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3/3 Unexpected Dançarina Turnpike

Ela aparece toda noite rastejando pelas paredes do lugar comum, mas não tenho culpa. Sempre acabo escrevendo sobre o mesmo pronome, é maior que meu controle. Posso estar tão errado sendo tão recursivo?

O fato é que toda noite ela aparece de novo embaixo d’outra roupa; cada vez menos. Vejo-a em músicas que nunca fiz questão de conhecer, mas que admiro pela genialidade de cada movimento, enquanto ela dança bem à minha direita, como se eu soubesse que tudo é um jogo, e como se ela gostasse de saber de minha ciência de tanta decepção programada matematicamente.

Ela sabe, eu sei, todos sabem; tudo é de todos, tudo é tudo, é todo, deixo por um compasso ou dois meu egoísmo numa quina de gesso, maluca, de conceitos rabiscados; ela ri, enquanto eu também continuo rindo, satisfeito por caminhar de novo contra o abismo da imaginação e de tudo o que acho louvável e concreto. A carta zero me foi mostrada por uma fração de segundo – uma fração suficientemente pequena.

Dei a ela um pedaço criptografado de mim, que não pode ser lido por olhos que dominam a linguagem, nem podem ser ouvidos por orelhas que dominam a música. Avesso ao plano coordenado do comportamento. Sincero na ciência do erro. Algo que não consigo encontrar em outro lugar senão em mim mesmo. Um erro minuciosamente planejado.

Um erro matematicamente coerente.

E toda vez ela rasteja outra vez e me aparece, perto do espelho, dizendo de minhas virtudes e de meus fracassos, sadicamente, e eu não posso fazer nada, senão contemplar e ficar cada vez mais bêbado dom a realidade, mesmo sentindo as bordas ásperas e gostando de ser arranhado pelos muros ao tentar enxergar o que há por cima do concreto.

Converso com fantasmas, sem notar que a conversa é comigo mesmo e que as imagens são criadas por detrás dos olhos enquanto as ramificações se espalham e se encontram com o vírus da garganta.

As letras ficam cada vez mais embaraçadas e as músicas mais descompassadas, mas ainda adoro vê-la dançando tão perto de mim mesmo que eu não possa escolher as músicas de todos os dias como sempre escrevi nas linhas das mãos de areia da ilusionista do caos.

…Ela se contorce sozinha e eu não faço nada, não por não querer, mas por ter o pensamento. O pensamento pesa numa inclinação íngreme bem polida, assim como as dificuldades de escrever palavras simples. Estou bêbado enquanto ela dança. Converso, e não é com ela.

Não me lembrarei das conversas, mesmo sabendo que a amnésia é iminente.

Tudo que fazemos é esquecido no outro dia, e disso minha memória também haverá de me lembrar, por cima das curvas e a contração do espaço, assim como o cheiro, as formas e os sons e o tempo e o eco.

Estou bêbado, e ela é fantástica enquanto dança tão perto.

- Mr. Young T. Fawkes; Castela Hills, 2112

Imago III

All I asked to the piper at the gates of dawn
was to show me the golden streets of paradise
where we could meet again and talk along the formulae.

All I asked to the piper at the gates of dawn
was to gift me with a night to spend with you
in a place where we could get stuck in time,
and spin around each other in an ethereal space realm. 

He laughed at me in disdain,
“only a fool would not realize
how easy is to open an unlocked door.”

2764, Gates.

Imago II

Thus I walked through the orange fields
although they seemed gray for a while.
The while lasted a thousand lives;
now I can see the eyes shining far.

Outside the silver helmet I carried along,
the withered memories come alive at least.
I know there are her colors beyond the line.
It is a world beyond the shadows.

An illusion I accepted as my reality,
A concept of misunderstandings without a silhouette,
but fullfilled with electromagnetic radiation.

From the square roots emerged the hyperforest.
The leaves refreshed my blood, slowly,
as the sweetest tangerine flowed, softly,
inside the whole world of my mouth. 

From the colorless thoughts I saw the orange Sun,
and realized my red lips singing for the juice.
The acid of my chest now burns as a extracosmic fuel,
pulsing in ressonant supernovae,
into kinetic spirals.

She flew inside my mindgames
as I was thunderstruck before the line.
I could see the colors for a while.

A while that shall last a thousand lives.

- 1315, Far-Vistas.

Caesar X

Era quente como o inferno, mas Caesar gostava da sensação gelada das tigelas nórdicas de água. Havia apenas uma forma de ficar acordado, e era dentro do profundo escuro; ninguém mais podia ver, nem ouvir, nem pensar. Lá estava ele, outra vez, no mesmo lugar… Embora fosse um lugar completamente diferente.

