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A Raposa e o Risco – Fábula a Dorian G. L. Maison

Era uma vez uma raposa muito esperta. Sua reputação percorria todas as florestas, até além de onde a vista consegue alcançar. Suas peripécias eram admiradas, comentadas, adoradas, detestadas, reinventadas por toda sorte de criatura, desde a mais astuta das abelhas até a mais lenta das tartarugas.

Certa vez, uma árvore nova cresceu em meio a floresta onde morava a raposa. Foi do dia para a noite, como num passe de mágica. Os frutos, tão verdes, pareciam saborosos; todos, no entanto, tinham receio de que fossem venenosos. Em pouco tempo, as criaturas todas, cada uma em seu grupo, começaram a arquitetar como descobrir se os frutos novos eram ou não perigosos; além disso, começou-se a pensar, em todo arbusto que havia, como escalar tal árvore – havia espinhos, embora bem camuflados, como descobriu o Sr. Coiote numa de suas inspiradas tardes.

Mas a nossa amiga raposa não tinha grupo. Suas idéias, seus métodos, eram mal compreendidos entre a população da floresta. Ninguém gostava de se manter muito tempo ao seu lado, devido a sua aparente loucura. Ela, portanto, tentava sozinha desvendar o grande mistério dos frutos verdes.

Eram manhãs e mais manhãs – a raposa largava seus compromissos para se dedicar ao pensamento. Tardes e mais tardes – e deixava de comer as outras frutas da floresta, que a alimentavam de forma tão fácil até então. Eram noites e mais noites – e se expunha a todos os tipos de predadores invisíveis que pudessem habitar até os mais sinistros dos pesadelos. Eram madrugadas e mais madrugadas – e se privava de um bom sono, e não se importava com o cansaço extremo, nem com as doenças que a falta de descanso traziam, nem com nada assim.

Via o Sol nascendo, e não se importava de já estar acordada há tanto. Era como um matemático grego, obcecado por encontrar sua resposta, mesmo que tal tarefa parecesse, aos olhos comuns, tão exagerada.

A floresta era repleta de frutos, ervas e água pura. A raposa, no entanto, tinha uma fome descomunal por sua própria dúvida.

Num belo dia, correu entre todos os arbustos e todos os formigueiros a triste notícia para a raposa, que duvidou – como sempre – até o último segundo, antes de ver com seus próprios olhos: a árvore não era mais desconhecida, tão pouco o gosto dos seus frutos verdes.

Numa tarde comum e entediada, o jovem guaxinim e o velho coiote encontraram um caminho à raiz da grande árvore, e conseguiram apanhar alguns de seus frutos, e dividiram irmanamente, e disseram que era doce como a folha de hortelã, mágico como a erva do absinto.

Era o fim da linha para a pobre raposa. A floresta e todas as criaturas encontrariam qualquer outro mistério para comentar, depois disso.

Nossa perspicaz amiga, no entanto, se recusava a acreditar que a árvore era só aquilo. Não podia ser. Depois de noites e noites de lamento, lágrimas, pesadelos, ela decidiu continuar sua busca. Pouco importava o que o guaxinim e o coiote diziam ou haveriam de dizer. Os olhos da raposa eram só dela, e assim também eram suas vontades. Ela continuou se privando de qualquer descanso. Não pararia até comprovar por si mesma como era o gosto dos frutos verdes da árvore das árvores.

Num natal, a floresta era permeada por comemorações. Todas as criaturas trocavam presentes, abraçavam-se, cumprimentavam-se, pouco percebiam a falta da raposa.

Ao centro da floresta, lá estava ela, tão explícita e isolada, junto com a árvore. Havia preparado uma bugiganga com os restos de cipó que encontrara perto da sua cama, e trouxera presentes – à sua maneira – para a árvore.

Não tinha muitas coisas a raposa além de sua imaginação: um cacho de uvas bem doces de uma torre negra distante, uma rosa cheia de espinhos e um pedaço de barro endurecido que trazia uma marca de sua pata, que fizera e guardara com tanta estima quando era mais jovem e tinha mais brilho nos olhos.

Perto da noite armou suas gambiarras, e começou a subir. Depois de quase cair sete vezes, e, com muito esforço, retomar o equilíbrio, uma grande chuva caiu sobre a floresta. Não se sabia de onde haviam chegado as nuvens e os raios e tanto frio. As árvores mais fracas caíam umas sobre as outras, destruíam ninhos, esconderijos, despedaçavam-se.

Num momento sublime, a árvore das árvores, como estivesse abraçando a raposa, lançou um de seus galhos e criou um tipo de ninho para nossa astuta aventureira. Lá estava a raposa, abraçada com a árvore, surpresa, na noite de natal, enquanto o mundo do lado de fora ficava mais e mais imerso na tempestade.

Dentro do abrigo, o clima era perfeito.

Enquanto o guaxinim, o coiote e talvez até outras criaturas mais curiosas devoravam os frutos mais próximos da raíz da árvore, a raposa ficou em seu abrigo improvisado por muitos meses, provando por si mesma os frutos verdes que cresciam lá no alto, e se convencendo de que, se fossem venenosos, valeriam as futuras doenças.

Para a raposa, os frutos verdes eram muito doces para serem venenosos.

Depois do décimo segundo mês, a raposa e a árvore eram como uma só criatura. A raposa brincava com as folhas, os galhos, os frutos e as sombras; a árvore ria, em silêncio, como se as peripécias da raposa fizessem cócegas em seus troncos.

Quando chovia – e tempestades não faltaram naquela floresta – a raposa sabia que podia se aconchegar em seu abrigo entre os galhos. Quando fazia frio – e os frios eram daqueles que nos fazem ranger os dentes e nos trazem vontades incontroláveis de beber chocolate quente – a árvore tinha a certeza do calor da raposa.

Num segundo, tudo pareceu mudar.

De repente, a raposa começou a sentir espinhos que antes pareciam não existir. Conforme andava por galhos que pensava conhecer, machucava-se, torcia as patas ao tentar desviar, sentia calafrios estranhos – parecia que a altura, que nunca a havia incomodado, agora causava vertigem.

Num dia, a raposa desceu até as raízes, enquanto toda a floresta dormia. Queria ver como as coisas estavam, queria encontrar de novo todos os motivos que a fizeram trespassar tantas madrugadas até chegar em seu abrigo na árvore. Queria sentir o cheiro e o gosto do mundo de fora, para se lembrar do porquê preferira viver no mundo de dentro.

…Mas o rumo das coisas nem sempre é uma linha reta. Quando numa noite, cansada, a raposa quis voltar ao seu abrigo, por algum motivo sentiu medo. Olhou para as raízes da árvore das árvores, e elas causaram medo. Olhou para cima, e os galhos pareciam labirintos cheios de espinhos e criaturas invisíveis. Os sons pareciam querer afugentá-la, os cheiros pareciam querer espantá-la, as frutas verdes mais baixas eram tão azedas…

A raposa, imersa em seu medo, correu, correu para bem longe, e sabia que a floresta não sentiria sua falta. A raposa correu, e correndo a tristeza passou a fluir com cada gole de água que bebia no meio do caminho, cada pedacinho de fruta que roubava das outras árvores. Nada mais parecia fazer sentido, para onde quer que olhasse.

Depois de um longo inverno em que a raposa jogou toda sorte de jogos de azar com a própria fome, os raios do começo da primavera colidiram contra a árvore, e a mostraram em sombra na parede da toca da raposa.

Numa manhã, o desenho inconfundível na parede de pedra devolveu um pouco do brilho dos olhos da raposa, e ela, numa estranha certeza, estava decidida – iria caçar a sombra, o que quer que custasse.

Caçar sombras, no entanto, é muito mais difícil que caçar borboletas.

A primavera irradiava cores e mais cores pelas florestas. Seguindo a sombra e o instinto, a raposa se deparou com a árvore das árvores, ainda mais alta, ainda mais esbelta, ainda mais imponente.

Querendo ver como estava seu abrigo, nossa amiga tentou num pulo alcançar um galho mais alto. Estranhamente, o galho parece ter desviado – e a raposa caiu ao chão.

