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Página Dezenove

Eis que procurei dentre meus livros e não achei; ainda não posso olhar diretamente para as folhas em que faço as traduções. Não são palavras só minhas, e são, ao mesmo tempo, as mais sinceras que me saem. De qualquer forma, sei que ao escrever não sou só eu. É mais gente, e mais gente, e mais…

E tanta gente se manifesta agora na forma de uma só outra. Meu rosto arde, mesmo que seja só eu e o papel e a Lua que se esconde por trás do concreto e das grades de aço.

Eu que rastejo ainda não consigo fixar meus olhos por muito tempo em belos outros sem sentir a lareira se aconchegando cada vez mais quente.

O céu me prende em sua ilusão real; eu, ébrio, apenas escrevo.

Das páginas, separei uma.

Não havia contas, nem enunciados. Não havia algo matematicamente coerente, mas era a página que devia ser. Nela um texto que sequer conseguia passar da metade. Muito, perto de minha imaginação tempestuosa, que mal consegue escrever uma frase completa quando pensa demais em quão fantástico são os contos que aparecem por acaso numa praça abandonada por onde ainda insisto em criar formas e octaedros e cores com minha incerteza.

Faz quanto tempo? Um mês? Mais? Menos? Tanto faz o tempo, afinal.

Olho para o relógio, uma vez, contra minha vontade, e descubro que há poucos ciclos de radiação pra tanta tarde. Uma tarde onde o céu é extremamente azul – e mesmo o céu cinza é mais vívido que o nublado comum; o vento é agradável – mesmo o mais árido; e as outras cores, e as formas desfocadas, e tudo.

Sempre há muita tarde pra pouco tempo.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Bebi a bebida das décadas e descobri ser das mais alucinógenas. Era como café, tinha cheiro de café, tinha gosto de café… Até cheguei a acreditar que poderia ter sido café, mas então pensei melhor e postulei que de fato era algo muito mais transcendental. Havia bebido tantas vezes e ficado acordado tantas noites… Por onde havia eu me esquecido de adentrar à porta?

Em poucos segundos vi o vento arrastando os prédios e me colocando num deserto gigantesco, dentre velhas casas, a contemplar, bem onde a linha do abismo encontra o céu, um gigantesco castelo, cheio de passagens secretas, e livros, e bibliotecas, e tecnologias não desvendadas, e túneis, e salões…

Começou a chover.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Ao ler as memórias daquele que precisava ser transcrito, percebi o cheiro sendo entoado pelo caos. Era chuva, e era da mais pura que há eras não adentrava o edifício que tomei por base nos últimos meses. Do lado de fora não havia mais Sol, nem Lua. O céu era uma gigantesca nuvem escura. Cá dentro apenas meus transmissores, minhas válvulas, minha eletricidade que emergiu do éter como fosse conduzida numa sinfonia. A natureza é os instrumentos. Apesar dos bulbos, acendi uma vela.

Tentei, num segundo de delírio e inocência, encostar meus lábios nos da chuva que repentinamente se formara na cidadela, mas ela era mais sinusoidal que meus artifícios, e fingia fugir mesmo já estando tão cheia de poeira minha como eu estava d’água dela.

Percebi não ser uma fuga, afinal – era uma dança. A chuva ali estava, com suas formas abstratas e sedutoras, me chamando para a dança das décadas… E fazia um bom tempo que eu procurava tão digna companhia.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

Minhas imagens sempre são dos pássaros por cima do âmbar, contornando, riscando, como fossem arranha-céus em outras dimensões que não as horizonte-verticais. Um modo novo de descrever tudo, enquanto repousam; fossem notas musicais numa partitura de entrelaces elétricos, ao arrastar das vozes criptografadas. Quando entrei no cheiro da chuva, entretanto, não eram os pássaros que fluíam com os elétrons. Quem voava era eu.

As gotas persistiam, curvilíneas. O céu, mesmo cinza, continuava mais cheio de cores que o comum – parecia que, desta vez, não era só um cinza por cima de outro, mas um cinza pintado sobre o azul radiante do universo, com a mesma intensidade do Sol que marcava os pontos de encontro das civilizações passadas. O sistema solar, inteiro. E tudo parecia pouco perto da existência e da dança e da música.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

É muito além de uma página. O horizonte é como se estivesse cheio de segredos prontos para serem descobertos ao se despir lentamente a realidade. O tecido fino e suave, pronto pra ser rasgado sutilmente, num momento inesperado.

Antes que eu pudesse escrever qualquer esboço de palavra, os rios elétricos que vinham do céu fizeram os círculos e marcaram com anagramas todos os blocos de pedra e todos os casebres.

Depois que as décadas se amontoaram e se mostraram e se escorreram, vi uma silhueta emergindo em meio à chuva, e tentei agarrá-la.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. III, excerto.

Todas as décadas colidem dentro da garrafa das improbabilidades – a bebida mais forte; um mar de infinitos, série tão complexa e não-linear que as próprias bases da matemática se renderiam e se curvariam perante a dança das folhas.

O fogo, agora azulado, se curva por dentro de um dos pedaços de titânio, e marca o tempo da madrugada.

Um respingo atinge meu braço.

