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Relógio Fotográfico – Penhasco Velho e Café Novo
O Relógio despertador parou bem em frente à minha luminária, às cinco horas e quarenta e nove minutos da tarde do dia dezenove. Percebi muitos minutos depois, provavelmente depois das seis. O tempo que passou, eu destinei a contemplar as almas todas que conheci na rua próxima à trigésima segunda.
Compartilhei como se compartilha o mate. Não era mate. Era dor.
Compartilhei com alguém que fui há várias décadas, através de uma antiga fotografia. Senti todos os pesares do passado remoto e recente, de uma vez. Não há o que posso dizer, senão apenas que doía como as agulhas do arrependimento.
Eu gostava tanto, e não podia ver. Eu nunca pude ver, eu nunca fui suficientemente digno para ver. Antes eram as bebidas, mas mal sabiam os juízes todos que o combustível do álcool não é o mal que me movimenta, mas a angústia que me sufoca. Mal sabiam os juízes que o que destruía não era meu coração, mas as leis, que sequer eram do mundo.
Depois do passado velho, veio o novo. E então meu pescoço era o pecado da sinceridade. Sei, e sei há tanto, que o sistema da civilização não permite a sinceridade. Não é educado pensar, não é de boa vista admitir o egoísmo e a hipocrisia. Antes de contar minhas versões, devia tê-las mandado a alguma censura. Algum censor sabe sempre contar melhor a história que o original autor… É assim que o sistema funciona.
Antes do café, foi meu filho que me foi tirado das vistas. Que sobraram foram apenas meras fotografias em mau estado. Eu o via como o sentido de minha existência, o porquê de cada dia ser ensolarado para meus pensamentos complicados. O resto todo da família, por outro lado, tinha medo. Uma criança não deveria ficar exposta tanto tempo a alguém que se recusou a perder o brilho dos olhos, a alguém que, mesmo havendo piso concreto, gostava de se sentar próximo aos barrancos e aos penhascos. É perigoso demais expor uma criança às vistas de todos os horizontes, então era melhor que meu filho pouco me visse.
Aos dias verdes, quem me era proibida era senão a mulher entre todas as mulheres. Conheci-a durante uma tormenta, dentre escadarias. Protegíamo-nos da chuva do lago. Dançamos silenciosamente através de todas as folhas e todos os gostos e todas as línguas, até as mais ásperas. Eu nervoso, anestesiado por dentro, com tanta ebriedade das ruas silenciosas. Ela certeira, direta, matematicamente eficaz. Erro, o pai de todos os acertos.
Aconteceu que eu sempre soube – e saber de tudo é um atalho bastante convidativo para a ruína de não se saber de nada – que o caminho dela já era traçado pelos mesmos juízes de outrora. Eu não constava nas três vias das duplicatas e das completezas e não tinha dinheiro para comprar alianças ou pratarias; eu não podia ser o futuro, eu não podia ficar muito próximo daquela que me fazia ver as cores, eu era muito egoísta para merecer as cores, e admiti minha condição.
Admiti a mim mesmo o que eu era, e o mundo voltou a ficar cinza.
Como podemos investigar a natureza das coisas com tanto afinco quando as respostas estão todas tão claras? Por que nos preocupamos em olhar a escuridão quando há tanta luz do lado de fora da janela? Por que a dificuldade das coisas parece sempre ser tão programada para massacrar a lógica mais simples de como o ser humano é por dentro de si mesmo? Quando as raízes do grande polinômio da existência são reveladas, não vejo motivos para descartar uma apenas por ser o oposto d’outra. Um sinal geométrico não pode ser mais bonito que outro. Eles se completam; não parece justo haver política até mesmo nas matemáticas.
Eu, no entanto, não sou um bom orador da justiça, posto que em muitos casos vejo a injustiça como sendo muito mais humana que uma suposta igualdade que faz sentido tão somente em discursos platônicos do século vinte e cinco, fora da realidade pacata do que somos de verdade.
