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Três Ratos na Colina

O céu continuava sem cores, e o campo da madrugada havia sido semeado com os corpos despedaçados de nossos fiéis companheiros. Nem as flechas mais certeiras podiam se equiparar com os infernos tecnológicos dos invasores. Tomavam nossas colinas, nossos lagos, nossas casas, nossos céus; a vontade de vingança crescia a cada dia em nossos olhos que também se desprendiam de qualquer esperança.

Não tínhamos aquelas armas giratórias, nem o cheiro de óleo diesel, nem a blindagem de setecentas cavalarias sobre nossas respirações. Minha espada gloriosa, no entanto, era a que mais brilhava, mesmo num mundo cinzento onde sequer o Sol tinha vergonha de enxergar qualquer coisa.

Do alto da última colina da Bretanha observei os sobreviventes recolhendo os pedaços que restavam, e colocando os restos em novas valas que alimentariam a Terra.

Podia ser a última tarde, podia ser a última hora. Mas se meus tecidos sagrados fossem manchados com sangue, não cheirariam a morte. Teriam o sublime odor da honra.

Corri, mesmo com apenas meus pés, sem notar o tanto de peso que se fazia em meus crucifixos de ferro. Do lado mais baixo do campo três deles me aguardavam, desdenhosos.

Os séculos se encontraram.

Trespassei o primeiro como fosse um raio de vingança, sem deixar que ele fizesse as últimas promessas vazias ao seu imperador. Enquanto as gotas ainda espirravam sobre nossos cadáveres vivos, os outros dois desembainharam aparatos malditos que cuspiam fogo numa velocidade maior que a do pensamento. Desviei, num tal milagre, de cada um dos metais que riscavam fumegantes o horizonte, em câmera quase lenta, enquanto buscava no caos um pedaço de vazio para que meu risco prateado atravessasse o erro dos inimigos.

Eles cuspiam o fogo das décadas com seus aparatos, incessantemente. A sorte já se mostrava minha melhor prece. Em um curto espaço de tempo, de alguma forma, consegui atravessar a parede e atingir o pescoço de um deles. Mesmo com armaduras mais intransponíveis que os navios reais, encontrei um pedaço de artéria. Um risco certeiro, uma pintura avermelhada num canvas que um dia havia sido verde das gramas da colina. Mais um presente para a mãe de todas as mães.

A terra não sente diferença no gosto do sangue, seja ele mais ou menos rubro que outros. A terra tem fome, e todos nós havemos de alimentá-la um dia.

Encostei minha fúria no nariz do último covarde. Ele não conseguia mais cuspir as chamas, e tremia em seus olhos enquanto contemplava meus pedaços enferrujados, meus tecidos crucificados e rasgados e a ira que valia a de mil apocalipses em meus olhos. Embora ele visse todos os contornos, estava cego há muito mais tempo que o próprio universo.

Meu rosto derretia com suor, sangue dos inimigos e fúria. Ele não conseguia lutar, ele não podia lutar. Ele era não mais que um covarde. Um órfão dos próprios sonhos. Um rato.

Ele era um rato.

Começou lentamente a se afastar. Quando tomou seis ou sete passos de distância, virou-se e começou a correr em direção ao seu imperador. “Corra”, eu gritava, “leve as boas novas para a sua majestade. Diga quem nós todos somos!”

Um número inestimável de irmãos que se tornaram, em uma madrugada, apenas restos de pó de existência. Vidas, dores, medos. Uma interrupção covarde da linha das respirações, um silêncio incômodo na sinfonia da civilização.

Naquela tarde eu mostrei um pedaço duro do céu cinzento para dois esboços de seres humanos. Ao terceiro mostrei uma parte do espetáculo que haveria de começar em breve, e terminaria com uma grande tempestade igualmente cinza.

Naquela tarde minha fúria mostrou o apocalipse cinza a todo um exército.

Ipol

Era ruivo, tinha cabelo curto. Não poderia crescer mais, afinal. As experiências com ácidos tinham seu preço, assim como se paga com doenças por um minuto de prazer. Paga-se com dinheiro, também, mas tudo é pago com dinheiro no mundo da década. Ou, melhor, quase tudo.

Seu rosto quadriforme, linhas agudas, ângulos retilíneos, mas não retos de todo. Um queixo protuberante, olhos sem cor, sobrancelhas fixadas numa expressão fechada. Ele vivia, se é que assim pode ser dito, numa raiva eterna, e num sentimento de vingança igualmente infinito.

