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Circa Relevances

Ela me disse para ficar calmo. Eu sabia, entretanto, o que estava havendo. Eu sempre sabia de tudo, e ela sabia dessa minha ciência. Eu sabia as notas que ecoavam em qualquer que fosse a orquestra, só de mal ouvir. Eu sabia o porquê das dores, eu sabia o porquê do silêncio durante a madrugada e sabia o porquê dos banquetes inesperados.

Ela me disse para ficar calmo e escrever um poema, mas minhas linhas se recusavam a quebrar para garantir qualquer sonoridade e agradibilidade ao leitor. Eu ouvia as vozes que vinham da saleta enquanto tentava dormir nos horários estranhamente breves. Sentia as lágrimas que escorriam às faces tão graciosas daqueles seres todos que por mim tinham alguma estima. Sentia cada remorso velado com as velas que tentavam chamar atenção de entidades divinas para, num movimento burro, negociar minha salvação.

Salvar-se de quê?

Ela me disse para ficar calmo, mas eu ouvia as lamentações. Era tarde, e as manhãs eram novos espinhos fincados sobre minha cabeça. Ela não queria me dizer o porquê, e existem termos técnicos e médicos que não posso adivinhar, nem em minhas mais profundas e pessoais imaginações a respeito do que nos aguarda na sombra.

Ela me disse para ficar calmo, enquanto aquele monstro crescia por dentro das minhas equações.

- C.E., 1900, PRKSTNCT

Carpathian

Era um senhor comum visto por sociedades tão civilizadas quanto aquela. Andava com seus trajes sempre limpos, sempre bem engomados. Cartola, mesmo que não houvesse necessidade de tal. Os cabelos brancos, lisos e relativamente compridos, junto a seu bigode e sua barba, demonstravam imponência aos que andavam cíveis à mesma calçada que ele naquelas épocas áureas e sem cores. Havia muito ouro escondido por baixo da neve, mas, a quem não vê cores, a diferença entre ouro e ferro só se mostra na ferrugem.

Como se espera de toda pessoa mais vivida, tinha seus costumes tradicionais. Visitava aqueles que estavam prestes a ser chamados ao grande portão da divisão e do acerto das coisas. Adentrava-se, soturno, às portas de velha madeira – que já eram velhas naquela época – e ia ao quarto dos moribundos que gargalhavam e, imersos na loucura, falavam frases anagramáticas e riam das anedotas baseadas nos próprios fracassos. Não precisavam, estes, terem enfermo terminal para receber a visita do velho.

Numa tarde fatídica de maio as ruas pareciam mais cinzentas que o comum; era meio da tarde. As concepções artísticas, os protestos, a atmosfera, tudo parecia congelado para o apocalipse que se aproximava a passos calmos, certeiros, de um dos escolhidos para deixar a longa terra dos prazeres rápidos e cinéticos. O sapato brilhava mesmo sem sol – e quase nunca havia sol naquelas distantes terras de ficção -, era o que devia ser feito, era o que seria feito.

A porta não achou, em suas raízes florestais dos cárpatos, espíritos guerreiros suficientemente bravos para ranger. Abriu-se, melancólica, chorosa, ao mensageiro das sombras. Dentro da casa não havia família, filhas, primos, tios ou enfermeiras. Era o jogador errante preso em seu próprio banheiro, com portas escancaradas ao caos da surpresa, contemplando o sangramento que escorria por suas narinas, que antes diferenciavam uvas silvestres e morangos assassinos, e agora só podiam sentir o cheiro do ferro que existe dentro de si mesmo.

A diferença entre ouro e ferro, como sabemos, era meramente ferruginosa. Nada podia ser feito, senão contemplar o suco rubro vazando e manchando o chão, a pia, os espelhos, os vidros. Não havia realidade suficiente para despertar medo, sequer coragem suficiente para pensar em reações.

Nunca iria coagular, de qualquer forma.

Pouco antes do banheiro, à sala da fogueira e dos móveis bem cheirosos e das taças, as duas meretrizes se mostravam abandonadas na parte suja e podre do chão limpo. Imóveis, inertes, como estátuas de prazer feitas de material orgânico; expressões dolorosas e tortuosas além das olheiras e da maquiagem bagunçada por unhas e tapas; pescoço arroxeado, pernas retorcidas, lábios que ousaram gritar, mas se perderam em meio a alguma palavra qualquer que pedia misericórdia; roupas rasgadas, olhos tão abertos quanto as feridas que se expunham em seus peitos generosos e em suas roupas encouraçadas. Damas da noite, prontas para fornecer toda a lascividade necessária, tão sedentas por sangue, e que, agora, o bebiam no último de seus sacrifícios.