Nos passados todos não pude ser o que sempre tive vontade de ser. Perdi meu filho tão amado e a mulher que colocava eixos coordenados perfumados e calorosos em meus passos bêbados perdidos. Nenhum deles morreu, e não haverão de morrer. Eu não os daria tal conforto, e a vontade de um é a vontade dos céus, mesmo que os céus sejam só de dentro da cabeça de uma alma solitária. Eu, por outro lado, fui levado até o asilo e à cidade grande, porém vazia.
Eu deveria ter sido esquecido, mas nem meu filho e nem minha dama jamais conseguiram se esquecer do que havia em meus olhos. Meu filho entendeu o porquê de eu gostar tanto da proximidade dos precipícios. Ele percebeu que só assim era possível contemplar melhor o horizonte do mundo.
Minha dama, e só minha, entendeu que o que é de todos acaba não sendo de mais ninguém. Entendeu que as letras de um são só as letras de um, e, mesmo que alguém as copie, não há como copiar uma idéia e mantê-la original. Uma vez feito, não pode ser desfeito, e a revolução não mora na reprise da História.
Apesar da terra, eu vivo. Apesar das palavras, eu escrevo. Apesar do mundo, meus olhos brilham.
- A. Guinelli; Iberia 1921.
O Líquido Etéreo das Probabilidades
Era o auge dos tijolos, diziam os anúncios. A cidade não cheirava mais café nem andava a carroça; as chaminés, pouco a pouco, tomavam conta dos corredores, e as casas pareciam caminhar até um lugar cada vez mais estreito e apertado, onde uns viam roupas dos outros.
A individualidade não mais existia, e assim parecia divertir-se nosso povo. As paredes eram avermelhadas e cinzentas… Era tanto monóxido que mal podíamos respirar. Mas era bom para o progresso, diziam os cartazes e os senhores.
Uma de nossas alternativas de diversão era aquela festa. Eu não podia ir, e isso se deve a uma longa história. Imagine-se sentado numa cama, enquanto observa, do outro lado do quarto, uma mulher a se vestir e a se olhar contra o espelho. Ela não sabe, na verdade, que você está em sua cama – não é uma história sobrenatural, nem nada parecido. É algo bem mais mundano e mais simples… Eu não sou tão pálido a ponto de ser confundido com um fantasma, afinal.
Mas ela se arrumava, e eu contemplava. Era um vestido claro, não muito rebuscado, – nossas terras eram calorosas em demasia – e havia um chapéu, ou uma boina, não sei exatamente o nome daquilo. Ao contrário do vestido, essa veste era de fato rebuscada e beirava o barroco. Por algum motivo, prendia-se bem àquela cabeça e àqueles cabelos longos e presos por dentro da boina. A maquiagem era, de certa forma, pesada, mas não tanto.
Havia certo odor de chuva ácida ao ambiente, mas ela usava um perfume único. Não sei definir o cheiro, mas era agradável e notavelmente marcante.
Cerca de sete da noite, dizia o relógio atrasado. A porta de madeira se abria e ela saía de casa. Acompanhei-a, em silêncio, como fosse um psicopata que observava cada detalhe daquelas veias expostas e lisas e brancas. Minhas roupas são irrelevantes – eram até antiquadas.
A festa em questão ocorria de ano em ano, e todo aquele bairro carbônico se vestia e se disfarçava. Esse ano, porém, ela não iria sozinha. Havia um homem de boa família que ela conhecera, era parente de militares. Homem forte, trabalhador e com muita escolaridade, e as pessoas todas o viam com bons olhos pela sua simpatia. Eu, particularmente, nunca gostei dele. Mas sou apenas um psicopata seguidor, então tentarei não dar detalhes tendenciosos.
Encontraram-se num ponto desativado por onde, antigamente, passava um trem. A cena toda é úmida de ácido, escurecida, borrada. Deram-se um beijo de encontro, entrelaçaram as mãos e caminharam em direção as luzes.
O rosto dela trazia um semblante comum, satisfeito. O dele trazia sobrancelhas cerradas, e um riso estranho. De qualquer forma, também parecia satisfeito com seu feitio. Era um conquistador nato, de qualquer forma, e assim comentavam as madames do bairro, cheias de orgulho.