Podia vagar por qualquer rua de qualquer era, rever qualquer névoa de qualquer madrugada. Podia lançar venenos alucinógenos em qualquer uma que quisesse; tinha, porém, um fetiche: aquelas que eram amadas violentamente.

Eram iscas quentes, intrigantes, chamativas… Para ele, era como se um fósforo aceso ficasse infinitamente próximo de um pavio, sem que acendesse-o. Ele era o responsável por empurrar a mão até a chama encostar o pavio; via tudo queimar. Para ele, o prazer. Para o outro lado da Lua, era a angústia transposta, feita matriz, num pesadelo aleatório.

Não era, de todo, aleatório.

Deserto II – Espinha

Que tem uma distorção, e parecia até que eu ia me animar… Mas devia ter esperado o resto da música. Agora no novo tipo de teste, implorando a todas as entidades para que a tortura acabe logo… Logo…

Acordei-me preso num banco sem encosto. Minha coluna dói. Minha espinha dói. Eu não posso ter o mínimo de conforto… E eles colocaram até visões assustadoras em minha mente.

Então os testes ficam cada vez mais complexos. Por um momento, gostaria que o tapete se abrisse, revelasse um poço sem fim, onde eu pudesse mergulhar e aguardar a primeira pedra que abrisse meu crânio e amortecesse todas as sensações vis e sombrias que posso ser submetido.

Sinto feridas crescendo por todo meu corpo, muito provavelmente algumas delas são derivadas da não alimentação que fui imposto. Outras podem ser marcas de torturas que sequer lembro…

Mas as que mais doem eu lembro exatamente como surgiram.

Vagava, uma vez que não precisava dormir. Assim como seu psróxhiamlo sentia sede por pulsos e agulhas e asfalto, Ele sentia a mesma sede por lágrimas. Mas não de quem seduzia. E, sim, de quem depois tudo via sem ver.

Era um dom fantástico: trair, aniquilar, torturar, sem mesmo existir de fato. Era como um filme perturbador, feito todo artificialmente em algum supercomputador, com algoritmos que cheiravam a carne podre. As bibliotecas eram recobertas por remorso, como todas as paredes. Cada ovo, cada larva, tudo vivia em torno da podridão das bibliotecas de onde tirava todos os seus roteiros.

Os livros mais mórbidos são os que nunca pensaremos.

Não foi diferente, dessa vez, assim como nada para Ele era diferente, em se tratando de carne. Vestiu seu terno, penteou seu curto e rubro cabelo, deu-se uma borrifada de um estranho perfume, aparentemente sem cheiro (feromônios demoníacos, talvez), um último ajuste ao espelho, e estava pronto.

Não era realmente bonito, mas tinha algum tipo de truque que cegava todas elas. Não há forma de saber o que todas elas viam, talvez elas não vissem o que o era de fato, talvez o filme tomasse interpretações diferentes… Quem sabe até os atores pudessem variar de cinema para cinema!

Foi-se, então, pelos mesmos caminhos tortuosos, como se a cidade fosse seu piano de cauda, não exatamente afinado, mas as teclas pareciam conhecer a música que estava sendo pensada. E tocava, quase sozinho;

una corda

sustenuto

sustain

Uma caminhada ao lado dele era sempre amarga. Para quem o conhecia, de fato, para quem o via. No caso citado, sequer estivemos caminhando ao lado dele. Mesmo que estivéssemos, só eu saberia de fato o que se passa.

E não queria estragar a noite de ninguém, também. Era como as coisas deviam suceder. Era a propaganda. Era a década.

Chegou, então (ao menos foi o que foi me mostrado), à casa. Tocou a campainha. Não conhecia a presa, na verdade, mas foi como se fossem velhos amigos. Por velhos amigos, não digo grandes amigos de anos e anos. É algo mais, que até poderia tentar ser explicado, mas não vale a pena, uma vez que a resposta não pode ser transcrita por meros dedos com unhas mal cortadas.

As unhas dele não eram mal cortadas, até porque não precisava se preocupar com isso. Mantinham-se do mesmo tamanho, o que não era muito extenso. Era normal. Angustiantemente normal. Suas mãos pareciam limpas… Ou talvez também fossem luvas.

Um beijo tenro, com um sorriso falso bem convincente. A noite se iniciara, de fato, após o piano tocar o prólogo, após o tapete se abrir, após a porta ser destrancada, após Aristóteles dormir, após as cortinas fecharem-se para o início do espetáculo, após a correção gramática, após todas as crianças dormirem.

