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A Raposa e o Risco – Fábula a Dorian G. L. Maison
Era uma vez uma raposa muito esperta. Sua reputação percorria todas as florestas, até além de onde a vista consegue alcançar. Suas peripécias eram admiradas, comentadas, adoradas, detestadas, reinventadas por toda sorte de criatura, desde a mais astuta das abelhas até a mais lenta das tartarugas.
Certa vez, uma árvore nova cresceu em meio a floresta onde morava a raposa. Foi do dia para a noite, como num passe de mágica. Os frutos, tão verdes, pareciam saborosos; todos, no entanto, tinham receio de que fossem venenosos. Em pouco tempo, as criaturas todas, cada uma em seu grupo, começaram a arquitetar como descobrir se os frutos novos eram ou não perigosos; além disso, começou-se a pensar, em todo arbusto que havia, como escalar tal árvore – havia espinhos, embora bem camuflados, como descobriu o Sr. Coiote numa de suas inspiradas tardes.
Mas a nossa amiga raposa não tinha grupo. Suas idéias, seus métodos, eram mal compreendidos entre a população da floresta. Ninguém gostava de se manter muito tempo ao seu lado, devido a sua aparente loucura. Ela, portanto, tentava sozinha desvendar o grande mistério dos frutos verdes.
Eram manhãs e mais manhãs – a raposa largava seus compromissos para se dedicar ao pensamento. Tardes e mais tardes – e deixava de comer as outras frutas da floresta, que a alimentavam de forma tão fácil até então. Eram noites e mais noites – e se expunha a todos os tipos de predadores invisíveis que pudessem habitar até os mais sinistros dos pesadelos. Eram madrugadas e mais madrugadas – e se privava de um bom sono, e não se importava com o cansaço extremo, nem com as doenças que a falta de descanso traziam, nem com nada assim.
Via o Sol nascendo, e não se importava de já estar acordada há tanto. Era como um matemático grego, obcecado por encontrar sua resposta, mesmo que tal tarefa parecesse, aos olhos comuns, tão exagerada.
A floresta era repleta de frutos, ervas e água pura. A raposa, no entanto, tinha uma fome descomunal por sua própria dúvida.
Num belo dia, correu entre todos os arbustos e todos os formigueiros a triste notícia para a raposa, que duvidou – como sempre – até o último segundo, antes de ver com seus próprios olhos: a árvore não era mais desconhecida, tão pouco o gosto dos seus frutos verdes.
Numa tarde comum e entediada, o jovem guaxinim e o velho coiote encontraram um caminho à raiz da grande árvore, e conseguiram apanhar alguns de seus frutos, e dividiram irmanamente, e disseram que era doce como a folha de hortelã, mágico como a erva do absinto.
Era o fim da linha para a pobre raposa. A floresta e todas as criaturas encontrariam qualquer outro mistério para comentar, depois disso.
Nossa perspicaz amiga, no entanto, se recusava a acreditar que a árvore era só aquilo. Não podia ser. Depois de noites e noites de lamento, lágrimas, pesadelos, ela decidiu continuar sua busca. Pouco importava o que o guaxinim e o coiote diziam ou haveriam de dizer. Os olhos da raposa eram só dela, e assim também eram suas vontades. Ela continuou se privando de qualquer descanso. Não pararia até comprovar por si mesma como era o gosto dos frutos verdes da árvore das árvores.
Num natal, a floresta era permeada por comemorações. Todas as criaturas trocavam presentes, abraçavam-se, cumprimentavam-se, pouco percebiam a falta da raposa.
Ao centro da floresta, lá estava ela, tão explícita e isolada, junto com a árvore. Havia preparado uma bugiganga com os restos de cipó que encontrara perto da sua cama, e trouxera presentes – à sua maneira – para a árvore.
Não tinha muitas coisas a raposa além de sua imaginação: um cacho de uvas bem doces de uma torre negra distante, uma rosa cheia de espinhos e um pedaço de barro endurecido que trazia uma marca de sua pata, que fizera e guardara com tanta estima quando era mais jovem e tinha mais brilho nos olhos.
Perto da noite armou suas gambiarras, e começou a subir. Depois de quase cair sete vezes, e, com muito esforço, retomar o equilíbrio, uma grande chuva caiu sobre a floresta. Não se sabia de onde haviam chegado as nuvens e os raios e tanto frio. As árvores mais fracas caíam umas sobre as outras, destruíam ninhos, esconderijos, despedaçavam-se.
