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O Conto do Milênio – Capítulo 6: O Marquês de Sorocaba

O fim é um bom lugar para se mostrar o que ainda não veio.

Anotação Pessoal: Caso I – Marquês de Sorocaba

(…) Registrado aos quinze de setembro do ano corrente, à qüinquagésima oitava repartição de Justiça da Capital.

O Marquês, homem conhecido às redondezas por sua inviolável honestidade e generosidade, conheceu aquela que seria sua dama numa festa pagã, à mesma cidade. Adentrou-se ele nos problemas que aquela trazia. Era a mais nova de toda uma linhagem, a única mulher, e também a única da família que era forçada a trabalhar massivamente para garantir o sustento dos irmãos e da debilitada tutora.

Após meses de planejamento, realizado em segredo por trás de uma das igrejas, durante as madrugadas, a fuga gloriosa. A dama deixou um bilhete junto com maior parte de seus pertences e suas memórias, a fim de buscar sua salvação no casarão do Marquês.

Consumato est, diziam os empregados na noite do casamento. Um casal promissor, perdoado de todos os pecados por preces do próprio Padre. Nada faria cálidas aquelas noites. O Marquês havia alcançado aquela que tanto procurou com o passar dos anos, e a agora Marquesa se livrara de todo o trabalho forçado – trabalharia agora somente em troca do prazer em ser útil.

Veio a maré dos tempos e das obrigações, porém. O ciclo de deveres ficava cada vez mais massivo. Não era pra ser assim, todos sabiam, mas assim o era. Não havia mais brilho nos olhos, mas o Marquês, mostrando-se generoso, ofereceu abrigo à dama, mesmo que esta não mais quisesse compartilhar os aposentos com ele.

Segundo relatos de empregados e vizinhos, o que se ouvia nas noites agora eram gritos, ofensas e maldizeres. Não se parecia de fato com um casal – ou se parecia demais. A dama, ciente de sua liberdade, passou a trazer alguns empregados para ajudá-la em serviços mais pessoais e particulares. As sessões perduravam durante madrugadas intermináveis no quarto ao lado daquele do Marquês. O mesmo não conseguia dormir.

Em parte por causa do barulho que emanava – eram sussurros, gemidos, gritos. D’outro lado, havia toda a cena despertada antes dos olhos por causa dos sons. Assim como uma flauta representa um pássaro, um gemido representa o suor escorrendo do pescoço de um e caindo aos ombros de outro.

Numa noite qualquer, o Marquês resolveu polir alguns de seus artefatos. Gritos emanavam do outro quarto, mas ele, bem vestido, apenas polia no alto de sua concentração aqueles artefatos. Cessaram os gritos por volta das duas da madrugada. Ele caminhou lentamente, para não estragar o momento daqueles que lá estavam.

Bateu três vezes à porta, sem resposta. Sabia que não havia trancas, então resolveu entrar, com os artefatos em mãos.

A cena que vira o marcaria para o resto da eternidade. Era sujo, tanto na aparência quanto nos porquês. Era a cena mais suja que jamais havia visto. Com os olhos desfigurados e descompassados, sem conseguir piscar, rasgou a pele dos dois. Ver um banho de sangue seria mais limpo, e os gritos de dor verdadeira seriam mais justos.

Mergulhado no instinto, ele bateu repetidamente no rosto da dama com o artefato, impulsivo, sem que ninguém mais aparecesse para ajudá-la. O sangue era espalhado conforme a mão fosse levantada. O artefato respingava a chuva vermelha nas paredes.

Ali estava a Marquesa em sua forma mais agradecida. Desfigurada, rasgada, surpresa, pouco depois de um orgasmo sincero. (…)

- Escrito por Wm. ; Excerto de T.S.L/Proto || A ser confirmado.

Relógio Fotográfico – Penhasco Velho e Café Novo

O Relógio despertador parou bem em frente à minha luminária, às cinco horas e quarenta e nove minutos da tarde do dia dezenove. Percebi muitos minutos depois, provavelmente depois das seis. O tempo que passou, eu destinei a contemplar as almas todas que conheci na rua próxima à trigésima segunda.

Compartilhei como se compartilha o mate. Não era mate. Era dor.

Compartilhei com alguém que fui há várias décadas, através de uma antiga fotografia. Senti todos os pesares do passado remoto e recente, de uma vez. Não há o que posso dizer, senão apenas que doía como as agulhas do arrependimento.

Eu gostava tanto, e não podia ver. Eu nunca pude ver, eu nunca fui suficientemente digno para ver. Antes eram as bebidas, mas mal sabiam os juízes todos que o combustível do álcool não é o mal que me movimenta, mas a angústia que me sufoca. Mal sabiam os juízes que o que destruía não era meu coração, mas as leis, que sequer eram do mundo.

Depois do passado velho, veio o novo. E então meu pescoço era o pecado da sinceridade. Sei, e sei há tanto, que o sistema da civilização não permite a sinceridade. Não é educado pensar, não é de boa vista admitir o egoísmo e a hipocrisia. Antes de contar minhas versões, devia tê-las mandado a alguma censura. Algum censor sabe sempre contar melhor a história que o original autor… É assim que o sistema funciona.

Antes do café, foi meu filho que me foi tirado das vistas. Que sobraram foram apenas meras fotografias em mau estado. Eu o via como o sentido de minha existência, o porquê de cada dia ser ensolarado para meus pensamentos complicados. O resto todo da família, por outro lado, tinha medo. Uma criança não deveria ficar exposta tanto tempo a alguém que se recusou a perder o brilho dos olhos, a alguém que, mesmo havendo piso concreto, gostava de se sentar próximo aos barrancos e aos penhascos. É perigoso demais expor uma criança às vistas de todos os horizontes, então era melhor que meu filho pouco me visse.

Aos dias verdes, quem me era proibida era senão a mulher entre todas as mulheres. Conheci-a durante uma tormenta, dentre escadarias. Protegíamo-nos da chuva do lago. Dançamos silenciosamente através de todas as folhas e todos os gostos e todas as línguas, até as mais ásperas. Eu nervoso, anestesiado por dentro, com tanta ebriedade das ruas silenciosas. Ela certeira, direta, matematicamente eficaz. Erro, o pai de todos os acertos.

Aconteceu que eu sempre soube – e saber de tudo é um atalho bastante convidativo para a ruína de não se saber de nada – que o caminho dela já era traçado pelos mesmos juízes de outrora. Eu não constava nas três vias das duplicatas e das completezas e não tinha dinheiro para comprar alianças ou pratarias; eu não podia ser o futuro, eu não podia ficar muito próximo daquela que me fazia ver as cores, eu era muito egoísta para merecer as cores, e admiti minha condição.

Admiti a mim mesmo o que eu era, e o mundo voltou a ficar cinza.

Como podemos investigar a natureza das coisas com tanto afinco quando as respostas estão todas tão claras? Por que nos preocupamos em olhar a escuridão quando há tanta luz do lado de fora da janela? Por que a dificuldade das coisas parece sempre ser tão programada para massacrar a lógica mais simples de como o ser humano é por dentro de si mesmo? Quando as raízes do grande polinômio da existência são reveladas, não vejo motivos para descartar uma apenas por ser o oposto d’outra. Um sinal geométrico não pode ser mais bonito que outro. Eles se completam; não parece justo haver política até mesmo nas matemáticas.

