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O Conto do Milênio – Capítulo 8: Janta

O que você ta olhando? – Perguntei a ela antes das sete da noite. Ela soluçava, chorava, gritava, implorava, mas não respondia. O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando?

Ela chegou e eu tava me divertindo com outra, espirrando inseticida naquela rósea rubra terminação retal dilacerada por um pedaço de corrimão que enfiei até rasgar aquele corpo apertado e recém adulto. Ela pedia pra enfiar até o final, ate arrebentar a garganta. Ela adorava a dor e ver aquela poça de sangue podre no chão.

Vez em quando ela se contorcia, lambuzava a mão no sangue e na privada e comia e vomitava e comia e vomitava. Era uma vaca, mas em vez de leite dava sangue, e gritava, pedindo para ser possuída e destruída.

Além de enfiar o corrimão, eu batia naquela cabeça burra com meu punho; ela delirava, gemia, pedia mais.

Quase no orgasmo, ela implorou pelo veneno. Peguei a lata vermelha e comecei a espirrar como fosse perfume por aquele lixo que se tornou o banheiro. Espirrava em tudo; reto, boca, perna, cabelo, olhos, nariz. Ela pedia aos poucos todos os movimentos do corpo, mas sentia eu, no fundo de minha sinceridade, que ela tava pedindo mais.

Há quem não se contente com a dor interrompida e a quase morte. Há quem busque o lado obscuro da existência, e de lá não queira sair. Quando vai pra luz, faz questão de dizer como é o outro lado e o que fez pra sair de lá. É uma abelha vinda do pedaço sujo do mundo.

Aí a outra chegou, com suas sacolas de compras, suas cestas, seus brilhos e me viu, seu marido tão estimado e tão honesto, numa orgia com uma prostituta qualquer, cheia de rasgos, vermes, ferros, veneno e fita isolante tampando as narinas. Tão prateadas…

O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando?

Ela ria tanto, e agora só chorava e se retorcia no canto do banheiro. Onde quer que tocasse havia sangue misturado com água suja, suco de infecção, veneno, gasolina.

A puta lentamente ia pro seu destino de orgasmo doloroso.

A janta ta pronta, Seu Marcos.

- Marko Greschwin IV; Prypiat : 1908

Página Dezenove

Eis que procurei dentre meus livros e não achei; ainda não posso olhar diretamente para as folhas em que faço as traduções. Não são palavras só minhas, e são, ao mesmo tempo, as mais sinceras que me saem. De qualquer forma, sei que ao escrever não sou só eu. É mais gente, e mais gente, e mais…

E tanta gente se manifesta agora na forma de uma só outra. Meu rosto arde, mesmo que seja só eu e o papel e a Lua que se esconde por trás do concreto e das grades de aço.

Eu que rastejo ainda não consigo fixar meus olhos por muito tempo em belos outros sem sentir a lareira se aconchegando cada vez mais quente.

O céu me prende em sua ilusão real; eu, ébrio, apenas escrevo.

Das páginas, separei uma.

Não havia contas, nem enunciados. Não havia algo matematicamente coerente, mas era a página que devia ser. Nela um texto que sequer conseguia passar da metade. Muito, perto de minha imaginação tempestuosa, que mal consegue escrever uma frase completa quando pensa demais em quão fantástico são os contos que aparecem por acaso numa praça abandonada por onde ainda insisto em criar formas e octaedros e cores com minha incerteza.

Faz quanto tempo? Um mês? Mais? Menos? Tanto faz o tempo, afinal.

Olho para o relógio, uma vez, contra minha vontade, e descubro que há poucos ciclos de radiação pra tanta tarde. Uma tarde onde o céu é extremamente azul – e mesmo o céu cinza é mais vívido que o nublado comum; o vento é agradável – mesmo o mais árido; e as outras cores, e as formas desfocadas, e tudo.

Sempre há muita tarde pra pouco tempo.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Bebi a bebida das décadas e descobri ser das mais alucinógenas. Era como café, tinha cheiro de café, tinha gosto de café… Até cheguei a acreditar que poderia ter sido café, mas então pensei melhor e postulei que de fato era algo muito mais transcendental. Havia bebido tantas vezes e ficado acordado tantas noites… Por onde havia eu me esquecido de adentrar à porta?

Em poucos segundos vi o vento arrastando os prédios e me colocando num deserto gigantesco, dentre velhas casas, a contemplar, bem onde a linha do abismo encontra o céu, um gigantesco castelo, cheio de passagens secretas, e livros, e bibliotecas, e tecnologias não desvendadas, e túneis, e salões…

Começou a chover.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Ao ler as memórias daquele que precisava ser transcrito, percebi o cheiro sendo entoado pelo caos. Era chuva, e era da mais pura que há eras não adentrava o edifício que tomei por base nos últimos meses. Do lado de fora não havia mais Sol, nem Lua. O céu era uma gigantesca nuvem escura. Cá dentro apenas meus transmissores, minhas válvulas, minha eletricidade que emergiu do éter como fosse conduzida numa sinfonia. A natureza é os instrumentos. Apesar dos bulbos, acendi uma vela.