Sem conseguir pensar em desistir, a engenhosa raposa armou uma das suas típicas bugigangas para escalar a árvore. O equipamento, no entanto, não conseguia se prender. Ora quebrava um galho velho, ora escorregava num galho novo e derrubava a raposa.

A raposa, toda vez que caía, observava um detalhe novo na árvore das árvores, uma nova cor, um novo caminho, mas nada podia fazer. As lágrimas pensavam em se ajuntar nos olhos, mas tinham muito medo. Tinham muito orgulho para simplesmente transbordarem assim.

Sem maiores alternativas, nossa adorável errante construiu um abrigo à sombra da árvore. Era o mais próximo que conseguiria ficar. Um dia teria a idéia genial para voltar ao seu velho abrigo; enquanto isso, via outros muitos animais devorando as frutas verdes que nunca se acabavam, mas não importava. Ainda as frutas teriam outro gosto nos dentes da raposa.

Numa tarde, um estrondo acordou com um susto a raposa. Não era trovão, mas era como se fosse. Um trovão num dia sem nuvens.

Espreitando o lado de fora, a raposa viu uma máquina. Dentro da máquina, uma criatura esquisita, incompreensível, cheia de fumaça, ferro e roupas laranjas. Num manusear eficaz e mecânico, começou a cortar a árvore das árvores.

Conforme a serra entrava, conforme o pó de madeira voava para todos os lados, a raposa ficava mais e mais desesperada. Enquanto a floresta apenas contemplava, solene, acuada, a raposa tentava escalar pela última vez a grande árvore, provar pela última vez um dos frutos lá do alto, ver pela última vez seu abrigo, despedir-se, mostrar a ela que ali estava… Mas tudo foi inútil.

Numa das trovoadas, a árvore das árvores despencou, violentamente, contra o chão da floresta. Um dos galhos, que, como reconheceu a raposa, eram do seu abrigo, caiu sobre sua testa confusa, deixando uma marca branca. Um risco entre os olhos, uma lembrança de suas memórias.

A árvore das árvores não parecia triste, sequer melancólica. Seria transformada agora em lápis e papéis, que haveriam de contar novos contos, escrever novas cartas. Conheceria o mundo, sentiria ares de todos os lugares. Não importava que poderia ser qualquer coisa desde que não pudesse ser árvore. Assim era para acontecer, assim aconteceria.

A raposa, por outro lado, não queria se conformar. Haveria de roubar papéis e lápis de todos os lugares do universo para reconstruir seu abrigo, antes de perceber que era uma missão sem sentido algum. A raposa não sabia escrever, não sabia fazer dobraduras, não sabia esquecer.

Em nada o gosto de um papel iria se assemelhar ao da fruta verde de outrora.

O risco em sua testa a lembraria de tudo, e a lembraria sobre como são desenhadas as nuances da realidade. Apesar do mundo continuar, a raposa bem sabia que ali no meio da floresta, em seus sonhos mais nostálgicos, haveria um abrigo. Um abrigo no topo de uma árvore que não mais existia.

Num capricho do acaso, num momento inesperado, a alguns pés de altura, numa noite clara de lua cheia e sem nuvens, uma coruja desastrada deixa cair de seu bico uma semente.

O Conto do Milênio – Capítulo 10: O Outro Lado da Rua 32

Esta história foi desenvolvida em conjunto com Chico Carandina, o Investidor Moderno – oinvestidormoderno.wordpress.com – e o texto que se segue é o ponto de vista de quem estava observando do outro lado da rua 32.

Qualquer semelhança com fatos oriundos da completeza histórica pode ou não ser mera coincidência, assim como o gato de Schrödinger pode e não pode estar vivo sobre raiz de dois.

AVISO: Teletexto impróprio para economistas. AVISO: Sob hipótese alguma faça hipoteca deste texto. AVISO: Venda Tudo. AVISO: Beba refrigeranteAVISO: Diretriz 3, Casanova. DIRETRIZ 3, repito, diretriz 3. AVISO: Não fume este texto. AVISO: Não faça publicações científicas citando este texto. AVISO: Este texto não se encaixa nos postulados da mecânica quântica. AVISO: Contém palavrão. AVISO: Não recomendado a pessoas cardíacas, ou seja, que possuem coração. AVISO: Haverá reposição de aula. AVISO: 1929 e 1976 podem ou não ser datas meramente ilustrativas. AVISO: Este texto não se encontra na forma canônica, mas é facilmente derivado dela. AVISO: Não cole este texto nas paredes da sua Universidade. AVISO: O maço das duplicatas deverá ser entregue em três vias, ficando uma para a Imobiliária e uma, a amarelada, para o Advogado. AVISO: A data limite é o grito da dead line. AVISO: Este texto é tipo zero bala. Brand New. On demand. AVISO: OCCL

 Esta é uma História sobre muitos homens bons.

A música era uma datilografia de memorando. Eu, Roberto, já tinha dançado faz tempo. Todo mundo ali do escritório já tava rodado no baile da saudade que fez a burocracia. Além do mais, minha carteira só tinha boleto vencido e papel-moeda que nesses tempos só e ia servir como higiênico.

Apesar dos destroços daquela gente toda, a vista era linda pela janela do Complexo Grão Mascarenhas de Escritórios (C.G.M.E). Era um prédio do tipo zero bala, brand new. On demand.

Daqui do andar trinta e sete era possível ver todo o céu até a alta Jaçanã. Grandes prédios, grandes profissionais, grande cidade, franca expansão. Comércio, ilustração, bolhas de São Paulo. Cheirinho gostoso de café e concreto com monóxido de caco de vidro pra alguém que madrugou datilografando, calculando e comendo o pão que o tinhoso tinha amassado, recheado com uma suculenta pasta de massa acelerada – corrida. Uma bela manhã de trabalho braçal.

Eu queria era ver aquela merda toda desabar.

Foi que chegou o finalzinho do Novembro. Eu já tinha avisado todo mundo: O fresco do Marçola, da repartição, o Riveiro, aquele narigudo burguês da Alta Sociedade, o bêbado do Cedro Carioca, até a vadia da Teresinha eu tinha avisado. Todo mundo já tava por dentro dos fatos, porque eu trabalho com fatos. Se não é fato, não pode ficar no papel. Aqui não vale trapaça, aqui não vale mentira. Foi assim que aprendi no curso, foi assim que meu mestre me disse, e é assim que funciona comigo.

Mastigo pão com massa corrida e bebo suco de ladrilho, mas não invento círculos num mundo de quadrados. Sou louco, não maluco.

Aquele ano tava demais. Já era o final do senhor Novembro e eu não tinha montado a árvore do Natal. O Natal, desde o ano sétimo, já vinha chegando à porta e cobrando os aluguéis atrasados em forma de presentinhos caros que ninguém precisa e que ninguém quer comprar, mas acaba o fazendo pra fingir que se arrependeu de coisas que sequer aconteceram. Era sempre assim, e esse ano não era diferente. Era só mais intenso.

Não tinha árvore de natal na minha sala. Pudera. Não ia ter dinheiro pra presente nenhum, mesmo. Eu só tinha no bolso furado um maço que era grande demais – ou sujo demais – pra cair por minhas pernas. Não era um maço de cigarrilhas, no entanto; era um maço de problemas. Um maço de obrigações. Um maço de prazos. Um maço de duplicatas.

Uma vez até tentei tocar fogo nos papéis assinados, tentei até afogá-los pra ver se o rio – que não era claro nem de janeiro – o levava até algum outro que recebesse, honrosamente, meus problemas, e cuidasse deles, como fossem filhos achados num cesto.

