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O Ermitão dos Livros de Poeira

O ermitão procura dentre as pedras seu máximo erro e não encontra nada senão poeira sem distinção de idades ou fatos. Talvez não houvesse erro, talvez fossem os primeiros sinais da cegueira.

Tornar-se cego em meio à multidão de visões que se fazem com o por do Sol o é perturbador. Segundo os contos que por aí contam, seria mais brando perder as cores num tempo suficientemente curto a não se lembrar da existência delas.

Mas a caminhada tem pedras, e todas se deitam com as camadas lisas ao chão e as pontas apontando o céu e os pés. Pedras não sentem dor, tão pouco percebem que os ventos a transformam em iguais poeiras e areias covardes cheias de histórias inacabadas.

O ermitão fecha os olhos para se acostumar, e tenta achar um lugar a se sentar perto das águas. Sabe que já está numa ilha suficientemente grande, mas a água sempre pode se atormentar e beber até a mais seca das planícies áridas. Não é culpa das águas, nem das criaturas que fora dela vivem. As coisas acontecem como devem, e nem o vento mais rígido pode ser visto como um assassino por desmanchar lentamente as pedras.

Por algum instante perdido em meio ao próprio pensamento, o ermitão pensou nos demônios que o expulsaram da cidade. Não havia demônio algum, ponderou; ao menos não que fossem reais. Criara os próprios exércitos que seriam destinados a combater contra si mesmo, ferozmente, a fim de expulsá-lo de lugares por quais gostava de vagar e a brisa era agradável e o céu azul. As cidades se enchem de culpados, e nenhum é expulso; as cidades possuem criminosos, mas, apesar de presos, permanecem dentro delas, comendo os pães e bebendo as cervejas; as cidades possuem mal-vistos, e tão pouco eles se desprendem das ruas. A cidade pode até possuir covardes, mas estes raramente percebem a própria contradição e continuam a andar como nada tivesse acontecendo.

O porquê de o ermitão ter sido expulso, mesmo que por si próprio – ou quase isso – da cidade que considerava o oásis em meio ao deserto, continua um mistério.

À Parede

É digno perder mais uma noite. É só mais uma noite perdida.

O que estamos todos prestes a ler é quase uma última carta, de alguém sem nome, sem tempo, sem idade, e, ao mesmo tempo, tão cheio de contos a esparramar sobre as mesas.

Alguém que quis ser achado, e assim o foi. De alguma forma ou outra, não importa. Não há datas, e não preciso do carbono teste.

Agora que estão todos aqui, disse ele, posso começar. Talvez fosse melhor pra mim, e assim pra vocês todos, se eu ficasse junto aos sacerdotes naquela sala cheia de tubos e remédios. Mas é inevitável, e sabemos todos disso. Não há o que os tubos possam fazer contra a vontade das entidades superiores que regem todos os planetas e todas as estrelas.

Se for pra ser, é pra ser. Ninguém disse que duraria para sempre, mas todos gostamos de finais bonitos. E por isso chamei todos vocês.

Naquela quinta noite, enquanto dormiam, chamei em silêncio o sacerdote maior, tomando cuidado para ninguém acordar. Saí com ele para o corredor velado, sem os tubos e as agulhas e as tochas, e conversei. Sabia que de nada ia adiantar o que já estava destinado a acontecer. Crescia em minha mente, dia após dia, e aos poucos eu começava a sentir medo.

Não medo de parar subitamente de fazer qualquer coisa – eu sentia medo de passar. De deixar de ser. Da parte física tomar controle sobre todo o resto pelo qual vocês me conhecem. De não poder fazer uma última frase, de não poder apontar um último ponto, de não adicionar a constante à minha grande integral. E deixei isso claro.

Eu estar ali só causaria desconforto às nossas colunas todas. Todos nós quinze (contemple como esse número aumentou desde o deserto!) estaríamos confinados a um fim desconfortável de alguma peça. Obviamente não seria justo. Contei ao sacerdote sobre minha vontade.

O que queria mesmo, do fundo das minhas vontades, era que nós quinze estivéssemos em casa, na sala de madeira, conversando vívidos. Um lugar pouco mais confortável pra mim, encostado n’algum lugar onde todos pudesse observar, e, então, quando julgasse crucial, pudesse erguer acima de qualquer de nossos cabelos, um cálice como o do velho Mestre. Da mesma planta, do mesmo chá, do mesmo veneno.