Tentei, num segundo de delírio e inocência, encostar meus lábios nos da chuva que repentinamente se formara na cidadela, mas ela era mais sinusoidal que meus artifícios, e fingia fugir mesmo já estando tão cheia de poeira minha como eu estava d’água dela.

Percebi não ser uma fuga, afinal – era uma dança. A chuva ali estava, com suas formas abstratas e sedutoras, me chamando para a dança das décadas… E fazia um bom tempo que eu procurava tão digna companhia.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

Minhas imagens sempre são dos pássaros por cima do âmbar, contornando, riscando, como fossem arranha-céus em outras dimensões que não as horizonte-verticais. Um modo novo de descrever tudo, enquanto repousam; fossem notas musicais numa partitura de entrelaces elétricos, ao arrastar das vozes criptografadas. Quando entrei no cheiro da chuva, entretanto, não eram os pássaros que fluíam com os elétrons. Quem voava era eu.

As gotas persistiam, curvilíneas. O céu, mesmo cinza, continuava mais cheio de cores que o comum – parecia que, desta vez, não era só um cinza por cima de outro, mas um cinza pintado sobre o azul radiante do universo, com a mesma intensidade do Sol que marcava os pontos de encontro das civilizações passadas. O sistema solar, inteiro. E tudo parecia pouco perto da existência e da dança e da música.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

É muito além de uma página. O horizonte é como se estivesse cheio de segredos prontos para serem descobertos ao se despir lentamente a realidade. O tecido fino e suave, pronto pra ser rasgado sutilmente, num momento inesperado.

Antes que eu pudesse escrever qualquer esboço de palavra, os rios elétricos que vinham do céu fizeram os círculos e marcaram com anagramas todos os blocos de pedra e todos os casebres.

Depois que as décadas se amontoaram e se mostraram e se escorreram, vi uma silhueta emergindo em meio à chuva, e tentei agarrá-la.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. III, excerto.

Todas as décadas colidem dentro da garrafa das improbabilidades – a bebida mais forte; um mar de infinitos, série tão complexa e não-linear que as próprias bases da matemática se renderiam e se curvariam perante a dança das folhas.

O fogo, agora azulado, se curva por dentro de um dos pedaços de titânio, e marca o tempo da madrugada.

Um respingo atinge meu braço.

Scientia, PT. I

Procuro não incomodar. Alguém há de ler, mas que não tenha pressa. A cidade ainda se ergue, para depois desmoronar, como sempre ocorre. Aqueles pilares além da janela também hão de cair, e, com eles, toda e qualquer vida há de mudar para bem longe. Existe a necessidade por mostrar tudo, mesmo sabendo das conseqüências. Todos são personagens, e, em minhas roupas sujas e minhas máscaras protetoras, não o deixo de ser, contanto que receba meus brioches mofados ao fim do mês.

Num dado momento, pouco importa a ideologia. Pouco importa o que está errado. O ser humano precisa saciar sua fome, e quase sempre percebe antes a fome do estômago, e não as outras. E se contenta com os brioches mofados depois de trinta dias de quase morte assistida e aplaudida por mãos que bebem as bebidas nobres.

O champanhe – há quem diga, há bastante tempo, por sinal, que é necessário em derrotas. Cria-se uma imagem mental de bravos soldados derrotados no campo de batalha, porém ainda bastante honrados, abrindo sofregamente a última das garrafas douradas, levantando-a tal qual estandarte, e apreciando a doçura das bolhas curando as feridas abertas da alma. Quase se consegue imaginar chapéus bem arrumados em seus cabelos penteados, os quais combinam, por vez, com os ternos bem passados.

Esquece-se da humanidade do ser, esquece-se da sede e da fome, esquece-se de como é perder e ter feridas abertas em meio a um nada que parece o universo todo. Esquece-se quando não se chega perto da fumaça e das munições queimadas. Esquece-se quando se observa de longe.

Do alto de um castelo longínquo, após a guerra, a planície continua planície. Os buracos são como as distantes manchas do Sol. Os soldados que rastejam por sobrevivência não perdem classe e a honra sempre é lembrada e homenageada com hinos e divindades.

Não sou eu quem pode dizer sobre como o soldado abre a garrafa e a bebe. Não sou eu quem pode dizer sobre o que ele pensa ao olhar para os lados e para aquém da terra rubra e úmida. Eu me contento com os brioches mofados, pois é tudo o que pareço merecer com minha quase morte de trinta dias.