Ninguém queria meus problemas, nem eu. Também não adiantou muito tocar fogo nos papéis, já que foi só tirar um isqueiro e um papel que choveram indivíduos pedindo fumo – e, acredite, ofereci minhas duplicatas, dizendo que era cigarro de palha do futuro, mas ninguém quis. Um até chegou a cafungar, mas achou muito azedo o gosto tenro das sans seriff. Também não adiantou jogar no rio – que não era claro nem de janeiro -, porque aquilo parecia qualquer coisa, menos água. Tinha uma viscosidade digna de um poço de petróleo, e olha que petróleo nem tinha se tornado um ícone pop àquela época. O ícone pop, houvesse algo assim, era a água suja, e com isso aquela água se parecia bastante. Joguei o papel da duplicata e completeza no córrego, mas o líquido não fluía. Afundei, sujei minhas mãos, e nada.

O máximo que consegui foi sujar minha calça, que já não estava tão limpa assim.

Antes mesmo que eu pudesse parar dois segundos e pensar em minha saudosa progenitora, que sempre me aguardava em casa, lá no interior, pra me chamar de vagabundo, com uma certeza tão absoluta quanto a desvalorização das ações do Junqueira, olhei através da janela do meu claustro para o mundo. Mirei o edifício do General Qualquer Coisa (G.Q.C), bem em frente do Mascarenhas.

A Rua 32 era o Futuro. A Rua 32 era conhecida, naquelas épocas, como Mar de Escritórios. A gente chamava, brincando, de Mar dos Séculos – ou, segundo o Riveiro, Mar Ditto. Ele adorava misturar português com latim.

Mas o que foi que vi? O que vi a alguns andares de milhares de réis de diferença? Parecia, às vistas de um homem justo, apenas um escritório. Mas não. Não era. Era uma pantomima. Era um ultraje. Era, senão, um espetáculo de horrores.

Eu já sabia que ia chover gente dos prédios. Desde a manhãzinha do dia anterior eu já previa isso, e eu sempre prevejo tudo. Primeiro caem as ações, depois os papeis, depois as pessoas. Chove carne sobre os balaústres da corrida dos ratos e dos cafés, e não é novidade alguma pra mim. Novidade foi consertar a máquina de contabilidade chutando os fios do velho cassino – isso sim foi uma novidade.

Gente se jogando quando as coisas caem é perfeitamente previsível. Tudo cai, então a moda é cair também.

Ali, edifício pomposo, cortinas vermelhas, carpete, bom cheiro de pasta de dente tapando os buracos – falta massa acelerada – e secretárias formosas. Uma janela aberta, uma máquina caindo.

Parecia, de fato, uma foto-copiadora, modelo novo, tipo zero bala. Brand new. On demand. Acima do aparelho, enquanto o mesmo chegava cada vez mais perto do chão concretado da gloriosa Rua 32, um palhaço gritava qualquer coisa com os braços esticados aos céus, gravata verde enrolada na cabeça e terno entreaberto, abarrotado. Por trás deste, ainda, outro, gordo, bem gordo, o tipo de gordo que, mesmo que quisesse se matar, acabaria antes matando os bombeiros – de tédio, ao se virem obrigados a retirar tamanha criatura entalada numa janela de escritório. O gordo, como não bastasse, ainda exalava rios de fumaça. Era tanta fumaça que o cheiro atravessava a rua e chegava até meu nariz, desrespeitando completamente o cheiro de outro charuto aceso cerca de dois ou três passos depois de mim.

Por algum motivo, esse paspalho da gravata, num ápice do caos financeiro, arremessou – e eu vi com os olhos honestos de um matemático – a foto-copiadora através do andar trinta e quatro do prédio do General Qualquer Coisa (G.Q.C). Ainda não tinha caído ninguém naquela bela tarde, mas eu mesmo estava com uma vontade crescente de atirar o Costa por aquelas mesmas fenestras venezianas do escritório.

O Costa, vulgarmente conhecido como Costinha, o canhoto, adorava ser esse tipão. Contador de piadas, jocoso, velhaco e dono da corporação. Comandava a mãos de ferro fundido. E nas mãos dele é que morava nossa empresa. Foi ele quem disse sobre vender tudo e seguir as novas tendências do investimento moderno. Investimento moderno… Deu no que deu. Por algum motivo, isso de ser um investidor moderno tinha a perfeita cara em carraça esculpida do engravatado do andar trinta e quatro do edifício do General Qualquer Coisa (G.Q.C).

Que carão.

Juntei minhas folhas sujas e minhas moedas igualmente mal-limpas. Deu pra mim. Hoje acabou o expediente. Outro que bata cartão e ganhe cinco centavos a mais. Dá pra comprar uma bala com cinco centavos. Não dá mais é pra calcular nada. Dane-se o Costinha, aquele piadista infame. Dane-se a empresa e dane-se a Daniella, que faz o pior café que já tive o azar de provar. Frio, aguado, melado… E a gente ainda tem que dar risadinha pra semelhante incompetência.

Ou eu saio daqui agora, pensei comigo mesmo, ou quem começa a jogar gente sou eu, e do andar trinta e sete. Não ia ser belo pra ninguém além de mim. O Mascarenhas, tão imponente, servindo como lar de desespero. O Mascarenhas, sim, o Mascarenhas! Mascarenhas, o que dava nome aos bois e ao prédio, era um ícone. Eu mesmo o admirava, mas isso que fizeram no lugar que ele começou não tem nome. Na verdade até tem nome, mas é tão sujo que prefiro escrever uma lista de palavras de baixo calão para poupar os leitores de tanta claustrofobia melancólica léxica (C.M.L, na linguagem padrão).

Mal saio do prédio e vejo o palhaço da gravata. Só podia estar bêbado, aquele pilantra. Não dá pra levar a sério alguém daquele tipo. Gravata verde, enrolada na testa, braços dançantes, magro feito uma lombriga anêmica, roupa social completamente destruída e sapato cuspido pra dar brilho. Tem gente que perdeu tudo nesses dias de vinte e nove, e este ferrolho perdeu, antes dos papéis, das ações e das calças, a dignidade. Lá estava ele, revirando o cadáver da fotocopiadora, praguejando, dançando, sozinho. Ora essa, pensei. Foi ele mesmo quem jogou aquela porcaria daquele aparelho, ele mesmo é que ia arcar com as conseqüências que desciam embarcados num carrão último ano, tipo zero bala, Brand New. On Demand.

Mas ele não se importava. Devia estar bêbado, de fato.

Do súbito, surgiu nas mãos do Investidor Moderno um charuto. Pegue este charuto, alguém poderia pensar. Dê-me este estilingue, outro poderia ter completado. Mas não.

Eu, do outro lado da Rua 32, do Mar Ditto, estava sentado à calçada, lamentando minha própria existência, já com as calças frouxas, quando vi a cena – do meio do aparato de copiar, surgiu um amontoado de tabaco, e aquele esboço de economista acendeu o fumo, e fumou, e riu, e pulou, e beijou a sarjeta, e acenou a quem quisesse ver… Era como se a lama da guia o fizesse se sentir em casa. Ele vibrava, fumava, tossia e apontava pra cima, pros lados, pra baixo, pra mim e pra si mesmo.

Bêbado.

Mal sabia, eu, homem da razão e das ciências e das completezas, que aquele desapego à dignidade era só o começo, só a iniciação, só as primeiras gotas da chuva.

A partir daquela tarde, ia chover carne.

 - Roberto Mendes, 1929. Rua Trinta e Dois.

AVISO: Fim da parte Um. AVISO: Intervalo. AVISO: Início da Parte Dois.

Tanto tempo, e tanto tempo. E tempo tanto, e tempo tanto. E eu vivo. Melhorei de vida, obviamente. Agora trabalho em algo que gosto, em algo que me dá prazer de levantar toda manhã. Agora sou bem sucedido, tenho uma família maravilhosa, jogo tênis e golfe vez em quando, mas não muito bem. Tenho um bom carro, uma boa casa, pago meus impostos. Sou um homem que venceu na vida, um homem que deu tapas na cara do fracasso e conseguiu tudo honestamente, e hoje apenas goza.

Isso tudo, obviamente, é mentira.

O fato é que sou um velho. Mais velho do que me esforcei pra ser. Mais novo que o destino se esforça para torturar. Exatamente na idade de continuar participando da grande máquina que é o progresso. Sou uma engrenagem necessária. O mundo precisa de mim. Meus impostos fazem nosso país ir pra frente, assim como os seus. Por isso, meu caro, se você não paga os impostos, passe a fazê-lo com freqüência. Ainda há tempo.