Entre nós quinze, confessei, gostaria de alguém que pintasse quadros, alguém que escrevesse contos, alguém que formulasse teorias, alguém que construísse humanóides, alguém que tentasse interpretar o que há além do cérebro, alguém que pensasse antes no que todo mundo pensará depois, alguém que merecesse meus sonhos mais fantasiosos, alguém que fosse um mestre para si mesmo… Isso tudo para relatar alguns. Mas, fiquemos todos tranqüilos, sei muito bem que todos estarão como deverão estar.

Após as vinte e uma pulsações do chumbo, percebi uma luz estranha vindo à janela. Chegava cada vez mais próximo o momento, e todos estavam como eu gostaria. Pedi um momento de atenção. Todos sobre o tapete puseram-se a ouvir.

Não deixem, filhos, irmãos, mestres, cosmonautas, que alguém se torne mais cinzas que o necessário. A natureza sabe muito bem o quanto de cinzas deve se tornar alguém. Mas ela nada pode fazer sobre o que não depende de um só. Ela não pode, externamente, conceder imortalidade – seria trapaça. Mas isso não quer dizer que seja trapaça ser imortal.

Anotem datas, escrevam contos, não precisam se preocupar tanto com o que eu sou por fora ou como são meus olhos ou como é meu cabelo. Lembrem-se de tudo o que há dentro das tempestades, das espirais, dos labirintos, das variáveis. Falem sobre tudo isso com quem julgarem necessário. Contem que houve alguém que preferiu tomar a última dose de chá, imitando o Mestre, junto com quem confiava, junto com quem amava, desconsiderando qualquer charlatão vestido sobre plumagens que pensasse saber demais sobre as curas e as poções.

A mágica, não sendo um meio material, não pode ser tratada como tal. Nem as idéias, nem as fantasias, nem os significados que tanto se esconderão por tantos anos. Mesmo que a respiração seja interrompida, que os brócolis apodreçam por dentro dos circuitos elétricos, que o fluxo coagule e que a pele mais lisa se torne comida de vermes, não se desesperem. Até os vermes fazem parte da natureza, e sabemos o quanto a Grande Mãe é linda e generosa a ponto de levar rios pelo meio dos desertos de onde se ergueram grandes pirâmides.

Espalhem tudo o que viram, tudo o que encontraram, tudo o que quiseram ter visto ou pensado. De alguma forma ou de outra eu continuarei fazendo parte de algo muito maior, e nunca poderei deixar de ser o que sou, sempre fui e sempre serei.

A luz entra pela janela, e me preparo para o abraço cósmico. Estive com vocês, e assim estarei.

O Ciclo recomeça, mesmo sendo uma frase feita.

137 – 2

É pecado pensar.

Algumas estrofes deveriam ser apenas subliminares, sem tradução… E ainda há quem tente se aventurar por tais campos obscuros, tais cidades amórficas; prédios abandonados aqui, ali, mesmo quando cheios de gente. Não podia olhar, mas olhei. Direto para a caverna…

Das pontas dos dedos dos pés, subindo contra a gravidade pelas pernas, regando todo o corpo, evitando que tudo se esfrie por mais uma noite na neve, sinto quão dolorosos são os efeitos da tão falada Evolução. As línguas; elas dançavam. De seres invisíveis, automatizados na guerrilha da sobrevivência, até ímpares, que conseguem automutilação sem nem ao menos um arranhão na pele. Insetos humanóides que não precisam lutar para respirar, não precisam correr os riscos, e por fim acabam achando o maior dos predadores dentro de si, em algum lugar que nunca conseguimos descobrir onde fica nem aonde vai.

Olhar para uma parede e perceber que é uma parede. A lâmina; é uma parede, apenas uma parede, e você está em seu quarto, com a porta trancada, protegido, ninguém pode fazer mal algum. É o quarto, é a fortaleza. É seu castelo, e nele ninguém pode entrar que você não queira. As paredes são tão maciças. Dentro do quarto você está protegido, ninguém vê. Só você.

