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Conceitos Ópticos – Grand Finale
O Sol estava se pondo e eu ainda não sabia quanto tempo havia se passado. Talvez fossem alguns anos, ou então alguns segundos. Vi o Triângulo se dissolver entre as linhas azimutais, entre as fendas rasgadas em azul pude sentir como as matrizes eram desorganizadas, caóticas, mas conforme eu as via de perto, ficavam cada vez mais organizadas.
Talvez haja uma constante para tudo isso, como disse uma voz em minha mente algum dia. Talvez as integrais tenham algo a ver, talvez em Julho.
Do mundo em que nós pisamos vemos tudo àquilo que nos é real. Real para alguns, imaginário para outros; não temos a certeza de que o que vemos na verdade existe. Pode existir.
O fluxo volta de tempos em tempos, e quanto mais se tenta afastar, mais próximo ele fica.
Mesmo céu…
Mesma cidade (embora em cidade diferente)…
Mesmo bairro…
Mesma quadra…
Mesma Rua…
Quem sabe até na mesma casa.Tudo existe porque é observado.
E você está observando agora.
Não porque isto exista.E sim porque você existe.
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Tr-Wx
Outra vez eu pensei. E abri meus olhos outra vez, para o mesmo começo, para o mesmo fim. As portas abriam e fechavam, contraíam, pulsavam, distorciam; vento. Folhas insaturadas voando por todos os lados, uma brisa um tanto quanto forte, e parecia-me agradável naquele momento.
Não conseguia ver o Sol, não podia imaginar que horário era, parecia seis da manhã, o céu cinza, mas eu sentia falta daquela coloração laranja, avermelhada, qualquer coisa assim, acima de mim. Era cinza, como todos os outros dias.
Mas eu não sabia que horas eram.
Longe, horizonte.
Eu tinha de ir até lá.
Rachaduras enraizando-se, não sei como achar versos para isso. Eram raízes de concreto. Subindo e descendo pela avenida vazia. Abaixo do céu cinza.
E parecia se distorcer ainda mais enquanto eu me aproximava. Eu não tinha o ponto. Eu tinha apenas a certeza. Eu era o único ali, aquilo era para mim, só para mim. Pra mais ninguém.
Radiantes tempestades, diria eu.
Parecia mais uma tempestade solar.
E se contorcia e dançava, em compassos
Desconexos.
Por uns poucos milionésimos de segundo eu pude ver algumas cores. Antes só havia a escuridão, trevas supremas. E num instante inexplicável um quasar; um clarão. Tudo o que eu pensava saber era esquecido lá. Eram grãos de areia, todos formando Universos. Cintilava à minha frente. Cintilava aos meus olhos.
II
A janela estava entreaberta, eu queria olhar pra fora e não conseguia. Eu tinha medo de olhar para o espelho. A janela era o espelho. Eu não podia.
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(…) Preferi ir andando, e não correndo. A brisa gélida contrastava com aquelas cores que saltavam da artéria. Era sangue, mas não líquido.
Era uma equação absurda, um sistema absurdo, tudo parecia absurdo, totalmente absurdo. Eu estava dormindo, aquilo era irreal.
E a cada segundo a artéria ficava mais próxima, jorrando seu sangue lúcido para as atmosferas de seja lá o que exista. (…)
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III
Por que tão longe, eu pensava. Era uma distância perturbadora. Doía mais que as agulhas. Doía mais que os tiros e os estigmas. Era muito longe, embora eu soubesse que reclamar era uma das minhas especialidades, enquanto resolver não era um dos meus dons. Eu preferia reclamar.
Mas era muito longe para eu pensar em me contradizer logo ali. Eu precisava repetir. Não contradizer. Ninguém parecia ler.
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(…)
Numa noite dessas,
quando você já não vê suas mãos e braços,
quando o escuro ronda todo o seu corpo,
quando os campos de morangos dormem.
Então o que atormenta não é o barulho do trovão fora do quarto.
Mas dentro.
Suas histórias são histórias.
Suas verdades são mentiras.
Qual seu mundo, afinal?
(…)
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IV
As vozes. Outra vez e outra vez. E faltava-me imagem cicatriz.
Cicatriz; pelo menos era o que me vinha à cabeça. A artéria, até então aberta, cicatrizara. E eu sequer cheguei a tocá-la. Por baixo do asfalto só mais asfalto podre e velho. Sem artérias, sem vazios, o asfalto.
Um escolhido, diria Sereno, deve saber o momento de encerrar sua jornada. Herman completaria, incansável, dizendo o quanto a Lua parece ter ficado monótona para quem não consegue mais vê-la quando ela está cheia brilhando no céu.
Não.
Grand finale, ouvia. E então acordei. E vi acima de mim o céu. Bem como estava até ontem.
Ela se veste de preto, todos os dias no mesmo horário. E eu vejo o brilho de seus olhos, ela nem se lembrava de mim ontem, mas eu também nem sabia o nome dela.