Num momento sublime, a árvore das árvores, como estivesse abraçando a raposa, lançou um de seus galhos e criou um tipo de ninho para nossa astuta aventureira. Lá estava a raposa, abraçada com a árvore, surpresa, na noite de natal, enquanto o mundo do lado de fora ficava mais e mais imerso na tempestade.
Dentro do abrigo, o clima era perfeito.
Enquanto o guaxinim, o coiote e talvez até outras criaturas mais curiosas devoravam os frutos mais próximos da raíz da árvore, a raposa ficou em seu abrigo improvisado por muitos meses, provando por si mesma os frutos verdes que cresciam lá no alto, e se convencendo de que, se fossem venenosos, valeriam as futuras doenças.
Para a raposa, os frutos verdes eram muito doces para serem venenosos.
Depois do décimo segundo mês, a raposa e a árvore eram como uma só criatura. A raposa brincava com as folhas, os galhos, os frutos e as sombras; a árvore ria, em silêncio, como se as peripécias da raposa fizessem cócegas em seus troncos.
Quando chovia – e tempestades não faltaram naquela floresta – a raposa sabia que podia se aconchegar em seu abrigo entre os galhos. Quando fazia frio – e os frios eram daqueles que nos fazem ranger os dentes e nos trazem vontades incontroláveis de beber chocolate quente – a árvore tinha a certeza do calor da raposa.
Num segundo, tudo pareceu mudar.
De repente, a raposa começou a sentir espinhos que antes pareciam não existir. Conforme andava por galhos que pensava conhecer, machucava-se, torcia as patas ao tentar desviar, sentia calafrios estranhos – parecia que a altura, que nunca a havia incomodado, agora causava vertigem.
Num dia, a raposa desceu até as raízes, enquanto toda a floresta dormia. Queria ver como as coisas estavam, queria encontrar de novo todos os motivos que a fizeram trespassar tantas madrugadas até chegar em seu abrigo na árvore. Queria sentir o cheiro e o gosto do mundo de fora, para se lembrar do porquê preferira viver no mundo de dentro.
…Mas o rumo das coisas nem sempre é uma linha reta. Quando numa noite, cansada, a raposa quis voltar ao seu abrigo, por algum motivo sentiu medo. Olhou para as raízes da árvore das árvores, e elas causaram medo. Olhou para cima, e os galhos pareciam labirintos cheios de espinhos e criaturas invisíveis. Os sons pareciam querer afugentá-la, os cheiros pareciam querer espantá-la, as frutas verdes mais baixas eram tão azedas…
A raposa, imersa em seu medo, correu, correu para bem longe, e sabia que a floresta não sentiria sua falta. A raposa correu, e correndo a tristeza passou a fluir com cada gole de água que bebia no meio do caminho, cada pedacinho de fruta que roubava das outras árvores. Nada mais parecia fazer sentido, para onde quer que olhasse.
Depois de um longo inverno em que a raposa jogou toda sorte de jogos de azar com a própria fome, os raios do começo da primavera colidiram contra a árvore, e a mostraram em sombra na parede da toca da raposa.
Numa manhã, o desenho inconfundível na parede de pedra devolveu um pouco do brilho dos olhos da raposa, e ela, numa estranha certeza, estava decidida – iria caçar a sombra, o que quer que custasse.
Caçar sombras, no entanto, é muito mais difícil que caçar borboletas.
A primavera irradiava cores e mais cores pelas florestas. Seguindo a sombra e o instinto, a raposa se deparou com a árvore das árvores, ainda mais alta, ainda mais esbelta, ainda mais imponente.
Querendo ver como estava seu abrigo, nossa amiga tentou num pulo alcançar um galho mais alto. Estranhamente, o galho parece ter desviado – e a raposa caiu ao chão.
Sem conseguir pensar em desistir, a engenhosa raposa armou uma das suas típicas bugigangas para escalar a árvore. O equipamento, no entanto, não conseguia se prender. Ora quebrava um galho velho, ora escorregava num galho novo e derrubava a raposa.
A raposa, toda vez que caía, observava um detalhe novo na árvore das árvores, uma nova cor, um novo caminho, mas nada podia fazer. As lágrimas pensavam em se ajuntar nos olhos, mas tinham muito medo. Tinham muito orgulho para simplesmente transbordarem assim.
