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Longilineon Outside; Moi XV

Ontem me lembrei de você! O tempo tava fechado, o vento tava gelado. Quente tava o meu café, bastante amargo. Uma vez você me disse que meu gosto também era amargo; amargo, esverdeado, entorpecente… Apesar de você, ainda prefiro ficar acordado. A amargura é doce, depois da chuva.

Hoje veio o Sol. Com o céu azul e a claridade, chegou também a revolução. Você tinha que ver! São placas por todos os lados, as ruas estão menos movimentadas que o comum, alguns até saíram da cidade! Perto da praça dos aniversários, estão se aglomerando pessoas para discutir as políticas em assembléia. Ontem mesmo um grupo entrou no laboratório, sem proteção alguma, sem óculos contra radiação ultravioleta, e me chamou para ir. Não é por nada, eu até fui a algumas dessas reuniões, mas tudo que vi não foram pessoas e argumentos. Foram jogadores de times falidos, brigas contra o vento para se demonstrar que o outro time, que também não existe, é o mais fraco.

Aqui do lado de fora do laboratório ainda tem muito vento. Ainda é gelado, então ainda me lembro de você – não pela sua frigidez costumeira, nem por sua falta de respostas por tanto e tanto tempo, mas por causa das ventanias gélidas que estavam soprando através da janela de alumínio naquela noite em que tremíamos de frio… Parece que foi ontem que acordei às três da manhã agarrando seu corpo com todas as forças e buscando calor mesmo com os cobertores todos, não?

O silêncio do horizonte azul e ensolarado e vazio só é quebrado pelas conversas das cozinheiras, não muito longe daqui, e também não muito intensamente, posto que sejam apenas duas e o almoço ainda ta longe, e pelo grafite da lapiseira. É interessante ouvir essas conversas perdidas, porque não parecem ser palavras concretas – são apenas sons preenchendo o fluido da vida e da morte, são interações distantes. Só há palavras quando prestamos atenção nelas, assim como todo o resto. Ninguém nos provou que a cor do céu é azul. Todas as definições, nomenclaturas, tudo foi postulado por conveniência, afinal. É tolice ingênua acreditar que isso tudo que existe deve ser assim sob todos os pontos de vista. Mal entendemos algumas palavras quando nos são dirigidas, por que impor que devemos compreender até aquelas que nunca foram ditas?

Ali à frente uma das cientistas acabou de pegar um café. Acho digno esse lugar manter tradições tão seculares… Aqui sequer há máquinas automáticas para servir café, são só duas senhoras. Talvez já haja falta demais de sensações humanas, não há por que tirarem de nós até o gosto imperfeito do café.

Ela colocou um punhado pequeno de açúcar, e daqui da mesa pude sentir que foi o suficiente – nem muito amargo, nem muito doce. Hoje o dia é dos ciclos de Carnot, não precisa dos extremos. Eles sempre chegam, de qualquer forma. É um teorema.

Depois ela enfiou uma colher de plástico no copo, para misturar o líquido e o sólido, e foi como se ela estivesse cutucando meu cérebro solenóide… Sempre me esqueço sobre como são sedutores os movimentos impensados do cotidiano…

Longe vai o trem. Nem tão perto para incomodar, nem tão longe para não existir. Longe o suficiente para fazer um agradável barulho que, tal qual colher de plástico, mistura a fumaça de mil e oitocentos e a fusão fria de dois mil e setenta. Vê; esses trens que por aqui passam não precisam de carvão e fumaça, mas os usam mesmo assim. Talvez seja aquilo que ali em cima escrevi; talvez precisemos dessas lembranças menores para que o futuro não seja tão amedrontador. Num segundo adiante de todas essas letras, qualquer previsão é tola. A realidade pode ser rasgada por qualquer coisa desconhecida, tudo pode ruir, o horizonte azul tão pacato pode colapsar, e ninguém pode saber como é, por que é, ou se mesmo poderá ser. É tolo prever, e tudo o que se diz sobre o futuro são apenas reinterpretações do passado, afinal.

E foi aqui que me lembrei de você. Ontem por causa do céu fechado, do frio e da amargura do café; hoje, por causa da mistura entre o passado e o futuro. Não vou mentir, ainda tenho mais estima por cafeína que por sua presença real. Lembrar de você é muito mais agradável e reconfortante que passar sequer meia centelha de segundo ao seu lado.

