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O Conto do Milênio – Capítulo 6: O Marquês de Sorocaba

O fim é um bom lugar para se mostrar o que ainda não veio.

Anotação Pessoal: Caso I – Marquês de Sorocaba

(…) Registrado aos quinze de setembro do ano corrente, à qüinquagésima oitava repartição de Justiça da Capital.

O Marquês, homem conhecido às redondezas por sua inviolável honestidade e generosidade, conheceu aquela que seria sua dama numa festa pagã, à mesma cidade. Adentrou-se ele nos problemas que aquela trazia. Era a mais nova de toda uma linhagem, a única mulher, e também a única da família que era forçada a trabalhar massivamente para garantir o sustento dos irmãos e da debilitada tutora.

Após meses de planejamento, realizado em segredo por trás de uma das igrejas, durante as madrugadas, a fuga gloriosa. A dama deixou um bilhete junto com maior parte de seus pertences e suas memórias, a fim de buscar sua salvação no casarão do Marquês.

Consumato est, diziam os empregados na noite do casamento. Um casal promissor, perdoado de todos os pecados por preces do próprio Padre. Nada faria cálidas aquelas noites. O Marquês havia alcançado aquela que tanto procurou com o passar dos anos, e a agora Marquesa se livrara de todo o trabalho forçado – trabalharia agora somente em troca do prazer em ser útil.

Veio a maré dos tempos e das obrigações, porém. O ciclo de deveres ficava cada vez mais massivo. Não era pra ser assim, todos sabiam, mas assim o era. Não havia mais brilho nos olhos, mas o Marquês, mostrando-se generoso, ofereceu abrigo à dama, mesmo que esta não mais quisesse compartilhar os aposentos com ele.

Segundo relatos de empregados e vizinhos, o que se ouvia nas noites agora eram gritos, ofensas e maldizeres. Não se parecia de fato com um casal – ou se parecia demais. A dama, ciente de sua liberdade, passou a trazer alguns empregados para ajudá-la em serviços mais pessoais e particulares. As sessões perduravam durante madrugadas intermináveis no quarto ao lado daquele do Marquês. O mesmo não conseguia dormir.

Em parte por causa do barulho que emanava – eram sussurros, gemidos, gritos. D’outro lado, havia toda a cena despertada antes dos olhos por causa dos sons. Assim como uma flauta representa um pássaro, um gemido representa o suor escorrendo do pescoço de um e caindo aos ombros de outro.

Numa noite qualquer, o Marquês resolveu polir alguns de seus artefatos. Gritos emanavam do outro quarto, mas ele, bem vestido, apenas polia no alto de sua concentração aqueles artefatos. Cessaram os gritos por volta das duas da madrugada. Ele caminhou lentamente, para não estragar o momento daqueles que lá estavam.

Bateu três vezes à porta, sem resposta. Sabia que não havia trancas, então resolveu entrar, com os artefatos em mãos.

A cena que vira o marcaria para o resto da eternidade. Era sujo, tanto na aparência quanto nos porquês. Era a cena mais suja que jamais havia visto. Com os olhos desfigurados e descompassados, sem conseguir piscar, rasgou a pele dos dois. Ver um banho de sangue seria mais limpo, e os gritos de dor verdadeira seriam mais justos.

Mergulhado no instinto, ele bateu repetidamente no rosto da dama com o artefato, impulsivo, sem que ninguém mais aparecesse para ajudá-la. O sangue era espalhado conforme a mão fosse levantada. O artefato respingava a chuva vermelha nas paredes.

Ali estava a Marquesa em sua forma mais agradecida. Desfigurada, rasgada, surpresa, pouco depois de um orgasmo sincero. (…)

- Escrito por Wm. ; Excerto de T.S.L/Proto || A ser confirmado.

Página Dezenove

Eis que procurei dentre meus livros e não achei; ainda não posso olhar diretamente para as folhas em que faço as traduções. Não são palavras só minhas, e são, ao mesmo tempo, as mais sinceras que me saem. De qualquer forma, sei que ao escrever não sou só eu. É mais gente, e mais gente, e mais…

E tanta gente se manifesta agora na forma de uma só outra. Meu rosto arde, mesmo que seja só eu e o papel e a Lua que se esconde por trás do concreto e das grades de aço.

Eu que rastejo ainda não consigo fixar meus olhos por muito tempo em belos outros sem sentir a lareira se aconchegando cada vez mais quente.

O céu me prende em sua ilusão real; eu, ébrio, apenas escrevo.

Das páginas, separei uma.