Deserto IV

O deserto continuava, e todas aquelas pessoas buscavam a Santa Montanha que guardava a Cidade Prometida. Era então o sétimo ano a partir do começo da década, e a caminhada estava em seu ducentésimo qüinquagésimo sétimo dia, à trigésima sétima semana.

Eram milhares que caminhavam, e a água já estava em suas últimas gotas. Mães e pais preferiam passar fome e alimentar seus filhos, os quais não eram poucos. Quando algum dos peregrinos perecia, sua carne era servida como alimento a todos os outros. Nem doenças nem vermes adiavam tal ritual, era uma questão de sobrevivência.

Mas todos tinham convicção de que a montanha chegaria, e assim diziam todos os líderes que por ali mandavam. Um partia, então outro se erguia, e assim num ciclo infinito até que a montanha apontasse, tal qual templo, em meio à areia.

O sol queimava a pele, os olhos, as retinas, os cabelos, as cordas vocais – as noites congelavam, sem piedade, todos eles sem cobertores. As pedras faziam suas sombras aconchegantes do outro lado da caminhada. Os peregrinos eram castigados todos os dias, desde o começo.

Mas a montanha haveria de chegar.

Neste dia, porém, o sétimo círculo celeste, próximo à constelação das quinze estrelas, tornou suas engrenagens, e a vontade divina lançou a praga das pragas, que, desde o início do milênio, era tão ansiosamente esperada.

A montanha se erguera, repentinamente, do dia para a noite – “um milagre”, clamavam os fiéis. Rezas, oferendas, até a fome e a sede ficaram em segundo plano com tal visão. Como feita da própria pedra que dera origem a toda a areia de todos os desertos, era avermelhada e seca.

Subiam todos os milhares, abraçavam o chão, beijavam as pedras, e pedras gigantes se revelavam escondidas entre os vales.

Longe dali, em Roma e no Egito, os imperadores recebiam a notícia, e já sabiam o que aconteceria depois.

As pedras gigantes do deserto começaram a ranger, e os peregrinos entoaram, num acorde, o mais profundo dos silêncios humanos já descritos nos livros do Mar Morto. Iria revelar-se, enfim, a voz daquele das quatro letras capitais impressas em ouro.

Mas a única frase não foi dita por Ele, e sim pela própria pedra.

“Tolos – não precisam vocês saberem meu nome para entender quem sou eu.”

Nisso, o ranger vocal deu lugar a um ranger aracnídico. Era como se as vísceras das pedras estivessem funcionando e digerindo a própria areia. Então, infinitésimos de buracos começaram a surgir entre as pedras, e, deles, apontavam pequenas, e extremamente venenosas, as aranhas da maldição.

Todas as pedras, desde as pequenas como um grão de mostarda, até aquelas do tamanho de cidades inteiras, estavam ocas, preenchidas por universos de aranhas, que aos poucos saíam, forravam todo o carpete desértico, subiam por pessoas – homens, mulheres, novos, velhos, crianças, doentes, santos, pecadores – e despertavam urros e dor suprema e mortes lentas e dolorosas. O veneno era o mais ácido de todas as criaturas, e o castigo era pior que o de todos os marqueses e condes da História.

Havia, também, Roma e Egito.

Décimo Sétimo ano da Graça das Quinze Estrelas da Manhã – O imperador disse suas vontades, e então partiu, não sei aonde, mas disse ele algo relacionado ao trigésimo faraó supremo das pirâmides. Abençoou-nos, servos, posto que sempre fora o mais justo dos imperadores que estas colunas gregas já presenciaram. Seu barco continua ao porto, suas vestes continuam ao quarto.

Disse-me, neste último crepúsculo, que a vontade das vontades havia chegado. Todas essas paredes brancas feito neve não durariam sequer mais um ciclo d’água. Todas elas, desde as feitas com a mais maciça das pedras, estariam tão ocas quanto uma flauta florestal. Por dentro delas, nem pedra, nem areia, nem água nem ar nem som. Aranhas, mas não aranhas comuns. Talvez a única semelhança com as aranhas que conhecemos fosse o fato de terem oito membros. Estas trariam uma dor nunca antes descrita, um veneno nunca antes imaginado, uma tortura nunca antes pregada.

Nem ele, o nobre imperador, nem o supremo faraó do Egito, nem nós, servos, nem nossas mulheres, tão pouco nossas crianças, seríamos justos e bons suficientes a ponto de sermos perdoados da tortura. Deveríamos todos provar do cálice da dor, e, só depois, poderíamos ser julgados pelos atos feitos em vida.

É um preço a se pagar quando se rouba as correntezas dos rios e a pele das árvores, disse.

- MARCUS (ATL XVII), Ano 17 do Templo Prateado

Aqueles que ainda não haviam sido picados choravam, aos prantos, pois sabiam que não havia escapatória. Estavam cercados pelo rio de aracnídeos e de veneno. A praga acontecia ao mesmo tempo em todos os tempos, em todos os ventos. A humanidade era una, e assim era seu castigo.

Então parece que chegamos ao limiar de nossa loucura. E digo isso por mim mesmo. Tive de ir estudar ontem à noite, uma idéia fantástica surgira em minha mente, eu precisava do laboratório.