Não chore, entretanto. Eu não preciso de você, assim como as dores não precisam de gente e os trens não precisam de fumaça. Apesar de tudo, ainda gosto de como você me engana em tantas previsões sem sentido… Ainda me inspira sua tolice. Ainda me inspira sua imperfeição.

O Misântropo

Enquanto o vento carregado de poeira não cessava depois do metal que encobria as paredes externas do sétimo templo, o misantropo deixava cair sua extensa corrente, elo após elo, prestando atenção no som de cada um ao tocar os restos d’água às imperfeições do chão. Elo após elo, desprendendo-se da gravidade, como fossem gotas de chuva solidificadas pelo frio e pelas montanhas distantes onde até as brasas congelavam os céus.

Depois da colina, observava ele, ébrios novos brincavam com a própria mente, e enganavam-se, pensando entender das políticas e da justiça. Não se compreende sequer a justiça humana, mas tem-se a pretensão de mudar as regras da justiça divina, se houver alguma.

Qual seria a surpresa dos ébrios ao encontrarem a sobriedade do tribunal nos últimos dias. Tanto gostaram de rabiscar e rasurar os próprios nomes às leis gerais; seriam tomados pela ira ao descobrir que seus erros seriam julgados pelas mesmas rabiscadas leis, dos mesmos livros escritos por tão pecadoras mãos. Não é um senso justo ser julgado pelas próprias leis que se criou?

Mas os ébrios não esperam por tal movimento no tempo. Diz-se pelos tribunais como a justiça é perfeita, mas sempre se espera uma que intervenha nos tempos do julgamento e se mostre ainda mais perfeita que a própria perfeição, além de toda a arrogância e todos os erros. Entretanto, há sinal tão convincente de anti-arrogância e prepotência quanto sequer mudar uma linha do que é considerado certo?

O que temem os ébrios é que suas leis sejam seguidas como deveriam ser. Temem a falta de más interpretações, a falta de atalhos entre os parágrafos e a falta de simetria entre as partículas imaginárias da falácia humana. Brincam os ébrios de revolucionarem algo que sequer compreendem, nem como se compreende toscamente uma formiga olhando do alto de uma cachoeira – nem de tal distância eram compreendidas as leis que os ébrios defendiam como sendo as mais justas.

Com bandeiras, tintas, gritos e hinos a divindades que jamais existiram, eles caminhavam às praças e diziam sobre destruição de governos. Diziam sobre o apoio de toda a população, fazendo valer a vontade de uma maioria.

Por curiosidade, um filósofo perguntou a uma escrava, próxima a uma das praças, sobre que dizia o protesto. A escrava não sabia, e tão pouco sabia o filósofo. Também não sabiam os que protestavam, mas a ebriedade impedia-os de perceber que gritavam apenas por gritar, como gritavam os primatas antes da História ao ver um pedaço de comida, um pedaço de árvore ou um pedaço de fogo, sem conseguir distingui-los.

Antes da História havia uma realidade inteiramente nova. As descobertas cessaram com a padronização do universo segundo a vontade de um ou outro indivíduo que se julga mais capacitado a entender a natureza de acordo com as diretrizes que foram expelidas pelo grande monstro que habita as profundezas de todos os mares.

Quando na abertura da vida todas as membranas colapsaram em uma só, e quando as esferas deixaram de ser vistas para serem recuperadas séculos mais tarde, as possibilidades de visão de todos os átomos e todas as águas e todas as vidas foram reduzidas a um estado único, padronizado, segundo as leis mais justas que jamais poderiam ser usadas no julgamento final, em prol do bom senso e do conforto que é sempre bem vindo aos hominídeos que gritam por comida e fogo.

O pensamento, em seus pormenores, parecem confusos e imprevisíveis. As leis fixam a posição, mas quem diz da velocidade ao mesmo tempo estará, certamente, mentindo.

O misantropo observava e sabia de cada nuance, mas nada podia fazer. Os ébrios sentiam a necessidade de parecerem úteis e serem engrenagens de um sistema que, segundo os mesmos, não precisava de sequer meia engrenagem para funcionar. Bebiam, gritavam e entoavam hinos que nada diziam.

Fazia-se a justiça entre os ébrios, e os mesmos haveriam de negar cada lei quando esta tivesse de funcionar no âmbito mais fundamental de todas as leis.

Chuva e Trovões na Praça do Julgamento

Chovia e trovejava.