Não havia contas, nem enunciados. Não havia algo matematicamente coerente, mas era a página que devia ser. Nela um texto que sequer conseguia passar da metade. Muito, perto de minha imaginação tempestuosa, que mal consegue escrever uma frase completa quando pensa demais em quão fantástico são os contos que aparecem por acaso numa praça abandonada por onde ainda insisto em criar formas e octaedros e cores com minha incerteza.

Faz quanto tempo? Um mês? Mais? Menos? Tanto faz o tempo, afinal.

Olho para o relógio, uma vez, contra minha vontade, e descubro que há poucos ciclos de radiação pra tanta tarde. Uma tarde onde o céu é extremamente azul – e mesmo o céu cinza é mais vívido que o nublado comum; o vento é agradável – mesmo o mais árido; e as outras cores, e as formas desfocadas, e tudo.

Sempre há muita tarde pra pouco tempo.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Bebi a bebida das décadas e descobri ser das mais alucinógenas. Era como café, tinha cheiro de café, tinha gosto de café… Até cheguei a acreditar que poderia ter sido café, mas então pensei melhor e postulei que de fato era algo muito mais transcendental. Havia bebido tantas vezes e ficado acordado tantas noites… Por onde havia eu me esquecido de adentrar à porta?

Em poucos segundos vi o vento arrastando os prédios e me colocando num deserto gigantesco, dentre velhas casas, a contemplar, bem onde a linha do abismo encontra o céu, um gigantesco castelo, cheio de passagens secretas, e livros, e bibliotecas, e tecnologias não desvendadas, e túneis, e salões…

Começou a chover.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. I, excerto.

Ao ler as memórias daquele que precisava ser transcrito, percebi o cheiro sendo entoado pelo caos. Era chuva, e era da mais pura que há eras não adentrava o edifício que tomei por base nos últimos meses. Do lado de fora não havia mais Sol, nem Lua. O céu era uma gigantesca nuvem escura. Cá dentro apenas meus transmissores, minhas válvulas, minha eletricidade que emergiu do éter como fosse conduzida numa sinfonia. A natureza é os instrumentos. Apesar dos bulbos, acendi uma vela.

Tentei, num segundo de delírio e inocência, encostar meus lábios nos da chuva que repentinamente se formara na cidadela, mas ela era mais sinusoidal que meus artifícios, e fingia fugir mesmo já estando tão cheia de poeira minha como eu estava d’água dela.

Percebi não ser uma fuga, afinal – era uma dança. A chuva ali estava, com suas formas abstratas e sedutoras, me chamando para a dança das décadas… E fazia um bom tempo que eu procurava tão digna companhia.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

Minhas imagens sempre são dos pássaros por cima do âmbar, contornando, riscando, como fossem arranha-céus em outras dimensões que não as horizonte-verticais. Um modo novo de descrever tudo, enquanto repousam; fossem notas musicais numa partitura de entrelaces elétricos, ao arrastar das vozes criptografadas. Quando entrei no cheiro da chuva, entretanto, não eram os pássaros que fluíam com os elétrons. Quem voava era eu.

As gotas persistiam, curvilíneas. O céu, mesmo cinza, continuava mais cheio de cores que o comum – parecia que, desta vez, não era só um cinza por cima de outro, mas um cinza pintado sobre o azul radiante do universo, com a mesma intensidade do Sol que marcava os pontos de encontro das civilizações passadas. O sistema solar, inteiro. E tudo parecia pouco perto da existência e da dança e da música.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. II, excerto.

É muito além de uma página. O horizonte é como se estivesse cheio de segredos prontos para serem descobertos ao se despir lentamente a realidade. O tecido fino e suave, pronto pra ser rasgado sutilmente, num momento inesperado.

Antes que eu pudesse escrever qualquer esboço de palavra, os rios elétricos que vinham do céu fizeram os círculos e marcaram com anagramas todos os blocos de pedra e todos os casebres.

Depois que as décadas se amontoaram e se mostraram e se escorreram, vi uma silhueta emergindo em meio à chuva, e tentei agarrá-la.

- Knoxbingen V., Cidadela, cap. III, excerto.

Todas as décadas colidem dentro da garrafa das improbabilidades – a bebida mais forte; um mar de infinitos, série tão complexa e não-linear que as próprias bases da matemática se renderiam e se curvariam perante a dança das folhas.

O fogo, agora azulado, se curva por dentro de um dos pedaços de titânio, e marca o tempo da madrugada.

Um respingo atinge meu braço.

A Bobina de Cobre e a Dança do Fermento em Pó Biológico

Existem aqueles minutos em que se quase pega no sono. E então se acorda bruscamente.