À festa, todos bebiam cachaça. Era a bebida mais fácil de encontrar, e agradava as multidões. Litros e litros de aguardente da pior qualidade, com um leve gosto de fumaça industrial. Bebiam e brindavam à revolução, a utopia se aproximava. Claro que essa utopia teria suas desventuras ao caminho, mas era tudo para um motivo maior, uma razão maior. As lutas de classes ficavam de lado nessas confraternizações; todos tinham preocupações, elas não deveriam entrar lá.
Era um lugar aberto, tudo bem. Um pátio industrial que já era obsoleto, e se enfeitava todo. Luzes, máquinas experimentais, e um plano de fundo com gigantes funcionando o dia todo. Havia pessoas lá? Era tão orgânico a ponto de não precisar de gente?
Não importa. A festa continuava. Não lembro que tipo de música ecoava; talvez fosse músicas novas de uma nova madame da época. Não sei seu nome correto, mas era tal que usava frutas por cima do chapéu e dançava efusivamente pelas escadas… Algo muito original, devo admitir.
O que acontece é que ela, a que eu seguia em silêncio, também dançava nessa época. Não efusivamente como a tal madame, mas sinceramente. Suas curvas, apesar de bem escondidas, me encantavam. Ela desfilava entre os normais e despertava admiração por parte de todos os homens e mulheres de bem.
Do outro lado da festa, outro cavalheiro caminhava sozinho. Usava-se de um chapéu preto, roupas pretas, cabelo relativamente longo e preso. Não estava interessado em nada, mas também ficou fascinado pela nossa senhorita. Postou-se a observar, como faziam todos, no que ela o viu, e seu rosto a agradou.
Consegui perceber claramente quando ela levantou a sobrancelha esquerda, com um olhar enigmático, em direção ao rapaz. Foi que, nesse momento, o homem que acompanhava a moça – aquele forte e trabalhador – também viu claramente. E decidiu, portanto, que era hora de partir.
Chamou-a, e ela concordou que deviam ir até um lugar mais reservado. Foram entre dois tanques de óleo da indústria.
A cena ficava cada vez mais escura, e já não conseguia ver nada – estava eu enfiado entre duas saídas de gás, com dificuldades para respirar, e sem poder fazer qualquer barulho. A moça e o homem começavam a se espremer entre os tanques e se sujavam e se lambiam e se animalizavam e se devoravam. O homem possuía e ela cedia, pouco a pouco. Ninguém estava vendo, não havia problemas.
Num dado momento, quando ela já não tinha mais forças, o homem ainda estava em pé. Segurou-a pelo pescoço. Ela ria, pensando ser uma brincadeira, mas não era. Ele apertava cada vez mais, e ela começava a reclamar de dores.
Ele fingia não ouvir.
Depois de trinta e sete segundos, ele a jogou entre os tanques. Começou a chutá-la com sua botina de parente de militares. Depois, levantou-a segurando pelo vestido, e começou a dar socos e cotoveladas em seu rosto. Ela chorava e tentava gritar, mas não conseguia. Era pequena, perto dele. Não tinha como se defender, apesar de não ser fraca.
Ele rasgou uma parte do vestido, pegou-a o chapéu, começou a pisar naquilo tudo, cuspia, esbravejava.
Pediu desculpas e foi embora.
Ela continuava lá, no chão, destruída, melada com o líquido etéreo das probabilidades e com o óleo sujo dos tanques; cheirava a monóxido de revolução. Eu também continuava ali, entre os gases, apertado e preso dentro de minha moralidade.
Ela não podia me ver, mas eu a via. Queria estar com ela, não só por causa da aparência e das curvas.
Apesar de tudo, ela sabia o perigo que corria com tal bem aparentado homenzarrão. Ela sabia perfeitamente, mas gostava de se esquecer e ouvir a música e olhar para os rapazes que usavam chapéu preto. Aquele, aliás, ainda a veria no próximo mês, e os dois talvez se gostassem por um tempo.
Mas acontece que as pessoas não são donas de outras pessoas, e não conseguiam perceber isso aqueles ratos todos, morando dentro de gaiolas de tijolo, sendo alimentados com queijo estragado. As utopias sempre terão suas desventuras, sejam elas a falta de champanhe ou a falta de senso.
Eu não sou um psicopata.