Também, ressalto, não posso afirmar que é, de fato, tudo o que mereço.

Mas os dias parecem menos sórdidos e amargos quando se tem símbolos. Símbolos ajudam a esconder as dores, ao mesmo passo que talvez possam se tornar algo que traga menos aflição a alguém de algum lugar em algum tempo, o qual não precisa ser imediato.

Pode parecer que a máscara e a roupa pesada de chumbo me isolem do universo, mas estou sujeito às mesmas entropias e às mesmas leis. Não existem monstros tão audaciosos a ponto de mexer com reatores, ainda. Talvez num lugar distante de outros conglomerados mais sábios, mas não aqui. Não sei o rosto deles outros que compartilham dos brioches mofados comigo, mas sinto que não são computadores.

Computadores não têm o dom do medo – não é possível ameaçá-los com o roubo da própria vida, a fim de tirá-los mais que podem fornecer. Com seres monstruosos que comem brioches fica mais fácil. E assim é feito, e assim são as leis do que há nesses prédios cinzentos.

É nossa casa, mesmo que não saibamos sobre a existência mútua depois das jornadas incertas sobre o fio tênue que nos prende acima de nosso último jogo de xadrez. Só temos o brioche ao fim do mês, por que reclamar até deles?

Eu sei da existência de todos que vejo pela janela. É distante, confesso, mas os vejo como indivíduos que, por algum motivo desconhecido, merecem todo o serviço que nos prestamos a oferecer com nosso sacrifício. Não sinto raiva nem inveja, por mais estranho que possa parecer vindo de um monstro enclausurado em armaduras amareladas, sem dignidade suficiente para mostrar os próprios olhos.

Acontece que, mostrar os olhos, durante as horas que vão antes da Lua a depois do Sol, aceleraria o jogo de xadrez – não que seja o fim de toda a existência, mas precisamos estar acordados noutro dia para continuar a aproximar os hemisférios.

Sinto que tudo irá desmoronar, e que não são todos que estão preparados de fato para o que há de acontecer. Não digo de falácias psicológicas, mas sim de prédios desmoronando sobre a avenida principal. Um grande tremor, uma radiação violenta tomando conta de todas as tubulações, e haverá, talvez, quem compare o incidente a algo de Sodoma.

Mas não é Sodoma. As pessoas que vejo à janela são dignas e inocentes, assim como somos nós, os sem rostos.

Meus símbolos haverão de trazer algum raio não letal a alguém, algum dia, como a luz traz vontade de respirar a um cego, todos os dias, mesmo que ele não a possa enxergar.

 - 1901, E. Vrlängisad, et al.

Chuva e Trovões na Praça do Julgamento

Chovia e trovejava.

Naquela noite obscura, entrei na espiral de minha própria vergonha. A praça parecia uma floresta fechada e cheia de criaturas sombrias, cinzas, verdes e pretas. O verde era bem escuro, cada banco estava úmido e cheio de folhas. Eu estava sendo observado, mas não via por quem. Nem sabia por que alguém se daria ao trabalho.

Deitei num dos bancos e percebi, lentamente, formar-se à minha esquerda uma casa, como que erguida do meio da relva molhada, por vigas que não sei de onde surgiram. Maciça, branca e velha. Estava lá há eras, mas estive ocupado todo esse tempo a ponto de não vê-la.

Assim foi, inclusive, como aquela moça que passara ao meu lado na feira. Procurei-a por toda a vida, e, concentrado em achá-la, deixei de vê-la quando passou ao lado, com suas sacolas e seu vestido vermelho.

Era sublime pensar em sua voz. Arrepiava-me além de todas as percepções que impus a mim mesmo sobre o que é a vida em si. Além da voz tinha um cheiro ímpar, bastante doce, enjoativo para alguns, mas não para mim.

Sabia sobre o que conversar, e dominava as linguagens perdidas dos monges do oriente, e desenhava a própria imaginação em traços inocentes que acabaram por pintar todas as cores que faziam falta no meu mundo monocromático.

Claro que ela não sabia disso. E eu também não sabia como eram bonitas as cores antes de derramar solvente sobre minha própria barriga, acidentalmente.

É provável que as cores jamais voltem, e os desenhos inocentes tão pouco. Agora o que se fazia sobre a parede do meu quarto era, senão, quadros impressionistas, distorcidos, como um conceito tão obscuro que resolveu se curvar, tal qual ferrugem, sobre o substrato da minha dor.

E ela também carregava cestas, e vivia em campos, embora eu saiba que não se tratava da Arcádia outra vez. Era parecido, mas como se a Arcádia fosse real, menos idealizada, em termos, e menos exagerada. Tão palpável e tão angustiantemente real…

A cada dia eu olhava os desenhos retorcidos e decidia que iria achá-la em qualquer feira de qualquer antigo feudo de qualquer lugar entre os mares e as luas. Qualquer que fosse a montanha, se ela estivesse lá, eu iria procurá-la.