A noite fora tão prazerosa que cobrara, como pagamento, a própria vida dos três. As meretrizes eram dignas e foram levadas logo, pagando apenas com uns poucos momentos de dor intensa, calafrios desafinados e incertezas anteriores ao fechar aberto das esferas de prata. Quanto ao jogador, o preço fora proporcional a quanto prazer desfrutara bebendo vinho, comendo queijo e torturando estátuas que respiravam e gemiam descompassadas implorando pelo fim.

O começo havia sido a perda dos sentidos. Não havia mais sequer formigamento, nem dos braços, nem das pernas, nem dos olhos. Em seguida veio o questionamento sobre as coisas todas. Antes do arrependimento, porém, o jogador sentira aquele líquido fluindo de seus pensamentos, buscando o lado de fora, seco e livre de idéias. O rio fluía, no começo, lentamente; depois era como uma turbulência infinita ao encontrar a liberdade de mares de concreto. Derramava-se por todo o cômodo, deixando marcas permanentes em cada risco de madeira.

Era como se a casa estivesse tomando de volta todo o sangue que fora consumido em oferta aos deuses pagãos criados por conveniência em cada uma das orgias de sacrifício que lá se haviam tomado como templo.

O jogador roubava os corações das meretrizes. Apreciava vê-los pingar, carnais, enquanto os levantava contra a garrafa de vinho e contra os pedaços toscos de metal. Correntes, amarras, um universo de contra-assepsia que despertava nele instintos psicopatas e doentios que aliviavam todas as dores de todos os dias por alguns momentos. Alguns se embebedam em uísque, outros contemplam o vão das paredes da luxúria.

Enquanto brotava de si mesmo cada uma das gotas do pagamento, os porquês ficavam confusos e insólitos, e não faziam sentido. Mal pôde perceber, mergulhado em angústia, o velho que o assistia da porta, sem parecer surpreso, e, além disso, parecendo saber exatamente como havia sido a noite e porque estava lá.

Não havia vento, mas a barba e o cabelo do velho flutuavam de um lado para outro, como pêndulo que aguarda as badaladas do relógio e se assusta ao perceber como está atrasado para outro compromisso demasiadamente importante, mesmo que sem importância alguma.

O velho lentamente se tornou em direção à porta florestal, enquanto o jogador desfalecia, com olhos arregalados, assustado, medroso, ao encontrar a resposta que procurara com tanto afinco nos últimos três minutos de deriva.

Vinho / Rua / Madrugada

Muitas pessoas falando pelo fio de cobre… Vilões e ferreiros todos ao mesmo tempo… Confusos… Cheios de pausas… Algo a ver com sumiços e fusões… Hutchison ou qualquer coisa assim…

Andando pela madrugada, eu sei que não vou encontrar ninguém pelos caminhos escuros. Mas alguma lembrança de civilização ainda é vívida. Ainda sinto os crimes, todos eles… O rubro sendo espalhado pelo chão escuro, parecendo um óleo diesel qualquer de algum carro qualquer…

Parece uma luz, parece um trem, mas é só outro poste. E continuo andando, procurando insetos e contos, histórias e lugares escondidos. Às vezes faz muita falta um lugar escondido, mesmo nessa cidade desprovida de gente. Lugares escondidos trazem abrigo, trazem uma sensação única.

Mandaria uma mensagem, se tivesse algum contato. É desolador. Os bares todos desertos, as calçadas, as indústrias. As indústrias… Não sei o porquê, mas consigo imaginar ainda toda a parafernalha em movimento, é tão real… Mas sei que nada disso existe. Só parece que existe. A maçaneta, a garra, agarra; o lubrificante, os restos industriais, a gordura misturada com a terra e com a grama do lago morto.

E o vinho?

Estive me lembrando de você hoje, tomei vinho. Não muito, não consegui ficar bêbado. Mas o cheiro do vinho, a cor do vinho, o gosto do vinho, o som do vinho misturado com o som das pedras, eu me lembrei de você. E nem tomamos vinhos, veja.

Foi uma clara memória de tudo o que não aconteceu, ou talvez não tenha acontecido. As taças cristalinas, balançando misticamente o roxo do vinho tinto. O primeiro gole, o olho esquerdo no olho esquerdo, e pulando para o direito… E pernas. Pernas, coxas, cinturas, todas entrelaçadas ao mesmo ritmo dos goles de vinho. E nem estávamos sem roupas ainda.