Naquela noite obscura, entrei na espiral de minha própria vergonha. A praça parecia uma floresta fechada e cheia de criaturas sombrias, cinzas, verdes e pretas. O verde era bem escuro, cada banco estava úmido e cheio de folhas. Eu estava sendo observado, mas não via por quem. Nem sabia por que alguém se daria ao trabalho.

Deitei num dos bancos e percebi, lentamente, formar-se à minha esquerda uma casa, como que erguida do meio da relva molhada, por vigas que não sei de onde surgiram. Maciça, branca e velha. Estava lá há eras, mas estive ocupado todo esse tempo a ponto de não vê-la.

Assim foi, inclusive, como aquela moça que passara ao meu lado na feira. Procurei-a por toda a vida, e, concentrado em achá-la, deixei de vê-la quando passou ao lado, com suas sacolas e seu vestido vermelho.

Era sublime pensar em sua voz. Arrepiava-me além de todas as percepções que impus a mim mesmo sobre o que é a vida em si. Além da voz tinha um cheiro ímpar, bastante doce, enjoativo para alguns, mas não para mim.

Sabia sobre o que conversar, e dominava as linguagens perdidas dos monges do oriente, e desenhava a própria imaginação em traços inocentes que acabaram por pintar todas as cores que faziam falta no meu mundo monocromático.

Claro que ela não sabia disso. E eu também não sabia como eram bonitas as cores antes de derramar solvente sobre minha própria barriga, acidentalmente.

É provável que as cores jamais voltem, e os desenhos inocentes tão pouco. Agora o que se fazia sobre a parede do meu quarto era, senão, quadros impressionistas, distorcidos, como um conceito tão obscuro que resolveu se curvar, tal qual ferrugem, sobre o substrato da minha dor.

E ela também carregava cestas, e vivia em campos, embora eu saiba que não se tratava da Arcádia outra vez. Era parecido, mas como se a Arcádia fosse real, menos idealizada, em termos, e menos exagerada. Tão palpável e tão angustiantemente real…

A cada dia eu olhava os desenhos retorcidos e decidia que iria achá-la em qualquer feira de qualquer antigo feudo de qualquer lugar entre os mares e as luas. Qualquer que fosse a montanha, se ela estivesse lá, eu iria procurá-la.

O tempo chega a ser como uma refeição. Mal percebia que já havia se passado mais de dois ou três anos desde que decidi que ela existia. A barba já era sobressalente em minha face, assim como cabelo estava mais assustado por tudo que havia já presenciado, e as roupas, e os rádios, tudo. Era uma enganação e uma perdição, e eu sabia.

Embora árduo e lambendo as margens da impossibilidade, eu ainda acreditava, e olhava para cada nova rua abandonada esperançoso por achá-la jogada, desolada, com lágrimas secas decorando, como maquiagem, a pálida e temerosa face, esperando só por mim, o único que iria confortá-la naquele mundo de sombras e radiação acima dos níveis tolerados por qualquer ser que vive.

Hei de achá-la.

- Q.E.D.; PRYPIAT, STNK, VDL, RVNB, 191781:4812.

Mas a casa parecia vazia. As janelas estavam fechadas, escuras. A fachada, branca, já mostrava as marcas do tempo. Parecia algum tipo de catedral, mas duvido que algum tipo de santidade iria gostar de passar por ali as noites, naquela chuva. Quem sou eu, entretanto, para falar com tal autoridade sobre santidades… Sou só um pecador.

Não era uma chuva calma.

Cada trovão caía três vezes ao mesmo lugar, e todos eles pareciam muito próximos de onde eu estava. Astuto, escolhi como refúgio um lugar seguro numa tempestade, sob a copa de árvores.

É como se cada um dos relâmpagos tentasse me alertar de onde eu estava, e que não era sensato estar ali por tanto tempo. Mas esqueci-me da linguagem dos raios e continuei andando, em minha embriaguês, até a porta velha da casa velha.

Ninguém respondia às batidas. A porta rangia, mas não era por vida, e sim por velhice. Talvez não houvesse ninguém mesmo, com exceção daquela que com certeza estaria. Eu não queria vê-la, e ela não queria me ver.

Entrei à casa mesmo assim e vi como ela parecia pequena, embora gigantesca, por fora, a partir do momento que olhei por dentro.

Os galhos e a relva úmida de fora estavam presentes nos corredores abandonados de dentro. Uma leve luz, talvez de postes, clareava um pouco cada canto, e eu podia ver, embora não muito, como era o local.