Eu, no entanto, não sou um bom orador da justiça, posto que em muitos casos vejo a injustiça como sendo muito mais humana que uma suposta igualdade que faz sentido tão somente em discursos platônicos do século vinte e cinco, fora da realidade pacata do que somos de verdade.

Nos passados todos não pude ser o que sempre tive vontade de ser. Perdi meu filho tão amado e a mulher que colocava eixos coordenados perfumados e calorosos em meus passos bêbados perdidos. Nenhum deles morreu, e não haverão de morrer. Eu não os daria tal conforto, e a vontade de um é a vontade dos céus, mesmo que os céus sejam só de dentro da cabeça de uma alma solitária. Eu, por outro lado, fui levado até o asilo e à cidade grande, porém vazia.

Eu deveria ter sido esquecido, mas nem meu filho e nem minha dama jamais conseguiram se esquecer do que havia em meus olhos. Meu filho entendeu o porquê de eu gostar tanto da proximidade dos precipícios. Ele percebeu que só assim era possível contemplar melhor o horizonte do mundo.

Minha dama, e só minha, entendeu que o que é de todos acaba não sendo de mais ninguém. Entendeu que as letras de um são só as letras de um, e, mesmo que alguém as copie, não há como copiar uma idéia e mantê-la original. Uma vez feito, não pode ser desfeito, e a revolução não mora na reprise da História.

Apesar da terra, eu vivo. Apesar das palavras, eu escrevo. Apesar do mundo, meus olhos brilham.

 - A. Guinelli; Iberia 1921.

O Líquido Etéreo das Probabilidades

Era o auge dos tijolos, diziam os anúncios. A cidade não cheirava mais café nem andava a carroça; as chaminés, pouco a pouco, tomavam conta dos corredores, e as casas pareciam caminhar até um lugar cada vez mais estreito e apertado, onde uns viam roupas dos outros.

A individualidade não mais existia, e assim parecia divertir-se nosso povo. As paredes eram avermelhadas e cinzentas… Era tanto monóxido que mal podíamos respirar. Mas era bom para o progresso, diziam os cartazes e os senhores.

Uma de nossas alternativas de diversão era aquela festa. Eu não podia ir, e isso se deve a uma longa história. Imagine-se sentado numa cama, enquanto observa, do outro lado do quarto, uma mulher a se vestir e a se olhar contra o espelho. Ela não sabe, na verdade, que você está em sua cama – não é uma história sobrenatural, nem nada parecido. É algo bem mais mundano e mais simples… Eu não sou tão pálido a ponto de ser confundido com um fantasma, afinal.

Mas ela se arrumava, e eu contemplava. Era um vestido claro, não muito rebuscado, – nossas terras eram calorosas em demasia – e havia um chapéu, ou uma boina, não sei exatamente o nome daquilo. Ao contrário do vestido, essa veste era de fato rebuscada e beirava o barroco. Por algum motivo, prendia-se bem àquela cabeça e àqueles cabelos longos e presos por dentro da boina. A maquiagem era, de certa forma, pesada, mas não tanto.

Havia certo odor de chuva ácida ao ambiente, mas ela usava um perfume único. Não sei definir o cheiro, mas era agradável e notavelmente marcante.

Cerca de sete da noite, dizia o relógio atrasado. A porta de madeira se abria e ela saía de casa. Acompanhei-a, em silêncio, como fosse um psicopata que observava cada detalhe daquelas veias expostas e lisas e brancas. Minhas roupas são irrelevantes – eram até antiquadas.

A festa em questão ocorria de ano em ano, e todo aquele bairro carbônico se vestia e se disfarçava. Esse ano, porém, ela não iria sozinha. Havia um homem de boa família que ela conhecera, era parente de militares. Homem forte, trabalhador e com muita escolaridade, e as pessoas todas o viam com bons olhos pela sua simpatia. Eu, particularmente, nunca gostei dele. Mas sou apenas um psicopata seguidor, então tentarei não dar detalhes tendenciosos.

Encontraram-se num ponto desativado por onde, antigamente, passava um trem. A cena toda é úmida de ácido, escurecida, borrada. Deram-se um beijo de encontro, entrelaçaram as mãos e caminharam em direção as luzes.

O rosto dela trazia um semblante comum, satisfeito. O dele trazia sobrancelhas cerradas, e um riso estranho. De qualquer forma, também parecia satisfeito com seu feitio. Era um conquistador nato, de qualquer forma, e assim comentavam as madames do bairro, cheias de orgulho.

À festa, todos bebiam cachaça. Era a bebida mais fácil de encontrar, e agradava as multidões. Litros e litros de aguardente da pior qualidade, com um leve gosto de fumaça industrial. Bebiam e brindavam à revolução, a utopia se aproximava. Claro que essa utopia teria suas desventuras ao caminho, mas era tudo para um motivo maior, uma razão maior. As lutas de classes ficavam de lado nessas confraternizações; todos tinham preocupações, elas não deveriam entrar lá.

Era um lugar aberto, tudo bem. Um pátio industrial que já era obsoleto, e se enfeitava todo. Luzes, máquinas experimentais, e um plano de fundo com gigantes funcionando o dia todo. Havia pessoas lá? Era tão orgânico a ponto de não precisar de gente?

Não importa. A festa continuava. Não lembro que tipo de música ecoava; talvez fosse músicas novas de uma nova madame da época. Não sei seu nome correto, mas era tal que usava frutas por cima do chapéu e dançava efusivamente pelas escadas… Algo muito original, devo admitir.

O que acontece é que ela, a que eu seguia em silêncio, também dançava nessa época. Não efusivamente como a tal madame, mas sinceramente. Suas curvas, apesar de bem escondidas, me encantavam. Ela desfilava entre os normais e despertava admiração por parte de todos os homens e mulheres de bem.

Do outro lado da festa, outro cavalheiro caminhava sozinho. Usava-se de um chapéu preto, roupas pretas, cabelo relativamente longo e preso. Não estava interessado em nada, mas também ficou fascinado pela nossa senhorita. Postou-se a observar, como faziam todos, no que ela o viu, e seu rosto a agradou.

Consegui perceber claramente quando ela levantou a sobrancelha esquerda, com um olhar enigmático, em direção ao rapaz. Foi que, nesse momento, o homem que acompanhava a moça – aquele forte e trabalhador – também viu claramente. E decidiu, portanto, que era hora de partir.

Chamou-a, e ela concordou que deviam ir até um lugar mais reservado. Foram entre dois tanques de óleo da indústria.

A cena ficava cada vez mais escura, e já não conseguia ver nada – estava eu enfiado entre duas saídas de gás, com dificuldades para respirar, e sem poder fazer qualquer barulho. A moça e o homem começavam a se espremer entre os tanques e se sujavam e se lambiam e se animalizavam e se devoravam. O homem possuía e ela cedia, pouco a pouco. Ninguém estava vendo, não havia problemas.

Num dado momento, quando ela já não tinha mais forças, o homem ainda estava em pé. Segurou-a pelo pescoço. Ela ria, pensando ser uma brincadeira, mas não era. Ele apertava cada vez mais, e ela começava a reclamar de dores.

