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Perseguição Policial Deixa Dois Feridos em Estação de Trem – 1763
Enquanto isso, na estação de trem, algo estava prestes a acabar.
“Homens de verdade não matam coiotes”, dizia a música que insistia em ecoar à sua cabeça. Não parecia o melhor tipo de canção para o momento, mas era o que vinha da alma – o que vem da alma não precisa fazer sentido, nem ter senso. O que vem da alma é algo tão verdadeiro que muitas vezes não é entendível, a princípio.
Roupas comportadas, e ela estava logo ali à sua frente. Era uma viagem não muito longa em termos de distância, mas provavelmente gigantesca em termos de tempo. Não que ela fosse se mudar para a legião estrangeira; o que acontece é que aquilo era uma despedida, no sentido mais cru da palavra.
Começara porque ele havia sido convidado também a viajar. O homem que não tem dinheiro não pode entrar no vagão do trem que tenha restaurante. O homem que não tem dinheiro não come. O homem que não tem dinheiro não é digno de se sentar à mesma mesa. No entanto, são poucos os homens de verdade que tem dinheiro, e mesmo os que não o tem. Homens de verdade não matam coiotes, afinal.
Então ele não podia viajar. Na verdade podia, mas não queria se entrar ao vagão como sendo um clandestino. Não queria se esconder, não precisava se esconder, não tinha por que se esconder. Não iria se esconder, e foi isso que disse.
A dama, naquele instante, engoliu a própria saliva. Junto com a saliva, desceu à garganta um pouco de catarro. A dama teve de engolir o próprio catarro – nunca se sabe o que os espectadores podiam pensar sobre o ato do cuspe de uma dama.
Ela queria que ele fosse, mas ele não iria. Mesmo que houvesse um jeito de tudo mudar, ele não colocaria os pés naquele trem.
Então os dois ficaram a se olhar. Ela contemplava, ele encarava. Havia uma gota de suor ao lado do cabelo curto e castanho, mas não era nervosismo. As estações de trem sempre ficam impregnadas por monóxido e tijolos e fumaças piores. Elas queimam, não só dentro como fora. E essa era apenas uma das marcas da revolução… Havia de se limpar quando voltasse pra casa. Não era uma casa majestosa, mas ao menos ele se lembrava como tomar banho.
Ratos não tomavam banho.
Então o sino ecoou pela estação, e o trem começou a se mover. Ela chorava, ele inquietava as próprias pernas, querendo uma passagem maior de tempo. Moscas, havia moscas por todo lugar. Havia moscas em seus rostos, feridas, pernas, bocas, olhos. As moscas pareciam adivinhar onde ficavam os olhos e as feridas.
Aproximou-se a doce dama a fim de um último beijo, e nisso ele parou o tempo. Deu um passo para o lado, e ela não entendeu muita coisa ao ver que todos haviam congelado mesmo com o calor.
Assemelhavam-se a bichos. Não falavam, apesar de serem bem letrados e saberem exatamente como usar próclises e mesóclises. Não tinham noção de espaço, apesar de terem aprendido mecânica. Sabiam tudo, mas, na prática, não conseguiam ao menos saber quem eram.
Tomando a palavra e um gole de uísque, o homem a disse sobre o que significava de fato aquilo tudo. Não disse sequer uma palavra concreta, mas apontava e mexia as sobrancelhas e respirava de maneiras diferentes conforme o que queria dizer. Ela entendia tudo, claro que entendia. Ela sempre entendia, e assim são as mulheres – elas sempre entendem tudo, sempre sabem tudo, e costumam prender os homens como fossem marionetes de vã existência. Era o que elas costumavam dizer em suas reuniões femininas: homens são todos iguais.
Sem saber se era igual ou não, e também sem se importar de fato com tais terminologias pseudo-matemáticas, ele continuou o ritual de despedida. Não queria de fato fazer aquilo tudo – um ritual para se despedir – mas tinha um resto de sentimento ainda dentro de suas concepções morais. Concepções morais… Esse era um dos termos, aliás, que insistia em perambular por sua mente. Ele não queria concepções morais, julgava não precisar delas, mas lá estavam a todo tempo.