Fiz o caminho de sempre, e cheguei à praça do círculo central. Lá, para minha surpresa, notas e mais notas de dinheiro ao chão. Eram notas azuis e vermelhas, e eu era o único por ali. Não seria roubo, não seria trapaça. Era um presente a mim, pensei.

Pois foi que, ao pegar-me a quinta nota vermelha, ouvi uma risada zombeteira vinda da copa daquela árvore. A risada parecia se multiplicar por toda a praça, e me despertava calafrios. Estava bem próximo ao laboratório agora, mas eles podiam ter um carro. Nunca fui maldoso, mas isso de nada vale para estes malucos.

Descera um deles da árvore, e não consigo me recordar sobre seu rosto – estive assustado.

Lembro-me de ter ouvido algo sobre minha ganância, e perguntei se ele, por zombar de mim, também não a tinha. Respondeu-me, então, que se estava falando comigo, então também ele não era digno de salvação. Não sendo digno de salvação, compartilharia seu inferno com todos os que passassem por baixo das árvores – e assim, também, fariam todos os outros que se revelaram por cima delas.

Antes que eu me desfalecesse em desespero, alertou-me que não era um bandido, nem um maltrapilho, nem um seqüestrador. Ele viera para me castigar, mas eu era um dos escolhidos a não sentir dor física alguma – o que não alivia tanto assim as chibatadas.

Cheguei ao laboratório, tranquei a porta, bebi um copo d’água. Havia começado.

- ANDROS, Ano 17 das Colunas Transparentes

Como um naufrágio épico, mas, ao invés de água, eram areia e criaturas venenosas. O convés estava tomado, assim como todas as chaminés imaginárias. Aqueles primeiros que foram pegos, aqueles que se agarravam às pedras grandes, aqueles que brincavam com as pedras pequenas, ainda agonizavam, debatiam-se e, conforme se debatiam, mais aranhas entravam por suas narinas, orelhas e bocas.

Uma pequena parte, ínfima mesmo, infinitésima, já havia sido devorada por completo. Os mais justos e iluminados, neste caso. Eles também mereciam sofrer, mas não por tantos anos.

Assim prosseguiu-se aquele dia onde o Sol parou sobre o deserto. Nunca mais se fez a noite, nunca mais surgiu a Lua pelos horizontes, nunca mais se soprou a brisa gelada.

Como a soma de tudo aquilo que contemplei, vim parar num quarto amarelado com a porta aberta e a cama bem arrumada. Levantei-me, e minhas roupas também eram incrivelmente limpas. Então observei a grande escadaria que descia – não para o inferno, mas sim para a cozinha. Desci-a. A casa parecia vazia e silenciosa, e só havia um dos representantes sagrados que tanto conheço bem – ele lambia os próprios pelos, e ronronava em silêncio, como se não estivesse preocupado com todas aquelas tempestades.

Ali eu esperava por qualquer coisa que devesse acontecer – embora a cidade estivesse em silêncio, eu e aquele que ronronava sabíamos – nenhum de nós estava sozinho.

- SIGMA, Ano 17 da Rainha Amarelada

System Overview I

A humanidade passava inteira por baixo dos pés de nós que observávamos. Como nuvens transcendentes, como um grande fluido de idéias que convergem e divergem; a humanidade passava e inspirava nos momentos mais errados possíveis. As regras frias, as contas, os protocolos, as óperas, as eras e as décadas, fluindo como um grande rio que de verdade se fazia sob nossas sombras.

Éramos, por um momento, ouvidos, mesmo que não disséssemos nada. Todos nós ao mesmo tempo. O mesmo semblante, olhando para o lado de fora, estando por dentro.

A Noite das Fogueiras

Era noite, e as folhas compunham a trilha sonora orquestrada. Era noite, havia uma fogueira, havia pessoas a ouvir todas as histórias. Estávamos ao centro, perto da fogueira, na forma de um só, contando sobre as faíscas, sobre as florestas e sobre os anões. Havia bebida suficiente para todos, havia comida suficiente para todos, mas nenhum de nós conseguia prestar atenção na fome ou na sede.

Nossa sede era pela virtualidade daquilo tudo que considerávamos realidade imposta até então, e percebíamos a cada grão de areia que caía como não era bem assim que funcionava.

Apesar da fogueira, conseguíamos enxergar cada estrela e cada planeta e cada galáxia e até a nossa mesma via láctea feita como nuvem cósmica bem acima de nossas cabeças. Parecia tão próxima…

Em primeiro, lembrei-os do Sol. Era noite, mas o Sol continuava existindo do outro lado. Todos precisavam do Sol, afinal. Cada ser distante que pisasse por cima da casca de Gaia era merecedor da inspiração solar e cada explosão de hidrogênio (como haviam nos ensinado no futuro). Mas o Sol era muito mais que isso, e sabíamos.

O que mais fazia a fotossíntese existir, o que mais carregava os pacotes de virtuosidade, o que mais trazia as tardes ensolaradas senão o próprio Sol?! Talvez seja mais palpável pensar em tal parte imaginando como seria uma tarde de Sol sem Sol. Absurdo, não?

Pois talvez seja justamente para isso que o Sol exista: para ser o Sol.

E temo dizer que meu pai esteve errado esse tempo todo: o Sol é perfeito. As manchas existem, mas não implicam em anti-perfeição. Por que algo não poderia ser perfeito tendo manchas? Todos temos, afinal.

