Arquivos do Blog

Suíte #2 de Sergei Sergeyevich Prokofiev

I – Arcos da Lapa

Os arcos da Lapa levam a um bairro oculto, inimaginável. Além das estatuetas, há um prédio alto e bem escondido. Não sei quantos andares possui, mas fica por trás de um dos grandes morros… E morre.

Perto deste prédio, há um bar freqüentado por velhos sujos e mal-humorados. Soltam rojões, assistem a jogos de futebol, bebem uísque barato, cheiram mal, despertam náusea e assediam todas as moças novas que moram no prédio. Se há alguma definição visual de nojo, talvez esta seja uma cena a se considerar.

O bairro vive em guerra – nada tem a ver com os traficantes nem com os que fumam, tão pouco com os que cheiram. Existem outros – os que quebram as regras e incomodam os velhos. Estes, que quebram as regras, usam-se de equipamentos estranhos de múltiplas mini-rodas. Usam-se de roupas que não combinam; roupas sucateadas, mas não necessariamente sujas. Possuem alguns poderes fenomenais, que os velhos tanto invejam, como, por exemplo, subir escadas.

Mas até para isso os velhos tinham uma armadilha. As escadas dos prédios eram cortantes, não havia onde segurar. Os corrimãos quebravam as mãos pelas linhas da vida – era por demais arriscado. Ao topo do prédio, ou melhor, ao topo da antena de TV do prédio, havia ainda outra mensagem escondida – um caderno cheio de equações diferenciais impossíveis de serem resolvidas, e um pára-quedas.

Os seres flutuantes não eram só um, e não eram individuais pelas causas nobres. Não sabem, nem nunca souberam o porquê de estarem ali vendo tanta sujeira. Mas era pra ser, e seria até as últimas conseqüências.

Quando um deles precisava de ajuda, nenhum questionava – estavam ali pelo bem maior. Valia a pena perder, se fosse preciso, a própria vida, contanto que a causa fosse nobre.

Os velhos tomavam muito uísque sujo e importunavam as garotas do prédio. Os pirralhos se incomodavam cada dia mais.

Estes, por sua vez, também não viviam só de água, até porque quem vive só de água pode se afogar facilmente. Havia uma bebida mágica, preparada por um dos mais experientes deles. Um ser cabeludo e barbudo que passava todos os dias a se empanturrar com lasanha de queijo.

A bebida era servida num garrafão verde e farto – tratava-se de um vinho. Mas não um vinho comum, posto que não tivesse nada de especial. O vinho era de uma coloração azul escura, e muito, muito forte. Tinha gosto de uva, mas ainda guardava mais sabores escondidos, de frutas desconhecidas. Toda noite, antes de ir à guerra ideológica, os seres que conseguem subir escadas tomavam doses do vinho – não havia perigo de acabar, era artesanal feito pelo próprio cabeludo barbudo da lasanha.

Não eram tão fãs de suco de laranja, mas ouviam bastante Beethoven antes de partir às escadarias. Na noite que se segue, o céu se nublava por toda a tarde anterior. O natal chegava cada vez mais próximo, e até São Nicolau se envergonharia se visse tantos velhos sujos perto do prédio.

Os pirralhos não ligavam em ganhar ou não presentes de alguém vestido de vermelho que desce por chaminés – mas as garotas mereciam os presentes. Elas não eram vagabundas, nem ociosas. Todas ali, e este lugar é até difícil de imaginar, estudavam arduamente, trabalhavam arduamente, eram honestas e mereciam dormir em paz.

II – Pink Eastwood / Newton

Clint tomou nossa frente à sala de concentração. Fumava, mas não nos incomodava com tal mau hábito. Era o que mais sabia como irritar os velhos, tínhamos muito a aprender com ele. Eu era, afinal, um aprendiz – a diferença entre nós e os velhos, num dos aspectos, pode ser esta. Nós sabíamos quanto aprendiz éramos naquele bairro. Os velhos se julgavam tão velhos que sabiam de tudo… Apesar disso, tinham equações diferenciais impossíveis. A verdade era tão visível que não podia ser vista por quem de tudo já sabe.

Disse-me Clint sobre como deveriam estar meus equipamentos. Era importante que fosse fácil pegar desde o isqueiro até o flutuador agilmente. Também me disse como escrever em tintas invisíveis. Se havia alguém ali que sabia como lidar com idiotas, era ele.

Do outro lado da sala, com o giz e a lousa em mãos, o profeta das areias – desta vez, possuindo a forma de um matemático indiano. Mostrava-nos que matemática não era tão monstruosa, e se empenhava dia-a-dia a buscar a resposta para as equações. Elas foram tal afronta a todos nós, que se tornara questão de honra.

Também dizia o profeta sobre a efemeridade das coisas todas, enquanto apontava às derivadas e às variáveis escritas. Pontos, leis, movimento. O movimento cessa, se não for tão intenso. Nosso movimento era infinitamente mais intenso que todos os descritos pelas mecânicas do universo – e isso podia desequilibrar qualquer sistema alheio… E para isso servíamos, cientistas – para entender as leis antigas, e mostrar que até “verdades universais” (as quais o universo nem sabe que existe) devem ser quebradas. Tínhamos a página perdida do Primeiro Livro, e ela assim dizia.

Eu criei estas três leis. E também sei que elas deverão ser quebradas hora ou outra. Eu faço minhas regras, e ninguém jamais deverá saber. O Universo flui; isto não o descreve. Estas leis são interpretações de algo muito maior, inimaginavelmente maior. Traduções erradas.

Desde os gregos da praia, vemos tudo como somos. Somos grãos de areia – e existe muito mar a ser visto além do pôr do sol.

- PRINCIPIA, p. -1

Dos nossos mestres, também estava ali o músico argentino. Sua especialidade era tocar as grandes obras do tango. Cabelo curto, barba bem feita e violão preto com cordas grossas. Tinha estranhos costumes ao entoar as canções – sua mão direita abafava as cordas de uma forma única, o timbre das músicas era só dele.

Ouvir músicas depressivas o animava, sem ironias.

III – 22:00 – Troubles in Fantasia

O plano estava quase pronto; às dez da noite daquela noite começaríamos. Na verdade só eu faria algo, mas era como se todos agíssemos juntos; um exército de sete mil irmãos percorrendo as ruas da cidade da mentira, contra todas as pragas que nos foram, nos eram e nos seriam jogadas por todas as feiticeiras. A lua era amarelada como queijo, pelo que percebíamos numa janela de nuvens cinzas.