O prédio é o mesmo, e Mascarenhas parece agora só um herói distante. Olho para baixo, à Rua 32, sem saber ao certo o que escrever. Tudo parece igual, o que mudou foi o número. Números são as únicas coisas que mudam. De resto, é necessariamente coerente.

Ainda trabalho com meus cálculos. A empresa, assim como o Brasil, assim como o mundo, assim como a humanidade, precisa de mim. Meu trabalho é essencial nesse grande projeto de desenvolvimento baseado em completeza e honestidade. Duas, três, quatro duplicatas. Cinco, seis, sete minutos atrasado. Oito, nove, dez doses de café. Onze jogadores e lá estava o Corinthians, ganhando o campeonato, depois de tanto tempo – alegria, alegria. Não fossem essas apostas que o Costa Filho tivesse feito com o Zenão, Mascarenhas havia virado pó e hoje seríamos apenas uma memória, uma sujeirinha a mais na grande sarjeta do progresso.

Mas o Corinthians foi campeão e salvou nossa cabeça. Salve o Corinthians.

Eu era novo, e minhas preocupações eram tão outras… Era eu tão alienado, mas minha memória não me falha. Doutor, eu não me engano. Meu escritório era, também, necessariamente o mesmo, com os necessários mesmos móveis. As máquinas eram diferentes, porque elas evoluem, porque o ser humano evolui, porque a civilização evolui, e todos somos parte da engrenagem, do sistema da evolução. A água é meu óleo diesel, as letras são minhas bobinas. O mundo precisa de mim.

Mas, além dos móveis serem os mesmos, a janela também era a mesma. Venezianas dignas dos movimentos artísticos mais requintados e requentados. Digno de trocar vogais e colocar consoantes onde antes só havia espaço nulo. Digno de enfiar constantes no final de uma integral. Digno de lucros, moldes, completeza, três ou quatro duplicadas, uma ficando com o advogado para sanção de novos documentos, em caráter amarelado, a serem retirados, após conferência, no depósito cartório regional da terceira décima quarta Vara, próxima mesmo à delegacia, como fui claramente informado pela secretária Vera.

O que importa é que olhei através da mesma janela, posto que estou apenas alienado, não cego. Meus olhos bem funcionam, meu caráter é que começa a capengar.

Mas se vamos falar de caráter, não posso deixar de citar a cena. Corinthians campeão, e, devo concordar, as comemorações ficam cada vez mais estranhas nesse mundo bola. O edifício General Qualquer Coisa (G.Q.C), logo a frente do escritório, com a mesma janela, dois ou três andares abaixo do meu, aberta.

A mesma porcaria de máquina foto-copiadora caindo. Dois mesmos malucos, um com o braço aberto aos céus, como agradecendo em prece a coragem para ser tão idiota, e outro, gordo que mais parecia um balão de reconhecimento meteorológico da Agência Aeroespacial Norte Americana, ou, como dizem os norte-americanos, National AeroSpatial Agência, NASA.

É claro que a fotocopiadora, dessa vez, tinha muito mais tecnologia. Não se tratava de qualquer fotocopiadora. Pude ver o logotipo e era uma Gambason, uma titânica Gambason. As fotocopiadoras Gambason tem o melhor das leis físicas para a cópia de documentos. Além dos comuns sistemas XEROX, marca registrada, as fotocopiadoras Gambason tem um design que proporciona o menor arrasto em relação ao ar, uma aerodinâmica inspirada nos melhores carros de corrida do mundo.

Portanto, caía graciosamente, e a uma rapidez estonteante.

Foi que beberiquei mais uma dose de uísque, já que café não mais servia de nada.

Uísque, essa era a idéia. Uísque, agora, era meu futuro. Meu futuro era aquela bebida tão grata, feita nos rincões mais onipotentes da Escócia, pelos melhores fermentadores. Era como beber a bebida dos celtas. Era a bebida dos celtas. Era uísque. Adoro uísque.

Coloquei meu copo sobre a bandeja, e me dirigi até o gabinete de Costa Filho. Não sem antes, obviamente, arrumar meu terno Razalca e minha gravata Mandira. Devemos sempre estar bem apresentáveis antes de contar com o apoio de nossos superiores.

Costa Filho, um exemplo de gente. Alguém que surfava nas boas vendas do Mascarenhas. É fato que aquele prédio, desde sua construção, jamais havia presenciado tantos funcionários promissores. Era o futuro, eram as engrenagens perfeitas. Vendas, ações valiosíssimas, reconhecimento, dinheiro entrando e saindo como fosse uma fornicação bestial entre um homem e uma mula.

Gostaria de deixar claro, neste ponto, que a população da cidade, do país, do mundo e da humanidade em nada se assemelham com uma mula.

Adentrei a sala, com sorriso sincero e Cícero em rosto. Perguntei se havia dois, três ou quatro minutos disponíveis. Ele disse que sim.

Estou muito velho e muito cansado, comentei. Já não tenho tanta disposição para sair de casa e ver tantas coisas bonitas. Ver coisas bonitas acaba cansando a vista, são muitas cores, o cérebro não consegue mais processar tudo de uma vez e fica atordoado. Por outro lado, não quero ser um vagabundo, não quero ficar em casa, sendo tratado como um velho. Existem, afinal, diferenças notáveis entre ser velho e ser tratado como um.

Eu sou só um cidadão, faço meu dever como consigo. É difícil cobrar tanto de si mesmo quando se vê um mundo onde a maioria apenas se ajoelha, e acaba não rezando. Um mundo onde se paga, mas não leva, por educação. Um mundo onde se diz que o ensino deve melhorar, mas não se quer aprender. É complicado todo esse fator, e ainda a violência tem aumentado, mesmo sendo esta a cidade mais segura do país.

Não que tenha acontecido comigo, mas o cunhado de um afilhado meu foi roubado esses dias, mesmo. Um rapaz disse que precisava de abrigo, e ficou na casa dele por uns dias, e então começaram a sumir coisas. Não digo também que esse rapaz foi o ladrão, afinal todos nós sabemos que tudo pode ser uma coincidência. Mas é que não custa nada tomar cautela com caldo de legumes.

Por isso, continuei, gostaria de não receber mais por trabalho. Quer dizer, gostaria de não receber mais em dinheiro vivo ou morto. O dinheiro vivo foge, e o morto só traz impostos para enterrar. Não posso enterrar no cemitério onde quero, nem no caixão que quero. Tem que fazer exame, tem que preencher fichas – não que eu esteja reclamando sobre preencher fichas, já que preencher fichas é uma dádiva que confere à população melhor segurança e controle sobre as próprias ações. Onde a memória não alcança, vem o papel.

Gostaria, portanto, de receber meu salário integral em Vouchers de bordel e três garrafas de uísque celta, religiosamente, todo mês. Três garrafas de uísque e o resto em vale-diversão em qualquer bordel. Não tenho preferência sobre a casa, desde que me seja boa a comida.

A cidade mais segura do país é muito famosa pelos restaurantes em seus clubes noturnos. A comida é um pouco cara, mas derrete na boca.

Costa Filho olhou, assustado com alguma coisa, talvez o noticiário. Sei que comigo não era. Eu não sou um monstro, sou só um cidadão, sou só um ser humano, afinal das contas.

Ele negou, misteriosamente, e eu, num impulso do qual não me arrependo, empacotei minhas coisas todas. Não dava mais para viver naquele ambiente. Empilhei meus cinco, seis ou sete livros, minha régua de cálculo, minha bobina mental e meus papéis sujos. Afrouxei a gravata e as calças, desci as escadas, a pé mesmo, porque não confio em elevadores.

Ao chão do mundo da Rua do Mar do Século, ou Mar Ditto, como diz meu nobre amigo sorocabano que ganhou a vida com os japoneses e suas criaturas esquisitas, sentei sobre a calçada, talvez ao mesmo ponto por onde já havia me lamentado tantas manhãs.