Não que sejamos perfeitos.

I – O grande mensageiro. Talvez o inferno, segundo os bíblicos. Podem ler a versão do Rei Jaime – é a descrição perfeita do inferno. Mas não acredito que haja demônios lá a fim de cozinhar pecadores e torturar-nos pelo resto da eternidade. Talvez a morada dos demônios seja completamente diferente, afinal.

O ácido cai como aqui cai a água, e se estivéssemos por lá nessa forma iria doer muito. Mas não precisamos nos limitar a isso que pensamos que somos apenas por conveniência. Além daquilo que sente dor, somos aquilo que sente o prazer ao enxergar a luz e o calor quando se está frio, e o frio quando se está calor. Pode chamar de processos biológicos, químicos, físicos ou divinos, é tudo a mesma coisa afinal.

II – A ninfa. Ela não vive nas florestas daqui, mas gosta delas todas. Todas elas gostam. Podem vocês alguns terem se perguntado algumas vezes por que enxergam tantos seres místicos e não os conseguem seguir até as casas de cada um. E é por isso – eles não precisam ficar aqui pra sempre pra gostarem de voltar toda vez.

Loiras, ruivas, cabelos azuis, tanto faz. O absurdo não é necessariamente improvável. Chega a ser mais provável que a própria probabilidade… Mas não me atreveria a explicar isso a quem de vocês for matemático. E caso seja, não precisa tomar cada palavra que canto como verdade, porque não precisa ser.

Andando, e sei que vocês muitos andam constantemente, por esse mesmo tipo de lugar em que estamos agora, com fogueiras parecidas com esta, e músicas parecidas com estas que os bardos tocam entre nós sem que possamos ver, por vezes vemos as sombras ou algo mais. As roupas poucas, as adagas, os cabelos, as asas, toda a beleza que não conseguimos explicar e os olhos tão hipnotizantes… As magias verdes que saem pelas mãos, as orelhas longas…

Tudo é do mesmo lugar, e tudo pode ir a todo lugar que queiramos que esteja. Desde os castelos e os feudos, até os rios e as montanhas. Todas as analogias são aceitáveis!

Elas estão lá para nos iludir. E não fazem por mal, na verdade. É apenas prazeroso, e o prazer não precisa ser errado.

III – Gaia. Não é o nome de um animal, propriamente. Olhe ao redor e sinta sede. A sede é um estado magnífico quando você encontra fontes e rios cheios d’água. A mesma água entrando por baixo da terra onde pisa; a mesma água subindo e descendo constantemente das nuvens mais longínquas… Talvez alguma parte dessa água esteja nas nuvens cósmicas! Não precisa pensar que não é possível… É claramente possível a todos vocês que estão aqui nesse exato momento.

A compreensão do Universo por ele mesmo em criaturas tão estranhas e únicas. Como os grãos de areia que observaram os gregos e pensaram então que tudo poderia ser como uma grande praia. Teoria atomística, hão de chamar um belo dia. A teoria atômica, no mais profundo da consciência elementar que haverá de ter seres que vierem depois de nós, basear-se-á pensando que tudo deve ser uma grande praia, onde os grãos de areia formam tudo o que existe.

Nossos castelos de areia talvez fiquem bem mais frágeis depois de tal teoria, não?

Uma gama de aleatoriedades que parecem se organizar perfeitamente. O caos em sua forma mais inspiradora. A tempestade em seu dia mais intenso. Tão intensamente caem as gotas que sentimos como se fosse tudo um grande éter luminífero ou vital. E, como sempre, por tempos e tempos as criaturas vão julgar-se criadoras a ponto de achar que tudo está devidamente errado.

E, mais que isso, poderão provar que tudo está errado. E isso não vai implicar em estar de fato errado… Mas é um longo tempo até a percepção dessa parte… E não é algo com o que precisamos nos preocupar. Cada um pode provar o que quiser a quem quiser.

Um lugar tão azul e tão verde ao mesmo tempo, com ciclones, turbilhões, vórtices, universos e realidades simultâneas… E, com tudo isso, os insetos ainda se sentem sozinhos pelo fato de não conseguirem manipular devidamente as ondas mecânicas no vácuo. Um dia talvez aprendam e possam se sentir menos sozinhos, afinal.

Por algum motivo, mesmo não sendo o meio do Universo, ainda é um dos mais apreciáveis pontos de encontro. Como se todas as estradas que levam a Roma passassem exclusivamente por aqui, e todos os povos de todos os cantos do Novo Mundo viajassem até aqui para verem o que há, como há, quem há e como pensamos todos.

É a grande miscelânea das galáxias… Por que é tão difícil ficar orgulhoso sabendo disso?! É magistral!

O fato que não gostamos de admitir, mas que, no fundo, sabemos que é verdade – somos muito, mas muito mal agradecidos a tudo.

IV – Rostos Solitários. Exatamente isso. A passagem deles por aqui vai ser um tanto bizarra e antiquada. Haveremos nós de rejeitá-los tanto, mas tanto, que vão acabar voltando para lá de onde vieram e vão pensar que são solitários por essência. A culpa é nossa, claro… Mas também é deles.