Nem as pragas de mil mundos de gafanhotos nos fariam temer marchar até o inferno dos uísques podres para salvar aquele natal das garotas.

Não posso dizer meu nome, mas, neste contexto, o codinome era ROMEO X – era uma sigla e um anagrama, ao mesmo tempo. Meu símbolo era um candelabro com três velas. A do meio em posição maior, as outras duas um pouco abaixo, e as três já um pouco derretidas. O candelabro era dourado do ouro mais polido, e as velas, apesar de já um pouco gastas, pareciam eternas. Ali eu partia pela porta dos pilares. O mago lançou suas bênçãos, a porta de madeira se fechou.

Vi-me à rua. Não era tão tarde assim, então as janelas do prédio faziam-se abertas e as luzes acesas. Por dentro de um dos andares, não me lembro exatamente qual, vi Aquela que me inspirava – Ela. Ela sabia que eu estava ali, e nos contemplávamos de tão longe. Sorríamos, e, neste segundo, pude perceber que Ela possuía um novo quadro à sala. Era alguma forma disforme azul, abstrata. Vários tons de azul, melhor dizendo. Havia mais alguém com Ela, outra garota. Elas se amavam, e isso era o que importava.

Pelo comunicador de ouvido portátil (agradeça a Tesla por isso) começava alguma música de Mozart. Júpiter era tão perto dali…

Entrei à prima porta, e fui a um lugar sujo. Parecia uma casa de boas pessoas, bons jovens, mas era incrivelmente suja. Provavelmente havia ratos por cima daquele teto. O banheiro era incrivelmente sucateado. Roupas jogadas por todos os cantos, e instalações elétricas precárias. Era numa dessas que se cunhava a primeira parte do plano, que Clint nomeou como NIKOLAI.

Coloquei, relutante, meus dedos por trás do espelho fluorescente. Puxei dois fios, sem ver, e tirei do meu bolso esquerdo um canivete e o interruptor novo. Juntei os fios, e não senti choque algum. Liguei-os ao interruptor, e ativei o sistema de controle remoto.

Quase me saindo da casa, encontrei um dos moradores. Disse-me ele sobre como as estradas da cidade haviam sido reformadas… Como a preocupação ambiental se implantava cada dia mais, como a fiscalização era cada dia mais pesada – por incrível que possa parecer, talvez ele soubesse que eu estaria ali, naquele momento, mexendo em todas as fiações por trás do espelho fluorescente.

Fui-me à segunda parte.

IV – 22:00 – Constelação de Uma Só Estrela

As escadarias. Eu não sabia manejar muito bem o flutuador – ele se colocava sob meus pés, mas não era como um skate. Era algo etéreo, volátil, como se fossem sapatos de energia. Na prática, não serviriam de tanta coisa, era mais um equipamento de proteção, caso de lá de cima eu caísse.

Comecei a escalada, e minhas mãos já sofriam com os corrimãos adulterados. Eram como canos de ônibus, mas com material cortante e fios de cobre desencapados e altamente voltaicos. Pouco a pouco consegui vencê-los, e cheguei à metade do caminho até o ponto objetivo. Mas ali era um ponto notável. Bati à janela escura. Olhei ao outro lado e contemplei a grande estátua de braços abertos e o mar tão azul e infinito e tantas vidas distantes, aguardando a janela se abrir.

Abriu-se então, e Ela sabia que era eu. Abriu a janela com o mesmo semblante sorridente, querendo muito dizer o quanto eu era maluco. Concordaria com Ela, sou mesmo um maluco, um louco, um raio de um cientista inconseqüente, um pirralho! Mas também apenas sorri de volta, e nos abraçamos como deu – um movimento brusco e era melhor que os sapatos flutuantes funcionassem mesmo.

Disse a Ela que, por tal entidade inspiradora, eu não me importava em realizar tantos esforços macabros. Não me importava com as facas nem com os órgãos de proteção ambiental. Em tese, era por todo o prédio e, talvez, todo o bairro. Para mim, porém, e Ela sabia, era porque eu também sentia algo supremo, e queria vê-La muitas mais vezes com aquele semblante surpreso e satisfeito.

Poderia passar a eternidade ali, mas precisava seguir com o que fui proposto a fazer. Despedimo-nos, e prometemos nos ver naquele natal.

Sei que soa piegas e repetitivo, mas preciso constar: Ela me desperta as sensações mais profundas que já experimentei em um grande intervalo de tempo.

Depois de três ou quatro horas, cheguei ao topo do prédio. Contemplei mais uma vez como os ídolos de pedra agora estavam abaixo de todos os nossos pés. Como a vida parecia parada lá na cidade dos arcos. Subir a antena de TV foi mais fácil, espero não ter incomodado o futebol de ninguém naquela quarta-feira.

Acima da antena, como esperado, encontrei o pergaminho ISAAC e o pára-quedas. Não usaria o segundo, tinha medo dessas coisas – provavelmente não era funcional, e sim sabotado. O pergaminho era o original – os velhos, como já foi dito, não tinham capacidade para adulterar tal obra.

O profeta ia adorar saber que existe solução para pelo menos uma destas.

A fome apertava, mas devia continuar. Entrei pela tubulação.

V – 22:00 – Falácia do Labirinto do Velho Psicopata em Construção Desritmada

Agora eu era o inseto daquele concreto, mas não era por muito tempo. Havia uma passagem, segundo o que o DOPPLER revelou. Um tipo de sistema secreto de elevadores que se escondiam por trás das camas e despertavam tanto o imaginário daquele local. Depois de um pouco de procura, achei um deles. A porta era de madeira escura, mas havia algum tipo de luz vermelha e fluida em volta da porta. Algum tipo de líquido brilhante que marcava o local. Entrei.

Não havia botões, eu não tinha escolha. Apenas deixei que o elevador me levasse aonde quer que fosse para levar. Depois de quinze minutos de viagem à velocidade da luz, ou quase isso, a porta novamente se abriu.

À minha frente, um grande galpão esverdeado, escuro. Parecia uma obra em construção – vigas, andaimes, ferro jogado ao chão, barulho, máquinas, ferramentas, parafusos, martelos, foices. Não parecia haver mais alguém, então caminhei tranquilamente, procurando o que quer que fosse para ser encontrado.

Minha visão periférica, num dado momento, capturou um movimento estranho. Talvez uma reação neural, mas parecia algo mais. Olhei rapidamente, e percebi alguém correndo por dentro de um dos corredores cinzas. Apossei-me da rampa que se estendia à minha frente, e persegui, pulando e me apossando.