A fumaça havia voltado, depois de vários reinados transparecidos como a estatueta blasfema de uma santa. Porém o cheiro não era sólido como atomicidades cinzentas e sujas. Era um cheiro doce e inexplicável. Era de extremo bom gosto, e lembrava Caesar sobre várias noites embaixo de coqueiros artificiais das praias do futuro. Era de coloração roxa e odor doce.

Antes de ficar escuro, havia músicos. Eram diferentes dos bardos costumeiros. Estes traziam maquinarias a vapor, engrenagens, cristais, bastões mágicos, vidros de poções alquimistas, trovões enclausurados… Sentia Caesar que eram virtuosos, e traziam consigo mais cordas que um instrumento poderia conceber. As cordas vibravam distorcidas e ressonantes com a mudança do Universo e dos tempos.

Os tempos eram bastante diferentes.

Ainda antes de escurecer, chegou-se um velho conhecido. Parecia um traidor, mas não o era. Fosse, seria não mais que o próprio Caesar. Não havemos de tentar entender os entrelaces que ocorrem entre os seres antientrópicos. Havemos apenas de viver o que quer que seja, o que quer que seja para acontecer. E assim acontecia.

Ele parecia ter um bom coração, afinal. Ofertou, junto com sua dama, uma bebida a Caesar. Sentou-se este para conversar com eles.

Então o Sol se foi atrás das montanhas, e provavelmente fora apenas a primeira das magias de um dos virtuosos. Não havia lá relógios confiáveis, e notas musicais eram meramente relativas.

Depois de uma voz oraculosa conversar conosco em pensamento sobre o que de fato somos, começou-se a contar um conto. Era um conto longo, sobre um pesadelo. Um pesadelo que jamais deveria ser esquecido.

Então isso é o teatro dos sonhos, ela pensou. Parecia um lugar sujo, de verdade. Um lugar pobre, caindo aos pedaços, com tochas fracas e mal-cheirosas. Não havia por que se estar ali. Não havia. Mas ela precisava saber o que havia; já se passaram inúmeras estações, não era mais sensato se esconder por baixo de cobertas.

Havia algo a ser visto, e ela precisava ver o que precisava ver.

O cavalheiro perdido contou a Caesar que já se passara um ano. Caesar consentiu. Passara-se um ano a ele também… Era lamento, no entanto, que sua inspiração estivesse tão longe dali. Mas estava perto, como sempre, e ele sabia.

Depois de outro jarro de cevada, assentou-se à mesa o que usava chapéu. Estava sem chapéu ali, é verdade, mas suas retratações desenhadas jamais seriam diferentes. Aos doze anos, já lecionava em seu clã – era alguém devidamente notável, e gostava de conversar com Caesar. Parecia, de fato, que conhecia entranhas do pensamento, e sabia exatamente que caminhos fraseados tomar.

Conversar é como uma música a se tocar. Naquela noite, os músicos eram virtuosos, e assim pareciam as companhias.

Atrasado, chegou outro dos imperadores da Terra Nova. O último deles, e o mais louvável.

Escadarias, mas não levavam a um castelo. Era bem diferente de um castelo. Não ficava num lugar que pudesse um dia ser um castelo. Era tolice, essas fantasias são igualmente tolas. Os castelos dos livros não são como os castelos de verdade que se vê através da janela toda manhã.

Não havia porque uma mulher usar armadura. Ela não era uma mulher. Era quase, mas ainda não era. Resolveu se cobrir, apesar do calor.

Castelos de livros não existem.

Depois de contar sobre o pesadelo, o cozinheiro das dimensões tirou de sua capa um tipo de metal refletor. Faiscava, emanava raios verdes que se estendiam às paredes e emitiam barulhos incompreensíveis, caóticos e, ao mesmo tempo, de beleza inconcebível. As peças pareciam cair como acontecia nas terras distantes e geladas dos hunos, e caíam exatamente por dentro da cabeça de Caesar, uma a uma, buscando uma ordem, enquanto obedeciam as regras do desequilíbrio.

As peças podem ficar em ordem de alguma forma. Enquanto caem, porém, seguem senão o caos. Não é um sistema caótico, é apenas um sistema em caos.

Números emergiam, e Caesar compreendia o que disse o velho grego. Não era que toda a natureza fosse resumida em contas e cálculos e pedras. Era que tudo podia ser escrito em números, como fosse uma linguagem que transcendia.

Os virtuosos sabiam inclusive conversar por números.

Havia sido apenas um ou dois goles, mas já se sentia um pouco distorcida. Caminhava entre as pessoas, procurando o que devia ver, sem conseguir imaginar o que seria. Estava derretendo, mas precisava parecer comportada.