Existiam problemas, inferiu. Sempre existiriam problemas, não importa a situação. Não era por causa dos problemas que eles estavam naquele momento. Era por causa de outra coisa, e ela sabia exatamente o que era.
Não era outra pessoa, não era outro problema, não era outra noite. Era outra coisa.
Depois de passados quarenta e sete minutos onde ela não disse nada, ele pegou um de seus charutos. Acendeu, inclinando seus cabelos curtos e bem penteados junto ao seu terno bem limpo. Não era um terno caro nem luxuoso, mas despertava certa inveja por estar sempre tão inexplicavelmente limpo – pessoas às ruas se perguntavam como podia alguém tão sem dinheiro andar de maneira tão limpa por aí.
Por outro lado, o que ele pensava era sobre como podiam pessoas tão cheias de dinheiro andarem de maneira tão suja. Pensava mais, pensava sobre como elas de fato conseguiam ter certeza de que estavam limpas, mesmo nadando em piscinas de fezes animalescas e vermes e moscas. Perguntava-se como elas não sentiam o gosto da própria podridão, como não sentiam o cheiro da própria diarréia, como não sentiam vergonha de andarem daquele jeito por aqueles lugares com aqueles ternos caros cheios de traças.
Mas as perguntas quase nunca levavam a algum lugar, a menos que ele estivesse se olhando ao espelho depois do banho. Os banhos costumavam ser um momento de filosofia única. Se os banhos eram o tempo, o espelho era o espaço destas iluminações.
Logo depois de pensar nisso tudo e acender finalmente o charuto, estalou os dedos da mão esquerda, sem muito requinte, e o tempo voltou. As pessoas começaram a se dirigir ao trem, que já estava de partida. A fumaça preenchia o espaço vazio que havia naquelas conversas sem sentido, e o apito e a sinfonia da revolução acalmavam os tão agitados corações arrítmicos.
Os hospitais, em verdade, se encontravam num estado bastante precário àquela época.
Ele acenou, desejou boa viagem, educadamente, mas sem qualquer tipo de sentimento além da própria educação e boa maneira. Ela esperou, ele apontou ao trem. Não iria chegar perto, não iria ser macio em suas palavras. Não havia o que dizer. Não havia por que deixá-la viver nas mesmas páginas de outrora.
Ela deu uma última olhada e embarcou. Tornou-se, ele, então, em direção à estrada. Partiu a pé, pois não tinha carruagem nem conhecia alguém que o tivesse. Havia ali parentes da dama, que também foram despedir-se. Eles podiam fornecer uma carona até a cidade, mas ele rejeitou antes mesmo de pedir. Seria de mau grado um homem pobre pegar carona com pessoas tão bem sucedidas e donas de tantas terras.
Ele não fazia questão. Tinha bastante música em sua cabeça para voltar os sete quilômetros de terra e sol.
O que importa é que ele nunca havia se esquecido sobre como é banhar-se após um dia complicado e tortuoso, e ainda gostava de se sentir limpo, e queria se manter limpo.
Com um charuto e orquestras inteiras por dentro da massa de pão ele voltou pra cidade. Não acreditava em demônios, mas nenhum deles o tentou atacar no caminho. Eram seis horas da tarde, e havia muito o que fazer no outro dia.
Finalmente ele compreendeu que aquilo em sua folha de caderno era uma divisão por zero, e pôde dormir tranqüilo.
Degradação de Ordem Três
Um dia na cidade. Não era um lugar abandonado, mas fingíamos a atmosfera, só para que tudo ficasse mais obscuro. Era divertido criar um clima obscuro urbanoide, afinal.
Outdoors velhos, refrigerantes que não mais existem, chão retalhado; noite fria e fogueira com latões tóxicos. Fios de cobre como nervos entrelaçados com as raízes das árvores que cresciam onde um dia foi um templo. Um dia, há muitos séculos… Talvez estivéssemos ficando já bêbados sobre algum tipo de altar magistral de alguma era perdida, quem pode saber…
Toxina – Urânio. Pessoas esparsas. Cada uma com dois ou três andando e falando sobre a chuva de meteoros que rasgava a constelação do oeste. Pisando no chão pisado, remoendo cacos de vidros e cruzes e portais e óleo diesel, respirando e soltando fumaça orgânica pelos ouvidos.
