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Então essas são as ruínas, contemplei.

Há rascunhos de pedra, resíduos tóxicos guardados em piscinas, e pensamentos igualmente nocivos que se penetram entre um capítulo e outro do manual.

O manual dizia sobre procedimentos padrões, embora obsoletos e antiquados, de segurança e sobrevivência; era esta uma cidade esquecida, sem importância, sequer lembrada por correios de qualquer época. Por cima, uma vida pacata e, por baixo, piscinas de resíduos nucleares.

Deparei-me, ao fim do capítulo quarto, com um mapa esquemático deste nível quase emerso. Há um céu sobre os corredores, mas não sei se é real. É um céu típico de deserto – azulado, poucas nuvens, ar seco. Os corredores caminham entre as piscinas, como fossem nervos de pedra marrom dentro de um pulmão fadado ao apodrecimento eterno.

A KWJ – pelo menos é esse o nome inscrito em algumas paredes – fora construída labirinticamente. Talvez haja um touro de Minos à espreita, em algum salão escorrido escondido, esperando apenas o momento curto e certo para me lançar junto aos restos organoatômicos esverdeados e tóxicos das piscinas.

Também não parece ser um lugar de operários. Parece, em verdade, sequer haver máquinas. Provavelmente foram derretidas pelo ácido do tempo, quem sou eu para saber…

Não há contato com as paisagens de fora, o que reforça e refuta as dúvidas sobre a realidade do céu. O céu é real ou não? Minha última lembrança é um elevador com plasma avermelhado à porta de titânio. Desci e, por meio de velhas escadas e engrenagens, subi até os corredores das piscinas.

Em algum caminho à esquerda, há outra escada, helicoidal. Ela desce arranhando as paredes e os cabos elétricos, e descansa numa outra piscina, isolada numa sala cheia de computadores azulados de funcionamento pífio, que mostram comandos bizarros, além de milhares de eletrodos ligados ao nada e indo ao vazio. Seja talvez esta uma piscina de amostras, a fim de pesquisas, transplantes, experimentos ou qualquer algo do gênero. Por uma mórbida intuição, penso ver, derretidos, restos de gente.

Talvez, muito provavelmente, seja outra vez um truque lançado para dentro de mim por meus próprios olhos.

- W. G @ KWJ SQRT (CT)

Iminência de Cair

Eu queria voltar àquela casa e chutar a porta. Trancá-la dentro do quarto junto comigo. Como um ser alado no alto do penhasco vendo os demônios todos passando pelo lado de fora, tendo-a em meus braços, alheio ao inferno.

Quando se anda sozinho por uma cidade dessas, qualquer ilusão é nostálgica; qualquer sombra é um evento mágico, qualquer gole d’água. Aprende-se a aproveitar cada dor no pé.

As janelas de vidro, cyberdemônios grunhindo por trás das cortinas; funciona como uma sala hermética. Apenas eu, apenas ela; fora do mundo, fora da realidade, para nos esquecermos de tudo no outro dia.

Agora nem envelopes acho aqui por perto, sinto que terei de confeccionar algum. Ou então devo contar com a sorte do vento trazer algum pedaço radioativo e muito tóxico.

O Relógio Parado da Praça

Erguido por antigas civilizações, num tempo onde o Sol não nascia no mesmo lugar e não se punha, pedra sobre pedra e o mundo girando a marcar. Um pêndulo, também, hoje não funcional, logicamente, hipnotizava as folhas e as calçadas.

Contemple como as cachoeiras tornam-se fontes,
Como os templos tornam-se Igrejas.

Chegou, então, um novo tempo onde todos tinham o próprio tempo no bolso. Corrente de ouro, prata, cobre ou ferro ou titânio ou até plasma, não importava. O relógio erguido há tempos, já desajustado, servia como figurante; atuava nas cenas de fundo, subliminar às ações corriqueiras dos grandes filmes vividos. Várias câmeras fixas, sensores, elevadores, bem como o que levava ao apartamento de Spencer (ou o que prensava uma banda inteira em qualquer filmografia da época pós-moderna). Era como um grande prédio horizontal. Os vizinhos, em maioria, pareciam, no fundo do coração, odiar uns aos outros.