Tudo parecia maior e exagerado. Havia quartos que eram tão grandes quanto casas inteiras; vazios, esperando por alguém a habitá-los, preparados para aqueles que viriam depois, e todos eles pareciam ter se perdido num caminho escuro, rotativo, de pensamentos circulares e estradas de barro em beiras de rios flamejantes do próprio medo de respirar.

A cozinha parecia familiar – facas jogadas ao chão, marcadas, manchadas, um rubro apagado e seco que ou era de tomates ou de sangue, tanto faz. Apesar das lâminas, não pareciam pertencer a uma assassina, mas sim a alguém que, mergulhado na piscina do desespero, acabou por se cortar todas as noites para se lembrar de que a dor física também existia. Armários de madeira, rotos, apodrecendo perto da escadaria que levava para baixo de um térreo que se encontrava no terceiro andar.

Continuei a andar e percebi as texturas do chão, e, como de costume, aconcheguei-me cada vez mais ao calor do chão gélido e sujo de piso quebradiço com cheiro de incensos de cemitério. As serenatas estavam gravadas, uma por uma, nos buracos que se revelavam, como lepra, ao longo dos corredores.

Havia um quarto com chão e paredes azuis, menos abarrotado e menos sujo. Ninguém estava por lá, tão pouco. Apesar disso, parecia estar esperando ainda mais ansiosamente por algum morador único, mas não havia ninguém. Eras e eras de espera, e ninguém viria.

Ninguém poderia vir.

Além da lepra da madeira, também havia outros buracos cavados, quadrados, no chão. Eram como gavetas, e provavelmente se tratavam de algum tipo de coleção de cofres num lugar tão comum que jamais despertaria qualquer suspeita por esconder valiosos papéis e jóias.

A cada trovejada, toda a casa infinita se iluminava, e a realidade parecia fluida – era como se o ar fosse mais denso, e eu pudesse ver cada distorção; parecia um tipo de camaleão que me grudara aos olhos – não os que vêem, mas os que percebem. Talvez, também, fosse algum tipo de bolha que criei em volta de minhas concepções, a fim de conservá-las. E me afogava, sem perceber, nas próprias águas serenas da realidade.

Uma sala escura, com bancos longilíneos de madeira. Também parecia ser local de muita e muita gente, mas só podia ver um vulto. Era um tipo de mulher, cabelo curto e loiro, magra, e a escuridão refletia o gosto de cada palavra que de sua boca ousava sair, ou ao menos que parecia sair de lá. Ela também esperava desde eras, e ninguém vinha – ao contrário dos outros, ela também sabia que ninguém haveria de vir, e que a casa fora construída por tanto tempo e sob prumo de tantas expectativas que jamais alguém teria coragem de se deitar num daqueles quartos tão majestosos destinados a pessoas tão comuns.

Na casa, o tempo parava. Trovejava, ainda, e a chuva continuava séria e tempestuosa. Não havia aquela que estava dizendo, assim como não havia ninguém na casa além de mim, e penso, inclusive, se havia mesmo casa, ou se fazia tudo parte de um cenário proposto por minha loucura, num provável momento em que caí no sono ao meio daquela praça radioativa cheia de árvores perigosas.

Podia ser, também, que os trovões eram meus. Não há quem possa provar que eu não estava pagando por meus crimes numa condenação elétrica, e que até a cidade era uma ilusão criada para mostrar minha própria jornada até aquela cadeira de madeira e ferro, até aqueles circuitos, fios desencapados, faíscas e aquele ser cinza, encapuzado, que, como carrasco, acionava a alavanca e fazia o tempo passar infinitamente devagar enquanto eu caminhava até o final do túnel, arrependido.

A condenação era um templo frio, como aquela casa, onde eu devia aprender as orações certas para expulsar os demônios que pudessem aparecer na forma de cães, porcos ou barulhos – não só em mim, como em todos os outros ventos. Os espetos do mar de brasa já tocavam meus braços, e eu deveria continuar descendo pela espiral e confrontar a forma mais crua de castigo, sem deixar de acreditar que há um final justo.

Um gosto do último gole de vodka voltou em minha garganta, e senti certo alívio. Era como se estivesse sendo abraçado por aquela moça que perdi na feira, vestida de vermelho, que esperava só por mim. Podia sentir seu gosto no gole já bebido de vodka, e, assim como a garrafa, só ela poderia me deixar tão ébrio.