Frio, e o delta estava seco (mas não parecia tão venenoso agora).
Li um folheto jogado qualquer – anunciava-se a apresentação de alguma banda perdida na cidade. Alguma banda coadjuvante, que nunca fiz questão de ouvir, mas que, por algum motivo, talvez pela atmosfera do folheto, me despertou estranha curiosidade. Eu precisava ouvir. Decidi, portanto, ir.
Antes que eu pudesse pensar em que vodka comprar para o dia, fui surpreendido por uma figura aleatória. À minha frente, como quem apenas tivesse aparecido de onde nada antes havia, tinha cabelos longos, escuros e encaracolados. Era pouco menor que eu, magra e muito branca. Usava óculos sem muitos detalhes, minimalista, com lentes levemente ovais. E um sorriso enigmático e sincero. Um colar vermelho escuro. Tipo de roupa não muito anormal, mas que, dada minha ignorância, não consigo descrever. Não possuía nada de muito avantajado, mas era bem proporcional ao seu corpo. E as roupas realçavam essa característica tão matematicamente apreciável. Se muito não me engano, a calça era de algum tipo de couro sintético, e havia correntes relativamente delicadas em sua cintura.
De qualquer forma, estava muito escuro e muito frio para poder prestar atenção em algo minuciosamente. Ela começou a perguntar sobre o mundo – mais especificamente, se eu era eu. E se era eu, sendo eu, o mesmo eu que tinha um alguém importante que me completava, mesmo sabendo que eu já era completo assim como todos somos enquanto somos um cada um. Na verdade, ela usou um termo obscuro; soou estranho mesmo que tenha sido nessa cidade nesse dia. Talvez quem tenha usado esse termo fosse minha própria imaginação, traduzindo qualquer perturbação de partículas no ar frio como tais formalidades sonoras.
De qualquer forma, confirmei que esse eu era mesmo o eu que ela pensava que eu fosse. E que esse eu tinha essa Ela e que meus olhos ainda continuavam brilhando quando me referia àquela pessoa tão magistral. E ela entendeu. E perguntou sobre Ela. E eu fui respondendo cada pergunta, e a noite ia ficando cada vez menos fria, embora a temperatura ambiente tivesse abaixado ainda mais. Pelos meus cálculos, sentíamos dois graus abaixo do zero.
Perguntou-me esse ser enigmático perguntas cada vez mais tendenciosas, cada vez mais indiscretas, cada vez mais interessantes e intrigantes. Depois pediu nosso endereço; eu, obviamente, passei cada dado.
Não é que ela fosse algum tipo de numeróloga ou pensasse em conceitos muito complexos… Mas ela queria três. O três, a sete. A Três.
II – A Sala
As paredes eram prateadas; parecia algum tipo de metal. Quase alumínio, mas era algo nobre. Perfeitas, sem qualquer tipo de impureza ou qualquer coisa assim. Uma escada prateada, ao meu lado esquerdo; um vidro em minha frente, e do outro lado outra sala.
Surge, então, do outro lado do vidro, uma das supremas. Era loira, muito loira. Cabelos muito longos, e pele quase que brilhante de tão branca. Olhar sem muita expressão; parecia estar analisando algo em mim. Talvez meu comportamento… E eu me sentia tão humano… Ela tinha todas as formas muito bem definidas, seios fartos e bem formados, com auréolas extremamente rosadas. Observava os controles, e eu só conseguia contemplar tudo aquilo.
O primeiro fluxo; um fluido azul claro, era da cor do céu nos dias mais ensolarados e frios do planeta Terra, inundava o ambiente de baixo para cima, e era translúcido. Eu não queria me afogar, então prendia a respiração. Foi assim por duas vezes, subi a escadaria.
Logicamente, eu também estava desprovido de qualquer tipo de roupa ou adorno. Era eu e meu cabelo e minhas imperfeições terrenas. E só.
Olho outra vez pelo vidro, e, junto a ela, apareceu o complemento, talvez o comandante daquilo tudo. Também com cabelo loiro, o qual tinha forma de capacete. Também um semblante sério e analítico. Eu era cobaia de algo, pelo que entendi. Não sei exatamente de que, mas era uma experiência interessante. Não era nada forçado.
