, com o pesar de não ter conseguido mostrá-las em toda perfeição pra mais alguém que não os galhos das árvores e o barco de madeira.
Mas, obviamente, até mesmo o pesar e a nostalgia não devem se anular ou entrar em conflito. Tanto quis o silêncio que acabei por apagar qualquer outro barulho… Talvez as músicas ruins sejam tão importantes quanto as boas… Talvez as mensagens simples sejam tão valiosas quanto as complexas…
Num pequeno momento de tempo, enquanto a infinidade do mesmo se mostrava no papel de minhas mãos fotográficas, não me importava com a dualidade das coisas todas, ou com o céu, ou com os peixes engraçados do lago. O que me fazia buscar as sombras nas fotografias era a necessidade de mostrar a mais alguém todo o universo que vive em pedaços tão pequenos de tudo, e, ao mesmo tempo, tão infinitos quanto esferas.
Dentro dos ecos da sala e da lareira que já quase encontra sua última chama, consigo ouvir a voz adocicada da guardiã.
Plano Azimutal #2 – O Banheiro do Sexto Ano do Vigésimo Primeiro Século da História da Humanidade Depois do Messias
Andando por ruas que não existem, cheguei ao ginásio. E parecia lotado, afinal. Por algum motivo, eu não fazia parte da bagunça da platéia, mas sim de algum tipo de equipe ali dentro. Cheguei-me aos vestiários, e encontrei uma velha conhecida – estranhamente, vestindo roupas de ginástica um tanto coladas ao corpo. Estava exuberante. Eu podia ficar olhando por horas e horas, ou décadas.
E só.
A ginasta, em questão, era a velha conhecida – cabelos lisos, pretos, longos e soltos; roupa azul e preta; lábios bem contornados e rosados; olhos escuros, talvez castanhos, mas não sei ao certo; pele extremamente branca e lisa; alguma estranha atração por andar de patins em ocasiões formais onde pessoas costumam usar ternos – também é notável que ela gostasse de doces lisergicamente coloridos.
Eis que ela entrou à quadra da piscina, a qual não continha água, mas bolhas gigantes e coloridas de plástico; a orquestra começou a entoar a Abertura da década das memórias, e ela se lançou às bolhas.
Após quinze minutos, que era o tempo permitido de apresentação, meus olhos não conseguiam ficar sincronizados com meus pensamentos, nem com meu queixo. Tinha sido algo espetacular, que nunca pensei ser tão fenomenal. Não sei com quem exatamente ela estava competindo, mas havia chances de se ganhar algo.
Lembro de ter ouvido, antes da apresentação, que alguma colocação até vigésimo seria de bom tamanho. Mas as notas foram tão altas e tão inesperadamente altas, que demorou até o número Três do telão fazer algum sentido para nossas massas encefálicas.
Subitamente, então, ela se agarrou a mim, e eu não sabia o que fazer, senão dizê-la como eu sentia medo daquela ocasião. Não era bem medo que eu queria dizer, mas foi o que saiu. Existem emoções reais no mundo irreal, como pude finalmente contemplar de fato.
Ela se chegava cada vez mais próxima, suada, mas com um cheiro inexplicavelmente agradável. Roupas coladas, como se quisessem soltar do corpo, mesmo que, para isso, fosse necessária alguma ajuda externa.
Eu não podia pensar em nada daquilo. Na verdade podia, mas não pensava ser justo.
Foi que lembrei estar num mundo não real, então um sorriso maligno se implantou em minha face, e pedi-a para ir até o vestiário. Comigo.
A casa era a mesma, os costumes eram os mesmos. O chão de madeira era o mesmo, o sofá era o mesmo, e mesmas eram todas aquelas pessoas, com os mesmos assuntos há cinqüenta anos. Podia acontecer algo de diferente.
Sempre que se prepara massas para o almoço, algo estranho acontece. E isso me animava um pouco.
Uma súbita luz na janela do quarto de cima, e não era quem todos ali queriam que fosse. Mas era exatamente quem eu queria.
Posso comer macarrão outro dia – quando uma luz aparece na janela do quarto, não se deve pensar muito antes de pular.
- A Magazine Guild Illusion, #73, 1937 – p. 273e15
Agora era uma mera questão de fusos horários até que Ela chegasse, finalmente. Mas lá estávamos eu e a ginasta, e não era certo ficarmos parados. Ela parecia estar bêbada, de tanto que ria e gargalhava. Começou a tirar a pouca roupa, e meus olhos ficavam cada vez mais perdidos.
Ela me levou até um lugar escondido do vestiário, e lá, por algum motivo, havia um sofá. Vi-me caindo sobre ele, sem qualquer reação. A ginasta, que na verdade não era ginasta, se revelava totalmente curvilínea e rosada e lisa. E suada, obviamente.