Eram dez horas, e era noite.

Uma luz amarelada pairava sobre a cena do quarto, pelo que também foi mostrado a mim. A cama não era propriamente arrumada, ou talvez eles mesmos desarrumaram, não lembro ao certo. Estive percebendo como ela se entregava de corpo e alma (ingênuo erro). Ele sequer a olhava dentro dos olhos. Olhava para a parede na qual a câmera estava. Era mais uma.

O papel dele era mostrar como fazia tudo, e como todas elas se entregavam da mesma forma. Era a carne vencendo outra vez. Ele tentava convencer a todos (não sei se houve mais gente no cinema que ficou até tais cenas, não consegui olhar aos lados) que não havia chance alguma para algo mais. No final, tudo terminava nele. Todos os amores, e os mais virtuosos possuíam prioridade. Não importava quem era a isca, ele não encenava seu circo por prazer sexual ou amoroso. Era por prazer de ver os semblantes horrorizados em toda a plateia, de todos que ousassem continuar a cada segundo assistindo.

Não era de verdade, nada era de verdade. Mas o papel de um bom ator é fazer com que cada cena pareça real, como se tudo tivesse sido registrado por olhos oniscientes.

Eu via tudo sem conseguir me mexer para correr. Eu não podia correr.

Ele ria, embora não fosse um riso comum, ao ver como lágrimas tentavam escorrer do lado de fora da tela. Não dava a mínima para sua companheira, que abriu a porta com tamanha felicidade aquela noite. Não dava a mínima a ninguém que contracenava com ele; importava-se apenas o quanto estava perturbando a plateia.

A noite chegava cada vez mais próxima do fim; ela ria sozinha, contorcendo-se à cama. Ele, por outro lado, já se arrumava e preparava-se para ir embora.

Descia, uma vez que já sabia todo o caminho das escadarias de madeira áspera. Nunca estivera antes àquela casa, mas sabia todos os caminhos. Ele sabia toda a cenografia, afinal. Desceu calmamente, abriu facilmente a porta (que parecia tão difícil de ser aberta por quem morava de fato naquela casa), foi embora, era quase manhã.

Riu, e então desapareceu até o próximo encontro.

202 – Constelações e Sadismo no Deserto

Comi cada pedaço e apreciei como se estivesse em meio ao deserto. Na verdade eu estava nele o tempo todo, mas cada vez abstraía-se numa fantasia diferente. Dessa vez, tinha a forma de uma equação diferencial.

O pão embolorado, que parecia mesmo um violão entoando belas melodias, como diziam os oráculos todos ao mesmo tempo há um ano, mais ou menos. O gosto artificial do sangue dos tomates, cada substância conservante, cada pedacinho de sódio alimentavam, sobretudo, meu cérebro.

Foi depois do café. Também tão artificial quanto o sangue (não o meu, o do tomate). Não era exatamente café, mas chegava bem perto; era solúvel, inclusive. Não precisava coar, não precisava ferver água sequer. Era só fingir que fosse café, assim seria, e assim me manteria acordado.

Número engraçado, de fato, deram ao meu quarto. Duzentos e dois. Lembra-me alguma coisa, mas pode ser apenas coincidência. O que, acredito, seja mais provável que qualquer conceito. A menos que alguém do prédio tenha uma cultura razoável e goste de pregar peças em vagabundos (não no sentido antitrabalhador da palavra, mas sim no sentido de vagal mesmo, o que andarilha. No caso, este que escreve).

Creio que essa mistura excêntrica de bolor e sódio e milho queimado era algo que fazia parte do conjunto atual de inspirações para tal relato. Antes as palavras simplesmente não estavam fluindo, uma vez que tudo estava muito abstrato. Comendo esses restos tóxicos, no entanto, tive algo concreto para relatar. Tão concreto quanto a parede que usei de prato.

Beira o absurdo, mas não chega a tanto, é apenas o gosto da civilização-deserto. Quarenta dias prometi perambular entre todos os pecados, aguentar todas as tentações, respirar com vigor cada pedaço de monóxido que quisesse visitar minhas fossas… Há algo me testando, e não quero reprovar e ter de fazer tudo outra vez.

Não sei de onde mente tão maligna poderia tirar inspiração para tal tipo de teste. Deserto, quarenta dias… A originalidade do sadismo por vezes me surpreende.