Ele fingia não ouvir.

Depois de trinta e sete segundos, ele a jogou entre os tanques. Começou a chutá-la com sua botina de parente de militares. Depois, levantou-a segurando pelo vestido, e começou a dar socos e cotoveladas em seu rosto. Ela chorava e tentava gritar, mas não conseguia. Era pequena, perto dele. Não tinha como se defender, apesar de não ser fraca.

Ele rasgou uma parte do vestido, pegou-a o chapéu, começou a pisar naquilo tudo, cuspia, esbravejava.

Pediu desculpas e foi embora.

Ela continuava lá, no chão, destruída, melada com o líquido etéreo das probabilidades e com o óleo sujo dos tanques; cheirava a monóxido de revolução. Eu também continuava ali, entre os gases, apertado e preso dentro de minha moralidade.

Ela não podia me ver, mas eu a via. Queria estar com ela, não só por causa da aparência e das curvas.

Apesar de tudo, ela sabia o perigo que corria com tal bem aparentado homenzarrão. Ela sabia perfeitamente, mas gostava de se esquecer e ouvir a música e olhar para os rapazes que usavam chapéu preto. Aquele, aliás, ainda a veria no próximo mês, e os dois talvez se gostassem por um tempo.

Mas acontece que as pessoas não são donas de outras pessoas, e não conseguiam perceber isso aqueles ratos todos, morando dentro de gaiolas de tijolo, sendo alimentados com queijo estragado. As utopias sempre terão suas desventuras, sejam elas a falta de champanhe ou a falta de senso.

Eu não sou um psicopata.

 

Suíte #2 de Sergei Sergeyevich Prokofiev

I – Arcos da Lapa

Os arcos da Lapa levam a um bairro oculto, inimaginável. Além das estatuetas, há um prédio alto e bem escondido. Não sei quantos andares possui, mas fica por trás de um dos grandes morros… E morre.

Perto deste prédio, há um bar freqüentado por velhos sujos e mal-humorados. Soltam rojões, assistem a jogos de futebol, bebem uísque barato, cheiram mal, despertam náusea e assediam todas as moças novas que moram no prédio. Se há alguma definição visual de nojo, talvez esta seja uma cena a se considerar.

O bairro vive em guerra – nada tem a ver com os traficantes nem com os que fumam, tão pouco com os que cheiram. Existem outros – os que quebram as regras e incomodam os velhos. Estes, que quebram as regras, usam-se de equipamentos estranhos de múltiplas mini-rodas. Usam-se de roupas que não combinam; roupas sucateadas, mas não necessariamente sujas. Possuem alguns poderes fenomenais, que os velhos tanto invejam, como, por exemplo, subir escadas.

Mas até para isso os velhos tinham uma armadilha. As escadas dos prédios eram cortantes, não havia onde segurar. Os corrimãos quebravam as mãos pelas linhas da vida – era por demais arriscado. Ao topo do prédio, ou melhor, ao topo da antena de TV do prédio, havia ainda outra mensagem escondida – um caderno cheio de equações diferenciais impossíveis de serem resolvidas, e um pára-quedas.

Os seres flutuantes não eram só um, e não eram individuais pelas causas nobres. Não sabem, nem nunca souberam o porquê de estarem ali vendo tanta sujeira. Mas era pra ser, e seria até as últimas conseqüências.

Quando um deles precisava de ajuda, nenhum questionava – estavam ali pelo bem maior. Valia a pena perder, se fosse preciso, a própria vida, contanto que a causa fosse nobre.

Os velhos tomavam muito uísque sujo e importunavam as garotas do prédio. Os pirralhos se incomodavam cada dia mais.

Estes, por sua vez, também não viviam só de água, até porque quem vive só de água pode se afogar facilmente. Havia uma bebida mágica, preparada por um dos mais experientes deles. Um ser cabeludo e barbudo que passava todos os dias a se empanturrar com lasanha de queijo.

A bebida era servida num garrafão verde e farto – tratava-se de um vinho. Mas não um vinho comum, posto que não tivesse nada de especial. O vinho era de uma coloração azul escura, e muito, muito forte. Tinha gosto de uva, mas ainda guardava mais sabores escondidos, de frutas desconhecidas. Toda noite, antes de ir à guerra ideológica, os seres que conseguem subir escadas tomavam doses do vinho – não havia perigo de acabar, era artesanal feito pelo próprio cabeludo barbudo da lasanha.

Não eram tão fãs de suco de laranja, mas ouviam bastante Beethoven antes de partir às escadarias. Na noite que se segue, o céu se nublava por toda a tarde anterior. O natal chegava cada vez mais próximo, e até São Nicolau se envergonharia se visse tantos velhos sujos perto do prédio.

Os pirralhos não ligavam em ganhar ou não presentes de alguém vestido de vermelho que desce por chaminés – mas as garotas mereciam os presentes. Elas não eram vagabundas, nem ociosas. Todas ali, e este lugar é até difícil de imaginar, estudavam arduamente, trabalhavam arduamente, eram honestas e mereciam dormir em paz.

II – Pink Eastwood / Newton

Clint tomou nossa frente à sala de concentração. Fumava, mas não nos incomodava com tal mau hábito. Era o que mais sabia como irritar os velhos, tínhamos muito a aprender com ele. Eu era, afinal, um aprendiz – a diferença entre nós e os velhos, num dos aspectos, pode ser esta. Nós sabíamos quanto aprendiz éramos naquele bairro. Os velhos se julgavam tão velhos que sabiam de tudo… Apesar disso, tinham equações diferenciais impossíveis. A verdade era tão visível que não podia ser vista por quem de tudo já sabe.

Disse-me Clint sobre como deveriam estar meus equipamentos. Era importante que fosse fácil pegar desde o isqueiro até o flutuador agilmente. Também me disse como escrever em tintas invisíveis. Se havia alguém ali que sabia como lidar com idiotas, era ele.

Do outro lado da sala, com o giz e a lousa em mãos, o profeta das areias – desta vez, possuindo a forma de um matemático indiano. Mostrava-nos que matemática não era tão monstruosa, e se empenhava dia-a-dia a buscar a resposta para as equações. Elas foram tal afronta a todos nós, que se tornara questão de honra.

Também dizia o profeta sobre a efemeridade das coisas todas, enquanto apontava às derivadas e às variáveis escritas. Pontos, leis, movimento. O movimento cessa, se não for tão intenso. Nosso movimento era infinitamente mais intenso que todos os descritos pelas mecânicas do universo – e isso podia desequilibrar qualquer sistema alheio… E para isso servíamos, cientistas – para entender as leis antigas, e mostrar que até “verdades universais” (as quais o universo nem sabe que existe) devem ser quebradas. Tínhamos a página perdida do Primeiro Livro, e ela assim dizia.

Eu criei estas três leis. E também sei que elas deverão ser quebradas hora ou outra. Eu faço minhas regras, e ninguém jamais deverá saber. O Universo flui; isto não o descreve. Estas leis são interpretações de algo muito maior, inimaginavelmente maior. Traduções erradas.