Eu queria atacá-la, mas ainda não era justo. Era uma tortura inacabável até que se acabou – vi entrando na sala secreta a que fui buscar no meio do almoço.
Piscamos um ao outro, e saciamos nossa fome e nossa sede por longas curtas horas.
Epifαnia
Vai,
Volta,
Morde,
Solta.Sussurra,
Respira,
Pulsa,
Então expira.Desligue a lâmpada, fique no escuro abafado sem ar, sem vento, sem respirar, sem ver. Sinta apenas o medo e os pesares. O mestre forjava as próprias palavras à minha frente, e parecia tudo outra ficção. Não era.
Para vislumbrar o que há por trás da cortina, o que há nas passagens secretas, é preciso pagar o preço. O templo se abre àquele que estiver disposto a entrar. Mas é preciso pagar o preço. Morrer, se preciso for.
Quando os muros não caem por si só, talvez sejam apenas ilusões. Os verdadeiros muros muitas vezes não têm forma, cor ou altura. Estão por dentro da penumbra do quarto apagado, estáticos. Não riem de você, não caçoam, não esboçam reação. Apenas existem: podem ou não ser quebrados. Muros não têm vontade própria, e também não se sabe quem os erguera.
Às vezes é contraditório juntar dor e paraíso, mas tudo é uma questão de ponto de vista. O que separa o céu do inferno, a dor do orgasmo, senão tudo o que criamos para que houvesse uma divisão? Tudo é tudo, tudo é nada, e é um longo caminho pisando em brasas até atingir um mínimo de compreensão. O erro só é erro quando não se consegue aprender nada com ele.
O que é personagem, o que é realidade? O que é a ciência, senão uma fantasia?
Quando a música cessa, as luzes apagam, tudo desliga, então você está no limiar. Você faz a mais sofrida das viagens, como li em algum livro certa vez. Você não consegue ver o que há do lado de fora, mas escuta os gritos silenciosos do ritmo que há dentro de você. Sente a pulsação de todo o sangue, desde o pescoço às pontas dos pés. Tudo o que talvez seja energia e talvez faça de você algo vivo. A luz só é vista, segundo definição, quando reflete em algo. Pode ser que estejamos cheios de luzes invisíveis, emanando por todo o tempo e iluminando os muros invisíveis. Mas não podemos ver com os olhos.
E tudo gira. Gira o tempo, gira o universo, giram os pensamentos e giram os relacionamentos. Se há uma constante aparente, guarde-a como chave e como corda para fora da caverna. Depois do tempo de penumbra, os olhos podem doer muito a se chocarem com os fótons solares. Todos podem olhar para o Sol, se estiverem preparados para enfrentar a dor.
Há um ponto onde tudo, absolutamente tudo parece ter relação com a dor. E a dor parece ser uma das sensações mais repudiadas por qualquer criatura. Mas a dor é outra escola; sem dor, muito do que existe deixa de fazer sentido, muito deixa de ser aprendido. Quem beija os lábios da dor sabe quão cruel ela é, e consegue ter piedade suficiente para não passá-la a quem estima, a quem ama. Quem conhece a dor, quem conhece de verdade a dor e aprendeu algo com ela, não quer ferir. Não quer.
Sentir que as palavras saem de minhas mãos, diretamente no papel, é muito mais significante que depender dessas novas velharias. Óleo sobre tela de cristal líquido, brinquedos sexuais movidos a microchips. Olhos nos olhos – da câmera. Cheiro cerebroide, disco cerebroide, relógio cerebroide, tumor cerebroide, palavras cerebroides – tolice. Embriaguez de mentira, mundo de mentira. E adivinhe – a mentira também pode doer.
Não há como se livrar das garras d’Ela, nem com todas as poções dos melhores magos do Oriente. Chame-me os mais sagrados sacerdotes de Roma, os mais animalescos curandeiros da América, chame todos eles para esta cidade. Mande disfarçarem minha dor, e tenho certeza de que ela voltará hora mais hora menos. E disfarçá-la é disfarçá-la. Ela volta acumulada.
Pegue seu tempo. Pegue-o de verdade. Materialize o seu tempo, faça uma dobradura e chame-a de Tempo. Pense em sua musa e chame-a de tempo, todo o tempo do mundo. Faça o que quiser com o tempo. Quer matar, mate. Torturar, que torture; acariciar, que acaricie; cheirar, que cheire. O tempo é seu, só seu, tão somente seu, e será exatamente como você decidir que é pra ser.
Assim é mais verdadeiro, menos projetado. Apenas acontece. Bons ou ruins, momentos mágicos são mágicos pois acontecem de forma abrupta, sente-se mais vivo exposto às configurações caóticas. A dor não é um erro, escrever sobre ela também não. Por isso aviso a você, seja lá quem estiver lendo: Aproveite seus pesares, pode ser a última vez que você os tem.