Outro fato é que a água no quarto está acabando. Numa análise mais profunda, é irônico, também. Justamente NESTE quarto a água está acabando. A hipótese de minha conduta ser regida por alguém mais culturalmente desenvolvido passa a ser até que aceitável. Só não consigo achar os buracos nas paredes. Ora, esse alguém ESTÁ me observando.

Ao menos esta não tem gosto de ferro. Tem gosto de água, o que a coloca muito perto do sangue, do bolor e do cafeóide. E está acabando, assim como o sangue, o bolor… Cafeóide ainda tem muito para os livros da madrugada. Hesitei por demais a abri-los, uma hora teria de ser removida a tampa. Assim fiz.

De qualquer forma, creio que andar por aqui faça algum bem ao que continuo denominando como alma. Estou distante de tudo o que me traz boas lembranças, estou sendo renegado dos direitos mais elementais, como comer e beber adequadamente, sinto-me observado em cada canto escondido do quarto, as montanhas de pedra amarela parecem-se mais com edifícios cinzas e escadarias de metal das cabeças de borracha e a Lapelle’s deve existir em algum lugar aqui por perto.

A qualquer momento pode acabar a bateria, e percebo que foi me negado também o direito a energia e campos elétricos, se é que existe algo assim. Tomemos por padrão MEU conjunto de leis.

Mas, se assim convencionarmos, estou renegado de todo o livro.

Não façamos assim, convencionemos outra coisa. Qualquer outro conjunto de leis que você queira. E negue-se a todos os seus direitos de sobrevivência e de metanoia. Agora estamos numa situação bem mais parecida.

Ela desfilava, embora não fosse um lugar para desfiles. Couro, coturno, correntes. Era a lorde suprema das rodas e do aço forjado. A música rangia pelos arredores e quase destruía as velhas paredes do Eco.

Era longe, afinal.

Talvez esteja alguém supervisionando inclusive meus sonhos, ou alucinações… Em tais condições, é difícil separar um do outro. Deito, olho para o tubo de gás aceso, e em instantes parece que o teto fica translúcido. Vejo o céu, as estrelas, nebulosas, constelações, vejo Escorpião tão afastada de Touro, o que me deixa um tanto triste por essa noite; mas, se sobrevivo a um deserto, não é uma noite que vai fazê-las ficarem distantes para sempre. Até porque acredito na dobra do espaço e nos túneis de minhoca.

Minhocas são seres repulsivos, mas se não existissem a agricultura perderia muito. Talvez muitos morressem de fome se não fossem as minhocas. Não odiemos. Não faz bem.

E, então, como num passe de mágica (leia-se: fome extrema), o céu começa a rodar cada vez mais rápido. Pode ser que isso tenha sido causado pelo fato de minha pessoa, sem ter muito mais o que fazer além de resistir ao testes, não faça nada. E olhe pro céu, que nem existe.

Rodando, acima de mim, tudo passando, contornando as eclípticas, magnetizando, tempestando, chovendo função gama… Tudo, e todos, brilhando, girando… Como uma música feita pelas minhocas do espaço.

Tenho saudades, não preciso mentir quanto a isso… O uso de termos pesados às vezes é necessário, e muitas vezes não podem ser substituídos por outros equivalentes.

Incoerência IX

Ele não queria, e eu ia ficar com muito peso na consciência, se é que posso dizer que tenho uma. De qualquer forma, sabíamos que tal evolução demandava sacrifícios. Peguei a caixa de ferramentas como se fosse um trabalho comum.

Dei-o uma dose de Veigsztran, ele dormiu rápido. Era quase seis da tarde, e estávamos ficando sem luz, precisava agir rápido. Primeiro a serra manual.

Ele não podia sentir nada, uma vez que estava em transe psicotrópico. Continuei o serviço, fingindo que sequer conhecia o sujeito. Na verdade eu não conhecia, de qualquer forma. Era mais um estranho. Era só um experimento.

Tive de separar um pouco as vísceras, para que pudesse acomodar confortavelmente (dadas as condições) uma bateria de Tecnécio, a mesma que pensei em desenvolver há uns meses, como escrevi neste mesmo caderno. Liguei os fios encapados por compostos de Selênio, usei o cauterizador (que adaptei milagrosamente do micro-ondas da fábrica), juntei estanho e estava pronta essa parte.

Os fios que saíram, liguei-os no osciloscópio, para checar se as ligações neurais estavam bem sucedidas. Mandei um impulso de “Olá”, e ele e o osciloscópio responderam positivamente. Bom.

Era um monstro.