Desde os gregos da praia, vemos tudo como somos. Somos grãos de areia – e existe muito mar a ser visto além do pôr do sol.

- PRINCIPIA, p. -1

Dos nossos mestres, também estava ali o músico argentino. Sua especialidade era tocar as grandes obras do tango. Cabelo curto, barba bem feita e violão preto com cordas grossas. Tinha estranhos costumes ao entoar as canções – sua mão direita abafava as cordas de uma forma única, o timbre das músicas era só dele.

Ouvir músicas depressivas o animava, sem ironias.

III – 22:00 – Troubles in Fantasia

O plano estava quase pronto; às dez da noite daquela noite começaríamos. Na verdade só eu faria algo, mas era como se todos agíssemos juntos; um exército de sete mil irmãos percorrendo as ruas da cidade da mentira, contra todas as pragas que nos foram, nos eram e nos seriam jogadas por todas as feiticeiras. A lua era amarelada como queijo, pelo que percebíamos numa janela de nuvens cinzas.

Nem as pragas de mil mundos de gafanhotos nos fariam temer marchar até o inferno dos uísques podres para salvar aquele natal das garotas.

Não posso dizer meu nome, mas, neste contexto, o codinome era ROMEO X – era uma sigla e um anagrama, ao mesmo tempo. Meu símbolo era um candelabro com três velas. A do meio em posição maior, as outras duas um pouco abaixo, e as três já um pouco derretidas. O candelabro era dourado do ouro mais polido, e as velas, apesar de já um pouco gastas, pareciam eternas. Ali eu partia pela porta dos pilares. O mago lançou suas bênçãos, a porta de madeira se fechou.

Vi-me à rua. Não era tão tarde assim, então as janelas do prédio faziam-se abertas e as luzes acesas. Por dentro de um dos andares, não me lembro exatamente qual, vi Aquela que me inspirava – Ela. Ela sabia que eu estava ali, e nos contemplávamos de tão longe. Sorríamos, e, neste segundo, pude perceber que Ela possuía um novo quadro à sala. Era alguma forma disforme azul, abstrata. Vários tons de azul, melhor dizendo. Havia mais alguém com Ela, outra garota. Elas se amavam, e isso era o que importava.

Pelo comunicador de ouvido portátil (agradeça a Tesla por isso) começava alguma música de Mozart. Júpiter era tão perto dali…

Entrei à prima porta, e fui a um lugar sujo. Parecia uma casa de boas pessoas, bons jovens, mas era incrivelmente suja. Provavelmente havia ratos por cima daquele teto. O banheiro era incrivelmente sucateado. Roupas jogadas por todos os cantos, e instalações elétricas precárias. Era numa dessas que se cunhava a primeira parte do plano, que Clint nomeou como NIKOLAI.

Coloquei, relutante, meus dedos por trás do espelho fluorescente. Puxei dois fios, sem ver, e tirei do meu bolso esquerdo um canivete e o interruptor novo. Juntei os fios, e não senti choque algum. Liguei-os ao interruptor, e ativei o sistema de controle remoto.

Quase me saindo da casa, encontrei um dos moradores. Disse-me ele sobre como as estradas da cidade haviam sido reformadas… Como a preocupação ambiental se implantava cada dia mais, como a fiscalização era cada dia mais pesada – por incrível que possa parecer, talvez ele soubesse que eu estaria ali, naquele momento, mexendo em todas as fiações por trás do espelho fluorescente.

Fui-me à segunda parte.

IV – 22:00 – Constelação de Uma Só Estrela

As escadarias. Eu não sabia manejar muito bem o flutuador – ele se colocava sob meus pés, mas não era como um skate. Era algo etéreo, volátil, como se fossem sapatos de energia. Na prática, não serviriam de tanta coisa, era mais um equipamento de proteção, caso de lá de cima eu caísse.

Comecei a escalada, e minhas mãos já sofriam com os corrimãos adulterados. Eram como canos de ônibus, mas com material cortante e fios de cobre desencapados e altamente voltaicos. Pouco a pouco consegui vencê-los, e cheguei à metade do caminho até o ponto objetivo. Mas ali era um ponto notável. Bati à janela escura. Olhei ao outro lado e contemplei a grande estátua de braços abertos e o mar tão azul e infinito e tantas vidas distantes, aguardando a janela se abrir.

Abriu-se então, e Ela sabia que era eu. Abriu a janela com o mesmo semblante sorridente, querendo muito dizer o quanto eu era maluco. Concordaria com Ela, sou mesmo um maluco, um louco, um raio de um cientista inconseqüente, um pirralho! Mas também apenas sorri de volta, e nos abraçamos como deu – um movimento brusco e era melhor que os sapatos flutuantes funcionassem mesmo.

Disse a Ela que, por tal entidade inspiradora, eu não me importava em realizar tantos esforços macabros. Não me importava com as facas nem com os órgãos de proteção ambiental. Em tese, era por todo o prédio e, talvez, todo o bairro. Para mim, porém, e Ela sabia, era porque eu também sentia algo supremo, e queria vê-La muitas mais vezes com aquele semblante surpreso e satisfeito.

Poderia passar a eternidade ali, mas precisava seguir com o que fui proposto a fazer. Despedimo-nos, e prometemos nos ver naquele natal.

Sei que soa piegas e repetitivo, mas preciso constar: Ela me desperta as sensações mais profundas que já experimentei em um grande intervalo de tempo.

Depois de três ou quatro horas, cheguei ao topo do prédio. Contemplei mais uma vez como os ídolos de pedra agora estavam abaixo de todos os nossos pés. Como a vida parecia parada lá na cidade dos arcos. Subir a antena de TV foi mais fácil, espero não ter incomodado o futebol de ninguém naquela quarta-feira.

Acima da antena, como esperado, encontrei o pergaminho ISAAC e o pára-quedas. Não usaria o segundo, tinha medo dessas coisas – provavelmente não era funcional, e sim sabotado. O pergaminho era o original – os velhos, como já foi dito, não tinham capacidade para adulterar tal obra.

O profeta ia adorar saber que existe solução para pelo menos uma destas.

A fome apertava, mas devia continuar. Entrei pela tubulação.

V – 22:00 – Falácia do Labirinto do Velho Psicopata em Construção Desritmada

Agora eu era o inseto daquele concreto, mas não era por muito tempo. Havia uma passagem, segundo o que o DOPPLER revelou. Um tipo de sistema secreto de elevadores que se escondiam por trás das camas e despertavam tanto o imaginário daquele local. Depois de um pouco de procura, achei um deles. A porta era de madeira escura, mas havia algum tipo de luz vermelha e fluida em volta da porta. Algum tipo de líquido brilhante que marcava o local. Entrei.

Não havia botões, eu não tinha escolha. Apenas deixei que o elevador me levasse aonde quer que fosse para levar. Depois de quinze minutos de viagem à velocidade da luz, ou quase isso, a porta novamente se abriu.

À minha frente, um grande galpão esverdeado, escuro. Parecia uma obra em construção – vigas, andaimes, ferro jogado ao chão, barulho, máquinas, ferramentas, parafusos, martelos, foices. Não parecia haver mais alguém, então caminhei tranquilamente, procurando o que quer que fosse para ser encontrado.