Do outro lado daquelas terras perdidas e desoladas, luzes riscavam o céu. Devia ser algum tipo de teste dos malucos chineses, mas não parecia tão agradável. Era bonito, visto de longe, assim como bonita parecia a Lua, tão redonda vista da torre da taverna.

Eram mais bonitas as luzes de dentro.

Caesar, depois de outra sinfonia acabada, subiu à mesa. Levantou o cálice de cevada e contou sobre como o espaço e o tempo eram um só, e isso de maneira extravagante. Contou que havia uma grande entidade que era o espaço e o tempo, e esta era um tipo de mulher, uma dançarina. Usava-se de um chapéu ornamentado por frutas, talvez falsas, e dançava músicas simples e, ao mesmo tempo, intrigantes. O espaço-tempo era uma dançarina, e ela parecia muito familiar.

Os virtuosos entenderam, como haviam de entender tudo o que seria dito aquela noite. O imperador da Terra Nova estava longe, mas havia também entendido. Ele tinha tarefas mais relevantes, como jogar.

O último imperador da Terra Nova gostava de jogar, e era um senhor deveras engraçado, porém bastante sábio ao mesmo tempo. E um tanto assustador, quando contava piadas. Disse sobre um quadrado que havia inventado, que emitia sons conforme o desenho formado. Ou emitia desenhos, conforme o som gritado. Tanto faz, era reversível.

Reversível também era a música que ecoava dos alquimistas. Era um druida, um cozinheiro, um ritmista de terras distantes, um canônico e um inventor de máquinas voadoras. O druida contava, embora dessa vez sem sua flauta, sobre as linguagens faladas. O cozinheiro usava seus utensílios transdimensionais para gritar sons imersos em caos organizados. O ritmista viera do continente do sul, e parecia ser um octopus em seus latões e peles de carneiro. O canônico não ria, não olhava e não dizia, apenas tocava suas cordas infinitas, cuidadosamente, precisamente, exatamente. O inventor de máquinas voadoras inventava máquinas voadoras que só fariam algum sentido depois de alguns séculos de hiato – os códigos do que futuramente seriam chamados aeroportos já haviam sido todos catalogados; pontos, traços, traços, pontos, música.

Andando entre a gente toda, ela pensou ter visto algo diferente. Era uma mesa, e nela conversavam quatro seres. Eram três homens de aparência respeitável, e uma moça. Todos pareciam muito mais velhos, apesar disso não ser tão difícil. O que acontecia, de verdade, é que a nova era ela. Talvez mais do que queria ser, talvez mais do que podia ser…

Mas não eram os três nem a moça que a despertara curiosidade. Era um dos três. Um que apontava e bebia e falava sobre universos distantes e cordas que vibravam e soavam como uma grande música do que é chamado de realidade. Era um tipo de conversa complicada, mas ela estava lá, ela deveria entender. Ela não estava lá aleatoriamente, e, por algum motivo, ela sabia disso.

O rapaz perdido e sua dama foram embora. Despediram-se. Caesar achou melhor ficar sozinho à mesa por alguns instantes, contemplando a introspecção. Desenhava, parado, linhas nas areias de um deserto que havia por dentro da consciência. Entrava dentro da própria carne, via tudo, como poucas vezes pôde ver. Talvez fosse a fumaça roxa, talvez as luzes, talvez as bebidas, talvez os alquimistas, talvez tudo. Mas tudo parecia fazer sentido por um momento bastante pequeno de tempo, e essa sensação era agradável a Caesar, apesar de ele saber que tudo seria esquecido na próxima manhã.

O que importava de verdade não era se o conhecimento seria guardado num lugar bem seguro, mas sim se esse conhecimento de fato existia. Naquele momento cheio de carne humana, Caesar percebeu que existia mesmo. Percebeu que o que sabia era certo, e que não estava perdendo a linha.

É provado através do tempo. E o tempo, como sabemos, é uma dançarina.

E agora ele parecia sozinho. Mas não estava de fato sozinho. Parecia na verdade que estava bem acompanhado, e tinha gente bastante interessante para conversar. Não seria ela uma perturbadora daquela paz que via no meio das músicas dentro dos olhos do tecedor das cordas da realidade.

Continuou andando, ela, entre a gente do local. Mas dessa vez ela sabia o que queria ver, e via. E continuava a ver, e não se importava se alguém percebesse que estava vendo. Era o que ela queria ver, e via. E via.

E ele não parecia perceber que estava sendo visto.

Percebia. Caesar percebia que estava ficando tarde e as músicas ficavam cada vez mais longas, e isso não era necessariamente ruim. Juntou-se à mesa de jogo do imperador e tentou caçar a conversa jogada ao esmo. Conseguiu, como de costume, e se entrosou nas bebidas que não existiam.