Sem maiores alternativas, nossa adorável errante construiu um abrigo à sombra da árvore. Era o mais próximo que conseguiria ficar. Um dia teria a idéia genial para voltar ao seu velho abrigo; enquanto isso, via outros muitos animais devorando as frutas verdes que nunca se acabavam, mas não importava. Ainda as frutas teriam outro gosto nos dentes da raposa.
Numa tarde, um estrondo acordou com um susto a raposa. Não era trovão, mas era como se fosse. Um trovão num dia sem nuvens.
Espreitando o lado de fora, a raposa viu uma máquina. Dentro da máquina, uma criatura esquisita, incompreensível, cheia de fumaça, ferro e roupas laranjas. Num manusear eficaz e mecânico, começou a cortar a árvore das árvores.
Conforme a serra entrava, conforme o pó de madeira voava para todos os lados, a raposa ficava mais e mais desesperada. Enquanto a floresta apenas contemplava, solene, acuada, a raposa tentava escalar pela última vez a grande árvore, provar pela última vez um dos frutos lá do alto, ver pela última vez seu abrigo, despedir-se, mostrar a ela que ali estava… Mas tudo foi inútil.
Numa das trovoadas, a árvore das árvores despencou, violentamente, contra o chão da floresta. Um dos galhos, que, como reconheceu a raposa, eram do seu abrigo, caiu sobre sua testa confusa, deixando uma marca branca. Um risco entre os olhos, uma lembrança de suas memórias.
A árvore das árvores não parecia triste, sequer melancólica. Seria transformada agora em lápis e papéis, que haveriam de contar novos contos, escrever novas cartas. Conheceria o mundo, sentiria ares de todos os lugares. Não importava que poderia ser qualquer coisa desde que não pudesse ser árvore. Assim era para acontecer, assim aconteceria.
A raposa, por outro lado, não queria se conformar. Haveria de roubar papéis e lápis de todos os lugares do universo para reconstruir seu abrigo, antes de perceber que era uma missão sem sentido algum. A raposa não sabia escrever, não sabia fazer dobraduras, não sabia esquecer.
Em nada o gosto de um papel iria se assemelhar ao da fruta verde de outrora.
O risco em sua testa a lembraria de tudo, e a lembraria sobre como são desenhadas as nuances da realidade. Apesar do mundo continuar, a raposa bem sabia que ali no meio da floresta, em seus sonhos mais nostálgicos, haveria um abrigo. Um abrigo no topo de uma árvore que não mais existia.
Num capricho do acaso, num momento inesperado, a alguns pés de altura, numa noite clara de lua cheia e sem nuvens, uma coruja desastrada deixa cair de seu bico uma semente.
O Demônio da Margem
Para encontrar a maior de todas as entidades divinas, precisei olhar por dentro dos olhos do demônio que mora dentro do rio que jaz em seu deserto árido de urânio.
A noite era venenosa, gélida como num cemitério calmo, e as calças das ninfas cadavéricas se desprendiam do corpo até as desilusões mais belas. Elas imploravam por meu sangue em suas taças invisíveis, mas eu bebia o resto de vinho do porto e contemplava do lado de fora da circunferência todas as lágrimas que não se sentiam a vontade para se derramarem dentre tais diferenciais.
Eu contemplava os fantasmas, os palhaços, a assassina e a profetisa do Nilo. Todos tão tolos quanto eu, com exceção das duas. Nelas eu enxergava as cargas de âmbar, tão distintas, tão opostas e tão atraentes…
No fluxo do deserto que o rio morto leva, pessoas vão com suas roupas e as escrituras se desmancham como fossem jogadas por ingênuos comediantes do alto de um barco de esperanças, navegando num mar de desilusões até a ilha das frustrações. A cada dia que rasteja às cartolas do calendário gregoriano, mais gente embarca em tal viagem – menos gente sabe aonde vai chegar.
Os palhaços e eu somos exceção. Sabíamos exatamente como era a ilha, que gosto tinha suas areias, como parecia seus ares, que animais selvagens se escondiam antes das cachoeiras e como seria difícil e doloroso conseguir alguma coisa para comer durante a estadia longa que nos aguardava.