O comandante se comunicava com a suprema sem nada dizer, eu não via bocas se mexendo. Só via sinais com mãos e olhos, serenos.
No terceiro fluxo, decidi que ia manter em meus pulmões (pelo menos o que deveria sê-los) o máximo de ar possível. E prendi bem a respiração. Mas o fluido celestial inundou toda a sala, até acima das escadas mais altas. Quis respirar. E respirei.
E continuei respirando.
A cidade continuava com a sensação das cinco da manhã. O fim da fogueira, o fim da música, restos de garrafas e altares e túmulos e mesas de sacrifício. Portas de metal fechadas, cheiro de fumaça virtual industrializada, pontos de ônibus desativados…
Sem carros – parecia uma zona de guerra. Mas não havia guerra, era um lugar calmo e sereno no meio do caos em que estávamos todos emergidos.
A cidade era mais viva quando a maioria dormia.
“We Three… Kings?”
É complicado escolher palavras em certos tipos de atmosfera, mesmo que para mera tradução (que, se falha a memória de alguns de vocês, é meramente o que faço por esses concretos abandonados). Não há como mostrar o ambiente por si, mas não sei desenhar, então prometo que farei o que puder. Algumas coisas não precisam morrer, use sua ilusão!
Lá estávamos nós três. Nós três diferentes, devo ressaltar. Para não criar qualquer tumulto, vou descrever quem éramos nós três.
Eu tinha a cadeira ao centro. Tinha um fluxo azul em volta de meu cabelo, tinha sete anéis nas mãos, três cálices, um para cada tipo de vinho. Gostava de olhar à frente e contemplar a rachadura e o céu. Também gostava de apontar tudo com meu cetro. Sim, eu tinha um cetro, era o mínimo que se esperava. E ele era dourado com uma pedra vermelha por cima. Ela tem muita magia escondida, mas ainda não sou tão épico a tal ponto de usá-la. Tudo tem seu tempo.
À minha direita, e isso [não] é proposital (é para ser à direita mesmo, com a conotação bíblica que desejar que seja… A interpretação é livre), o Distêmico. Não adiantaria de nada forjar uma tríade de tamanho significado se fôssemos três alienados em olhar pro céu. Foi uma escolha pessoal, admito. E também admito que não conheço outro ser no mundo para tal cadeira. Ou trono, se preferir tal terminologia. O cabelo não era tão grande, mas não era curto. Usava-se de uma capa escura, e eventualmente não podíamos observar como era realmente seu rosto. Possuía dados, mas não era propriamente ligado com a sorte das coisas. Há demônios e mais demônios para cuidar de nossa sorte, mas por horas são eles irrelevantes. O Distêmico também contemplava, e percebia coisas que estavam por vir. Observava cada inseto e sabia exatamente o que aconteceria no próximo minuto. Era admirável. Quando, água.
À minha esquerda, e não sei se há significado pra isso além de ser propriamente a minha esquerda, alguém que não sei ao certo quem é, e podem ser muitos ao mesmo tempo. Não que tenha personalidades múltiplas nem nada disso, é que se trata de uma incógnita. Não consigo descrevê-lo o pensamento, nem as idéias nem o porquê de ser o que é, só consigo traduzir o que vejo; o que vejo é um ser segurando um ábaco, andando ao redor da rachadura, contando alguma coisa, fazendo os cálculos com os cálculos (como antigamente), usando pedras, ferramentas, parafusos e muita madeira para isso tudo. Talvez fosse um grande experimento. Não me lembro sob que circunstâncias o escolhi, mas também sei que é o ideal para a esquerda.
Então agora já sabem quem somos os três. Quer dizer, sabem como é a descrição. Mas nem eu me satisfaço com isso, então vocês também não precisam sentir necessidade de se satisfazer com palavras. O discurso de rachaduras, observar, contemplar; isso tudo pode ter também feito alguns nós, mas vou tentar explicar.
Era uma montanha, bem alta e bem marrom nessa época. Havia uma época onde ela se enchia de neve, e dava lugar a um branco misturado com um azul acinzentado. Mas, por hora, era marrom. Ficava no meio de todos os reinos, e todos aqueles que construíam castelos achavam-se reis de tudo, e sempre se esqueciam dos muros.