O tempo chega a ser como uma refeição. Mal percebia que já havia se passado mais de dois ou três anos desde que decidi que ela existia. A barba já era sobressalente em minha face, assim como cabelo estava mais assustado por tudo que havia já presenciado, e as roupas, e os rádios, tudo. Era uma enganação e uma perdição, e eu sabia.

Embora árduo e lambendo as margens da impossibilidade, eu ainda acreditava, e olhava para cada nova rua abandonada esperançoso por achá-la jogada, desolada, com lágrimas secas decorando, como maquiagem, a pálida e temerosa face, esperando só por mim, o único que iria confortá-la naquele mundo de sombras e radiação acima dos níveis tolerados por qualquer ser que vive.

Hei de achá-la.

- Q.E.D.; PRYPIAT, STNK, VDL, RVNB, 191781:4812.

Mas a casa parecia vazia. As janelas estavam fechadas, escuras. A fachada, branca, já mostrava as marcas do tempo. Parecia algum tipo de catedral, mas duvido que algum tipo de santidade iria gostar de passar por ali as noites, naquela chuva. Quem sou eu, entretanto, para falar com tal autoridade sobre santidades… Sou só um pecador.

Não era uma chuva calma.

Cada trovão caía três vezes ao mesmo lugar, e todos eles pareciam muito próximos de onde eu estava. Astuto, escolhi como refúgio um lugar seguro numa tempestade, sob a copa de árvores.

É como se cada um dos relâmpagos tentasse me alertar de onde eu estava, e que não era sensato estar ali por tanto tempo. Mas esqueci-me da linguagem dos raios e continuei andando, em minha embriaguês, até a porta velha da casa velha.

Ninguém respondia às batidas. A porta rangia, mas não era por vida, e sim por velhice. Talvez não houvesse ninguém mesmo, com exceção daquela que com certeza estaria. Eu não queria vê-la, e ela não queria me ver.

Entrei à casa mesmo assim e vi como ela parecia pequena, embora gigantesca, por fora, a partir do momento que olhei por dentro.

Os galhos e a relva úmida de fora estavam presentes nos corredores abandonados de dentro. Uma leve luz, talvez de postes, clareava um pouco cada canto, e eu podia ver, embora não muito, como era o local.

Tudo parecia maior e exagerado. Havia quartos que eram tão grandes quanto casas inteiras; vazios, esperando por alguém a habitá-los, preparados para aqueles que viriam depois, e todos eles pareciam ter se perdido num caminho escuro, rotativo, de pensamentos circulares e estradas de barro em beiras de rios flamejantes do próprio medo de respirar.

A cozinha parecia familiar – facas jogadas ao chão, marcadas, manchadas, um rubro apagado e seco que ou era de tomates ou de sangue, tanto faz. Apesar das lâminas, não pareciam pertencer a uma assassina, mas sim a alguém que, mergulhado na piscina do desespero, acabou por se cortar todas as noites para se lembrar de que a dor física também existia. Armários de madeira, rotos, apodrecendo perto da escadaria que levava para baixo de um térreo que se encontrava no terceiro andar.

Continuei a andar e percebi as texturas do chão, e, como de costume, aconcheguei-me cada vez mais ao calor do chão gélido e sujo de piso quebradiço com cheiro de incensos de cemitério. As serenatas estavam gravadas, uma por uma, nos buracos que se revelavam, como lepra, ao longo dos corredores.

Havia um quarto com chão e paredes azuis, menos abarrotado e menos sujo. Ninguém estava por lá, tão pouco. Apesar disso, parecia estar esperando ainda mais ansiosamente por algum morador único, mas não havia ninguém. Eras e eras de espera, e ninguém viria.

Ninguém poderia vir.

Além da lepra da madeira, também havia outros buracos cavados, quadrados, no chão. Eram como gavetas, e provavelmente se tratavam de algum tipo de coleção de cofres num lugar tão comum que jamais despertaria qualquer suspeita por esconder valiosos papéis e jóias.

A cada trovejada, toda a casa infinita se iluminava, e a realidade parecia fluida – era como se o ar fosse mais denso, e eu pudesse ver cada distorção; parecia um tipo de camaleão que me grudara aos olhos – não os que vêem, mas os que percebem. Talvez, também, fosse algum tipo de bolha que criei em volta de minhas concepções, a fim de conservá-las. E me afogava, sem perceber, nas próprias águas serenas da realidade.