Após curvas bruscas à direita e à esquerda, encontrei um esboço de auditório. Havia as poltronas, e pareciam confortáveis. Todas, com exceção de uma. À quinta fileira, uma poltrona parecia quebrada. Parecia solta. Fui averiguar, e descobri que ela não era uma poltrona verdadeira. Por algum motivo, havia uma porta embaixo – sentindo que era o certo a fazer, entrei.

Para minha surpresa, e devo admitir que fora mesmo uma surpresa, não era um lugar maligno nem sinistro. Era apenas um estúdio musical. Do outro lado do vidro, um ser que parecia amigável.

Era dono de cabelos loiros, muito longos e lisos, e de uma voz hipnotizante. Estava fugido de sua cidade e dos repórteres e dos fotógrafos e das redes sociais para, em paz, compor seu novo álbum. Não queria ser incomodado, mas, quando me apresentei, tornamo-nos amigos, como se já nos conhecêssemos há tempos e tempos. Tomamos algumas garrafas de cerveja verde, rimos, conversamos sobre músicas e sobre ritmos exóticos e sobre instrumentos experimentais. Contei sobre as novidades das ciências das ondas, e ele pareceu se interessar. Antes de partir, ainda recebi como souvenir um disco com duas ou três músicas exclusivas, ainda em fase de testes, sem mixagem.

Ele também me contou como era o caminho da saída, e não parecia tão complicado. Agradeci-o, pedi um autógrafo e fui. Ali não parecia haver outra alternativa, senão confiar.

VI – 22:00 – A Consciência de Uma Centopéia

Os elevadores e as rampas tinham um padrão – eram funcionadas com base no horário. Muito mau, posto que meu relógio estivesse desregulado devido à viagem de elevador. Mas com alguma conversão simples, dava pra entender.

As rampas e os elevadores eram sincronizados a cada nove minutos e quinze segundos de anos táquions. Aprendi que os inventores de tal sistema se basearam no funcionamento da consciência de uma centopéia. Então é como se eu fosse uma sinapse fora do lugar, dentro de uma centopéia. Comecei a escalar e a subir e a descer, tal qual montanha russa num parque de diversões freneticamente estranho e insólito.

Descia, e o caminho era descer até o elevador – outra vez, porta de madeira. Seria igual ao outro, não fosse por este ter, ao invés de líquido vermelho, líquido azul. Azul celeste e tão brilhante quanto Césio. Não era radioativo, para minha sorte. Escalar o prédio usando-me de roupa HAZMAT seria ainda mais difícil.

VII – O Veloz Corredor de Kokorodome-XV

Depois de mais minutos para sair da consciência da centopéia, a porta se abriu, e demorei um pouco a reconhecer onde estava. Era de novo a cidade, mas outro bairro. Um bairro de cultura oriental, com cheiro de arroz e carros contorcidos.

A saída, mais precisamente, era uma das bocas de bueiro da avenida principal. Depois de quase ser atropelado, saí do buraco.

Há muito tempo que eu não me aventurava por aquela região. A avenida, em si, havia sido inteiramente reformada. Parecia estar mais larga, e não era mais asfalto, e sim algum tipo de tijolo cinza claro e bem aderente. Os viadutos estavam quase brilhando de tão bem cuidados, e ainda havia sido construída uma via expressa bem expressa ao redor da avenida.

A via expressa era um lugar curvado, quase uma parede por onde corriam carros a velocidades assustadoras. Lembro-me de ver veículos com aerofólios gigantes, mas não feios, a cerca de quinhentos quilômetros por hora. Não era perigoso – havia ali uma barreira magnética amortecedora.

VIII – Par Numérico do Carro Branco – São Paulo

Tomando o rumo de casa, parou-se um carro comum à minha frente. Dentro dele, figuras conhecidas. Era um homem e uma mulher.

O homem, apesar de me despertar certo receio, não parecia maldoso. A mulher, por outro lado, era demasiadamente falante. E ofendia sem se preocupar, e dizia como era melhor que todos os outros, e dizia como merecia tudo e como era o umbigo do universo umbigo. Ofereceram-me carona, mas preferi ir a pé.

A mulher me rogou mais quinhentas pragas, no mínimo, mas não me importei. Ficaria chateado ao saber que ela se juntara aos velhos que bebem uísque estragado, mas a única que poderia salvá-la disso era ela mesma. Haveria de aprender a tempo.

Quanto ao homem, que não era seu marido, ele não tinha muito mais o que fazer, senão tratar tudo aquilo como piada. Sentia eu, por algum motivo, que ele sabia de algo além do que aparentava… Mas também não me arrisquei a perguntar – queria voltar ao bunker o quanto antes.

A rodoviária também estava reformada, e vi uma legião caminhando para lá. Uma legião de coxos e deformes. Seres esquisitos que quase se rastejavam a fim de ver os ônibus partindo daquela cidade. Nem os seres mais delimitados agüentavam as limitações impostas daquele local.

A cidade era bonita, mas estava longe de ser apreciável para se viver.

IX – Natal Prelúdio

Longas horas até o bairro por trás das montanhas, mas cheguei. Entrei pela porta velha e branca do bunker, e fui recebido com congratulações por parte de todos. A missão fora um sucesso, o pergaminho estava inteiro, não faltava sequer meio sinal de operação.

O natal das garotas estava salvo.

Ela e eu nos olharíamos, e poderíamos sonhar mais uma vez, mais uma noite.

Law of / Leap of Faith

Era uma tarde de inverno, mas não qualquer tarde ordinária, como sempre havia de ser. Havia cheiro de alguma folha seca voando entre os pilares de madeira. Algum cheiro de tabaco, misturado com algum cheiro de temperos alquímicos exóticos… Talvez ar eterno misturado com hortelã e alho, não se sabe. Enquanto isso, à sombra do próprio telhado de palha, ele afiava a ponta do compasso.

Um compasso único. Feito com a madeira da árvore que ele mais estimava. Com o melhor ferro que poderia ter moldado em toda a sua sabedoria pela Mãe de todas as Mães, e com um carvão tão resistente quanto as pirâmides de diamante. Já havia se passado infinitas luas desde aquela noite em que ele finalmente o criou, e ainda continuava inteiro, como se tivesse sido moldado à noite anterior.

Ao lado, também com a madeira que mais estimava, o esquadro. O esquadro que nunca revelava sequer meia imperfeição. Onde as medidas eram milimetricamente precisas e os ângulos justamente como deveriam ser. Havia inscrito, a fogo, um pentagrama e um Ouroboros.

Obviamente, não precisava ele de óculos.