Vez ou outra, algum bêbado pode ter parado e dormido nas pedras, acordado assustado ao perceber que às três da manhã o sol queimava sua testa e a Lua havia fugido. E notou-se, então, como era engraçado: a garrafa esvazia-se em tão pouco tempo com tantos poucos goles, o dia amanhece, passa, pragueja todo o deserto por cima do travesseiro, e parece ter passados apenas minutos!

Os séculos vão-se embora, e o mesmo bêbado acorda outra vez, olha para o relógio que marcava três da manhã, e se pergunta que humanidade seria tola o suficiente para confiar o tempo a algo que não se move. Nos olhos dele, o relógio era o mesmo sempre, os mesmos ponteiros parados, pêndulo rígido. Certo que os contextos eram desprezados, que contextos haveria de pensar o pensador se sua garrafa já estava vazia desde duzentos anos atrás? O contexto era comprar uma garrafa nova, daqui outros centos, por mais centavos achados em qualquer moita anoitecida.

Deparei-me com um ser, outro ser. Era humanóide, como todo o resto, e estava encarando, admirando os galhos da árvore, olhando para cima, sentado sobre o banco. Olhar serenóide; algumas poucas nuvens no azul clareado, círculos brancos e a grande hipérbole dupla continuava ali. Diferentemente daquela noite dos logaritmos, onde, pasmem, era noite!

Bares esquecidos, garrafas fechadas e lacradas, cofres, dinheiro podre pelo chão e portinholas de madeira (às vezes, nem isso). Dentro dos buracos de bueiro, algum tempo perdido, provavelmente, possivelmente. Depois desse tempo todo, nem os buracos parecem ter o mesmo fedor. O esgoto todo deve ter secado desde que todo mundo fugiu daqui.

Ou só o líquido fétido. Alguns pedaços sólidos e alguns baús devem descansar nas galerias subterrâneas do destino das descargas. É um bom projeto de caminhada, por ventura. Penso se algum dia, quando havia mais gente, alguém pensou em andar pelo bueiro. Sentir a podridão molhando as solas dos pés, o cheiro macabro entrando pelas fossas, baratas e formigas e lagartos andando freneticamente pelas canelas, braços, pescoço; antenas e patas roçando a boca, fagulhas de papel higiênico, restos industriais, todo o suco subúrbio num frenesi de sensações alheias a qualquer civilidade. Era a anti-moral, anti-ser, alimentação reversa: alguém um dia sentiria vontade de pegar um pedaço do lodo temperado por vermes e mastigá-lo. Sentir a consistência, o gosto, nem que fosse para vomitá-la toda em seguida.

Consis(c)tência.

Veneno à Base de Chocolate

“Nunca coma chocolate antes de dormir.”

Há um túnel em algum lugar por essa cidade. Esse túnel separa a cidade de alguma forma, não sei exatamente como (já que pra mim o outro lado da cidade é parecidíssimo com esse, vazio), mas separa. Existe algo do outro lado desse túnel, algo que pode ser perturbador à vista nua. De vez em quando, sem perceber, eu acabo por atravessar esse túnel e ficar perturbado, traumatizado. Nas minhas andadas, compreende, eu mal percebo que estou passando por um túnel enquanto olho para as paredes, para o chão e para o céu.

Da última vez que isso aconteceu, e vou compartilhar essa história porque me lembrei dela ao ver uns arquivos aqui do lado, foi um tanto quanto cruel.