Uma sala escura, com bancos longilíneos de madeira. Também parecia ser local de muita e muita gente, mas só podia ver um vulto. Era um tipo de mulher, cabelo curto e loiro, magra, e a escuridão refletia o gosto de cada palavra que de sua boca ousava sair, ou ao menos que parecia sair de lá. Ela também esperava desde eras, e ninguém vinha – ao contrário dos outros, ela também sabia que ninguém haveria de vir, e que a casa fora construída por tanto tempo e sob prumo de tantas expectativas que jamais alguém teria coragem de se deitar num daqueles quartos tão majestosos destinados a pessoas tão comuns.

Na casa, o tempo parava. Trovejava, ainda, e a chuva continuava séria e tempestuosa. Não havia aquela que estava dizendo, assim como não havia ninguém na casa além de mim, e penso, inclusive, se havia mesmo casa, ou se fazia tudo parte de um cenário proposto por minha loucura, num provável momento em que caí no sono ao meio daquela praça radioativa cheia de árvores perigosas.

Podia ser, também, que os trovões eram meus. Não há quem possa provar que eu não estava pagando por meus crimes numa condenação elétrica, e que até a cidade era uma ilusão criada para mostrar minha própria jornada até aquela cadeira de madeira e ferro, até aqueles circuitos, fios desencapados, faíscas e aquele ser cinza, encapuzado, que, como carrasco, acionava a alavanca e fazia o tempo passar infinitamente devagar enquanto eu caminhava até o final do túnel, arrependido.

A condenação era um templo frio, como aquela casa, onde eu devia aprender as orações certas para expulsar os demônios que pudessem aparecer na forma de cães, porcos ou barulhos – não só em mim, como em todos os outros ventos. Os espetos do mar de brasa já tocavam meus braços, e eu deveria continuar descendo pela espiral e confrontar a forma mais crua de castigo, sem deixar de acreditar que há um final justo.

Um gosto do último gole de vodka voltou em minha garganta, e senti certo alívio. Era como se estivesse sendo abraçado por aquela moça que perdi na feira, vestida de vermelho, que esperava só por mim. Podia sentir seu gosto no gole já bebido de vodka, e, assim como a garrafa, só ela poderia me deixar tão ébrio.

Queria, antes de beber a garrafa, bebê-la em vermelho. Sempre gostei mais de vinho que de vodka, afinal.

É triste que só a vodka sobreviva a condições tão extremas de castigo.

A casa começa a se diluir, assim como minhas ilusões. Os quartos ventam por dentro, mesmo com janelas fechadas – sequer pude ver alguma delas, do lado de dentro. O sentimento de decepção e desapontamento paira sobre cada canto da casa, e, mesmo sem saber o porquê, eu sou um dos culpados. Também não sei culpado de quê. Não posso saber – só aceitar.

Uma multidão precisava de lar, mas a cidade já não podia abrigar ninguém além de mim. Até podia, em verdade, mas não havia ninguém com tamanho desapego às coisas boas a ponto de se contentar com vodka e pedaços velhos de civilização congelada e restos orgânicos.

Era a trinta ou quarenta minutos da rodoviária, e para lá eu deveria voltar e procurar em outros cantos do esgoto.

Lentamente eu fechei e abri os olhos, e não havia mais casa. Era eu, a relva por cima de mim e um cheiro deveras agradável de vestido vermelho.

Pensei ter visto um vulto, mas era só o vento em meu cabelo.

Incident

Behold the glare that bolts from the midnight.
The insect crawls beneath your sleeping pale skin.
Third stanza can be as catastrophic as your lack of flux.

Inside the television, incidentally, something that should not be shown,
But there it is, cold, with its frozen numbers and its grayish-blue plasma rectangles in gradient.
An infinite invisible space after the cathodes; can be perfectly described as it is:

“A river squared root of deep blue fake water,
Rectangular walls without z-component.
Some are grey, some are also blue.
Before your eyes there are the three keys, too.”

The Red,
The Yellow,
The Blue;

Though there is no time to think, shall the fourth component never be empty.
What is to heard, despite the illusion – a loop of modulated voices
That won’t tell a single solitary word.

A kind of monster is expected, in agony – again there is nothing throughout the river;
Surrounded scene of serene hell translated as polygonal nightmares;
The Jew has been left alone to find the way out.

Charon has gone – So did the Angel.

VINCE, G. – At The Mean-Value Mountains, 1921.

Edge

Saudações, caros viajantes! Outra vez um atraso um tanto relevante desde nossa última comunicação, não? Bom, aqui está tudo muito úmido e, a cada dia, descubro novas galerias escondidas e símbolos e linguagens e mensagens e ciências!