Era um remédio. Conversar com virtuosos sobre coisas novas e terras distantes era um remédio para a alma. Não havia atrito – era como uma grande mesa de bolas rolantes, perfeitamente lisa e polida e agramada. Perto ali deles, não propriamente junto com eles, havia outra moça. Parecia um tanto deslocada, não falava muito e era razoavelmente atraente.

Deixe ser, ela disse. E foi a única coisa que disse a noite toda. Misteriosamente, disse bem quando Caesar se aproximou.

Era, para ela, parecido com aquelas imagens que via todo dia no templo da montanha. Era bem parecido, na verdade. Conseguia imaginá-lo sem aquelas vestes nobres. Conseguia imaginá-lo quase sem veste alguma, sangrando, com flechas fincadas perto do peito, mantendo um semblante calmo e pacífico, segurando um livro e querendo dizer algo perto de uma árvore.

O calor parecia se intensificar conforme os pensamentos dela se desenrolavam por tudo aquilo. Era sinal de algo? Mas ela era tão nova!

Lembrou também que, tão longe quanto os malucos chineses, outro senhor dizia suas histórias à cidade. Eram histórias sujas, promíscuas, proibidas. Queria saber das histórias, era curiosa. Mas não precisava – ali estava ela, criando sua própria história suja, promíscua e proibida.

Endeusava o tecedor das ondas, e fantasiava com uma imagem endeusada. Era uma blasfema. Mas sequer tinha idade para ser blasfema. Quase não tinha idade para pecar, então por que sentia tantos turbilhões apenas ao olhar para alguém qualquer que jogava bolas rolantes com um imperador cômico e um professor de cereais?

Deixe ser, Caesar pensou, em silêncio. Bastante gente conhecida estava com pinturas de guerra e sinais na pele. Não entendeu muito bem, mas provavelmente sequer deveria entender aquilo. Deixe ser, estava escrito no ombro da moça calada.

Enquanto isso, ali à frente das mesas, o cozinheiro contou brevemente sobre suas musas. Caesar se lembrou de sua Musa Suprema, e sentiu que faltava algo na noite, e não era por causa da luminosidade da cidade que ofuscava o céu.

A musa da qual falava o cozinheiro era diferente. Ela parecia rastejar pelos compassos, e gritar por socorro, subliminarmente, em algum tipo de segredo.

O druida, enquanto falava o cozinheiro, bebia algum tipo de bebida amarga e forte, e realizava semblantes engraçados. O inventor de máquinas voadoras havia sumido, mas seu som continuava. Testes alquimistas de invisibilidade também faziam parte do espetáculo, afinal…

Era majestoso, ao contrário. E tão majestoso quanto a ordem correta. É inexplicável, mas tente imaginar uma sinfonia épica sendo apresentada em ordem reversa. Se a sinfonia for de fato transcendental, não importa a ordem, a velocidade ou até a nota. As grandes sinfonias sequer precisariam de notas.

Estava tarde. Precisava partir. Iria embora sem saber quem era aquele, sem saber seu nome, e levaria consigo por todo o resto da eternidade apenas um conjunto de fantasias que a faziam suspirar. Lembraria dele em todos os rapazes que conheceria em sua vida, e antes dela, e depois dela. Ela vira o que deveria ter visto. Queria ver mais, mas não podia. Queria apenas falar com ele, mas não podia.

Tinha de ir embora, e já estava sendo quase arrastada por seus protetores gigantes e brutos e cheios de martelos e armaduras. Andou à saída, e quase tropeçou em seus próprios pés. Continuou a olhar aquele ser das ondas e das cordas da realidade, e continuou a suspirar. Ele não parecia notar, de fato. Os olhos dela brilharam, e ela desceu as escadas.

As noites comuns também se faziam presentes naquelas músicas que ecoavam pelo salão. Era uma sensação única. A mesma sensação refletida por aquelas noites agradavelmente geladas e azuladas e estreladas, onde o céu se misturava harmoniosamente com os prédios e as luzes artificiais, tudo visto de cima do castelo de verdade.

Havia, afinal, três tipos de castelos – o dos livros, o da realidade crua, e o de verdade. Ela gostava de subir até o alto do terceiro tipo e ficar contemplando a cidade.

Um dia perceberia que está mais próxima do tecedor da realidade do que poderia imaginar. Um dia olharia ao redor quando estivesse ao alto do castelo, e realizaria que está acompanhada por todas as suas fantasias.

Na última nota do piano do cozinheiro ela foi embora.