Síntese do Comunicador Disponível
O céu estava estranhamente estrelado. Nuvens, uma ou duas, pequenas, nem assustavam. A temperatura também deveras agradável. Ventava uma brisa bem calma e um pouco gelada, mas apenas o suficiente.
Eu, quarto, lamparina. Talvez as elfas e esses outros seres estivessem fazendo algo melhor enquanto eu ficava ali contemplando as sombras minhas lambendo a parede. Os dedos pareciam aranhas, quando olhados de longe. Para onde elas escalavam, não sei. Mas provavelmente eram venenosas. Muito.
As pernas, como de costume, inquietas. Um pouco de suor pelo rosto, mas só um pouco, e era só suor, dessa vez. Salgado.
Acabou a água, acabou a comida, estava eu à mercê do vento. Todos os dias choveram, menos hoje. Um tanto estranho. Hoje sou só eu e o quarto. E hoje a temperatura é agradável, o céu é agradável e tenho certeza que as ruas estão seguras do lado de fora.
Mas estou do lado de dentro. Junto com as aranhas.
Algo também intrigante é notar que há luzes no teto, mas não as uso. São amarelas. Por isso a luminária veio a calhar. Mesmo sem elfas. Um foco de luz, não muito intenso, mas o suficiente para iluminar todo esse… Sistema…?
À minha esquerda, também, pernilongos, mortos. Três deles, devidamente secos pelo tempo e pelo ar que eu mesmo tratei de respirar. Havia outro, maior, no chão. E ele sumiu, não sei como. Mas, ao menos da última vez que o contemplei, estava como deveria estar: morto.
Acabaram-se, ainda, as roupas. Estas são as últimas. Considero deixá-las ao Sol para que saia todo o cheiro de suor que se acumulou por esses meses. Mas algo estupra minha mente dizendo, a todo instante, todo simples instante, que quando eu for fazer tal experiência o céu fechará e a tempestade voltará.
Porque aqui não mora mais ninguém, mas é sempre bom trancar a porta.
Algumas coisas piscam e se arrastam pelo céu, não faço ideia de onde vêm, para onde vão, o que são, se são ao menos desse mundo. Antigamente o mundo era só a Europa, afinal.
Níveis por dentro de níveis. Lugares cada vez mais vastos a se explorar, castelos cada vez mais difíceis de se entrar. E uns livros velhos com caracteres bizarros e um tanto arcaicos para minha compreensão. Alguém grita… Ou foi a parede?
E agora era a luz. Um barulho, rápido, não muito estrondoso, mas persistente. Um loop. E de repente sou invadido por um pedaço de noite, ou parecia. Era um grande maço negro, que de repente foi se abrindo como um átomo e suas partículas. E então percebi: moscas. Moscas, muitas delas. Asquerosas. Quer dizer, uma ou duas não fazem mal a ninguém, mas eram centenas. E elas moraram todo esse tempo em cima de minha cabeça, tramando todo o ataque. Nunca havia sequer notado o barulho delas.
Senti como se elas morassem dentro de meus braços. Dentro das veias, ovos, larvas, brotando, germinando, rastejando pelos músculos e pelos nervos, pressionando, contraindo, surfando, comendo, vomitando, apalpando cada célula. E depois saindo pelas minhas narinas num grande exército.
Mas o máximo que pude fazer, ao vê-las todas tomando conta das paredes brancas e riscando todas elas, foi pegar a lata com um resto de inseticida. Tinha pouco, senti, deveria ser bem usado. Apontei aos blocos mais condensados. Moscas caindo aos meus pés, como servos que caem aos pés de seus senhores, como religiosos caem aos pés do templo, como os apóstolos aos pés do Messias.
Moscas, e muitas continuaram vivas. Creio que maioria delas. Creio não. Era visivelmente a maioria delas. Para cem que morriam, mil voavam. E estavam voando por todo o quarto, tapando e limitando a visão, comendo os livros, comendo os documentos, comendo tudo o que encontravam. Mas eu estava inteiro.
Por que estive inteiro todo o tempo observando as moscas? Algo disse, entre o barulho das asas de cada inseto, que eu era irrelevante. Eu não tinha tanta importância assim para o que importava a mim. Era irrelevante até para as moscas. Elas podiam comer dicionários e televisores, o que era eu, senão um espectador?