De começo, vi-me numa avenida longa, muito longa, deve ter sido uma avenida importante daquele lado da cidade. Então eu vi carros abandonados, não entendi exatamente a moral disto, uma vez que as pessoas devem ter saído daqui por meio de carros; então, ao final da avenida, uma grande construção, que mais tarde eu descobriria se tratar de uma rodoviária. E nela não havia ônibus algum (talvez as pessoas, temendo criar congestionamentos, foram embora todas de ônibus). Mas o problema, caro viajante, foi quando eu fui explorar a rodoviária abandonada.

Já quando entrei nas pistas onde os ônibus ficavam, senti um frio pela espinha, um remorso, um aperto na garganta, alguém parecia me sufocar, mas eu estava sozinho. Bancos, lojas, livros, tudo vazio.

Em dado momento a angústia tornou-se tão forte que tive de levantar um dos bancos para sentar e tentar me acalmar. A dor na garganta parecia ficar cada vez pior, eu tentava tirar as mãos que me sufocavam, mas algo me prendia a elas. E quando eu pensava já estar na pior parte…

Grito. Ouvi um grito. Eu sei que esse grito, por mais que tenha sido alto, estava dentro de mim. Mas eu ouvi um grito. Desesperado. Lacrimejado. Um grito perturbador. Não sei nem como explicá-lo para que você entenda. Mas era um grito tão sofrido, eu desejei ter desmaiado (ou até morrido) ali mesmo onde eu estava, naquele banco, para me livrar dessas sensações estranhas. Era um grito que colava nas paredes, entrava pelas rachaduras, revelava o vento frio, e eu não podia silenciá-lo.

Confesso que cheguei a ficar com os olhos marejados. Na verdade, as lágrimas escorriam pelo meu rosto, era algo muito ímpar e muito doloroso. Estava sozinho ali, mas ainda assim o grito ecoava por todos os cantos e rebatia de volta em minha face. Eu queria levantar, mas não podia.

As duas horas que se passaram desde então foram das mais longas. Quando o grito cessou, senti um conforto tão grande quanto o da angústia pela qual havia passado. Senti-me abraçado, um abraço tenro, sincero, aconchegante. Podia trocar energias nesse abraço, e então me senti com alguma força para voltar.

Saí a passos largos e rápidos daquela rodoviária, sem olhar para os cantos, olhei com medo para a longa avenida, e não achava o túnel de volta.

Um detalhe importante agora foi um terreno baldio que eu vi na avenida. Ao lado esquerdo, me lembro. Tinha muita grama baixa lá, alguns galhos, uma árvore seca caída, e um monte de terra. Esse monte de terra, segundo minha humilde imaginação, formava um rosto, mas um perfeito rosto, com uma feição vazia, olhando para o céu cinza. Com os olhos abertos, sem piscar. Estava lá o rosto, num terreno baldio, para ser esquecido. E lembrado por mim.

Na minha caminhada pela avenida até o túnel fiquei com o barulho do grito (e agora mais barulhos na janela aberta), com a imagem do rosto de terra olhando para o céu, e todo o tipo de má memória sobre a rodoviária. Mal me lembro como foi o abraço.

Depois de todo o pesar, lembrei de um escrito que traduzi, achado numa casa que explorei. Transcrevê-lo-ei aqui.

Nota: esse escrito na verdade é parte de um maior, a quarta parte. Não sei quantas existem, só achei quatro até agora, mas creio que existam mais.

IV – Colapso de Tripla Ressonância


E nisso enquanto a chuva ainda chove do lado de fora do quarto,
o barulho na cozinha vazia.
Não há azulejos.
Ela está em reforma.
Mas o relógio ainda está lá, alguém o esqueceu ao chão.
Ele faz seu ruído
Tilintando
Titubeando
você tremendo.
Tamanho temor.
Teu tempo.
Badala.

Arrepende.
Perdoa.
Porque como você todo o resto não tinha noção.
Era tudo muito pequeno
miniaturizado.
Agora num porquê desconhecido tudo se expandiu
a cabeça, as idéias e os erros.
Mas qual culpa tem você?
Nenhuma!
Você veio do nada
vai para o absoluto nada.
Perde nada!