A música cessaria logo, disse o imperador. Caesar também consentiu, já estava ficando com sono. Por surpresa, os alquimistas ofereceram a todos da mesa do imperador aquela última sinfonia. Ela dizia que cada respirar deixava a morte cada vez mais próxima.

Caesar sabia disso, e talvez todos ali também soubessem. No entanto, o modo como os alquimistas diziam era poderoso e introspectivo. É estranho algo ser introspectivo quando falado por uma terceira pessoa, mas costumava funcionar.

Era uma introspecção conjunta, e talvez por isso ninguém se sentisse sozinho.

As linhas na areia continuavam a se desenhar, e Caesar precisava partir. Acordou seus criados e partiu, sem conseguir se despedir honrosamente do imperador e do professor.

No caminho de volta, uma sensação estranha pairava. Era uma mistura de bastante coisa. Eram cenas que vinham desde a preparação do ritual, desde os trovões guarnecidos, desde as bebidas, desde o pseudo-traidor, até os errantes que se amontoavam para ver o rosto de Caesar. Não sabia o que tinha de tão ímpar, mas atraía aquela gente. Eles não pediam dinheiro, só queriam apertar-lhe a mão.

Mas a sensação ia além disso tudo. Caesar sentia que havia alguém com ele, pacificamente. Alguém que o observava, de alguma forma, em algum lugar, talvez dentro de alguma das construções que se faziam ao horizonte.

O conhecimento provavelmente se diluiria com o fluido etéreo da Estrela da Manhã após algum sono, mas era pra ser assim.

Havia uma natureza que se desprendia em escalas que não podem ser vistas. Os números, os pentagramas. Tudo seguia uma ordem de beleza embriagante.

Houve algo notável aquela noite, e Caesar haveria, um dia, de descobrir o que tinha sido.

Fly With Me

XX – Non-Linear Dynamics

Se todo lugar é idêntico, não posso perceber que estou andando. Se a luz em nada reflete, não posso enxergá-la. Nenhum de seus espectros.

Não havia espaço, não havia tempo. Até que esbarrei em algo.

Talvez fosse outra parede, quem sou eu para provar ou desaprovar universalmente que esbarrei em uma das paredes do universo…

Ao esbarrar aleatoriamente, perturbei um complexo sistema vazio que jazia em equilíbrio. Aliás, “simples” e “complexo” são conceitos demasiadamente próximos.

A segunda noção de “realidade” que tive foi sentir algo que pulsava dentro de mim. Como um tipo de rio quente, senti, próximo a isso, algo preencher por dentro de onde eu percebia tudo. Era um fluido quente que fluía conforme as pulsações que vinham de sei lá onde. De onde quer que fosse, era por dentro. Tomei essas pulsações para medir quantos pulsos conseguiria eu sentir a tal realidade.

Parecia, num dado momento, que tudo o que havia entre mim e as paredes tinha sido moldado segundo princípios aleatoriamente organizados para que eu pudesse contemplar tudo aquilo no momento certo. Vou chamar tudo isso que há entre mim e a parede de “Universo”. O Universo foi moldado para ser contemplado por algo que é regido por pulsos, e por pulsos consegue sempre lembrar que está vivo… O que quer que signifique esse conceito.

Também qualquer que seja esse relógio de pulso, ele funciona em constante desequilíbrio. Se houvesse o chamado equilíbrio, o fluido quente não precisaria correr de fora para dentro do relógio, eu não precisaria perceber que há algo entre mim e as paredes, não poderia sequer ter criado o conceito de Universo.

Não consigo recordar o exato momento em que esbarrei na parede; mas, por outro lado, consigo me lembrar claramente de tudo desde então. Como se a invariação temporal, num instante, tivesse sido quebrada feito uma taça de cristal deixada ao chão e pisada por descuido.

A diferença é que, ao esbarrar na parede, não havia com quem compartilhar a descoberta ou os cacos de cristal.

Também, desde que esbarrei na parede, veio-me uma idéia de que, enquanto eu pudesse andar por caminhos ligeiramente diferentes uns dos outros, haveria então uma possibilidade de infinitas realidades escondidas, distorcendo-se à minha frente, invisíveis, esperando cada decisão randômica.

Tudo parecia muito igual e houve a quebra de simetria. E eu me senti culpado, também. Mas sem a quebra de simetria, jamais perceberia isso tudo. Apesar de ter desconfigurado e ter deixado o sistema todo mergulhado em caos, por algum motivo não consigo imaginar como seria se o sistema permanecesse em equilíbrio.

Obviamente existem mensagens subliminares. Agora, por exemplo, eu posso escrever claramente que não fui o único responsável por quebrar a tal “matriz”. Também posso escrever que a sensação de que existe algo e que eu faço parte ativamente do sistema é a melhor que pode existir.