Minha visão periférica, num dado momento, capturou um movimento estranho. Talvez uma reação neural, mas parecia algo mais. Olhei rapidamente, e percebi alguém correndo por dentro de um dos corredores cinzas. Apossei-me da rampa que se estendia à minha frente, e persegui, pulando e me apossando.

Após curvas bruscas à direita e à esquerda, encontrei um esboço de auditório. Havia as poltronas, e pareciam confortáveis. Todas, com exceção de uma. À quinta fileira, uma poltrona parecia quebrada. Parecia solta. Fui averiguar, e descobri que ela não era uma poltrona verdadeira. Por algum motivo, havia uma porta embaixo – sentindo que era o certo a fazer, entrei.

Para minha surpresa, e devo admitir que fora mesmo uma surpresa, não era um lugar maligno nem sinistro. Era apenas um estúdio musical. Do outro lado do vidro, um ser que parecia amigável.

Era dono de cabelos loiros, muito longos e lisos, e de uma voz hipnotizante. Estava fugido de sua cidade e dos repórteres e dos fotógrafos e das redes sociais para, em paz, compor seu novo álbum. Não queria ser incomodado, mas, quando me apresentei, tornamo-nos amigos, como se já nos conhecêssemos há tempos e tempos. Tomamos algumas garrafas de cerveja verde, rimos, conversamos sobre músicas e sobre ritmos exóticos e sobre instrumentos experimentais. Contei sobre as novidades das ciências das ondas, e ele pareceu se interessar. Antes de partir, ainda recebi como souvenir um disco com duas ou três músicas exclusivas, ainda em fase de testes, sem mixagem.

Ele também me contou como era o caminho da saída, e não parecia tão complicado. Agradeci-o, pedi um autógrafo e fui. Ali não parecia haver outra alternativa, senão confiar.

VI – 22:00 – A Consciência de Uma Centopéia

Os elevadores e as rampas tinham um padrão – eram funcionadas com base no horário. Muito mau, posto que meu relógio estivesse desregulado devido à viagem de elevador. Mas com alguma conversão simples, dava pra entender.

As rampas e os elevadores eram sincronizados a cada nove minutos e quinze segundos de anos táquions. Aprendi que os inventores de tal sistema se basearam no funcionamento da consciência de uma centopéia. Então é como se eu fosse uma sinapse fora do lugar, dentro de uma centopéia. Comecei a escalar e a subir e a descer, tal qual montanha russa num parque de diversões freneticamente estranho e insólito.

Descia, e o caminho era descer até o elevador – outra vez, porta de madeira. Seria igual ao outro, não fosse por este ter, ao invés de líquido vermelho, líquido azul. Azul celeste e tão brilhante quanto Césio. Não era radioativo, para minha sorte. Escalar o prédio usando-me de roupa HAZMAT seria ainda mais difícil.

VII – O Veloz Corredor de Kokorodome-XV

Depois de mais minutos para sair da consciência da centopéia, a porta se abriu, e demorei um pouco a reconhecer onde estava. Era de novo a cidade, mas outro bairro. Um bairro de cultura oriental, com cheiro de arroz e carros contorcidos.

A saída, mais precisamente, era uma das bocas de bueiro da avenida principal. Depois de quase ser atropelado, saí do buraco.

Há muito tempo que eu não me aventurava por aquela região. A avenida, em si, havia sido inteiramente reformada. Parecia estar mais larga, e não era mais asfalto, e sim algum tipo de tijolo cinza claro e bem aderente. Os viadutos estavam quase brilhando de tão bem cuidados, e ainda havia sido construída uma via expressa bem expressa ao redor da avenida.

A via expressa era um lugar curvado, quase uma parede por onde corriam carros a velocidades assustadoras. Lembro-me de ver veículos com aerofólios gigantes, mas não feios, a cerca de quinhentos quilômetros por hora. Não era perigoso – havia ali uma barreira magnética amortecedora.

VIII – Par Numérico do Carro Branco – São Paulo

Tomando o rumo de casa, parou-se um carro comum à minha frente. Dentro dele, figuras conhecidas. Era um homem e uma mulher.

O homem, apesar de me despertar certo receio, não parecia maldoso. A mulher, por outro lado, era demasiadamente falante. E ofendia sem se preocupar, e dizia como era melhor que todos os outros, e dizia como merecia tudo e como era o umbigo do universo umbigo. Ofereceram-me carona, mas preferi ir a pé.

A mulher me rogou mais quinhentas pragas, no mínimo, mas não me importei. Ficaria chateado ao saber que ela se juntara aos velhos que bebem uísque estragado, mas a única que poderia salvá-la disso era ela mesma. Haveria de aprender a tempo.

Quanto ao homem, que não era seu marido, ele não tinha muito mais o que fazer, senão tratar tudo aquilo como piada. Sentia eu, por algum motivo, que ele sabia de algo além do que aparentava… Mas também não me arrisquei a perguntar – queria voltar ao bunker o quanto antes.

A rodoviária também estava reformada, e vi uma legião caminhando para lá. Uma legião de coxos e deformes. Seres esquisitos que quase se rastejavam a fim de ver os ônibus partindo daquela cidade. Nem os seres mais delimitados agüentavam as limitações impostas daquele local.

A cidade era bonita, mas estava longe de ser apreciável para se viver.

IX – Natal Prelúdio

Longas horas até o bairro por trás das montanhas, mas cheguei. Entrei pela porta velha e branca do bunker, e fui recebido com congratulações por parte de todos. A missão fora um sucesso, o pergaminho estava inteiro, não faltava sequer meio sinal de operação.

O natal das garotas estava salvo.

Ela e eu nos olharíamos, e poderíamos sonhar mais uma vez, mais uma noite.

Mascara XVIII

Posto estava o tão esperado jantar das décadas. Mesa majestosa, feita com nobre madeira escurecida por tintas e brasas. Eu não estava por lá – não fui convidado – mas havia escribas suficientes para descrever cada detalhe em seus pormenores.

A cidade é um lugar de nove mil globos – planetários e oculares – que podem se infiltrar em cada fresta, cada beco, cada madrugada, cada câmara obscura. O rio que corre não tão límpido também leva parte das membranas observadoras… Poderia ser um tanto assustador, caso não estivéssemos acostumados com tais criaturóides.

Voltando ao jantar, ninguém parecia se importar com o fato dos pratos de apresentação, entrada, saída e tudo mais serem de plástico. Tão pouco notavam que a sobremesa na verdade era isopor. Talvez o cheiro de maquiagem pesada e o gosto de tinta fresca e a aparência carnavalesca refletida ao grande espelho do outro lado do salão distraíssem os convidados.

De seres notáveis, diz o escriba, à ponta da mesa havia um importante político. Roupas mais ou menos ajustadas e cinzentas, cabelo bem cortado, rindo – não se sabe de que, uma vez que ninguém ali contava boas piadas – e levantando a taça de suco de uva acima das cabeças e brindando feitos que sequer tinham sido realizados. Não podia usar adereços muito extravagantes, afinal precisava de seu monóculo bem polido de ouro. Era um político tradicional.