Não viemos até aqui por luxo. Fomos escolhidos. E também não é algo que não gostemos, pelo contrário – é prazeroso olhar tudo da forma que devemos olhar.
Há uma grande rachadura defronte à grande mesa onde jogamos, comemos e bebemos. Uma rachadura na montanha, mas quem observa de fora pra dentro não pode ver. Apenas nós que já estamos dentro da montanha podemos contemplar.
Lá embaixo, grandes penhascos e cascatas e corredores de terra. Animais de todos os tipos – para nós, parecem-se todos com insetos, principalmente os que se acham superiores aos outros animais. Os insetos, e assim vou atribuir o nome, rastejam, encontram florestas, perdem-se, acham a saída, e depois enchem os outros insetos com fantasias e mais fantasias. É uma necessidade. Observar tudo apenas como tudo é passa a ser algo chato quando se tem estalos por trás dos olhos. O Distêmico acha isso tudo apenas patético, e em partes concordo. Não é patético usufruir da própria imaginação – é patético querer construir um castelo e prender todos os insetos a acreditarem nas mesmas coisas, como se houvesse verdade no Universo.
O Do Ábaco apenas observava e movia as pedras e rabiscava algo.
Podíamos perceber também como os insetos gostam de ser provados. Acham besteira ter que mostrar algo a alguém, ninguém pode saber o que se passa na cabeça deles, é absurdo. De verdade, se não gostassem mesmo, não sentiriam tanta necessidade de provas. Não é uma teoria, é algo observável. Todos eles amam revoluções, mas quando uma se aproxima, a maioria clama pela própria vida. Os princípios são irrelevantes quando se precisa saltar do penhasco e se salvar da manada que vem por trás.
Para a maioria.
O Do Ábaco possuía um artefato interessante. Tinha ele um pêndulo perpétuo (não existe movimento perpétuo, pode ser que acreditem, mas não vou tentar convencê-los do contrário. É só um conto, afinal. Não se esqueçam de onde estão cada um de vocês); o pêndulo batia de um lado, saía do outro, e assim infinitamente. Eu gostava muito, particularmente, de tal instrumento. Mostrava a todos nós como o fim é o começo, e o começo é o fim, e como não é nada destrutivo. É o contrário de destrutivo: as forças se conservam!
Era unanimidade, e esta não era burra. Eu gostava do pêndulo, o Distêmico sempre fazia suas digressões sobre parecer difícil enfiar uma idéia tão simples (conservação de momento) na cabeça de todos os insetos, que não aprendem porque não querem, e O Do Ábaco, numa das poucas conversas que tivemos, comentou que fora aquilo invenção de um velho amigo… Um velho amigo que gostava de maçãs, felinos e café amargo.
A parte do café amargo não consta nos livros, mas é verdade.
Uma vez eu e o Distêmico conversamos sobre Platão, o grego. A caverna. Seria o topo da montanha nossa caverna? Seriam os insetos as sombras que chamamos de realidade? Mas parece tudo tão real! E a realidade deles, será que não seria tão absurda quanto achamos? E se para os insetos os absurdos forem normais e a normalidade for absurda? Até eu acho normalidade algo absurdo! É um bumerangue, afinal. Não há como chegar a conclusões, verdades universais não existem.
Mas ainda parecia patético construir um muro e aprisionar cada grão de terra que estivesse antes dele.
O Do Ábaco mostrava seus cálculos como se quisesse dizer que a prisão não é um estado crítico. As pedras ficam presas, e só assim conseguem mostrar algo ao resto. As pedras soltas em aleatório não simbolizariam nada senão pedras. Organizadas elas podem ajudar a entender quantidades, a estimar, a prever, a construir métodos eficientes. Elas estão presas por cordas ou por ordem. E se elas tivessem vontade? E se ficassem quentes quando expostas ao Sol não por meios científicos, mas por mera vontade ou necessidade?