Não estamos preparados sequer para olharmos um ao outro e dar um bom dia sincero, eles acharam mesmo que poderiam socializar daquele jeito e com aqueles cabelos?!

Pode parecer muito esotérico, mas tentarei dar uma breve descrição. O mundo todo, de oceanos a oceanos, será tomado por coisas que rasgam o céu, cheiram a pedras, são cinzas e fumacentas. Então algum dia esses seres intrigantes que constroem rostos gigantes como templos haverão de ficar curiosos sobre o que se passa. Virão sem alarmar e conhecerão de nossa rejeição extrema.

Os cabelos não serão como os meus ou os seus que lêem e ouvem sabe-se lá em que era da humanidade. Os cabelos serão parecidos com elmos, cairão pelo rosto de um lado apenas. Usarão parafernalhas elétricas com barulhos repetitivos, e mostrarão insistentemente que faz bem lubrificar os olhos para não cansá-los.

Mas serão muito mal compreendidos. Terrivelmente catastrófico.

A intenção era apenas mostrar que é divertido construir, ao invés de cruzes (que lembram torturas e dor), como forma de templo, rostos soberanos. Talvez possamos nos sentir mais seguros tendo um grande olho amistoso e superior a nos vigiar, que sermos lembrados tantas vezes da dor. Não precisamos lembrar-nos da dor a cada grão de areia que cai – é mais interessante poder sentir a proteção estando dentro de nós mesmos e olhando para tudo com os mesmos olhos supremos daqueles que governam a história de todos os contos das dobras universais.

O grande rosto não é uma mentira – mas seria um choque igualmente terrível termos, algum dia, que admitir que seres solitários e com franjas possam ter algum conhecimento que nós demoramos milênios para alcançar.

O grande rosto não é uma mentira.

V – Existem pedras que flutuam, e rios amarelados. E quem isso me disse foi o Profeta das Areias, então é bom acreditar. Eu até fiquei um pouco cético ao ouvir tudo isso, mas quando vi fez muito mais sentido.

Há três grandes pilares, e um conhecimento extraordinário em toda a atmosfera. Como se fossem os anciãos mais sábios que pudéssemos imaginar, todos em um lugar, aprendendo, ensinando, apenas pela essência de saber de tudo mais que possamos tentar saber.

Pedras que flutuam; rios amarelos e conhecimento supremo. As óperas e os teatros mais profundos que já pudemos conhecer e que poderemos conhecer um dia. Constante evolução – é como se fôssemos todos irmãos.

Inclusive irmãos no sentido de sermos protegidos a cada ameaça que nos é feita por outro feudo. Alguém que se coloca à nossa frente quando uma pedra vem em nossa direção, no tempo exato, no momento exato.

Alguém que nos ensina sobre coisas igualmente supremas, como a que velocidade todos nós estamos ou a que velocidade todos nós viajamos. Os pilares ao centro, os grandes olhos e os grandes ídolos. Criaturas de pedra, criaturas fluidas e idéias puras que vagam como outro tipo de éter que, vez em quando, acaba por escapar e atingir nossos céus azuis.

O céu deles é um grande cânion, e há uma grande tempestade vermelha.

VI – A mutação constante. O movimento constante. O mesmo movimento constante do Teatro dos Sonhos, poderia dizer. E tal teatro irão entender vocês algum dia em breve, meus amigos. Tudo começando de onde termina, e terminando num novo começo, numa gigantesca cidade, muito mais colossal que nossa amada Roma. Muito mais colossal, e com dezenas mais de pessoas nobres andando pelas ruas de tijolos cinzas.

Um lugar com música em todos os tempos e em todos os grãos de areia. Uma grande sinfonia que não poderemos compreender até criar o grande aparato. Mas o grande aparato, infelizmente, não despertaria a atenção da maioria de nós.

Um aparato que não serviria para explorar minérios nem outros seres. Um aparato que só serviria para conhecermos um pouco mais de nós mesmos, e podermos nos surpreender com o que ouviríamos. Seria maior que qualquer alaúde, maior que qualquer harpa. Haveria à ponta uma gigantesca agulha, e ela deslizaria pelos espaços entre todos os asteróides, fluiria como uma grande onda senoidal materializada, em ressonância com todos os materiais, e a música começaria.

Já devo ter comentado certa vez sobre as óperas que Kronos costuma compor, e volto a ela. Uma vez, há muito tempo, pude ouvir um pouco, e sinto saudades de cada nota musical. Preciso voltar àquele lugar para ouvir todas as músicas outra vez.

Olhem bem para todos os outros – não precisa ser muito imaginativo para pensar que há algo escondido nesses discos. Não precisa mesmo ser nem um pouco imaginativo para enxergar que há um grande disco pronto a ser tocado!

Mas, como disse, o grande aparato demorará muito tempo a ser construído, e provavelmente seremos os últimos a nos interessar por ouvir as sinfonias de Kronos. Um dia, meus caros, inventarão alguns de vocês uma máquina que grita músicas a partir de discos pequenos e quase em uma dimensão inferior à nossa (serão muito finos!), depois vão inventar algo sobre músicas escondidas em feixes de luz, primeiro vermelhos e depois azuis.

Mas vai ser muito difícil, por muitas eras, pensar que as músicas podem ser codificadas e traduzidas em dimensões maiores. Vão se perguntar se há vida além da nossa. Eu aconselharia a perguntar não isso, mas sim como é a música além da nossa.