E nisso pode se fazer uma ponte intrigante: talvez outras das chamadas “dimensões” não possam ser vistas, ouvidas, cheiradas, lambidas ou tocadas. Talvez algumas delas só possam ser percebidas nesses sentidos quando são meramente projetadas. Por outro lado, isso não quer dizer necessariamente que não possamos experienciá-las em essência; só é tolice tentar alcançá-las enquanto presos em tudo o que estamos acostumados a ver.

Abraçar alguém às três da manhã, com frio, é uma projeção de algo que não pode ser explicado de acordo com o “real conveniente”. Mesmo sendo projeção, conseguimos sentir parte do calor que corre por dentro com o fluido, numa forma tão clara e compreensível quanto um quadro de Dali ou Picasso. Se olharmos bem de perto, também pode ser que o autor seja Monet.

Algo ainda me incomodava, no entanto. Sentia que estava, às vezes, como um inseto, rastejando, colado a alguma força que pisava sobre minha cabeça. Não era agradável. Um tempo desses, então, percebi que o que me cercava era mais denso.

Com alguma atitude que pareceu inata, subi algum pouco, contemplei, e voltei. Na segunda tentativa, realizei que eu podia voar!

Let me hold you inside this drawing,
As the snow rages outside the dirty window.
Let me hold you softly and warmly
Inside this place where nothing can harm us.

Let me awake you after midnight,
And show how time can melt by our hands.
Let me whisper to you something without sense,
Carried though by a river of meanings.

Sometimes the wall does not exist to deny us to see;
Sometimes it is misunderstood;
If there wasn’t any wall to stare,

Maybe we would be eternally lost,

Without a space to step.

I wish I could freeze the time,
But it would freeze our heartbeats, too.

So I walk on the edge,
‘cause I know there will be another snowy night,
Another chance to feel the warmth of being alive.
Fly with me.

Tr-Wx

Outra vez eu pensei. E abri meus olhos outra vez, para o mesmo começo, para o mesmo fim. As portas abriam e fechavam, contraíam, pulsavam, distorciam; vento. Folhas insaturadas voando por todos os lados, uma brisa um tanto quanto forte, e parecia-me agradável naquele momento.

Não conseguia ver o Sol, não podia imaginar que horário era, parecia seis da manhã, o céu cinza, mas eu sentia falta daquela coloração laranja, avermelhada, qualquer coisa assim, acima de mim. Era cinza, como todos os outros dias.

Mas eu não sabia que horas eram.

Longe, horizonte.

Eu tinha de ir até lá.

Rachaduras enraizando-se, não sei como achar versos para isso. Eram raízes de concreto. Subindo e descendo pela avenida vazia. Abaixo do céu cinza.

E parecia se distorcer ainda mais enquanto eu me aproximava. Eu não tinha o ponto. Eu tinha apenas a certeza. Eu era o único ali, aquilo era para mim, só para mim. Pra mais ninguém.

Trigonoreason, por J. Guilherme #LRadiantes tempestades, diria eu.
Parecia mais uma tempestade solar.
E se contorcia e dançava, em compassos
Desconexos.

I

Por uns poucos milionésimos de segundo eu pude ver algumas cores. Antes só havia a escuridão, trevas supremas. E num instante inexplicável um quasar; um clarão. Tudo o que eu pensava saber era esquecido lá. Eram grãos de areia, todos formando Universos. Cintilava à minha frente. Cintilava aos meus olhos.

II

A janela estava entreaberta, eu queria olhar pra fora e não conseguia. Eu tinha medo de olhar para o espelho. A janela era o espelho. Eu não podia.

-

(…) Preferi ir andando, e não correndo. A brisa gélida contrastava com aquelas cores que saltavam da artéria. Era sangue, mas não líquido.
Era uma equação absurda, um sistema absurdo, tudo parecia absurdo, totalmente absurdo. Eu estava dormindo, aquilo era irreal.
E a cada segundo a artéria ficava mais próxima, jorrando seu sangue lúcido para as atmosferas de seja lá o que exista. (…)

-

III

Por que tão longe, eu pensava. Era uma distância perturbadora. Doía mais que as agulhas. Doía mais que os tiros e os estigmas. Era muito longe, embora eu soubesse que reclamar era uma das minhas especialidades, enquanto resolver não era um dos meus dons. Eu preferia reclamar.

Mas era muito longe para eu pensar em me contradizer logo ali. Eu precisava repetir. Não contradizer. Ninguém parecia ler.

Eu sentia que ninguém lia.

-

(…)

Numa noite dessas,
quando você já não vê suas mãos e braços,
quando o escuro ronda todo o seu corpo,
quando os campos de morangos dormem.
Então o que atormenta não é o barulho do trovão fora do quarto.
Mas dentro.
Suas histórias são histórias.
Suas verdades são mentiras.
Qual seu mundo, afinal?