Das cordas desafinadas do velho violão que achei n’um dos escombros as músicas ecoam pelas avenidas (sombriamente acompanhadas por uma melodia feita pelos ecos de todas as mentiras que meus tímpanos traduzem como meros ruídos). N’um violão com cordas afinadas elas simplesmente se escondem por dentro da madeira. Ou dentro de mim?

O Sol radiava por cima das nuvens. Por algum motivo, iluminando todo esse Mundo estranho no qual vim parar, O Sol. Dos dias nublados contemplava sua não-existência, com a estranha certeza que um dia vê-lo-ia.

Meus olhos, tão desacostumados, olharam sem piscar por alguns segundos, minha retina ia sendo queimada pouco a pouco, mas para mim era só a luz. Minha visão ia se escurecendo milésimo após milésimo, ciclo de radiação após ciclo de radiação, mas para mim aquele era o pedaço prometido do paraíso. Pela fenda solar fui ficando cego, e mesmo assim nada poderia me fazer parar de olhar.

Uma sacada fria e esfumaçada. Algum relógio devia marcar o tempo certo, embora todos eles estivessem com horários diferentes.

…de cera. Em sua dimensão, o Mundo tinha dois grandes oceanos. Sobrevoava, via seu reflexo longe. Cada vez que se aproximava, os oceanos pareciam querer engolir, vorazes. Era como se houvesse um efeito buraco-negro, toda a luz, de quando em quando, era sugada para os oceanos, todos os tempos, todas as sensações, sentimentos… E nunca ninguém soubera o que de fato havia por baixo das águas. Sequer Möebius saberia como definir.

A criatura criada pelo Criador, então, tinha todo o mundo ao seu deleite, meros prazeres. Deitar-se sobre qualquer dos campos, escalar qualquer montanha. E olhar para os oceanos. Que, quanto mais pareciam perto, mais tentavam dilacerar as asas e o coração do nobre desnorteado.

Em meio a um dos chás rotineiros que a criatura havia preparado em qualquer fogueira, pôs-se a olhar a Lua. E foi comer queijo.

Aqui por perto uns fios desencapados; pude ouvir o universo, ali mesmo pelo fogo. Enquanto o plasma radiava trazendo consigo a foice, eu o encarava, ouvindo as vozes daqueles que distam, e não podia acreditar em meus próprios sentidos… Apesar de saber que tudo era real. Era diferente das alucinações. Ali era real, se eu tocasse o transmissor, sentiria as correntes dos calabouços explodindo por dentro, arremessando minhas vísceras a algum lugar bem longe. Ou apenas torrando tudo e, então, mostrando o carbono essencial.

Pouco a pouco a vista foi escurecendo, como se anoitecesse cada vez mais rápido, eu já não prestava atenção na velocidade das horas há um tempo. Os prédios começaram a se contorcer, mostrando como o concreto virava pedra, como o céu virava breu, as estrelas se apagavam, voltara para a intersecção. Para as imagens das paredes.

Envolto por terra e mais terra, alguns quilômetros abaixo de qualquer superfície, talvez este também seja um dos infernos, outro deles. Não adiantaria caminhar meses, nunca sairia do lugar. Era um ponto infinito num plano infinito, feito de combinações grosseiras de laços de pedra, retângulos e triângulos, focos de luz que passavam como cometas. Alguma coisa mantinha viva todo o superorganismo, mas para mim, era só uma caverna. Procurei os três gregos, talvez eles estivessem por lá… Mas, como já imaginava, não consegui sair do lugar, mesmo correndo até que meu sangue quisesse acidificar.

Da radiação fez-se a luz, e realizei que estava desmaiado nas escadarias da matriz.

Matriz. Tantas imagens ainda inteiras (embora algumas já reduzidas a pó), agora eu posso ver as estrelas, embora ainda pareça frio para mim, aqui é muito mais amistoso e aconchegante que o inferno no qual eu estava até alguns segundos atrás. Não havia neblina nesse dia.

A mãe Gaia começou seu renascimento, a praça já tem suas folhas, na minha imaginação vejo pessoas saindo de paredes, outras conversando do lado de fora da igreja; como se fosse uma ilusão de algum tipo de vida, bem distante, realmente distante. Entorpecida. Lá longe podíamos ver o microchip.