A insônia não é tão incômoda quando se é apenas insônia. Mas há algo dentro, emaranhado com a massa, esperando, quieto, para explodir. Pode demorar segundos, pode demorar anos, séculos. Existe uma bomba atômica, devastadora, que come parte dos pensamentos, pouco a pouco, e rouba cada segundo que passa.

Eu posso ver, sentir, ouvir, mas ainda não me foi dado completamente o dom da compreensão. É como um pudim que espera na geladeira. Cada pedaço tem um sabor doce e deixa com vontade de se pegar mais um, e vai se esvaecendo, sumindo, enquanto a vontade continua a mesma, sempre, em ciclos polares.

Até quando os diálogos são reprimidos? – pergunto eu àquele outro eu que fica à porta me olhando dormir. Não tenho resposta, a porta não responde. A porta não fala, mesmo que seja pintada de vermelho, mesmo que esteja num trono em meio a uma tempestade rubra. A porta não fala.

Todo tipo de escapismo parece vão ao meio do vento.

Um índio aparece entre as teclas que traduzem os gritos que ainda ecoam. É um xamã, e ele sabe como ver o outro lado da floresta, e precisa daquela fruta gorda e gigante e alaranjada. Parece uma moranga, uma abóbora, mas é do tamanho de duas melancias. E é mole, lembra algo como um cérebro, mas alaranjado.

Eu achei na primeira clareira e trouxe a ele. Ele me olhou com aquele semblante inoculo e inexplorável e isento de qualquer surpresa. Pegou a lâmina, fincou à fruta e abriu-a em duas partes.

Dentro da fruta havia um rio amarelado, parecia-se com restos de ferimentos cicatrizados. Da parte oca vieram os insetos. Milhares, exércitos de baratas voando em minha direção e depois rumo à floresta, perdendo-se naquele infinito de asas de pernas cruzadas e barulhos proibidos que não deixam dormir. A porta de madeira não existia mais, o índio apontou com a pena o caminho que agora eu podia ver, e prossegui até treze séculos depois.

Era uma cidade cheia de casas e mercados. Havia um lago lá longe, e muitos malfeitores. As ruas eram cinzentas, e a população muito hospitaleira. Convidavam-me a entrar nas casas, como fosse eu algum líder ou personalidade. Todas as casas tinham insetos que andavam aos chãos igualmente emadeirados. Talvez toda a floresta tenha sido derrubada e se tornara chãos e mesas e antros e templos. Olhei atrás, e não via mais a sombra dos séculos que percorri.

Senti saudades daqueles treze séculos que fugiram.

Um jovem perdido de endereço certo me chamara para entrar e tomar um café. Aceitei, mas não tinha café. A casa era bem organizada, limpa e cheia de móveis, mas o café havia sido tomado minutos antes, por alguém que, apesar de nada ter a ver com minha vida, despertava-me ira. Aquele café era pra mim.

Cochichava-se, mas não por medo, e sim por cortesia. O silêncio era uma dádiva e era melhor amigo que aqueles insetos grotescos que rastejavam e voavam e riam de volta para cima. Se fôssemos deuses, os insetos seriam os primeiros ateus.

Os segundos seriam nós mesmos.

Haveria uma corrida de carros entre gangues rivais. Eu não sei por que deveria saber disso, nem se deveria mesmo. De qualquer forma, dever-me-ia ter cuidado ao andar por ruas tão estreitas. Não precisava ser atropelado, até porque outro alguém o seria. Não sei quem.

Andei mais alguns quarteirões, e quis comprar um peixe no mercado. A fome era intensa, e um peixe cairia bem. Mas fui apanhado outra vez pelo índio, que me guiou com o exército das baratas voadoras até vários séculos adiante e milhões de metros acima.

Era um corredor curvo, e a noite lá fora parecia azulada e sem estrelas aparentes. Era um terno aquilo em mim, e meus trajes eram comportados e executivos. Apeguei-me à tarefa de chamar o elevador, e esperei, de maleta em mãos e sorriso icônico em face. Abriram-se as portas de metal e dentro havia outras três pessoas. Uma mulher, um homem e um menino. Nenhum deles se conhecia, estávamos todos indo ao térreo, e cada um tomaria seu próprio rumo a partir dali. Era o final de uma longa jornada de trabalho pela qual eu sequer passei, mas me sentia já cansado e queria chegar em casa e abrir uma garrafa de cerveja e me jogar naquele sofá cinzento e assistir às belas figuras da televisão monocromática. Queria, obviamente, que não fosse isso algo solitário, mas sequer sei o que há na maleta que carrego, por que deveria saber se há mais alguém em casa?