Ou perde.
Um minuto depois o lunático salta das caixas
e causa o mesmo dano no seu equipamento.
Não parecem ser mais ondas.
Parece ser uma eterna frustração.
Lágrimas. Pode derramá-las.
Não adiantará de muita coisa.
A música ecoa na sua mente
mesmo que seja o lugar mais silencioso do mundo.
É uma pausa.
Seguida por um sino polifônico.
Quatro da manhã.

-

Há alguma coisa com hospitais. Não sei ao certo, vou averiguar melhor uns textos que encontrei e não consigo traduzir.

Grato!

-

“O outro lado é melhor que aqui.

Arquivo #02

“Atrás de um Sol que nos aqueça…”

Esse momento era inevitável. Cedo ou tarde eu teria de fazê-lo acontecer. Vocês com certeza já leram vários e vários textos como esse, clichês, sem graça, repetitivos e tudo mais. Mas esse momento era inevitável.

Andando pelas ruas daqui, achei uma porta entreaberta. Resolvi explorar a casa abandonada sabe-se lá há quanto tempo… Entrei pela porta velha, olhei toda a sala, um lustre caído, sofás apodrecendo, cheiro de mofo, paredes caindo… Procurei alguma coisa. Não sabia exatamente o que eu esperava encontrar, mas eu continuei procurando naquela casa.

De repente eu resolvi ir até um dos quartos. Entrei no quarto e fiquei atônito. O sol cinzento entrando pela janela, iluminando o ambiente por entre os vãos que já se formavam nas paredes. Uma cama, uma mesa, um armário. Nada de muito complexo. Algo escrito em cima da mesa.

-

Oi. Eu não te conheço.
Mas anteontem parecia que nos conhecíamos há décadas. Cada palavra, cada vez que eu ouvia você respirar, cada vez que eu te sentia viva ali, na minha frente… E ainda existem aqueles cientistas malucos soviéticos dizendo que tudo isso vem do cérebro e é pura química. O que diabos eles sabem afinal? Acho que não muita coisa.
Eu sei muita coisa. Você sabe muita coisa.
E eu estava andando olhando pra esse céu cinza. A rua estava cheia, lembra-se? Tento entender o porquê de eu ter, no meio daquele monte de gente, visto apenas você. Deve ser o tal do karma (nem sei o que isso significa, mas é uma palavra bonita)… Melhor, deve ter sido o tal do destino (isso eu também não sei o que significa, mas você deve saber).
Essas maquinarias estranhas barulhentas… Estou escrevendo e de quando em quando repetindo a mesma música nesse antigo fonógrafo. Não sei se você conhece, mas ela me lembra você. Em cada acorde, cada batida, cada frase. Talvez você conheça.
Estamos tão ligados, já não temos o que temer!
Espero a sorte fazer-me outra visita, assim eu posso olhar outra vez nos seus olhos, mesmo que de longe, e sentir você respirar, mesmo que seja só na minha imaginação.
- Z. Jospevitch Sagaranian

-

Eu avisei. Clichê, repetitivo. Mas essas coisas ainda me fascinam cada vez que ocorrem. Como o vento não levou essa carta, como as tempestades ácidas sequer marcaram o papel. Tantas lembranças perdidas nesse cinza, algumas que eu até fui cético pensando que nunca mais iriam ser despertadas…

Essas casas escondidas, caindo aos pedaços, quase sempre guardam algo, guardam uma estrada, guardam portas, fantasias, ilusões, tudo congelado em algum lugar do tempo e revivido por esses olhos.

Compreendo, amigos. É um post curto. Mas eu precisava compartilhar esse achado. Contemplem! Uma carta sem data, sem destinatário, inacabada. Profunda, largada sobre uma mesa num quarto abandonado numa cidade vazia. É muito mágico.

Grato!

-

“Tu me encontrastes
De mãos vazias;
Eu te encontrei
Na contramão.
Na hora exata,
Na encruzilhada,
Na Highway
Da Super-informação.”

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