Sua observação havia começado há décadas. Talvez séculos, mas isso ele nunca poderia saber com certeza até que soubesse. Toda noite, enquanto os sacerdotes realizavam seus rituais em todo o esplendor de Roma, ele ficava cada vez mais próximo do que realmente se buscava além das montanhas e dos céus. Toda noite ele ficava perto da máxima glória divina. Ele não precisava rasgar o próprio rosto em forma de arrependimento – não era o único que errava, e sabia disso. Tinha a consciência de que, feito um ato, não se pode mudar o passado. E, por isso, sem ter a certeza que tanto buscavam os fiéis, contentava-se em contemplar a Grande Obra e as notas musicais isomórficas beijando os diapasões.

Havia chá, ervas, frutas secas e as areias celestes, que, noite após noite, pareciam formar novos desenhos e juntar-se a novos oceanos cósmicos. Um azul profundo… E só poderia ser água.

Enquanto o céu se movimentava, com suas engrenagens invisíveis, ele movimentava o compasso e o esquadro, em sintonia com a música. Rabiscava o carvão e, da fibra, surgiam as formas e as espirais. O céu, afinal, traduzia o que havia por dentro das constelações de seu próprio pensamento.

Um dia, há muito tempo, daqui a muitos anos, exatamente nessa tarde de inverno, ele juntou as linhas. Enquanto as semanas estavam passeando com frio, ele entendeu o funcionamento daquilo que via, como via. Entendeu o que era o rodamoinho, e porque algumas das poeiras cósmicas não pareciam se movimentar, enquanto outras eram levadas pelas luas ao menor sopro do éter.

Ali, à sua frente, encarando-o, num tom intrigante. O fogo que havia na ponta do carvão e do ferro desenhara algo além das espirais, além dos pentagramas, além de seu próprio entendimento.

Ela ficava intensamente distante. Intensamente. Mesmo que pudesse ir até o outro lado do mundo e voltar por trinta vezes, não seria o suficiente para percorrer toda a distância. E ela caía, infinitamente, sem chegar sequer um grão de mostarda mais próxima. Era distante, e toda noite refletia os cabelos das ninfas do lago… Exceto quando queria se esconder.

Como fosse centróides de elipses, sua precessão era queimada por velas vermelhas, dia após dia, como se pudesse mudar o curso dos rios. Ele não podia (e, de certa forma, sabia disso).

Naquela tarde, ele percebeu como juntar as linhas e desatar os nós. A maçã caía entre as folhas, mesmo que já mordida. A mesma força que deixa a maçã mais próxima de sua cabeça, acaba por estreitar o caminho até as distantes areias lácteas do oceano infinito.

Mas ela, Serena, jamais sentia vontade de ficar mais próxima.

“We Three… Kings?”

É complicado escolher palavras em certos tipos de atmosfera, mesmo que para mera tradução (que, se falha a memória de alguns de vocês, é meramente o que faço por esses concretos abandonados). Não há como mostrar o ambiente por si, mas não sei desenhar, então prometo que farei o que puder. Algumas coisas não precisam morrer, use sua ilusão!

Lá estávamos nós três. Nós três diferentes, devo ressaltar. Para não criar qualquer tumulto, vou descrever quem éramos nós três.

Eu tinha a cadeira ao centro. Tinha um fluxo azul em volta de meu cabelo, tinha sete anéis nas mãos, três cálices, um para cada tipo de vinho. Gostava de olhar à frente e contemplar a rachadura e o céu. Também gostava de apontar tudo com meu cetro. Sim, eu tinha um cetro, era o mínimo que se esperava. E ele era dourado com uma pedra vermelha por cima. Ela tem muita magia escondida, mas ainda não sou tão épico a tal ponto de usá-la. Tudo tem seu tempo.

À minha direita, e isso [não] é proposital (é para ser à direita mesmo, com a conotação bíblica que desejar que seja… A interpretação é livre), o Distêmico. Não adiantaria de nada forjar uma tríade de tamanho significado se fôssemos três alienados em olhar pro céu. Foi uma escolha pessoal, admito. E também admito que não conheço outro ser no mundo para tal cadeira. Ou trono, se preferir tal terminologia. O cabelo não era tão grande, mas não era curto. Usava-se de uma capa escura, e eventualmente não podíamos observar como era realmente seu rosto. Possuía dados, mas não era propriamente ligado com a sorte das coisas. Há demônios e mais demônios para cuidar de nossa sorte, mas por horas são eles irrelevantes. O Distêmico também contemplava, e percebia coisas que estavam por vir. Observava cada inseto e sabia exatamente o que aconteceria no próximo minuto. Era admirável. Quando, água.

À minha esquerda, e não sei se há significado pra isso além de ser propriamente a minha esquerda, alguém que não sei ao certo quem é, e podem ser muitos ao mesmo tempo. Não que tenha personalidades múltiplas nem nada disso, é que se trata de uma incógnita. Não consigo descrevê-lo o pensamento, nem as idéias nem o porquê de ser o que é, só consigo traduzir o que vejo; o que vejo é um ser segurando um ábaco, andando ao redor da rachadura, contando alguma coisa, fazendo os cálculos com os cálculos (como antigamente), usando pedras, ferramentas, parafusos e muita madeira para isso tudo. Talvez fosse um grande experimento. Não me lembro sob que circunstâncias o escolhi, mas também sei que é o ideal para a esquerda.

Então agora já sabem quem somos os três. Quer dizer, sabem como é a descrição. Mas nem eu me satisfaço com isso, então vocês também não precisam sentir necessidade de se satisfazer com palavras. O discurso de rachaduras, observar, contemplar; isso tudo pode ter também feito alguns nós, mas vou tentar explicar.

Era uma montanha, bem alta e bem marrom nessa época. Havia uma época onde ela se enchia de neve, e dava lugar a um branco misturado com um azul acinzentado. Mas, por hora, era marrom. Ficava no meio de todos os reinos, e todos aqueles que construíam castelos achavam-se reis de tudo, e sempre se esqueciam dos muros.

Não viemos até aqui por luxo. Fomos escolhidos. E também não é algo que não gostemos, pelo contrário – é prazeroso olhar tudo da forma que devemos olhar.

Há uma grande rachadura defronte à grande mesa onde jogamos, comemos e bebemos. Uma rachadura na montanha, mas quem observa de fora pra dentro não pode ver. Apenas nós que já estamos dentro da montanha podemos contemplar.