As portas de metal se fecharam e nesse instante exato eu me senti puxado para cima e para baixo, mas eu não estava no meio. Eu caía com o elevador, e tentava me agarrar à saia, ao brinquedo ou ao paletó, e nada funcionava, eu caía e começava a fazer parte do próprio chão e começava a derreter como fosse um monte de gelo colocado no forno; eu esticava os braços e era visto como um maluco que nunca usou um elevador e eu era um maluco mesmo naquele momento.

Naquele momento eu nunca soube o que é viajar dentro do elevador, e comecei a aprender. O visor marcava os andares centesimais e iam descendo a velocidades incríveis. Essa viagem era mesmo necessária?

Era.

Não me lembro de sair do elevador, e talvez eu tenha ficado lá mesmo, ou então tenha voltado à metade do meio, não a primeira, nem a terceira metade. A metade do meio. Eu ainda tinha fome e dor. A cura da fome era a cura da dor. Relações matemáticas básicas mostram que um número irracional elevado a um número irracional elevado a um número irracional pode gerar um resultado racional.

Existiam cavernas cheias de animaizinhos caricatos e simpáticos, mas eu estava preso em três dimensões diferentes e não sabia como sair.

O índio disse muito a mim naquela tarde, mesmo sem abrir a boca.

Comi mais um pedaço do pudim, e continuava doce e sublime, como todo pudim deve ser.

Plano Azimutal #2 – O Banheiro do Sexto Ano do Vigésimo Primeiro Século da História da Humanidade Depois do Messias

Andando por ruas que não existem, cheguei ao ginásio. E parecia lotado, afinal. Por algum motivo, eu não fazia parte da bagunça da platéia, mas sim de algum tipo de equipe ali dentro. Cheguei-me aos vestiários, e encontrei uma velha conhecida – estranhamente, vestindo roupas de ginástica um tanto coladas ao corpo. Estava exuberante. Eu podia ficar olhando por horas e horas, ou décadas.

E só.

A ginasta, em questão, era a velha conhecida – cabelos lisos, pretos, longos e soltos; roupa azul e preta; lábios bem contornados e rosados; olhos escuros, talvez castanhos, mas não sei ao certo; pele extremamente branca e lisa; alguma estranha atração por andar de patins em ocasiões formais onde pessoas costumam usar ternos – também é notável que ela gostasse de doces lisergicamente coloridos.

Eis que ela entrou à quadra da piscina, a qual não continha água, mas bolhas gigantes e coloridas de plástico; a orquestra começou a entoar a Abertura da década das memórias, e ela se lançou às bolhas.

Após quinze minutos, que era o tempo permitido de apresentação, meus olhos não conseguiam ficar sincronizados com meus pensamentos, nem com meu queixo. Tinha sido algo espetacular, que nunca pensei ser tão fenomenal. Não sei com quem exatamente ela estava competindo, mas havia chances de se ganhar algo.

Lembro de ter ouvido, antes da apresentação, que alguma colocação até vigésimo seria de bom tamanho. Mas as notas foram tão altas e tão inesperadamente altas, que demorou até o número Três do telão fazer algum sentido para nossas massas encefálicas.

Subitamente, então, ela se agarrou a mim, e eu não sabia o que fazer, senão dizê-la como eu sentia medo daquela ocasião. Não era bem medo que eu queria dizer, mas foi o que saiu. Existem emoções reais no mundo irreal, como pude finalmente contemplar de fato.

Ela se chegava cada vez mais próxima, suada, mas com um cheiro inexplicavelmente agradável. Roupas coladas, como se quisessem soltar do corpo, mesmo que, para isso, fosse necessária alguma ajuda externa.

Eu não podia pensar em nada daquilo. Na verdade podia, mas não pensava ser justo.

Foi que lembrei estar num mundo não real, então um sorriso maligno se implantou em minha face, e pedi-a para ir até o vestiário. Comigo.

A casa era a mesma, os costumes eram os mesmos. O chão de madeira era o mesmo, o sofá era o mesmo, e mesmas eram todas aquelas pessoas, com os mesmos assuntos há cinqüenta anos. Podia acontecer algo de diferente.

Sempre que se prepara massas para o almoço, algo estranho acontece. E isso me animava um pouco.

Uma súbita luz na janela do quarto de cima, e não era quem todos ali queriam que fosse. Mas era exatamente quem eu queria.

Posso comer macarrão outro dia – quando uma luz aparece na janela do quarto, não se deve pensar muito antes de pular.

- A Magazine Guild Illusion, #73, 1937 – p. 273e15

Agora era uma mera questão de fusos horários até que Ela chegasse, finalmente. Mas lá estávamos eu e a ginasta, e não era certo ficarmos parados. Ela parecia estar bêbada, de tanto que ria e gargalhava. Começou a tirar a pouca roupa, e meus olhos ficavam cada vez mais perdidos.