- Relatório de Sadi Implattore sobre Automação de Células Nervosas e Aquisição de Reflexos Artificiais, página 184, relato Zero.

Agora, penso, não há mesmo muito o que se fazer por aqui. Talvez haja uma recompensa para tal teste, talvez não, não sei. Pensar muito nisso, por ventura, nem deve ser tão agradável assim. Estou aprendendo a lidar com o gosto dos conservantes… Assim, provavelmente posso criar vergonha na cara suficiente para apreciar com ainda mais zelo os gostos de verdade de tudo o que existe (pra mim).

É chato, eu sei que é chato, mas não custa nada lembrar que a realidade minha é a realidade minha. A sua é a sua. A dele é a dele. Estamos todos no Diagrama, ainda. E, pessoalmente, tudo seria muito sem graça se fôssemos uma única função linear.

Funções lineares matam pessoas, fisicamente falando. Penetram pela garganta e saem, rasgando todas as artérias e veias e tecidos e órgãos e traqueias (agora sequer posso acentuá-las como quero).

Ouço conversas do lado de fora da porta, e um ruído que fica cada vez mais agudo, como se algo estivesse sendo carregado até o limite antes da explosão. A porta deve ter ranhuras que não consigo perceber, alguma ilusão óptica sutil. Estou nu à casa toda, ao prédio todo, à cidade toda. Todas as trapaças são possíveis, todas as armadilhas são prováveis quando se está num deserto assim.

E nem tenho uma motocicleta.

Ela o fez. Assim como eu também o faria, se ela fosse. A situação não requer tipo algum de crítica, não foi nenhum tipo de jogo sujo. Admito isso da forma mais sincera possível.

O que me chateia é que eu não estava lá. Eu não pude participar. Como sempre aconteceu… E, como (soluço) temo que não pare de acontecer.

Temos esses momentos de fuga. De se esconder por baixo do travesseiro e lacrimejar. Houve uma festa, todos se divertiram. E eu não pude sair de casa. É uma sensação além da tristeza. É a sensação de ser preso e não poder estar onde se quer no momento em que se quer.

É a árdua sensação de se sentir humano clássico.

Eu só queria me sentir incluído nas músicas, nas bebidas… Mas a festa sempre acabava comigo no canto. Sempre.

Nota ao Senhor Heinsenberg: :( .

Ao menos, também devo concordar que estar aqui é bom para digressões. Embora seja difícil pensar linearmente, algumas coisas acabam por concretizar as conjecturas. Não que isso seja bom; aliás, está muito longe de ser bom, mas nos quarenta dias do deserto não há ninguém além de mim e da banca analisadora. Disfarçam-se por síndicos, vendedores, comerciantes, fabricantes, empresários e encanadores. Vejo inclusive belas moças com papéis de impostos nas mãos, cobrando tarifas e atendendo telefonemas. Quadratizadas, robotizadas. Não são de verdade. Quem planejou tudo isso me subestimou nesse ponto, e digo isso sem qualquer tipo de exaltação.

Talvez quem esteja subestimando seja eu.

A queda é maior quando se está mais ao alto, e disso até a sabedoria popular é ciente.

O céu não para de girar enquanto tudo isso penso. Posso fazer as paralaxes, contar estrelas, fazer desejos aos asteroides… É uma fonte dos desejos. É azul-escuro, tal qual água de fonte digna de desejos. Não tem gosto, mas mata a sede. Não tem peixes visíveis, mas a vida pulsa. Além disso, ainda há muito mais que não se pode enxergar. Coisas boas e ruins.

Espero obter melhor sorte e observar mais coisas boas olhando com atenção, ao invés de imitar velhos astrônomos e bradar que o Sol não é perfeito por possuir manchas.

Pra mim o Sol é perfeito. E as manchas nada interferem em minha visão. Tudo tem manchas. E nem por isso deixa de ser perfeito.

A natureza é a perfeição que tentamos equacionar, imitar, decodificar, e nunca conseguiremos.

O deserto beira a perfeição do sadismo. Mas podia ser pior.

Muito pior.

Maria Sanguinolenta

Saudações!

Sei que é um tempo desde a última transmissão, my fellow readers… Mas é por um bom motivo: tenho presenciado experiências fantásticas. Maioria delas tem sido agradáveis ao extremo. Algumas um tanto frustrantes, mas sempre servem para ensinar algo… Mesmo que esse algo só apareça depois de um longo hiato subversivo das revistas e jornais e boletins rodoviários extraordinários.