Lá embaixo, grandes penhascos e cascatas e corredores de terra. Animais de todos os tipos – para nós, parecem-se todos com insetos, principalmente os que se acham superiores aos outros animais. Os insetos, e assim vou atribuir o nome, rastejam, encontram florestas, perdem-se, acham a saída, e depois enchem os outros insetos com fantasias e mais fantasias. É uma necessidade. Observar tudo apenas como tudo é passa a ser algo chato quando se tem estalos por trás dos olhos. O Distêmico acha isso tudo apenas patético, e em partes concordo. Não é patético usufruir da própria imaginação – é patético querer construir um castelo e prender todos os insetos a acreditarem nas mesmas coisas, como se houvesse verdade no Universo.

O Do Ábaco apenas observava e movia as pedras e rabiscava algo.

Podíamos perceber também como os insetos gostam de ser provados. Acham besteira ter que mostrar algo a alguém, ninguém pode saber o que se passa na cabeça deles, é absurdo. De verdade, se não gostassem mesmo, não sentiriam tanta necessidade de provas. Não é uma teoria, é algo observável. Todos eles amam revoluções, mas quando uma se aproxima, a maioria clama pela própria vida. Os princípios são irrelevantes quando se precisa saltar do penhasco e se salvar da manada que vem por trás.

Para a maioria.

O Do Ábaco possuía um artefato interessante. Tinha ele um pêndulo perpétuo (não existe movimento perpétuo, pode ser que acreditem, mas não vou tentar convencê-los do contrário. É só um conto, afinal. Não se esqueçam de onde estão cada um de vocês); o pêndulo batia de um lado, saía do outro, e assim infinitamente. Eu gostava muito, particularmente, de tal instrumento. Mostrava a todos nós como o fim é o começo, e o começo é o fim, e como não é nada destrutivo. É o contrário de destrutivo: as forças se conservam!

Era unanimidade, e esta não era burra. Eu gostava do pêndulo, o Distêmico sempre fazia suas digressões sobre parecer difícil enfiar uma idéia tão simples (conservação de momento) na cabeça de todos os insetos, que não aprendem porque não querem, e O Do Ábaco, numa das poucas conversas que tivemos, comentou que fora aquilo invenção de um velho amigo… Um velho amigo que gostava de maçãs, felinos e café amargo.

A parte do café amargo não consta nos livros, mas é verdade.

Uma vez eu e o Distêmico conversamos sobre Platão, o grego. A caverna. Seria o topo da montanha nossa caverna? Seriam os insetos as sombras que chamamos de realidade? Mas parece tudo tão real! E a realidade deles, será que não seria tão absurda quanto achamos? E se para os insetos os absurdos forem normais e a normalidade for absurda? Até eu acho normalidade algo absurdo! É um bumerangue, afinal. Não há como chegar a conclusões, verdades universais não existem.

Mas ainda parecia patético construir um muro e aprisionar cada grão de terra que estivesse antes dele.

O Do Ábaco mostrava seus cálculos como se quisesse dizer que a prisão não é um estado crítico. As pedras ficam presas, e só assim conseguem mostrar algo ao resto. As pedras soltas em aleatório não simbolizariam nada senão pedras. Organizadas elas podem ajudar a entender quantidades, a estimar, a prever, a construir métodos eficientes. Elas estão presas por cordas ou por ordem. E se elas tivessem vontade? E se ficassem quentes quando expostas ao Sol não por meios científicos, mas por mera vontade ou necessidade?

A natureza não é aperfeiçoável, comentávamos. Ela já é perfeita por ser a natureza. Os sistemas que inventamos como parte da natureza até podem ser aperfeiçoáveis, uma vez que foram criados por seres tão aperfeiçoáveis no intelecto quanto uma formiga que, ao perceber que um dia teve asas, constrói outras por si mesma, com as folhas que antes comia, a fim de lembrar como é a sensação de voar.

Diga-me outra vez como é a dor que sente. Ela não vai ser igual à de ontem, tampouco parecida com a de amanhã. Não precisa ter medo de sentir dor. Seria de fato um problema temer um corte. Sofrer não é sinal de fraqueza nem de anti-evolução. Tentar ir contra os princípios naturais talvez seja insensato. É bom ser ingênuo, mas não com tudo.

Devemos olhar o que acontece. Se for passível de nossa ingenuidade, tanto melhor. Mas não estamos cravados no tempo, assim como as próprias pedras gigantescas não estão paradas. Elas se movem a velocidades insanas, mas só podem ser observadas em animação quando de longe. Bem longe.

Tão longe que os insetos demoraram séculos de séculos até perceber.

O Do Ábaco comentou sobre sua nova idéia. Um pêndulo horizontal, tal qual a linha que vemos todas as manhãs antes do Sol. Não é um muro, e ainda bem que não é um muro; é uma linha que divide o que podemos ver do que não podemos ver daqui. Para ver o que há além, precisamos andar. A linha vai continuar existindo, até que cheguemos ao mesmo lugar de onde começamos. Um pêndulo com engrenagens e uma lemniscata ao centro. Creio que não seja meramente simbólico, posto que O Do Ábaco não crie sistemas por serem meramente bonitos, mas sim por serem funcionais.

Eu, o Distêmico e O Do Ábaco passávamos todos os dias observando, bebendo e criando. Criando brinquedos e resoluções para os insetos, bebendo pelos insetos. Eles nunca notariam, sequer saberiam; não precisavam saber, assim sempre havia funcionado e assim continuaria a funcionar.

E a eternidade não é tão entediante quanto pensam.

Space-Time Travelers of A-15

Faz escuro, e isso agradavelmente. Mas não consigo escrever com as luzes tão apagadas. É algo que preciso relatar, talvez amanhã não haja suficientes palavras.

Eles vieram de um lugar miraculosamente longe, mas chegaram bem rápido (incrível como minha mão dói, e, de novidade, como estou com sono!); vieram todos num grande barco pirata interespacial e, de tanta outra gente, logo me escolheram a visitar.

Talvez não seja eu um exemplar embaixador, mas logicamente recebi-os muito bem.

Um deles tinha múltiplas personalidades, mas isso diferentemente da psicologia. Ele era muitos ao mesmo tempo, cada um diferente; à minha vista, dinâmico. Um cabelo longo que se multiplicava pelo espaço enquanto o vento batia, embora não houvesse vento algum.

O líder, também com longos cabelos, alternava entre contos e lamentações. Isso no que posso traduzir. Tal tipo de sensação que a mim era apresentada, era tudo muito incrível; não se tratava de uma sensação humana, por isso não posso descrever com exatidão. Tudo ao mesmo tempo.

Hora ele parou, e uma enigmática tripulante materializou seu enigma também em meu quarto. Como uma materialização do vice-versa, ela andava ao contrário, com uma máscara (talvez uniforme espacial, talvez universo universal) sorridente feita teatro grego. Ela andava contorcida, mas não fazia curvas. Os ângulos eram incrivelmente retos, e isso não a fazia ser menos sensual. Eu podia ver a barriga!