Eu vi as fantasias que tanto me apeguei se escorrendo lascivamente por uma cama suja de aspirações mortais dos palhaços, os quais ainda se recusavam a chorar, dado que é de extrema dificuldade retocar tais pinturas da alma, que, em verdade, de nada servem por dentro.
A assassina e a profetisa giravam e dançavam em torno dos cabelos, inclusive dos meus, e me mostravam a verdade em sua forma mais despida.
As lágrimas dos palhaços não escorriam, ainda. Fitei pela última vez na noite, e desci contornando a margem do rio. O demônio se mostrou entre folhas cancerogênicas que nos garantiam o ar das manhãs.
Olhei dentro dos olhos da criatura sinistra, e compreendi que até o mais maligno dos seres da natureza carrega em si a melancolia das noites mal dormidas.
Olhei para dentro dos olhos do demônio, em desafio, e encontrei, por fim, o significado daquilo tudo por que rezei durante todos os meus tempos.
Chuva e Trovões na Praça do Julgamento
Chovia e trovejava.
Naquela noite obscura, entrei na espiral de minha própria vergonha. A praça parecia uma floresta fechada e cheia de criaturas sombrias, cinzas, verdes e pretas. O verde era bem escuro, cada banco estava úmido e cheio de folhas. Eu estava sendo observado, mas não via por quem. Nem sabia por que alguém se daria ao trabalho.
Deitei num dos bancos e percebi, lentamente, formar-se à minha esquerda uma casa, como que erguida do meio da relva molhada, por vigas que não sei de onde surgiram. Maciça, branca e velha. Estava lá há eras, mas estive ocupado todo esse tempo a ponto de não vê-la.
Assim foi, inclusive, como aquela moça que passara ao meu lado na feira. Procurei-a por toda a vida, e, concentrado em achá-la, deixei de vê-la quando passou ao lado, com suas sacolas e seu vestido vermelho.
Era sublime pensar em sua voz. Arrepiava-me além de todas as percepções que impus a mim mesmo sobre o que é a vida em si. Além da voz tinha um cheiro ímpar, bastante doce, enjoativo para alguns, mas não para mim.
Sabia sobre o que conversar, e dominava as linguagens perdidas dos monges do oriente, e desenhava a própria imaginação em traços inocentes que acabaram por pintar todas as cores que faziam falta no meu mundo monocromático.
Claro que ela não sabia disso. E eu também não sabia como eram bonitas as cores antes de derramar solvente sobre minha própria barriga, acidentalmente.
É provável que as cores jamais voltem, e os desenhos inocentes tão pouco. Agora o que se fazia sobre a parede do meu quarto era, senão, quadros impressionistas, distorcidos, como um conceito tão obscuro que resolveu se curvar, tal qual ferrugem, sobre o substrato da minha dor.
E ela também carregava cestas, e vivia em campos, embora eu saiba que não se tratava da Arcádia outra vez. Era parecido, mas como se a Arcádia fosse real, menos idealizada, em termos, e menos exagerada. Tão palpável e tão angustiantemente real…
A cada dia eu olhava os desenhos retorcidos e decidia que iria achá-la em qualquer feira de qualquer antigo feudo de qualquer lugar entre os mares e as luas. Qualquer que fosse a montanha, se ela estivesse lá, eu iria procurá-la.
O tempo chega a ser como uma refeição. Mal percebia que já havia se passado mais de dois ou três anos desde que decidi que ela existia. A barba já era sobressalente em minha face, assim como cabelo estava mais assustado por tudo que havia já presenciado, e as roupas, e os rádios, tudo. Era uma enganação e uma perdição, e eu sabia.
Embora árduo e lambendo as margens da impossibilidade, eu ainda acreditava, e olhava para cada nova rua abandonada esperançoso por achá-la jogada, desolada, com lágrimas secas decorando, como maquiagem, a pálida e temerosa face, esperando só por mim, o único que iria confortá-la naquele mundo de sombras e radiação acima dos níveis tolerados por qualquer ser que vive.
Hei de achá-la.
- Q.E.D.; PRYPIAT, STNK, VDL, RVNB, 191781:4812.
Mas a casa parecia vazia. As janelas estavam fechadas, escuras. A fachada, branca, já mostrava as marcas do tempo. Parecia algum tipo de catedral, mas duvido que algum tipo de santidade iria gostar de passar por ali as noites, naquela chuva. Quem sou eu, entretanto, para falar com tal autoridade sobre santidades… Sou só um pecador.