Foi que vi, logo na calçada da frente, três carros. Uma Caravan bege, pomposa, ao centro, mal estacionada, completamente torta. Dois Opalas, um preto esportivo e um cinza executivo, à frente e à traseira da primeira, necessariamente nesta ordem. Apesar da tenra idade, ainda gosto de manter a coerência matemática em meus dizeres, pensamentos e modos.

Saindo do portal do edifício General Qualquer Coisa (G.Q.C), uma figura já famosa em minha memória. Era o mesmo, precisamente o mesmo investidor moderno, mais moderno que nunca. Tudo era igual: os trejeitos, as manias de defenestrar aparelhos do andar trinta e quatro, dançar e rodopiar. E, dessa vez, mais moderno que nunca, a gravata que prendia sua testa cheia de idéias, mas com pouco cabelo, era listrada. Todas as cores do universo, talvez para despertar dor de cabeça em quem o tentasse olhar face a face algum dia.

Não precisava de tanto. Ao pensar em quanta bebida barata ele deve ter bebido para fazer o que fez durante a vida toda, já me arde o crânio, uma vez que o cérebro não dói.

Não sei se havia charuto dessa vez. Não quis prestar muita atenção. Ao que estive me afastando, quase que rastejando, rumo ao ponto dos ônibus, vi um nobre jovem correndo em minha direção. Cabelos longos, prancheta, lápis ou qualquer outra coisa que o valha. Parecia afoito; vindo de uma guerra nuclear, talvez. Ele ia me dizer algo, ia contar algo, ia avisar algo, não sei. Antes que pudesse me alcançar, minha vista escureceu. Minha última visão foi uma letra grega qualquer.

Acordei no futuro.

- Roberto Mendes, 1976. Rua 32.

O Conto do Milênio – Capítulo 8: Janta

O que você ta olhando? – Perguntei a ela antes das sete da noite. Ela soluçava, chorava, gritava, implorava, mas não respondia. O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando?

Ela chegou e eu tava me divertindo com outra, espirrando inseticida naquela rósea rubra terminação retal dilacerada por um pedaço de corrimão que enfiei até rasgar aquele corpo apertado e recém adulto. Ela pedia pra enfiar até o final, ate arrebentar a garganta. Ela adorava a dor e ver aquela poça de sangue podre no chão.

Vez em quando ela se contorcia, lambuzava a mão no sangue e na privada e comia e vomitava e comia e vomitava. Era uma vaca, mas em vez de leite dava sangue, e gritava, pedindo para ser possuída e destruída.

Além de enfiar o corrimão, eu batia naquela cabeça burra com meu punho; ela delirava, gemia, pedia mais.

Quase no orgasmo, ela implorou pelo veneno. Peguei a lata vermelha e comecei a espirrar como fosse perfume por aquele lixo que se tornou o banheiro. Espirrava em tudo; reto, boca, perna, cabelo, olhos, nariz. Ela pedia aos poucos todos os movimentos do corpo, mas sentia eu, no fundo de minha sinceridade, que ela tava pedindo mais.

Há quem não se contente com a dor interrompida e a quase morte. Há quem busque o lado obscuro da existência, e de lá não queira sair. Quando vai pra luz, faz questão de dizer como é o outro lado e o que fez pra sair de lá. É uma abelha vinda do pedaço sujo do mundo.

Aí a outra chegou, com suas sacolas de compras, suas cestas, seus brilhos e me viu, seu marido tão estimado e tão honesto, numa orgia com uma prostituta qualquer, cheia de rasgos, vermes, ferros, veneno e fita isolante tampando as narinas. Tão prateadas…

O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando? O que você ta olhando?

Ela ria tanto, e agora só chorava e se retorcia no canto do banheiro. Onde quer que tocasse havia sangue misturado com água suja, suco de infecção, veneno, gasolina.

A puta lentamente ia pro seu destino de orgasmo doloroso.

A janta ta pronta, Seu Marcos.

- Marko Greschwin IV; Prypiat : 1908

Longilineon Outside; Moi XV

Ontem me lembrei de você! O tempo tava fechado, o vento tava gelado. Quente tava o meu café, bastante amargo. Uma vez você me disse que meu gosto também era amargo; amargo, esverdeado, entorpecente… Apesar de você, ainda prefiro ficar acordado. A amargura é doce, depois da chuva.

Hoje veio o Sol. Com o céu azul e a claridade, chegou também a revolução. Você tinha que ver! São placas por todos os lados, as ruas estão menos movimentadas que o comum, alguns até saíram da cidade! Perto da praça dos aniversários, estão se aglomerando pessoas para discutir as políticas em assembléia. Ontem mesmo um grupo entrou no laboratório, sem proteção alguma, sem óculos contra radiação ultravioleta, e me chamou para ir. Não é por nada, eu até fui a algumas dessas reuniões, mas tudo que vi não foram pessoas e argumentos. Foram jogadores de times falidos, brigas contra o vento para se demonstrar que o outro time, que também não existe, é o mais fraco.

Aqui do lado de fora do laboratório ainda tem muito vento. Ainda é gelado, então ainda me lembro de você – não pela sua frigidez costumeira, nem por sua falta de respostas por tanto e tanto tempo, mas por causa das ventanias gélidas que estavam soprando através da janela de alumínio naquela noite em que tremíamos de frio… Parece que foi ontem que acordei às três da manhã agarrando seu corpo com todas as forças e buscando calor mesmo com os cobertores todos, não?

O silêncio do horizonte azul e ensolarado e vazio só é quebrado pelas conversas das cozinheiras, não muito longe daqui, e também não muito intensamente, posto que sejam apenas duas e o almoço ainda ta longe, e pelo grafite da lapiseira. É interessante ouvir essas conversas perdidas, porque não parecem ser palavras concretas – são apenas sons preenchendo o fluido da vida e da morte, são interações distantes. Só há palavras quando prestamos atenção nelas, assim como todo o resto. Ninguém nos provou que a cor do céu é azul. Todas as definições, nomenclaturas, tudo foi postulado por conveniência, afinal. É tolice ingênua acreditar que isso tudo que existe deve ser assim sob todos os pontos de vista. Mal entendemos algumas palavras quando nos são dirigidas, por que impor que devemos compreender até aquelas que nunca foram ditas?

Ali à frente uma das cientistas acabou de pegar um café. Acho digno esse lugar manter tradições tão seculares… Aqui sequer há máquinas automáticas para servir café, são só duas senhoras. Talvez já haja falta demais de sensações humanas, não há por que tirarem de nós até o gosto imperfeito do café.

Ela colocou um punhado pequeno de açúcar, e daqui da mesa pude sentir que foi o suficiente – nem muito amargo, nem muito doce. Hoje o dia é dos ciclos de Carnot, não precisa dos extremos. Eles sempre chegam, de qualquer forma. É um teorema.

Depois ela enfiou uma colher de plástico no copo, para misturar o líquido e o sólido, e foi como se ela estivesse cutucando meu cérebro solenóide… Sempre me esqueço sobre como são sedutores os movimentos impensados do cotidiano…

Longe vai o trem. Nem tão perto para incomodar, nem tão longe para não existir. Longe o suficiente para fazer um agradável barulho que, tal qual colher de plástico, mistura a fumaça de mil e oitocentos e a fusão fria de dois mil e setenta. Vê; esses trens que por aqui passam não precisam de carvão e fumaça, mas os usam mesmo assim. Talvez seja aquilo que ali em cima escrevi; talvez precisemos dessas lembranças menores para que o futuro não seja tão amedrontador. Num segundo adiante de todas essas letras, qualquer previsão é tola. A realidade pode ser rasgada por qualquer coisa desconhecida, tudo pode ruir, o horizonte azul tão pacato pode colapsar, e ninguém pode saber como é, por que é, ou se mesmo poderá ser. É tolo prever, e tudo o que se diz sobre o futuro são apenas reinterpretações do passado, afinal.