Num repente, como fosse outro passe de mágica, apareceu ao seu lado outra dela (devo ressaltar que, sim, inspirei o truque gramatical anterior em você… Queria deixar mais essa mensagem subliminar…), com os mesmos movimentos, numa espécie de simetria incompreensível, caótica e particularmente bonita.

Acenderia talvez uma vela, mas não posso.

Os rostos; que são esses rostos…? O líder disse algo sobre os corações humanos e correntes; em momento algum citou veias, artérias ou músculos. Insistiu em dizer sobre correntes. Não correntes de metal; correntes de rios.

Depois disseram sobre os tantos anéis desse sistema em que andamos. Contaram como lindas eram as melodias que trazia Kronos em seu disco de asteróides. Contaram quanto interessante fora a corrida das máquinas cinzas, contaram que a estação realmente existia; eu não precisava mais me preocupar com isso, afinal.

Talvez eu devesse ter perguntado sobre como ouvir as melodias… Mas eles responderiam que tudo tem seu tempo, inclusive musicalmente. Ainda hei de inventar um toca-discos suficientemente grande.

Pode ser também, e isso quase senti, que não vieram de um lugar atormentado; eram piratas por romance aventureiro, e não havia nada demais em ser romântico na terra deles. Decidiram que iam descobrir o Universo, e passaram por aqui.

Por ventura, detestaram os cachorros-quentes.

Um milhão de toneladas pesava a nave deles, mas era extremamente leve nessa dimensão. Tão leve que nem precisavam de combustível para decolar. Eles não queriam créditos nem conhecimento popular. Não queriam pilhar nada, nem conversar com os gênios. Eu já bastava.

Outra coisa que me contou o líder foi como apreciaram o começo do século retrasado e os circos de horrores que aqui se instalaram. O ambiente de filme de terror, mímicos em grayscale, mulheres barbadas, lonas, cheiro de açúcar queimado, palhaços que pareciam ter saído de pesadelos…

Uma vez, disse ele, viu um mímico no fundo do Oceano Pacífico. O mímico riu. Uma última alucinação. Tanta luz concentrada num lugar tão escuro.

Olhando bem, as tripulantes que materializavam o vice-versa até usavam uma intrigante lingerie preta prateada por baixo do traje espacial.

Ele falava tantas consoantes juntas que as vogais simplesmente não precisavam de existência. Ele talvez fosse, por assim dizer, a materialização de todas as consoantes. Em minha frente. Embora não compreensível, é o jeito menos abstrato de se explicar como era.

Então, por essa linha, tentarei resumir os seres todos da nave (pelo menos os que pude ver).

Mais à esquerda, a materialização do número π. Ele usava muita maquiagem, e ria… Não sei se o riso era de verdade ou se era parte da maquiagem. O cabelo também era longo, e não se parecia com a mesma composição dos cabelos comuns… Poderia dizer que seu cabelo chegava a ser transcendental. Era cacheado e liso, ao mesmo tempo; cor de terra roxa. Ou vermelha, se preferir. Embora fosse mesmo roxa.

A, ou as tripulantes. A materialização do vice-versa, como dito. Eram lindas, ou linda, mas eu não podia vê-las além das máscaras teatrais ou dos trajes. O máximo que meus olhos alcançavam era uma parte da barriga. Ela tinha umbigo!

Perto da cozinha faz sentido, sentado, contemplativo, um ser que materializava em sua face uma oitava musical. Não o som, nem as teclas, mas tudo ao mesmo tempo, como uma tradução simultânea para qualquer fosse a dimensão do observador; extremamente diferente de tudo o que aprendemos a acreditar. Ele, segundo o líder, foi quem inventou de ouvir os discos de Kronos. Tinha uma cartola em mãos, mas não sentia que fosse algo que ele usasse ou que fosse dele. Talvez ganhara de alguém da década de vinte. Provavelmente.

Havia uma mascote com eles. Era peludo, muito peludo; tamanho humanóide, aproximadamente; parecia um urso, talvez com traços de dragão, e não duvidaria que fosse alado, embora eu não pudesse ver as asas. Parecia, mais precisamente, um tapete de sala de caçador. A diferença é que este era vivo! E contemplativo, como se sua realidade fosse em terceira pessoa… O que também não me chocaria.

Chegava a hora da partida; o líder dizia que havia muitas outras décadas a visitar, circos cincos a aplaudir, depois outros mundos a conhecer. Chegou a perguntar por que não costumamos falar com os marcianos… Eles parecem se sentir tão sozinhos…

Um por um, cumprimentaram-me com um aperto de mão e um movimento estranho envolvendo meu lóbulo. Mal pude descrever todos, mas os detalhes simplesmente também não importam tanto, apesar de serem de extrema importância.

Era uma educação refinadamente estranha.

Notório que o tripulante das múltiplas personalidades ficara treze minutos e meio segundo de arco rindo das minhas costelas. Todos eles concordaram que, com certeza, era uma das partes mais engraçadas do corpo humano.

Entraram, então, por dentro da realidade tridimensional que vemos, embarcaram na nave cinza sessentista, levitaram como uma pedra amarelada, com a leveza de um trovão (isso não foi um paradoxo nem uma figura de linguagem, que fique bem claro. O trovão, como aprendi, também é um rasgo na realidade. A claridade que vemos não é um feixe de elétrons nem nada disso, na verdade é como enxergamos a sétima dimensão misturada com as seis anteriores com nossos olhos primitivos), e foram. Não sei aonde. Mas foram, e disso eu não tenho certeza.

Foi uma noite com gosto de refrigerante barato e quente, batata frita em óleo velho, cheia de sal, churros murchos, relógio de pulso extremamente grande (tanto que nem cabia num pulso) e talvez brigadeiro. Talvez brigadeiro com toda a certeza!!

ΔΣ Δt = h/2

Acordei atrasado para o Cálculo.

Eu entrava cada vez mais profundamente naquilo que sempre esteve à minha frente, piscando, borbulhando, pulsando, equalizando… Tudo começou numa sala aparentemente vazia.

De repente, eu não sabia mais onde estava. Apesar do lugar possuir algum tipo de familiaridade, nunca havia pisado naquele chão, nunca tinha visto aquela porta, nem aqueles tubos todos cinzas azulados. Nunca.

Mas parecia que eu sabia tudo, que eu fazia parte de tudo.

Era natal.