(…)

-

IV

As vozes. Outra vez e outra vez. E faltava-me imagem cicatriz.

Cicatriz; pelo menos era o que me vinha à cabeça. A artéria, até então aberta, cicatrizara. E eu sequer cheguei a tocá-la. Por baixo do asfalto só mais asfalto podre e velho. Sem artérias, sem vazios, o asfalto.

Um escolhido, diria Sereno, deve saber o momento de encerrar sua jornada. Herman completaria, incansável, dizendo o quanto a Lua parece ter ficado monótona para quem não consegue mais vê-la quando ela está cheia brilhando no céu.

Não.

Grand finale, ouvia. E então acordei. E vi acima de mim o céu. Bem como estava até ontem.

Ela se veste de preto, todos os dias no mesmo horário. E eu vejo o brilho de seus olhos, ela nem se lembrava de mim ontem, mas eu também nem sabia o nome dela.

Eu dizia todas as futilidades, e os olhos dela jamais deixavam de brilhar para mim. Era uma orquestra sinfônica muda, também não precisava de notas, oitavas, afinações, eu criei tudo aquilo, e essa era uma das minhas criações mais belas e inspiradoras.

Era um brilho que não consigo descrever sem ficar com os olhos um pouco marejados. Eu sei que ela vai voltar hoje, no mesmo lugar, com os mesmos olhos para meu Mundo. E mesmo assim, tão longe.

Pareciam quilômetros, mas se eu estendesse minha mão eu a alcançaria. Além de qualquer partitura, além de qualquer parágrafo, qualquer pesar, ela não existia.

-

Um lago. Um dia…

A Narrativa [Quarto Ato]

Você está longe de ser única, mas você ainda parece imaculada;
Mundanamente exótica, como a cozinha francesa…

-

A Arte do Esquecimento.

Estive mexendo com freqüências hoje, estou com um pouco de dor de cabeça… Algumas freqüências parecem penetrar fundo na massa. Incomoda. Mas, além dessas freqüências eletromagnéticas e mecânicas, experimentei um pouco outros tipos de freqüência, sociais, diria eu. Velhos arquivos, velhas palavras de três ou quatro meses. Parece tanto tempo, não?

De fato, as palavras ficam velhas, e tudo parece muito bonito. Mesmo tendo algo muito errado. Memória fraca?

IV- Muzyka

Tan Pinga Ra Tan, por J. Guilherme #L

Você chega a sua casa depois de outro dia frustrado e sofrido. Acomoda-se na cama, liga o rádio ou abre o programa, põe uma música do seu agrado, dependendo do dia. Então apaga a luz e em poucos segundos começa a viajar para cada vez mais fundo em seu pensamento. Revitalização.
São apenas ondas…
Talvez algumas leituras de péssima qualidade estejam salvas em algum diretório oculto de minha cabeça, fazendo-me querer ver correlações perigosas entre ondas, existência e fluxos de algum tipo. Aquelas teorias ímpares sobre sermos todos formados por ondas em nossa essência, o poder de atravessar paredes e tempos apenas mudando a freqüência dos nossos átomos, alguns de vocês podem ter lido sobre isto também.
Na teoria, tudo complexo com fórmulas e mais fórmulas, letras gregas estranhas, fatos, provas, regras e exceções. Mas no momento em que estamos enfermos, moribundos, e ouvimos alguma música que nos cause aquele efeito épico de um novo respirar, novo olhar, novo ânimo, nesses momentos quase nenhum de nós pensa nas fórmulas, nas lambidas de farofa que dizem que velocidade é igual a lambda vezes freqüência, nada disso.
Apenas deitamos, ouvimos, melhoramos.
Um fluxo natural, uma corrente, um elo perdido entre o compreender e o acontecer.
Música.

Realize. Caro viajante, faça real. Tão real quanto essa mensagem subliminar. Até mais real que isso. Cassino. Quatro meses e parece até que foi ontem. Incrível o poder desses chips. É sempre bom ouvir essas miragens sinusoidais, sinto-me em casa. Sinto-me perto de casa, e ao mesmo tempo perto de onde estou e perto de mim também. São apenas miragens, mas quem se importa?