Você chegou aqui. Este é um presente que não tinha pensado. Era pra ser só meu. Mas não faria sentido. Boa viagem.
- Solaris Rlvnberg, 411M
Tr-Wx
Outra vez eu pensei. E abri meus olhos outra vez, para o mesmo começo, para o mesmo fim. As portas abriam e fechavam, contraíam, pulsavam, distorciam; vento. Folhas insaturadas voando por todos os lados, uma brisa um tanto quanto forte, e parecia-me agradável naquele momento.
Não conseguia ver o Sol, não podia imaginar que horário era, parecia seis da manhã, o céu cinza, mas eu sentia falta daquela coloração laranja, avermelhada, qualquer coisa assim, acima de mim. Era cinza, como todos os outros dias.
Mas eu não sabia que horas eram.
Longe, horizonte.
Eu tinha de ir até lá.
Rachaduras enraizando-se, não sei como achar versos para isso. Eram raízes de concreto. Subindo e descendo pela avenida vazia. Abaixo do céu cinza.
E parecia se distorcer ainda mais enquanto eu me aproximava. Eu não tinha o ponto. Eu tinha apenas a certeza. Eu era o único ali, aquilo era para mim, só para mim. Pra mais ninguém.
Radiantes tempestades, diria eu.
Parecia mais uma tempestade solar.
E se contorcia e dançava, em compassos
Desconexos.
Por uns poucos milionésimos de segundo eu pude ver algumas cores. Antes só havia a escuridão, trevas supremas. E num instante inexplicável um quasar; um clarão. Tudo o que eu pensava saber era esquecido lá. Eram grãos de areia, todos formando Universos. Cintilava à minha frente. Cintilava aos meus olhos.
II
A janela estava entreaberta, eu queria olhar pra fora e não conseguia. Eu tinha medo de olhar para o espelho. A janela era o espelho. Eu não podia.
-
(…) Preferi ir andando, e não correndo. A brisa gélida contrastava com aquelas cores que saltavam da artéria. Era sangue, mas não líquido.
Era uma equação absurda, um sistema absurdo, tudo parecia absurdo, totalmente absurdo. Eu estava dormindo, aquilo era irreal.
E a cada segundo a artéria ficava mais próxima, jorrando seu sangue lúcido para as atmosferas de seja lá o que exista. (…)
-
III
Por que tão longe, eu pensava. Era uma distância perturbadora. Doía mais que as agulhas. Doía mais que os tiros e os estigmas. Era muito longe, embora eu soubesse que reclamar era uma das minhas especialidades, enquanto resolver não era um dos meus dons. Eu preferia reclamar.
Mas era muito longe para eu pensar em me contradizer logo ali. Eu precisava repetir. Não contradizer. Ninguém parecia ler.
-
(…)
Numa noite dessas,
quando você já não vê suas mãos e braços,
quando o escuro ronda todo o seu corpo,
quando os campos de morangos dormem.
Então o que atormenta não é o barulho do trovão fora do quarto.
Mas dentro.
Suas histórias são histórias.
Suas verdades são mentiras.
Qual seu mundo, afinal?
(…)
-
IV
As vozes. Outra vez e outra vez. E faltava-me imagem cicatriz.
Cicatriz; pelo menos era o que me vinha à cabeça. A artéria, até então aberta, cicatrizara. E eu sequer cheguei a tocá-la. Por baixo do asfalto só mais asfalto podre e velho. Sem artérias, sem vazios, o asfalto.
Um escolhido, diria Sereno, deve saber o momento de encerrar sua jornada. Herman completaria, incansável, dizendo o quanto a Lua parece ter ficado monótona para quem não consegue mais vê-la quando ela está cheia brilhando no céu.
Não.
Grand finale, ouvia. E então acordei. E vi acima de mim o céu. Bem como estava até ontem.
Ela se veste de preto, todos os dias no mesmo horário. E eu vejo o brilho de seus olhos, ela nem se lembrava de mim ontem, mas eu também nem sabia o nome dela.
Eu dizia todas as futilidades, e os olhos dela jamais deixavam de brilhar para mim. Era uma orquestra sinfônica muda, também não precisava de notas, oitavas, afinações, eu criei tudo aquilo, e essa era uma das minhas criações mais belas e inspiradoras.
Era um brilho que não consigo descrever sem ficar com os olhos um pouco marejados. Eu sei que ela vai voltar hoje, no mesmo lugar, com os mesmos olhos para meu Mundo. E mesmo assim, tão longe.
Pareciam quilômetros, mas se eu estendesse minha mão eu a alcançaria. Além de qualquer partitura, além de qualquer parágrafo, qualquer pesar, ela não existia.
-
Um lago. Um dia…