A natureza não é aperfeiçoável, comentávamos. Ela já é perfeita por ser a natureza. Os sistemas que inventamos como parte da natureza até podem ser aperfeiçoáveis, uma vez que foram criados por seres tão aperfeiçoáveis no intelecto quanto uma formiga que, ao perceber que um dia teve asas, constrói outras por si mesma, com as folhas que antes comia, a fim de lembrar como é a sensação de voar.
Diga-me outra vez como é a dor que sente. Ela não vai ser igual à de ontem, tampouco parecida com a de amanhã. Não precisa ter medo de sentir dor. Seria de fato um problema temer um corte. Sofrer não é sinal de fraqueza nem de anti-evolução. Tentar ir contra os princípios naturais talvez seja insensato. É bom ser ingênuo, mas não com tudo.
Devemos olhar o que acontece. Se for passível de nossa ingenuidade, tanto melhor. Mas não estamos cravados no tempo, assim como as próprias pedras gigantescas não estão paradas. Elas se movem a velocidades insanas, mas só podem ser observadas em animação quando de longe. Bem longe.
Tão longe que os insetos demoraram séculos de séculos até perceber.
O Do Ábaco comentou sobre sua nova idéia. Um pêndulo horizontal, tal qual a linha que vemos todas as manhãs antes do Sol. Não é um muro, e ainda bem que não é um muro; é uma linha que divide o que podemos ver do que não podemos ver daqui. Para ver o que há além, precisamos andar. A linha vai continuar existindo, até que cheguemos ao mesmo lugar de onde começamos. Um pêndulo com engrenagens e uma lemniscata ao centro. Creio que não seja meramente simbólico, posto que O Do Ábaco não crie sistemas por serem meramente bonitos, mas sim por serem funcionais.
Eu, o Distêmico e O Do Ábaco passávamos todos os dias observando, bebendo e criando. Criando brinquedos e resoluções para os insetos, bebendo pelos insetos. Eles nunca notariam, sequer saberiam; não precisavam saber, assim sempre havia funcionado e assim continuaria a funcionar.
E a eternidade não é tão entediante quanto pensam.
Outro Prólogo
A primeira página. Aliás, antes disso. A capa dura. Sem desenhos, sem prescrições, sem resumo, sem ao menos um título discernível. Mas curioso, um livro bem guardado, embaixo de uma cama, sob a região do travesseiro. De longe, as páginas parecem amareladas e velhas.
Por hora, o que posso fazer é imaginar se é alguma história, algum diário, algum apanhado de contos ou poemas, sonetos ou documentos, rimas ou pontos. Metalinguagem, segundo o que aprendi há muito e muito tempo, trata-se de escrever sobre escrever, entrando num loop e, por vezes, em labirintos de paradoxos descontínuos. Escrever sobre o ato de ler talvez fosse alguma coisa também.
Tradução instantânea, mas não tão depressa assim, uma vez que estou apenas digitando e digitando prossigo até você ficar cansado de saber que estou só digitando.
Poderia muito bem ser um livro de álgebra.
É também algo notável quando alguém pega o livro em mãos pela primeira vez: título, capa, textura. Sem ver a primeira palavra, uma breve imaginação de tudo o que se passa por dentro da toda poderosa caixa. Se envolve desertos, se envolve tempestades, se é sobre a Guerra de Canudos, se é sobre um grupo de desmiolados navegadores submarinos. A história começa a fermentar por dentro das ligações, e as asas se expandem mesmo que não possamos tocá-las em nosso magro espectro tridimensional.
Uma folha em branco, não sei ao certo porquê. Mas a primeira folha sempre é em branco… Duvido, mas podia muito bem ser algum tipo de conceito centenário envolvendo brincar ainda mais com a expectativa, atrasar ainda mais a primeira palavra do primeiro subtítulo.
Outra equação, flutuando ali na frente. Um logaritmo sobre outro logaritmo sobre outro logaritmo sobre uma cabeça. A pessoa era um integrante, e o exponencial estava sobre si mesmo. Às vezes uma porta se abria no meio do nada, assim como a que Roland vira no deserto, talvez tivesse até a mesma função, nunca se sabe.