Não era uma chuva calma.
Cada trovão caía três vezes ao mesmo lugar, e todos eles pareciam muito próximos de onde eu estava. Astuto, escolhi como refúgio um lugar seguro numa tempestade, sob a copa de árvores.
É como se cada um dos relâmpagos tentasse me alertar de onde eu estava, e que não era sensato estar ali por tanto tempo. Mas esqueci-me da linguagem dos raios e continuei andando, em minha embriaguês, até a porta velha da casa velha.
Ninguém respondia às batidas. A porta rangia, mas não era por vida, e sim por velhice. Talvez não houvesse ninguém mesmo, com exceção daquela que com certeza estaria. Eu não queria vê-la, e ela não queria me ver.
Entrei à casa mesmo assim e vi como ela parecia pequena, embora gigantesca, por fora, a partir do momento que olhei por dentro.
Os galhos e a relva úmida de fora estavam presentes nos corredores abandonados de dentro. Uma leve luz, talvez de postes, clareava um pouco cada canto, e eu podia ver, embora não muito, como era o local.
Tudo parecia maior e exagerado. Havia quartos que eram tão grandes quanto casas inteiras; vazios, esperando por alguém a habitá-los, preparados para aqueles que viriam depois, e todos eles pareciam ter se perdido num caminho escuro, rotativo, de pensamentos circulares e estradas de barro em beiras de rios flamejantes do próprio medo de respirar.
A cozinha parecia familiar – facas jogadas ao chão, marcadas, manchadas, um rubro apagado e seco que ou era de tomates ou de sangue, tanto faz. Apesar das lâminas, não pareciam pertencer a uma assassina, mas sim a alguém que, mergulhado na piscina do desespero, acabou por se cortar todas as noites para se lembrar de que a dor física também existia. Armários de madeira, rotos, apodrecendo perto da escadaria que levava para baixo de um térreo que se encontrava no terceiro andar.
Continuei a andar e percebi as texturas do chão, e, como de costume, aconcheguei-me cada vez mais ao calor do chão gélido e sujo de piso quebradiço com cheiro de incensos de cemitério. As serenatas estavam gravadas, uma por uma, nos buracos que se revelavam, como lepra, ao longo dos corredores.
Havia um quarto com chão e paredes azuis, menos abarrotado e menos sujo. Ninguém estava por lá, tão pouco. Apesar disso, parecia estar esperando ainda mais ansiosamente por algum morador único, mas não havia ninguém. Eras e eras de espera, e ninguém viria.
Ninguém poderia vir.
Além da lepra da madeira, também havia outros buracos cavados, quadrados, no chão. Eram como gavetas, e provavelmente se tratavam de algum tipo de coleção de cofres num lugar tão comum que jamais despertaria qualquer suspeita por esconder valiosos papéis e jóias.
A cada trovejada, toda a casa infinita se iluminava, e a realidade parecia fluida – era como se o ar fosse mais denso, e eu pudesse ver cada distorção; parecia um tipo de camaleão que me grudara aos olhos – não os que vêem, mas os que percebem. Talvez, também, fosse algum tipo de bolha que criei em volta de minhas concepções, a fim de conservá-las. E me afogava, sem perceber, nas próprias águas serenas da realidade.
Uma sala escura, com bancos longilíneos de madeira. Também parecia ser local de muita e muita gente, mas só podia ver um vulto. Era um tipo de mulher, cabelo curto e loiro, magra, e a escuridão refletia o gosto de cada palavra que de sua boca ousava sair, ou ao menos que parecia sair de lá. Ela também esperava desde eras, e ninguém vinha – ao contrário dos outros, ela também sabia que ninguém haveria de vir, e que a casa fora construída por tanto tempo e sob prumo de tantas expectativas que jamais alguém teria coragem de se deitar num daqueles quartos tão majestosos destinados a pessoas tão comuns.
Na casa, o tempo parava. Trovejava, ainda, e a chuva continuava séria e tempestuosa. Não havia aquela que estava dizendo, assim como não havia ninguém na casa além de mim, e penso, inclusive, se havia mesmo casa, ou se fazia tudo parte de um cenário proposto por minha loucura, num provável momento em que caí no sono ao meio daquela praça radioativa cheia de árvores perigosas.