De qualquer forma, consegui receber apenas algumas das mensagens que nobres criaturas tentaram enviar-me. É uma pena, no entanto, que o rapaz que se identificou como “chronic mood disorder that falls within the depression spectrum”, tenha errado. Os magos e tolos serão melhor abordados numa próxima comunicação (esses papesóides Voynich-like são realmente estranhos de se interpretar ou traduzir ou qualquer coisa do tipo).

Por hora, meus caros, deixarei um texto mal-traduzido que diz sobre as bordas ásperas, sobre raladores de queijo, muros psicodramáticos e peças teatrais envolvendo velhos conhecidos.

A Borda

Recheada, normal, vazia, tanto faz. Havia algo naquela noite que ainda me incomodava depois de tantos meses. Eu sabia exatamente o que era, mas não queria falar. Pra ninguém. Ninguém mesmo. Nenhum tipo de ser precisava saber daquilo, eu não precisava saber daquilo… Mas eu insistia em lembrar que sabia.

Não gosto, na verdade detesto amaldiçoar coisas, fatos, pessoas; mas é a única palavra que consegue definir razoavelmente o que sinto por tal memória: maldita (devo ressaltar que realmente não gosto dessa palavra…).

Vem, toda vez vem. E não some. Sempre volta. E eu não consigo falar pra ninguém. É angustiante. A imagem perfeita, apesar de todas as distorções, dentro de mim. Uma imagem de quando estive completamente fora. E assisti tudo.

Era como o pior pesadelo que pudesse haver. Mas não era um pesadelo. Era tudo verdade e estava exatamente à minha frente. Eu podia tocar, cheirar e ouvir.

Creio que fiquei tão chocado que não pude esboçar reações físicas convincentes. Eu queria levantar, dar uma ultima olhada, deixar que tudo o que houvesse dentro de mim fosse vomitado pelos meus olhos, como se toda a minha mente tivesse bebido demais a pior bebida que pode haver no mundo, qualquer misto de cachaça barata, veneno, insetos e restos… Talvez seja esse o gosto real do pesadelo, algo muito longe das visões romantizadas onde era um delicioso cálice amargo.

Talvez seja assim enquanto pesadelo.

Mas eu não podia. Aliás, podia. Mas eu definitivamente não podia. Mesmo podendo.

É estranho pensar com clareza quando a cabeça não funciona corretamente. Digo isso porque textos como esse, escritos à parede, só conseguem sair sob condições extremas, tanto física quanto psicologicamente. Extremo. Extremo. Extremo.

Há um preço a se pagar por tudo. Um dos preços cruéis que a realidade cobra é a de querer se sustentar sobre os próprios pés, fingir um equilíbrio, mesmo quando não se consegue enxergar o próprio palmo à frente de tanta embriaguez. E embriaguez, reforço, por bebidas ruins, baratas, podres.

É provável que algum pensador antigo conseguisse descrever melhor isso tudo, sinto falta de Aristóteles ou Homero (se é que ele existiu) ou qualquer outro que se vê nos livros medíocres. Tantas visões refutadas cientificamente, sob métodos minunciosamente planejados… Protesto. Não acredito em métodos minunciosamente planejados. O mundo é como o mundo pode ser. Não como sempre foi nem como sempre será.

Olhar pro céu é uma experiência fantástica.

Não vomitei quando deveria, mas escrever em paredes (mesmo que com pedaços de ferro que despertam aflição em pessoas mais sensatas) é um bom modo de se fazer isso. Espantar os demônios que habitam a cela, não deixá-los dormir. É o que eles deveriam fazer com você, afinal, mas os papéis se invertem e tudo o que eles almejam é voltar para o inferno e ter um sono tranqüilo.

Isso é bom, se for analisado. Tanto querem invadir a realidade que não suportam e voltam ao inferno. Vomitar é uma maneira de se manter no que é convencionado como “real”. É afastar maus fluidos, é ser mais vivo.

Não devemos ficar orgulhosos de como somos pequenos, mas sim por termos alguma coisa que nos faça ter consciência de que o somos. Contemplar a irrelevância é difícil.

Espero que os riscos nessas paredes fiquem suficientemente fundos; não sei quando mais alguém achará esse lugar, essa cela em que eu mesmo me tranquei e joguei fora a chave sem comida nem bebida.

Por aqui, se alguém de algum lugar está lendo, passou um ser que contemplou um pesadelo nunca imaginado tornando-se realidade, e realizou o caminho inverso das coisas: normalmente alguém tem um pesadelo antes. No entanto, eu tive depois. Várias e várias noites, até mesmo antes de dormir.

Espero, do fundo do que me resta a ser chamado de “sentimento”, que nenhum, nenhum de vocês passe por isso.

Não é bom.

Mas, se acontecer, não se deixe cegar. Aquilo que faz olhar para o céu todas as noites e esboçar uma sensação confortável não pode ser apagado por uma overdose de veneno. A diferença é o tamanho da dose, não?