A cabeça serve para atormentar. E nada mais. Algumas vezes, cri que tudo o que se aprendia sobre o cérebro humano ser a razão da evolução era mentira. Porque eu não sentia. Era apenas atormentado pelas sinapses. Vez e vez outra vez. Com interlocuções, ainda forçando as barreiras para tentar rompê-las. Houve eu de perceber muito tarde que aquele material era mais resistente.

Uma molécula
Perdida
No meio
Da Equação.

Que se perdeu
No tempo
Do Abismo.

A vida começava e acabava e acabava antes mesmo de começar. Os lugares eram marcados por tintas invisíveis, e tatuagens eram feitas sem o uso de sequer uma agulha ou coloração. E o ciclo se repetia, mas Eu nunca percebera. Nunca realizara. Apenas queria viver e esquecer que por trás daquilo tudo havia uma verdade (um padrão). A mentira me era agradável, era extasiante. A verdade não.

Com pedras era pisado e arremessado contra as paredes já derrubadas, os reinos caíam para dar lugar a outros. Fusões e fissões, explosões nucleares, reações. Tudo iluminado mesmo quando no ápice da escuridão das noites de inverno.

Eu sentia medo, e logo percebia o quanto isso também era reconfortante. Não havia cultura, não havia competição, era só eu e eu mesmo no profundo silêncio das notas. Acabaria na manhã seguinte, mas naquela noite o Mundo fazia um pouco de sentido.

Um dia as paredes perceberam como estavam derrubadas.

Depois de todo aquele vento, em certas noites de ressaca, conseguimos sentir que há o Sol, mesmo que não no céu que vemos. Apesar das voltas, nos encontramos no mesmo ponto em algum lugar dentro da massa. Algum lugar além da massa, melhor dizendo. Nesse lugar, cheio de datas e lugares que nem existem, tudo o que de verdade somos, todos os segundos, aqueles que foram, aqueles agora, aqueles que ainda serão.
Na forma alienada, na mais alienada delas, encontramos nossa essência, nossa dádiva; nas mais alienadas ilusões, olhamos nos olhos daquilo que realmente somos.

Aquilo de mentira que de verdade a gente quer.

No próximo passo você perde tudo.

"No próximo passo você perde tudo".

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O RESTO É VERDADE.

Est^#VF

A areia se esgotava, pouco a pouco, caindo do alto, perdendo-se os grãos entre as pedras do templo. Mas ainda não havia Ele visto nada, nem parte pequena de tudo o que era para ser por Ele visto. Universos incontáveis, simultâneos, mesmo que em tempos diferentes, todas as dimensões e os séculos unidos por elos místicos, inocentemente incompreensíveis.

E, então, virou novamente a ampulheta.

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Revirando

“A humanidade é feliz. A humanidade é harmônica.”

Hole in a Consciousness Wall - Por J. Guilherme

É quase fim do ano. E tem muito entulho por aqui. Não sei ao certo por onde começar, eu grito e ouço ecos

Nesse momento eu estou numa construção sem escadarias, abandonada. Todo esse clima cinzento ora incomoda, ora instiga.

É bom, mas às vezes sinto certa solidão por aqui… Tanta gente já andou por aqui, e agora esse cinza fúnebre estranho. Onde estou? As ruas têm nomes impronunciáveis!

Certo, terei muito tempo para compartilhar com vocês meus achados nesses becos desolados e fantasmagóricos. Parece que não há muita gente por aqui há anos!

Sem muitas delongas nesse primeiro relato, tenho arquivados aqui alguns escritos sobre minhas caminhadas, vou disponibilizá-los assim que possível (e assim que não se tornar cansativo). Confesso que alguns desses achados são um tanto quanto perturbadores, alguns não tem muito significado, outros estão aquém do que eu possa compreender (talvez estejam em outro idioma), mas acredito que algum de vocês saberá melhor que eu o significado de algumas coisas.

Por hora é só, vou me acomodar entre uns entulhos e dormir. Coisa difícil na companhia dessas ruas, mas tentarei mesmo assim.

Grato!

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“Seu modo principal de viver é focado internamente, absorvendo fatos primariamente através da sua intuição. Seu modo secundário é externo, através do qual você lida com as coisas de acordo com a maneira com que você se sente quanto a elas, ou de acordo com a maneira com que elas se encaixam no seu sistema pessoal de valores.”

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