O templo estava à minha frente e eu não sabia exatamente o que fazer. Minha cabeça não conseguia se prender ao tempo que estava passando. Eu queria voltar a um segundo atrás por cada segundo que ia para a frente. Era injusto não ser capaz de conceber a idéia de eternidade ou infinidade nesses momentos, lembrar-se que por aqui tudo parece ter começo, meio e fim era maçante. Eu não queria que a folha caísse da árvore, não queria resolver a equação dos logaritmos nem descobrir o que queria dizer tantos gráficos: eu só queria continuar ali sentindo o mesmo cheiro e a mesma textura… (…)
Geralmente tudo isso não existe, é como a matemática ou a física escolares. Desconsidera-se muita coisa e assumem-se muitos valores que simplesmente não são reais. Assim como um mais um são dois, diz a lenda popular: questão de fé.
Conceitos Ópticos – Terceiro Vértice: Borracha
Do início tu dormias. Enquanto, o observador, cego, apenas sentia as alavancas e o cheiro de ferrugem e revoluções correndo pelos sentidos. Tão humanos…
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Holbein; observar um quadro, tema histórico, e se incomodar com uma mancha de tinta embaixo dos pés dos embaixadores. E depois culpar demônios por visões que sua própria cabeça havia de criar. Tudo àquela época.
Mas resolveste então andar pelas ruas, mesmo sabendo o quanto sozinho andavas. As manchas de tinta de Holbein ainda ofuscavam tuas noites sombrias há um tempo.
Até que achaste a orgânica.
Luzes que acendem e apagam, curto-circuito, como já havias tu dito. Talvez um dia tenha sido algo como esta cidade a concepção que alguém teve para chamar de Purgatório. Aqui, porém, ainda corre pelo mundo dos vivos, ainda sente seu sangue, ainda és carbono, ainda faz sentido para ti os poemas que Anjos escrevia. Assim é tua carne, putrefata. Mas tu resistes. És forte!
Pensas que é forte.
2/3(2)
Perambulando por perto das Revoluções de tijolo e fumaça, algo como as manchas de tinta o intriga. São as outras manchas. Tal janela quebrada, aqui ou ali, barulho de máquinas a trabalhar o dia todo sem parar. Você não consegue enxergar quem manipula as máquinas, elas parecem ser um monstro vivo e urbano, escondido por qualquer beco noturno, deglutindo, devorando. O amanhecer é relativo. Só amanhece quando você quer que amanheça.
É tão dono quanto louco, é tão louco quanto dono de si mesmo.
A culpa mostra suas alucinações. Tantas páginas assim não poderiam ser nem escritas, você é que as está escrevendo. Mas pouco percebe, pois tem mais o que fazer… Nunca tem tempo suficiente para olhar ao redor, ver se está sendo seguido. Nunca tem tempo para ter medo do espelho. Você quer ver alguém e vê outra pessoa. No lugar onde era para você ver apenas você. E mais ninguém.
E quando as luzes se apagam, você também não tem tempo para perceber que o escuro apaga os dogmas, apaga as barreiras, e você fica por você mesmo, dependendo do funcionamento padrão do corpo, escravo das condições do Ka.
Até que o despertador toca, e você mal percebe também que não teve tempo para pensar em quanto tempo se passou desde que fechou os olhos e novamente os abriu. Só pode saber a posição das coisas quem de cima as olha. Quem as vive pouco consegue perceber, apenas vive.
A matemática é a linguagem da Natureza, disse.
Quando se fica obcecado com algo, começa a ver por todas as partes. Números, razões, acontecimentos, pessoas, frases, sons, ruídos, temperaturas e ventos. Tudo é exatamente como deveria (ou não deveria) ser. Tudo segue a ordem natural de sua obsessão. Assim como as mesmas formigas, desde 1929, vão até o formigueiro, voltam do formigueiro, como se entrassem e saíssem de veias, como se saíssem de mãos abertas e perfuradas. Tinha gente.
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Fr;Nd;Ep. @029 @017 – PTFU
Tr-Wx
Outra vez eu pensei. E abri meus olhos outra vez, para o mesmo começo, para o mesmo fim. As portas abriam e fechavam, contraíam, pulsavam, distorciam; vento. Folhas insaturadas voando por todos os lados, uma brisa um tanto quanto forte, e parecia-me agradável naquele momento.