Primeira, à esquerda, uma das anfitriãs da ocasião. Diz o escriba que a cor de seu cabelo não era exata, por isso não pode descrevê-la neste aspecto. Ela tentava rir, mas não conseguia parecer sincera tanto quanto o resto parecia. Havia algo congelado por dentro de sua expressão. Algo que não queria ser derretido, algum medo, talvez. Usava um vestido brilhante e também opaco, ao mesmo tempo, e cinza, como de costume. Cinza costuma ser uma cor tão neutra que ninguém chega a reparar de fato nos detalhes.

Ali todos eram neutros e festejavam com suco de uva e isopor sobre a madeira escura.

À frente da anfitriã, um cavalheiro. Parecia ser muito educado e muito bem apessoado. Não se sabe ao certo sobre o que faz ou o que deixa de fazer, mas, por ser tão bem apessoado, todos acreditavam que era bem inteligente. Só podia ser, afinal. Usava uma máscara que cobria até a metade de seu nariz, e era azulada, bem clara e com brilhos. Em seu bolso trazia um pedaço de flor morta, não sabemos exatamente que tipo de flor era essa – sua cor era bem violeta, mas, por estar morta, podia muito bem ser apenas pelos dons funerários da botânica. N’outro bolso, também, um lenço branco. O cavalheiro falava, junto com o político, sobre os grandiosos feitos que jamais haviam acontecido.

Ao lado do cavalheiro, a outra anfitriã. Parecia ser mais velha, e era mais extravagante, também. Adereços carnavalescos, de cores pesadas, fitas que caíam sobre os ombros, cabelo em alguma armação bizarra, quilos e quilos de pintura, saia vermelha e violeta e vinho com um pano amarelado que escorria desde o torso até os pés e se tornava esbranquiçado conforme descia; também trazia uma risada frenética e quase dolorosa. Ria assustadoramente, como se fosse engolir os presentes. Sua boca se abria tanto que dava pra reparar em suas pregas vocais e, caso fosse feito um esforço, dava pra se contemplar o isopor brincando com sua garganta enquanto tentava ser, desesperadamente, digerido. Era assustadora, mas também era dona da mesa.

À frente dela, outro senhor, também de cabelo curto – cabelo curto, naquela ocasião, era simbologia para pessoas cultas e bem polidas. Não era aceitável que homens se utilizassem de cabelo comprido – e roupas cinzas. Possuía um charuto e um cachimbo. O charuto estava sobre a mesa, descansando e comendo, enquanto o cachimbo já se ardia em fumaça. Queria ele que fosse alguma erva rara dos Andes, mas era capim colhido às escuras numa praça qualquer da cidade, à última madrugada. Sequer estava lavado o mato.

Abaixo de um chapéu pequeno, mas suficientemente grande, um vendedor também muito tradicional. Usava óculos, possuía semblante de humorista, parecia calmo e contava, com anedotas, como era divertido ver um pai de família preocupado, à sua frente, sem ter condições de pagar uma cama, mas que faria de tudo para que seu filho pudesse ter onde dormir à noite. Todos à mesa riam, era realmente alienado pensar numa situação dessas. Oras, um homem de verdade deve se colocar acima de todo o resto, diziam. Filhos devem ser coisas planejadas, coisas esperadas, coisas com todo um método tradicional para se criar. Não tendo onde dormir, que durma no chão. O mais importante é comprar suco de uva e fingir que é vinho; comprar isopor, temperar e fingir ser carne.

Ao lado, então, do vendedor, havia o músico. Não preciso detalhar que tinha cabelo curto, posto que todos eram bem apresentáveis no local. Logicamente o cabelo era curto. Este trouxera um violão, feito com madeira nobre das florestas alemãs. Gabava-se, com todo mérito, sobre como era técnico e como tocava seus instrumentos todos ao mesmo tempo. Ao ver do escriba, suas músicas não eram virtuosas nem possuíam algum sentimento a mais. Mas falavam as músicas de assuntos tão bem tratados em obras literárias clássicas que merecia, o músico, algum respeito. Apesar de seus textos serem meras imitações de mestres, merecia todo o respeito. Seus pais eram tradicionais à cidade, esse era seu filho prodígio, devia mostrar sua cultura a todos os salões, de todo o mundo. Sobrenome bem conhecido e histórico, era disso que a cultura da cidade precisava – não de aventureiros.

Ainda sobre o músico, riram todos da casa à sua chegada. Sempre excêntrico e revolucionário. Era tão rebelde que, dessa vez, viera com a barba quase por fazer.

O músico não estava sozinho. Não seria de bom parecer alguém de tão rara linhagem chegar desacompanhado. Tinha sua dama ao lado, tratada como deve ser tratada uma mulher de tanta classe – era desprezada por todos à mesa, e parecia gostar de tal condição submissa. Família era algo por demais padronizado, não era qualquer uma que poderia se ajuntar, posto que todas as garotas da cidade obviamente só queriam chupar parte da herança multimilionária do ser violado. Note que, por violado, significa-se “aquele que possui violão”. Ela também era, na verdade, muito bem violada, mas precisava esconder. Não era, logicamente, de bom parecer que uma futura integrante de tal família tradicional tivesse tais dons. Era exclusividade do filho. Apesar disso, comentava-se por trás dos muros das cidades como bem violada era a moça. Seus dedos faziam milagres, dizia o sapateiro. De pedaços rígidos ela tirava belas e emocionantes melodias.

Quase ao fim da mesa, parava-se um escritor. Era o menos aclamado de todos os presentes, mas despertava certa curiosidade, pelo menos no que diz o escriba. Era perfeitamente encaixado com a situação, seu cabelo chegava a brilhar de tanto gel de baleias. Terno igualmente cinza, com lenço ao bolso esquerdo – deveria proteger bem o coração para tais ocasiões – e ria com outra taça de suco de uva azedo. Dizia sobre sua mulher, que deixara em casa, aos cuidados de seu primo – seu primo era padre, e a donzela dizia gostar muito da companhia. Diziam que passavam a noite a rezar e a ler os Salmos… Pobre diaba – enquanto ele, como macho da relação, merecia desfrutar de todos os bens e condimentos e alimentos – mesmo que estes fossem suco azedo e isopor.

Também dizia, o escritor, e nisso era aplaudido, sobre as noites em que sua mulher o importunava. Ele chegava depois de um dia difícil, e ela queria ser satisfeita. Sua satisfação era esmurrá-la, a noite toda, humilhá-la em tons altos, para que todos os vizinhos ouvissem. Rasgá-la as roupas, chutá-la ao chão, batê-la com o ferro de passar roupa. Ela adorava, assim como os vizinhos e a sociedade. Um homem tinha que se impor, afinal, mostrar músculos maquinários em ação. Depois ela podia se redimir dos pecados rezando com o primo. E precisaria rezar muito, caso não quisesse ser igualmente humilhada por Deus.

O filósofo, à frente do escritor. Essa era o único caso que se permitia possuir barba. Afinal, filosofia é um dom antigo, milenar, não se pode chamar de emprego nem nada do tipo, é pura a arte de pensar. Dizia o filósofo que tudo aquilo que via era comum, e concordava com tudo em termos mais complicados do que deveriam ser. O pensamento, para ele, era algo que não podia mudar. Devia ser o mesmo, seguir as tradições e continuar a perpetuar tudo aquilo do jeito que estava, com o mesmo gradiente de máscaras e fantasias e iguarias francesas preparadas à base de isopor e suco. Todos aplaudiam, notado que, já todos embriagados com o teor alcoólico daquele suco, poderiam aplaudir qualquer coisa que fosse a eles conveniente.