Queria, antes de beber a garrafa, bebê-la em vermelho. Sempre gostei mais de vinho que de vodka, afinal.

É triste que só a vodka sobreviva a condições tão extremas de castigo.

A casa começa a se diluir, assim como minhas ilusões. Os quartos ventam por dentro, mesmo com janelas fechadas – sequer pude ver alguma delas, do lado de dentro. O sentimento de decepção e desapontamento paira sobre cada canto da casa, e, mesmo sem saber o porquê, eu sou um dos culpados. Também não sei culpado de quê. Não posso saber – só aceitar.

Uma multidão precisava de lar, mas a cidade já não podia abrigar ninguém além de mim. Até podia, em verdade, mas não havia ninguém com tamanho desapego às coisas boas a ponto de se contentar com vodka e pedaços velhos de civilização congelada e restos orgânicos.

Era a trinta ou quarenta minutos da rodoviária, e para lá eu deveria voltar e procurar em outros cantos do esgoto.

Lentamente eu fechei e abri os olhos, e não havia mais casa. Era eu, a relva por cima de mim e um cheiro deveras agradável de vestido vermelho.

Pensei ter visto um vulto, mas era só o vento em meu cabelo.

Então essas são as ruínas, contemplei.

Há rascunhos de pedra, resíduos tóxicos guardados em piscinas, e pensamentos igualmente nocivos que se penetram entre um capítulo e outro do manual.

O manual dizia sobre procedimentos padrões, embora obsoletos e antiquados, de segurança e sobrevivência; era esta uma cidade esquecida, sem importância, sequer lembrada por correios de qualquer época. Por cima, uma vida pacata e, por baixo, piscinas de resíduos nucleares.

Deparei-me, ao fim do capítulo quarto, com um mapa esquemático deste nível quase emerso. Há um céu sobre os corredores, mas não sei se é real. É um céu típico de deserto – azulado, poucas nuvens, ar seco. Os corredores caminham entre as piscinas, como fossem nervos de pedra marrom dentro de um pulmão fadado ao apodrecimento eterno.

A KWJ – pelo menos é esse o nome inscrito em algumas paredes – fora construída labirinticamente. Talvez haja um touro de Minos à espreita, em algum salão escorrido escondido, esperando apenas o momento curto e certo para me lançar junto aos restos organoatômicos esverdeados e tóxicos das piscinas.

Também não parece ser um lugar de operários. Parece, em verdade, sequer haver máquinas. Provavelmente foram derretidas pelo ácido do tempo, quem sou eu para saber…

Não há contato com as paisagens de fora, o que reforça e refuta as dúvidas sobre a realidade do céu. O céu é real ou não? Minha última lembrança é um elevador com plasma avermelhado à porta de titânio. Desci e, por meio de velhas escadas e engrenagens, subi até os corredores das piscinas.

Em algum caminho à esquerda, há outra escada, helicoidal. Ela desce arranhando as paredes e os cabos elétricos, e descansa numa outra piscina, isolada numa sala cheia de computadores azulados de funcionamento pífio, que mostram comandos bizarros, além de milhares de eletrodos ligados ao nada e indo ao vazio. Seja talvez esta uma piscina de amostras, a fim de pesquisas, transplantes, experimentos ou qualquer algo do gênero. Por uma mórbida intuição, penso ver, derretidos, restos de gente.

Talvez, muito provavelmente, seja outra vez um truque lançado para dentro de mim por meus próprios olhos.

- W. G @ KWJ SQRT (CT)

Degradação de Ordem Três

Um dia na cidade. Não era um lugar abandonado, mas fingíamos a atmosfera, só para que tudo ficasse mais obscuro. Era divertido criar um clima obscuro urbanoide, afinal.

Outdoors velhos, refrigerantes que não mais existem, chão retalhado; noite fria e fogueira com latões tóxicos. Fios de cobre como nervos entrelaçados com as raízes das árvores que cresciam onde um dia foi um templo. Um dia, há muitos séculos… Talvez estivéssemos ficando já bêbados sobre algum tipo de altar magistral de alguma era perdida, quem pode saber…

Toxina – Urânio. Pessoas esparsas. Cada uma com dois ou três andando e falando sobre a chuva de meteoros que rasgava a constelação do oeste. Pisando no chão pisado, remoendo cacos de vidros e cruzes e portais e óleo diesel, respirando e soltando fumaça orgânica pelos ouvidos.