A cena que preciso retratar por hora é cinza e vermelha: havia portas, talvez, há muito tempo, o cheiro é de cimento e resíduo nuclear e vômito após uma longa sessão subversiva de sexo oral.

Ela era a garota que sempre sonhei. Não exatamente a que sempre sonhei, pois nunca a imaginei de tal forma. Nem a conhecia, na verdade. Ela apareceu no meu quarto. Antes do meu quarto, no meu portão; antes do portão, na minha rua, cidade, país, continente, et coetera. E ela queria uma dose de bloody mary. Sabendo fazer, chamei-a para tomar em casa.

Na verdade eu queria embebedá-la com molho inglês.

Para minha surpresa, ela veio! E não veio sozinha, de fato. Só não sei quem a acompanhou. Em casa ela entrou sozinha, vi o vulto na carruagem indo embora.

Sempre gostei dessas novas tecnologias – eletricidade, que tanta gente comenta; eletrônica, qualquer maluquice assim – e tenho muito orgulho de minha coleção de placas. São tantas placas… Variadas cores, formas, tamanhos, cheiros, texturas… Lindas plaquinhas milagrosas cheias de elétrons e neutrinos dançando com a Lua e com os diodos do destino e com o milkshake eletroeletrônico organicamente organizado segundo as rimas poéticas alexandrinas (ou algumas outras derivações também)… Tudo muito mágico e saboroso. Ah, o gosto dos neutrinos…

Mas no momento da preparação da dose, pensei em algo mais concreto e vermelho: o tomate. Sementes, quem se importa com sementes de tomate… Há quem tenha algum tipo de desejo estranho envolvendo sementes de tomate, segundo o que M.O.$>E.$ chegou a contar certa vez na chuva. Estávamos por demais bêbados. Não lembro ao certo da história. Mas tinha sementes de tomate.

A cena tão horrífica, mórbida e singela do tomate sendo triturado. O tomate que vira suco. O suco de tomate. Da lâmina de aço cirúrgico infinito ao copo. Tinha vodka, mas o momento pedia algo mais violento, algo que combinasse com sangue. Joguei algum licor vermelho. E depois vodka também, se me compreende. Ela não pode faltar jamais. E aí algumas folhas, molho inglês (o tão esperado molho inglês), e algo mais.

Fui surpreendido, então. Ela chegou-se como a preguiça ao meu pescoço. Subiu os dentes até a costa de meus ouvidos, murmurando, arfando, soltando pequenas risadas inocentes de prazer; eis que passou a mão pela minha cintura, alcançou o balcão, sempre tão determinada. Abriu uma das gavetas e pegou um velho cutelo. Era de meu avô esse cutelo… Quantos animais já se passaram por essas lâminas. Quantos hormônios e quantos glóbulos. Glóbulos: era isso que ela queria.

“Licores vermelhos” – disse, e continuou – “doces como o ferro que sustenta tantas casas e tantas torres” – e conforme sussurrava tais romantismos, passava lentamente a lâmina afiada e enferrujada do cutelo pelo próprio pulso. Começava a sangrar e deixar o sangue cair dentro do copo… Era uma cena tão açucarada…

Fomos tomados pela embriaguez antes da bebida ficar pronta. Peguei o cutelo de suas mãos e comecei a fatiá-la toda. Mas não violentamente – com ternura. Ela ria e gargalhava de tanta excitação, tremia quando eu afastava aquela lâmina já avermelhada… E a dose em cima da mesa: num momento, de repente, resolvemos parar um pouco o ato sexual e tomar a Maria Sanguinolenta.

Ajoelhamo-nos no chão e tomamos cada gole como se fosse o último, aproveitando cada nuance. Pensei que o molho inglês daria um gosto especial, mas o gosto das hemácias foi fenomenal. Nunca tinha provado hemácias tão saborosas. Parece que hemácias foram feitas apenas para combinarem com o gosto tão ímpar do tomate e do molho inglês e da pimenta.

Eis que ela levantou, já com as roupas todas estraçalhadas (quem é que pensa em tirar a roupa convencionalmente quando se tem um cutelo afrodisíaco em mãos…) e correu para o quarto. Assustei-me por um momento, mas já estava eu meio zonzo devido ao álcool e aos eritrócitos… Apenas fui me arrastando até lá. Eu não tinha cortes pelo corpo.

E lá me deparei com uma das cenas mais eróticas que jamais passara sequer nos sonhos mais despudorados de minha mente tarada. Lá estava ela, esfregando-se contra o chão, com alguns circuitos em mãos, alguns fios enrolados pelo pescoço e coxas. Minha nobre coleção de placas, tão organizadas, agora no caos da excitação suprema.