E foi aqui que me lembrei de você. Ontem por causa do céu fechado, do frio e da amargura do café; hoje, por causa da mistura entre o passado e o futuro. Não vou mentir, ainda tenho mais estima por cafeína que por sua presença real. Lembrar de você é muito mais agradável e reconfortante que passar sequer meia centelha de segundo ao seu lado.

Não chore, entretanto. Eu não preciso de você, assim como as dores não precisam de gente e os trens não precisam de fumaça. Apesar de tudo, ainda gosto de como você me engana em tantas previsões sem sentido… Ainda me inspira sua tolice. Ainda me inspira sua imperfeição.

Imago V

Worth it all to hear the voice of a virtual phantom?

A nylon coat tears apart in the middle of nowhere,
the empty place you call home reveals its parlor.
The fifth decade unveils its curves.

Two elder chairs await for the tea,
the sunset oscillates outside the harmonic dust.
Pieces of reality desperately call for the poisoned sugar.

All the jungle offers – a cake made of mistakes.

Near the obsolescence of baroque poetries,
a physicist tells you about the outer cosmos.
The stars aren’t out tonight,
and he does not have the eyes for you.

The hearse begins on the other side of the arc; the music salutes the dead. 

Among the invisible creatures that see through photointerferences,
a sketch of hope hidden on a catatonic face tries to write the last will. 

Outside the tenderness of the night,
the physicist knows you are lying.

- 1988, Outside Venora Street Restaurant.

O Demônio da Margem

Para encontrar a maior de todas as entidades divinas, precisei olhar por dentro dos olhos do demônio que mora dentro do rio que jaz em seu deserto árido de urânio.

A noite era venenosa, gélida como num cemitério calmo, e as calças das ninfas cadavéricas se desprendiam do corpo até as desilusões mais belas. Elas imploravam por meu sangue em suas taças invisíveis, mas eu bebia o resto de vinho do porto e contemplava do lado de fora da circunferência todas as lágrimas que não se sentiam a vontade para se derramarem dentre tais diferenciais.

Eu contemplava os fantasmas, os palhaços, a assassina e a profetisa do Nilo. Todos tão tolos quanto eu, com exceção das duas. Nelas eu enxergava as cargas de âmbar, tão distintas, tão opostas e tão atraentes…

No fluxo do deserto que o rio morto leva, pessoas vão com suas roupas e as escrituras se desmancham como fossem jogadas por ingênuos comediantes do alto de um barco de esperanças, navegando num mar de desilusões até a ilha das frustrações. A cada dia que rasteja às cartolas do calendário gregoriano, mais gente embarca em tal viagem – menos gente sabe aonde vai chegar.

Os palhaços e eu somos exceção. Sabíamos exatamente como era a ilha, que gosto tinha suas areias, como parecia seus ares, que animais selvagens se escondiam antes das cachoeiras e como seria difícil e doloroso conseguir alguma coisa para comer durante a estadia longa que nos aguardava.

Eu vi as fantasias que tanto me apeguei se escorrendo lascivamente por uma cama suja de aspirações mortais dos palhaços, os quais ainda se recusavam a chorar, dado que é de extrema dificuldade retocar tais pinturas da alma, que, em verdade, de nada servem por dentro.

A assassina e a profetisa giravam e dançavam em torno dos cabelos, inclusive dos meus, e me mostravam a verdade em sua forma mais despida.

As lágrimas dos palhaços não escorriam, ainda. Fitei pela última vez na noite, e desci contornando a margem do rio. O demônio se mostrou entre folhas cancerogênicas que nos garantiam o ar das manhãs.

Olhei dentro dos olhos da criatura sinistra, e compreendi que até o mais maligno dos seres da natureza carrega em si a melancolia das noites mal dormidas.

Olhei para dentro dos olhos do demônio, em desafio, e encontrei, por fim, o significado daquilo tudo por que rezei durante todos os meus tempos.

Chuva e Trovões na Praça do Julgamento

Chovia e trovejava.

Naquela noite obscura, entrei na espiral de minha própria vergonha. A praça parecia uma floresta fechada e cheia de criaturas sombrias, cinzas, verdes e pretas. O verde era bem escuro, cada banco estava úmido e cheio de folhas. Eu estava sendo observado, mas não via por quem. Nem sabia por que alguém se daria ao trabalho.

Deitei num dos bancos e percebi, lentamente, formar-se à minha esquerda uma casa, como que erguida do meio da relva molhada, por vigas que não sei de onde surgiram. Maciça, branca e velha. Estava lá há eras, mas estive ocupado todo esse tempo a ponto de não vê-la.

Assim foi, inclusive, como aquela moça que passara ao meu lado na feira. Procurei-a por toda a vida, e, concentrado em achá-la, deixei de vê-la quando passou ao lado, com suas sacolas e seu vestido vermelho.

Era sublime pensar em sua voz. Arrepiava-me além de todas as percepções que impus a mim mesmo sobre o que é a vida em si. Além da voz tinha um cheiro ímpar, bastante doce, enjoativo para alguns, mas não para mim.

Sabia sobre o que conversar, e dominava as linguagens perdidas dos monges do oriente, e desenhava a própria imaginação em traços inocentes que acabaram por pintar todas as cores que faziam falta no meu mundo monocromático.

Claro que ela não sabia disso. E eu também não sabia como eram bonitas as cores antes de derramar solvente sobre minha própria barriga, acidentalmente.

É provável que as cores jamais voltem, e os desenhos inocentes tão pouco. Agora o que se fazia sobre a parede do meu quarto era, senão, quadros impressionistas, distorcidos, como um conceito tão obscuro que resolveu se curvar, tal qual ferrugem, sobre o substrato da minha dor.

E ela também carregava cestas, e vivia em campos, embora eu saiba que não se tratava da Arcádia outra vez. Era parecido, mas como se a Arcádia fosse real, menos idealizada, em termos, e menos exagerada. Tão palpável e tão angustiantemente real…

A cada dia eu olhava os desenhos retorcidos e decidia que iria achá-la em qualquer feira de qualquer antigo feudo de qualquer lugar entre os mares e as luas. Qualquer que fosse a montanha, se ela estivesse lá, eu iria procurá-la.

O tempo chega a ser como uma refeição. Mal percebia que já havia se passado mais de dois ou três anos desde que decidi que ela existia. A barba já era sobressalente em minha face, assim como cabelo estava mais assustado por tudo que havia já presenciado, e as roupas, e os rádios, tudo. Era uma enganação e uma perdição, e eu sabia.

Embora árduo e lambendo as margens da impossibilidade, eu ainda acreditava, e olhava para cada nova rua abandonada esperançoso por achá-la jogada, desolada, com lágrimas secas decorando, como maquiagem, a pálida e temerosa face, esperando só por mim, o único que iria confortá-la naquele mundo de sombras e radiação acima dos níveis tolerados por qualquer ser que vive.

Hei de achá-la.

- Q.E.D.; PRYPIAT, STNK, VDL, RVNB, 191781:4812.

Mas a casa parecia vazia. As janelas estavam fechadas, escuras. A fachada, branca, já mostrava as marcas do tempo. Parecia algum tipo de catedral, mas duvido que algum tipo de santidade iria gostar de passar por ali as noites, naquela chuva. Quem sou eu, entretanto, para falar com tal autoridade sobre santidades… Sou só um pecador.

Não era uma chuva calma.

Cada trovão caía três vezes ao mesmo lugar, e todos eles pareciam muito próximos de onde eu estava. Astuto, escolhi como refúgio um lugar seguro numa tempestade, sob a copa de árvores.

É como se cada um dos relâmpagos tentasse me alertar de onde eu estava, e que não era sensato estar ali por tanto tempo. Mas esqueci-me da linguagem dos raios e continuei andando, em minha embriaguês, até a porta velha da casa velha.

Ninguém respondia às batidas. A porta rangia, mas não era por vida, e sim por velhice. Talvez não houvesse ninguém mesmo, com exceção daquela que com certeza estaria. Eu não queria vê-la, e ela não queria me ver.

Entrei à casa mesmo assim e vi como ela parecia pequena, embora gigantesca, por fora, a partir do momento que olhei por dentro.