Ela me levou até um lugar escondido do vestiário, e lá, por algum motivo, havia um sofá. Vi-me caindo sobre ele, sem qualquer reação. A ginasta, que na verdade não era ginasta, se revelava totalmente curvilínea e rosada e lisa. E suada, obviamente.

Eu queria atacá-la, mas ainda não era justo. Era uma tortura inacabável até que se acabou – vi entrando na sala secreta a que fui buscar no meio do almoço.

Piscamos um ao outro, e saciamos nossa fome e nossa sede por longas curtas horas.

Café Jornal Atômico Celular

Ocorreu enquanto lia sobre política. Não que a política atraia insetos.

Era, ou é, uma tarde calorenta – e por isso os insetos. Devo reforçar que os insetos nada têm a ver com políticas… Eles talvez sejam mais limpos empiricamente. Teoricamente são grotescos, admito.

Também, ao momento, saboreava meu café; quatro colheres de pó, duas de açúcar não muito cheias. Forte, não tão amargo, funcional. Esperava algum telefonema com notícias boas ou ruins ou uma guerra… Enquanto isso, lia o jornal galáctico.

Caro viajante, por favor note: por “jornal galáctico”, não me refiro à ficção científica. Refiro-me à trilha sonora.

A janela estava aberta, posto o calor que se fazia gradiente – pela fenestra, entrou ele, o famigerado inseto saltador. Saí da política e dos partidos, fui-me à incerteza metafísica.

Contemplei o inseto, forçosamente – queria, na verdade, sua extinção do meu ambiente calmo. Percebi um análogo interessante. O grilo era absurdamente rápido, e pulava. Cada pedaço de caos vazio entre móveis poderia ser uma morada nova por um infinitésimo de tempo. Talvez o grilo existisse em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas minha ferramenta de pão só consegue visualizá-lo ponto a ponto, nunca em sua obra completa.

Corri-me ao corredor, a fim de me apossar da lata vermelha. Infelizmente, veneno de nada adiantaria. Poderia jogar em todos os cantos, o grilo sempre acharia algum espaço novo.

Incômodo PT. I

O telefone toca, e não é a voz que eu gostaria de ouvir. Não é uma voz desagradável, isso seria injusto da parte de quem conta a história. Mas, por algum motivo, há um cutucão – a mediana é diferente da média.

Estatísticas são números e nomes – vida talvez seja algo além.

Parei ao grilo. Veneno; joguei um pouco dele, mas nada capturei. Assim funcionam muitos dos captadores de átomos, creio eu, embora não os conheça a fundo. O máximo que pude fazer, e assim é o máximo que podem fazer os tão respeitosos cientistas entre aspas – abrir as janelas e esperar que o grilo saia por si só, a fim de atingir uma estabilidade.

O grilo dentro do quarto simbolizou uma interrupção de minha leitura, de meu café e de minha música. Um barulho a mais, uma energia além do que estou acostumado ou do que esperaria numa tarde ensolarada. Coloquemos o inseto como perturbador de minha estabilidade. Pulando por todos os lados ao mesmo tempo, infinitamente rápido (para os padrões); talvez o grilo interagindo com o sistema novo tenha feito o telefone tocar, a campainha disparar e, quem sabe, tenha causado toda uma tempestade em algum lugar de algum continente longínquo – talvez até na Nova Zelândia.

Incômodo PT. II

Novíssimo Mundo – e é assim que me foi apresentado no livro de geografia. Os geógrafos caem do céu, resolvi pensar. Certa vez, ouvi dizer que não se trata de decorar capitais de países ou estados ou adjetivâncias assim.

Existem lugares tão despreparados para neologismos e idéias novas – existem lugares abertos onde as janelas estão todas fechadas.

Amar é diferente de possuir completamente. Pessoas não são objetos. Rochas o são.

Rochas ígneas podem até ser interessantes… Pode-se roubar uma delas e colocar num vaso.

Pode ser interpretado como crônica, embora heterodoxa. Em carta ao prefeito da metrópole, diria que a desigualdade social não tem necessariamente a ver com a taxa de pobreza.

Para que não fique demasiadamente grande, e meu café já acabou há um tempo, gostaria de pedir um pouco mais de ação ao prefeito. Os rios estão um pouco sujos, pude sentir um tanto do odor desagradável deles hoje, andando pela marginal principal. O tratamento de esgoto deve ser melhorado, assim como a educação.

Não posso dizer imparcialmente, mas, em minha humilde opinião, a educação é fraca, e tal fraqueza se reflete como num espelho de alumínio.