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- Assinado como “D. Psi, o que mora na tempestade”.

Bom, à parte disso, mais algumas notas que esqueci de ressaltar: estou em busca de uma bússola para orientação; não uma grande e profissional, quero uma bússola pequena, barata e que possa ser guardada numa caixa pequena. Não é para mim, mas… Convenhamos que seja meio difícil achar uma loja aberta numa cidade que simplesmente não existe para o mundo.

Se algum de vocês, nobres almas, souberem como consigo uma, por favor, avisem; é parte importante de um novo sistema que estou a montar com válvulas de cobalto e tecnécio manufaturado a partir de ervilhas em conserva.

Também estou trabalhando (não tão arduamente, confesso com vergonha em meus olhos) na produção de um algoritmo mais eficiente para comunicação interoceanotemporal a partir dessas coisas cinzas.

Por hora, preciso ir, está um pouco tarde e estou ficando com fome. Preciso cavar mais um pouco de concreto e, quem sabe, achar latas de conserva com prazo de validade vencido há somente trinta décadas.

Até a vista!

Meteorologia

Apesar da chuva, o céu todo se limpou ontem e revelou sua parte menos fosca, a Lua refletia a Terra, e os caminhos pelas ruas não eram obscuros como a tarde dizia que seria. De fato, não tinha eu um caminho traçado para chegar aos lugares, ainda nem tenho. Mas com o céu limpo, ao menos me sentia como os antigos irmãos… Por baixo de uma Lua violeta, sem pesadelos e sem outras luzes da cidade, apenas a fogueira para se esquentar contra o vento das Highlands.

Estrelas, Lua, cumes, montanhas, tudo parecia conspirar para que meu caminho fosse traçado pelas exatas ruas onde eu devia passar. Assim feito, passei por todas as ruas e todas as construções.

Certo, caro viajante, o erro foi meu. Devia ter analisado informações sobre como o tempo se comportaria depois, nas entranhas da madrugada. Então teria visto que as nuvens encobririam a Lua, esta ficaria desfocada, e a partir daí tudo tenderia apenas a piorar para meus cabelos.

Em primeiro, olhava para o grande espelho e não conseguia enxergar minha face, uma nebulosa camada de fumaça se instalara sobre ele. Dos meus piores pesadelos, nenhum apareceu para me atormentar: apareceu outro.

Uma carta, num mapa, num desenho, e a folha de papel nem existia quando eu abria os olhos. Nem sei onde eu resolvi dormir devido a todo aquele sono, mas sinto que os restos de árvores e as gramíneas e os tijolos quebrados não se sentiam tão mal, fazia parte de respectivas existências. E eu realizei que ainda não conseguia concordar com minhas configurações. Eu não conseguia concordar com o fato de que eu fora feito por alguma estranha combinação que impõe que eu durma em qualquer lugar, sem lembrar-se da rua, e acorde num dia com pensamentos em RGB, e no outro acorde vazio, sem motivo concreto, apenas culpa das… Coincidências.

E toda vez é doloroso, apesar de não ser nem a primeira, nem a segunda, nem a quinta vez, tudo já deveria fazer parte da rotina, mas ainda não faz sentido, nenhum sentido. É como ver duas peças faltando num grande quebra-cabeça e não conseguir juntá-las. Perceber que apenas essas duas peças podem completar a figura, e mesmo assim elas insistem em não se encaixar.

Viagens intercontinentais à terra dos calafrios, enquanto aqui faz um calor dos infernos. Talvez aquela teoria antiga sobre o frio estivesse certa: no frio todos precisamos de calor, buscamos calor de todas as formas, entrelaçamos mãos e correntes sanguíneas, ajustamos os relógios, e na outra semana que o frio acaba, tudo tende a se afastar, a mostrar como os quadros na parede foram trocados.

Reitero, sobre minha retomada de consciência: Pode ser que faça algum sentido, pode ser meramente algum evento vital, mas não quer dizer que eu ainda consiga perceber que o sentido há, e que poderia ocorrer com qualquer um. É uma cidade vazia, são construções quebradas, são céus rachados, as ruas podem se abrir e revelar partes de todos os infernos, as árvores podem se moldar como números, eu sinto meu coração batendo e meu sangue circulando, não pareço de todo morto. Mas não faz sentido algum para mim.

O tempo conspirava, a meteorologia conspirava, apostaria que alguns alquimistas também conspiravam, e eis que tudo pôde simplesmente ser uma falha estrutural. Desorientado, e a carta que não existia, mas que eu lia ainda perturba.

Ando meio desligado, se os relógios pudessem auto-sincronizar novamente depois do frio, tenho a estranha sensação de que hoje não acordaria aqui, nessa camada cinzenta cheia de ácido carbônico. Acho que acordaria com o Sol cegando-me os olhos, e também sinto que eu ia gostar de perceber quão cego o Sol estaria me deixando.