Lógico que, se quisesse continuar aparentando ser o que parecia ser, o filósofo todos os dias colava melhor sua barba, pegava uma roupa suja qualquer, despenteava os poucos cabelos e inventava palavras novas que pareciam termos antigos.

A noite ia se encerrando, e todos eles, a partir do começo da mesa, não notavam a presença do escriba. Este não possuía os trajes adequados – estava, inclusive, sem camisa – e não era parte da mesa, na verdade. Sentou-se ao chão, no canto do salão, por boa vontade das anfitriãs. Lá, com seu pedaço de folha de papel, tentava fazer anotações sobre tudo. Vez em quando, uma migalha de isopor caía à sua frente, e alguém, tal qual dono de animais domésticos, oferecia. O escriba chegou a comer um pouco, mas o gosto de isopor salivado era tão nauseante que decidiu ser melhor passar fome.

Não possuir máscaras é algo complicado. Não possuir terno, idem. Assim como não possuir maquiagem. A face verdadeira é incômoda, todos sabemos. Um nome parecia valer muito mais que uma pessoa. Um ato tradicional, apesar de repetido através de tantas décadas, não deixava de ser veladamente idiota. O círculo da sociedade, nessa época distante, baseava-se em maquiagens, sentimentos reprimidos e a certeza de se ter um amanhã tão digno que possa continuar a perpetuação das coisas como elas são.

Saindo do jantar, o escritor surpreendeu o escriba na esquina da residência – ele jamais fora casado, e seu único primo morrera quando criança.

Síntese do Comunicador Disponível

O céu estava estranhamente estrelado. Nuvens, uma ou duas, pequenas, nem assustavam. A temperatura também deveras agradável. Ventava uma brisa bem calma e um pouco gelada, mas apenas o suficiente.

Eu, quarto, lamparina. Talvez as elfas e esses outros seres estivessem fazendo algo melhor enquanto eu ficava ali contemplando as sombras minhas lambendo a parede. Os dedos pareciam aranhas, quando olhados de longe. Para onde elas escalavam, não sei. Mas provavelmente eram venenosas. Muito.

As pernas, como de costume, inquietas. Um pouco de suor pelo rosto, mas só um pouco, e era só suor, dessa vez. Salgado.

Acabou a água, acabou a comida, estava eu à mercê do vento. Todos os dias choveram, menos hoje. Um tanto estranho. Hoje sou só eu e o quarto. E hoje a temperatura é agradável, o céu é agradável e tenho certeza que as ruas estão seguras do lado de fora.

Mas estou do lado de dentro. Junto com as aranhas.

Algo também intrigante é notar que há luzes no teto, mas não as uso. São amarelas. Por isso a luminária veio a calhar. Mesmo sem elfas. Um foco de luz, não muito intenso, mas o suficiente para iluminar todo esse… Sistema…?

À minha esquerda, também, pernilongos, mortos. Três deles, devidamente secos pelo tempo e pelo ar que eu mesmo tratei de respirar. Havia outro, maior, no chão. E ele sumiu, não sei como. Mas, ao menos da última vez que o contemplei, estava como deveria estar: morto.

Acabaram-se, ainda, as roupas. Estas são as últimas. Considero deixá-las ao Sol para que saia todo o cheiro de suor que se acumulou por esses meses. Mas algo estupra minha mente dizendo, a todo instante, todo simples instante, que quando eu for fazer tal experiência o céu fechará e a tempestade voltará.

Porque aqui não mora mais ninguém, mas é sempre bom trancar a porta.

Algumas coisas piscam e se arrastam pelo céu, não faço ideia de onde vêm, para onde vão, o que são, se são ao menos desse mundo. Antigamente o mundo era só a Europa, afinal.

Níveis por dentro de níveis. Lugares cada vez mais vastos a se explorar, castelos cada vez mais difíceis de se entrar. E uns livros velhos com caracteres bizarros e um tanto arcaicos para minha compreensão. Alguém grita… Ou foi a parede?

E agora era a luz. Um barulho, rápido, não muito estrondoso, mas persistente. Um loop. E de repente sou invadido por um pedaço de noite, ou parecia. Era um grande maço negro, que de repente foi se abrindo como um átomo e suas partículas. E então percebi: moscas. Moscas, muitas delas. Asquerosas. Quer dizer, uma ou duas não fazem mal a ninguém, mas eram centenas. E elas moraram todo esse tempo em cima de minha cabeça, tramando todo o ataque. Nunca havia sequer notado o barulho delas.

Senti como se elas morassem dentro de meus braços. Dentro das veias, ovos, larvas, brotando, germinando, rastejando pelos músculos e pelos nervos, pressionando, contraindo, surfando, comendo, vomitando, apalpando cada célula. E depois saindo pelas minhas narinas num grande exército.

Mas o máximo que pude fazer, ao vê-las todas tomando conta das paredes brancas e riscando todas elas, foi pegar a lata com um resto de inseticida. Tinha pouco, senti, deveria ser bem usado. Apontei aos blocos mais condensados. Moscas caindo aos meus pés, como servos que caem aos pés de seus senhores, como religiosos caem aos pés do templo, como os apóstolos aos pés do Messias.

Moscas, e muitas continuaram vivas. Creio que maioria delas. Creio não. Era visivelmente a maioria delas. Para cem que morriam, mil voavam. E estavam voando por todo o quarto, tapando e limitando a visão, comendo os livros, comendo os documentos, comendo tudo o que encontravam. Mas eu estava inteiro.

Por que estive inteiro todo o tempo observando as moscas? Algo disse, entre o barulho das asas de cada inseto, que eu era irrelevante. Eu não tinha tanta importância assim para o que importava a mim. Era irrelevante até para as moscas. Elas podiam comer dicionários e televisores, o que era eu, senão um espectador?

Acabou o veneno. Malditas. Teria de comê-las, se quisesse me livrar delas. Ou abrir a janela, mas, por algum motivo, essa ideia não me veio à mente. De fato foi a última coisa que pensei: abrir a janela. Comecei a comê-las todas. Em blocos. Gigantescos. Cinquenta por vez, mais ou menos. Não tive tempo nem sobriedade para prestar atenção no gosto delas. Apenas fui comendo, vendo meu universo trancafiado ficar cada vez límpido… Não exatamente límpido, mas sem tantas moscas.

Havia muitas e muitas moscas.

A síntese. Análise. Análogo. Peço, meus caros viajantes, que me mandem relatórios concretos, e menos propagandas. Tenho recebido, em minha caixa, mais e mais encaminhamentos, e apagá-los todos é maçante.

As aranhas continuam na parede. Dentro da parede, e fora. Ao mesmo tempo. Como a sombra fosse uma dimensão paralela, e a luz idem. Estamos na luz, na sombra ou na penumbra?