Neste momento o grilo sai do quarto, e a estabilidade volta. Assim também volta a se materializar o papel, e assim também voltarei a ler os artigos e as notícias…

Já que o café acabou, tomarei água.

Incômodo PT. III

Não se pode definir um sistema pelo comportamento isolado de indivíduos em exceção. É quase como definir a matemática por uma indeterminação – e a matemática não é tão indeterminada quanto parece.

De qualquer forma, todo sistema tem regras, e, em aspectos palpáveis, inúmeras exceções. É um pseudocírculo de raios – Busque o discernimento, ou então se acostume a dormir com os pés descobertos quando se cobre a cabeça.

Subtrassoma II – Projeto LEGUMINOSA SOLAR ROTATIVA

“As leguminosas fazem associações mutualísticas com bactérias do gênero Rhizobium. Estas bactérias, por sua vez, tem a capacidade de fixar o Nitrogênio no solo. Sabendo-se que o N2 é constituinte essencial de aminoácidos, proteínas, bases nitrogenadas (ácidos nucléicos), entre outros, ele proporciona um crescimento mais rápido das plantas, uma maior folhagem, e também alimenta os microorganismos do solo que decompõem a matéria orgânica.” – H. C. S . @ 178

Foram utilizadas, historicamente, na rotação de culturas, implicando num melhor aproveitamento das terras em tempos críticos da Idade Média.

Não havia um porquê para eu ficar no mundo real…

Não importava se eu estivesse no mundo real ou não.

Quando compreendi isso, perdi o medo de perder meu corpo.

- Psiqué

- Accela

- Knights

SIGFACE, J. in Tetraedro ÉTER – Vol. R1, B188 FOURIER – 0007 – UNSIGNED PHI

entropic clouds of evolution

Dinâmica – como as coisas mudam com o tempo. Para um problema, mil ratos; para cada mil problemas, um rato.

Correndo, observando, buscando a saída do círculo fechado… Engaiolados e rindo da ignorância do que há do lado de fora da jaula.

A verdade está dentro da jaula?

2^40 = 10^a ↔ a = log2^40 ↔ a = 40log2 ↔ 10^12

Todos somos o grande vírus do experimento. Um tempo estranho, algo empuxa-nos o cérebro, como se este carregasse toda a informação que temos, resumida, carnal. Revela-nos como tudo o que aprendíamos em anatomia era mentira: o cérebro não é maciço; mas, sim, sin, fios enrolados condensados como uma nuvem de incógnitas.

E daí vem todas as chuvas… Embora todos demorem ainda um bom tempo até terem matemática suficiente para comprovar.

Não basta acreditar, deve-se provar tudo por si mesmo. O mundo de verdade. O mundo que existe. Além da fé, além da crença, além da vontade: Não há vontade na ciência. A ciência move o mundo. A ciência enrola os fios para dentro, numa grande espiral.

A ironia é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos. Na Literatura, a ironia é a arte de gozar com alguém ou de alguma coisa, com vista a obter uma reacção do leitor, ouvinte ou interlocutor.

Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo. Para tal, o locutor descreve a realidade com termos aparentemente valorizantes, mas com a finalidade de desvalorizar. A ironia convida o leitor ou o ouvinte, a ser activo durante a leitura, para refletir sobre o tema e escolher uma determinada posição. O termo Ironia Socrática, levantado por Aristóteles, refere-se ao método socrático. Neste caso, não se trata de ironia no sentido moderno da palavra.

- Enciclopaedia Clichecyclyca, W.

O gargalo estocástico – como num estupro de camelos neurônicos – a garrafa está meio cheia? Meio vazia? Insuficiente? O bastante para embebedar?

Enquanto flutuávamos pelo oceano primordial hipotético, éramos senão vírus, apenas. Nossa informação devidamente guardada, o grande segredo universal por trás da compreensão da carga e das correntes e dos padrões; aminoácidos, talvez, devidamente combinados. Ribozimas, afinal.

Encontrei, enfim, algum tipo de padrão na realidade que tanto desprezo. Não é cabível de reclamação mera de minha parte ser rondado por tamanhos indivíduos. É de conhecimento geral, à minoria, como são desprezíveis. São como ratos, mas não de estimação; como se ratos de esgoto fossem usados em termos decorativos, correndo em loop, atrás de um fim invisível e impossível.

MIRANDA, C. Et al; Replicação da Idiotice da Sociedade Explicada pelo Método de Spiegelman, p. 166.

Não há progresso na evolução. O que há é adaptação. Muitas vezes os seres mais adaptados não são os que mais sobrevivem, uma vez que podem, assim como em grande parte das estimativas estão, existir em menor número.