Vida pode haver em qualquer pedaço de universo. Música é algo bem mais complexo. Procurem a música, não a pedra.

A música não existe, a música é.

VII – Não sei muito sobre esse lugar. Pode ter havido muita coisa por lá, mas hoje são apenas ruínas. Como se uma cidade tão grande, e volto a usar Roma como exemplo, fosse despovoada do dia pra noite, sem ninguém saber ao certo o que aconteceu, ou por que todo mundo resolveu fugir. Não é sem motivos, claro, mas o motivo talvez seja muito mais difícil de entender.

Um dia talvez possamos compreender de fato o que houve… Por hora, tudo o que posso dizer é que há ruínas por todos os lados, grandes usinas abandonadas e uma atmosfera tão cinza quanto a que se instalará aqui por perto da grande nevasca algum dia no futuro.

Tampouco sei como era o modo de vida ou se havia alguma vida prazerosa. Não sei pra onde foram, por que foram ou se ao menos existiram.

Lembre-se de onde estão vocês que estão lendo isso (e de onde estou eu que estou escrevendo). É mais ou menos assim. Mais ou menos assim, só que mais colossal.

VIII – O grande oceano. Tormentas, tempestades e peixes. Muitos peixes, muitas tempestades e muitas tormentas. Há poucos que se aventuraram por tais águas até hoje, poucos piratas foram corajosos o suficiente. Também não há tanto assim a se pilhar, mas há muito que se conhecer.

Há poucas ilhas, e nelas alguns piratas mais ousados construíram fortalezas. Homens bravos e bêbados. Um lugar onde o rum é eterno, e as navegações sempre são recobertas pela vontade de encontrar as serpentes gigantes que achamos até hoje que não existem e em busca dos grandes baús cheios de iguarias e metais valiosos extra dimensionais.

Os piratas que até lá forem vão saber viajar a qualquer lugar do universo conhecido, mas vão preferir construir navios com a mesma madeira que compõe essas árvores que estão ao nosso redor agora. Talvez seja por verossimilhança, talvez navegar pelos mares num navio pirata só faça sentido se for feita uma navegação pelos mares num navio pirata!

Alguns equipamentos não precisam de versões modernas, são apenas eternizados conforme forem utilizados da forma que forem utilizados.

E a música de navegação deles também será muito divertida e dançante. Não é difícil imaginar – pense nesses todos que usam tapa-olhos, saias, espadas e panos e bandanas e bebem rum o tempo todo em seus barris e descascam vegetais em salas de madeira. É exatamente isso. Só um pouco mais longe, mas diria que até as pessoas são parecidas e tem os mesmos dentes podres e marcas de batalhas.

Há quem goste de achar monstros e lutar bravamente contra cada um deles, se souber que há uma ilha misteriosa a esperar depois dos setenta milhões de mares.

A odisséia não precisa necessariamente ser feita, mas pode ser que seja mais interessante realizá-la ao invés de conseguir tudo do jeito mais fácil.

E é isso que eu tinha a dizer a todos vocês essa noite, meus caros que não dormem à fogueira. Temos ainda muita bebida e muito a saber e muito a pensar. Creio que cada um de vocês teria coisas muito mais produtivas a fazer, somos todos servos, afinal. Mas essa clareira nos caiu muito bem essa madrugada… Apostaria que sequer o mais astuto dos alabardeiros ou arqueiros conseguiria pensar em nossa existência aqui, essa noite, dessa forma, tão bêbados quanto estamos.

Não sei ao certo como terminar, é uma sensação única estar com todos vocês por aqui. Um dia conto mais sobre isso tudo, por hora também tenho meus deveres como servo que sou.

Berserker Hypothesis

Cite-me; faça meu dia valer alguma coisa.

Virou (virei) o último gole. No sentido de beber ou de tornar, tanto faz. Esbravejou (esbravejei) contra o céu azul, contra as nuvens e contra tudo aquilo que era bom; ele (eu) sabia que tudo era perfeito enquanto caos, enquanto música quebrada, enquanto letra torta, enquanto palavras ligadas, enquanto garotas com línguas duplas; no momento nada disso fazia sentido. Era eu, a janela e a televisão.

E não estou dizendo sobre raios catódicos processados com x_o e y_o e curvas defletoras dentro dos experimentos de Rutherford. Pouco interessa o que distorce a trajetória dos elétrons. Eles são cinzas, e sentem fome.

Ao menos ainda podem ficar bêbados e não precisam fingir que está tudo bem com a realidade, enquanto ela parece, na verdade, o Tetris mais sádico já jogado.

A janela não pisca. Nunca. Tá frio.

Enquanto isso, no fundo do mar…

Não devia ter lavado o cabelo e a cabeça. Posso pegar alguma doença. Deve se ter muita cautela ao usar a cabeça para qualquer coisa. Sempre se pode ficar gripado, na melhor das hipóteses.

Hipóteses.

Pele de urso.

Hipótese.

Riemann.

Apótese.

Tá ficando tarde…

[Welcome] V/R

[Welcome]

There I was
Walking by the yard,
I entered the room.

There it was
Burning by my eyes,
Lightin’ the dark.