Podia ser, também, que os trovões eram meus. Não há quem possa provar que eu não estava pagando por meus crimes numa condenação elétrica, e que até a cidade era uma ilusão criada para mostrar minha própria jornada até aquela cadeira de madeira e ferro, até aqueles circuitos, fios desencapados, faíscas e aquele ser cinza, encapuzado, que, como carrasco, acionava a alavanca e fazia o tempo passar infinitamente devagar enquanto eu caminhava até o final do túnel, arrependido.
A condenação era um templo frio, como aquela casa, onde eu devia aprender as orações certas para expulsar os demônios que pudessem aparecer na forma de cães, porcos ou barulhos – não só em mim, como em todos os outros ventos. Os espetos do mar de brasa já tocavam meus braços, e eu deveria continuar descendo pela espiral e confrontar a forma mais crua de castigo, sem deixar de acreditar que há um final justo.
Um gosto do último gole de vodka voltou em minha garganta, e senti certo alívio. Era como se estivesse sendo abraçado por aquela moça que perdi na feira, vestida de vermelho, que esperava só por mim. Podia sentir seu gosto no gole já bebido de vodka, e, assim como a garrafa, só ela poderia me deixar tão ébrio.
Queria, antes de beber a garrafa, bebê-la em vermelho. Sempre gostei mais de vinho que de vodka, afinal.
É triste que só a vodka sobreviva a condições tão extremas de castigo.
A casa começa a se diluir, assim como minhas ilusões. Os quartos ventam por dentro, mesmo com janelas fechadas – sequer pude ver alguma delas, do lado de dentro. O sentimento de decepção e desapontamento paira sobre cada canto da casa, e, mesmo sem saber o porquê, eu sou um dos culpados. Também não sei culpado de quê. Não posso saber – só aceitar.
Uma multidão precisava de lar, mas a cidade já não podia abrigar ninguém além de mim. Até podia, em verdade, mas não havia ninguém com tamanho desapego às coisas boas a ponto de se contentar com vodka e pedaços velhos de civilização congelada e restos orgânicos.
Era a trinta ou quarenta minutos da rodoviária, e para lá eu deveria voltar e procurar em outros cantos do esgoto.
Lentamente eu fechei e abri os olhos, e não havia mais casa. Era eu, a relva por cima de mim e um cheiro deveras agradável de vestido vermelho.
Pensei ter visto um vulto, mas era só o vento em meu cabelo.
Plano Azimutal #2 – O Banheiro do Sexto Ano do Vigésimo Primeiro Século da História da Humanidade Depois do Messias
Andando por ruas que não existem, cheguei ao ginásio. E parecia lotado, afinal. Por algum motivo, eu não fazia parte da bagunça da platéia, mas sim de algum tipo de equipe ali dentro. Cheguei-me aos vestiários, e encontrei uma velha conhecida – estranhamente, vestindo roupas de ginástica um tanto coladas ao corpo. Estava exuberante. Eu podia ficar olhando por horas e horas, ou décadas.
E só.
A ginasta, em questão, era a velha conhecida – cabelos lisos, pretos, longos e soltos; roupa azul e preta; lábios bem contornados e rosados; olhos escuros, talvez castanhos, mas não sei ao certo; pele extremamente branca e lisa; alguma estranha atração por andar de patins em ocasiões formais onde pessoas costumam usar ternos – também é notável que ela gostasse de doces lisergicamente coloridos.
Eis que ela entrou à quadra da piscina, a qual não continha água, mas bolhas gigantes e coloridas de plástico; a orquestra começou a entoar a Abertura da década das memórias, e ela se lançou às bolhas.
Após quinze minutos, que era o tempo permitido de apresentação, meus olhos não conseguiam ficar sincronizados com meus pensamentos, nem com meu queixo. Tinha sido algo espetacular, que nunca pensei ser tão fenomenal. Não sei com quem exatamente ela estava competindo, mas havia chances de se ganhar algo.
Lembro de ter ouvido, antes da apresentação, que alguma colocação até vigésimo seria de bom tamanho. Mas as notas foram tão altas e tão inesperadamente altas, que demorou até o número Três do telão fazer algum sentido para nossas massas encefálicas.