Desde o oceano primordial, pouco importa a destreza intelectual. Ou se é mais forte ou se está em maior grupo. Os caras legais são facilmente extintos.

Chuva de fundo, radiação de fundo, background. Protocolo de transferência serial em Gargalo. Condições antimutagênicas. Crescimento pareado.

“Em ambientes variáveis, que mudam com o tempo, não faz sentido dizer que um indivíduo é mais apto que outro. Fratura exposta no chamado orgulho.”

Interferência construtiva/destrutiva é linear. Quem ganha a briga não é quem se reproduz mais rapidamente, em alguns casos. Nem sempre replicador mais rápido é o mais apto. O advento das quase espécies. Vulgo Homo sapiens. Usando o telefone aqui da quitanda e ligando; aquele senhor de camisa amarela na seção de lataria, pegando o telefone. Esse senhor pediu para usar o telefone, e ligou para a casa dela, para atormentar.

10^130 > 10^80

Se uma molécula é muito grande, ela está fadada ao fracasso.

Teoria – O ser humano é mais interessado em entender o funcionamento do que vê ou imagina que vê. Eu concordo com o que você quiser. Whvl6CikDxA

Vai chover? Quando? Borboletas? Tornados? Zeta?

Alfa?

Paradigma da regularidade[]

Atratores estranhos…? @~@

Insert Incerto

Era uma casa bizarra. Eu não sabia, fui curioso, mas nem tanto. Fui por ir. Fui porque tinha sido convidado – e então, num dado momento, quis ir ao banheiro.

Para minha surpresa, instrumentos musicais. Tudo bem, o anfitrião era músico… Mas instrumentos musicais, num banheiro… Talvez tenha a ver com o efeito das ondas reverberando e distorcendo com a água.

Algo também me incomodava com os instrumentos e banheiros e água e vasos sanitários, pias e chuveiros: ele tinha tomado cerveja com alguém na noite passada.

- Codex Nova, 3001

Falha Técnica

Como o Sol se esconde e a Lua também, por certas épocas do ano. Quanto tempo demora um conto para que chegue ao final do primeiro capítulo, onde todos esperam a seqüencia, que, depois de vinte anos, percebem não existir. Por onde anda a rua, por onde chove a chuva, por onde tocam os compassos.

Estive mentindo o tempo todo. Na verdade, estou com os olhos forçosamente abertos e roxos. Embora verdes.

Falha Técnica

Existe, compreendo. Todo mundo precisa se ocupar hora ou outra. Acabei por relembrar disso e as profecias voltaram a fazer sentido: o problema da ilusão é quando alguém aparece com a realidade. O mundo talvez não esteja de fato preparado para realizar os sonhos, pois sonhos são sonhos, e devem ser vivenciados, não realizados. Realizar um sonho é limitá-lo. Definir o infinito é colocá-lo um valor finito.

Cada passo, cada depressão tem a ver com o gosto áspero da realidade. Ou o que chamam realidade. Ver o todo. Ver o que há além da garrafa. O que há além do espaço. Ver o tempo nem sempre é tão agradável. Principalmente quando ele mostra as imagens obscuras das quais tanto se tenta fugir.

Falha Técnica

A César o que é de César.

Falha Técnica

Borracha – Em dois dias melhora. Prometo, fellow readers caros viajantes. Deparei-me com um súbito e totalmente inesperado lapso de circuitos e ligações, a corrente flui de maneira estranha, os microfones estão debilitados, os teclados, tudo. Tudo. E parece que todo o sistema pode ruir, hora mais hora menos. E tudo explodir, desaparecer, sumir, acabar, como pó sendo jogado ao vento ou restos de borracha usadas feitas d’alguma cabeça, tudo tão angustiante quanto um filme mudo em branco-e-preto com atores sem expressão e sem música de fundo, só o barulho da indústria e o silêncio maçante… E você sabe que existe alguma coisa dentro das máquinas, controlando cada uma. Mas não vê, não pode ver.

Falha Técnica

Thou Blind Fool

Falha Técnica

Você vê? Pode ver? Isso por trás dos meus ombros, você pode ver? Consegue agora perceber o significado da concepção que tanto disse? Aprecie, é uma mentira. Mas você pode ver, de tão real que a fiz para você. Planejei cada centímetro, de alguma forma inconsciente; cada pedaço, cada parte. Construí com alguma força inexplicável cada pilar sobre a areia do deserto, e coloquei todo esse piso límpido e cintilante que reflete o Sol. E aqui estou, encarando você sem olhar à sua face. Apenas em minha mão a ampulheta com parte disso que vê por trás dos meus ombros.