Eu dizia todas as futilidades, e os olhos dela jamais deixavam de brilhar para mim. Era uma orquestra sinfônica muda, também não precisava de notas, oitavas, afinações, eu criei tudo aquilo, e essa era uma das minhas criações mais belas e inspiradoras.
Era um brilho que não consigo descrever sem ficar com os olhos um pouco marejados. Eu sei que ela vai voltar hoje, no mesmo lugar, com os mesmos olhos para meu Mundo. E mesmo assim, tão longe.
Pareciam quilômetros, mas se eu estendesse minha mão eu a alcançaria. Além de qualquer partitura, além de qualquer parágrafo, qualquer pesar, ela não existia.
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Um lago. Um dia…
Curto-Circuito
“A vida é muito complicada, e os filmes também deveriam ter o direito de ser.”
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Duas e meia da manhã, mais ou menos, preciso regular outra vez meu relógio biológico, semana que vem procurarei um outro lugar pra me abrigar, esse aqui não vai durar muito tempo, embora seja tão bom e confortável, eu sei que não é pra sempre, o paraíso não é para sempre, a vida não é para sempre… Terei de me contentar com a nostalgia mórbida sobre esse lugar, que me abrigou da chuva, fez-me olhar tudo de longe mas tão perto, fez-me perder medo de algumas coisas e ficar com medo de outras, espero que toda essa construção ainda fique em pé depois de minha ida.
Não vou para muito longe… Talvez para o próximo quarteirão, não conseguiria ir para um lugar completamente novo sem ver o antigo.
Derretendo o plástico, talvez a luz esteja acesa, ou apagada. Não sei muita coisa aqui, não sei se vou conseguir escrever alguma coisa outro dia, não sei mesmo se a luz está acesa. Ela pisca. Nunca tive tanto medo de ficar sentado, nunca em toda a minha vida.
Vejo algumas coisas, mas não sei mesmo se as vejo. Eu quero não ver, elas simplesmente vêm em minha mente, não consigo controlá-las. Sou coagido.
Tantos caminhos e pareço estar encurralado. O limiar entre algo que não conheço e algo que tenho medo de sequer pensar que existe. Mas eu sei que está lá, olhando pra mim, me esperando. Uma hora eu vou saber de qualquer forma, só não estou preparado.
Tento agora me perder em acordes, escalas, ruídos, mas todos eles parecem estar conspirando. Eu não devia estar tremendo agora, não deveria ver tantas luzes piscando, não deveria, não está certo, não sou um prisioneiro, não sou um herege.
Era um monstro. Um monstro.
Não era de carne e osso, talvez fosse, mas era um monstro.
Por que eles gostam tanto de julgar quem destrói um monstro interior, e não se preocupam com tantas outras aberrações que eles mesmos criam?
Em minha confusão eu escrevo, não consigo dormir, falta tão pouco…
Gostaria de ler tudo isso, mas não terei tal oportunidade, eu escrevo e poucas vezes leio o que eu mesmo escrevi. Faço toda uma peça, e não vejo-a funcionando. Sempre foi assim.
E quando eu resolvi abrir as cortinas para o banho de sangue falso, as luzes de minha casa, de toda a cidade, começaram a entrar em frenesi.
São segundos, minutos, milésimos, talvez já tenha tudo ocorrido, cada dor, cada prazer, tudo tão falso e real, raios, sacadas, janelas, água.
Pessoas olham perplexas.
Eu sei.
Telefones, ouço gravações. Parecem me aproximar daquele mundo velho e civilizado, com pessoas se comunicando, agora tenho gravações para ouvir e pensar que estão acontecendo agora, uma doce ilusão.
Sempre gostei de ilusões.
Inserir referências.
Hoje eu acordei, minha casa nunca pareceu tão aconchegante. A luz do Sol entrando pela janela nesse céu cinzento me inspira, tem algo que possa iluminar sem toda aquela angústia de luzes piscando rapidamente e ocasionalmente queimando. Pessoas na sacada, fumaça da industria, e tudo parece tão bom e tão confortável. O sol é amarelo, pelo que eu aprendi nos livros, mas tudo é cinza. Mas é tão bom mesmo assim… Hoje eu acordei. Hoje eu acordei. Hoje eu acordei.
Hoje eu acordei.
Hoje eu acordei.
- S, H. Prypiat, 13 de Julho. 1907.
Caro viajante, fiquei um tanto quanto atônito quando pensei sobre a falta de memória. Pode ser mais grave que parece. Ouvi dizer que formigas fazem bem à memória, mas nunca fiz um banquete com elas pra saber. Talvez façam bem pra memória mesmo, talvez.
Caso alguém possa afirmar com maior certeza, deixe comentário, terei prazer em ler.
Nesse momento procuro memórias de cartas recebidas de um velho amigo meu, quero achá-las e colocá-las aqui. Mesmo que eu só tenha uma sobrando, de inteira.
Grato!
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