Subitamente, então, ela se agarrou a mim, e eu não sabia o que fazer, senão dizê-la como eu sentia medo daquela ocasião. Não era bem medo que eu queria dizer, mas foi o que saiu. Existem emoções reais no mundo irreal, como pude finalmente contemplar de fato.
Ela se chegava cada vez mais próxima, suada, mas com um cheiro inexplicavelmente agradável. Roupas coladas, como se quisessem soltar do corpo, mesmo que, para isso, fosse necessária alguma ajuda externa.
Eu não podia pensar em nada daquilo. Na verdade podia, mas não pensava ser justo.
Foi que lembrei estar num mundo não real, então um sorriso maligno se implantou em minha face, e pedi-a para ir até o vestiário. Comigo.
A casa era a mesma, os costumes eram os mesmos. O chão de madeira era o mesmo, o sofá era o mesmo, e mesmas eram todas aquelas pessoas, com os mesmos assuntos há cinqüenta anos. Podia acontecer algo de diferente.
Sempre que se prepara massas para o almoço, algo estranho acontece. E isso me animava um pouco.
Uma súbita luz na janela do quarto de cima, e não era quem todos ali queriam que fosse. Mas era exatamente quem eu queria.
Posso comer macarrão outro dia – quando uma luz aparece na janela do quarto, não se deve pensar muito antes de pular.
- A Magazine Guild Illusion, #73, 1937 – p. 273e15
Agora era uma mera questão de fusos horários até que Ela chegasse, finalmente. Mas lá estávamos eu e a ginasta, e não era certo ficarmos parados. Ela parecia estar bêbada, de tanto que ria e gargalhava. Começou a tirar a pouca roupa, e meus olhos ficavam cada vez mais perdidos.
Ela me levou até um lugar escondido do vestiário, e lá, por algum motivo, havia um sofá. Vi-me caindo sobre ele, sem qualquer reação. A ginasta, que na verdade não era ginasta, se revelava totalmente curvilínea e rosada e lisa. E suada, obviamente.
Eu queria atacá-la, mas ainda não era justo. Era uma tortura inacabável até que se acabou – vi entrando na sala secreta a que fui buscar no meio do almoço.
Piscamos um ao outro, e saciamos nossa fome e nossa sede por longas curtas horas.
Abscissa
Não há pra onde correr. A cidade dos sonhos fica cercada por paredes sujas, rabiscadas, arranhadas, de conexão falha, tortuosas – não por estética, mas por erro.
Existem diferenças gritantes entre curvas tortas estéticas e curvas tortas por erro.
A dúvida cresce como árvore que sai da terra do dia para a noite – aonde eles números todos chegam, e por que deveriam chegar a algum lugar? Por que eu tenho de saber aonde chegam? E se eu não souber os números, serei proibido de ter idéias?
Minhas garrafas estão todas vazias, como se pudessem matar minha sede com tanto espaço sem nada. Nem podem matar minha sede nem me deixar bêbado – mas agora já não consigo sentir fome nem sede nem vontade. Dos números, surge a embriaguez; da embriaguez surge incerteza; da incerteza cresce o inferno das paredes.
E as paredes, que parecem proteger à noite, agora servem tão somente para prender num lugar sujo e empoeirado que creio ser o universo. Por fora há sujeira, por dentro há poeira. Por todos os lados, cada canto, cada teia de aranha radioativa, cada livro, cada página… Parece tudo se tratar de uma mentira bem formulada, uma máquina de tortura especialmente projetada para desprezar as carências físicas e experimentar as reações psicológicas humanas tão frágeis.
Existem vezes onde as paredes são apenas paredes. Eu quero gritar, mas não para ouvir meu eco. Às vezes eu tenho medo do meu eco – ele pode me dizer coisas que não quero ouvir.
Mas, quando as máscaras rastejam para baixo do travesseiro, e quando chove por dentro num dia sem qualquer nuvem, o eco fica exatamente como está.
O eco ri, em silêncio, por dentro da gaveta.
- XSINNERX; PRYPIAT, 0105 1889
Café Jornal Atômico Celular
Ocorreu enquanto lia sobre política. Não que a política atraia insetos.
Era, ou é, uma tarde calorenta – e por isso os insetos. Devo reforçar que os insetos nada têm a ver com políticas… Eles talvez sejam mais limpos empiricamente. Teoricamente são grotescos, admito.