Acho bom que saiba, apesar de tudo, que meu dever não acaba tão cedo. Só fica mais difícil. Cada vez mais injusto. Mas não é exclusividade minha passar por tais testes. Você sabe disso também. Uma das minhas casas de verdade é esse deserto, esses pilares, esse piso cintilante, essas roupas cintilantes e essa ampulheta. E isso que vê por trás dos meus ombros. E você pensa andar por cada rua cheia de gente tão sozinha. Talvez tenha tido a coincidência de ler e ouvir como não está sozinha, de fato. Mas a parte difícil é acreditar.

Justiça e Injustiça sequer existem. Eu também as criei para tentar explicar algumas coisas. E, como havia previsto, limitei o que tentei explicar. Mas não falhei, vale notar. Não tem como se falhar em algo interminado. E não sou eu quem dou o juízo. Apenas sou parte da floresta. Ou a floresta toda, de vez em quando.

Falha Técnica

E agora sinto muito por vocês todos que me viram e me acompanharam. O apoio foi primordial, essencial, cada palavra que ouvi nos momentos que mais precisei. Tomarei o máximo de cuidado para que não danifique partes dessa carta, o que é bem difícil. Mas é melhor deixar em cima da mesa, assim nenhum líquido rubro chega aqui.

Quem quer que leia: eu o fiz porque quis fugir. Porque fui um covarde e tudo isso que se passa por suas cabeças. Já havia pensado nisso algumas vezes, mas dessa vez foi de verdade. Meditei um pouco olhando o mar, comprei a lâmina, fumei alguma coisa, bebi alguma coisa e apenas fiz o que queria fazer. Desculpem, decepcionei a todos.

Falha Técnica

Agora dê uma boa olhada nisso que fez. Olhe mesmo isso que você criou. Onde está você agora, afinal? Deixou-nos livres, então? Por que deixar livre uma espécie que mal sabe para onde quer ir?!

- Ligação 1, 0422

Falha Técnica

Também eu só queria que você respondesse… Queria ter certeza de que você está aqui me protegendo antes que eu durma. Mas não consigo não ficar com medo no escuro.

- Ligação 2, 0423

Falha Técnica

E eles todos cantavam felizes, só eu não sabia a música.

Falha Técnica

Cada parágrafo talvez seja um verso.

Falha Técnica

Preciso alcançar a torre.

Pessoa Verbal Shift

Logo pela manhã o tempo muito úmido, alguns papéis molhados em outras calçadas… Mal consegui fechar os olhos, o telhado acima de mim trepidava, iminente queda. E lá fora o tempo continuava voando amarelo-cinzento até as altitudes mais montanhosas. Num relâmpago percebi que não estava mais chovendo.

Ainda procurava restos de ervas, passavam os dias e eu entrava mais e mais na crise de gripe. Tudo bem, apenas uma semana, mas num fim de mundo de concreto até sete dias parecem muito mais do que são. Mal consigo pensar na possibilidade de as ervas também serem nocivas, mutantes. Matando o bacteriófago, tanto faz.

Há algum tipo de modo ortográfico, este implica na inscrição clara e fechada de idéias. Métodos discursivos batidos, copiados, anos e anos da mesma coisa, as mesmas gratificantes palavras e a mesma métrica e não sei ainda o exato motivo por quê.

Num método avaliativo, linear, um ser senta em sua cadeira logo pela manhã. Pega o chumaço de textos, dá nota a eles, separa alguns e joga no lixo outros (mais árvores). Calendários e pastas a corrigir, milhões de saletas insolúveis n’água. Diga-se de passagem: reação de dupla troca. Num momento estimado próximo ao infinito, um olho passa pela prova e atinge a caneta, a caneta entra no olho com sua tinta e muda a cor da retina.

As questões mais simples lacradas pelos nós; dias anteriores a caneta está separada do olho, mas mesmo assim perfura, mancha o papel de tinta preta e depois avermelha. Nisso, o corretor pondera, o café poderia estar mais forte, o parágrafo mais claro, as palavras mais concisas, poder-se-ia usar mais citações, mais dados, mais infográficos, mais tecnopolos, mais silício, mais tinta, menos tinta, mais letra menos letra e todas as contas rabiscadas desconsideradas no canto da folha em branco rapidamente quando os minutos começam a acabar o pobre ou podre coitado grita internamente não há mais tempo escreve logo o gabarito o fim está próximo entrega e percebe o erro.

Das mãos do escrivão às mãos do bebedor de café. A máxima aproximação que dois seres viventes do mesmo casebre terão será a caneta dentro do olho, a retina com outra cor, os apontamentos de onde o texto poderia ser mais bem acentuado, mais coerente ou coeso. Uma dissertação em vão, uma rima: uma aprovação.

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