Ela pegava as placas mais ásperas, com mais terminações, e lambia, roçava contra a virilha, mordia, usava inclusive como se fossem artifícios de satisfação carnal. As mais ásperas e pontiagudas. Parece que ela gostava mesmo de bebidas sanguinolentas.

Eu também gosto, como já se sabe. Por isso não pude manter-me como observador. Abri o armário e peguei mais placas. Joguei-as todas em cima dela. Placas velhas, podres, cheias de formigas e ovos e teias e terra e ferrugem e seja lá qual mais elemento velho possa existir nas tabelas. Cada placa que jogava, mais ela se retorcia… Posso ver o quanto ela se divertiu analisando as manchas de sangue pelo quarto todo: cama, escrivaninha, armário, ralos, lixos, livros, parafernalhas, rádios, janelas. Tinha muito sangue.

Voltei à cozinha, enquanto ela continuava tal insólita masturbação. Só para pegar mais uma dose… No caminho, no entanto, deparei-me com o radiador. Não estava frio… Eu poderia comprar outro depois… Chutei-o até desprender da parede e levei-o ao quarto para minha amada Maria Sanguinolenta.

Claro que de início ela estranhou, afinal uma pancada na cabeça pode parecer muito rude. Mas depois gostou, como previ. E continuou seu alfa de sangue e cobre…

Depois disso, meu caro, não me lembro de mais nada. Tomei mais três ou quatro doses de todo tipo de bebida que encontrei no quarto… N’outro dia acordei com uma carta dela ao meu lado, com juras e juras de amor eterno.

Foi uma tarde inesquecível.

- SM2; Prypiat, 2305 1002

Sobre detalhes técnicos, o comunicador está com um chiado horrível, e não consigo entender de onde vem. Se algum dos que estiverem lendo estiverem tentando passar uma mensagem, por favor, troquem a freqüência. Nessas microfreqüências de césio toda a programação pode ser desfigurada. Já não é lá tão simples achar um pouco de césio saudável por essas bandas… Preciso usar muito bem esse pouco.

Estou, e isso é bom relatar, para sair definitivamente desse casebre… Achei outra construção abandonada, com mais recursos, mais poeira e mais concreto. Igualmente cinza, e fica praticamente ao lado. Já era hora de sair daqui e testar uma nova disposição de comunicadores para um melhor relato…

A cidade ainda é cinza, não se enganem com tanto vermelho. A cidade é cinza. E a rodoviária ainda existe, assim como todo o resto. Em breve, aliás, volto a catalogar certos documentos que achei. A bateria está com problema e o cabo de energia foi devorado por um gato. Não aqui, claro; aqui não existem gatos. Mas antigamente eu usava uma gambiarra, e esta não está surtindo mais efeito. O cabo de energia está com problemas, se alguém souber como consigo um novo, ou melhor, se alguém puder mandar um novo por avião e jogá-lo lá de cima… Que seja, estou sonhando demais com esse cabo de força. Esqueçam.

Até a vista, my fellow readers!

Grato.

Shal

Rodas, molinetes. O concreto não tinha o mesmo cheiro sem sangue, gota a gota, agulha após agulha. Toda noite reservava seu banho, sua piscina, sua banheira. O mundo estava muito cheio, e poucos mereciam a pureza de viver e andar pra lá e pra cá. Poucos mereciam ou mereceriam.

Um corpo fechado, as bactérias chegavam a temer entrar na corrente sanguínea do dono das agulhas e aquele que decidia como e quando derramar as hemoglobinas pelos asfaltos e calçadas. Os desmerecedores jamais teriam o prazer de morrer instantaneamente, deveriam agonizar, implorar, ver a vida toda passando, delirar, derreter, gritar sem poder.

A pupila dilatada e o braço arrepiado, o cérebro ejaculando seus hormônios e sua ira sobre as narinas cheias de pó. Paulada na cabeça, traumatismo, fratura exposta. No crânio.

Além do terror real, havia também os contos. Frases, cartas, ruas cruzadas. Shal andava com sua arma emadeirada pelos semáforos, esperando a cada esquina uma nova presa para o divertimento, apagar era o grande entretenimento. Eco, cimento, monumento.