Também, ao momento, saboreava meu café; quatro colheres de pó, duas de açúcar não muito cheias. Forte, não tão amargo, funcional. Esperava algum telefonema com notícias boas ou ruins ou uma guerra… Enquanto isso, lia o jornal galáctico.
Caro viajante, por favor note: por “jornal galáctico”, não me refiro à ficção científica. Refiro-me à trilha sonora.
A janela estava aberta, posto o calor que se fazia gradiente – pela fenestra, entrou ele, o famigerado inseto saltador. Saí da política e dos partidos, fui-me à incerteza metafísica.
Contemplei o inseto, forçosamente – queria, na verdade, sua extinção do meu ambiente calmo. Percebi um análogo interessante. O grilo era absurdamente rápido, e pulava. Cada pedaço de caos vazio entre móveis poderia ser uma morada nova por um infinitésimo de tempo. Talvez o grilo existisse em todos os lugares, ao mesmo tempo, mas minha ferramenta de pão só consegue visualizá-lo ponto a ponto, nunca em sua obra completa.
Corri-me ao corredor, a fim de me apossar da lata vermelha. Infelizmente, veneno de nada adiantaria. Poderia jogar em todos os cantos, o grilo sempre acharia algum espaço novo.
Incômodo PT. I
O telefone toca, e não é a voz que eu gostaria de ouvir. Não é uma voz desagradável, isso seria injusto da parte de quem conta a história. Mas, por algum motivo, há um cutucão – a mediana é diferente da média.
Estatísticas são números e nomes – vida talvez seja algo além.
Parei ao grilo. Veneno; joguei um pouco dele, mas nada capturei. Assim funcionam muitos dos captadores de átomos, creio eu, embora não os conheça a fundo. O máximo que pude fazer, e assim é o máximo que podem fazer os tão respeitosos cientistas entre aspas – abrir as janelas e esperar que o grilo saia por si só, a fim de atingir uma estabilidade.
O grilo dentro do quarto simbolizou uma interrupção de minha leitura, de meu café e de minha música. Um barulho a mais, uma energia além do que estou acostumado ou do que esperaria numa tarde ensolarada. Coloquemos o inseto como perturbador de minha estabilidade. Pulando por todos os lados ao mesmo tempo, infinitamente rápido (para os padrões); talvez o grilo interagindo com o sistema novo tenha feito o telefone tocar, a campainha disparar e, quem sabe, tenha causado toda uma tempestade em algum lugar de algum continente longínquo – talvez até na Nova Zelândia.
Incômodo PT. II
Novíssimo Mundo – e é assim que me foi apresentado no livro de geografia. Os geógrafos caem do céu, resolvi pensar. Certa vez, ouvi dizer que não se trata de decorar capitais de países ou estados ou adjetivâncias assim.
Existem lugares tão despreparados para neologismos e idéias novas – existem lugares abertos onde as janelas estão todas fechadas.
Amar é diferente de possuir completamente. Pessoas não são objetos. Rochas o são.
Rochas ígneas podem até ser interessantes… Pode-se roubar uma delas e colocar num vaso.
Pode ser interpretado como crônica, embora heterodoxa. Em carta ao prefeito da metrópole, diria que a desigualdade social não tem necessariamente a ver com a taxa de pobreza.
Para que não fique demasiadamente grande, e meu café já acabou há um tempo, gostaria de pedir um pouco mais de ação ao prefeito. Os rios estão um pouco sujos, pude sentir um tanto do odor desagradável deles hoje, andando pela marginal principal. O tratamento de esgoto deve ser melhorado, assim como a educação.
Não posso dizer imparcialmente, mas, em minha humilde opinião, a educação é fraca, e tal fraqueza se reflete como num espelho de alumínio.
Neste momento o grilo sai do quarto, e a estabilidade volta. Assim também volta a se materializar o papel, e assim também voltarei a ler os artigos e as notícias…
Já que o café acabou, tomarei água.
Incômodo PT. III
Não se pode definir um sistema pelo comportamento isolado de indivíduos em exceção. É quase como definir a matemática por uma indeterminação – e a matemática não é tão indeterminada quanto parece.
De qualquer forma, todo sistema tem regras, e, em aspectos palpáveis, inúmeras exceções. É um pseudocírculo de raios – Busque o discernimento, ou então se acostume a dormir com os pés descobertos quando se cobre a cabeça.