Os galhos e a relva úmida de fora estavam presentes nos corredores abandonados de dentro. Uma leve luz, talvez de postes, clareava um pouco cada canto, e eu podia ver, embora não muito, como era o local.

Tudo parecia maior e exagerado. Havia quartos que eram tão grandes quanto casas inteiras; vazios, esperando por alguém a habitá-los, preparados para aqueles que viriam depois, e todos eles pareciam ter se perdido num caminho escuro, rotativo, de pensamentos circulares e estradas de barro em beiras de rios flamejantes do próprio medo de respirar.

A cozinha parecia familiar – facas jogadas ao chão, marcadas, manchadas, um rubro apagado e seco que ou era de tomates ou de sangue, tanto faz. Apesar das lâminas, não pareciam pertencer a uma assassina, mas sim a alguém que, mergulhado na piscina do desespero, acabou por se cortar todas as noites para se lembrar de que a dor física também existia. Armários de madeira, rotos, apodrecendo perto da escadaria que levava para baixo de um térreo que se encontrava no terceiro andar.

Continuei a andar e percebi as texturas do chão, e, como de costume, aconcheguei-me cada vez mais ao calor do chão gélido e sujo de piso quebradiço com cheiro de incensos de cemitério. As serenatas estavam gravadas, uma por uma, nos buracos que se revelavam, como lepra, ao longo dos corredores.

Havia um quarto com chão e paredes azuis, menos abarrotado e menos sujo. Ninguém estava por lá, tão pouco. Apesar disso, parecia estar esperando ainda mais ansiosamente por algum morador único, mas não havia ninguém. Eras e eras de espera, e ninguém viria.

Ninguém poderia vir.

Além da lepra da madeira, também havia outros buracos cavados, quadrados, no chão. Eram como gavetas, e provavelmente se tratavam de algum tipo de coleção de cofres num lugar tão comum que jamais despertaria qualquer suspeita por esconder valiosos papéis e jóias.

A cada trovejada, toda a casa infinita se iluminava, e a realidade parecia fluida – era como se o ar fosse mais denso, e eu pudesse ver cada distorção; parecia um tipo de camaleão que me grudara aos olhos – não os que vêem, mas os que percebem. Talvez, também, fosse algum tipo de bolha que criei em volta de minhas concepções, a fim de conservá-las. E me afogava, sem perceber, nas próprias águas serenas da realidade.

Uma sala escura, com bancos longilíneos de madeira. Também parecia ser local de muita e muita gente, mas só podia ver um vulto. Era um tipo de mulher, cabelo curto e loiro, magra, e a escuridão refletia o gosto de cada palavra que de sua boca ousava sair, ou ao menos que parecia sair de lá. Ela também esperava desde eras, e ninguém vinha – ao contrário dos outros, ela também sabia que ninguém haveria de vir, e que a casa fora construída por tanto tempo e sob prumo de tantas expectativas que jamais alguém teria coragem de se deitar num daqueles quartos tão majestosos destinados a pessoas tão comuns.

Na casa, o tempo parava. Trovejava, ainda, e a chuva continuava séria e tempestuosa. Não havia aquela que estava dizendo, assim como não havia ninguém na casa além de mim, e penso, inclusive, se havia mesmo casa, ou se fazia tudo parte de um cenário proposto por minha loucura, num provável momento em que caí no sono ao meio daquela praça radioativa cheia de árvores perigosas.

Podia ser, também, que os trovões eram meus. Não há quem possa provar que eu não estava pagando por meus crimes numa condenação elétrica, e que até a cidade era uma ilusão criada para mostrar minha própria jornada até aquela cadeira de madeira e ferro, até aqueles circuitos, fios desencapados, faíscas e aquele ser cinza, encapuzado, que, como carrasco, acionava a alavanca e fazia o tempo passar infinitamente devagar enquanto eu caminhava até o final do túnel, arrependido.

A condenação era um templo frio, como aquela casa, onde eu devia aprender as orações certas para expulsar os demônios que pudessem aparecer na forma de cães, porcos ou barulhos – não só em mim, como em todos os outros ventos. Os espetos do mar de brasa já tocavam meus braços, e eu deveria continuar descendo pela espiral e confrontar a forma mais crua de castigo, sem deixar de acreditar que há um final justo.

Um gosto do último gole de vodka voltou em minha garganta, e senti certo alívio. Era como se estivesse sendo abraçado por aquela moça que perdi na feira, vestida de vermelho, que esperava só por mim. Podia sentir seu gosto no gole já bebido de vodka, e, assim como a garrafa, só ela poderia me deixar tão ébrio.

Queria, antes de beber a garrafa, bebê-la em vermelho. Sempre gostei mais de vinho que de vodka, afinal.

É triste que só a vodka sobreviva a condições tão extremas de castigo.

A casa começa a se diluir, assim como minhas ilusões. Os quartos ventam por dentro, mesmo com janelas fechadas – sequer pude ver alguma delas, do lado de dentro. O sentimento de decepção e desapontamento paira sobre cada canto da casa, e, mesmo sem saber o porquê, eu sou um dos culpados. Também não sei culpado de quê. Não posso saber – só aceitar.

Uma multidão precisava de lar, mas a cidade já não podia abrigar ninguém além de mim. Até podia, em verdade, mas não havia ninguém com tamanho desapego às coisas boas a ponto de se contentar com vodka e pedaços velhos de civilização congelada e restos orgânicos.

Era a trinta ou quarenta minutos da rodoviária, e para lá eu deveria voltar e procurar em outros cantos do esgoto.

Lentamente eu fechei e abri os olhos, e não havia mais casa. Era eu, a relva por cima de mim e um cheiro deveras agradável de vestido vermelho.

Pensei ter visto um vulto, mas era só o vento em meu cabelo.

Plano Azimutal #2 – O Banheiro do Sexto Ano do Vigésimo Primeiro Século da História da Humanidade Depois do Messias

Andando por ruas que não existem, cheguei ao ginásio. E parecia lotado, afinal. Por algum motivo, eu não fazia parte da bagunça da platéia, mas sim de algum tipo de equipe ali dentro. Cheguei-me aos vestiários, e encontrei uma velha conhecida – estranhamente, vestindo roupas de ginástica um tanto coladas ao corpo. Estava exuberante. Eu podia ficar olhando por horas e horas, ou décadas.

E só.

A ginasta, em questão, era a velha conhecida – cabelos lisos, pretos, longos e soltos; roupa azul e preta; lábios bem contornados e rosados; olhos escuros, talvez castanhos, mas não sei ao certo; pele extremamente branca e lisa; alguma estranha atração por andar de patins em ocasiões formais onde pessoas costumam usar ternos – também é notável que ela gostasse de doces lisergicamente coloridos.

Eis que ela entrou à quadra da piscina, a qual não continha água, mas bolhas gigantes e coloridas de plástico; a orquestra começou a entoar a Abertura da década das memórias, e ela se lançou às bolhas.

Após quinze minutos, que era o tempo permitido de apresentação, meus olhos não conseguiam ficar sincronizados com meus pensamentos, nem com meu queixo. Tinha sido algo espetacular, que nunca pensei ser tão fenomenal. Não sei com quem exatamente ela estava competindo, mas havia chances de se ganhar algo.

Lembro de ter ouvido, antes da apresentação, que alguma colocação até vigésimo seria de bom tamanho. Mas as notas foram tão altas e tão inesperadamente altas, que demorou até o número Três do telão fazer algum sentido para nossas massas encefálicas.

Subitamente, então, ela se agarrou a mim, e eu não sabia o que fazer, senão dizê-la como eu sentia medo daquela ocasião. Não era bem medo que eu queria dizer, mas foi o que saiu. Existem emoções reais no mundo irreal, como pude finalmente contemplar de fato.

Ela se chegava cada vez mais próxima, suada, mas com um cheiro inexplicavelmente agradável. Roupas coladas, como se quisessem soltar do corpo, mesmo que, para isso, fosse necessária alguma ajuda externa.