Acabou o veneno. Malditas. Teria de comê-las, se quisesse me livrar delas. Ou abrir a janela, mas, por algum motivo, essa ideia não me veio à mente. De fato foi a última coisa que pensei: abrir a janela. Comecei a comê-las todas. Em blocos. Gigantescos. Cinquenta por vez, mais ou menos. Não tive tempo nem sobriedade para prestar atenção no gosto delas. Apenas fui comendo, vendo meu universo trancafiado ficar cada vez límpido… Não exatamente límpido, mas sem tantas moscas.
Havia muitas e muitas moscas.
A síntese. Análise. Análogo. Peço, meus caros viajantes, que me mandem relatórios concretos, e menos propagandas. Tenho recebido, em minha caixa, mais e mais encaminhamentos, e apagá-los todos é maçante.
As aranhas continuam na parede. Dentro da parede, e fora. Ao mesmo tempo. Como a sombra fosse uma dimensão paralela, e a luz idem. Estamos na luz, na sombra ou na penumbra?
Ajuste Das Freqüencias
Tempo, seus crepúsculos e cores monocromáticas para quem não sabe ver. De certa forma, não causa surpresa descobrir que, em meio a tantos prédios e tantos padrões b/w, alguns tinham iluminações d’Outros lados, e viam cores que não podiam ser vistas do lado de fora da janela. O relógio da catedral parado, mas com alguma graxa e alguns parafusos talvez volte a badalar.
Estava perdido. Dias e noites escorregavam diante minhas pálpebras, a Lua se encaixava no topo do meio-dia, o Sol queimava árvores às três da manhã… E nada parecia concordar. Os ritmos eram igualmente quebrados, os compassos irreconhecíveis, caóticos e agonizantes. Tanta tormenta tilintando por tais diante de portas partidas e ríspidas, raquíticas perturbações e partes cartesianas, turvas. Num instante a porta explodia, e no outro os sussurros da silvestre ninfa sarcástica assoviavam a sabedoria: Sartre, Simão, sangue, surto, cessavam ventos os muros.
Duas. Não consigo recordar se manhã ou tarde, apenas duas. Também devia ser algum lugar cartesiano situado bem ao meio do plano dos doze. Contemplávamos hipérboles e constantes, serenamente projetadas na mesma dimensão que nos apoiava sobre nossos pés. Uma dádiva, presente de alguma estranha entidade. Complexa e, por algum fator, extremamente amável.
Escorregando as mãos pelos tijolos, dos lados das hipérboles apareciam parábolas, retas, pontos, degraus e intersecções: podíamos pisar sobre o eixo das abscissas, víamos ao topo a marca das coordenadas. E tudo fora uma singela dádiva para os únicos malucos que ousavam desafiar a temperatura e permanecer vivos.
Além de mim, três: a Dona dos Relógios, o Senhor das Falas Mudas e, logo ali adiante, alguém com uma garrafa em mãos deslizando sobre as formas como se fossem rampas de neve. À tal altura, as navalhas já pareciam querer penetrar ainda mais fundo a epiderme… O tempo caía, eu tremia.
Descrente de qualquer próxima possibilidade, lembrei da pré-história e de todos os rituais para se conseguir calor com outros corpos. Para não congelar, alguns povos vivam mais próximos, utilizavam-se do calor tanto de semelhantes quanto dos demais animais (uma vez que poucos sabiam evocar o fogo), e então estendi minha mão.
Enquanto toda aquela história de eletromagnetismo era dobrada pelo momento, sentia como o tal calor fluía entre as mãos e braços, entre boca e pescoço. A Catedral estava encoberta por árvores, então não consegui ver com exatidão quantas horas eram… Entretanto, minha vontade é que o relógio santo ainda demorasse muito para outra vez badalar. No instante, mesmo sem saber, um outro relógio trepidava, pulsava, cheguei a ouvi-lo: os mesmos rios de outrora, que ainda corriam quentes por dentro das cavernas; agora não estava frio, mas eu ainda tremia.