Não conseguia ver o Sol, não podia imaginar que horário era, parecia seis da manhã, o céu cinza, mas eu sentia falta daquela coloração laranja, avermelhada, qualquer coisa assim, acima de mim. Era cinza, como todos os outros dias.
Mas eu não sabia que horas eram.
Longe, horizonte.
Eu tinha de ir até lá.
Rachaduras enraizando-se, não sei como achar versos para isso. Eram raízes de concreto. Subindo e descendo pela avenida vazia. Abaixo do céu cinza.
E parecia se distorcer ainda mais enquanto eu me aproximava. Eu não tinha o ponto. Eu tinha apenas a certeza. Eu era o único ali, aquilo era para mim, só para mim. Pra mais ninguém.
Radiantes tempestades, diria eu.
Parecia mais uma tempestade solar.
E se contorcia e dançava, em compassos
Desconexos.
Por uns poucos milionésimos de segundo eu pude ver algumas cores. Antes só havia a escuridão, trevas supremas. E num instante inexplicável um quasar; um clarão. Tudo o que eu pensava saber era esquecido lá. Eram grãos de areia, todos formando Universos. Cintilava à minha frente. Cintilava aos meus olhos.
II
A janela estava entreaberta, eu queria olhar pra fora e não conseguia. Eu tinha medo de olhar para o espelho. A janela era o espelho. Eu não podia.
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(…) Preferi ir andando, e não correndo. A brisa gélida contrastava com aquelas cores que saltavam da artéria. Era sangue, mas não líquido.
Era uma equação absurda, um sistema absurdo, tudo parecia absurdo, totalmente absurdo. Eu estava dormindo, aquilo era irreal.
E a cada segundo a artéria ficava mais próxima, jorrando seu sangue lúcido para as atmosferas de seja lá o que exista. (…)
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III
Por que tão longe, eu pensava. Era uma distância perturbadora. Doía mais que as agulhas. Doía mais que os tiros e os estigmas. Era muito longe, embora eu soubesse que reclamar era uma das minhas especialidades, enquanto resolver não era um dos meus dons. Eu preferia reclamar.
Mas era muito longe para eu pensar em me contradizer logo ali. Eu precisava repetir. Não contradizer. Ninguém parecia ler.
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(…)
Numa noite dessas,
quando você já não vê suas mãos e braços,
quando o escuro ronda todo o seu corpo,
quando os campos de morangos dormem.
Então o que atormenta não é o barulho do trovão fora do quarto.
Mas dentro.
Suas histórias são histórias.
Suas verdades são mentiras.
Qual seu mundo, afinal?
(…)
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IV
As vozes. Outra vez e outra vez. E faltava-me imagem cicatriz.
Cicatriz; pelo menos era o que me vinha à cabeça. A artéria, até então aberta, cicatrizara. E eu sequer cheguei a tocá-la. Por baixo do asfalto só mais asfalto podre e velho. Sem artérias, sem vazios, o asfalto.
Um escolhido, diria Sereno, deve saber o momento de encerrar sua jornada. Herman completaria, incansável, dizendo o quanto a Lua parece ter ficado monótona para quem não consegue mais vê-la quando ela está cheia brilhando no céu.
Não.
Grand finale, ouvia. E então acordei. E vi acima de mim o céu. Bem como estava até ontem.
Ela se veste de preto, todos os dias no mesmo horário. E eu vejo o brilho de seus olhos, ela nem se lembrava de mim ontem, mas eu também nem sabia o nome dela.
Eu dizia todas as futilidades, e os olhos dela jamais deixavam de brilhar para mim. Era uma orquestra sinfônica muda, também não precisava de notas, oitavas, afinações, eu criei tudo aquilo, e essa era uma das minhas criações mais belas e inspiradoras.
Era um brilho que não consigo descrever sem ficar com os olhos um pouco marejados. Eu sei que ela vai voltar hoje, no mesmo lugar, com os mesmos olhos para meu Mundo. E mesmo assim, tão longe.
Pareciam quilômetros, mas se eu estendesse minha mão eu a alcançaria. Além de qualquer partitura, além de qualquer parágrafo, qualquer pesar, ela não existia.
-
Um lago. Um dia…