Mas aí estão as lentes da humanidade. O vazio do quebra-cabeças sempre é lembrado quando as palavras não são faladas, e quando, mesmo que se tente, não se consiga buscar no fundo dos pensamentos uma figura para poder acordar e levantar e respirar.

Nem ao menos na pura imaginação, das vezes em que as peças faltam, tudo fica ainda mais caótico do que poderia ficar.

Prypiat, temos um problema.

Arquivo #01

“Não se acha fórmulas matemáticas para tudo.”

Bom dia, Rede.

Nesse post vou reescrever um dos textos que achei num beco perdido da cidade. Estava numa folha meio antiga, num idioma estranho, resolvi tentar traduzí-lo. Talvez tenha traduzido alguma coisa errada, sinto que esse texto é algo bem complexo a ser analisado.

Bom, lá vai:

Eu Preciso Pensar


Eu preciso pensar. Pra começar e escrever algo. Assim mesmo, linear, sem estrofes ou versos. É mais difícil, mas mostra melhor um pouco da vida, e é esse pouco da vida que eu quero mostrar aqui. A vida tem muito mais prosa que poesia, nós sabemos disso. Eu sei. Você sabe! Talvez por isso algumas vezes a vida seja tão real.

A questão é: até qual ponto exatamente a vida tão real é prazerosa? Quando a realidade é arremessada em nosso rosto violentamente, o que acontece com as nossas fantasias?

Demoramos um bom tempo para construir um mundo dentro de nós, com coisas e situações que nós gostamos e almejamos. Fazemos planos e mais planos sobre esse mundo, idéias mirabolantes, conceitos extraordinários…

E então entra em cena a realidade, estranha, no mínimo estranha. Tem o poder de dobrar a imaginação, como se fosse uma bola de papel alumínio, e arremessá-la contra nós, como se sentisse orgasmos cada vez que acabasse com nossas fantasias estupendas.

A realidade é tão poderosa que está nesse exato momento sussurrando em meu ouvido esquerdo, enquanto passa os dedos pelo meu pescoço, e quer que eu pare de escrever nesse exato momento.

A realidade seduz. Ah, como seduz…

Enquanto isso, a minha imaginação é a parede azul do meu quarto. Fica parada, estática, como se me observasse a cada momento. Toda vez que eu olho vejo alguma ranhura diferente, que sempre esteve ali, mas que eu nunca dei devida atenção. Monótona, chata. Oras, é só uma ranhura numa parede. Enquanto a realidade me seduz com todas as armas, a imaginação fica parada, apenas fitando, sem expressão alguma, e, ao mesmo tempo, querendo mostrar tantas novas ranhuras.

Na verdade, eu me contradigo. Não acho que seja possível fazer tal alusão. Quanto à realidade sedutora, tudo bem. Mas eu nunca vi uma parede infinita.

E há outro ponto também, que discutirei mais tarde. Paredes. Olho para todos os lados e vejo paredes, uma porta e uma janela. A porta está fechada e a janela está fechada. Quando se abre a porta, corre-se o perigo de ter o quarto infestado de insetos. Quando se abre a janela, idem. Mas talvez abrir a janela e a porta seria algo eficaz para que o quarto não ficasse tão abafado (o uso de um simples ventilador faz com que todo o ar quente circule, não diminui a temperatura na verdade).

Eis uma escolha cruel: Deixar um ventilador ligado até a próxima manhã, ou abrir a porta e a janela e ter uma temperatura mais agradável, embora se corra o risco de ser acordado por um inseto caminhando feliz e contente sobre seu rosto?

Quanta infâmia de minha parte, enquanto vou escrevendo o Word vai corrigindo o que eu escrevo. Céus, eu deveria aprender a respeitar um pouco as regras gramaticais de onde eu vivo, não?

Imagem. Preciso de uma imagem. Não é legal se deparar com um texto tão chato e não ter sequer uma imagem pra descontrair e depois dizer que leu o texto só por ter visto a imagem. É necessária uma imagem. Mas o que diabos eu poderia colocar pra representar um texto assim?

Ah, talvez uma antena.

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Tenho uma pequena coleção de achados como este… Espero que tenham gostado!

E fiquem atentos, quando menos esperarem eu atualizo o conjunto!

Bom dia a todos.

Grato!

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“(…)Num certo ponto fica monótono.
Sempre enigmas
sempre subliminação.
Sempre repetição.

Como mudar
num mundo tão repetitivo.
Como escalar
um prédio sem escadarias.
Sem elevadores.

Numa noite fria
Aquecido pelo monóxido.
Pelo asfalto e pelo vento gelado. (…)”

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