Um brilho novo se fez além da carruagem quebrada. Creio que outro conhecido alquimista, nessa mesma equivalência, descobrira o elixir que tanto procurara entre livros e manuscritos e serpentes e caveiras. Uma mesa, uma fogueira, uma floresta. Palavras divinas, ruídos, vinho e alaúde. O ciclo conseguira ajustar o relógio depois de tanta demora.
Entendimento e Compartilhamento de Linhas
“Ninguém entende e, no fim, quem não entende sou eu!”
Eis, amigos, um texto que fiz a poucos instantes, inspirado pelo vício de escrever subjetivamente.
Abre parênteses.
Hoje, primeiros momentos do segundo dia do ano, vou dizer um pouco sobre significados. Por que significados? Porque sim, oras.
Significados… Você entende os significados? E quando você não deve entender os significados?
Bom, vou tentar seguir uma linha pra você entender o que eu quero transmitir aqui. Linha sim, linear. Mágico, não? Enfim, tudo começa quando alguém começa a comunicar-se com outro alguém ou coisa. Daí então o primeiro, ou seja, emissor da mensagem, lança artifícios comuns ao entendimento dele e do receptor da mensagem. Feito isso, têm-se uma linha comunicativa.
Mas pode ser que o emissor da mensagem não queria emiti-la claramente, explicitamente, por qualquer motivo. Então usa sinais! Ou codifica a mensagem de algum outro modo. Com isso o receptor, ao decifrar a mensagem em questão, não decifra só a mensagem. Mas sim chega mais perto ainda do que o emissor quis realmente transmitir.
Enigmas não são apenas diversões baratas. Todo enigma tem um significado tão valioso (ou mais) que o significado da própria mensagem. Talvez a mensagem seja meramente o enigma, ali, na frente. Olhando pra você esperando ser olhado de volta.
Olhe de novo.
Muito bem, nesse momento o emissor passa a mensagem para o receptor.
Suponhamos que o emissor seja a própria vida. Suponhamos que dessa vez a vida transmita algo bom em você, e você entenda claramente. Então o que fazer com o algo bom que você acabou de descobrir dentro das sombras? Guardar pra você e ser feliz conversando com paredes? Talvez transmitir o algo bom para outro alguém que você goste.
Então você, caro leitor e companheiro (e por que não professor?) vai até a pessoa e tenta transmitir a mensagem. Porém, sem perceber, a mensagem sai codificada. Não é sua culpa! Deve ser a euforia do momento, a tal felicidade, sabe-se lá. E seu receptor não entende nada. E você fica chateado por ter dentro de si algo bom e agradável pra passar à humanidade, e não conseguir transmitir.
Problema comunicativo.
A comunicação individual, segundo a analogia que tomei liberdade de fazer, é uma linha reta, p2p, como quiser chamar. A partir do momento em que se quer transmitir uma mensagem a mais pessoas, há uma quebra na linha e ela se divide em várias outras linhas menores, como num grande sistema multiplicativo de razão desprezível. Como a linha é menor e dividida, o transmissor da mensagem para várias pessoas deve ter um poder maior para transmitir, caso contrário a transmissão será fraca e inútil.
E o que acontece então se este mesmo indivíduo que quer transmitir a várias pessoas resolver codificar a mensagem? Eis um caminho complicado. Talvez se fosse algo ruim, pudesse se usar algum tipo de eufemismo ou coisa do tipo. Mas para coisas boas não são necessários tantos eufemismos, uma vez que boa parte da mensagem já fica codificada subliminarmente, sem que você note. Então seja claro. Pelo menos nesse caso.
Compartilhar coisas boas têm se tornado um fenômeno cada vez mais raro (principalmente quando alguém fica gritando no seu ouvido ou na sua janela querendo jogar sua concentração no lixo), então não há o que temer. Compartilhando bons sentimentos você não estará atrapalhando, e sim contribuindo. Talvez um sentimento agradável seja tudo o que você precise passar a uma pessoa para que o dia dela melhore. O ser necessitado não precisará de palavras vazias, e sim segundos preenchidos.
Simples e funcional.
Fechei os parênteses? Acho que não.
E nem fecharei. Até a próxima, galerinha do mal!
Grato!
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