Era mais ou menos por um lugar desses. Algumas velas… Até que é bom, em certo ponto, viver numa época onde a eletricidade é privilégio, é de poucos. Temos as velas, quem precisa dos bulbos elétricos quando se tem velas. Velas simples, de fato, mas que serviam muito bem, e servem muito bem. Um clima meio avermelhado; em certo ponto o roxo do vinho era até ressaltado. E o cheiro misturava-se com o da madeira. Você sabe, é tudo de madeira. Mesas, móveis, cama… Apesar de estarmos no chão, que também era de madeira.

Um ou outro livro de algum escritor perdido, aberto e esquecido em qualquer capítulo. Talvez o livro fosse apenas decorativo. Suas graciosas mãos, quando não estavam segurando a taça, também passavam delicadamente pelas páginas amareladas. Como se quisesse seduzir as palavras, como se quisesse dançar com todas elas.

Enquanto as suas dançavam com palavras, as minhas dançavam com cada pedaço seu. Dos cabelos até o que conseguia atingir dos pés, nas posições mais malucas que conseguiríamos imaginar. Naquela noite você era exatamente como o vinho. Despertava todas as sensações, aguçava todos os sentidos ao mesmo tempo.

Também é claro em minha mente imaginativa você quase tirando sua… Sua… Como se chama mesmo essa roupa que você usava por cima? Bom, tanto faz. Você quase tirava. E eu quase acreditava. E só conseguia esboçar uma quase risada.

Talvez você estivesse certa sobre ser suscetível. Você quase tirou a roupa… E por isso senti-me no dever de dar uma pequena ajuda. Prometo que comprarei outra igual àquela. Desculpe tê-la rasgado. Mas foi legal, de qualquer forma.

E sabe-se lá se eu já estava muito bêbado, mas você também tinha gosto de vinho. Sua boca, seus lábios, seu pescoço, sua orelha, sua nuca, até o pouco de cabelo que inevitavelmente vinha à minha boca. Cada pedaço seu era como o vinho, e por isso eu conseguia apreciar tanto e por tanto tempo. Qual a graça de tomar uma garrafa do melhor vinho grego em poucos minutos…

Já estávamos entrelaçados faz tempo, e agora também eu conseguia prestar atenção em como as línguas se entrelaçavam. Não era frenético, mas era intenso. Uma música lenta e complexa ao mesmo tempo.

Você sabe… Quando pensei em escrever uma carta a você sobre tudo isso, não pensei que ia ter mais que duas linhas… Mas não sei por que estou surpreso. À tarde, naquele dia, eu também não conseguiria imaginar o que seria aquela noite. E minha imaginação é bem vasta, como sabe.

A garrafa vazia e deitada, as taças cristalinas descansando sobre o tapete, vazias também. O livro na mesma página, entreolhando. A vela quase no fim. Barulhos silenciosos, sem muito alarme. Agora não eram só as pernas e coxas entrelaçadas. Era tudo. E tudo deslizando sobre tudo, tudo esfregando sobre tudo. Tapetes, mãos e lábios. Lábios.

Não sei quanto tempo você demorará em ler tudo isso… Mas foi o que se passou nos poucos minutos em que tomei alguns goles de vinho ontem. Tudo tão real e vívido como se fazem poucas memórias que tenho.

Uma noite memorável. E só eu e você e o livro e o vinho e a vela sabemos todos os detalhes que omiti.

- Sisnt; 161 0128 1937

Mas ouvir a música da cidade morta é intrigante. Até mesmo perto da construção abandonada onde achei tal texto… Quando se esforça para se ouvir um som, ele vem. Mesmo que a cidade esteja completamente deserdada.

Tudo flui, em todo lugar. Se não há pessoas, crie-as. Se não há música, componha-as. Se não há Sol, então ilumine.

Os contextos estão todos jogados. Lembro-me muito bem de muitos manuscritos, como se fossem parte de mim. Lembro-me dos parágrafos, das estrofes e dos desenhos.

Mas não vejo necessidade em contá-los a todos que queiram saber. Não preciso contá-los, é só ler os arquivos. E saber ler cada parágrafo, saber ler cada estrofe, saber ler cada desenho.

A base se aproxima, e aqui é o último momento em que me lembro de estar sóbrio. E o último segundo que me lembro, provavelmente, é algo relacionado a um céu se fechando cada vez mais. Vai chover. E não sei quanto os comunicadores aguentarão. Preciso ir rápido.

Grato.