Iria a qualquer casa, ia deslizando pela pista sobre quatro rodas pequenas. Sua namorada, então, jamais pensaria em despertar qualquer ponto de dúvida. Aquele que olhasse um centímetro abaixo nada mais veria pelo resto da vida. Era como resolvia José às meias-noites há muito, muito tempo. O médico havia de se lembrar, e o médico despertaria dentro de cada olho vazado.

Estava ela presa às quatro rodas deslizantes, estava ela presa ao asfalto e ao cheiro férrico. E tinha de contemplar, admirando cada grito, e depois cedendo às brutalidades. Toma, mata. Toma, espanca. Toma, enfia. Toma, aperta. Toma, estrangula. Toma, chupa. Dá pra mim, vaca. Você é minha. Vadia. Minha vadia, e só minha. Eu bebo seu sangue, se assim quiser. Eu tiro seu sangue, se assim convir. Se eu quiser te estuprar morta, eu posso. Eu sou a raça pura. Você é um animal como qualquer outro, puta.

Uma mancha atravessa a rua, fantasmas obscuros. Já seco há eras, o suco vermelho ainda penumbra. Alguns visíveis, outros moram pelos ares. Gostaria de pedir desculpas àquele dos manifestos, não segui as instruções. :(

Ajuste Das Freqüencias

Tempo, seus crepúsculos e cores monocromáticas para quem não sabe ver. De certa forma, não causa surpresa descobrir que, em meio a tantos prédios e tantos padrões b/w, alguns tinham iluminações d’Outros lados, e viam cores que não podiam ser vistas do lado de fora da janela. O relógio da catedral parado, mas com alguma graxa e alguns parafusos talvez volte a badalar.

Estava perdido. Dias e noites escorregavam diante minhas pálpebras, a Lua se encaixava no topo do meio-dia, o Sol queimava árvores às três da manhã… E nada parecia concordar. Os ritmos eram igualmente quebrados, os compassos irreconhecíveis, caóticos e agonizantes. Tanta tormenta tilintando por tais diante de portas partidas e ríspidas, raquíticas perturbações e partes cartesianas, turvas. Num instante a porta explodia, e no outro os sussurros da silvestre ninfa sarcástica assoviavam a sabedoria: Sartre, Simão, sangue, surto, cessavam ventos os muros.

Duas. Não consigo recordar se manhã ou tarde, apenas duas. Também devia ser algum lugar cartesiano situado bem ao meio do plano dos doze. Contemplávamos hipérboles e constantes, serenamente projetadas na mesma dimensão que nos apoiava sobre nossos pés. Uma dádiva, presente de alguma estranha entidade. Complexa e, por algum fator, extremamente amável.

Escorregando as mãos pelos tijolos, dos lados das hipérboles apareciam parábolas, retas, pontos, degraus e intersecções: podíamos pisar sobre o eixo das abscissas, víamos ao topo a marca das coordenadas. E tudo fora uma singela dádiva para os únicos malucos que ousavam desafiar a temperatura e permanecer vivos.

Além de mim, três: a Dona dos Relógios, o Senhor das Falas Mudas e, logo ali adiante, alguém com uma garrafa em mãos deslizando sobre as formas como se fossem rampas de neve. À tal altura, as navalhas já pareciam querer penetrar ainda mais fundo a epiderme… O tempo caía, eu tremia.

Descrente de qualquer próxima possibilidade, lembrei da pré-história e de todos os rituais para se conseguir calor com outros corpos. Para não congelar, alguns povos vivam mais próximos, utilizavam-se do calor tanto de semelhantes quanto dos demais animais (uma vez que poucos sabiam evocar o fogo), e então estendi minha mão.

Enquanto toda aquela história de eletromagnetismo era dobrada pelo momento, sentia como o tal calor fluía entre as mãos e braços, entre boca e pescoço. A Catedral estava encoberta por árvores, então não consegui ver com exatidão quantas horas eram… Entretanto, minha vontade é que o relógio santo ainda demorasse muito para outra vez badalar. No instante, mesmo sem saber, um outro relógio trepidava, pulsava, cheguei a ouvi-lo: os mesmos rios de outrora, que ainda corriam quentes por dentro das cavernas; agora não estava frio, mas eu ainda tremia.

Um brilho novo se fez além da carruagem quebrada. Creio que outro conhecido alquimista, nessa mesma equivalência, descobrira o elixir que tanto procurara entre livros e manuscritos e serpentes e caveiras. Uma mesa, uma fogueira, uma floresta. Palavras divinas, ruídos, vinho e alaúde. O ciclo conseguira ajustar o relógio depois de tanta demora.

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