Ajuste Das Freqüencias

Tempo, seus crepúsculos e cores monocromáticas para quem não sabe ver. De certa forma, não causa surpresa descobrir que, em meio a tantos prédios e tantos padrões b/w, alguns tinham iluminações d’Outros lados, e viam cores que não podiam ser vistas do lado de fora da janela. O relógio da catedral parado, mas com alguma graxa e alguns parafusos talvez volte a badalar.

Estava perdido. Dias e noites escorregavam diante minhas pálpebras, a Lua se encaixava no topo do meio-dia, o Sol queimava árvores às três da manhã… E nada parecia concordar. Os ritmos eram igualmente quebrados, os compassos irreconhecíveis, caóticos e agonizantes. Tanta tormenta tilintando por tais diante de portas partidas e ríspidas, raquíticas perturbações e partes cartesianas, turvas. Num instante a porta explodia, e no outro os sussurros da silvestre ninfa sarcástica assoviavam a sabedoria: Sartre, Simão, sangue, surto, cessavam ventos os muros.

Duas. Não consigo recordar se manhã ou tarde, apenas duas. Também devia ser algum lugar cartesiano situado bem ao meio do plano dos doze. Contemplávamos hipérboles e constantes, serenamente projetadas na mesma dimensão que nos apoiava sobre nossos pés. Uma dádiva, presente de alguma estranha entidade. Complexa e, por algum fator, extremamente amável.

Escorregando as mãos pelos tijolos, dos lados das hipérboles apareciam parábolas, retas, pontos, degraus e intersecções: podíamos pisar sobre o eixo das abscissas, víamos ao topo a marca das coordenadas. E tudo fora uma singela dádiva para os únicos malucos que ousavam desafiar a temperatura e permanecer vivos.

Além de mim, três: a Dona dos Relógios, o Senhor das Falas Mudas e, logo ali adiante, alguém com uma garrafa em mãos deslizando sobre as formas como se fossem rampas de neve. À tal altura, as navalhas já pareciam querer penetrar ainda mais fundo a epiderme… O tempo caía, eu tremia.

Descrente de qualquer próxima possibilidade, lembrei da pré-história e de todos os rituais para se conseguir calor com outros corpos. Para não congelar, alguns povos vivam mais próximos, utilizavam-se do calor tanto de semelhantes quanto dos demais animais (uma vez que poucos sabiam evocar o fogo), e então estendi minha mão.

Enquanto toda aquela história de eletromagnetismo era dobrada pelo momento, sentia como o tal calor fluía entre as mãos e braços, entre boca e pescoço. A Catedral estava encoberta por árvores, então não consegui ver com exatidão quantas horas eram… Entretanto, minha vontade é que o relógio santo ainda demorasse muito para outra vez badalar. No instante, mesmo sem saber, um outro relógio trepidava, pulsava, cheguei a ouvi-lo: os mesmos rios de outrora, que ainda corriam quentes por dentro das cavernas; agora não estava frio, mas eu ainda tremia.

Um brilho novo se fez além da carruagem quebrada. Creio que outro conhecido alquimista, nessa mesma equivalência, descobrira o elixir que tanto procurara entre livros e manuscritos e serpentes e caveiras. Uma mesa, uma fogueira, uma floresta. Palavras divinas, ruídos, vinho e alaúde. O ciclo conseguira ajustar o relógio depois de tanta demora.

Entendimento e Compartilhamento de Linhas

“Ninguém entende e, no fim, quem não entende sou eu!”

Eis, amigos, um texto que fiz a poucos instantes, inspirado pelo vício de escrever subjetivamente.

Abre parênteses.

Hoje, primeiros momentos do segundo dia do ano, vou dizer um pouco sobre significados. Por que significados? Porque sim, oras.

Significados… Você entende os significados? E quando você não deve entender os significados?

Bom, vou tentar seguir uma linha pra você entender o que eu quero transmitir aqui. Linha sim, linear. Mágico, não? Enfim, tudo começa quando alguém começa a comunicar-se com outro alguém ou coisa. Daí então o primeiro, ou seja, emissor da mensagem, lança artifícios comuns ao entendimento dele e do receptor da mensagem. Feito isso, têm-se uma linha comunicativa.

Mas pode ser que o emissor da mensagem não queria emiti-la claramente, explicitamente, por qualquer motivo. Então usa sinais! Ou codifica a mensagem de algum outro modo. Com isso o receptor, ao decifrar a mensagem em questão, não decifra só a mensagem. Mas sim chega mais perto ainda do que o emissor quis realmente transmitir.

Enigmas não são apenas diversões baratas. Todo enigma tem um significado tão valioso (ou mais) que o significado da própria mensagem. Talvez a mensagem seja meramente o enigma, ali, na frente. Olhando pra você esperando ser olhado de volta.

Olhe de novo.

Muito bem, nesse momento o emissor passa a mensagem para o receptor.

Suponhamos que o emissor seja a própria vida. Suponhamos que dessa vez a vida transmita algo bom em você, e você entenda claramente. Então o que fazer com o algo bom que você acabou de descobrir dentro das sombras? Guardar pra você e ser feliz conversando com paredes? Talvez transmitir o algo bom para outro alguém que você goste.

Então você, caro leitor e companheiro (e por que não professor?) vai até a pessoa e tenta transmitir a mensagem. Porém, sem perceber, a mensagem sai codificada. Não é sua culpa! Deve ser a euforia do momento, a tal felicidade, sabe-se lá. E seu receptor não entende nada. E você fica chateado por ter dentro de si algo bom e agradável pra passar à humanidade, e não conseguir transmitir.

Problema comunicativo.

A comunicação individual, segundo a analogia que tomei liberdade de fazer, é uma linha reta, p2p, como quiser chamar. A partir do momento em que se quer transmitir uma mensagem a mais pessoas, há uma quebra na linha e ela se divide em várias outras linhas menores, como num grande sistema multiplicativo de razão desprezível. Como a linha é menor e dividida, o transmissor da mensagem para várias pessoas deve ter um poder maior para transmitir, caso contrário a transmissão será fraca e inútil.

E o que acontece então se este mesmo indivíduo que quer transmitir a várias pessoas resolver codificar a mensagem? Eis um caminho complicado. Talvez se fosse algo ruim, pudesse se usar algum tipo de eufemismo ou coisa do tipo. Mas para coisas boas não são necessários tantos eufemismos, uma vez que boa parte da mensagem já fica codificada subliminarmente, sem que você note. Então seja claro. Pelo menos nesse caso.

Compartilhar coisas boas têm se tornado um fenômeno cada vez mais raro (principalmente quando alguém fica gritando no seu ouvido ou na sua janela querendo jogar sua concentração no lixo), então não há o que temer. Compartilhando bons sentimentos você não estará atrapalhando, e sim contribuindo. Talvez um sentimento agradável seja tudo o que você precise passar a uma pessoa para que o dia dela melhore. O ser necessitado não precisará de palavras vazias, e sim segundos preenchidos.

Simples e funcional.

Fechei os parênteses? Acho que não.

E nem fecharei. Até a próxima, galerinha do mal!

Grato!

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“Dê-me sua mão, por favor deixe aqui seus medos. / Vamos voar pois o passado nos espera. / Esqueça seu nome e abra seus olhos, / A mágica está feita.”

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