PS: Cardeal V / Roma XVII – O interruptor; encontrei defeitos nele. Favor mandar sobressalente. E as válvulas H35-CH estão organicamente (que ironia) defeituosas. Peço reposição, sobretudo quanto ao material sulfuroso.

ATO XVII/XII-XXII~XXIII | Lux Aestivus

O que vem fácil vai fácil; assim estava escrito no muro, e não era novidade alguma.
[Esmurra a parede]

Não viera fácil.
[Continua esmurrando a parede]

Nunca, nada.
[Caleja as mãos de tantos murros no concreto]

Por mais que quisesse assim imaginar, era mentira.
Sabia que era mentira.
O mundo seria injusto sempre que achasse que deveria ser justo.
[Wilderness]

Uma floresta infestada por uma fauna perigosa, espinhosa.
Passos no chão de algum antigo bardo,
A melodia incrustada nas paredes ainda fazia muito eco.
Cinco, seis luas, ou mais que isso. Dois, três dias. Cinco, sete minutos.
No lugar de grama havia o mesmo de sempre.
E não era grama.
[Revira os olhos]

Eu odeio todo mundo.
[Cheio de gente]

Todos que conheço e os que não conheço… São a mesma coisa.
[Não consegue definir expressão]

Todo mundo.
[Dazed and confused]

Apesar do calor…
[Rain]

Apesar dos mandamentos…
Todo mundo.
[Não viera fácil, nunca, nada].

Agora estava longe e sem contatos.
[O que você quer de verdade]

Eu só queria um pedaço. Eu só não queria ficar só olhando.
[Fox]

Ter que escrever ao invés de falar, ter que inventar histórias ou tentar explicar por símbolos. Não poder gritar ao invés de cochichar. Poder falar qualquer coisa que seja irrelevante. Qualquer coisa irrelevante, fútil. Mas ninguém se interessa em ouvir. Ler histórias é mais legal.
[Livro]

E não poder participar de nenhuma.
[Wilderness]

Let me out.
[mea culpa]

O que vem fácil vai fácil.

Alienação tão necessária e tão difícil de ser capturada quando necessitada.
As mesmas coisas que nos abrem sorrisos tiram lágrimas.
[Esmurra a parede]

Eu odeio todo mundo.
[Sombra]

Mesmo quem eu não consiga.

In Natura

O hospital, velho, sempre apontando e mirando o horizonte. Paredes derrubadas, leitos abandonados, uma carta qualquer jogada queimada apodrecida. Uma legenda, apenas, sem remetente ou destinatário. Parecia mais parte de um diário sonoro. É uma pena, de fato, não ser possível ouvir as musicas que pairavam na mente atormentada.

Lá estava ela, tão perto e tão longe. Deitada. E eu com tanto ouro derretido pela garganta, sentindo as cordas contraírem, desafinarem, quererem gritar, sem, no entanto, poder. Um quarto azul iluminado pela noite e pelo relativo silêncio.

A nota musical era a mesma a cada intervalo, o osciloscópio era o único aparato que demonstrava haver algum tipo de atividade por dentro de onde outrora viveu. A cama, desconfortável, alguns cobertores, paredes lisas e cores imperceptíveis. A luz apagada, a seringa injetando misericórdia em suas artérias.

Agora eu poderia dizer qualquer coisa, qualquer pesar, agora nos últimos segundos eu poderia dizer palavras que dia após dia controlei. Por motivo algum. Enquanto havia ar nos pulmões deixei de agradecer tanto tempo que esperou, tanto tempo que suportou, tanto tempo que sangrou. E agora era só eu e ela. A cada segundo que passava já nem isso podia dar certeza. No próximo segundo poderia ser só eu.

Uma poltrona e um livro qualquer. Trocaria de lugar. As memórias ressoavam em minha mente, eu me sentia cada vez mais culpado por ter sido mudo. Tantos conceitos e fiquei cego. Tantos gritos e fiquei surdo.

O único quadro remanescente na parede, e ela nem sabia disso, era um que mostrava uma concepção artística de Júpiter. O maior dos planetas do sistema, o que possibilitou cálculos da velocidade da luz, o que salvou vidas tantas vezes. Ela nem sabia da existência desse quadro, mas fiz questão de colocá-lo lá, bem próximo ao osciloscópio. E este apitava, apitava…

Se ela pudesse ouvir a música, e sons cósmicos tantos esses, que voasse para onde quisesse, e percebesse o quanto esteve presa perto de minhas palavras silenciosas. Agora talvez pudesse entender o porquê de alguns atos, e sentir então como tudo o que pensara durante toda a caminhada era real. Vera dentro de Carlson, e talvez os templos e os pilares realmente existissem. Algo em mim clamava pela abertura do túnel e que fosse ela levada por este.