De fato, a música lá era ruim. Não tinha muita gente, palco caindo aos pedaços, evento um tanto quanto mórbido. Eu ali, na frente do palco, olhando uns três músicos que tocavam de forma sofrida, forçada, sem animação, velhas novas músicas de festas. E eu sem esperanças de ter alguma noite excitante.
Mas os ventos outra vez sopraram em meus ouvidos, e eu a vi vindo até mim, vestida toda de vermelho, cabelos loiros e encaracolados, sotaque estrangeiro, sotaque francês. Talvez ela fosse mesmo da França, pois eu tinha que conversar com ela em outro idioma, uma vez que ela não entendia o meu. Mas ela disse também estar entediada com a música, queria dançar com alguém. Então a puxei para perto de mim.
Nossos corpos colados, nossas mãos entrelaçadas, o vestido vermelho dela, nossos olhos e tudo mais… A música agora não parecia tão monótona.
Porque eu não estava ouvindo sozinho.
Nem ela.

Estou meio preocupado, a qualquer momento a energia pode cair, graças a todo o esquema que armei aqui em minha chegada para poder ter energia. Mas aí veio a chuva. Sim, a chuva chegou! Depois de tanta espera… Primeiro um chuvisco, agora chove e respingam gotas na janela quebrada. Som calmante depois de tantos ruídos e freqüências em vão.

Contemplem, viajantes! Este texto que transcrevi foi o último dos manuscritos que achei próximo ao hospital abandonado. Há muitos outros manuscritos que achei esses dias, mas, bem, isso fica para um próximo contato. Se eu não me esquecer.

Grato!

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…Fazendo pequenos sons enquanto minha agulha encontra sua trilha…

Feliz Conceito Novo

“Eu sou o Passageiro… Eu rodo sem parar…”

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Certo, meus caros. Certo.

Então cá estamos nós, fitando tenramente a nova eternidade que se aconchega mais e mais.

Apesar das ruas abandonadas e de todo o cinza, ainda essa noite parece menos dolorosa que as outras. Conhecemos amigos.

Uma nova jornada, um novo tempo; trezentas e sessenta e cinco chances de errar e aprender de novo. trezentos e sessenta e cinco compassos alternados. Não é uma regra seguir o padrão 16/24 repetindo sete vezes o refrão e sem solo. Não!

Eu não sei bem o que escrever por aqui, da janela de onde estou vejo apenas uma cidade vazia, mas eu sei que vocês estão aí em algum lugar. Vocês estão comigo, não importa quão longe, não importa como. Vocês estão aí.

Apesar de pouco nos lembrarmos uns dos outros durante toda a caminhada, é certo que existe algo inexplicável que nos une e nos conforta nos momentos de crise. Uma lágrima nunca é em vão.

E quanto ao conceito de Ano Novo… Conceitozinho estranho esse.

Um Ano Novo começa sempre que nós mudamos dentro de nós, no profundo de nossos pensamentos, quando evoluímos, por assim dizer. Um Ano Novo não precisa ser comemorado só entre hoje e amanhã. Somos todos um turbilhão de galáxias prósperas num céu calmo. Numa noite gelada. Sendo observados por essas pequenas pessoas que se deitam na grama e contam estrelas. Embora muito pequenas, elas também existem. Você sabe disso também, meu caro.

Não poderia deixar essa jornada terminar sem compartilhar um pouco do que me confortou no tempo em que estive com medo de explorar toda essa cidade perdida, sem ninguém para contar boas piadas durante a madrugada ou simplesmente conversar sobre a vida.

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Pain of Salvation – Martius/Nauticus II

“Estou na fronteira – Eu vejo tudo.
Agora eu sou Nauticus
e muito mais.
Sou tudo o que vocês conhecem.

Estou na fronteira – exatamente na fronteira.
Uma eternidade num piscar de olhos,
Neste lugar chamado tempo.
Eu sou todas as coisas.
Eu sou todo os lugares.
Eu sou todos.
Ômni.
“SER”

Nauticus II

Eu sinto todas as montanhas,
Eu ouço todas as árvores,
Eu conheço todos os oceanos,
Eu provo de todos os mares(…)

Eu vejo toda primavera chegar,
Eu vejo todo verão prosperar,
Eu vejo todo outono prosseguir,
Eu vejo todo inverno dormir(…)

Pois eu sou toda floresta,
Eu sou toda árvore,
Eu sou tudo.
Eu sou você e eu.
Eu sou todo oceano,
Eu sou todo mar,
Eu sou todo “SER” que respira”.

-

Então, pra vocês, sombras que eu vejo ao horizonte distante e tão perto, não poderia dizer outra coisa.

Felizes Anos Novos. E que você tenha muitos anos novos nesse próximo ano.

Grato!

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“Gostaria de agradecer em nome de todo o pessoal artístico, programadores de imagem e som, roteiristas, enfim, toda a equipe técnica que cooperou conosco por todo este ano que aqui se encerra. E também gostaria de pedir-lhes que continuem nos acompanhando… Ao menos um ano mais.”

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