I entered the fire.

Something uncertain,
I could see what I am
Far beyond
Anywhere but here.

Then my own hands took me
To a distant desert over the wind,
So where a kind of angel stared
With time in hands,

The hourglass almost flying away.

An infinite ground
Not sand, but shiny bend
Over my consciousness;

When I came back to the room
They all drunk the beer,
And an old cup then fell.

I began stepping through the broken glass.

- S/WH/314 -L

Meteorologia

Apesar da chuva, o céu todo se limpou ontem e revelou sua parte menos fosca, a Lua refletia a Terra, e os caminhos pelas ruas não eram obscuros como a tarde dizia que seria. De fato, não tinha eu um caminho traçado para chegar aos lugares, ainda nem tenho. Mas com o céu limpo, ao menos me sentia como os antigos irmãos… Por baixo de uma Lua violeta, sem pesadelos e sem outras luzes da cidade, apenas a fogueira para se esquentar contra o vento das Highlands.

Estrelas, Lua, cumes, montanhas, tudo parecia conspirar para que meu caminho fosse traçado pelas exatas ruas onde eu devia passar. Assim feito, passei por todas as ruas e todas as construções.

Certo, caro viajante, o erro foi meu. Devia ter analisado informações sobre como o tempo se comportaria depois, nas entranhas da madrugada. Então teria visto que as nuvens encobririam a Lua, esta ficaria desfocada, e a partir daí tudo tenderia apenas a piorar para meus cabelos.

Em primeiro, olhava para o grande espelho e não conseguia enxergar minha face, uma nebulosa camada de fumaça se instalara sobre ele. Dos meus piores pesadelos, nenhum apareceu para me atormentar: apareceu outro.

Uma carta, num mapa, num desenho, e a folha de papel nem existia quando eu abria os olhos. Nem sei onde eu resolvi dormir devido a todo aquele sono, mas sinto que os restos de árvores e as gramíneas e os tijolos quebrados não se sentiam tão mal, fazia parte de respectivas existências. E eu realizei que ainda não conseguia concordar com minhas configurações. Eu não conseguia concordar com o fato de que eu fora feito por alguma estranha combinação que impõe que eu durma em qualquer lugar, sem lembrar-se da rua, e acorde num dia com pensamentos em RGB, e no outro acorde vazio, sem motivo concreto, apenas culpa das… Coincidências.

E toda vez é doloroso, apesar de não ser nem a primeira, nem a segunda, nem a quinta vez, tudo já deveria fazer parte da rotina, mas ainda não faz sentido, nenhum sentido. É como ver duas peças faltando num grande quebra-cabeça e não conseguir juntá-las. Perceber que apenas essas duas peças podem completar a figura, e mesmo assim elas insistem em não se encaixar.

Viagens intercontinentais à terra dos calafrios, enquanto aqui faz um calor dos infernos. Talvez aquela teoria antiga sobre o frio estivesse certa: no frio todos precisamos de calor, buscamos calor de todas as formas, entrelaçamos mãos e correntes sanguíneas, ajustamos os relógios, e na outra semana que o frio acaba, tudo tende a se afastar, a mostrar como os quadros na parede foram trocados.

Reitero, sobre minha retomada de consciência: Pode ser que faça algum sentido, pode ser meramente algum evento vital, mas não quer dizer que eu ainda consiga perceber que o sentido há, e que poderia ocorrer com qualquer um. É uma cidade vazia, são construções quebradas, são céus rachados, as ruas podem se abrir e revelar partes de todos os infernos, as árvores podem se moldar como números, eu sinto meu coração batendo e meu sangue circulando, não pareço de todo morto. Mas não faz sentido algum para mim.

O tempo conspirava, a meteorologia conspirava, apostaria que alguns alquimistas também conspiravam, e eis que tudo pôde simplesmente ser uma falha estrutural. Desorientado, e a carta que não existia, mas que eu lia ainda perturba.

Ando meio desligado, se os relógios pudessem auto-sincronizar novamente depois do frio, tenho a estranha sensação de que hoje não acordaria aqui, nessa camada cinzenta cheia de ácido carbônico. Acho que acordaria com o Sol cegando-me os olhos, e também sinto que eu ia gostar de perceber quão cego o Sol estaria me deixando.

Mas aí estão as lentes da humanidade. O vazio do quebra-cabeças sempre é lembrado quando as palavras não são faladas, e quando, mesmo que se tente, não se consiga buscar no fundo dos pensamentos uma figura para poder acordar e levantar e respirar.

Nem ao menos na pura imaginação, das vezes em que as peças faltam, tudo fica ainda mais caótico do que poderia ficar.

Prypiat, temos um problema.

A Chuva

Na verdade esse texto todo era para você. Eu só não soube escrevê-lo.

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Viajantes.

Uma vez eu também tive uma daquelas ilusões. Estava eu parado, observando, e mal percebi quando ela começou. Uma janela se abria, azul. Cinza, mas azul. E pulsava diante de mim.

No que minha curiosidade me mandou até lá, de começo mal consegui ver, tamanha luz. Depois que meus olhos se acostumaram, eu pude ver longe.