Tamanho o pesar, não conseguia colocar lágrimas para fora. Até estas se recusavam a aparecer para mim, era o ácido que corria perto dos meus olhos, enquanto eu via a realidade que habitava o sul dos piores pesadelos. Nalgumas tardes pensei em dor suprema, mas nada comparado a isso. A areia escorria pelas mãos assim como escorrera pelas mãos do imperador.

O hospital, viajantes, é tétrico.

Água-Relógio

“Quando nós podemos gritar, ao invés de murmurar?”

O estado bruto da matéria. O sistema está sobrecarregado, ora trava, ora funciona. Complexa álgebra, abstrata e bizarra aos olhos. Abro os olhos esperando encontrar o Universo, no entanto o que vejo é a mesma parede. Por mais que eu ande, por mais becos que eu visite, por mais ruas e bueiros que eu descubra, por mais baús que eu abra, no final sempre a parede vai olhar pra mim, eu vou olhar pra parede. É o espelho.

A última estação de trem, ao menos a última que consigo ver aqui por perto. Talvez existam muitas outras depois dessa, mas não consigo imaginá-las. Ainda.

A parede não muda sua fisionomia, apesar de estar caindo aos pedaços. Encara todo esse panorama cinza com a mesma serenidade de décadas. Acostuma-se a ver o vazio, por mais que tenha visto o movimento, os sentimentos, os pesares, a fuga. Pra ela é uma questão de tempo até desmoronar e voltar ao pó.

Pequenos grânulos se desprendem tempo após tempo, voam livres pelo ar, pra lugares randômicos, infinitos e não-lineares. A parede talvez saiba. Por mais que pareça inteira, perde-se cada vez mais a cada segundo.

Nada é inteiro.

Uma fotografia pairando sobre a rua. Não sei de quem, talvez eu também não conheça. Mas a fotografia há de encontrar seu destino. Assim como os grânulos que se desprendem da parede e abandonam a estática para beijar os lábios do movimento.

Talvez a ilusão seja mesmo benéfica. Imaginar, iludir-se. É um doce muito saboroso. Contém veneno, mas é saboroso. Cada segundo da mesma angústia e da mesma paranóia descabida, algo memorável de se registrar. Talvez o clima vazio dessa cidade tenha efeitos desse tipo. Num momento excitação e euforia, três minutos depois angústia e desespero. Seria mais fácil convencer-se de que é tudo fruto da própria mente. Mas aí o doce venenoso não seria tão saboroso.

Creio que eu não tenha sido o primeiro aqui a ser cobaia desses experimentos malucos.

NightMare

Um quarto,
não vazio dessa vez.
Duas pessoas.

Escuro, calor.
Calor humano,
aquecimento global,
quente.
Queimando cada neurônio.

Um ventilador inútil ligado,
circula o ar quente.
Horas do começo,
esperando em desespero um barulho.
Repetitivo.
Do telefone.

Logicamente,
ele não grita.
Você grita.
Muito.

São duas pessoas,
mas você não vê nenhuma.
Uma mora no espelho.
A outra na vã imaginação.
Fechando os olhos é possível ter alguma idéia.
Mas nada além disso.

Tudo o que você sente,
tudo o que você ouve,
Tudo o que você vê…
Os olhos estão fechados.

-

Certa vez achei por recado as Galáxias. Andrômeda parecia palpável pelas minhas mãos. Agora parece outra vez distante. Distâncias e métricas ímpares. Sinto-me num polissíndeto, uma reação em cadeia dentro da massa, além da eletricidade, não consigo explicar.

Devo estar obcecado com todo esse equipamento não-utilizado, despertam teorias sobre qual a serventia de cada um, mas nenhum funciona, os manuais (quando acho pedaços) estão nesse idioma cheio de letras estranhas e incompreensíveis. Parece um quebra-cabeças. Só não sei qual a primeira peça, muito menos qual será a última. Pode ser um quebra-cabeça infinito, e que a primeira peça seja eu mesmo.

Só preciso saber onde colocar.

Enquanto todo o vento sopra e continua levando os pedaços para longe. Antes que a parede desmorone preciso saber o que fazer. Grave.

Mais uma cirurgia. Como todas as outras, risco de vida. Sem hospitais.

Que eu tenha sorte.

Grato!

-

“Quando é uma palavra, e não um suspiro?”

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