Frio, e o delta estava seco (mas não parecia tão venenoso agora).

Li um folheto jogado qualquer – anunciava-se a apresentação de alguma banda perdida na cidade. Alguma banda coadjuvante, que nunca fiz questão de ouvir, mas que, por algum motivo, talvez pela atmosfera do folheto, me despertou estranha curiosidade. Eu precisava ouvir. Decidi, portanto, ir.

Antes que eu pudesse pensar em que vodka comprar para o dia, fui surpreendido por uma figura aleatória. À minha frente, como quem apenas tivesse aparecido de onde nada antes havia, tinha cabelos longos, escuros e encaracolados. Era pouco menor que eu, magra e muito branca. Usava óculos sem muitos detalhes, minimalista, com lentes levemente ovais. E um sorriso enigmático e sincero. Um colar vermelho escuro. Tipo de roupa não muito anormal, mas que, dada minha ignorância, não consigo descrever. Não possuía nada de muito avantajado, mas era bem proporcional ao seu corpo. E as roupas realçavam essa característica tão matematicamente apreciável. Se muito não me engano, a calça era de algum tipo de couro sintético, e havia correntes relativamente delicadas em sua cintura.

De qualquer forma, estava muito escuro e muito frio para poder prestar atenção em algo minuciosamente. Ela começou a perguntar sobre o mundo – mais especificamente, se eu era eu. E se era eu, sendo eu, o mesmo eu que tinha um alguém importante que me completava, mesmo sabendo que eu já era completo assim como todos somos enquanto somos um cada um. Na verdade, ela usou um termo obscuro; soou estranho mesmo que tenha sido nessa cidade nesse dia. Talvez quem tenha usado esse termo fosse minha própria imaginação, traduzindo qualquer perturbação de partículas no ar frio como tais formalidades sonoras.

De qualquer forma, confirmei que esse eu era mesmo o eu que ela pensava que eu fosse. E que esse eu tinha essa Ela e que meus olhos ainda continuavam brilhando quando me referia àquela pessoa tão magistral. E ela entendeu. E perguntou sobre Ela. E eu fui respondendo cada pergunta, e a noite ia ficando cada vez menos fria, embora a temperatura ambiente tivesse abaixado ainda mais. Pelos meus cálculos, sentíamos dois graus abaixo do zero.

Perguntou-me esse ser enigmático perguntas cada vez mais tendenciosas, cada vez mais indiscretas, cada vez mais interessantes e intrigantes. Depois pediu nosso endereço; eu, obviamente, passei cada dado.

Não é que ela fosse algum tipo de numeróloga ou pensasse em conceitos muito complexos… Mas ela queria três. O três, a sete. A Três.

II – A Sala

As paredes eram prateadas; parecia algum tipo de metal. Quase alumínio, mas era algo nobre. Perfeitas, sem qualquer tipo de impureza ou qualquer coisa assim. Uma escada prateada, ao meu lado esquerdo; um vidro em minha frente, e do outro lado outra sala.

Surge, então, do outro lado do vidro, uma das supremas. Era loira, muito loira. Cabelos muito longos, e pele quase que brilhante de tão branca. Olhar sem muita expressão; parecia estar analisando algo em mim. Talvez meu comportamento… E eu me sentia tão humano… Ela tinha todas as formas muito bem definidas, seios fartos e bem formados, com auréolas extremamente rosadas. Observava os controles, e eu só conseguia contemplar tudo aquilo.

O primeiro fluxo; um fluido azul claro, era da cor do céu nos dias mais ensolarados e frios do planeta Terra, inundava o ambiente de baixo para cima, e era translúcido. Eu não queria me afogar, então prendia a respiração. Foi assim por duas vezes, subi a escadaria.

Logicamente, eu também estava desprovido de qualquer tipo de roupa ou adorno. Era eu e meu cabelo e minhas imperfeições terrenas. E só.

Olho outra vez pelo vidro, e, junto a ela, apareceu o complemento, talvez o comandante daquilo tudo. Também com cabelo loiro, o qual tinha forma de capacete. Também um semblante sério e analítico. Eu era cobaia de algo, pelo que entendi. Não sei exatamente de que, mas era uma experiência interessante. Não era nada forçado.

O comandante se comunicava com a suprema sem nada dizer, eu não via bocas se mexendo. Só via sinais com mãos e olhos, serenos.