Era como se eu estivesse num lugar envolto por montanhas nevadas, grama verde aos meus pés, um campo plano, planície. E um cheiro agradável que não consigo explicar ainda como é…

Mas eu sabia que tudo era uma ilusão. E eu gostava da idéia de saber que eu estava iludido. Eu queria me iludir.

Um poço. Precisava de um poço. Estava quente, seco, minha boca mal conseguia abrir. Seco, vento seco. Tempo seco.
Eu procurava algo, e não sabia. Eu queria achar algo.
Um poço bem fundo. Do tipo que qualquer um tem medo de tropeçar e afundar na inexistência vertiginosa de suas pedras e bater a cabeça no chão. Hora ou outra todos se atiravam num poço e nem percebiam. Só quando atingiam o chão.
Eu não queria explodir minha cabeça na pedra, de fato. Eu dizia que queria, mas não tão cedo. Mas eu estava com sede. O tempo estava seco. Eu precisava de algum poço.

Uma miragem? Avistei um poço. Cordas, longas cordas castanhas. Cordas tão resistentes, mas ao mesmo tempo me lembravam cabelos ao vento. Devia ser insolação. Outra miragem qualquer. Mas foi ficando cada vez mais perto e eu podia sentir o cheiro de perfume vindo daquele poço que ao mesmo tempo era tão profundo e inatingível. Uma tela, talvez, pintada por algum tipo de artista com senso de humor questionável, um tanto sádico. No meio daquele lugar seco, que mais parecia um deserto, uma pintura de um poço.
Não, não podia ser uma pintura. Agora eu estava bem perto e via que o poço tinha profundidade. Tinha água no fundo, bem no fundo. Era bem fundo. E eu queria aquela água. As cordas castanhas, que se parecia com cabelos, traziam consigo um tipo arcaico de balde, meio enferrujado; pra mim parecia perfeito.

Ao longe era horizonte, via os barcos certa vez meu pai e eu. Mais ou menos seis da manhã. O rio nem era muito grande, mas havia alguns barcos invisíveis. Eu os admirava. Contemplava, não gostava de perder sequer um detalhe daqueles começos de dia esfumaçados, solenes, saudando ao Sol por cada segundo que meus olhos estavam abertos, naquele começo, naqueles primeiros capítulos, onde o Universo eram os barcos no pequeno rio. Flutuando sobre as águas com o vento…

Ali perto de onde parávamos para olhar, uns tijolos quebrados e um antigo alambique desativado. Sinto saudades daquele alambique. Nunca sequer cheguei perto de entrar nele, mas todas as noites, antes de dormir, imaginava como seria, toda aquela construção vazia… Com tamanho cheiro de história, tantas pessoas incrustadas nas paredes, tudo o que um dia foi e agora já não era…

Uma chaminé, que mais parecia uma Torre, erguia-se ao meio de todo o mato. Alguma estrada devia levar até ela.

E os mesmos ventos que levavam os barcos destruíam o mato, e levavam todo o cheiro do mato e da fumaça, levavam as estradas, levavam tudo o que eu via, diante de meus olhos… Levavam minhas lágrimas que eu relutava para abandonar, levavam. Como levavam aqueles velhos barcos… Levavam com a mesma facilidade com que levavam cada folha de cada árvore. Levavam meus irmãos. Tudo em frente aos meus olhos. O horizonte engolia-os como um buraco negro, como um predador faminto.

E foram-se. O rio se foi. Os barcos. O mato. E a chaminé. E tudo.

E quando eu me aproximava muito da corda, ouvia um zunido. Se tocasse a corda talvez ficasse surdo, cego, qualquer coisa. Esses momentos lembravam-me muito os escudos magnéticos vistos em Eraserhead, quando Henry tentava tocar seu sonho. Ela apenas dançava com o vento, como um ímã atraindo um pedaço de metal para a armadilha. Eu procurava insetos e não achava. Via apenas a corda, longos cabelos castanhos, que me levariam ao fundo do poço. Que me levariam à água. À vida.

Um jogo. Um jogo a mais, um a menos, era tudo um jogo. Ou pelo menos era isso que eu tentava enfiar em minha cabeça. Quando estamos com sede, sonhamos com água. Devia ser isso. Salivação. Mal conseguia salivar, parecia que todo o meu sangue ia ressecar em pouco tempo, meus nervos, meus músculos, meus pensamentos, eu só conseguia pensar na água. Era uma obsessão. Mórbida. Alguém jogava comigo. Talvez a deusa sádica dos cabelos castanhos. Talvez ela estivesse me olhando de longe por uma tela de algumas polegadas, jogando comigo, seu novo jogo, novo velho jogo.
A mestra máxima de qualquer jogo. Ela jogava. E eu mostrava minhas fichas.
Sem que ela ao menos visse minhas mãos na mesa de jogatina. Ou nem eu mesmo conseguia ver minhas mãos. Estava com tanta sede que não via muitas coisas. Via defeitos onde não existiam, via qualidades no vazio.
Estava vazio, mas completamente transbordado. Mas não era água. Não matava a sede.
Eu estava com sede.

Era pra ter muitos pedaços, mas eu os perdi. Em algum lugar. Os ares têm mudado muito rapidamente, não sei como explicar. Pouco sei. Mas ainda sinto o Sol estapeando meus nervos e meu sangue.

-

Enquanto isso, chovia do lado de fora da janela.

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