Mas não fazia sentido algum, posto que estávamos no começo de maio.

Era natal.

Eu sabia que era natal porque a árvore estava montada na sala após as escadarias. Além disso, pessoas perguntavam-me se eu estava ansioso pela meia-noite.

Sim, eu estava.

Andei através da parede, num impulso de tanta sorte, mas tanta sorte, que sequer Lagrange, Newton ou outro desses motociclistas poderiam ousar explicar. Fui parar na avenida principal. Cheirava a café. Mais que de costume, na verdade.

A rua estava movimentada, mas parecia vazia aos meus olhos. Na verdade, ela estava superlotada; o que acontecia é que eu não podia ver nada com esses sensos. Eram outras frequências. Só percebi que estava mesmo povoada, de fato, quando um carro invisível quase me atropelou. Foi perto do portão das dimensões e perto do grande altar branco.

Corri para um bar, contando ainda com a sorte de não interferir em outros sistemas. Precisava de uma dose de qualquer coisa, pra sentir minha garganta queimar (assim como senti há tantos e tantos anos) e perceber que não era outro sonho. Apesar do fato de ser sonho ou não sequer importar nesse momento.

Cheguei ao bar e peguei meu celular. Quanta ironia, não? O celular parecia funcionar normalmente, e já havia quatro mensagens à minha espera. Talvez elas só existissem porque eu abri o celular.

Eram três delas vindas de meu melhor amigo. E, nelas, ele caçoava de meu destino, como se soubesse tudo o que aflige meus pensamentos. Piadas de mau gosto, indiretas, referências obscuras… Como ele sabia de tudo aquilo?

De qualquer forma, tive de retornar a ligação apenas para ofendê-lo. Eu tinha ficado ofendido com tudo aquilo, por que ele escreveu o que escreveu?

Para minha surpresa, ele não fazia questão de continuarmos amigos.

Após uma longa conversa à velocidade da luz (o que fez com que a conversa fosse bem rápida mesmo), desliguei e resolvi checar a mensagem mais recente recebida. Era outra surpresa… Mas, dessa vez, muito mais agradável.

“Encontre-me no laboratório dos computadores, sala 4-117, três da tarde. Estarei de passagem por aí, preciso pesquisar sobre células. Espero você lá!”. Claro que encontro. Como poderia ousar pensar diferente? Em tal momento, já coloquei-me a correr freneticamente em direção ao Grande Instituto!

Fui correndo a velocidades absurdas, incalculáveis, até que atravessei 252 quilômetros em três minutos e meio. Lá estava eu, próximo aos computadores. Temia ter chegado alguns minutos atrasado, mas havia de encontrá-la no meio de tantos milhares de almas perdidas.

Do lado oculto do corredor, então, não pude conter meu semblante extasiado. Antes da porta estava ela, com um sorriso místico em face. A aula já havia começado, mas ela resolvera esperar mais um pouco.

A sensação que senti foi inexplicavelmente boa.

Conversamos muito tempo, mas dessa vez não fizemos questão que fosse à velocidade da luz. Até porque queríamos que demorasse, mesmo. Queríamos todo o tempo do mundo. Todo o espaço. Células… Quem precisa delas? Espaço… Quem precisa dele?

“Esqueci de te mandar uma mensagem”, comentei. “Hoje é véspera de natal… Queria esperar até meia-noite, ou, quem sabe, até amanhã à tarde para mandar… Amanhã faz exatamente um ano. Do natal mais inexplicável e épico que já pude presenciar…”.

Continuei com o mesmo tipo de conversa repetitiva por um tempo, mas nós dois ríamos de tudo isso, então não importa quão grande fosse o loop das palavras. Quem precisa de palavras, afinal. A grande interpretação não é daquele que guarda todas as fórmulas, mas sim daquele que sabe que na verdade é tudo muito mais complexo que cinco capítulos incompreensíveis em exolinguagens.

De fato, houve um pequeno caos ao nosso redor. Tinha gente comemorando o natal, tinha gente desejando feliz ano novo e comprando fogos de artifício, tinha gente trabalhando normalmente, tinha gente estudando como se o mundo não existisse… Talvez isso tudo porque estávamos num local de ensino.

Que diabos estávamos fazendo lá?

A outra cena, passada à velocidade da luz, também, tinha uma janela aberta numa parede de um salão. Era um salão onde as pessoas cortavam o cabelo, mas a janela vendia salgados e pizzas. E eu conhecia todos eles, apesar de parecerem tanto diferentes do convencional. Um dos cabeludos ali era careca. Mas a pizza era gigantesca, e parecia muito boa. Tinha uma quantidade exorbitante de queijo, e o queijo parecia igualmente bom.

Aliás, devia haver vários e vários tipos de queijo naquela pizza. Eu queria devorá-la, mas não tinha dinheiro… Ela nem era pra mim, e eu também não ficaria à vontade de roubar um trabalho destinado a outro alguém com fome.

Cumprimentei os indivíduos e continuei a andar. Até a cadeira, era minha vez.

Queria apenas aparar as pontas, como o barbeiro adivinhou. Como ele adivinhou meu pensamento, isso eu já não consigo dizer. O fato é que ele sabia exatamente como eu queria.

No que preparava os aparatos, no entanto, olhei ao lado, e vi três figuras femininas. Com cartazes. Não eram muito grandes, mas suficientemente grandes. Não sei o que elas viram em mim, as três eram lindíssimas, e também pareciam familiares de algum lugar, embora eu não pudesse conceber ao certo de onde eu conhecia-as.

Semblantes sombrios, as três possuíam, às faces, desejos libidinosos. Percebia-se olhando os olhos de cada uma, vendo os movimentos que cada mão fazia à distância, o que fazia cada lábio… Elas olhavam pra mim, e chegaram cada vez mais perto.

Também seria mentira se eu dissesse que sei como as cenas se desenrolaram. Meu cabelo foi devidamente cortado, da maneira perfeita que eu queria, sem que houvesse um corte, de fato. Já estava terminado, e as três vieram à minha direção, e ajoelharam-se. Começaram a subir as mãos, desde meus pés até minha canela e continuavam subindo.

Num outro momento de surpresa, senti duas mãos, e essas posso dizer que conheço muito bem, deslizando pela minha nuca, indo pelo pescoço, enquanto uma língua passava pela minha orelha, sutilmente, lentamente. Eu não precisava tornar minha face atrás para saber quem era. Só havia uma pessoa no mundo que sabia fazer essas coisas desse jeito.

As três ajoelhadas, e a mais inspiradora de todas em minha cabeça… Perdi completamente a noção do tempo, e nem percebi que todas elas eram a mesma, por mais que estivessem em lugares separados.