No terceiro fluxo, decidi que ia manter em meus pulmões (pelo menos o que deveria sê-los) o máximo de ar possível. E prendi bem a respiração. Mas o fluido celestial inundou toda a sala, até acima das escadas mais altas. Quis respirar. E respirei.

E continuei respirando.

A cidade continuava com a sensação das cinco da manhã. O fim da fogueira, o fim da música, restos de garrafas e altares e túmulos e mesas de sacrifício. Portas de metal fechadas, cheiro de fumaça virtual industrializada, pontos de ônibus desativados…

Sem carros – parecia uma zona de guerra. Mas não havia guerra, era um lugar calmo e sereno no meio do caos em que estávamos todos emergidos.

A cidade era mais viva quando a maioria dormia.

Maria Sanguinolenta

Saudações!

Sei que é um tempo desde a última transmissão, my fellow readers… Mas é por um bom motivo: tenho presenciado experiências fantásticas. Maioria delas tem sido agradáveis ao extremo. Algumas um tanto frustrantes, mas sempre servem para ensinar algo… Mesmo que esse algo só apareça depois de um longo hiato subversivo das revistas e jornais e boletins rodoviários extraordinários.

A cena que preciso retratar por hora é cinza e vermelha: havia portas, talvez, há muito tempo, o cheiro é de cimento e resíduo nuclear e vômito após uma longa sessão subversiva de sexo oral.

Ela era a garota que sempre sonhei. Não exatamente a que sempre sonhei, pois nunca a imaginei de tal forma. Nem a conhecia, na verdade. Ela apareceu no meu quarto. Antes do meu quarto, no meu portão; antes do portão, na minha rua, cidade, país, continente, et coetera. E ela queria uma dose de bloody mary. Sabendo fazer, chamei-a para tomar em casa.

Na verdade eu queria embebedá-la com molho inglês.

Para minha surpresa, ela veio! E não veio sozinha, de fato. Só não sei quem a acompanhou. Em casa ela entrou sozinha, vi o vulto na carruagem indo embora.

Sempre gostei dessas novas tecnologias – eletricidade, que tanta gente comenta; eletrônica, qualquer maluquice assim – e tenho muito orgulho de minha coleção de placas. São tantas placas… Variadas cores, formas, tamanhos, cheiros, texturas… Lindas plaquinhas milagrosas cheias de elétrons e neutrinos dançando com a Lua e com os diodos do destino e com o milkshake eletroeletrônico organicamente organizado segundo as rimas poéticas alexandrinas (ou algumas outras derivações também)… Tudo muito mágico e saboroso. Ah, o gosto dos neutrinos…

Mas no momento da preparação da dose, pensei em algo mais concreto e vermelho: o tomate. Sementes, quem se importa com sementes de tomate… Há quem tenha algum tipo de desejo estranho envolvendo sementes de tomate, segundo o que M.O.$>E.$ chegou a contar certa vez na chuva. Estávamos por demais bêbados. Não lembro ao certo da história. Mas tinha sementes de tomate.

A cena tão horrífica, mórbida e singela do tomate sendo triturado. O tomate que vira suco. O suco de tomate. Da lâmina de aço cirúrgico infinito ao copo. Tinha vodka, mas o momento pedia algo mais violento, algo que combinasse com sangue. Joguei algum licor vermelho. E depois vodka também, se me compreende. Ela não pode faltar jamais. E aí algumas folhas, molho inglês (o tão esperado molho inglês), e algo mais.

Fui surpreendido, então. Ela chegou-se como a preguiça ao meu pescoço. Subiu os dentes até a costa de meus ouvidos, murmurando, arfando, soltando pequenas risadas inocentes de prazer; eis que passou a mão pela minha cintura, alcançou o balcão, sempre tão determinada. Abriu uma das gavetas e pegou um velho cutelo. Era de meu avô esse cutelo… Quantos animais já se passaram por essas lâminas. Quantos hormônios e quantos glóbulos. Glóbulos: era isso que ela queria.

“Licores vermelhos” – disse, e continuou – “doces como o ferro que sustenta tantas casas e tantas torres” – e conforme sussurrava tais romantismos, passava lentamente a lâmina afiada e enferrujada do cutelo pelo próprio pulso. Começava a sangrar e deixar o sangue cair dentro do copo… Era uma cena tão açucarada…

Fomos tomados pela embriaguez antes da bebida ficar pronta. Peguei o cutelo de suas mãos e comecei a fatiá-la toda. Mas não violentamente – com ternura. Ela ria e gargalhava de tanta excitação, tremia quando eu afastava aquela lâmina já avermelhada… E a dose em cima da mesa: num momento, de repente, resolvemos parar um pouco o ato sexual e tomar a Maria Sanguinolenta.