Eu não podia pensar em nada daquilo. Na verdade podia, mas não pensava ser justo.

Foi que lembrei estar num mundo não real, então um sorriso maligno se implantou em minha face, e pedi-a para ir até o vestiário. Comigo.

A casa era a mesma, os costumes eram os mesmos. O chão de madeira era o mesmo, o sofá era o mesmo, e mesmas eram todas aquelas pessoas, com os mesmos assuntos há cinqüenta anos. Podia acontecer algo de diferente.

Sempre que se prepara massas para o almoço, algo estranho acontece. E isso me animava um pouco.

Uma súbita luz na janela do quarto de cima, e não era quem todos ali queriam que fosse. Mas era exatamente quem eu queria.

Posso comer macarrão outro dia – quando uma luz aparece na janela do quarto, não se deve pensar muito antes de pular.

- A Magazine Guild Illusion, #73, 1937 – p. 273e15

Agora era uma mera questão de fusos horários até que Ela chegasse, finalmente. Mas lá estávamos eu e a ginasta, e não era certo ficarmos parados. Ela parecia estar bêbada, de tanto que ria e gargalhava. Começou a tirar a pouca roupa, e meus olhos ficavam cada vez mais perdidos.

Ela me levou até um lugar escondido do vestiário, e lá, por algum motivo, havia um sofá. Vi-me caindo sobre ele, sem qualquer reação. A ginasta, que na verdade não era ginasta, se revelava totalmente curvilínea e rosada e lisa. E suada, obviamente.

Eu queria atacá-la, mas ainda não era justo. Era uma tortura inacabável até que se acabou – vi entrando na sala secreta a que fui buscar no meio do almoço.

Piscamos um ao outro, e saciamos nossa fome e nossa sede por longas curtas horas.

Abscissa

Não há pra onde correr. A cidade dos sonhos fica cercada por paredes sujas, rabiscadas, arranhadas, de conexão falha, tortuosas – não por estética, mas por erro.

Existem diferenças gritantes entre curvas tortas estéticas e curvas tortas por erro.

A dúvida cresce como árvore que sai da terra do dia para a noite – aonde eles números todos chegam, e por que deveriam chegar a algum lugar? Por que eu tenho de saber aonde chegam? E se eu não souber os números, serei proibido de ter idéias?

Minhas garrafas estão todas vazias, como se pudessem matar minha sede com tanto espaço sem nada. Nem podem matar minha sede nem me deixar bêbado – mas agora já não consigo sentir fome nem sede nem vontade. Dos números, surge a embriaguez; da embriaguez surge incerteza; da incerteza cresce o inferno das paredes.

E as paredes, que parecem proteger à noite, agora servem tão somente para prender num lugar sujo e empoeirado que creio ser o universo. Por fora há sujeira, por dentro há poeira. Por todos os lados, cada canto, cada teia de aranha radioativa, cada livro, cada página… Parece tudo se tratar de uma mentira bem formulada, uma máquina de tortura especialmente projetada para desprezar as carências físicas e experimentar as reações psicológicas humanas tão frágeis.

Existem vezes onde as paredes são apenas paredes. Eu quero gritar, mas não para ouvir meu eco. Às vezes eu tenho medo do meu eco – ele pode me dizer coisas que não quero ouvir.

Mas, quando as máscaras rastejam para baixo do travesseiro, e quando chove por dentro num dia sem qualquer nuvem, o eco fica exatamente como está.

O eco ri, em silêncio, por dentro da gaveta.

- XSINNERX; PRYPIAT, 0105 1889

Café Jornal Atômico Celular

Ocorreu enquanto lia sobre política. Não que a política atraia insetos.

Era, ou é, uma tarde calorenta – e por isso os insetos. Devo reforçar que os insetos nada têm a ver com políticas… Eles talvez sejam mais limpos empiricamente. Teoricamente são grotescos, admito.

Também, ao momento, saboreava meu café; quatro colheres de pó, duas de açúcar não muito cheias. Forte, não tão amargo, funcional. Esperava algum telefonema com notícias boas ou ruins ou uma guerra… Enquanto isso, lia o jornal galáctico.

Caro viajante, por favor note: por “jornal galáctico”, não me refiro à ficção científica. Refiro-me à trilha sonora.

A janela estava aberta, posto o calor que se fazia gradiente – pela fenestra, entrou ele, o famigerado inseto saltador. Saí da política e dos partidos, fui-me à incerteza metafísica.

Contemplei o inseto, forçosamente – queria, na verdade, sua extinção do meu ambiente calmo. Percebi um análogo interessante. O grilo era absurdamente rápido, e pulava. Cada pedaço de caos vazio entre móveis poderia ser uma morada nova por um infinitésimo de tempo. Talvez o grilo existisse em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas minha ferramenta de pão só consegue visualizá-lo ponto a ponto, nunca em sua obra completa.

Corri-me ao corredor, a fim de me apossar da lata vermelha. Infelizmente, veneno de nada adiantaria. Poderia jogar em todos os cantos, o grilo sempre acharia algum espaço novo.

Incômodo PT. I

O telefone toca, e não é a voz que eu gostaria de ouvir. Não é uma voz desagradável, isso seria injusto da parte de quem conta a história. Mas, por algum motivo, há um cutucão – a mediana é diferente da média.

Estatísticas são números e nomes – vida talvez seja algo além.

Parei ao grilo. Veneno; joguei um pouco dele, mas nada capturei. Assim funcionam muitos dos captadores de átomos, creio eu, embora não os conheça a fundo. O máximo que pude fazer, e assim é o máximo que podem fazer os tão respeitosos cientistas entre aspas – abrir as janelas e esperar que o grilo saia por si só, a fim de atingir uma estabilidade.

O grilo dentro do quarto simbolizou uma interrupção de minha leitura, de meu café e de minha música. Um barulho a mais, uma energia além do que estou acostumado ou do que esperaria numa tarde ensolarada. Coloquemos o inseto como perturbador de minha estabilidade. Pulando por todos os lados ao mesmo tempo, infinitamente rápido (para os padrões); talvez o grilo interagindo com o sistema novo tenha feito o telefone tocar, a campainha disparar e, quem sabe, tenha causado toda uma tempestade em algum lugar de algum continente longínquo – talvez até na Nova Zelândia.

Incômodo PT. II

Novíssimo Mundo – e é assim que me foi apresentado no livro de geografia. Os geógrafos caem do céu, resolvi pensar. Certa vez, ouvi dizer que não se trata de decorar capitais de países ou estados ou adjetivâncias assim.

Existem lugares tão despreparados para neologismos e idéias novas – existem lugares abertos onde as janelas estão todas fechadas.

Amar é diferente de possuir completamente. Pessoas não são objetos. Rochas o são.

Rochas ígneas podem até ser interessantes… Pode-se roubar uma delas e colocar num vaso.

Pode ser interpretado como crônica, embora heterodoxa. Em carta ao prefeito da metrópole, diria que a desigualdade social não tem necessariamente a ver com a taxa de pobreza.

Para que não fique demasiadamente grande, e meu café já acabou há um tempo, gostaria de pedir um pouco mais de ação ao prefeito. Os rios estão um pouco sujos, pude sentir um tanto do odor desagradável deles hoje, andando pela marginal principal. O tratamento de esgoto deve ser melhorado, assim como a educação.

Não posso dizer imparcialmente, mas, em minha humilde opinião, a educação é fraca, e tal fraqueza se reflete como num espelho de alumínio.

Neste momento o grilo sai do quarto, e a estabilidade volta. Assim também volta a se materializar o papel, e assim também voltarei a ler os artigos e as notícias…

Já que o café acabou, tomarei água.

Incômodo PT. III

Não se pode definir um sistema pelo comportamento isolado de indivíduos em exceção. É quase como definir a matemática por uma indeterminação – e a matemática não é tão indeterminada quanto parece.

De qualquer forma, todo sistema tem regras, e, em aspectos palpáveis, inúmeras exceções. É um pseudocírculo de raios – Busque o discernimento, ou então se acostume a dormir com os pés descobertos quando se cobre a cabeça.

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