Ela sempre esteve em todos os lugares… Só eu que demorei a perceber.

κινεῖν

Tudo começou com um café. Não era uma cafeteria, nem um posto, nem uma casa qualquer. Havia macieiras ao lado de fora, estava noite e eu estava perdido. Fui parar ali porque era o único lugar por perto. Era aquilo ou o mato para dormir, e já estava tarde. Eu sempre atrasado.

Gostava de acordar cedo.

No entanto, a conversa entreteu-me. Havia uma maçã sobre a mesa, mas não comemos. O ser em minha frente, de longos cabelos brancos, e um semblante inteligente, começou a divagar. Perguntou se eu sabia por que a maçã cairia se eu a jogasse da mesa. Como não consegui resposta convincente, ele continuou.

Falou, então, sobre as maiores montanhas que existem nesse mundo tão estranho; falou sobre os oceanos e todo o peso que a água tem, e como ela, mesmo assim, sobe aos céus e volta durante a chuva. Falou sobre a Lua, e como seriam as montanhas lunares; como seria, agora que vira quão imperfeita a Lua é de perto.

Ele podia voar?

Era uma casa qualquer, com alguns equipamentos estranhos, é verdade, mas nada de rebuscado à fachada. Havia pilhas de madeira, macieiras, telescópios e ampulhetas e luminárias. Parecia que tínhamos algo em comum, afinal: ele também não dormia adequadamente.

“Há muito que se ver por aí durante a noite”, disse ele, apontando para cima. “Se há algo maior?” indagou ao vento sem resposta. “O que poderia ser maior, por que pensamos em algo maior, por que procuramos algo maior?”

“E por que todos eles querem que acreditemos ser o centro?”

“Há uma fogueira, muito perto daqui. Junto dela, toda uma praça. Junto da praça, pecadores. Junto aos pecadores, padres e cardeais. Junto aos cardeais, a salvação divina. Olha bem para esta maçã, ela representa o pecado inicial. Ela mostra a queda do ser humano, a perda da imortalidade. A expulsão do Éden. Isso é esta maçã.”

Tomei outra dose daquele café amargo, forte e quente. Por sorte, a temperatura local era agradavelmente baixa. A lareira estava acesa, um felino amigável ronronava pela casa, era um ambiente ideal para tais divagações.

“O céu, sim, o céu. Pode sair por aquela porta e olhar agora mesmo. Ele se estende até além dos campos e das vilas. Ele dobra, ele curva. Como se morássemos numa grande bolha. E também não posso dizer isso publicamente, você sabe. Não é interessante mostrar que moramos dentro de uma bolha. Temos de ser planos, retificados, regrados, calculados. Eu não calculo seres humanos.”

De fato, achei a idéia palpável. Convidei os dois a saírem da casa e contemplar a grande abóbada por meio de tão complexos instrumentos. O céu estava sem nuvens, e não havia muitas luzes por perto. A Lua realmente parecia feita de queijo, deliciosamente lisa, mais lisa que as pernas da melhor dançarina de toda a Grã Bretanha. Mais prateada que a prata mais polida da Rainha. Mais distante que meus próprios sonhos.

Mas, se eu esticasse o braço, quase conseguia tocá-la.

Após uns ajustes, ele me chamou a contemplar pelo olho de vidro: vi, então, aquilo que vi nos livros e não conseguia realizar quão verdadeiro poderia parecer. Era algum tipo de esfera com discos. E eles faziam sombras na esfera. Como poderia… Era minha imaginação pregando peças? Era um sinal? Miragens, talvez?

“Veja, há muitos outros além de nós! Vivemos numa bolha, pois esta é a natureza que nos foi imposta. O ser supremo que tanto tememos é a personificação dos nossos próprios medos. Somos esmagados pelo simples ato de não olharmos com atenção às coisas. Não perceber todas as nuances que uma curva traz, não perceber todas as distorções em cada letra de uma equação, não perceber como até o céu pode mudar de cor dependendo da estação do ano, como o cheiro do mundo muda, como os sons mudam de afinação, como tudo se movimenta.

Estamos em movimento agora mesmo, olhe os pontos próximos à grande esfera com anéis. É um ser de sorte; temos apenas uma dançarina que rodopia sua roupa prateada ao redor de nossas montanhas e nossos mares e nossas florestas. Ele, por outro lado, tem tanta magnitude que pode escolher qual delas levar ao quarto. É intrigante pensar que não temos tanta escolha assim. Aqui estamos, afinal. Nossa única escolha é respirar e perguntar. Nem sempre responder, mas sempre perguntar.

Não é necessário que fiquemos trancafiados em celas com crucifixos esperando o grande Messias descer dos céus com suas fogueiras e sua justiça. Não existe justiça no que chamamos de Natureza. Ele não vai descer. Se há alguém supremo, que montou minunciosamente todo esse sistema, jamais descobriremos todos os segredos. Tudo o que sabemos, o que soubemos e o que saberemos são, foram e serão dádivas dadas a nós por nós mesmos. Se há um ser supremo, ele quer que provemos da maçã; ele quer que olhemos para o céu e percebamos que não estamos sozinhos; ele quer que construamos os instrumentos para tocar as músicas. Num momento precisamos largar nossos medos e contemplar como a maçã não é venenosa.

Aliás, ela dá um chá ótimo, posso garantir.”

Depois de tempos e tempos conversando sobre derivações, gráficos, gregos e exaustões, voltamos adentro, onde fui presenteado com alguns velhos livros salvos de queimas de bibliotecas. Desenhos, esquemas, projetos, coisas que voam, homens que flutuam, desintegrações da própria matéria, questionamentos, amarelados envelhecidos…

Existem relatos impassíveis de término. Olhando para o céu, percebi como o sentimento de solidão que a espera nos causa é ilusório. Só ficaremos sozinhos se assim pensarmos.

Pensei, também, antes de conseguir pegar no sono: talvez sejamos mesmo o centro de alguma coisa. Talvez carreguemos o centro de algum Universo conosco por todo o lugar. “Andei colinas e colinas a partir da Anatólia”, diz um viajante. Ele traz toda a Anatólia consigo, e cada pedra de lá dentro de sua cabeça. “Vim das raízes da criação”, diz o profeta. Ele traz a criação de tudo consigo, também, e não duvido. Não duvido de quão eterno ele possa ser. Ele diz, não tenho por que refutar.

A eternidade é como a dançarina que veste prata todas as noites, e aparece refletida nos muros de cada casa, mesmo que estejamos com os olhos fechados.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.