Ajoelhamo-nos no chão e tomamos cada gole como se fosse o último, aproveitando cada nuance. Pensei que o molho inglês daria um gosto especial, mas o gosto das hemácias foi fenomenal. Nunca tinha provado hemácias tão saborosas. Parece que hemácias foram feitas apenas para combinarem com o gosto tão ímpar do tomate e do molho inglês e da pimenta.

Eis que ela levantou, já com as roupas todas estraçalhadas (quem é que pensa em tirar a roupa convencionalmente quando se tem um cutelo afrodisíaco em mãos…) e correu para o quarto. Assustei-me por um momento, mas já estava eu meio zonzo devido ao álcool e aos eritrócitos… Apenas fui me arrastando até lá. Eu não tinha cortes pelo corpo.

E lá me deparei com uma das cenas mais eróticas que jamais passara sequer nos sonhos mais despudorados de minha mente tarada. Lá estava ela, esfregando-se contra o chão, com alguns circuitos em mãos, alguns fios enrolados pelo pescoço e coxas. Minha nobre coleção de placas, tão organizadas, agora no caos da excitação suprema.

Ela pegava as placas mais ásperas, com mais terminações, e lambia, roçava contra a virilha, mordia, usava inclusive como se fossem artifícios de satisfação carnal. As mais ásperas e pontiagudas. Parece que ela gostava mesmo de bebidas sanguinolentas.

Eu também gosto, como já se sabe. Por isso não pude manter-me como observador. Abri o armário e peguei mais placas. Joguei-as todas em cima dela. Placas velhas, podres, cheias de formigas e ovos e teias e terra e ferrugem e seja lá qual mais elemento velho possa existir nas tabelas. Cada placa que jogava, mais ela se retorcia… Posso ver o quanto ela se divertiu analisando as manchas de sangue pelo quarto todo: cama, escrivaninha, armário, ralos, lixos, livros, parafernalhas, rádios, janelas. Tinha muito sangue.

Voltei à cozinha, enquanto ela continuava tal insólita masturbação. Só para pegar mais uma dose… No caminho, no entanto, deparei-me com o radiador. Não estava frio… Eu poderia comprar outro depois… Chutei-o até desprender da parede e levei-o ao quarto para minha amada Maria Sanguinolenta.

Claro que de início ela estranhou, afinal uma pancada na cabeça pode parecer muito rude. Mas depois gostou, como previ. E continuou seu alfa de sangue e cobre…

Depois disso, meu caro, não me lembro de mais nada. Tomei mais três ou quatro doses de todo tipo de bebida que encontrei no quarto… N’outro dia acordei com uma carta dela ao meu lado, com juras e juras de amor eterno.

Foi uma tarde inesquecível.

- SM2; Prypiat, 2305 1002

Sobre detalhes técnicos, o comunicador está com um chiado horrível, e não consigo entender de onde vem. Se algum dos que estiverem lendo estiverem tentando passar uma mensagem, por favor, troquem a freqüência. Nessas microfreqüências de césio toda a programação pode ser desfigurada. Já não é lá tão simples achar um pouco de césio saudável por essas bandas… Preciso usar muito bem esse pouco.

Estou, e isso é bom relatar, para sair definitivamente desse casebre… Achei outra construção abandonada, com mais recursos, mais poeira e mais concreto. Igualmente cinza, e fica praticamente ao lado. Já era hora de sair daqui e testar uma nova disposição de comunicadores para um melhor relato…

A cidade ainda é cinza, não se enganem com tanto vermelho. A cidade é cinza. E a rodoviária ainda existe, assim como todo o resto. Em breve, aliás, volto a catalogar certos documentos que achei. A bateria está com problema e o cabo de energia foi devorado por um gato. Não aqui, claro; aqui não existem gatos. Mas antigamente eu usava uma gambiarra, e esta não está surtindo mais efeito. O cabo de energia está com problemas, se alguém souber como consigo um novo, ou melhor, se alguém puder mandar um novo por avião e jogá-lo lá de cima… Que seja, estou sonhando demais com esse cabo de força. Esqueçam.

Até a vista, my fellow readers!

Grato.

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